domingo, 30 de março de 2025

A MENINA E O GOLPE MILITAR DE 1964...

Alysgardênia de F. C. M. P. Freire

Memórias de Alysgardênia de Fátima C. M. P. F. durante o Golpe Militar de 1964...

Na tarde de 2 de abril de 1964, enquanto João Pessoa vivia uma das maiores manifestações políticas de sua história, minha esposa Alysgardênia, então com cinco anos de idade, saía do Colégio Lins de Vasconcelos, sem imaginar que sua infância seria atravessada pelos acontecimentos daquele dia. Mais de seis décadas se passaram, mas a lembrança daquele dia continua viva, gravada na memória de minha esposa, Alysgardênia, como um eco distante de um dos períodos mais sombrios da história do Brasil.

O que relato aqui não é fruto de pesquisa acadêmica nem de documentos oficiais. É, antes de tudo, uma memória preservada dentro de uma família. Ouvi essa história incontáveis vezes ao longo da vida. Sempre que Alysgardênia a recorda, sua voz muda de tom e seus olhos se enchem de emoção. Com sua autorização, decidi registrá-la para que não se perca com o tempo. Talvez seja apenas um pequeno episódio diante da imensidão da História. Mas, para quem o viveu, foi um daqueles momentos em que a vida de pessoas comuns se cruza, inesperadamente, com os grandes acontecimentos de um país.

Palácio da Redenção (Palácio do Governo), João Pessoa, PB, onde elas se protegeram.

Naquela época, Alysgardênia tinha apenas cinco anos de idade. Sua irmã, Geuma, quatro. A mãe das duas, Dona Maria J. Albuquerque M., seguia a rotina de todos os dias. Caminhava até o Colégio Lins de Vasconcelos, localizado na então Praça dos Três Poderes, no coração de João Pessoa, para buscar as filhas ao término das aulas. A praça era o centro político da capital paraibana. Ali estavam o Palácio da Redenção, sede do Governo do Estado, o Tribunal de Justiça e a Assembleia Legislativa. Era um lugar de intenso movimento, mas também de convivência. Nos dias de tempo bom, Dona Maria transformava aquela obrigação cotidiana em um pequeno passeio. Depois da escola, levava as meninas para tomar sorvete. Em seguida, sentavam-se nos bancos de ferro sob a grande figueira que sombreava a praça, dividindo pipocas, risadas e a despreocupação própria da infância.

Maria tinha ainda um hábito pouco comum para a época: gostava de fotografar os momentos simples da família, característica que gerou uma infinidade de álbuns fotográficos que restaram para contar muitas histórias, inclusive essa. Graças a isso, sobreviveram imagens daquele mesmo dia, registros feitos poucas horas antes de a rotina ser abruptamente interrompida por acontecimentos que marcariam para sempre a vida daquelas três pessoas. Foi justamente naquele dia que o destino resolveu interromper a rotina.

Ao deixarem o colégio e seguirem em direção à praça, mãe e filhas foram surpreendidas por uma cena que jamais esqueceriam. Em poucos instantes, aquele lugar onde, tantas vezes, haviam tomado sorvete e alimentado os pombos transformou-se no centro de uma convulsão política. Uma multidão ocupava a praça. Homens e mulheres gritavam palavras de ordem, protestando contra o golpe militar que acabara de derrubar o presidente João Goulart e mergulhara o país numa grave crise política. Em meio ao tumulto, um caixão ardia em chamas, simbolizando, segundo muitos manifestantes, o enterro da democracia. O barulho era ensurdecedor. Explosões, vidraças se quebravam, objetos eram lançados contra os prédios públicos, pessoas corriam em todas as direções e, para uma criança de cinco anos, tudo parecia o início de uma guerra.

Dona Maria J. com as filhas Geuma (à esquerda) e Alysgardênia no fatídico dia que em João Pessoa estourou a Ditadura Militar, no mês de abril de 1964.

Alysgardênia e Geuma agarraram-se à mãe, chorando. Dona Maria Jose, tomada pelo medo, tentava compreender o que acontecia ao redor enquanto procurava uma forma de proteger as filhas. Foi então que surgiu um homem usando o uniforme de funcionário do Palácio da Redenção. Percebendo o desespero daquela jovem mãe e o risco que corriam em meio à multidão, aproximou-se rapidamente, identificou-se e pediu que o acompanhassem sem demora. As portas do Palácio foram fechadas logo depois que entraram.

Mesmo protegidas, a sensação de segurança nunca chegou. O funcionário conduziu as três para o amplo saguão de entrada e orientou que permanecessem abaixadas atrás de um dos sofás. Dali ouviam tiros, gritos, sirenes e a movimentação intensa do lado de fora. O tempo parecia não passar. Para Alysgardênia, aquela lembrança permanece congelada como uma sucessão de sons e imagens desconexas: o choro da irmã, o rosto apreensivo da mãe, o silêncio imposto pelo medo e a impressão de que algo muito grave estava acontecendo.

Depois de um longo período – que na memória de uma criança pareceu interminável –, o mesmo funcionário voltou. Conduziu as três pelos corredores laterais do edifício até uma saída nos fundos do Palácio, onde conseguiu um táxi e pediu ao motorista que as levasse imediatamente para casa. Nunca souberam o nome daquele homem. Para Alysgardênia, porém, ele permaneceu para sempre como um anjo anônimo que apareceu na hora exata.

Dona Maria J. com as filhas Geuma (à esquerda) e Alysgardênia no fatídico dia que em João Pessoa estourou a Ditadura Militar, no mês de abril de 1964.

O caminho de volta revelou uma cidade irreconhecível. Lojas fechavam as portas às pressas, pessoas corriam assustadas pelas ruas e viaturas da Polícia Militar, acompanhadas por soldados do Exército, patrulhavam o centro de João Pessoa. Em casa, encontraram o Sr. Gustavo M., marido de Dona Maria José e pai das meninas, vivendo sua própria angústia. Pelo rádio, acompanhava as notícias que chegavam em edições extraordinárias e já se preparava para sair à procura da família quando, finalmente, viu as três entrarem pela porta. O alívio daquele reencontro nunca mais seria esquecido.

Somente com o passar dos anos compreenderam a dimensão do que haviam presenciado. Naquela tarde, sem que pudessem imaginar cruzaram o caminho de um dos acontecimentos mais decisivos da história brasileira. O país iniciava um regime de exceção que permaneceria por vinte e um anos. Em nome do eu alegavam ser o combate ao comunismo e da defesa da ordem (exatamente igual ao que muitos alegam atualmente), instalou-se um governo que concentrou poderes, restringiu liberdades, censurou a imprensa, perseguiu opositores e deixou um rastro de prisões arbitrárias, torturas, mortes e desaparecimentos. E por falar no presente, o que mais tem sido ouvido atualmente é o tal comunismo alardeado como um lobisomem, um bicho papão, um homem do saco atrás de fazer um grande mal que nunca fizeram e nem o farão no Brasil, pois é somente fantasia criada como projeto político extremista, que usa Deus, patriotismo e valores familiares apenas de fachada.

Dona Maria José com a filha Alysgardênia no fatídico dia que em João Pessoa estourou a Ditadura Militar, no mês de abril de 1964.

As consequências daquele período não ficaram apenas nos livros de História. Também alcançaram o cotidiano da família. Já adolescente, Alysgardênia recorda-se das conversas reservadas entre seus pais. Naqueles tempos, certos assuntos eram tratados em voz baixa, longe dos filhos e até mesmo das janelas abertas. Entre essas lembranças, uma sempre a impressionou. Uma jovem universitária, conhecida da família e moradora de um quarteirão próximo, participava do movimento estudantil da Universidade Federal da Paraíba. Certo dia desapareceu. Comentava-se que havia sido levada por agentes do regime por ser considerada uma "subversiva", expressão usada na época para designar aqueles que se opunham ao governo militar. Nunca mais voltou. Durante anos, seus pais acompanharam o sofrimento daquela família, que envelheceu esperando por notícias da filha sem jamais encontrá-la.

O pai de Alysgardênia também comentava sobre um homem desconhecido que aparecia de tempos em tempos pelo bairro. Frequentava bares, lanchonetes, jogos de futebol e rodas de conversa. Falava pouco. Ouvia muito. Muitos acreditavam tratar-se de um militar à paissana ligado aos órgãos de repressão, alguém encarregado de observar pessoas, identificar opositores e repassar informações às autoridades. Era impossível saber ao certo quem era ou quantos outros existiam. Mas bastava a suspeita para que o medo impusesse silêncio.

O episódio vivido na infância nunca deixou Alysgardênia. Ainda hoje, ao relembrá-lo, sua emoção é visível. As imagens da praça tomada pelo tumulto, o abrigo improvisado dentro do Palácio da Redenção e a figura daquele funcionário desconhecido permanecem vivas em sua memória. São lembranças inseparáveis de outras que vieram depois: o desaparecimento da jovem universitária, as conversas sussurradas dentro de casa e a sensação permanente de que, naqueles anos, o medo também fazia parte da rotina dos brasileiros.

Os anos passaram. A menina que um dia se escondera atrás de um sofá no Palácio da Redenção cresceu, constituiu sua própria visão de mundo e levou consigo as marcas daquela infância atravessada pela História. Já adulta, Alysgardênia mudou-se para São Paulo para cursar Teologia. Foi ali que viveu uma experiência que jamais imaginaria quando ainda era uma criança assustada em João Pessoa. Entre seus professores estava o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, uma das maiores referências brasileiras na defesa dos direitos humanos e um dos idealizadores da obra Brasil: Nunca Mais, que revelou ao país documentos e testemunhos sobre as prisões, torturas e perseguições ocorridas  e os horrores do regime militar. O livro causa mal estar quando se constata o que os torturadores – ao estilo de Ustra – faziam.

Local onde se deu o episódio.

Sempre que fala do Cardeal Arns, Alysgardênia costuma dizer que suas aulas ultrapassavam o conteúdo das disciplinas. Eram verdadeiras lições de humanidade, de ética e de compromisso com a dignidade humana. No mesmo curso, teve também a oportunidade de ser aluna do padre Zezinho, cuja sensibilidade e simplicidade marcaram profundamente seus estudantes. Naqueles anos, o Brasil já respirava novos ares. A sociedade civil organizava-se para exigir a volta das eleições diretas para presidente da República. O movimento das Diretas Já crescia rapidamente e reunia milhões de brasileiros nas ruas. Alysgardênia participou de uma dessas manifestações históricas, realizada no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 25 de janeiro de 1984.

Em meio à multidão que ocupava o centro da cidade, ela encontrava-se entre milhares de brasileiros que pediam, de forma pacífica, o retorno pleno da democracia. Naquele mesmo ato estavam líderes políticos, artistas, intelectuais, religiosos, trabalhadores, estudantes e famílias inteiras. Era um país que, depois de tantos anos de silêncio imposto, voltava a fazer ouvir sua própria voz.

Alysgardênia no dia do seus 15 anos, tempos de chumbo... tempos em que ouvia horrores narrados por seus pais, como a vizinha que sumiu, levada pelos agentes da Ditadura Militar

A Emenda Dante de Oliveira, que restabeleceria as eleições diretas para presidente, acabou não sendo aprovada pelo Congresso Nacional. Ainda assim, o movimento representou um passo decisivo para o processo de redemocratização que culminaria, pouco tempo depois, no fim do regime militar e na promulgação da Constituição de 1988. Sempre achei simbólico esse percurso de vida.

A mesma menina que, aos cinco anos de idade, viu sua cidade mergulhar no medo, escondendo-se com a mãe e a irmã dentro do Palácio da Redenção, décadas mais tarde caminhava entre milhões de brasileiros que reivindicavam justamente aquilo que lhe fora retirado na infância: a democracia. Talvez seja por isso que essa história nunca tenha deixado de me impressionar.

Ao longo dos anos, ouvi Alysgardênia narrar esse episódio inúmeras vezes. Nunca o fez sem emoção. A lembrança daquele funcionário do Palácio, cujo nome jamais soubemos, continua viva em sua memória. Naquele dia, ele apenas cumpriu um gesto de humanidade: protegeu uma mãe e duas crianças em meio ao caos. Talvez nunca tenha imaginado que seria lembrado mais de sessenta anos depois.

Escrevo estas linhas porque acredito que memórias como esta não pertencem apenas às famílias que as viveram. Elas também ajudam a compreender um período da história brasileira que ainda desperta debates. Os grandes acontecimentos costumam ser registrados pelos documentos oficiais, pelos jornais e pelos livros. Mas são as pequenas histórias – vividas por pessoas comuns – que revelam como esses acontecimentos alcançaram a vida cotidiana.

A propósito disso, nasci em Mato Grosso do Sul, numa cidade cortada por uma rodovia. Minha mãe costumava recordar que, naqueles mesmos dias de 1964, longas colunas de caminhões militares cruzavam a estrada transportando soldados e equipamentos. As notícias chegavam pelo rádio, principalmente na voz inconfundível do Repórter Esso, anunciando que o Brasil atravessava uma de suas maiores crises polticas. Enquanto isso, em João Pessoa, minha futura esposa, ainda uma criança, experimentava o medo sem compreender exatamente o que estava acontecendo.

O tempo passou, mas a História continua nos ensinando que a democracia não é um patrimônio garantido para sempre. Ela exige vigilância, respeito às instituições, liberdade de pensamento e compromisso permanente com os direitos humanos. Foi por isso que decidi registrar esta lembrança, inclusive inspirado pelo deplorável episódio do 8 de janeiro que chocou o Brasil, e tão recentemente. Não pretendo alimentar ressentimentos, nem transformar uma memória familiar em instrumento de disputa política, mas despertar nas novas gerações a compreensão de que os grandes acontecimentos históricos também são feitos das experiências de pessoas anônimas. Se este relato contribuir para que uma única pessoa reflita sobre o valor da liberdade, da democracia e da dignidade humana, já terá cumprido sua finalidade.

Algumas histórias pertencem apenas às famílias. São contadas nas mesas de jantar, nas reuniões de fim de ano ou nas tardes em que fotografias antigas voltam às mãos dos filhos e dos netos. Outras, embora igualmente particulares, acabam se tornando pequenas peças da grande História. Esta é uma delas. Se não existissem as fotografias daquele dia, talvez tudo parecesse apenas uma lembrança distante de uma menina que hoje já atravessou boa parte da vida. Mas as imagens permanecem. Nelas, vê-se uma mãe sorridente caminhando pela praça com as duas filhas, poucos instantes antes de serem surpreendidas por acontecimentos que nenhuma delas poderia imaginar.

Deputado Ulisses Guimarães, símbolo das Diretas Já.

Sempre me impressionou o contraste entre aquelas fotografias e o que viria depois. Em uma imagem, a tranquilidade de um passeio de fim de tarde. Na outra, a lembrança de uma praça tomada pelo tumulto, do medo estampado no rosto das crianças, das portas do Palácio da Redenção sendo fechadas às pressas e de um funcionário desconhecido que, num gesto simples de solidariedade, mudou o destino daquela família. Nunca soubemos seu nome. Talvez ele próprio jamais tenha contado em casa que, naquele dia, ajudou uma mãe e duas meninas assustadas. Talvez tenha considerado aquele gesto apenas parte de seu dever. No entanto, mais de sessenta anos depois, continua sendo lembrado com profunda gratidão.

Também nunca conhecemos toda a história da jovem universitária que desapareceu. Para seus pais, a espera terminou apenas com a velhice. Não houve despedida, nem resposta definitiva. Restaram apenas o silêncio e a ausência, duas marcas que a ditadura deixou em muitas famílias brasileiras. Ao longo dos anos, percebi que Alysgardênia nunca narrou essa história com revolta. O sentimento que sempre prevaleceu foi outro: a tristeza de quem viu o medo invadir a infância e a gratidão por ter encontrado, em meio ao caos, pessoas capazes de agir com humanidade. Talvez seja essa a maior lição que esse episódio nos deixe.

Desse dia horroroso permanecem o abraço de uma mãe protegendo as filhas, a coragem silenciosa de um desconhecido que decide ajudar, a esperança de uma família que se reencontra ao final do dia e a lembrança de que a liberdade, quando perdida, faz falta até mesmo àqueles que ainda são pequenos demais para compreender seu significado.

Essa história é dedicada ao nosso filho F. A. C. M. P. F. porque um dia essa memória deixará de ser contada pela voz de quem a viveu. As fotografias talvez continuem existindo, mas já não poderão explicar, sozinhas, o que aconteceu naquela tarde de abril de 1964. Que este relato preserve não apenas um episódio da vida de minha esposa, mas também a lembrança de tantas pessoas anônimas que atravessaram aquele período difícil da história brasileira. Pessoas que não aparecem nos livros, não discursaram em praças nem ocuparam cargos públicos, mas que também sentiram, em seu cotidiano, o peso das decisões tomadas nos centros do poder. Enquanto essas histórias continuarem sendo contadas, a memória permanecerá viva. E uma sociedade que preserva sua memória compreende melhor o seu passado e se torna mais preparada para cuidar do seu futuro.

Evento ocorrido em João Pessoa durante a Ditadura Militar.


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