quarta-feira, 13 de maio de 2026

COMO SE DEU O ABOLICIONISMO EM NÍSIA FLORESTA?

Hoje comemoramos o Dia da Abolição da Escravidão, e nada mais providencial e oportuno do que lembrarmos o nome do esquecido Miguel Rei, considerado um dos primeiros escravizados a lutar contra a escravidão em praça pública na antiga Vila Imperial de Papary, atual Nísia Floresta.

Durante muito tempo, a história oficial do Rio Grande do Norte preferiu destacar apenas os grandes proprietários rurais, os políticos influentes e os senhores de engenho que dominaram a economia do século XIX. Pouco se falou sobre os homens negros que sofreram, resistiram e ousaram desafiar a estrutura escravista existente no sul potiguar.

Mas a memória, mesmo quando perseguida pelo silêncio, insiste em sobreviver. E é exatamente nesse território de resistência histórica que surge a figura de Miguel Rei. No século XIX, a antiga Papary estava integrada ao sistema açucareiro do Rio Grande do Norte. Os engenhos movimentavam a economia da região e dependiam diretamente do trabalho de homens e mulheres escravizados. A paisagem do município era marcada por canaviais, casas-grandes, senzalas e caminhos por onde circulavam escravizados, mercadorias e tropas.

A escravidão fazia parte do cotidiano da vila. Negros eram vendidos, castigados e submetidos às mais severas formas de exploração humana. Próximo aos caminhos que ligavam Papary a São José de Mipibu, existiam locais utilizados para a comercialização de escravizados destinados aos engenhos da região. Entretanto, junto ao sofrimento, também crescia a resistência.

Miguel Rei aparece nos registros históricos como um escravizado pertencente ao coronel Antônio Basílio Ribeiro Dantas, proprietário do Engenho Sapé. Diferente da imagem passiva que durante décadas tentaram construir sobre os negros escravizados, Miguel tornou-se uma liderança entre os cativos do litoral sul potiguar. Seu nome passou a circular entre Papary, Arez, Goianinha e São José de Mipibu como símbolo de rebeldia e luta pela liberdade.

As informações preservadas pela memória regional indicam que Miguel Rei organizava reuniões clandestinas nas matas de Mangabeira. Ali, dezenas de escravizados discutiam estratégias para enfrentar o sistema escravista que dominava a região. O movimento reunia mais de cem negros escravizados.

Não possuíam armas sofisticadas. Utilizavam paus, pedras e instrumentos improvisados. Ainda assim, possuíam algo que aterrorizava as elites escravistas: consciência coletiva e desejo de liberdade. Miguel Rei compreendia que a escravidão não cairia espontaneamente pelas mãos dos senhores de engenho. Era necessário romper o silêncio. E ele rompeu.

Os relatos históricos apontam que Miguel defendia publicamente a libertação dos escravizados e discutia o tema em diferentes espaços da Vila Imperial de Papary. Sua coragem impressionava justamente porque não se limitava às articulações escondidas nas matas. Ele falava, contestava e denunciava. Em pleno século XIX, quando um negro escravizado sequer era reconhecido como cidadão, Miguel Rei ousou transformar sua voz em instrumento de resistência política.

Isso faz dele uma das figuras mais importantes - e mais esquecidas - da história social de Nísia Floresta. Entretanto, como ocorreu em muitos movimentos de resistência negra no Brasil escravista, o plano acabou descoberto antes de sua concretização. A denúncia partiu do escravizado Félix, pertencente à família Alustau Navarro. A partir dessa delação, as autoridades e os proprietários rurais da região tomaram conhecimento da conspiração organizada por Miguel Rei e pelos demais revoltosos.

Miguel acabou preso antes da explosão do levante. Mesmo derrotado militarmente, sua memória permaneceu viva. Porque há derrotas que a história transforma em símbolo. Miguel Rei tornou-se símbolo da resistência negra em Papary. Representa os homens e mulheres escravizados que recusaram a submissão absoluta. Representa aqueles que ousaram sonhar com liberdade numa sociedade construída sobre a violência, o racismo e a exploração humana.

Outro detalhe profundamente simbólico desse período é que parte dessa resistência negra teria encontrado apoio dentro da própria Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. O próprio padre João Maria - que exerceu suas funções sacerdotais em Papary - foi abolicionista. Existem relatos de que escravizados fugitivos recebiam proteção nos cômodos internos da antiga matriz de Papary, escondendo-se nos corredores e dependências da igreja. Isso demonstra que, mesmo dentro de uma sociedade escravista, existiam setores sensibilizados pela dor dos negros perseguidos.

A história de Miguel Rei também ajuda a desmontar o antigo mito de que o Rio Grande do Norte teria permanecido distante dos conflitos raciais e das rebeliões negras do Brasil imperial. Papary possuía engenhos. Papary possuía escravidão. Papary possuía mercado de escravizados. E Papary também possuía resistência negra, inclusive um pioneiro.

Hoje, nesta data de 13 de Maio, lembrar Miguel Rei é um ato de justiça histórica. Seu nome deveria ocupar espaço nos livros escolares, nos debates culturais e na memória coletiva do povo potiguar. Porque antes da assinatura da Lei Áurea, antes dos discursos oficiais e antes das homenagens públicas à abolição, já existiam homens negros gritando contra a escravidão nas ruas, nos engenhos e nas matas do Rio Grande do Norte. E um desses homens chamava-se Miguel Rei.

Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Serviço de Documentação, 1955.

FREIRE, Luís Carlos. “Padre João Maria, da Vila Imperial de Papary a Natal: O rastro de um santo”. Publicado no blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE. Texto que menciona Miguel Rei como liderança negra da antiga Vila Imperial de Papary, participante da Festa do Rosário e articulador de um levante de escravizados no litoral sul potiguar.

História do Brasil. Estudos sobre escravidão, resistência negra, festas do Rosário dos Pretos e movimentos sociais no Nordeste brasileiro durante o século XIX.

AGORA VAMOS VER COMO SE DEU O ABOLICIONISMO NA ESCRITORA NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA...

NÍSIA FLORESTA: PRIMEIRA ABOLICIONISTA DO BRASIL


Imagine você nascer e ter quem faça tudo por você: comida à mesa, ajuda para banho, abanar penas para afastar o calor etc etc etc. Imagine você criança, vendo adultos dando ordens o dia inteiro aos escravos, por vezes os humilhando e torturando-os física e mentalmente. Nísia Floresta Brasileira Augusta nasceu nesse contexto. Ela não via essa estupidez no Sítio Floresta, afinal eles não eram proprietários de escravos, à exceção a Pepe, uma preta que a acompanhou durante o tempo que ela morou no Sítio Floresta. Embora Pepe é mencionada no corpo de sua obra, não se sabe detalhes sobre a mesma, exceto o grande afeto que Nísia Floresta sentia por ela.

Nísia Floresta Brasileira Augusta


Nísia não viu a truculência da escravidão no sítio onde morava, mas via a escravidão nos sucessivos engenhos da Vila Imperial de Papary, pois nasceu numa região nordestina permeada por incontáveis engenhos. Na Vila Imperial de Papary assistia ao comércio de escravos no velho pé de Oiti, onde acontecia a compra e venda de escravos, próximo ao Engenho São Roque.

É impossível não admitirmos que qualquer criança que visse isso acharia normal, pois estava descobrindo o mundo. Ela olharia a sua pele, depois a pele preta, e perceberia que a diferença explicava a servidão criada pelo sistema. Pois bem, Nísia Floresta nasceu nesse contexto. Agora imagine você começar a estranhar isso e expor sua insatisfação. Obviamente que você se tornaria uma alienígena, pois incomodaria a maioria.

Verdadeiramente, os escravos pretos não eram vistos como gente por quase todos, portanto não compreenderiam uma criança ou uma jovem pedindo clemência por eles e recriminando o tratamento truculento a eles dispensado. Era esse o tratamento dado aos burros de carga e aos bois arrastando toneladas sobre os carros de madeira que gemiam quilômetros a fio, carregando os partidos de cana. Em conseqüência, se não eram gente, mereciam o mesmo tratamento.

Até hoje, em pleno século XXI, vimos cavalos e jumentos apanhando de seus donos por não conseguirem carregar as carroças. Pois saibam que o mesmo aconteceu aos escravos. Muitos morreram de exaustão. Não conseguiam dar conta do peso ou do ofício exaustivo dos canaviais e outros serviços, então apanhavam para recuperar a força. Assim, morriam. Nísia Floresta, ainda muito jovem, percebendo isso, pedia tratamento mais humano aos pretos. Inicialmente ela não pedia a abolição da escravidão. Talvez nem imaginasse ser possível acabar com aquilo.

Depois ela faz reflexões sobre a situação deplorável como eles viviam nas senzalas e sugere que recebessem maiores cuidados, mas não pede a extinção da escravidão. Certa vez alguém publicou um texto no Diário de Natal no qual acusava Nísia Floresta de endossar a escravidão. O autor se serviu de um trecho isolado de uma de sua obras, na qual ela condena as mulheres brancas por darem seus bebês para serem amamentados pelas pretas sujas. De fato ler isso assusta.

Qualquer pessoa que lesse o trecho de maneira isolada, entenderia da mesma forma. Mas Nísia Floresta, na realidade condenava a imundície e situação de insalubridade na qual viviam as escravas. Ela proclamava que a amamentação era um ato de amor, portanto o gesto pertencia somente às mães biológicas, e não às escravas. Nísia Floresta, que sabia que as mães brancas faziam isso para conservar suas silhuetas - ou seja, por vaidade e preguiça - não media esforços para condenar os gestos das senhoras donas de escravos.

Muito adiante, veríamos Nísia fazendo ataques fortíssimos às mães francesas, as quais mandavam seus filhos-bebês para serem cuidados por amas de leite, em situações deploráveis nos campos próximos a Paris. Ela presenciou "in loco" o fato, tendo registrado suas impressões. O abolicionismo em Nísia Floresta passeia ao longo de suas obras, pois ela foi uma escritora que pulverizava assuntos semelhantes em várias de seus livros. Mesmo que não estivesse escrevendo sobre a escravidão, ela entrava nessas águas e logo retomava o seu objeto de discussão principal. E no caudal disso tudo encontramos uma Nísia Floresta que amadureceu lentamente a sua condição de abolicionista. Aquilo que para ela – e para todos – era normal, se tornou hostil ao longo de suas últimas publicações. E não poderia ser diferente. Ela percebeu muito cedo a desumanidade da escravidão preta, portanto precisou se camuflar no bojo dos escravagistas, escrever numa visão que não assustava tanto, mas que significava o sutil plantel da semente abolicionista.

Lentamente ela assume sua condição anti-escravagista e seus escritos se tornam mais densos e com forte criticidade. Na própria obra “A Lágrima de Um Caeté”, que não era um livro sobre escravidão, ela encontra espaço para condená-la. E essa obra foi censurada pelo Império. Pois bem, discutir o tema ABOLICIONISMO em Nísia Floresta pede a contextualização dos fatos para o necessário entendimento. E isso dá muitas laudas e horas e horas de discussões. Como sempre, coloco-me ao seu dispor para discutirmos o assunto a qualquer momento e em qualquer espaço. L.C.F 1999

Referências

  • Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE — textos sobre Miguel Rei, os levantes negros em Papary, Padre João Maria . 
  • Pesquisas históricas e memorialísticas sobre a antiga Vila Imperial de Papary e os movimentos de resistência negra no século XIX.

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