Há artistas que
pertencem a um lugar. Há outros que pertencem a uma época. E há aqueles, mais
raros, que parecem pertencer a uma geografia muito maior do que aquela em que
nasceram. Tico da Costa foi um desses. Suas asas não couberam no ninho, nem se
acomodaram ao ninho de sal. Nascido em Areia Branca, no Rio Grande do Norte,
Francisco das Chagas da Costa, o “Titico” da família que acabaria se tornando
Tico da Costa, construiu uma trajetória que parece ter saltada de um livro:
começou a aprender violão em meio a uma família numerosa, com quinze irmãos,
numa cidade litorânea do interior potiguar, e terminou sua vida apresentando-se
em palcos da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, dividindo
experiências e palcos com nomes como Philip Glass e Pete Seeger, trabalhando
com a cineasta italiana Lina Wertmüller e chegando a ser objeto da atenção do The New York Times.
Talvez seja
justamente essa distância entre a origem e o destino que explique a
singularidade de Tico. Ele nunca pareceu interessado em escolher entre o mundo
e o Rio Grande do Norte. Ao contrário: fez do mundo uma extensão de Areia
Branca. Levou consigo o mar, a areia, a rede, a ciranda, o baião, o frevo, o
coco, o xote, a fala nordestina, a malícia da linguagem e aquela capacidade
muito brasileira de transformar a dificuldade em graça. E, ao chegar à Europa ou
aos Estados Unidos, não abandonou essas referências para parecer cosmopolita.
Fez algo muito mais difícil: tornou o regional cosmopolita. Sua música podia
dialogar com a bossa nova, o jazz, a música latino-americana e a chamada world music sem deixar de carregar uma
espécie de sotaque invisível de Areia Branca. A própria Universidade Federal do Rio Grande do Norte o reconhece como
importante compositor norte-rio-grandense e destaca sua passagem pela Escola de
Música, por Recife e pela Europa. Um exemplo disso é esse próprio projeto e
os eventos alusivos a ele que seguem acontecendo no Rio Grande do Norte.
É nesse ponto que América Latente, de 1983, ganha uma dimensão
que ultrapassa a de um simples álbum. O disco parece anunciar, antes de muitos
outros, uma ideia que hoje nos é familiar: a de que a identidade nordestina não
precisa ser interpretada como se estivesse numa bolha. Tico percebeu o Nordeste
dentro de uma América maior. Paraguai, Uruguai, Argentina, Pernambuco, Pará,
Paraná, Rio Grande do Norte, Salvador e Roma aparecem em sua imaginação musical
não como lugares desconectados, mas como peças de uma mesma cartografia
afetiva. A faixa-título é quase uma brincadeira geográfica transformada em
manifesto. Tico erra os caminhos, mistura países, aproxima palavras, embaralha
fronteiras e, justamente por isso, acerta naquilo que interessa: a América
Latina como território de memória, mestiçagem, humor, deslocamento e
reconhecimento.
Há algo de
extraordinariamente moderno nessa atitude. Tico não fazia música regional para
ser consumida apenas regionalmente. Tampouco fazia música internacional
apagando suas raízes. Ele parecia compreender intuitivamente que, quanto mais
profundamente um artista conhece sua própria aldeia, maior pode ser o alcance
de sua voz. Em Lagartixa, por exemplo, a
expressão “fartura” é desmontada pela própria linguagem: “farta carne, farta o
feijão”. Ele era um alquimista da palavra; fazia a palavra funcionar com outras
engrenagens, como o poeta Manoel de Barros. São contextos diferentes, mas
loucuras iguais. A palavra que deveria anunciar abundância transforma-se em
denúncia da carência. É humor, poesia e crítica social ao mesmo tempo. Em Ridinha, a praia natal e a ciranda se
transformam em matéria de uma canção que poderia viajar milhares de quilômetros
sem perder sua identidade. Em Roma-Olinda,
o cosmopolitismo europeu entra em conflito com a saudade nordestina, e a
solução é voltar para a fogueira de São João.
Tico, portanto, não
foi apenas um compositor. Foi um tradutor. Traduzia o Nordeste para o mundo e,
ao mesmo tempo, traduzia o mundo para o Nordeste. Talvez por isso sua obra
tenha conseguido interessar a artistas tão diferentes entre si. O Senado
Federal registrou que Philip Glass, Pete Seeger, Lina Wertmüller, Gerald
Thomas, Turíbio Santos e Carybé estavam entre os nomes que admiravam sua
música. Tico chegou também ao Blue Note, em Nova York, um dos espaços mais
emblemáticos da música internacional, além de apresentar-se no Town Hall, no
Knitting Factory e em outros importantes palcos norte-americanos.
Sua vida pessoal também
ajuda a compreender essa dimensão humana do artista. Em 1984, Tico casou-se com
Sara Beatriz Fracchia Figueiredo, que posteriormente teria papel importante na
preservação e divulgação de sua obra. Sara, além de companheira, tornou-se
produtora cultural e, especialmente depois de 2009, passou a atuar diretamente
na organização da agenda e na produção dos trabalhos póstumos do músico. Ela se
encaixa no perfil das mulheres que sempre estiveram ao lado do marido e nunca
atrás. Tico deixou três filhos. Um deles, Daniel Fracchia da Costa, nasceu
durante a vida do casal no Rio de Janeiro; outro, Gabriel da Costa Fracchia,
também seguiu caminhos ligados à música e participou posteriormente de
homenagens ao pai.
Mas talvez a melhor
maneira de compreender Tico seja não separando o homem do artista. Pessoas que
conviveram com ele insistiram em registrar uma característica difícil de
catalogar: sua generosidade. Não por acaso sua esposa Sara o definiu como “um
anjo vestido de homem”, expressão que acabou sendo retomada por amigos e pela
imprensa. Há relatos de sua leveza, de seu humor e de uma capacidade quase
espontânea de estabelecer comunicação com públicos muito diferentes. Essa
característica ajuda a explicar por que alguém poderia subir sozinho a um
palco, munido apenas de violão e microfone, e fazer centenas de pessoas
cantarem em português, mesmo estando na Itália. O próprio Tico contou que foi
justamente na Europa que descobriu sua condição de showman.
Sua trajetória foi,
nesse sentido, uma espécie de paradoxo luminoso. Quanto mais viajava, mais
brasileiro se tornava. Quanto mais conhecia o mundo, mais sua música retornava
às coisas simples: o mar, a lua, a rede, a infância, a fogueira, a saudade, o
amor, a palavra popular. Não era um artista que carregava o Nordeste como um
peso identitário. Carregava-o como liberdade. Tico da Costa morreu em Natal, em
29 de agosto de 2009, aos 57 anos, deixando esposa, três filhos e uma obra que
ultrapassa os limites de sua geração. Ao longo de aproximadamente quatro
décadas de carreira, gravou em diferentes países e percorreu Europa, África e
as Américas. O curioso é que, apesar de toda essa dimensão internacional,
permaneceu relativamente pouco conhecido em sua própria terra. Essa talvez seja
uma das maiores injustiças da memória cultural potiguar. Tico é um monumento a
ser redescoberto.
Revisitar América
Latente hoje é, portanto, mais do que reencontrar um LP de 1983. É
descobrir um artista que parecia enxergar o futuro antes de ele chegar. Tico
compreendeu que tradição não significa imobilidade; que regionalismo não é
isolamento; e que ser profundamente potiguar não impede ninguém de ser
profundamente universal. Sua rede, na fotografia da capa – cujo semblante
expressa um ser amoroso e bom -, talvez
seja a melhor metáfora para sua obra: parece repouso, mas é movimento. Nela,
Tico descansava como quem se preparava para viajar. E viajou. Levou Areia
Branca para o mundo e, de algum modo, trouxe o mundo de volta para o Rio Grande
do Norte. Talvez seja essa a sua verdadeira grandeza: Tico da Costa não saiu do Nordeste para encontrar o mundo. Ele descobriu
que o mundo já estava dentro do Nordeste.

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