segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Manoel de Barros - Uma lembrança inesquecível...

Manoel de Barros - Uma lembrança inesquecível...

Manoel de Barros defronte a sua casa em Campo Grande/MS.

Quando eu tinha dezessete anos inventei conhecer Manoel de Barros. Não sabia a dimensão do homem que encontraria, tampouco do poeta gigante que ele era. Aliás, quase o Brasil inteiro ainda o desconhecia. Falo de 1984.

Embora nascido e criado em Mato Grosso do Sul, eu o conhecia de maneira diluída, assim como muitos potiguares conhecem Câmara Cascudo, Nísia Floresta, Antônio de Souza, Otacílio Alecrim e tantos outros grandes nomes de sua terra. A grandeza, às vezes, mora ao lado da gente sem fazer barulho.

Naquela época, o máximo que eu me distanciava de casa eram uns trinta quilômetros. Campo Grande ficava a quase quatrocentos. Mesmo assim fui.

Desde que me dei por gente, os livros me apeteciam. Sempre fui enfronhado com eles. Cresci entre os Irmãos Grimm, Andersen, Esopo, Pedro Malasartes e tantos outros clássicos da literatura infantil e juvenil, brasileira e universal. Talvez tenha sido ali que a palavra começou a me adoecer de um jeito bom.

Essa convivência com a literatura despertou em mim uma vontade quase incontrolável de escrever poemas e histórias, ainda que não soubesse fazê-lo segundo os rigores da língua portuguesa. Eu sempre fui obediente aos sentimentos. Queria escrever sobre tudo. Era quase uma doença. Eu queria escrever, mesmo sem saber escrever.

Certo dia houve um evento público em minha cidade. Entre os convidados estava Iracema Sampaio, fundadora da famosa revista Executivo Pluss, publicação cultural de grande circulação em Campo Grande e em diversas cidades sul-mato-grossenses. Décadas antes ela havia sido a primeira professora da cidade onde nasci e, de tempos em tempos, voltava para rever antigos alunos que já eram avós.

Aproveitei sua presença e lhe mostrei meus escritos. Ela os leu com atenção, disse que eu tinha talento, mas precisava lapidá-lo. Pediu que eu lhe enviasse os poemas. Assim fiz. Mandei-lhe um verdadeiro calhamaço. Dias depois recebi sua resposta, composta por uma frase que jamais esqueci:

- Você precisa conhecer Manoel de Barros.

A partir daquele momento nasceu uma ideia fixa.

Por intermédio de dona Nelly Barbosa Martins, esposa do governador Wilson Barbosa Martins - tio da madrinha de um dos meus irmãos - consegui o endereço do poeta. Eles tinham parentes em minha cidade. Ênio Martins, irmão do governador, casado com dona Diva Câmara Martins, era compadre de meus pais. As coincidências da vida, às vezes, parecem preparar silenciosamente nossos caminhos.

Sempre fui muito curioso pelos lugares desconhecidos. Bastava ouvir dizer que existia um rio diferente, uma fazenda cercada de histórias, uma casa antiga ou qualquer canto capaz de despertar minha imaginação, lá ia eu. Às vezes a pé, outras de bicicleta, outras de ônibus. Minha mãe, não raro, era surpreendida por minhas aventuras. Eu desaparecia durante um dia inteiro, às vezes dois, e depois voltava cheio de histórias para contar e de explicações para dar.

A paixão pela numismática e pela filatelia servia de excelente desculpa para essas expedições. Percorria cidades, sítios e fazendas procurando moedas antigas, selos raros e objetos esquecidos pelo tempo. Bastava alguém dizer que numa determinada casa morava uma pessoa idosa guardando alguma relíquia, e eu logo aparecia disposto a negociar.

Foi esse mesmo espírito aventureiro que me levou à casa de Manoel de Barros.

Viajei cerca de quatro horas pela Viação Motta. Cheguei a Campo Grande ainda pela manhã. Recordo-me de que, por volta das nove horas, eu já estava diante da casa daquele extraordinário colecionador de frases.

No mesmo instante em que eu chegava, estacionou uma caminhonete Chevrolet C-10. Um rapaz desceu carregando algumas coisas da carroceria. Perguntei-lhe se ali morava Manoel de Barros.

Ele sorriu e respondeu que era filho dele. Chamava-se João Venceslau e acabara de chegar da fazenda.

Convidou-me a entrar.

Mal atravessamos a varanda, surgiu um senhor de cabelos grisalhos, óculos, calça de tergal bege e camisa branca.

João apresentou-me.

Manoel perguntou imediatamente se eu era estudante.

Respondi que sim.

Depois quis saber de onde eu vinha.

Quando lhe disse o nome da minha cidade, demonstrou sincera surpresa por eu ter viajado tão longe apenas para conhecê-lo.

Expliquei que gostava de escrever, que havia mostrado meus poemas à sua amiga Iracema Sampaio e que ela me aconselhara a procurá-lo.

Enquanto falava, retirei da pasta o grosso maço de poemas e o entreguei.

Hoje não sei dizer se fui ousado ou apenas ingênuo. Talvez as duas coisas.

Percebi que ele me olhava profundamente, mas sem qualquer afetação. Ouviu tudo com atenção. Falou com carinho de Iracema, elogiando-a, e isso imediatamente me deixou mais tranquilo. Se ela era querida por ele, eu já não me sentia completamente estranho naquela casa.

Enquanto João continuava descarregando a caminhonete, Manoel pediu que eu me sentasse à mesa da sala.

Dona Estela apareceu.

Ele pediu que me servissem café com leite, pão, queijo e frutas.

Fiquei impressionado com tamanha simplicidade.

Enquanto eu tomava café, ele mergulhou na leitura dos meus manuscritos.

Durante uns vinte minutos percorreu atentamente aquelas folhas escritas a grafite.

Ao terminar, levantou os olhos e disse:

- Você é um poeta em desenvolvimento. Tem talento. Continue escrevendo. Escreva sempre e leia muito, porque quem vai lhe ensinar é livro. Leia os poetas brasileiros, leia Padre Vieira, leia poetas de outros países. Leia tudo o que puder. Observe as coisas e tente escrever sobre o que você vê. Sobre tudo o que vê.

Perguntou quais autores eu conhecia. Comentou alguns poemas, sugeriu mudanças em outros e me fez perguntas sobre minhas leituras.

Conversamos durante horas.

Mostrou-me manuscritos escritos de próprio punho, pequenos livros artesanais confeccionados por ele mesmo. Deixou-me conhecer sua biblioteca. Falamos sobre literatura, poesia, leitura e sobre a difícil tarefa de escrever.

Em nenhum momento assumiu a postura do mestre inalcançável. Ao contrário, parecia diminuir a própria estatura para conversar de igual para igual com um rapaz que apenas sonhava ser escritor.

Em determinado momento disse uma frase que jamais esqueci:

- Eu me sinto desonrado quando publico um livro. Escrever tem disso. E me escondo por um bom tempo.

Naquele instante não compreendi inteiramente o que queria dizer.

Somente anos depois passei a entender que talvez falasse da distância entre o livro ideal e o livro possível, entre aquilo que o escritor sonha e aquilo que finalmente entrega ao leitor. Ou, quem sabe, do pudor que alguns grandes artistas experimentam ao expor ao mundo uma obra que sabem sempre inacabada.

Curiosamente, aquela resposta me tranquilizou.

Se um poeta daquela grandeza também experimentava dúvidas diante da própria obra, talvez a insegurança fosse menos um defeito do que parte inevitável do ofício.

Hoje penso que aquela manhã me ensinou tanto sobre literatura quanto sobre humildade.

Saí dali levando muito mais do que sugestões para meus poemas.

Levei a lembrança de um homem cuja genialidade jamais precisou fazer barulho.

Retornei outras duas vezes.

Depois que me mudei para o Rio Grande do Norte, continuei acompanhando sua trajetória, lendo seus livros e celebrando cada reconhecimento que finalmente o Brasil lhe concedia. Nas vezes em que voltei ao Mato Grosso do Sul já não consegui reencontrá-lo. Pouco tempo depois, camainhando para cem anos de idade, ele morreu.

Manoel de Barros foi, sem exagero, a maior experiência literária da minha vida. Minha fonte permanente de inspiração.

Em junho de 2019 retornei ao Mato Grosso do Sul por uma razão dolorosa: meu pai havia falecido.

Alguns dias depois do enterro resolvi esticar a viagem até Campo Grande para visitar dona Estela, viúva de Manoel de Barros. Ela se aproximava dos cem anos. Havia acabado de chegar de uma clínica e estava muito cansada. O cuidador pediu-me inúmeras desculpas por não poder recebê-lo.

Compreendi perfeitamente.

Voltei em silêncio.

Aquela foi a última benção que recebi dos ares manoelinos...



Em junho de 2019 fui ao Mato Grosso do Sul. Meu pai faleceu. Alguns dias após o enterro me estirei até Campo Grande e fui visitar dona Estela, viúva de Manoel de Barros, a qual caminha para cem anos. Ela havia acabado de chegar de uma clínica e estava muito cansada. O cuidador pediu milhares de desculpas. Compreendi. Foi o meu último contato com os ares manoelinos.



 Casa de Manoel de Barros, na Rua Piratininga, em Campo Grande/MS.









 Manoel de Barros em escultura de Bronze na Avenida Afonso Pena - Campo Grande/MS.



 

 
 




 

 
 Minha sobrinha Beatriz me acompanhou

Trans Pantaneira - Minha irmã Regina
Meu sobrinho Ricardo junto a escultura de Manoel de Barros em Campo Grande/MS
Essa fotografia é recente.







Dona Helena, uma pantaneira com o seu tererê










































































































2 comentários:

  1. Felinto Gadelha Segundo28 de maio de 2019 às 20:39

    Amigo e Mestre Luis Carlos Freire, as lembranças que você tem sobre Manoel de Barros se eternizam na alma e transpassa para a vida dos mortais, seu texto traz uma lembrança que não se esquece... Obrigado por fazer esse registro vivo do nosso Amável poeta Manoel de Barros.
    "Todos os caminhos - nenhum caminho
    Muitos caminhos - nenhum caminho
    Nenhum caminho - a maldição dos poetas"
    (O Guardador de Águas - Manoel de Barros)

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    1. Caríssimo amigo Felinto, obrigado por suas palavras amáveis,e tendo a surpresa de, assim como "o descobridor de amanhãs", ter descoberto você, doutorando que trabalha Manoel de Barros é indesritível. Manoel de Barros nos uniu através da Literatura. Isso não tem preço. Muito obrigado por sua amizade!

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