sexta-feira, 9 de outubro de 2026

NÍSIA FLORESTA E A DEFESA DA AMAMENTAÇÃO

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Muito antes de o Brasil discutir campanhas públicas de incentivo ao aleitamento materno, muito antes de a Medicina moderna transformar a amamentação em pauta de saúde pública, uma mulher nascida na antiga Papary - atual Nísia Floresta - já escrevia sobre a importância moral, afetiva, educativa e social de a mãe amamentar os próprios filhos. Essa mulher chamava-se Nísia Floresta Brasileira Augusta.

A História intelectual brasileira ainda conhece pouco essa dimensão extraordinária de sua obra. Costuma-se lembrar Nísia como pioneira do feminismo brasileiro, defensora da educação feminina, tradutora de ideias progressistas europeias e crítica das injustiças sociais do século XIX. Contudo, existe um aspecto profundamente avançado em seus escritos que merece reconhecimento ainda maior: Nísia foi também uma das primeiras intelectuais brasileiras - e provavelmente a primeira mulher escritora do país - a defender explicitamente a amamentação materna como dever natural, afetivo, educativo, moral e até patriótico da mulher brasileira.

Tal afirmação não nasce apenas de entusiasmo interpretativo contemporâneo. Diversos pesquisadores de sua obra vêm demonstrando que a questão da maternidade e da amamentação ocupa lugar relevante em seu pensamento pedagógico e civilizacional. Entre esses estudiosos destacam-se Charlotte Liddell, Constância Lima Duarte, Zilá Bernd, Michelle Perrot e Mary Del Priore, entre outros estudiosos da maternidade, da educação feminina e da condição da mulher no século XIX.

No Brasil oitocentista, especialmente entre as elites urbanas, era extremamente comum que mulheres brancas entregassem seus filhos aos cuidados de amas de leite negras, quase sempre escravizadas. Essas mulheres africanas ou afrodescendentes amamentavam os filhos das famílias senhoriais, muitas vezes em detrimento dos próprios filhos biológicos. A prática estava profundamente ligada à estrutura escravista do Império. As amas de leite tornaram-se figuras centrais da vida doméstica brasileira durante o século XIX, constituindo um dos mais perversos aspectos da escravidão urbana.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA AOS 22 ANOS DE IDADE

A historiadora Mary Del Priore demonstra, em seus estudos sobre maternidade e cotidiano no Brasil colonial e imperial, que a terceirização da amamentação era vista como símbolo de distinção social entre as elites. A mulher aristocrática muitas vezes evitava amamentar por razões estéticas, sociais ou médicas, transferindo às escravas a responsabilidade pelo aleitamento infantil. Tal sistema gerava profundas violências afetivas, raciais e humanas.

Foi justamente contra essa lógica cultural que Nísia Floresta Brasileira Augusta se insurgiu intelectualmente. Oportuno ressaltar, embora não me recordo no momento sobre a autoria - mas li há algum tempo - há um texto publicado num jornal natalense, intitulado Nísia Floresta: Racista?, justamente focado no livro O Brasil, emque ela relata experiências observadas na França, especialmente em aldeias onde famílias camponesas recebiam crianças das elites urbanas para serem amamentadas por amas de leite. Ali, Nísia descreve cenas dramáticas de abandono, sujeira, negligência e exploração infantil. Entre os episódios mais chocantes mencionados por pesquisadores da obra está justamente o caso de uma criança devorada por um porco, fato que profundamente a impressionou.

Nísia Floresta acreditava que a formação moral da criança começava no pr´prio seio materno e que a mãe exercia papel decisivo na construção ética, afetiva e educacional da sociedade. Por essa razão, via o distanciamento materno e a transferência da criação dos filhos a terceiros como um grave problema social e moral. Seu pensamento, naturalmente, apresenta ambiguidades típicas do século XIX - como ocorre com praticamente todos os intelectuais de sua época -, mas isso está muito distante de transformá-la numa defensora do racismo escravista. Ao contrário, há fortes indícios de que Nísia enxergava o sistema das amas de leite como mais uma deformação produzida pela escravidão e pelos costumes artificiais das elites aristocráticas, tanto europeias quanto brasileiras. Sua crítica dirigia-se sobretudo ao abandono afetivo da maternidade e à mercantilização da infância, num sistema em que mulheres pobres e escravizadas eram frequentemente exploradas para suprir aquilo que as classes abastadas se recusavam a exercer: o cuidado direto e amoroso dos próprios filhos.

Em Opúsculo Humanitário, publicado em 1853, ela constrói uma poderosa reflexão sobre maternidade, educação e responsabilidade feminina. Embora a obra seja mais conhecida pela defesa da emancipação intelectual da mulher, vários trechos tratam diretamente da maternidade e da relação entre mães e filhos. Nísia acreditava que a amamentação fortalecia não apenas os vínculos afetivos familiares, mas também a própria formação moral da sociedade brasileira.

A pesquisadora Charlotte Liddell, em importante estudo acadêmico intitulado Nature, Nurture and Nation: Nísia Floresta's Engagement in the Breast-Feeding Debate in Brazil and France, demonstra que Nísia inseriu-se diretamente nos debates internacionais do século XIX sobre amamentação, maternidade e cidadania feminina. Segundo Liddell, Nísia compreendia o aleitamento materno como prática “natural e patriótica”, associando o ato de amamentar à construção moral da nacionalidade brasileira. E aqui reside um dos aspectos mais impressionantes de seu pensamento.

Nísia não tratava a maternidade apenas como experiência privada. Para ela, a mãe exercia papel fundamental na formação ética da nação. A educação dos filhos começava literalmente no colo materno. A amamentação aparecia como primeiro gesto pedagógico, primeiro elo afetivo e primeiro compromisso social da mulher com o futuro da sociedade.

A professora Constância Lima Duarte observa que toda a obra da escritora potiguar está atravessada pela defesa da educação moral feminina. Para Constância, Nísia entendia a mulher como agente civilizador da sociedade, o que naturalmente incluía os deveres maternos e a formação da infância.

Da mesma forma, como pesquisador, chamo atenção, em diversos ensaios e estudos sobre Nísia Floresta, para o caráter profundamente humanitário de sua obra. Destaco que Nísia percebia a maternidade como espaço de construção ética da sociedade brasileira, associando educação, sensibilidade e responsabilidade materna ao progresso nacional.

Em seus escritos, Nísia criticava duramente a vaidade e os hábitos aristocráticos das elites brasileiras que terceirizavam a criação dos filhos às amas de leite escravizadas. Ela via nisso não apenas um afastamento afetivo entre mãe e criança, mas também um problema moral e educativo. Em sua visão, mães que abandonavam voluntariamente a amamentação comprometiam parte essencial da formação emocional dos filhos. É importante compreender a ousadia disso no século XIX.

Nísia nasceu numa sociedade escravista. Sua família possuía escravos; seus tios da parte de sua mãe, Antônia Freire, de Goianinha/RN, também os possuíam. Havia inclusive em seu convívio uma escrava chamada Pepe, que a acompanhava desde cedo e que Nísia muito a citou, expressando amorosidade e respeito pela mesma. Isso torna ainda mais significativo o percurso intelectual da autora, pois ela foi gradualmente percebendo as profundas contradições morais daquele sistema e compreendendo que havia algo profundamente errado na naturalização da escravidão e da exploração humana. Criticar o sistema das amas de leite significava tocar diretamente numa das estruturas mais íntimas da sociedade imperial brasileira. Afinal, aquelas amas negras eram também parte do sistema doméstico da escravidão urbana. Muitas eram alugadas, compradas ou exploradas economicamente exatamente por sua capacidade de amamentar.

A historiadora francesa Michelle Perrot, ao estudar o papel das mulheres na sociedade oitocentista, observa que a maternidade passou, durante o século XIX, a ser reinterpretada como missão moral da mulher burguesa. Nísia dialogava diretamente com esse universo intelectual europeu, especialmente com autores franceses que defendiam o fortalecimento dos vínculos maternos como fundamento da regeneração social.

Além disso, os estudos contemporâneos reconhecem que a posição de Nísia sobre a questão carregava contradições típicas de seu tempo. Charlotte Liddell observa que sua defesa da maternidade patriótica acabava limitada pelos preconceitos raciais presentes na sociedade oitocentista. Ainda assim, o fato extraordinário permanece: Nísia foi uma das primeiras mulheres brasileiras a transformar a amamentação em tema de reflexão intelectual, educacional e social.

Em Conselhos à Minha Filha e também em diversos textos reunidos posteriormente em Opúsculo Humanitário, a autora insiste na importância da formação moral das mães e da participação feminina consciente na educação infantil. Sua concepção de maternidade estava profundamente ligada ao projeto de civilização do Brasil.

A pesquisadora Zilá Bernd ressalta que a escrita de Nísia articula constantemente educação, maternidade e identidade nacional. Em suas análises, percebe-se que a autora potiguar compreendia a mulher como núcleo moral da sociedade brasileira, visão que inevitavelmente conduzia à valorização da amamentação materna. Talvez por isso Nísia enxergasse na amamentação algo muito maior do que simples nutrição biológica. Ela via ali um ato de amor, responsabilidade, educação e construção da cidadania. Existe algo profundamente simbólico nisso tudo.

A mesma mulher que defendia educação para mulheres, criticava injustiças sociais e escrevia contra a escravidão também percebia que o futuro de uma nação começava nos braços de uma mãe. Num século em que poucas mulheres podiam sequer publicar livros, Nísia Floresta Brasileira Augusta ousou discutir maternidade, educação infantil, afetividade familiar e responsabilidade social feminina como questões centrais para o progresso do país.

Mais impressionante ainda é perceber que, antes dela, praticamente não se conhecem no Brasil textos femininos de circulação intelectual defendendo explicitamente que as mães não transferissem a outras mulheres - especialmente às amas escravizadas - a responsabilidade de amamentar os próprios filhos. Sob esse aspecto, Nísia pode ser considerada verdadeira pioneira da defesa da amamentação materna no Brasil.

Hoje, quando campanhas de saúde pública defendem o aleitamento materno como instrumento de fortalecimento emocional, imunológico e psicológico das crianças, torna-se impossível não reconhecer o caráter visionário daquela mulher nascida em Papary. Mais uma vez, Nísia Floresta Brasileira Augusta estava muito à frente de seu tempo.

REFERÊNCIAS

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: EDUFRN, diversos ensaios e edições.

FLORESTA, Nísia. Opúsculo Humanitário. Rio de Janeiro: Typographia de M. A. da Silva Lima, 1853.

FLORESTA, Nísia. Conselhos à Minha Filha. Rio de Janeiro: edição histórica.

FREIRE, Luís Carlos. Ensaios, artigos e estudos sobre Nísia Floresta publicados no blog "nisiaflorestaporluiscarlosfreire", dedicado à autora.

LIDDELL, Charlotte. Nature, Nurture and Nation: Nísia Floresta's Engagement in the Breast-Feeding Debate in Brazil and France. Estudo acadêmico sobre maternidade e amamentação na obra de Nísia Floresta (TRADUÇÃO: Fídias A. C. M. P. F.)

PERROT, Michelle. Minha História das Mulheres. São Paulo: Contexto.

PRIORE, Mary Del. História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto.

PRIORE, Mary Del. Ao Sul do Corpo: condição feminina, maternidade e mentalidades no Brasil Colônia. São Paulo: Editora UNESP.

TELLES, Norma. Estudos sobre escritoras brasileiras do século XIX e maternidade.

BERND, Zilá. Estudos sobre literatura feminina brasileira e identidade nacional.


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