segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O SACI, O SKATE E O MÊS DO NOSSO FOLCLORE


Confesso que às vezes dou boas risadas assistindo ao programa Aeroporto, na plataforma Netflix. Não apenas pelo trabalho sério e extremamente competente desenvolvido pela Polícia Federal, Receita Federal e demais órgãos de fiscalização, mas também porque, em meio à tensão das abordagens, vez ou outra surgem momentos de humor absolutamente espontâneos. É curioso observar como cada agente possui um estilo próprio de lidar com situações praticamente idênticas. Alguns são de uma educação irretocável, mantendo a serenidade e a elegância mesmo diante de passageiros exaltados. Outros adotam uma postura fria, quase impassível, como quem já viu de tudo. Há ainda aqueles que recorrem à ironia fina, a um comentário espirituoso, um bordão aqui, uma tirada ali, sem jamais perder o profissionalismo.

Foi exatamente uma dessas cenas que me arrancou uma gargalhada recentemente. Após um cão farejador indicar a presença de drogas na bagagem de um passageiro, o agente iniciou a revista enquanto o proprietário da mala, visivelmente nervoso e cada vez mais hostil, assistia ao inevitável desfecho que se aproximava. O dito passageiro precisou telefonar para um amigo que, segundo dizia, estava nas proximidades do aeroporto. O agente autorizou a ligação, obviamente apto para montar uma armadilha.

- Estou chegando...

Passavam-se alguns minutos.

- Estou chegando...

Mais alguns minutos.

- Estou quase aí...

Era evidente que o tal amigo havia percebido que havia algo errado e resolvera "chegar" sem jamais chegar.

Foi então que o policial, com um humor irresistível, soltou:

- ESSE SEU AMIGO CERTAMENTE É O SACI... E ESTÁ VINDO DE SKATE.

Não consegui conter o riso. Ora, justamente o Saci? De skate? Logo ele, cuja característica mais conhecida é possuir apenas uma perna? A imagem mental foi instantânea: o pobre Saci tentando equilibrar-se num skate, impulsionando-se com a única perna enquanto o gorro vermelho balançava ao vento. Uma cena digna dos melhores desenhos animados.

Essa lembrança me veio novamente agora em agosto, mês em que tradicionalmente celebramos o nosso Folclore Brasileiro, patrimônio imaterial riquíssimo que atravessa gerações alimentando a imaginação de crianças e adultos. Em um mundo cada vez mais conectado às histórias de outros povos - dragões europeus, duendes irlandeses, elfos nórdicos, vampiros da Transilvânia ou super-heróis americanos -, às vezes nos esquecemos de que possuímos um universo fantástico igualmente fascinante, construído ao longo de séculos pela mistura das culturas indígena, africana e europeia.

E talvez nenhuma personagem simbolize tão bem essa riqueza quanto o velho e irreverente Saci-Pererê. Muito antes de ganhar a aparência pela qual hoje é conhecido, o Saci já habitava as narrativas indígenas do Sul do Brasil. Posteriormente, a tradição africana acrescentou-lhe traços marcantes, como a pele negra e o cachimbo inseparável. Com o passar do tempo, a figura foi sendo enriquecida pela imaginação popular até tornar-se esse menino negro, travesso, de uma única perna, usando um gorro vermelho mágico e fumando seu eterno pito.

Foi, entretanto, Monteiro Lobato quem lhe deu projeção nacional. Nas inesquecíveis histórias do Sítio do Picapau Amarelo, o escritor transformou o Saci em uma das figuras mais carismáticas da literatura infantil brasileira. Particularmente tornei-me fã do saci quando criança, a ssistindo justamente ao Sítio. Quando meu filho era criança, dormiu incontáveis noites embalados pelas histórias de Lobato. Quantas vezes, ao pé da cama, lendo para ele as peripécias do Saci, vi seus olhos arregalados, perquirindo a janela, a porta como se imaginasse a chegada do pretinho de uma perna só. Não por acaso, em 2003, foi instituído o Dia do Saci, celebrado em 31 de outubro, justamente como forma de valorizar as tradições brasileiras diante da crescente influência cultural do Halloween. A ênfase e logística dada ao Halloween deveria ser transferida para a cultura popular brasileira. Pense nisso!

Segundo o imaginário popular, o Saci mora nas matas, nos bambuzais, nas capoeiras e nos lugares onde a natureza ainda conserva seus mistérios. É difícil encontrá-lo. Aliás, talvez seja ele quem encontre você. Dizem que prefere as madrugadas, especialmente as noites de vento. Quando um redemoinho se forma repentinamente em uma estrada de terra ou em um campo aberto, muitos ainda afirmam, com um sorriso de quem presserva antigas tradições:

- Lá vai o Saci.

Nascido lá pelas bandas do Pantanal Sul-Mato-Grossense, envolvido por uma natureza deslumbrante e inspiradora da iimaginação, cansei de ouvir minha mãe dizendo que, se alguém conseguir lançar uma peneira sobre o redemoinho ou capturá-lo dentro de uma garrafa devidamente fechada com uma cruz desenhada na rolha, poderá aprisionar o travesso personagem. Quantas vezes corri atrás de redemoinhos de areia com uma peneira na mão... Diz a lenda que, em troca da liberdade, ele concede favores ou revela segredos. Verdade ou não, é melhor pensar duas vezes antes de tentar. Afinal, quem gostaria de provocar um especialista em travessuras? E travessuras são justamente a sua marca registrada.

Os velhos contam que é o Saci que esconde objetos desaparecidos misteriosamente dentro de casa. É ele quem embaraça as crinas dos cavalos durante a noite. Isso eu já cheguei a ver justamente nas bandas do Mato Grosso do Sul. Um peão me mostrou a crina de um cavalo tal qual a trança de uma moça. Saci também azeda o leite e apaga o fogo do fogão. Essa me foi contata por dona Isabel, uma paraguaia que lavava roupa para a minha mãe. O Saci também espalha brinquedos, troca objetos de lugar, dá nós nas cordas, abre porteiras, assusta galinhas e incomoda os cães. Ouvi do Sr. Manoel Salvador, de Nísia Floresta que o Saci assusta viajantes com assobios no meio da mata e faz o feijão demorar a cozinhar.

Dona Salete, de Morrinhos, Nísia Floresta me contou que o Saci faz aquele objeto que estava exatamente diante dos nossos olhos simplesmente desaparecer... para reaparecer minutos depois, como se estivesse zombando da nossa falta de atenção. Segundo dona Salete, o gorro vermelho do Saci tem poderes extraordinários. Quem conseguisse tomá-lo do Saci teria sobre ele certa vantagem. Mas retirar-lhe o gorro seria tarefa quase impossível, pois, além de extremamente ágil, ele domina como ninguém os segredos dos ventos e dos redemoinhos. Ela disse que seu marido já viu um Saci margeando a lagoa Papary nas proximidades do Morro Banana.

Mas o que me chama a atenção no Saci são suas peraltices. Ele raramente é descrito como uma figura verdadeiramente maldosa. É um provocador. Um brincalhão incorrigível. Gosta de testar a paciência humana, rir das nossas distrações e lembrar que a natureza também possui seus mistérios e seus encantamentos. Talvez seja exatamente por isso que ele permaneça tão vivo em nossa memória coletiva. Ele representa uma época em que as crianças ouviam histórias contadas pelos avós na varanda, em que um redemoinho era mais do que um simples fenômeno meteorológico, em que um assobio vindo da mata fazia qualquer um acelerar o passo de volta para casa.

Falando do Saci até me emociono, pois o nosso folclore não precisa competir com criaturas estrangeiras. Ele possui identidade própria, riqueza histórica, criatividade e um extraordinário valor cultural. Na verdade, nossa cultura toda... Cada lenda carrega um pedaço da formação do povo brasileiro, de suas crenças, seus medos, seu humor e sua forma peculiar de explicar aquilo que a razão nem sempre conseguia compreender. E, pensando bem, talvez aquele policial tenha razão.

Pois bem, se aquele sujeito dizia que estava chegando e nunca chegava, só podia haver uma explicação.

Não era atraso.

Não era trânsito.

Era o Saci.

Embora... convenhamos...

Continuo achando que vê-lo chegando de skate seria a maior de todas as suas travessuras. Juro que queria ver o Saci aparecendo por aqui, manobrando um skate...

 


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