Confesso que às vezes dou boas risadas assistindo ao programa Aeroporto, na plataforma Netflix. Não apenas pelo trabalho sério e extremamente competente desenvolvido pela Polícia Federal, Receita Federal e demais órgãos de fiscalização, mas também porque, em meio à tensão das abordagens, vez ou outra surgem momentos de humor absolutamente espontâneos. É curioso observar como cada agente possui um estilo próprio de lidar com situações praticamente idênticas. Alguns são de uma educação irretocável, mantendo a serenidade e a elegância mesmo diante de passageiros exaltados. Outros adotam uma postura fria, quase impassível, como quem já viu de tudo. Há ainda aqueles que recorrem à ironia fina, a um comentário espirituoso, um bordão aqui, uma tirada ali, sem jamais perder o profissionalismo.
Foi exatamente uma dessas cenas que me arrancou uma
gargalhada recentemente. Após um cão farejador indicar a presença de drogas na
bagagem de um passageiro, o agente iniciou a revista enquanto o proprietário da
mala, visivelmente nervoso e cada vez mais hostil, assistia ao inevitável
desfecho que se aproximava. O dito passageiro precisou telefonar para um amigo
que, segundo dizia, estava nas proximidades do aeroporto. O agente autorizou a
ligação, obviamente apto para montar uma armadilha.
- Estou chegando...
Passavam-se alguns minutos.
- Estou chegando...
Mais alguns minutos.
- Estou quase aí...
Era evidente que o tal amigo havia percebido que
havia algo errado e resolvera "chegar" sem jamais chegar.
Foi então que o policial, com um humor
irresistível, soltou:
- ESSE SEU AMIGO CERTAMENTE É O
SACI... E ESTÁ VINDO DE SKATE.
Não consegui conter o riso. Ora, justamente o Saci?
De skate? Logo ele, cuja característica mais conhecida é possuir apenas uma
perna? A imagem mental foi instantânea: o pobre Saci tentando equilibrar-se num
skate, impulsionando-se com a única perna enquanto o gorro vermelho balançava
ao vento. Uma cena digna dos melhores desenhos animados.
Essa lembrança me veio novamente agora em agosto,
mês em que tradicionalmente celebramos o nosso Folclore Brasileiro, patrimônio
imaterial riquíssimo que atravessa gerações alimentando a imaginação de
crianças e adultos. Em um mundo cada vez mais conectado às histórias de outros
povos - dragões europeus, duendes irlandeses, elfos nórdicos, vampiros da
Transilvânia ou super-heróis americanos -, às vezes nos esquecemos de que
possuímos um universo fantástico igualmente fascinante, construído ao longo de
séculos pela mistura das culturas indígena, africana e europeia.
E talvez nenhuma personagem simbolize tão bem essa
riqueza quanto o velho e irreverente Saci-Pererê. Muito antes de ganhar a
aparência pela qual hoje é conhecido, o Saci já habitava as narrativas
indígenas do Sul do Brasil. Posteriormente, a tradição africana acrescentou-lhe
traços marcantes, como a pele negra e o cachimbo inseparável. Com o passar do
tempo, a figura foi sendo enriquecida pela imaginação popular até tornar-se
esse menino negro, travesso, de uma única perna, usando um gorro vermelho
mágico e fumando seu eterno pito.
Foi, entretanto, Monteiro Lobato quem lhe deu
projeção nacional. Nas inesquecíveis histórias do Sítio do Picapau Amarelo,
o escritor transformou o Saci em uma das figuras mais carismáticas da
literatura infantil brasileira. Particularmente tornei-me fã do saci quando
criança, a ssistindo justamente ao Sítio. Quando meu filho era criança, dormiu
incontáveis noites embalados pelas histórias de Lobato. Quantas vezes, ao pé da
cama, lendo para ele as peripécias do Saci, vi seus olhos arregalados,
perquirindo a janela, a porta como se imaginasse a chegada do pretinho de uma
perna só. Não por acaso, em 2003, foi instituído o Dia do Saci, celebrado em 31
de outubro, justamente como forma de valorizar as tradições brasileiras diante
da crescente influência cultural do Halloween. A ênfase e logística dada ao
Halloween deveria ser transferida para a cultura popular brasileira. Pense
nisso!
Segundo o imaginário popular, o Saci mora nas
matas, nos bambuzais, nas capoeiras e nos lugares onde a natureza ainda
conserva seus mistérios. É difícil encontrá-lo. Aliás, talvez seja ele quem
encontre você. Dizem que prefere as madrugadas, especialmente as noites de
vento. Quando um redemoinho se forma repentinamente em uma estrada de terra ou
em um campo aberto, muitos ainda afirmam, com um sorriso de quem presserva
antigas tradições:
- Lá vai o Saci.
Nascido lá pelas bandas do Pantanal
Sul-Mato-Grossense, envolvido por uma natureza deslumbrante e inspiradora da
iimaginação, cansei de ouvir minha mãe dizendo que, se alguém conseguir lançar
uma peneira sobre o redemoinho ou capturá-lo dentro de uma garrafa devidamente
fechada com uma cruz desenhada na rolha, poderá aprisionar o travesso
personagem. Quantas vezes corri atrás de redemoinhos de areia com uma peneira
na mão... Diz a lenda que, em troca da liberdade, ele concede favores ou revela
segredos. Verdade ou não, é melhor pensar duas vezes antes de tentar. Afinal,
quem gostaria de provocar um especialista em travessuras? E travessuras são
justamente a sua marca registrada.
Os velhos contam que é o Saci que esconde objetos desaparecidos
misteriosamente dentro de casa. É ele quem embaraça as crinas dos cavalos
durante a noite. Isso eu já cheguei a ver justamente nas bandas do Mato Grosso
do Sul. Um peão me mostrou a crina de um cavalo tal qual a trança de uma moça.
Saci também azeda o leite e apaga o fogo do fogão. Essa me foi contata por dona
Isabel, uma paraguaia que lavava roupa para a minha mãe. O Saci também espalha
brinquedos, troca objetos de lugar, dá nós nas cordas, abre porteiras, assusta
galinhas e incomoda os cães. Ouvi do Sr. Manoel Salvador, de Nísia Floresta que
o Saci assusta viajantes com assobios no meio da mata e faz o feijão demorar a
cozinhar.
Dona Salete, de Morrinhos, Nísia Floresta me contou
que o Saci faz aquele objeto que estava exatamente diante dos nossos olhos
simplesmente desaparecer... para reaparecer minutos depois, como se estivesse
zombando da nossa falta de atenção. Segundo dona Salete, o gorro vermelho do
Saci tem poderes extraordinários. Quem conseguisse tomá-lo do Saci teria sobre
ele certa vantagem. Mas retirar-lhe o gorro seria tarefa quase impossível,
pois, além de extremamente ágil, ele domina como ninguém os segredos dos ventos
e dos redemoinhos. Ela disse que seu marido já viu um Saci margeando a lagoa
Papary nas proximidades do Morro Banana.
Mas o que me chama a atenção no Saci são suas
peraltices. Ele raramente é descrito como uma figura verdadeiramente maldosa. É
um provocador. Um brincalhão incorrigível. Gosta de testar a paciência humana,
rir das nossas distrações e lembrar que a natureza também possui seus mistérios
e seus encantamentos. Talvez seja exatamente por isso que ele permaneça tão
vivo em nossa memória coletiva. Ele representa uma época em que as crianças
ouviam histórias contadas pelos avós na varanda, em que um redemoinho era mais
do que um simples fenômeno meteorológico, em que um assobio vindo da mata fazia
qualquer um acelerar o passo de volta para casa.
Falando do Saci até me emociono, pois o nosso
folclore não precisa competir com criaturas estrangeiras. Ele possui identidade
própria, riqueza histórica, criatividade e um extraordinário valor cultural. Na
verdade, nossa cultura toda... Cada lenda carrega um pedaço da formação do povo
brasileiro, de suas crenças, seus medos, seu humor e sua forma peculiar de
explicar aquilo que a razão nem sempre conseguia compreender. E, pensando bem,
talvez aquele policial tenha razão.
Pois bem, se aquele sujeito dizia que estava
chegando e nunca chegava, só podia haver uma explicação.
Não era atraso.
Não era trânsito.
Era o Saci.
Embora... convenhamos...
Continuo achando que vê-lo chegando de skate seria
a maior de todas as suas travessuras. Juro que queria ver o Saci aparecendo por
aqui, manobrando um skate...

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