sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

TICO DA COSTA: O POTIGUAR QUE TRANSFORMOU O MUNDO EM QUINTAL...

 

Há artistas que pertencem a um lugar. Há outros que pertencem a uma época. E há aqueles, mais raros, que parecem pertencer a uma geografia muito maior do que aquela em que nasceram. Tico da Costa foi um desses. Suas asas não couberam no ninho, nem se acomodaram ao ninho de sal. Nascido em Areia Branca, no Rio Grande do Norte, Francisco das Chagas da Costa, o “Titico” da família que acabaria se tornando Tico da Costa, construiu uma trajetória que parece ter saltada de um livro: começou a aprender violão em meio a uma família numerosa, com quinze irmãos, numa cidade litorânea do interior potiguar, e terminou sua vida apresentando-se em palcos da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, dividindo experiências e palcos com nomes como Philip Glass e Pete Seeger, trabalhando com a cineasta italiana Lina Wertmüller e chegando a ser objeto da atenção do The New York Times.

Talvez seja justamente essa distância entre a origem e o destino que explique a singularidade de Tico. Ele nunca pareceu interessado em escolher entre o mundo e o Rio Grande do Norte. Ao contrário: fez do mundo uma extensão de Areia Branca. Levou consigo o mar, a areia, a rede, a ciranda, o baião, o frevo, o coco, o xote, a fala nordestina, a malícia da linguagem e aquela capacidade muito brasileira de transformar a dificuldade em graça. E, ao chegar à Europa ou aos Estados Unidos, não abandonou essas referências para parecer cosmopolita. Fez algo muito mais difícil: tornou o regional cosmopolita. Sua música podia dialogar com a bossa nova, o jazz, a música latino-americana e a chamada world music sem deixar de carregar uma espécie de sotaque invisível de Areia Branca. A própria Universidade Federal do Rio Grande do Norte o reconhece como importante compositor norte-rio-grandense e destaca sua passagem pela Escola de Música, por Recife e pela Europa. Um exemplo disso é esse próprio projeto e os eventos alusivos a ele que seguem acontecendo no Rio Grande do Norte.

É nesse ponto que América Latente, de 1983, ganha uma dimensão que ultrapassa a de um simples álbum. O disco parece anunciar, antes de muitos outros, uma ideia que hoje nos é familiar: a de que a identidade nordestina não precisa ser interpretada como se estivesse numa bolha. Tico percebeu o Nordeste dentro de uma América maior. Paraguai, Uruguai, Argentina, Pernambuco, Pará, Paraná, Rio Grande do Norte, Salvador e Roma aparecem em sua imaginação musical não como lugares desconectados, mas como peças de uma mesma cartografia afetiva. A faixa-título é quase uma brincadeira geográfica transformada em manifesto. Tico erra os caminhos, mistura países, aproxima palavras, embaralha fronteiras e, justamente por isso, acerta naquilo que interessa: a América Latina como território de memória, mestiçagem, humor, deslocamento e reconhecimento.

Há algo de extraordinariamente moderno nessa atitude. Tico não fazia música regional para ser consumida apenas regionalmente. Tampouco fazia música internacional apagando suas raízes. Ele parecia compreender intuitivamente que, quanto mais profundamente um artista conhece sua própria aldeia, maior pode ser o alcance de sua voz. Em Lagartixa, por exemplo, a expressão “fartura” é desmontada pela própria linguagem: “farta carne, farta o feijão”. Ele era um alquimista da palavra; fazia a palavra funcionar com outras engrenagens, como o poeta Manoel de Barros. São contextos diferentes, mas loucuras iguais. A palavra que deveria anunciar abundância transforma-se em denúncia da carência. É humor, poesia e crítica social ao mesmo tempo. Em Ridinha, a praia natal e a ciranda se transformam em matéria de uma canção que poderia viajar milhares de quilômetros sem perder sua identidade. Em Roma-Olinda, o cosmopolitismo europeu entra em conflito com a saudade nordestina, e a solução é voltar para a fogueira de São João.

Tico, portanto, não foi apenas um compositor. Foi um tradutor. Traduzia o Nordeste para o mundo e, ao mesmo tempo, traduzia o mundo para o Nordeste. Talvez por isso sua obra tenha conseguido interessar a artistas tão diferentes entre si. O Senado Federal registrou que Philip Glass, Pete Seeger, Lina Wertmüller, Gerald Thomas, Turíbio Santos e Carybé estavam entre os nomes que admiravam sua música. Tico chegou também ao Blue Note, em Nova York, um dos espaços mais emblemáticos da música internacional, além de apresentar-se no Town Hall, no Knitting Factory e em outros importantes palcos norte-americanos.

Sua vida pessoal também ajuda a compreender essa dimensão humana do artista. Em 1984, Tico casou-se com Sara Beatriz Fracchia Figueiredo, que posteriormente teria papel importante na preservação e divulgação de sua obra. Sara, além de companheira, tornou-se produtora cultural e, especialmente depois de 2009, passou a atuar diretamente na organização da agenda e na produção dos trabalhos póstumos do músico. Ela se encaixa no perfil das mulheres que sempre estiveram ao lado do marido e nunca atrás. Tico deixou três filhos. Um deles, Daniel Fracchia da Costa, nasceu durante a vida do casal no Rio de Janeiro; outro, Gabriel da Costa Fracchia, também seguiu caminhos ligados à música e participou posteriormente de homenagens ao pai.

Mas talvez a melhor maneira de compreender Tico seja não separando o homem do artista. Pessoas que conviveram com ele insistiram em registrar uma característica difícil de catalogar: sua generosidade. Não por acaso sua esposa Sara o definiu como “um anjo vestido de homem”, expressão que acabou sendo retomada por amigos e pela imprensa. Há relatos de sua leveza, de seu humor e de uma capacidade quase espontânea de estabelecer comunicação com públicos muito diferentes. Essa característica ajuda a explicar por que alguém poderia subir sozinho a um palco, munido apenas de violão e microfone, e fazer centenas de pessoas cantarem em português, mesmo estando na Itália. O próprio Tico contou que foi justamente na Europa que descobriu sua condição de showman.

Sua trajetória foi, nesse sentido, uma espécie de paradoxo luminoso. Quanto mais viajava, mais brasileiro se tornava. Quanto mais conhecia o mundo, mais sua música retornava às coisas simples: o mar, a lua, a rede, a infância, a fogueira, a saudade, o amor, a palavra popular. Não era um artista que carregava o Nordeste como um peso identitário. Carregava-o como liberdade. Tico da Costa morreu em Natal, em 29 de agosto de 2009, aos 57 anos, deixando esposa, três filhos e uma obra que ultrapassa os limites de sua geração. Ao longo de aproximadamente quatro décadas de carreira, gravou em diferentes países e percorreu Europa, África e as Américas. O curioso é que, apesar de toda essa dimensão internacional, permaneceu relativamente pouco conhecido em sua própria terra. Essa talvez seja uma das maiores injustiças da memória cultural potiguar. Tico é um monumento a ser redescoberto.

Revisitar América Latente hoje é, portanto, mais do que reencontrar um LP de 1983. É descobrir um artista que parecia enxergar o futuro antes de ele chegar. Tico compreendeu que tradição não significa imobilidade; que regionalismo não é isolamento; e que ser profundamente potiguar não impede ninguém de ser profundamente universal. Sua rede, na fotografia da capa – cujo semblante expressa um ser amoroso e bom -,  talvez seja a melhor metáfora para sua obra: parece repouso, mas é movimento. Nela, Tico descansava como quem se preparava para viajar. E viajou. Levou Areia Branca para o mundo e, de algum modo, trouxe o mundo de volta para o Rio Grande do Norte. Talvez seja essa a sua verdadeira grandeza: Tico da Costa não saiu do Nordeste para encontrar o mundo. Ele descobriu que o mundo já estava dentro do Nordeste.


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