segunda-feira, 15 de junho de 2026

A HISTÓRIA, AS MÁSCARAS E O TEMPO

Capa do livro, que, inclusive, o adquiri

Em 1998, durante o lançamento do livro Ana Jansen, realizado no Centro de Convivência da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e que participei, a escritora maranhense Rita Ribeiro revelou um fato curioso e revelador: sua obra havia provocado profundo desconforto em determinadas autoridades e em algumas famílias tradicionais do Maranhão. O motivo era simples. O livro resultava de extensa pesquisa documental e, ao reconstruir a trajetória de Ana Jansen, a autora precisou contextualizar personagens, acontecimentos e relações de poder de sua época.

Foi justamente nesse paciente trabalho de investigação que surgiram as contradições. À medida que examinava manuscritos antigos, correspondências, registros oficiais e documentos esquecidos em arquivos, Rita Ribeiro percebeu que muitas das figuras celebradas pela historiografia tradicional não correspondiam à imagem gloriosa construída ao longo das gerações. Aquilo que os livros apresentavam como verdade incontestável nem sempre encontrava sustentação nas fontes prim´rias.

Esse fenômeno está longe de ser excepcional. Pelo contrário, constitui uma das grandes preocupações da historiografia contemporânea. Desde as transformações promovidas pela Escola dos Annales, sobretudo a partir dasreflexões de Marc Bloch e Lucien Febvre, os historiadores passaram a compreender que a História não é um relato pronto e acabado, mas uma construção permanente, sujeita a revisões, questionamentos e novas interpretações. Mais tarde, autores como Jacques Le Goff, Pierre Nora, Roger Chartier e Carlo Ginzburg aprofundaram esse olhar crítico, demonstrando que a memória coletiva frequentemente produz mitos, silencios e distorções que acabam incorporados ao discurso histórico.

Ao exercer sua paleografia, Rita Ribeiro literalmente espanava a poeira acumulada sobre documentos fechados durante décadas ou mesmo séculos. E, como se despertassem de um longo sono, personagens esquecidos e histórias incômodas emergiam dos papéis amarelados. O resultado era perturbador: indivíduos retratados como heróis apareciam envolvidos em práticas condenáveis; figuras reverenciadas revelavam facetas autoritárias; homens considerados modelos de virtude surgiam associados a episódios pouco edificantes.

Ironicamente, muitos desses personagens continuavam eternizados em nomes de ruas, praças, escolas, bibliotecas, edifícios públicos, monumentos e instituições. Alguns davam nome até mesmo a importantes órgãos do Estado. Entretanto, os documentos revelavam trajetórias muito mais complexas do que aquelas transmitidas pela tradição oficial.

Naturalmente, a divulgação dessas descobertas provocou reações. Conforme relatou a própria autora, houve tentativas de dificultar ou desacreditar seu trabalho. Afinal, determinadas famílias sabiam que seus antepassados, transformados em “figuras notáveis” pela narrativa tradicional, poderiam ter suas máscaras removidas diante das evidências documentais.

O episódio vivido por Rita Ribeiro ilustra um fenômeno recorrente na História do Brasil. Ao longo dos séculos, inúmeros acontecimentos foram romantizados, embelezados, simplificados ou deliberadamente modificados. Muitas vezes isso ocorreu para agradar grupos dominantes, fortalecer interesses políticos, legitimar famílias influentes ou construir versões convenientes do passado.

A historiografia tradicional, sobretudo aquela produzida durante o século XIX e boa parte do século XX, valorizava grandes homens, feitos heroicos e narrativas patrióticas. Já a Nova História passou a investigar também os esquecidos, os anônimos, os marginalizados e os silenciados pelos documentos oficiais. Em vez de perguntar apenas quem governou, passou a perguntar quem foi excluído. Em vez de estudar apenas os vencedores, voltou-se também para os vencidos.

Por essa razão, muitos fatos foram recuperados e muitas versões precisaram ser revistas. A História deixou de ser exclusivamente a narrativa dos poderosos para tornar-se, gradualmente, uma investigação sobre as múltiplas experiências humanas. Durante muito tempo, quem escrevia a História eram os grupos que detinham o poder político, econômico e cultural. O povo comum raramente tinha acesso à escrita, à publicação ou aos meios de preservação documental. Consequentemente, os registros oficiais frequentemente refletiam os interesses das elites. Isso não significa que tudo fosse mentira, mas que a verdade aparecia misturada a exageros, omissões, engrandecimentos e conveniências.

Por isso a pesquisa histórica exige permanente confronto entre fontes, documentos e testemunhos. Nenhum documento fala sozinho. Nenhuma versão deve ser aceita sem questionamento. Como ensinava Marc Bloch, o historiador deve agir como um investigador que interroga os vestígios do passado. Apesar de toda a engenhosidade empregada na construção de determinadas narrativas, seus arquitetos frequentemente esqueceram um elemento fundamental: o tempo. O tempo transforma arquivos privados em documentos públicos. O tempo abre coleções antes inacessíveis. O tempo permite que novas gerações façam perguntas diferentes daquelas formuladas por seus antecessores.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Durante anos li textos e ouvi relatos sobre um cidadão apresentado como o primeiro intendente de uma determinada vila que posteriormente se transformou em município. Segundo a tradição local, ele teria governado durante quase meio s´culo e exercido papel exemplar na administração pública. Entretanto, ao consultar documentos primários, constatei que a realidade era muito diferente. Não havia sido o primeiro intendente, não governara durante tanto tempo e sua atuaçãoo política estava longe da imagem benevolente transmitida pela memória coletiva. Pelo contrário, surgiam indícios de práticas autoritárias e perseguições contra adversários e até mesmo uso de cartucheras para receber possíveis adversários políticos.

O resultado foi previsível. Certo dia encontrei um neto desse personagem histórico, pessoa que sempre me tratara com cordialidade. A partir do momento em que divulguei as descobertas documentais, passei a ser tratado como um estranho. Tornei-me, aos olhos dele, um inimigo. Não por ter inventado algo, mas por ter revelado o que os documentos mostravam.

Vivemos atualmente um período em que diversos países revisitam seus passados. Monumentos são questionados, homenagens são reavaliadas e antigas narrativas são submetidas ao escrutínio público. Em alguns lugares, estátuas foram derrubadas ou destruídas. Particularmente, considero mais produtivo contextualizar do que apagar. Um monumento pode permanecer onde está, desde que acompanhado de informações históricas corretas. O problema não é lembrar. O problema é lembrar errado.

As novas gerações precisam conhecer tanto as grandezas quanto as misérias do passado. Uma sociedade madura não constrói sua identidade apenas sobre heróis; constrói também sobre o reconhecimento dos erros, das injustiças e das contradições. Entretanto, esse novo olhar sobre a Hist´ria exige honestidade intelectual. Nem toda desconstrução é legítima. Nem toda denúncia é verdadeira. A revisão histórica precisa apoiar-se em evidências sólidas, documentos confiáveis e métodos rigorosos. Foi exatamente isso que Rita Ribeiro fez. Seu objetivo não era atacar famílias ou destruir reputações gratuitamente. Seu compromisso era com os fatos.

A História é feita dessas nuances. Às vezes as manipulações são grosseiras; outras vezes são sutis. Um exemplo frequentemente citado refere-se à divulgação da morte de Tancredo Neves, anunciada oficialmente em 21 de abril de 1985, mesma data dedicada a Tiradentes. A coincidência produzia forte efeito simbólico, aproximando duas figuras de grande relevância nacional. Independentemente das circunstâncias específicas daquele episódio, ele demonstra como datas símbolos e narrativas podem adquirir significados políticos e emocionais que ultrapassam os fatos em si.

Por isso, considero uma perda de tempo quando descendentes de personagens históricos se revoltam contra pesquisas fundamentadas. Os documentos permanecem. As fotografias permanecem. Os registros permanecem. As gerações passam; as fontes continuam. Mais cedo ou mais tarde surgirão novos pesquisadores, novas perguntas e novas interpretações. E, como aconteceu com Rita Ribeiro, as máscaras eventualmente cairão. Não por perseguição, mas porque a História, quando praticada com rigor e honestidade, possui uma extraordinária capacidade de aproximar-se da verdade possível.

Talvez essa seja uma das maiores lições da Nova História: compreender que o passado não pertence aos poderosos, aos governantes ou aos herdeiros de sobrenomes ilustres. O passado pertence à sociedade. E, por isso mesmo, deve permanecer permanentemente aberto à investigação, ao debate e à revisão crítica. 30.4.2023.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

BIOGRAFIA DE ISMAEL DUMANG...

 


Cantor, compositor, poeta, cordelista e agente cultural, Ismael Dumang é reconhecido como um dos mais autênticos representantes da música autoral do Rio Grande do Norte. Nascido em 5 de novembro de 1960, no município de São José de Mipibu, filho de Raimundo Nonato de Araújo e Emygdia Alves de Araújo, teve suas origens ligadas ao Sítio Quebra Fuzil, ambiente marcado pela presença dos antigos engenhos, pelas tradições populares e pela forte identidade cultural do interior potiguar. Criado posteriormente no centro de São José de Mipibu por sua mãe adotiva, cresceu em meio às manifestações populares, às celebrações religiosas e à intensa musicalidade presente no cotidiano da cidade. 

1996

O rádio, os alto-falantes espalhados pelas ruas, as radiolas e as canções que ecoavam pelas casas foram decisivos em sua formação artística. Desde cedo, absorveu influências dos hinos da Harpa Cristã, da música sertaneja e romântica e de artistas como Roberto Carlos e Sérgio Reis. Mais tarde, aproximou-se da obra de compositores como Belchior, Fagner e Alceu Valença, referências fundamentais para a construção de sua identidade musical e de sua compreensão da canção como expressão poética e instrumento de reflexão humana.

A religiosidade exerceu papel importante em sua formação. Durante parte da juventude participou das atividades da Assembleia de Deus, experiência que contribuiu para desenvolver a sensibilidade melódica, a dramaticidade narrativa e a intensidade emocional presentes em sua obra. Nos primeiros anos da década de 1980 iniciou sua trajetória artística de maneira mais efetiva, participando de apresentações em eventos populares e festividades locais. Ainda jovem, recebeu seu primeiro cachê durante o carnaval de São José de Mipibu, episódio que simboliza o início de sua caminhada profissional na música.

1999

Em 1983, mudou-se para o município de Parnamirim, cidade onde consolidaria sua carreira artística e desenvolveria grande parte de sua atuação cultural. Na “Terra de Manoel Machado”, integrou a banda Natureza, atuando como baixista em apresentações realizadas em diversas cidades do Rio Grande do Norte. A experiência ampliou seus conhecimentos musicais e fortaleceu sua presença nos palcos. Posteriormente, aprofundou seus estudos de música, dedicando-se ao aprendizado do cavaquinho, da flauta doce e, sobretudo, da composição autoral, área na qual encontraria sua principal forma de expressão.

Um dos aspectos mais importantes de sua trajetória foi o aprofundamento nos estudos da literatura de cordel e das formas poéticas dos repentistas nordestinos. O domínio da métrica, da rima e da musicalidade dos versos tornou-se uma das marcas de sua produção artística. Suas composições apresentam forte elaboração literária sem perder a simplicidade comunicativa característica da canção popular nordestina. Em sua obra, letra e melodia surgem de forma integrada, revelando uma escrita musical refinada e profundamente ligada à tradição dos poetas populares. Sua produção estabelece uma ponte entre o cancioneiro nordestino e a moderna música popular brasileira, preservando identidade própria marcada pela valorização das raízes culturais, da memória afetiva e da autenticidade artística.

2003

Ao longo da carreira, Ismael Dumang consolidou-se como compositor de rara sensibilidade. Suas canções abordam temas como pertencimento, saudade, infância, fé, amor e identidade cultural, transformando experiências pessoais em mensagens universais. Em suas letras permanecem vivas as lembranças dos engenhos, das igrejas, das ruas de São José de Mipibu e das paisagens humanas do interior potiguar. Sua obra distingue-se pelo rigor na escolha das palavras, pela riqueza poética e pela profunda musicalidade dos versos.

A maturidade artística alcançada ao longo dos anos pode ser observada em sua vasta produção fonográfica. Em 1996 lançou o álbum Estação do Sonho, trabalho que marcou uma etapa importante de afirmação de sua linguagem autoral. Três anos depois, em 1999, apresentou Terra de Engenho, obra profundamente inspirada nas memórias da zona canavieira, nos engenhos e nas paisagens humanas do interior potiguar. Em 2003 lançou Astro de Quimera, ampliando o alcance poético de sua produção musical.

2004

No ano de 2004 veio a público o álbum Vivências, considerado um dos trabalhos mais representativos de sua trajetória. O próprio título sugere uma síntese de experiências humanas, afetivas e existenciais acumuladas ao longo da vida. O disco reúne as canções Vivências, Amo-te, A Ilusão da Vida, O Tempo da Canção, Fome, Frustrações, Pretensões, Poética, Queixumes, Prisioneiro, Tributo às Bicicletas, As Bem-Aventuranças, Saudade (instrumental) e Epílogo. O repertório oferece uma verdadeira janela para o universo criativo de Ismael Dumang, revelando reflexões sobre o amor, o tempo, os sonhos, as limitações humanas, as inquietações sociais e os dilemas da existência. Trata-se de um álbum em que o compositor expõe com maior clareza sua dimensão filosófica, sua sensibilidade poética e sua capacidade de transformar experiências cotidianas em arte.

2006

Dando continuidade à sua produção, lançou Palavras em 2006, reafirmando a importância da literatura e da poesia em seu processo criativo. Em 2008 apresentou Navegante, obra marcada pela simbologia das travessias humanas, dos encontros e dos caminhos percorridos ao longo da vida. No ano seguinte, em 2009, lançou Enigma das Estações, álbum que dialoga com as transformações do tempo, da natureza e da própria condição humana.

2008

Após um período dedicado a novas composições e projetos culturais, Ismael Dumang retornou à discografia com Cocada Sambótica, lançado em 2021, trabalho que evidencia sua permanente capacidade de renovação artística sem abrir mão de suas raízes culturais. Em 2023 apresentou Implacável Tempo, obra que aprofunda reflexões sobre a passagem dos anos, a memória, os afetos e a condição humana diante da inevitabilidade do tempo. Já em 2026 lançou Floresta Voraz, álbum que simboliza um novo momento de maturidade criativa, reafirmando a vitalidade de sua produção artística e sua permanente disposição para criar, renovar-se e dialogar com o público.

2009

Entre as composições associadas à sua produção artística destacam-se Terra de Engenhos, Lua de Céu-Sertão (Lua Mariana), O Canavial Invasor, Represa, Galope da Sabedoria, Sou, Barreta, O Preço de um Homem e O Velho Chico, obras que evidenciam sua forte ligação com a poesia, a memória nordestina e a valorização das experiências humanas.

2021

Além da carreira musical, desenvolveu importante atuação como cordelista, poeta e agente cultural. Participou de projetos promovidos pela Fundação Parnamirim de Cultura e contribuiu para iniciativas voltadas ao fortalecimento da produção artística local. Destaca-se sua participação no espetáculo Asas da História, de autoria de Makários Maia, para o qual compôs parte significativa da trilha sonora em uma de suas versões. Também participou de apresentações virtuais durante o período da pandemia e marcou presença em festivais, mostras de música autoral e eventos realizados em importantes espaços culturais do estado, incluindo o Teatro Alberto Maranhão.

2023

Mesmo após mais de quatro décadas de trajetória artística, Ismael Dumang permanece em plena atividade. Em 2024 participou de um especial musical ao lado do músico potiguar Almir Padilha, reafirmando sua presença constante na cena cultural do estado. Atualmente encontra-se em fase avançada de produção de um novo álbum autoral, projeto que deverá reunir composições inéditas e cuja previsão de lançamento está programada para o ano de 2027.

Floresta Voraz - 2026

Reconhecido pela coerência de sua obra e pela independência de sua criação artística, Ismael Dumang sempre manteve distância dos modismos passageiros e das imposições mercadológicas. Sua música caracteriza-se pela autenticidade, pela profundidade poética e pelo respeito às tradições culturais nordestinas. Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, consolidou-se como uma das vozes mais expressivas da música autoral do Rio Grande do Norte. Seu legado artístico, construído com sensibilidade, coerência e profundo respeito à cultura popular, contribui significativamente para o fortalecimento da identidade cultural de Parnamirim, de São José de Mipibu e de todo o estado do Rio Grande do Norte, tornando-o merecedor do reconhecimento público por sua relevante contribuição à música e à cultura potiguar.