Hoje comemoramos o Dia da Abolição da Escravidão, e nada mais providencial e oportuno do que lembrarmos o nome do esquecido Miguel Rei, considerado um dos primeiros escravizados a lutar contra a escravidão em praça pública na antiga Vila Imperial de Papary, atual Nísia Floresta.
Durante muito tempo, a história oficial do Rio Grande do Norte preferiu destacar apenas os grandes proprietários rurais, os políticos influentes e os senhores de engenho que dominaram a economia do século XIX. Pouco se falou sobre os homens negros que sofreram, resistiram e ousaram desafiar a estrutura escravista existente no sul potiguar.
Mas a memória, mesmo quando perseguida pelo silêncio, insiste em sobreviver. E é exatamente nesse território de resistência histórica que surge a figura de Miguel Rei. No século XIX, a antiga Papary estava integrada ao sistema açucareiro do Rio Grande do Norte. Os engenhos movimentavam a economia da região e dependiam diretamente do trabalho de homens e mulheres escravizados. A paisagem do município era marcada por canaviais, casas-grandes, senzalas e caminhos por onde circulavam escravizados, mercadorias e tropas.
A escravidão fazia parte do cotidiano da vila. Negros eram vendidos, castigados e submetidos às mais severas formas de exploração humana. Próximo aos caminhos que ligavam Papary a São José de Mipibu, existiam locais utilizados para a comercialização de escravizados destinados aos engenhos da região. Entretanto, junto ao sofrimento, também crescia a resistência.
Miguel Rei aparece nos registros históricos como um escravizado pertencente ao coronel Antônio Basílio Ribeiro Dantas, proprietário do Engenho Sapé. Diferente da imagem passiva que durante décadas tentaram construir sobre os negros escravizados, Miguel tornou-se uma liderança entre os cativos do litoral sul potiguar. Seu nome passou a circular entre Papary, Arez, Goianinha e São José de Mipibu como símbolo de rebeldia e luta pela liberdade.
As informações preservadas pela memória regional indicam que Miguel Rei organizava reuniões clandestinas nas matas de Mangabeira. Ali, dezenas de escravizados discutiam estratégias para enfrentar o sistema escravista que dominava a região. O movimento reunia mais de cem negros escravizados.
Não possuíam armas sofisticadas. Utilizavam paus, pedras e instrumentos improvisados. Ainda assim, possuíam algo que aterrorizava as elites escravistas: consciência coletiva e desejo de liberdade. Miguel Rei compreendia que a escravidão não cairia espontaneamente pelas mãos dos senhores de engenho. Era necessário romper o silêncio. E ele rompeu.
Os relatos históricos apontam que Miguel defendia publicamente a libertação dos escravizados e discutia o tema em diferentes espaços da Vila Imperial de Papary. Sua coragem impressionava justamente porque não se limitava às articulações escondidas nas matas. Ele falava, contestava e denunciava. Em pleno século XIX, quando um negro escravizado sequer era reconhecido como cidadão, Miguel Rei ousou transformar sua voz em instrumento de resistência política.
Isso faz dele uma das figuras mais importantes - e mais esquecidas - da história social de Nísia Floresta. Entretanto, como ocorreu em muitos movimentos de resistência negra no Brasil escravista, o plano acabou descoberto antes de sua concretização. A denúncia partiu do escravizado Félix, pertencente à família Alustau Navarro. A partir dessa delação, as autoridades e os proprietários rurais da região tomaram conhecimento da conspiração organizada por Miguel Rei e pelos demais revoltosos.
Miguel acabou preso antes da explosão do levante. Mesmo derrotado militarmente, sua memória permaneceu viva. Porque há derrotas que a história transforma em símbolo. Miguel Rei tornou-se símbolo da resistência negra em Papary. Representa os homens e mulheres escravizados que recusaram a submissão absoluta. Representa aqueles que ousaram sonhar com liberdade numa sociedade construída sobre a violência, o racismo e a exploração humana.
Outro detalhe profundamente simbólico desse período é que parte dessa resistência negra teria encontrado apoio dentro da própria Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. O próprio padre João Maria - que exerceu suas funções sacerdotais em Papary - foi abolicionista. Existem relatos de que escravizados fugitivos recebiam proteção nos cômodos internos da antiga matriz de Papary, escondendo-se nos corredores e dependências da igreja. Isso demonstra que, mesmo dentro de uma sociedade escravista, existiam setores sensibilizados pela dor dos negros perseguidos.
A história de Miguel Rei também ajuda a desmontar o antigo mito de que o Rio Grande do Norte teria permanecido distante dos conflitos raciais e das rebeliões negras do Brasil imperial. Papary possuía engenhos. Papary possuía escravidão. Papary possuía mercado de escravizados. E Papary também possuía resistência negra, inclusive um pioneiro.
Hoje, nesta data de 13 de Maio, lembrar Miguel Rei é um ato de justiça histórica. Seu nome deveria ocupar espaço nos livros escolares, nos debates culturais e na memória coletiva do povo potiguar. Porque antes da assinatura da Lei Áurea, antes dos discursos oficiais e antes das homenagens públicas à abolição, já existiam homens negros gritando contra a escravidão nas ruas, nos engenhos e nas matas do Rio Grande do Norte. E um desses homens chamava-se Miguel Rei.
Referências Bibliográficas
CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Serviço de Documentação, 1955.
FREIRE, Luís Carlos. “Padre João Maria, da Vila Imperial de Papary a Natal: O rastro de um santo”. Publicado no blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE. Texto que menciona Miguel Rei como liderança negra da antiga Vila Imperial de Papary, participante da Festa do Rosário e articulador de um levante de escravizados no litoral sul potiguar.
História do Brasil. Estudos sobre escravidão, resistência negra, festas do Rosário dos Pretos e movimentos sociais no Nordeste brasileiro durante o século XIX.
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Referências
- Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE — textos sobre Miguel Rei, os levantes negros em Papary, Padre João Maria .
- Pesquisas históricas e memorialísticas sobre a antiga Vila Imperial de Papary e os movimentos de resistência negra no século XIX.



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