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Entre os inúmeros aspectos da obra de Nísia
Floresta Brasileira Augusta que venho estudando e divulgando há mais de três
décadas, suas reflexões sobre a maternidade e a amamentação tem o mesmo valor
de preciosos temas tratados por essa intelectual. É assunto que, à primeira
vista, pode parecer secundário diante de sua conhecida defesa da educação
feminina, dos direitos das mulheres e da instrução popular. Entretanto, uma
leitura atenta de seus escritos revela que a questão ocupa posição central em
seu pensamento pedag´gico e civilizacional. Muito antes de a infância tornar-se
objeto privilegiado das ciências humanas e muito antes de a maternidade ser
analisada por historiadores, sociólogos e educadores, Nísia já compreendia que
a formação moral, afetiva e intelectual do ser humano começava nos primeiros
momentos da vida. Para ela, o berço constituía a primeira escola e a mãe
representava a primeira educadora.
Tenho defendido que Nísia Floresta deve ser reconhecida como uma das pioneiras brasileiras
na reflexão sobre a importância da amamentação. Sua defesa do aleitamento
materno ultrapassa amplamente os limites da medicina ou da higiene. Em sua
obra, a amamentação aparece associada à educação, à moralidade, à afetividade e
à própria construção da cidadania. A escritora entendia que os vínculos
estabelecidos entre mãe e filho nos primeiros meses de vida exerciam influência
decisiva sobre a formação do caráter e sobre o desenvolvimento emocional da
criança. Nesse sentido, sua reflexão antecipou discussões que somente muito
mais tarde seriam desenvolvidas por pedagogos, psicólogos e historiadores da
infância.
Essas preocupações aparecem de forma
particularmente clara no Opúsculo Humanitário, publicado em 1853. Nesse
livro, Nísia dirige severas críticas a um costume amplamente difundido entre as
famílias mais ricas do Brasil oitocentista: a entrega dos filhos aos cuidados
de amas de leite. Na maioria das vezes, essas amas eram mulheres negras
escravizadas, obrigadas a amamentar os filhos das senhoras brancas enquanto
seus próprios filhos permaneciam privados do cuidado materno ou eram relegados
a condições precárias de sobrevivência. Nísia condenava tal prática não apenas
por seus efeitos físicos sobre as crianças, mas sobretudo por suas implicações
morais e educacionais. Para ela, a mãe que se afastava voluntariamente do filho
nos primeiros meses de vida abdicava de uma responsabilidade fundamental e
comprometia o processo inicial de formação da criança.
A crítica de Nísia adquire maior significado quando
observamos sua própria trajetória. Nascida em 1810, na então Vila de Papary,
atual município de Nísia Floresta, ela cresceu em uma região marcada pela
economia dos engenhos, pela grande propriedade rural e pela presença constante
do trabalho escravizado. Filha de uma família economicamente privilegiada,
viveu cercada por uma realidade na qual era comum a utilização de amas de leite
negras. As casas-grandes dos engenhos potiguares reproduziam práticas
semelhantes às existentes em outras regiões do Brasil escravista. Mulheres
escravizadas eram frequentemente afastadas de seus próprios filhos para nutrir
e criar os filhos dos senhores. Não é difícil supor que a jovem Dionísia
Gonçalves Pinto tenha testemunhado inúmeras cenas dessa natureza durante sua
infância. Muitas décadas depois, essas lembranças parecem ressurgir em seus
escritos sob a forma de crítica social, denúncia moral e reflexão pedagógica.
Ao analisar essa questão, a pesquisadora Charlotte
Liddell observou que Nísia atribuía ao aleitamento materno um significado que
ultrapassava a esfera privada. Segundo Liddell, a escritora potiguar
apresentava a amamentação como um ato simultaneamente natural e patriótico. Em
sua interpretação, a maternidade constituía uma das principais formas de
participação feminina na construção da sociedade. A mãe não era apenas
responsável pelo bem-estar físico da criança, mas também pela formação dos
futuros cidadãos. Por essa razão, o aleitamento aparecia vinculado à própria
ideia de progresso nacional. Conforme ressalta Liddell (2005), Nísia
considerava a amamentação uma prática "natural e patriótica",
indispensável à educação moral das novas gerações.
Contudo, a originalidade de Nísia não reside apenas
na crítica ao contexto brasileiro. Durante sua longa permanência na Europa,
especialmente na França, elaa ampliou suas observações e percebeu que problemas
semelhantes existiam mesmo em sociedades consideradas mais avançadas e
civilizadas. Foi justamente essa experiência internacional que aprofundou suas
reflexões sobre maternidade e infância.
No ensaio intitulado O Brasil, originalmente
publicado em italiano e posteriormente reunido na coletânea Cintilações de
uma Alma Brasileira, Nísia registra uma das passagens mais impressionantes
de toda a sua produção intelectual. Trata-se da narrativa de uma viagem
realizada a uma aldeia francesa para onde haviam sido enviados diversos recém-nascidos
confiados àamas de leite puramente mercenárias. A história é conduzida por duas
mulheres que se deslocam até aquela localidade rural movidas por sentimentos
profundamente humanos. Uma delas era impulsionada pelos laços de amizade; a
outra, pelos vínculos do sangue. Ambas procuravam resgatar aquilo que Nísia
denomina um "pobre anjinho abandonado em mãos mercenárias".
A escolha dessa expressão não é casual. Ela revela
toda a indignação da autora diante de um sistema amplamente difundido na França
do século XIX, segundo o qual milhares de crianças eram retiradas do convívio
materno poucos dias após o nascimento e enviadas para aldeias distantes, onde
passavam a viver sob os cuidados de mulheres que se propunham a amaentar e
cuidar dessas crianças de forma remunerada. E normalmente isso se dava por
vaidades ao estarem preocupadas com a beleza do corpo e, obviamente, por
omissão e irresponsabilidade. Embora a prática fosse socialmente aceita e até
mesmo considerada respeitável entre determinados grupos sociais, Nísia via nela
uma grave deformação dos laços familiares e uma ameaça concreta à infância.
À medida que a narrativa avança, a escritora conduz
o leitor para um cenário marcado pela pobreza e pelo abandono. O percurso até a
aldeia revela uma realidade muito distante da imagem idealizada da França como
centro da civilização europeia. Quando finalmente chegam à residência onde se
encontrava a criança procurada, as visitantes deparam-se com um ambiente que
provoca horror e compaixão. O quarto era escuro, úmido, insalubre e mal
ventilado. A precariedade do local contrastava brutalmente com a condição
social das famílias urbanas que haviam confiado seus filhos àquelas mulheres. A
criança encontrava-se cercada por sinais evidentes de negligência,
transformando-se em símbolo de um sistema que convertia a maternidade em objeto
de transação econômica.
A denúncia torna-se ainda mais contundente quando
Nísia menciona episódios trágicos narrados pelos habitantes da região. Entre
eles, destaca-se o relato de uma criança que teria sido devorada por um porco
após ser deixada sem a vigilância necess´ria. O episódio surge no texto como
uma das expressões mais dramáticas da negligência que cercava o sistema das
nutrizes. Independentemente de sua excepcionalidade, a narrativa cumpre uma
função clara: demonstrar até que ponto a ausência do cuidado materno direto
poderia expor crianças indefesas a riscos extremos. Para Nísia, aquele
acontecimento simbolizava uma realidade mais ampla, marcada pelo abandono, pela
indiferença e pela mercantilização dos primeiros cuidados da infância.
O mais notável é que a autora não interpreta essa
experiência francesa como um problema isolado. Ao contrário, ela estabelece uma
comparação direta entre o que observava na Europa e aquilo que conhecera desde
a infância no Brasil. Nos engenhos nordestinos, mulheres negras escravizadas
eram obrigadas a amamentar os filhos das famílias senhoriais. Nas aldeias
francesas, elas eram remuneradas e assumiam função semelhante. As diferenças
sociais, econômicas e jurídicas eram evidentes, mas os resultados, aos olhos de
Nísia, apresentavam notável semelhança. Em ambos os casos, verificava-se a
ruptura do vínculo entre mãe e filho, justamente no período mais importante
para a formação afetiva da criança.
Essa comparação revela uma das facetas mais
sofisticadas do pensamento nisiano. Diferentemente de muitos intelectuais
brasileiros de sua época, ela não aceitava a ideia de que a Europa representava
um modelo perfeito de civilização. Suas viagens permitiram-lhe perceber que os
países considerados mais avançados também possuíam problemas graves e contradições
profundas. Por essa razão, sua crítica alcançava simultaneamente a sociedade
escravista brasileira e determinados costumes europeus. Charlotte Liddell
observa que essa perspectiva comparativa permitiu a Nísia construir uma
reflexão original sobre maternidade, infância e cidadania, articulando questões
nacionais e internacionais em um mesmo horizonte de análise.
Ao revisitar essas páginas, percebo como as
preocupações de Nísia anteciparam debates que seriam posteriormente
aprofundados por estudiosas como Michelle Perrot, Mary Del Priore e Zilá Bernd.
Perrot demonstrou a importância crescente da maternidade na construção da
identidade feminina moderna. Del Priore investigou as múltiplas experiências da
maternidade em uma sociedade escravista como a brasileira. Bernd contribuiu
para compreender os mecanismos de construção da memória cultural e das
representações sociais. Contudo, muito antes dessas interpretações acadêmicas,
Nísia Floresta já havia percebido que maternidade, infância, educação e civilização
constituíam dimensões inseparáveis da experiência humana.
Por tudo isso, entendo que a defesa da amamentação
ocupa lugar central em seu projeto intelectual. Não se tratava apenas de uma
recomendação doméstica nem de um conselho médico. Tratava-se de uma proposta
pedagógica, moral e civilizacional. Nísia acreditava que uma sociedade
verdadeiramente justa e progressista deveria começar pelo cuidado dispensado às
crianças e pelo reconhecimento da importância da maternidade. Sua voz continua
atual porque nos recorda que a educação não começa nos bancos escolares, mas
nos primeiros vínculos afetivos estabelecidos entre mãe e filho. Ao denunciar
tanto as amas de leite escravizadas do Brasil quanto as nutrizes mercenárias da
França, ela construiu uma reflexão pioneira sobre os direitos da infância e
sobre a responsabilidade coletiva diante das novas gerações. Nesse aspecto,
permanece como uma das intelectuais mais originais e avançadas do século XIX
brasileiro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no
Brasil. São Paulo: Contexto, 2017.
FLORESTA, Nísia. Cintilações de uma alma
brasileira. Organização e tradução de Peggy Sharpe-Valadares. Florianópolis:
Editora Mulheres, 1997.
FLORESTA, Nísia. Opúsculo Humanitário. Edição atualizada
com estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares. São Paulo: Cortez
Editora; Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
(INEP), 1989.
LIDDELL, Charlotte. Nature, nurture and nation:
Nísia Floresta's engagement in the breast-feeding debate in Brazil and France.
Feminist Review, Londres, n. 79, p. 69-82, 2005. Disponível em: SAGE Journals.
Acesso em: 22 dez. 2025.

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