quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A EDUCAÇÃO NA INFÂNCIA DE NÍSIA FLORESTA E A REALIDADE ESCOLAR DO RIO GRANDE DO NORTE OITOCENTISTA...

Nísia Floresta tendo aula com o pai, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa no Sítio Floresta, Papary. Dionísio foi sua grande referência e inspiração intelectual. Imagem inspirada por IA, sem compromisso com a fidelidade dos fatos.

Quanto mais se estuda a trajetória de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), mais se percebe que sua preocupação não se restringia à defesa dos direitos das mulheres, à educação feminina ou à crítica das desigualdades sociais. Sua obra, sua atuação pedagógica e seus escritos revelam uma atenção permanente à infância, à formação moral das novas gerações e ao papel da educação na construção de uma sociedade mais justa. Ela entendia que é na infância que se constitui o alicerce essencial do desenvolvimento humano adulto. Muito antes de o Brasil discutir direitos da criança, pedagogia moderna, proteção à infância ou políticas públicas voltadas para o desenvolvimento infantil, Nísia já compreendia que o futuro de qualquer nação depende diretamente da forma como ela cuida, educa e prepara suas crianças para a vida em sociedade.

Quando nasceu, em 12 de outubro de 1810, na então Vila de Papary, atual município de Nísia Floresta, o Brasil vivia um período de profundas transformações políticas e sociais. Apenas dois anos antes, a chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro havia alterado significativamente os rumos da antiga colônia. Apesar dessas mudanças, a infância brasileira continuava marcada por inúmeras dificuldades. A mortalidade infantil atingia índices alarmantes, epidemias assolavam as populações urbanas e rurais, o trabalho infantil era amplamente tolerado e a educação permanecia privilégio de uma reduzida parcela da sociedade. Crianças pobres, indígenas e negras raramente tinham acesso à instrução formal, enquanto milhares de crianças escravizadas eram submetidas ao trabalho precoce e privadas dos mais elementares direitos. Como observou o historiador francês Philippe Ariès, em sua clássica História Social da Criança e da Família, a própria noção de infância como uma fase distinta da vida humana é relativamente recente, pois durante séculos a criança foi vista apenas como um adulto em miniatura.

No Rio Grande do Norte, a realidade educacional das primeiras décadas do século XIX era marcada por profundas limitações. A antiga Capitania e, posteriormente, a Província dispunham de reduzida estrutura de ensino, poucas escolas públicas e escassas oportunidades de acesso à instrução. Ainda não existia um sistema educacional organizado, e as iniciativas de ensino restringiam-se, em grande parte, à educação doméstica, a aulas particulares ou aos ensinamentos ministrados por religiosos. Em muitas localidades, a alfabetização constituía um privilégio raro, acessível apenas a uma pequena parcela da população. Crianças do litoral, do agreste e do sertão cresciam auxiliando suas famílias na agricultura, na pesca, na pecuária ou nos afazeres domésticos, vivendo praticamente à margem da escolarização formal.

Foi nesse cenário que nasceu, em 1810, na então Vila de Papary, Dionísia Gonçalves Pinto, que mais tarde se tornaria conhecida como Nísia Floresta Brasileira Augusta. As chamadas escolas de primeiras letras somente começariam a se expandir de forma mais efetiva a partir das décadas de 1830 e 1840, enquanto instituições de maior porte, como o Atheneu Norte-Riograndense, seriam criadas quando Nísia já havia alcançado a idade adulta. Assim, apesar da notoriedade intelectual que conquistaria ao longo da vida, Nísia não frequentou escolas regulares durante a infância, simplesmente porque elas praticamente não existiam em sua realidade imediata, sobretudo para as meninas.

Sua formação educacional se deu pelas mãos de seu pai, Dionísio Gonçalves Pinto, de leituras, do contato com mestres particulares e, posteriormente, das experiências acumuladas em outras províncias do Brasil - como o Convento das Carmelitas em Goiana, Pernambuco - onde supostamente ela frequentou e na Europa. Talvez por ter vivenciado de perto as limitações educacionais de seu tempo, Nísia tenha desenvolvido uma compreensão singular da importância da infância e da instrução como fundamentos para a formação moral dos indivíduos e para a construção de uma sociedade mais justa e esclarecida.

Pouco se comenta que sua relação com o ensino começou ainda muito cedo. Após as dificuldades familiares decorrentes do assassinato de seu pai, Dionísio Gonçalves Pinto, a jovem Nísia assumiu responsabilidades incomuns para uma mulher de sua época. Aos dezoito anos de idade já ministrava aulas particulares, contribuindo para o sustento familiar e revelando uma extraordinária vocação para o magistério. Sua atuação como educadora iniciou-se em Pernambuco, onde entrou em contato com ambientes intelectuais mais dinâmicos e com debates relacionados à instrução p´blica. Posteriormente viveu no Rio Grande do Sul, ampliando sua experiência pedagógica e conhecendo diferentes realidades brasileiras. Essas vivências permitiram-lhe compreender que o principal desafio do Brasil não era apenas político ou econômico, mas sobretudo educacional.

Essa convicção alcançou sua expressão mais significativa quando, em 1838, já estabelecida no Rio de Janeiro, então capital do Império, fundou o célebre Colégio Augusto, cujo nome homenageava Manoel Augusto de Faria Rocha, seu marido falecido cinco anos antes. A instituição representou uma verdadeira inovação pedagógica em uma época na qual grande parte dos colégios femininos limitava-se ao ensino de bordado, costura, religião e boas maneiras. Nísia propunha algo muito mais ambicioso. Suas alunas estudavam literatura, história, geografia, ciências naturais, línguas estrangeiras e filosofia moral. Em pleno século XIX, defender que meninas recebessem instrução intelectual equivalente à dos rapazes constituía uma posição avançada e, para muitos, até mesmo ousada. Seu projeto pedagógico possuía como fundamento a formação integral da criança e do jovem, preparando-os não apenas para o ambiente doméstico, mas para a participação consciente na vida social.

Essa preocupação com a infância aparece de maneira particularmente sensível em sua obra Conselhos à Minha Filha, publicada em 1842. O livro constitui um dos mais belos testemunhos de afeto materno e reflexão educativa produzidos no Brasil oitocentista. Dirigindo-se à filha Lívia, Nísia aborda questões relacionadas à moral, à dignidade, à responsabilidade, à educação e à formação do caráter. Embora escrita em linguagem íntima e familiar, a obra ultrapassa os limites do círculo doméstico e apresenta uma verdadeira proposta de formação para a juventude brasileira. Ao escrever para sua filha, Nísia estava, simbolicamente, dialogando com toda uma geração de jovens mulheres e demonstrando sua confiança no poder transformador da educação. Essa obra, inclusive seria adotada por escolas católicas italianas, a pedido de uma autoridade religiosa.

Sua reflexão educacional alcançou maior profundidade em 1853, quando publicou Opúsculo Humanitário, uma das mais importantes obras pedagógicas do Brasil Imperial. Nesse trabalho, criticou duramente o abandono da instrução pública, denunciando a precariedade das escolas, a insuficiência de investimentos governamentais, a escassez de professores qualificados e a negligência das autoridades em relação à educação popular. Para Nísia, educar não significava apenas transmitir informações ou exercitar a memória. A verdadeira educação deveria formar seres humanos completos, capazes de desenvolver senso crítico, valores morais e consciência social. Nesse aspecto, suas ideias dialogavam com pensadores como Jean-Jacques Rousseau, autor de Emílio, ou Da Educação, e Johann Heinrich Pestalozzi, cuja pedagogia defendia o desenvolvimento integral da criança.

Enquanto Nísia difundia essas ideias inovadoras, a educação norte-rio-grandense avançava lentamente. Ao longo do século XIX, diversos presidentes da Província registraram em seus relatórios oficiais as dificuldades enfrentadas pelo ensino público. As reclamações eram constantes: falta de escolas, ausência de professores habilitados, carência de recursos financeiros e baixa frequência escolar. A Lei Imperial de 15 de outubro de 1827, considerada um dos primeiros marcos da educação pública brasileira, determinara a criação de escolas de primeiras letras em cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. Entretanto, sua implementação encontrava enormes obstáculos, especialmente em províncias periféricas como o Rio Grande do Norte. Historiadores como Augusto Tavares de Lyra, Luís da Câmara Cascudo e Rocha Pombo registraram essas dificuldades e demonstraram como a educação potiguar avançou de forma lenta e desigual durante o período imperial.

A história da educação no Rio Grande do Norte permite compreender de forma mais ampla o contexto em que nasceu e se formou Dionísia Gonçalves Pinto Lisboa, a futura Nísia Floresta Brasileira Augusta. Quando veio ao mundo, em 12 de outubro de 1810, na então Vila de Papary, a realidade educacional da antiga Capitania do Rio Grande do Norte era marcada por profundas limitações. Não existia ainda um sistema público de ensino organizado, tampouco uma rede escolar capaz de atender à população de maneira regular. As poucas iniciativas de instrução existentes encontravam-se dispersas entre a educação doméstica, aulas particulares ministradas por professores contratados pelas famílias mais abastadas e os ensinamentos oferecidos por religiosos. Em muitas localidades da capitania, a alfabetização constituía um privilégio raro, acessível apenas a uma reduzida parcela da população. Enquanto isso, crianças do litoral, do agreste e do sertão cresciam auxiliando suas famílias nas atividades agrícolas, na pesca, na pecuária ou nos afazeres domésticos, vivendo praticamente à margem da escolarização formal.

Foi nesse cenário que nasceu aquela que se tornaria uma das maiores educadoras da história do Brasil. As chamadas escolas de primeiras letras somente começariam a expandir-se de forma mais efetiva a partir das décadas de 1830 e 1840, quando Nísia já era adulta e estava muito longe de Papary. Instituições de maior porte, destinadas ao ensino secundário e à formação intelectual mais avançada, surgiriam ainda mais tarde. Entre elas destaca-se o Atheneu Norte-Riograndense, fundado em 1834, quando a futura escritora já se encontrava em sua juventude. Dessa forma, apesar da extraordinária notoriedade intelectual que alcançaria ao longo da vida, Nísia não frequentou escolas regulares durante a infância, simplesmente porque tais instituições praticamente não existiam em sua realidade imediata, sobretudo para as meninas. A sociedade oitocentista reservava às mulheres um papel predominantemente doméstico, limitando significativamente suas oportunidades de instrução formal.

Sua formação intelectual ocorreu por caminhos alternativos. A educação familiar, as leituras realizadas desde cedo, o contato com mestres particulares e, posteriormente, as experiências adquiridas em diferentes províncias brasileiras - a exemplo do Convento das Carmelitas, em Goiana, onde ela supostamente estudou breve período - e em diversos países europeus contribuíram decisivamente para a construção de sua vasta cultura. Talvez justamente por haver experimentado as limitações educacionais impostas às mulheres de sua geração, Nísia tenha desenvolvido uma compreensão singular da importância da infância, da instrução e da formação moral como fundamentos indispensáveis para a construção de uma sociedade mais justa, esclarecida e civilizada. Essa percepção seria refletida em seus escritos pedagógicos, em sua atuação como educadora e em sua defesa pioneira do acesso feminino à educação.

Ao longo do século XIX, a instrução pública potiguar avançou de forma lenta e gradual. Embora novas escolas fossem sendo criadas e o poder público passasse a dedicar maior atenção ao ensino, persistiam enormes dificuldades estruturais, especialmente nas regiões mais afastadas da capital. Somente com a Proclamação da República e a consolidação dos governos republicanos surgiriam condições para reformas educacionais mais profundas, capazes de transformar significativamente o panorama do ensino norte-rio-grandense.

As mudanças mais expressivas ocorreram nas primeiras décadas do século XX. Entre os governantes que mais contribuíram para a modernização da educação potiguar destaca-se Alberto Maranhão, cuja administração, especialmente entre 1908 e 1913, promoveu uma ampla reorganização da instrução pública estadual. Inspirado pelos modelos pedagógicos modernos que circulavam no país naquele período, Alberto Maranhão implementou reformas administrativas, fortaleceu a formação de professores, incentivou a expansão da rede escolar e introduziu novos métodos de ensino. Em 1908 foi criado, em Natal, o Grupo Escolar Augusto Severo, considerado um dos maiores símbolos da modernização educacional norte-rio-grandense. A partir desse marco, a educação pública estadual passou a incorporar práticas pedagógicas mais avançadas, estruturas organizacionais mais eficientes e uma concepção mais ampla da função social da escola.

O movimento de expansão da educação pública não permaneceu restrito à capital. Nas primeiras décadas do século XX, grupos escolares e estabelecimentos de ensino foram criados ou reorganizados em importantes centros urbanos do interior, como Mossoró, Caicó, Assú, Ceará-Mirim, São José de Mipibu e diversas outras localidades. Esse processo contribuiu para ampliar o acesso à escolarização e reduzir, ainda que lentamente, as desigualdades educacionais existentes entre Natal e os demais municípios do estado. Pela primeira vez, um número crescente de crianças das mais variadas origens sociais passou a encontrar oportunidades mais consistentes de acesso à instrução pública.

Foi nesse contexto de valorização da educação que o nome de Nísia Floresta passou a ser oficialmente incorporado à rede escolar potiguar. Em 1910, durante o governo de Alberto Maranhão, foram criadas escolas de primeiras letras em diversas localidades do Rio Grande do Norte, entre elas Papary, terra natal da educadora. Na ocasião surgiu a Escola Isolada Nísia Floresta, considerada uma das primeiras instituições públicas de ensino do município. O fato possui grande significado histórico, pois demonstra que apenas vinte e cinco anos após a morte da escritora, ocorrida em 1885, seu nome já era reconhecido pelo poder público como referência educacional digna de homenagem permanente. E tenho a impressão que isso possa ter sido sugestão do escritor - que também seria governador do Rio Grande do Norte - Antônio José de Melo e Souza, nascido em Papary. Ele assumiu o governo em seguida de Alberto Maranhão e, antes, ocupou importantes pastas nos governos anteriores, inclusive de Pedro velho de Albuquerque Maranhão.

A criação da Escola Isolada Nísia Floresta constituiu uma das primeiras manifestações oficiais de reconhecimento à contribuição da educadora para a história da instrução brasileira. Décadas depois de haver defendido a ampliação do acesso ao ensino e a valorização da educação feminina, sua memória retornava simbolicamente às salas de aula por meio de uma instituição destinada justamente à formação das novas gerações. O gesto também revelava a consolidação de seu prestígio intelectual no Rio Grande do Norte, transformando-a em símbolo da educação estadual.

A trajetória da instituição prosseguiria ao longo do século XX. Em 1950 foi criado o Grupo Escolar Rural, ampliando a estrutura educacional existente no município. Posteriormente, a evolução administrativa e pedagógica da unidade culminaria em uma nova etapa de sua história. Em 1978, o estabelecimento passou a receber oficialmente a denominação de Escola Estadual Nísia Floresta, nome que conserva até os dias atuais. Dessa forma, do ponto de vista histórico, existe uma ligação direta entre as iniciativas educacionais implantadas durante o governo de Alberto Maranhão e a instituição que atualmente preserva a memória da educadora em sua terra natal. Trata-se, na verdade, de um processo de evolução institucional que pode ser compreendido em três momentos fundamentais: a criação da Escola Isolada Nísia Floresta, em 1910; a criação do Grupo Escolar Rural, em 1950; e a adoção da denominação Escola Estadual Nísia Floresta, em 1978.

Paralelamente a esse processo de expansão educacional, como mencionei acima, destacou-se também a atuação do escritor e político Dr. Antônio José de Melo e Souza, filho da antiga Papary. Nascido na mesma terra que viu nascer Nísia Floresta, Antônio de Souza tornou-se uma das figuras mais respeitadas da vida intelectual norte-rio-grandense, associando seu nome aos esforços de fortalecimento da instrução pública e da formação educacional da juventude potiguar. A coincidência histórica é particularmente significativa: duas importantes referências da educação do Rio Grande do Norte surgiram daquele mesmo espaço geográfico marcado pelas lagoas, pelos engenhos, pelas tradições indígenas e por uma intensa vida cultural. Em épocas distintas, ambos contribuíram para o fortalecimento do ideal educativo no estado, representando diferentes momentos de uma mesma herança intelectual.

Ao longo do século XX, o crescimento da rede escolar norte-rio-grandense permitiu que os ideais educacionais defendidos por Nísia Floresta encontrassem concretização cada vez maior. A ampliação do ensino público, a valorização da formação docente, a criação de grupos escolares e a expansão das oportunidades de escolarização representaram avanços que, embora tardios, aproximaram a realidade educacional potiguar dos princípios defendidos pela educadora desde o século XIX. Nesse sentido, a existência da Escola Estadual Nísia Floresta, localizada justamente na antiga Papary, possui um significado que ultrapassa o âmbito institucional. Ela simboliza a permanência de um legado intelectual que continua a inspirar a educação potiguar e brasileira, reafirmando a instrução como instrumento fundamental de transformação social, formação cidadã e construção do conhecimento.

Ao mesmo tempo em que as instituições escolares se transformavam, também evoluíam os materiais destinados ao ensino. Durante a infância de Nísia, predominavam obras influenciadas pela tradição pedagógica portuguesa, incluindo textos inspirados nas ideias de Luís António Verney e diversos compêndios religiosos utilizados na alfabetização. Nas décadas posteriores, ganharam destaque autores como Abílio César Borges, o célebre Barão de Macaúbas, considerado um dos mais importantes educadores do Império. Também se destacaram nomes como Felisberto de Carvalho, Hilário Ribeiro e João Köpke, cujos livros didáticos foram utilizados por milhares de crianças brasileiras entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Mas talvez a dimensão mais humana da preocupação de Nísia com a infância esteja presente em suas reflexões sobre maternidade, afeto e formação moral. Em uma época na qual era comum que famílias mais abastadas delegassem a outras pessoas grande parte dos cuidados com seus filhos, ela defendia a proximidade entre mães e crianças e valorizava profundamente a amamentação materna. Muito antes do surgimento da pediatria moderna ou das campanhas oficiais de incentivo ao aleitamento, compreendia a importância dos vínculos afetivos estabelecidos nos primeiros anos de vida. Sua sensibilidade alcançava também as crianças pobres, órfãs, abandonadas e escravizadas, frequentemente esquecidas pelas políticas públicas e pelas elites da época.

Ao longo de seus setenta e quatro anos de vida, Nísia Floresta testemunhou acontecimentos decisivos da história brasileira, incluindo a Independência, o Primeiro Reinado, o período regencial, o Segundo Reinado e os debates que antecederam a Abolição da Escravidão. Em todos esses momentos manteve inabalável sua confiança na educação como instrumento de transformação social. Por essa razão, talvez seja correto afirmar que Nísia Floresta não foi apenas pioneira da educação feminina ou precursora do feminismo brasileiro. Foi também uma das primeiras intelectuais do país a compreender a infância como fundamento da cidadania, da justiça social e do progresso nacional.

Quando ensinava meninas, quando escrevia para mães e filhas, quando dirigia seu colégio, quando denunciava a precariedade das escolas ou quando sonhava com um Brasil mais instruído, estava, na verdade, defendendo as crianças. E talvez seja justamente essa a sua herança mais duradoura. Muito antes dos ministérios da educação, das campanhas de alfabetização, dos grupos escolares republicanos, dos conselhos tutelares ou do Estatuto da Criança e do Adolescente, uma mulher nascida às margens da lagoa de Papary já havia compreendido uma verdade que permanece atual: nenhuma nação se torna verdadeiramente grande quando abandona suas crianças ao esquecimento.

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