ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

domingo, 30 de março de 2025

A MENINA E O GOLPE MILITAR DE 1964...

Alysgardênia de F. C. M. P. Freire

Memórias de Alysgardênia de Fátima C. M. P. F. durante o Golpe Militar de 1964...

Na tarde de 2 de abril de 1964, enquanto João Pessoa vivia uma das maiores manifestações políticas de sua história, minha esposa Alysgardênia, então com cinco anos de idade, saía do Colégio Lins de Vasconcelos, sem imaginar que sua infância seria atravessada pelos acontecimentos daquele dia. Mais de seis décadas se passaram, mas a lembrança daquele dia continua viva, gravada na memória de minha esposa, Alysgardênia, como um eco distante de um dos períodos mais sombrios da história do Brasil.

O que relato aqui não é fruto de pesquisa acadêmica nem de documentos oficiais. É, antes de tudo, uma memória preservada dentro de uma família. Ouvi essa história incontáveis vezes ao longo da vida. Sempre que Alysgardênia a recorda, sua voz muda de tom e seus olhos se enchem de emoção. Com sua autorização, decidi registrá-la para que não se perca com o tempo. Talvez seja apenas um pequeno episódio diante da imensidão da História. Mas, para quem o viveu, foi um daqueles momentos em que a vida de pessoas comuns se cruza, inesperadamente, com os grandes acontecimentos de um país.

Palácio da Redenção (Palácio do Governo), João Pessoa, PB, onde elas se protegeram.

Naquela época, Alysgardênia tinha apenas cinco anos de idade. Sua irmã, Geuma, quatro. A mãe das duas, Dona Maria J. Albuquerque M., seguia a rotina de todos os dias. Caminhava até o Colégio Lins de Vasconcelos, localizado na então Praça dos Três Poderes, no coração de João Pessoa, para buscar as filhas ao término das aulas. A praça era o centro político da capital paraibana. Ali estavam o Palácio da Redenção, sede do Governo do Estado, o Tribunal de Justiça e a Assembleia Legislativa. Era um lugar de intenso movimento, mas também de convivência. Nos dias de tempo bom, Dona Maria transformava aquela obrigação cotidiana em um pequeno passeio. Depois da escola, levava as meninas para tomar sorvete. Em seguida, sentavam-se nos bancos de ferro sob a grande figueira que sombreava a praça, dividindo pipocas, risadas e a despreocupação própria da infância.

Maria tinha ainda um hábito pouco comum para a época: gostava de fotografar os momentos simples da família, característica que gerou uma infinidade de álbuns fotográficos que restaram para contar muitas histórias, inclusive essa. Graças a isso, sobreviveram imagens daquele mesmo dia, registros feitos poucas horas antes de a rotina ser abruptamente interrompida por acontecimentos que marcariam para sempre a vida daquelas três pessoas. Foi justamente naquele dia que o destino resolveu interromper a rotina.

Ao deixarem o colégio e seguirem em direção à praça, mãe e filhas foram surpreendidas por uma cena que jamais esqueceriam. Em poucos instantes, aquele lugar onde, tantas vezes, haviam tomado sorvete e alimentado os pombos transformou-se no centro de uma convulsão política. Uma multidão ocupava a praça. Homens e mulheres gritavam palavras de ordem, protestando contra o golpe militar que acabara de derrubar o presidente João Goulart e mergulhara o país numa grave crise política. Em meio ao tumulto, um caixão ardia em chamas, simbolizando, segundo muitos manifestantes, o enterro da democracia. O barulho era ensurdecedor. Explosões, vidraças se quebravam, objetos eram lançados contra os prédios públicos, pessoas corriam em todas as direções e, para uma criança de cinco anos, tudo parecia o início de uma guerra.

Dona Maria J. com as filhas Geuma (à esquerda) e Alysgardênia no fatídico dia que em João Pessoa estourou a Ditadura Militar, no mês de abril de 1964.

Alysgardênia e Geuma agarraram-se à mãe, chorando. Dona Maria Jose, tomada pelo medo, tentava compreender o que acontecia ao redor enquanto procurava uma forma de proteger as filhas. Foi então que surgiu um homem usando o uniforme de funcionário do Palácio da Redenção. Percebendo o desespero daquela jovem mãe e o risco que corriam em meio à multidão, aproximou-se rapidamente, identificou-se e pediu que o acompanhassem sem demora. As portas do Palácio foram fechadas logo depois que entraram.

Mesmo protegidas, a sensação de segurança nunca chegou. O funcionário conduziu as três para o amplo saguão de entrada e orientou que permanecessem abaixadas atrás de um dos sofás. Dali ouviam tiros, gritos, sirenes e a movimentação intensa do lado de fora. O tempo parecia não passar. Para Alysgardênia, aquela lembrança permanece congelada como uma sucessão de sons e imagens desconexas: o choro da irmã, o rosto apreensivo da mãe, o silêncio imposto pelo medo e a impressão de que algo muito grave estava acontecendo.

Depois de um longo período – que na memória de uma criança pareceu interminável –, o mesmo funcionário voltou. Conduziu as três pelos corredores laterais do edifício até uma saída nos fundos do Palácio, onde conseguiu um táxi e pediu ao motorista que as levasse imediatamente para casa. Nunca souberam o nome daquele homem. Para Alysgardênia, porém, ele permaneceu para sempre como um anjo anônimo que apareceu na hora exata.

Dona Maria J. com as filhas Geuma (à esquerda) e Alysgardênia no fatídico dia que em João Pessoa estourou a Ditadura Militar, no mês de abril de 1964.

O caminho de volta revelou uma cidade irreconhecível. Lojas fechavam as portas às pressas, pessoas corriam assustadas pelas ruas e viaturas da Polícia Militar, acompanhadas por soldados do Exército, patrulhavam o centro de João Pessoa. Em casa, encontraram o Sr. Gustavo M., marido de Dona Maria José e pai das meninas, vivendo sua própria angústia. Pelo rádio, acompanhava as notícias que chegavam em edições extraordinárias e já se preparava para sair à procura da família quando, finalmente, viu as três entrarem pela porta. O alívio daquele reencontro nunca mais seria esquecido.

Somente com o passar dos anos compreenderam a dimensão do que haviam presenciado. Naquela tarde, sem que pudessem imaginar cruzaram o caminho de um dos acontecimentos mais decisivos da história brasileira. O país iniciava um regime de exceção que permaneceria por vinte e um anos. Em nome do eu alegavam ser o combate ao comunismo e da defesa da ordem (exatamente igual ao que muitos alegam atualmente), instalou-se um governo que concentrou poderes, restringiu liberdades, censurou a imprensa, perseguiu opositores e deixou um rastro de prisões arbitrárias, torturas, mortes e desaparecimentos. E por falar no presente, o que mais tem sido ouvido atualmente é o tal comunismo alardeado como um lobisomem, um bicho papão, um homem do saco atrás de fazer um grande mal que nunca fizeram e nem o farão no Brasil, pois é somente fantasia criada como projeto político extremista, que usa Deus, patriotismo e valores familiares apenas de fachada.

Dona Maria José com a filha Alysgardênia no fatídico dia que em João Pessoa estourou a Ditadura Militar, no mês de abril de 1964.

As consequências daquele período não ficaram apenas nos livros de História. Também alcançaram o cotidiano da família. Já adolescente, Alysgardênia recorda-se das conversas reservadas entre seus pais. Naqueles tempos, certos assuntos eram tratados em voz baixa, longe dos filhos e até mesmo das janelas abertas. Entre essas lembranças, uma sempre a impressionou. Uma jovem universitária, conhecida da família e moradora de um quarteirão próximo, participava do movimento estudantil da Universidade Federal da Paraíba. Certo dia desapareceu. Comentava-se que havia sido levada por agentes do regime por ser considerada uma "subversiva", expressão usada na época para designar aqueles que se opunham ao governo militar. Nunca mais voltou. Durante anos, seus pais acompanharam o sofrimento daquela família, que envelheceu esperando por notícias da filha sem jamais encontrá-la.

O pai de Alysgardênia também comentava sobre um homem desconhecido que aparecia de tempos em tempos pelo bairro. Frequentava bares, lanchonetes, jogos de futebol e rodas de conversa. Falava pouco. Ouvia muito. Muitos acreditavam tratar-se de um militar à paissana ligado aos órgãos de repressão, alguém encarregado de observar pessoas, identificar opositores e repassar informações às autoridades. Era impossível saber ao certo quem era ou quantos outros existiam. Mas bastava a suspeita para que o medo impusesse silêncio.

O episódio vivido na infância nunca deixou Alysgardênia. Ainda hoje, ao relembrá-lo, sua emoção é visível. As imagens da praça tomada pelo tumulto, o abrigo improvisado dentro do Palácio da Redenção e a figura daquele funcionário desconhecido permanecem vivas em sua memória. São lembranças inseparáveis de outras que vieram depois: o desaparecimento da jovem universitária, as conversas sussurradas dentro de casa e a sensação permanente de que, naqueles anos, o medo também fazia parte da rotina dos brasileiros.

Os anos passaram. A menina que um dia se escondera atrás de um sofá no Palácio da Redenção cresceu, constituiu sua própria visão de mundo e levou consigo as marcas daquela infância atravessada pela História. Já adulta, Alysgardênia mudou-se para São Paulo para cursar Teologia. Foi ali que viveu uma experiência que jamais imaginaria quando ainda era uma criança assustada em João Pessoa. Entre seus professores estava o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, uma das maiores referências brasileiras na defesa dos direitos humanos e um dos idealizadores da obra Brasil: Nunca Mais, que revelou ao país documentos e testemunhos sobre as prisões, torturas e perseguições ocorridas  e os horrores do regime militar. O livro causa mal estar quando se constata o que os torturadores – ao estilo de Ustra – faziam.

Local onde se deu o episódio.

Sempre que fala do Cardeal Arns, Alysgardênia costuma dizer que suas aulas ultrapassavam o conteúdo das disciplinas. Eram verdadeiras lições de humanidade, de ética e de compromisso com a dignidade humana. No mesmo curso, teve também a oportunidade de ser aluna do padre Zezinho, cuja sensibilidade e simplicidade marcaram profundamente seus estudantes. Naqueles anos, o Brasil já respirava novos ares. A sociedade civil organizava-se para exigir a volta das eleições diretas para presidente da República. O movimento das Diretas Já crescia rapidamente e reunia milhões de brasileiros nas ruas. Alysgardênia participou de uma dessas manifestações históricas, realizada no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 25 de janeiro de 1984.

Em meio à multidão que ocupava o centro da cidade, ela encontrava-se entre milhares de brasileiros que pediam, de forma pacífica, o retorno pleno da democracia. Naquele mesmo ato estavam líderes políticos, artistas, intelectuais, religiosos, trabalhadores, estudantes e famílias inteiras. Era um país que, depois de tantos anos de silêncio imposto, voltava a fazer ouvir sua própria voz.

Alysgardênia no dia do seus 15 anos, tempos de chumbo... tempos em que ouvia horrores narrados por seus pais, como a vizinha que sumiu, levada pelos agentes da Ditadura Militar

A Emenda Dante de Oliveira, que restabeleceria as eleições diretas para presidente, acabou não sendo aprovada pelo Congresso Nacional. Ainda assim, o movimento representou um passo decisivo para o processo de redemocratização que culminaria, pouco tempo depois, no fim do regime militar e na promulgação da Constituição de 1988. Sempre achei simbólico esse percurso de vida.

A mesma menina que, aos cinco anos de idade, viu sua cidade mergulhar no medo, escondendo-se com a mãe e a irmã dentro do Palácio da Redenção, décadas mais tarde caminhava entre milhões de brasileiros que reivindicavam justamente aquilo que lhe fora retirado na infância: a democracia. Talvez seja por isso que essa história nunca tenha deixado de me impressionar.

Ao longo dos anos, ouvi Alysgardênia narrar esse episódio inúmeras vezes. Nunca o fez sem emoção. A lembrança daquele funcionário do Palácio, cujo nome jamais soubemos, continua viva em sua memória. Naquele dia, ele apenas cumpriu um gesto de humanidade: protegeu uma mãe e duas crianças em meio ao caos. Talvez nunca tenha imaginado que seria lembrado mais de sessenta anos depois.

Escrevo estas linhas porque acredito que memórias como esta não pertencem apenas às famílias que as viveram. Elas também ajudam a compreender um período da história brasileira que ainda desperta debates. Os grandes acontecimentos costumam ser registrados pelos documentos oficiais, pelos jornais e pelos livros. Mas são as pequenas histórias – vividas por pessoas comuns – que revelam como esses acontecimentos alcançaram a vida cotidiana.

A propósito disso, nasci em Mato Grosso do Sul, numa cidade cortada por uma rodovia. Minha mãe costumava recordar que, naqueles mesmos dias de 1964, longas colunas de caminhões militares cruzavam a estrada transportando soldados e equipamentos. As notícias chegavam pelo rádio, principalmente na voz inconfundível do Repórter Esso, anunciando que o Brasil atravessava uma de suas maiores crises polticas. Enquanto isso, em João Pessoa, minha futura esposa, ainda uma criança, experimentava o medo sem compreender exatamente o que estava acontecendo.

O tempo passou, mas a História continua nos ensinando que a democracia não é um patrimônio garantido para sempre. Ela exige vigilância, respeito às instituições, liberdade de pensamento e compromisso permanente com os direitos humanos. Foi por isso que decidi registrar esta lembrança, inclusive inspirado pelo deplorável episódio do 8 de janeiro que chocou o Brasil, e tão recentemente. Não pretendo alimentar ressentimentos, nem transformar uma memória familiar em instrumento de disputa política, mas despertar nas novas gerações a compreensão de que os grandes acontecimentos históricos também são feitos das experiências de pessoas anônimas. Se este relato contribuir para que uma única pessoa reflita sobre o valor da liberdade, da democracia e da dignidade humana, já terá cumprido sua finalidade.

Algumas histórias pertencem apenas às famílias. São contadas nas mesas de jantar, nas reuniões de fim de ano ou nas tardes em que fotografias antigas voltam às mãos dos filhos e dos netos. Outras, embora igualmente particulares, acabam se tornando pequenas peças da grande História. Esta é uma delas. Se não existissem as fotografias daquele dia, talvez tudo parecesse apenas uma lembrança distante de uma menina que hoje já atravessou boa parte da vida. Mas as imagens permanecem. Nelas, vê-se uma mãe sorridente caminhando pela praça com as duas filhas, poucos instantes antes de serem surpreendidas por acontecimentos que nenhuma delas poderia imaginar.

Deputado Ulisses Guimarães, símbolo das Diretas Já.

Sempre me impressionou o contraste entre aquelas fotografias e o que viria depois. Em uma imagem, a tranquilidade de um passeio de fim de tarde. Na outra, a lembrança de uma praça tomada pelo tumulto, do medo estampado no rosto das crianças, das portas do Palácio da Redenção sendo fechadas às pressas e de um funcionário desconhecido que, num gesto simples de solidariedade, mudou o destino daquela família. Nunca soubemos seu nome. Talvez ele próprio jamais tenha contado em casa que, naquele dia, ajudou uma mãe e duas meninas assustadas. Talvez tenha considerado aquele gesto apenas parte de seu dever. No entanto, mais de sessenta anos depois, continua sendo lembrado com profunda gratidão.

Também nunca conhecemos toda a história da jovem universitária que desapareceu. Para seus pais, a espera terminou apenas com a velhice. Não houve despedida, nem resposta definitiva. Restaram apenas o silêncio e a ausência, duas marcas que a ditadura deixou em muitas famílias brasileiras. Ao longo dos anos, percebi que Alysgardênia nunca narrou essa história com revolta. O sentimento que sempre prevaleceu foi outro: a tristeza de quem viu o medo invadir a infância e a gratidão por ter encontrado, em meio ao caos, pessoas capazes de agir com humanidade. Talvez seja essa a maior lição que esse episódio nos deixe.

Desse dia horroroso permanecem o abraço de uma mãe protegendo as filhas, a coragem silenciosa de um desconhecido que decide ajudar, a esperança de uma família que se reencontra ao final do dia e a lembrança de que a liberdade, quando perdida, faz falta até mesmo àqueles que ainda são pequenos demais para compreender seu significado.

Essa história é dedicada ao nosso filho F. A. C. M. P. F. porque um dia essa memória deixará de ser contada pela voz de quem a viveu. As fotografias talvez continuem existindo, mas já não poderão explicar, sozinhas, o que aconteceu naquela tarde de abril de 1964. Que este relato preserve não apenas um episódio da vida de minha esposa, mas também a lembrança de tantas pessoas anônimas que atravessaram aquele período difícil da história brasileira. Pessoas que não aparecem nos livros, não discursaram em praças nem ocuparam cargos públicos, mas que também sentiram, em seu cotidiano, o peso das decisões tomadas nos centros do poder. Enquanto essas histórias continuarem sendo contadas, a memória permanecerá viva. E uma sociedade que preserva sua memória compreende melhor o seu passado e se torna mais preparada para cuidar do seu futuro.

Evento ocorrido em João Pessoa durante a Ditadura Militar.


domingo, 2 de março de 2025

Roubo em igreja...

 

OBS. Todas as imagens aqui postadas dizem respeito a essa reportagem. Não se tratam das igrejas mencionadas no texto.

Antes de ontem assisti a uma reportagem sobre roubo em igreja. O fato se deu no Rio de Janeiro. O ladrão é pessoa conhecida naquele espaço, pois costumava decorar o templo, portanto tinha total liberdade para transitar ali sem despertar suspeita. O criminoso é colecionador de obras de Arte e tem um acervo impressionante (se não fosse tão ladrão).


Ter obras de Arte sacra de 300/400 anos não significa ser ladrão. Os livros contam histórias de homens que, há mais de 100 anos, empreendiam longas viagens pelas províncias do Brasil comprando oratórios, santos de madeira (folheados a ouro) e peças sacras dos engenhos falidos e em decadência. E esse comportamento, por si, explica o porquê de - hoje - existir tanta peça sacra nas mãos de colecionadores sem que isso seja fruto do furto em igrejas.


Esses homens eram justamente colecionadores e comerciantes desse tipo de obra de Arte. Isso não se resumia aos engenhos e fazendas, mas às casas da cidade, onde os fazendeiros residiam e mantinham verdadeiros museus sacros. 


Esses homens, no caso, eram meramente oportunistas e espertos. Não eram ladrões. É certo que eles pagavam valores irrisórios, trocavam por outras coisas, mas, enfim, não havia ilegalidade naquela aquisição. Por mais que nos admiremos com o fato de um colecionador possuir objetos sacros de 200/300 anos ou mais, os mesmos não devem ser vistos como criminosos, mas é necessário os olharmos com reservas, pois, infelizmente, entre os honestos há os ladrões.


Isso explica o porquê de encontrarmos tantos tesouros em galerias de obras de Arte sacra principalmente nas capitais brasileiras, até porque os donos morrem, os filhos vendem, trocam, doam, até jogam no lixo (por ignorância). Dia desses um homem estranhou certa peça numa galeria de arte Sacra. Ele achou muito parecida com uma obra roubada na igreja de determinado estado há mais de 40 anos. Então ele fotografou-a. Na mesma hora recebeu o retorno de um especialista confirmando se tratar  da peça roubada. A polícia federal baixou no local instantes depois. Isso acontece eventualmente, pois muitos especialistas visitam essas galerias com tal finalidade.

Há pouco mais de um ano, vi uma postagen no no Instagran, em que uma figura muito conhecida e respeitada no Rio Grande do Norte mostrou um medalhão com a imagem de Nísia Floresta em bronze. É uma peça no diâmetro de um LP.  Ele a adquiriu numa galeria de Arte no Rio de Janeiro. Identifiquei aquela peça no mesmo instante, bastou bater os olhos. Ele, no caso, não cometeu nenhum crime, mas digo com certeza absoluta que é uma peça roubada. Creio que pertencia ao Centro Norte-Rio-Grandense, pois tenho fotografias de uma exposição sobre Nísia Floresta que ocorreu ali em 1954 e esse medalhão está sobre uma mesa envolta por figuras potiguares notáveis, dentre elas o ex-presidente Café Filho. Esse medalhão foi confeccionado na França em 1851. Entrei em contato com a pessoa, expus o fato e o orientei a doá-la ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, mas a pessoa me  ignorou. Nunca respondeu.

Excetuando esses colecionadores e comerciantes de obras de Arte Sacra, o único local que possui grandes acervos são as igrejas e, infelizmente, é o local preferido de colecionadores criminosos. Uns pagam para roubarem. Outros vão em pessoa. Há, inclusive, ladrões de obras de Arte em cemitérios também.



Na década de 70 houve um furto milionário na Igreja Matriz de São José de Mipibu, cidade da região metropolitana de Natal. Até hoje, lá pelas bandas do Pantanal, minha mãe guarda uma carta com o recorte de jornal dando notícia do episódio. 


Foram várias imagens portuguesas do século XVIII, em madeira, folheadas a ouro. Por sorte a Polícia Federal encontrou as peças muito tempo depois.


O maior acervo de obras de Arte Sacra no Rio Grande do Norte – na minha opinião – se encontra na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta, município integrante da região metropolitana de Natal. Há um ostensório em prata pura e um relicário em prata e ouro puros, imagens portuguesas do século XVIII em madeira folheada a ouro, um lampadário de 20 kg em prata portuguesas maciça, crucifixos em madeira e Jesus Crucificado, crucifixos solitários – todos em madeira do século XVIII, candelabros de bronze, escultura em tamanho natural de Jesus Morto em madeira do início do século XIX, roupas clericais centenárias com galões de ouro e prata, toalhas, cálices, bandeiras de procissões da época que o município se chamava “Papary”, grandes móveis em madeira de lei (cômodas e roupeiros), livros manuscritos e uma infinidade de pequenos assessórios sacros.


Sabemos que a Igreja Matriz de Nossa Senhora já sofreu vários furtos (não é segredo para ninguém). Alguns atribuídos a determinados padres – ditos a boca de siri – e outros supostamente furtados a pedido de colecionadores. Particularmente, sinto falta de algumas imagens e peças valiosas e até móvel que conheci em 1992 e que fui percebendo estarem sumindo ao longo do tempo. “Quem disso usa disso cuida”, portanto, sem intimidade com aquele templo, pensava que a exposição dessas peças oscilava, de acordo com alguma orientação dos padres, numa espécie de reserva técnica como fazem nos museus. Muito tempo depois percebi que eu estava tremendamente enganado.


O fato de a igreja ainda não ter sido tombada nos impede de termos uma lista com todos esses elementos sacros, portanto só quem conhece a igreja de longas datas sabe sobre esses furtos. Vale ressaltar que esses furtos não se resumem apenas a obras de Arte de grande valor, mas até mesmo a peças em gesso (a exemplo do “Anjinho Deus lhe Pague”), uma peça aparentemente sem valor, mas só aparenta, tendo em vista que ela e outras que foram furtadas têm valor histórico pelo tempo que ali estão.

Pois bem, vendo essa reportagem, me voltei para a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, tendo em vista a dimensão do seu acervo e a falta de um esquema de vigilância eletrônica.



Entendo que lugares como Nísia Floresta, com um patrimônio dessa monta deve haver uma politica pública de proteção diferenciada, não por privilégio, mas por dever de salvaguarda. O verdadeiro privilégio é saber que a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta, é um museu vivo, um elemento singular, inigualável, um tesouro da História da Arte e da Arquitetura Sacra. 


A Prefeitura Municipal de Nísia Floresta e a Câmara Municipal de Vereadores devem ao povo de Nísia Floresta a proteção desse tesouro. É hora de criar uma lei com edital para concurso, providenciando uma guarda especializada pela proteção 24 horas desse templo. Não se trata de privilégio, pois estamos falando da História do Brasil. Estamos falando de precaução.

Fica a reflexão e a sugestão.














sábado, 1 de março de 2025

Tarcísio Gurgel O informante da literatura potiguar



“Tarcísio Gurgel é um escritor de duas cabeças”. A definição é do próprio Tarcísio, explicando o fato de haver produzido literatura exclusivamente em Natal, mas inspirado no universo mítico de Mossoró, onde nasceu e participou de movimentos importantes, como o Teatro de Estudantes Amadores (Team).

Em entrevista exclusiva a O Mossoroense, o escritor revela elementos de sua obra ficcional, constituída por três livros de contos: “Os de Macatuba”, “O Eterno Paraíso”, e “Conto por Conto”, e comenta aspectos positivos e negativos da literatura norte-rio-grandense.

Ao longo da conversa, Tarcísio Gurgel, que confessa haver abandonado uma experiência com a poesia para se dedicar ao conto, na hora certa, antecipa detalhes sobre “Informações da Literatura Potiguar”, livro mais recente de autoria dele, cujo lançamento nesta cidade será hoje, às 18 horas, na filial da livraria A.S. Book Shop.

POR CID AUGUSTO

O MOSSOROENSE – Você nasceu em Mossoró, fez teatro na cidade, mas tornou-se escritor em Natal. Pelos critérios adotados em “Informação da Literatura Potiguar”, Tarcísio Gurgel é um escritor mossoroense ou natalense?
TARCÍSIO GURGEL – Tarcísio Gurgel é um escritor de duas cabeças, porque, na verdade, se você pegar a minha pequena obra de ficção curta, ela tem um imaginário que não é explicitamente mossoroense, mas certas situações remetem a isso. No último livro, “Conto por Conto”, tem uma história em que há alusão à luta política de Mossoró. Então, o meu universo mítico, por assim dizer, é Mossoró e isso me marcaria como um autor mossoroense. Mas, inegavelmente, toda a minha vida literária é em Natal.

OM – É possível alguém se tornar escritor?
TG – Tornar-se escritor é uma coisa de processo. Você nunca pode dizer: “A partir deste momento, eu me tornei escritor”. Mas comigo aconteceu pela orientação providencial de Deífilo [escritor Deífilo Gurgel, irmão de Tarcísio] que, aliás, foi quem decretou a morte do poeta em mim, em boa hora. Ele foi muito honesto ao ler os poemas que eu escrevia e ao sugerir, sem ser grosseiro: “Você não acha que você talvez escrevesse melhor conto?”, partindo de uma dedução simplista, que era a do meu envolvimento com o teatro.

OM – Por que Nísia Floresta e Milton Pedroza não podem ser considerados escritores norte-rio-grandenses, apesar de haverem nascido no Estado?
TG – Nísia, não. Ninguém mais européia, carioca, pernambucana que ela no âmbito literário, o que não diminui o valor intelectual da sua obra. Milton Pedroza, sim, e eu até me penitencio porque acho que não dei a devida ênfase à contribuição dele.

OM – Mas ele saiu sedo de Mossoró e do Rio Grande do Norte?
TG – Veja bem: ao sair, ele já havia publicado “Passos Cegos” e, parece-me, um outro trabalho cujo título não lembro. Há um substrato mossoroense, norte-rio-grandense, na obra de Milton que o torna presente em nossa literatura e ele, de resto, é um autor muito importante. Para se ter idéia, numa antologia de Graciliano Ramos, publicada postumamente, estão três autores do Rio Grande do Norte: Milton, Humberto Peregrino e Peregrino Júnior, sendo este um autor cuja obra mais importante é amazonense.

OM – Qual o caminho de Macatuba?
TG – O caminho de Macatuba passa por Mossoró e passa por outras cidades literariamente marcantes, numa gradação difícil de se explicar.

OM – As personagens de “Os de Macatuba” são inspiradas em pessoas reais de Mossoró?
TG – Não necessariamente. Aqui e acolá houve personagens episódicas que eu saberia identificar. Por exemplo, há um papagaio no livro que realmente existiu, e que foi iniciado em safadeza por uma prima minha, maravilhosa, chamada Aparecida, infelizmente já falecida. Durante muito tempo ela tentou pervertê-lo, até que conseguiu.

OM – A experiência de ator do Team, com participação em “Eles não Usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Gaurnieri, “Esquina Perigosa”, de J.B. Priestley, e “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes, exerceu que influência em sua carreira de escritor?
TG – Nessa coisa de facilitar a criação de diálogos, de uma certa agilidade com que esse diálogo se constrói. As coisas que eu escrevo, quanto à qualidade, não sou eu quem deve avaliar, mas, no que diz respeito aos diálogos, como eu exercito muito, eu escrevo, reescrevo, rasgo, até alcançar uma forma que me satisfaça, a coisa se constrói sem aborrecer o leitor e, com certeza, é fruto da vivência no Team.

OM – O seu segundo livro de contos, “O Eterno Paraíso”, é dedicado a Maria Pata Choca, Zé Alinhado, Manoel Cachimbinho, Benício Gago e Cristina dos Pimpões, entre outras figuras populares de Mossoró. É somente isso ou o contista buscou algo nelas para compor personagens?
TG – Essas figuras me ajudaram a construir esse universo mítico. Benício Gago, por exemplo, chegava à padaria de meu pai e os padeiros mexiam com ele. Quando estava de boa veia, Benício cantava uma musiquinha que, melodicamente, lembrava “Águas de Março”, o que cresce a minha convicção de que aquela música deve ter raízes populares.

OM – Por falar em dedicatória, “Informação da Literatura Potiguar” é dedicado a Luís da Câmara Cascudo, por ser “um clássico em qualquer literatura” e a Deífilo Gurgel, Vingt-un e Raimundo Soares de Brito, por serem “generosos exemplos”....
TG – Exatamente isso que eu penso. Cascudo é muito citado e/ou criticado, mas pouquíssimo lido. Quando as pessoas lêem Cascudo de forma seletiva, chegam à constatação de que eu não exagerei. E quanto a Vingt-un, Deífilo e Raimundo Soares de Brito, é que esses (não estou falando inverdade nem estou sendo grosseiro), embora não tenham atingido, por força das circunstâncias, aquele estágio literário, são pessoas de uma generosidade intelectual que me comove.

OM – Quais são essas circunstâncias?
TG – É que Cascudo teve o direito de se preparar para revelar à humanidade o talento dele, enquanto os outros lutaram com muita dificuldade, trabalhando desde muito jovens. O que Raimundo Soares de Brito faz em Mossoró, gastando os próprios proventos, que não devem ser tão altos, para manter aquele acervo, recebendo com carinho as pessoas que o procuram e valorizando a nossa produção intelectual, é incrível. Essa tarefa de Vingt-un com a Coleção Mossoroense, que já ultrapassa três mil títulos, ninguém, nenhuma instituição cultural do Brasil tem a coragem, a paciência e o zelo de fazer. De modo que todo tipo de homenagem a eles acaba sendo pequena.

OM – Foi mesmo a de Cascudo a maior contribuição para a literatura Potiguar?
TG – No que diz respeito ao tipo de produção literária, com traços distintivos de outros povos, eu nem sei se seria Cascudo. Com relação à vida cultural do Estado, tenho certeza. Há outro nome que se aproxima de Cascudo, que é Henrique Castriciano. Em determinado momento, Henrique serviu de exemplo para o próprio Cascudo.

OM – Cascudo era um animador cultural...
TG – Cascudo, também como Henrique, acabou sendo um animador cultural de extrema importância. Em alguns momentos eu digo, e alguns amigos ficam chocados, que chego a desconfiar de o que seria Jorge Fernandes se não tivesse tido um interlocutor como Cascudo, que ouvia e reconhecia a importância da poesia e, mais do que isso, remetia sua produção poética para outros intelectuais.

OM – Existe realmente uma literatura norte-rio-grandense ou é preferível chamá-la apenas de literatura produzida no Rio Grande do Norte?
TG – Há uma literatura norte-rio-grandense.

OM - Existem traços peculiares na produção livresca do RN?
TG – Não tenho dúvida de que a literatura produzida por Ferreira Itajubá era uma literatura norte-rio-grandense. Não tenho dúvida de que a literatura produzida por Palmira, Jorge Fernandes, Zila Mammede, Jaime Hipólito, Raimundo Nonato, é literatura norte-rio-grandense, pois possui peculiaridades culturais do nosso povo.

OM – Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, ou escrever maus versos não compensa?
TG – Escrever maus versos não compensa. Não há como se blefar com literatura, porque a literatura tem uma mensagem a ser veiculada, cujo elemento fundamental é a beleza, uma beleza que pode ser até feia, conforme nos ensinou Baudelaire.

OM – Antônio Marinho criticou duramente Segundo Wanderley, acusando-o de ser condoreiro em tempos de simbolismo. Ainda existem escolas em tempo de globalização?
TG – Se não um estilo de época, há pelo menos um discurso de época. Vivemos um período em que se colocam desafios em variados planos, período de uma revolução na eroticidade, na política, na economia, na configuração urbana, nos meios de transporte e, no plano das linguagens, algo que chega ao virtual, ao plano da Internet. O discurso de época tem que contaminar as obras de arte, afinal a gente não escreve para pessoas do passado, mas sim para dar a pessoas do futuro a dimensão de como as coisas se constituíram numa determinada época e local.

OM – E as formas?
TG – Ainda hoje há poetas exercitando, já não digo nem formas poéticas, porque essas são eternas, mas novos sentimentos, novos discursos.

OM – O que você acha das pessoas que optam por divulgar obras exclusivamente na Internet?
TG – Não me agrada muito. O suporte físico do livro ainda é muito veemente para ser descartado.

OM – No Brasil, há políticas culturais de efeito prático?
TG – Eu não acredito nessas leis de cultura que estão postas aí, até por uma questão de impaciência. O governo precisa é abrir linhas de crédito para quem escreve ter oportunidade de publicar e comercializar o próprio trabalho.

OM – Mudando o rumo da conversa, não seria a crítica uma tentativa de se impor o gosto pessoal do crítico?
TG – Isso depende do crítico. Por quê? Porque uma coisa é você levar em conta uma resenha feita por um cidadão que trabalha profissionalmente em jornal, com pouco mais de 25 anos de idade, e outra coisa é você pegar um trabalho crítico da dimensão de um Antônio Cândido.

OM – Mas a crítica é realmente importante?
TG – Ou a gente cuida de preservar características essenciais, não fazendo concessões demasiadamente, ou tende a ter uma literatura de qualidade inferior. Claro, eu sou o primeiro a reconhecer que isso é antipático, que isso é uma maneira até certo ponto grosseira de falar, sobretudo entre pessoas que estão se iniciando, mas vejo a crítica como uma necessidade. É aquela coisa de a gente, de alguma maneira, lutar pelo aprimoramento do gosto. Sem essa luta, corre-se o risco de se fazer um tipo de obra artística simplista.

OM – O RN possui bons críticos?
TG – A gente se ressente muito de um exercício crítico pra valer. Não existe crítica no Rio Grande do Norte. O último grande crítico daqui terá sido, certamente, Antônio Pinto de Medeiros, outro intelectual importante que passou por Mossoró. Acho até que Dorian Jorge Freire e o próprio Jaime sofreram influência do espírito meio irreverente de Antônio Pinto.

OM – Você compara os acervos das instituições públicas a velhos sótãos. Nossa cultura está entregue às ratazanas e traças?
TG – Em alguns casos, sim, infelizmente.

OM – O jornalismo roubou Dorian Jorge Freire da literatura ou ele seria uma espécie de escritor realizado no jornalismo?
TG – Eu tive dois prazeres enormes com cronistas norte-rio-grandenses, organizando um livro de Dorian e um de Sanderson Negreiros. Mas Dorian é um tipo de escritor lato senso [expressão que significa em sentido amplo]. Sobretudo quando ele trata de uma memória com acento de nostalgia, nenhum outro autor do Rio Grande do Norte consegue alcançá-lo. Dorian escreve de forma notável essa coisa da memória.

OM – A Coleção Mossoroense, coordenada por Vingt-un, não merecia análise mais profunda em “Informação da Literatura Potiguar”?
TG – Merecia, não: merece! Mas eu preciso realizar uma pesquisa mais aprofundada sobre a Coleção Mossoroense. Como me fixei em Natal e nem sempre dispus de muita oportunidade de fazer esse trabalho, acabei ficando devedor de algumas coisas.

OM – Os novos movimentos poéticos do Estado, tipo a Sociedade dos Poetas Vivos e a Poema, pecam pela ausência de uma estética?
TG – Os movimentos são muito válidos e muito importantes, mas todos os que existiram se caracterizavam por uma grande desorganização. No movimento modernista de São Paulo, por exemplo, um brigou com o outro, uns se destacaram mais, outros menos. Preocupa-me, muitas vezes, tentar um certo traço de união, uma identidade. O ecletismo que caracterizou a “Revista Antropofágica”, me agrada mais que um certo “espírito de corpo” de grupos constituídos que, muitas vezes tem a marca da generosidade, mas que, esteticamente, pode ser perigoso. No entanto, como esses do nosso Estado são movimentos muito novos, com certeza terão desdobramentos interessantes.

OM – Os romancistas norte-rio-grandenses são ruins ou o fato de estarem distantes dos grandes centros editoriais, fora das igrejinhas do Centro-Sul, é o responsável pela pouca divulgação de suas obras?
TG – A literatura do Rio Grande do Norte padece de uma situação muitíssimo curiosa, que é a seguinte: como ela praticamente nasceu em Natal, com um poeta de estrema popularidade, que era Lourival Açucena, criou-se uma coisa da poesia. A literatura do Rio Grande do Norte é uma literatura predominantemente poética e isso há de ter inibido alguns ficcionistas, inicialmente.

OM – Mas o Rio Grande do Norte não tem elementos interessantes para a ficção?
TG – A história cultural de Natal registra episódios e tem um sabor dramático, romântico, que faria a festa de qualquer ficcionista. E se a gente vai para Mossoró, essa é uma cidade potencialmente fantástica para a ficção. Espanta-me, exatamente isso. A gente não tem tido a sorte de ter grandes ficcionistas em Mossoró, produzindo a partir da saga mossoroense. Eu costumo dizer que enquanto Natal é lírica, Mossoró é épica.

OM – Como você analisa a sua própria ficção?
TG – Se você me perguntasse se eu considero o que eu escrevo em matéria de ficção uma coisa ótima, eu responderia que não considero; se você me perguntar se eu me acho um bom contador de histórias, também não. Na verdade, as histórias se constroem para mim, esses pequenos contos, com certa lentidão, com certa dificuldade. O que me socorre é o exercício com linguagens e, como eu sou egoísta, penso que todos deveriam fazer o mesmo.