ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 3 de março de 2014

LENDA NISIAFLORESTENSE - "FLORBELA MARIA"

           

          Muito antigamente, quando Nísia Floresta se chamava Papari, a região era coalhada de engenhos de cana-de-açucar, movidos à força animal. Durante o dia os carros-de-boi cruzavam estradas, veredas, engenhos, sítios e fazendas, tangidos pelos escravos. Esses carros eram como imensas carroças feitas com troncos de madeira, puxados por juntas de bois. Alguns chegavam a ter oito animais agrupados. Só assim conseguiam movimentar o pesado veículo sempre carregado, ora de açúcar, ora de lenha, ora de aguardente, ora de melado. As gigantescas rodas rangiam tal qual um gemido, e os ventos levavam longe aquele clamor triste como choro.

           
 Papari, isolada junto ao seu povo simples, parecia não se importar muito com assuntos políticos. E desse modo sequer imaginava sobre a abolição, cujas conferências pipocavam aos montes na Corte. Algumas – por ironia -  ensaiadas por uma conterrânea que saíra pequena dessas plagas.
E na cadência dos afazeres a negrada fervilhava pelos canaviais e veredas, levando nas costas as ordens de seus senhores, as quais deveriam ser rigorosamente cumpridas, evitando assim os típicos e indesejáveis castigos.
Essa história passou-se no Porto, exatamente no Engenho “Flor de Cuba”, numa alusão a um tipo de cana-de-açucar muito comum por aqui. A propriedade era uma imensidão verde de coqueirais, fruteiras, cana e mata natural que se perdiam de vista.  


Coronel Leôncio Passos, o dono, era homem enérgico e sisudo, intolerante a qualquer coisa que o desagradasse. A ele atribuíam mortes de infelizes escravos que fugiram e eram capturados pelos capitães do mato – espécie de administrador. Comentavam que ele dava cabo a vida dos infelizes pretos que o retrucavam, ou tinham a ousadia de peitá-lo. Tais histórias eram contadas ‘a boca miúda’, pois o dito senhor de engenho era mais temido que respeitado.
 Leôncio era casado com a senhora Rogaciana Jansen, descendente de uma importante família da província de São Luiz do Maranhão, a qual conhecera quando empreendera compra de escravos naqueles confins.
Nessa época os costumes e hábitos familiares eram muito diferentes. A ‘honra da família’ era um patrimônio de valor incalculável, cujas famílias preferiam perder tudo o que tinham que perder a honra. Quando essa honra era ferida as consequências eram muitas vezes trágicas.

A questão de caráter, moral e valores familiares – embora que alguns deles moldados por hipocrisia – eram cultuados. As filhas só se casavam com homens prometidos, independente de gostos pessoais como beleza, modos etc. E desse jeito eram formadas as famílias, tal qual os costumes coloniais.


Muitas moças foram casadas a contragosto com senhores muito mais velhos, bufões, rabugentos e grotescos. Encerravam uma vida marcada por decepções, recebendo ordens como se fossem servas, sem direito a retrucar qualquer autoritarismo.
Algumas tornavam-se meras cuidadoras do lar e dos filhos, fingindo não perceber seus maridos chafurdando com as meretrizes e com incontáveis escravas, ignorando-as como esposas. Muitas sequer passaram a gostar dos seus pares, nutrindo pelos mesmos um ódio que acabava sendo levado para o túmulo.
As moças mais sortudas – embora fosse raro -  se apegavam à sorte de casar-se com rapazes da mesma situação socioeconômica, vizinhos que cresciam juntos. Feio ou bonito pelo menos comungavam de ideais parecidos. Mas isso era exceção.
Foi justamente por questão de ‘honra ferida’ que passou-se essa história escabrosa nos recônditos da velha Papari.


Esse senhor de engenho – filho de portugueses – possuía uma única filha por nome de Florbela Maria. Moça de beleza radiante. Dona de delicadeza e modos que a tornavam uma verdadeira princesa europeia. Olhos azuis, nariz afilado, pele louçã e cabelos ruivos. Suas mãos eram delicadas fazendo jus a exímia pianista que era. Lia e falava fluentemente a língua francesa, fazendo o pai importar de Paris livros de romances, além dos mais belos vestidos e assessórios de moda e toilete, os quais usava para ir à missa ou para os elegantes bailes que sacudiam o Vale do Capió. Não existia outro destino para as famílias esparecerem, numa época em que o banho de mar era raro recurso terapêutico, e visitas às lagoas eram diversões nem tanto atrativas. Toda essa região era  pincelada por casarões anchos, envoltos num interminável tapete verde, no qual pastavam o gado. A paisagem – cheia de lirismo – parecia um quadro vivo.
A presença de Florbela atraia a atenção de todos. Não havia como vê-la sem contemplá-la. Bastava ela se apresentar no alpendre da casa de engenho que os escravos, ou quem estivesse por perto, esticassem os olhos, contemplando-a como se toda a beleza do mundo ali tivesse feito morada. Os negros chamavam-na “Nhá Fulô”.


As senhoras da região diziam que vê-la era como olhar as pinturas angelicais encontradas no teto da matriz. Outros a comparavam com a beleza de uma santa.


Quando a carruagem da família parava de fronte à Matriz já estavam reunidas diversas pessoas, ansiosas para ver “Nhá Fulô” cravejada de joias, cuja vestimenta complementava uma imagem principesca. Florbela, acostumada ao imenso sobrado colonial, onde passava o dia, parecia não notar o fascínio que exercia nas pessoas, comportando-se de forma indiferente, mas sem ser indelicada. Seus gestos eram suaves e o olhar meigo e sereno.
Naquela época as moças nascidas em lares abastados só se dirigiam às pessoas comuns acompanhadas dos pais ou do irmão mais velho.


As moças da localidade sonhavam com um momento ao lado de Florbela. Nem que fosse para trocar poucas palavras. Elas queriam conhecê-la, vê-la tocando o piano, saber dos seus gostos, do que ela pensava da vida, e até mesmo ouvir algumas palavras em francês, as quais, para elas era algo do outro mundo.
A família, assim como outras – do mesmo nível econômico – tinha lugar reservado próximo ao altar. Eram cadeiras de jacarandá, acolchoadas com seda vermelha, cujos próprios donos compravam-nas para esse fim.
Florbela tinha dezessete anos, mas aparentava um pouco mais. Nos bailes não costumava dançar, mas quando encetava alguma valsa ou modinha, tinha o pai ou o primo Izidoro como pares definitivos. 



Os moços do lugar olhavam-na e cobiçavam-na. Mas sequer ousavam aproximar-se. Era um misto de respeito àquele ser tão puro, e ao mesmo tempo, temor ao pai, cujo olhar e a própria aura afastavam a todos.


Leôncioo era alto, bigodes fartos, com pontas voltadas para cima igual anzol. Os cabelos, grisalhos, emprestavam-lhe fisionomia até bonita, principalmente vestido para momentos de gala. A esposa, Rogaciana, era muito reservada e não dada às vestimentas modernas. Tinha predileção por cores escuras. Gostava de dançar, mas não se excedia, pois a polidez e o recato lhe eram muito fortes. Bela mulher de quarenta e dois anos.
Foi justamente num desses bailes que teve origem a semente de uma tragédia que se sucederia algum tempo depois. Florbela conheceu pela primeira vez um sentimento diferente. O causador dessa sensação fora Herculano Pereira, o qual encantou-a desde o primeiro momento que o vira, diferente dos demais rapazes da região.
A jovem não ousou conversar com ninguém sobre o assunto, mas sentia-se desconfortável, pois não tirava o rapaz do pensamento. Certo dia, passeando nas terras da fazenda, pajeada pela escrava Maria Pitu, viu ao longe um homem cortando mato. Qual foi a sua surpresa quando aproximou-se e constatou tratar-se do jovem que vinha lhe tirando o sono. Sua reação foi tão desconsertante que a escrava percebeu e alertou-a sobre o perigo que ela estava causando ao infeliz rapaz.
Mas como a linguagem do coração é desafiadora, o jovem também nutria sentimento igual desde o dia do baile. Herculano era um belo rapaz de 23 anos, filho de um pequeno sitiante da região. Naquele momento ele estava cortando um lote de cana que o pai comprara do pai de Florbela.
Ambos se olharam, mas o recato fluiu de igual maneira. A escrava puxou-a pelos braços e no caminho teceu todo um sermão sobre os riscos que a menina corria. E num instante já estavam no casarão. Maria Pitu chamou-a para o quarto e dedilhou mais um rosário de conselhos, precavendo-a da reação do pai.



Certo dia Florbela desvencilhou-se dos olhares vigilantes de Maria Pitu e saiu em direção ao partido de cana no qual vira Herculano. Por sorte ou azar o rapaz encontrava-se trabalhando no mesmo local. 

Ao retornar, Florbela constatou que não tinham notado a sua ausência. Maria Pitu engrossava um doce de goiaba no imenso tacho de cobre, junto ao fogão à lenha. O fato de ela dar-se a longas horas de leitura em seu quarto ajudou-a. Mas a partir daquele encontro tão furtivo, ela viu aumentar a sua vontade de estar ao lado de Herculano. Próximo dali o rapaz sequer conseguia dormir. Estava tomado de paixão, e certo que o senhor Herculano jamais permitiria que sua filha se casasse com ele, por sua condição econômica. Isso parecia aumentar o seu sentimento. Os pensamentos fervilhavam sem parar.
Florbela, confiante em suas horas insuspeitas junto aos livros, mais uma vez esquivou-se da vigília e abalou-se até o canavial. Caiu nos braços de Herculano. Os corpos se uniram, segredados pelos coqueirais. 



Era uma tarde morna de dezembro. Os amantes não conseguiram adiar o ardor que os consumia, aplacando ali mesmo aquela paixão. O sol tocava a paisagem, pintando-a de mel. Ambos sentiam-se num paraíso. Era hora de retornar.
A partir daquele dia Florbela foi tomada pelo desespero, pois sabia das consequências do seu ato. Tinha consciência que com o passar dos dias as evidências apareceriam. Sensação semelhante era sentida por Herculano. Ele tinha certeza que a diferença socioeconômica de ambas as famílias impediriam o seu objetivo. Florbela tinha convicção das piores coisas e já planejava fugir com o seu amado. Aguardava apenas o próximo encontro para planejar a fuga.
 Alguns dias depois Herculano apareceu sem avisar na casa grande e pediu para falar com o senhor  Leôncio. Florbela ficou desesperada ao saber daquela visita. Procurou um local na casa para conseguir ao menos escutar a conversa. Sabia que seus pais sequer imaginavam da relação dos dois. Ela não conseguia entender o que trazia Herculano à sua casa. Sabia que seu pai jamais permitiria a união dos dois, e que a tentativa de o rapaz convencê-lo seria fracassada e consistiria em mais um problema. Para ela a única solução era a fuga.


O senhor Vespasiano, pensando tratar-se de negócios, ficou chocado quando o rapaz pediu a mão de sua filha em casamento. Em fração de segundos gritou pelo capataz e pediu-lhe que o acompanhasse até a porteira do engenho, expulsando-o com xingamentos humilhantes, inclusive vociferou que “não tinha filha para casar com cachorro”.
Desconfiado, chamou Florbela para que ela explicasse as razões daquilo que considerou uma afronta. Ele queria saber como aquele rapaz apareceu ali sem sequer conhecer Florbela.


Amedrontada, ela preferiu teatralizar a mesma surpresa do pai, pois sabia que se contasse a verdade estaria adiantando uma tragédia. Tinha a certeza que a única forma de se unir a Herculano era empreendendo fuga. Eles teriam que sumir para sempre. E para muito longe. A visita do amado acabou piorando a situação, dificultando o encontro que ela já maquinava para planejar a fuga.
A partir daquele dia o senhor Herculano ficou desconfiado. Colocou uma vigília composta por vários escravos espalhados pelo engenho. Procurou o pai de Herculano e desfez os negócios que tinham, impedindo o rapaz de entrar em sua propriedade. A situação ficou difícil para os amantes. Em Papari não se falava em outro assunto. Herculano sentiu-se humilhado e buscava loucamente uma solução que nunca vinha.
Florbela não tinha outra saída. Conversou com Maria Pitu e pediu que ela a ajudasse a fugir. A escrava tremeu só de ouvir, mas, piedosa como era, aceitou ajudá-la.



Uma vez por semana Maria Pitu se abalava até o centro de Papari, onde comprava mercadorias na única venda do lugarejo. Ela costumava ir numa pequena carroça usada exclusivamente para isso. Foi nessa carroça que Florbela escondeu-se, coberta por sacos de açúcar vazios. Ela teria o tempo que Maria Pitu costumava demorar nas compras para encontrar-se com Herculano e dali mesmo fugir. Mas a ingenuidade de ambas não convenceu o capitão do mato, logo na porteira de saída do engenho. Foram descobertas.
Aquela tarde foi curta para o tamanho da indignação do senhor Leôncio. A confusão durou quase à noite inteira, cujos pedidos de clemência da senhora Rogaciana não sensibilizaram o truculento senhor.
A infeliz escrava foi mandada para o ‘tronco’ e gemeu a madrugada toda sob incontáveis chicotadas dadas por um capataz. Florbela foi encerrada num quarto. Ali se alimentaria, faria a sua toalete e as demais necessidades. Só sairia com a companhia do pai.
Quatro meses depois a família recebeu convite para um baile nas proximidades. Florbela ficou desesperada. Sentiu minar a possibilidade de continuar escondendo a sua gravidez. O fato de ela ter sido trancada num quarto ao longo desses meses e receber apenas a visita de Maria Pitu, impediu que seus pais percebessem o aumento no volume da barriga.
Mas como tudo tem a sua hora e dia, Florbela teve que revelar a verdade. Ela ainda quis encobrir, mas o lindo vestido comprado para ela ficou muitas medidas abaixo do normal.


Naquela noite a casa tornou-se uma extensão do inferno. O senhor Leôncio gritava e andava para todos os lados. Quebrou louças, cadeiras e vidros das janelas. Virou um animal enfurecido. Dizia sucessivas vezes que nunca fora tão desmoralizado. Ninguém ousava dirigir-lhe qualquer palavra, nem a própria esposa que também o temia. A casa grande tornou-se tumultuada, impedindo que a escravaria do engenho dormisse. O homem dizia o tempo todo que Florbela tinha desonrado a família.
 Leôncio tentou tirar de Maria Pitu a verdade, mas esta apenas dizia que não tinha conhecimento de nada. Tanto ela quanto a senhora Rogaciana pediam clemência. Em vão. Naquela mesma noite a infeliz pajem foi levada ao tronco mais uma vez, recebendo a culpa pelo fato de a situação ter chegado aquele ponto.
Leôncio deduzira de imediato que o autor daquela desmoralização era Herculano. E já traçara um plano para o ousado homem que tinha ‘manchado a honra da sua família’. O dia amanheceu sem que ninguém na casa pregasse os olhos.
Pela manhã mandou preparar os cavalos, carro de boi e carruagem e informou a sua esposa que ela iria para a casa de familiares na província de São Luiz do Maranhão, muito bem guarnecida por escravos e capitães do mato. A mulher não entendia aquela decisão súbita, mas o obedecera. 



Ele alegou que Rogaciana ficaria naquela província durante o período que ele levaria a filha para Portugal, na casa de familiares. Decidiu que seria dito à toda comunidade de Papari que sua filha havia partido para estudos. Aos escravos orientou que dissessem que “Nhá Fulô” fora estudar em Lisboa.
A esposa entristecera, mas entendera que diante de tanta desmoralização seria melhor que a filha ficasse longe. Era uma mulher resignada. Tinha certeza que o marido jamais receberia Florbela de volta. E não havia como contradizer qualquer decisão do marido. Naquela época as mulheres viviam numa submissão humilhante. A única atividade na qual as mulheres tinham total autonomia era na condução dos afazeres domésticos. Sobre esse assunto escritor francês Charles Expilly, que esteve por essas plagas naquela época, registrou um antigo provérbio português muito falado e praticado no Brasil, o qual explica muito claramente esse comportamento: “Uma mulher já é bastante instruída, quando lê corretamente as suas orações e sabe escrever corretamente a receita da goiabada. Mais que isso seria um perigo para o lar” (p.269).



O senhor Leôncio mancomunou uma história fictícia. Diria aos parentes portugueses que a filha ficara viúva e escolhera novos ares para retomar a vida. E tudo transcorreu da forma como ele planejou. Mas, na realidade, seu plano era muito diferente.
Dois dias depois sua esposa partiu. Maria Pitu já não era mais a mesma pessoa. O sofrimento tornou-a insana. Começou a falar coisas desconectadas. Certo dia comentou no centro de Papari que “achava que o senhor Leôncio iria matar a filha”. Ele soube da conversa e ficou furioso. Indagou a negra, perguntando onde ela tirara tamanho absurdo. Maria Pitu, que já não se importava mais com nada, pois estava com quase setenta anos - idade rara para uma escrava – respondeu-lhe:
 “O sinhozinho pode até matar as pessoas, mas depois de mortas elas encontram uma liberdade que o senhor jamais encontrará. Eu sei que o senhor é um assassino. O senhor me vê como nada, mas sou sobrinha de um rei africano – sou de família lorde de Moçambique. Fomos tirados dos nossos países como bichos. Eu, sim, tenho sangue nobre que sequer o senhor possui. O senhor me menospreza, pois é incapaz de reconhecer o reinado de Guezô, do Danxomé, ao qual sou descendente.
O senhor Leôncio ouviu em silêncio as palavras para ele consideradas ofensivas e fruto de uma mente insana. Dias depois ordenou a um capataz que desse fim a vida da infeliz negra. Dizem que depois de morta Maria Pitu foi enterrada exatamente no local onde se encontra a casa da dona “Joaninha dos Padres”, na estrada do Porto. Na época o local era uma floresta fechada.



Três dias após a partida da senhora Rogaciana o senhor Leôncio colocou seu terrível plano em ação. Pediu que a escrava fosse para a senzala e ficasse por lá durante uma semana, pois ele estaria em constantes idas para as vilas próximas e não precisaria dos serviços da negra. Foi tempo necessário para que ele envenenasse a comida da filha
Naquela época os casarões possuíam paredes muito largas. Algumas chegava a ter um metro de largura, assim como as paredes da Igreja Matriz. Foi exatamente na parede da sala que ele retirou os tijolos e pedras e fez o túmulo da sua filha e do neto que ela trazia no ventre.
Após colocar o corpo, cobriu-o com cal, pedra e barro e lacrou a parede. Contratou um mestre de obras da Vila de Arês e pediu que ele rebocasse a parede, alegando que o pedreiro que fazia a reforma na casa havia se machucado. O mestre sequer suspeitou que finalizou o túmulo da filha do dono da casa grande. Dois dias depois a parede foi pintada com cal, adquirindo a característica anterior, sem despertar qualquer suspeita.


Toda a Papari se entristecera com a partida de Florbela para Portugal. A povoação perdera o seu brilho mais especial. Herculano, revoltado com a partida de sua amada, foi para a Bahia onde recomeçou os seus projetos pessoais.
Três meses depois ele mandou buscar a esposa. Teve o cuidado de mandar vir de Recife um baú com diversas fazendas, perfumes, louças, pratarias e assessórios femininos, comprados numa casa portuguesa ali existente. Para a esposa disse que havia comprado em Lisboa.
Rogaciana, como quase todas as mulheres daquela época, tinha nesses “mimos” se é que assim se possa dizer, o único momento de prazer com seus senhores. Era quando se sentiam lembradas e valorizadas.
Muito diabólico, ainda disse à esposa que havia colocado Florbela numa escola de Humanidades, onde ela iria enriquecer os seus conhecimentos. E para incrementar ainda mais, disse-lhe que deixara pago para a sua filha uma viagem a Paris, com o tio Leopoldo, irmão dele.
Perguntado sobre a escrava Maria Pitu, informou à esposa que a idade a havia deixado caduca, portanto a mandara para Vila Flor, onde ela dizia ter parentes. “Aquela preta velha não servia mais para nada, Estava velha” ´disse.
Dez meses se passaram e Rogaciana estranhara o silencio da filha, a qual não escrevia para contar-lhe as novidades. A inocente mãe ficava imaginando a filha em Lisboa, lendo, estudando, tocando piano e coisas assim. Sonhava com uma carta contando-lhe as novidades.

Após um ano e meio sem notícias d. Rogaciana passou a achar que a filha estava sendo ingrata. Via no silêncio de Florbela uma forma que ela encontrara para vingar a separação que nunca pode evitar. Na realidade, D. Rogaciana mesmo querendo não podia ter mudado aquela história, pois o controle de tudo estava nas mãos do marido.
Após quase dois anos sem notícias resolveu escrever. Naquela época as cartas eram levadas ao porto marítimo. De lá partiam para os seus destinos.
O senhor Leôncio, muito atento, ordenou a um dos capitães do mato que destruísse a carta e dissesse tê-la entregue no destino desejado. Assim foi feito.
Passaram-se seis meses sem resposta. Inconformada com a ingratidão da filha, escreveu novamente, implorando por novidades. Desta vez queria saber sobre o neto – ou neta. O marido disse que a esposa estava sendo boba ao insistir naquelas cartas. “Ela é uma ingrata. Mostrou realmente o que era. Desonrou nossa família e decerto está fazendo coisa parecida em Portugal. Tu és besta de insistir nessas cartas. Esqueça essa ingrata, pois de minha parte ela está morta” – disse o esposo.



O tempo passava e cada dia o coração de D. Rogaciana ficava mais apertado. Certo dia ela confidenciou a uma amiga da família, que estava morrendo aos poucos, pois o único amor da sua vida, a causa da sua existência, tinha abandonado-a. A amiga despertou-lhe um desejo que ela jamais pensara.
Certo dia ela disse ao marido que queria ir a Portugal visitar a filha. Senhor Leôncio quase teve um enfarto de susto, mas disfarçou a sua reação, deixando-a pensar que ainda era resquício do desgosto que a filha lhes dera. Ele foi implacável na resposta, dizendo que jamais iria vê-la, e que tanto a filha estava impedida de colocar os pés no engenho quanto a esposa estava impedida de ir a Portugal ver  “aquela desavergonhada”.
Como já foi dito, palavra de marido era uma sentença. Foi a partir daí que D. Rogaciana resignou-se para sempre. Esqueceu as cartas e resolveu guardar a dor para si. Buscou nos afazeres domésticos uma forma de matar o tempo. Optou por nunca mais falar sobre a filha, pois sabia ser em vão – pelo menos para o marido.



O tempo passou, veio a abolição dos escravos. A maior parte dos cativos partiu sem rumo. Apenas alguns optaram por viver no engenho, pois não sabiam como viver em outro lugar. Não tinham recursos para se manter fora dali. O Engenho “Flor de Cuba” já ensaiava o princípio de um fogo morto.
Dona Rogaciana já estava com oitenta anos e o senhor Leôncio contava noventa e dois.
O cotidiano da fazenda já não era mais o mesmo. O canavial definhara, tomado pelas ervas daninhas. O gado diminuiu grandemente. Os tachos de melado secaram. Já não se viam mais fumaça saindo das chaminés.
A casa grande também não era mais a mesma. Há tempo não recebera demão de tinta. As belas folhagens, as flores e roseiras que perfumavam o imenso alpendre, cederam lugar para um cheiro diferente. Cheiro de mofo. Cheiro de coisa velha. Cheiro de túmulo antigo.


Senhor Leôncio – que tinha fama de ser dono de toda a província vendera aos poucos diversas partes de sua propriedade, mas nem mesmo o fato de diminuir os seus bens aplacava sua personalidade geniosa e intransigente. Era pessoa detestada pela vizinhança. Apesar de idoso, era firme e parecia ter menos idade.
Certa noite, após duas semanas de chuva intensa, as estradas de acesso ao engenho estavam alagadas. A ex-escrava Inah não conseguira chegar à Casa Grande, onde vinha todas as noites para servir aos patrões.
A chuva estava torrencial naquela noite. O casal estava sentado no sofá da sala. Vez por outra a casa era iluminada pelos clarões dos relâmpagos. O barulho dos filetes de água caindo sobre as telhas eram fortes.


De repente surgiu uma infiltração exatamente na parede da sala. A água escorria como cachoeira. Em fração de segundos a parede se tornou uma mistura de lama desprendendo-se com os tijolos.
Os velhinhos, atônitos, olhava aquela cena, prontos para se refugiar em outro cômodo. Mas a cena seguinte os impediu. Um esqueleto veio junto com aquela massa de barro molhado. Logo em seguida caiu o esqueleto de um bebê arrastando junto uma roupa bordada com pérolas. Na mesma hora D. Rogaciana conheceu aquela peça.
“É a minha filha e o meu neto! O senhor matou a nossa filha e o nosso neto. Monstro cruel, como tiveste esta coragem?  Eu sabia que existia alguma coisa errada nessa história, mas nunca imaginava ser algo tão triste! Maldito, maldito! Amaldiçoado sejas tu!”
Essas foram as palavras de D. Rogaciana, a qual caiu sem vida, conseguindo ainda abraçar os esqueletos da filha e do neto, numa enfarto fulminante.


O velho Leôncio afastou-se lentamente. Ignorando tudo o que vira e ouvira. Desceu nas escadarias do casarão, saiu andando a esmo pelo engenho encharcado sob a chuva que seguia incontinente. Nunca mais foi visto.
Com o passar dos anos as terras do engenho foram tomadas pela mata. A casa grande tornou-se ruína. A história foi esquecida e os próprios nativos foram se apossando cada um de um pedaço de terra. Nunca apareceu herdeiro para reclamar a propriedade.

REFERÊNCIA

EXPILLY, Charles. MULHERES E COSTUMES DO BRASIL. São Paulo; Ed. Nacional, 1977. 320 p. 

CONTRIBUIÇÕES PARA A COMPREENSÃO DA HISTÓRIA DO POVOADO DE CURURU - NÍSIA FLORESTA




POR LUIS CARLOS FREIRE - 2000

          A história das estradas é tão antiga quanto à história do homem. Elas antecedem a era cristã, pois desde os primórdios a humanidade necessitou caminhar de uma região para outra em busca de interesses diversos. Quando Abraão (c.2000 a. C.) guiou o seu povo para a Terra Prometida, deixou a Caldéia e empreendeu viagem a Canaã para dar origem ao povo de Deus. Para realizar tal façanha Abraão abriu um novo caminho, até chegar à região desconhecida.



Praça atual  de Campo de Santana, há poucos Km's de Cururu
O surgimento de uma estrada ocorre a partir de um objetivo, no qual estão implícitos a necessidade de sobrevivência, o espírito aventureiro e a curiosidade natural do homem de buscar o desconhecido. Os povos nômades tinham como tradição permanecer um período em determinada região, e quando entendiam que esta estivesse estagnada pela exploração, deixavam-na em busca de novas terras. Dessa forma, abriam picadas no interior das matas aparentemente inacessíveis, vencendo animais selvagens, peçonhentos e os acidentes geográficos, sem imaginar que os resquícios de alguns desses caminhos transformar-se-iam, no futuro, em estradas, e que muitas delas seriam aproveitadas por colonizadores que um dia chegariam naquela localidade.
Isso aconteceu também em nosso país, pois muitas comunidades indígenas eram nômades e acabavam construindo uma verdadeira malha viária no Brasil pré-cabraliano.




 Com o “descobrimento” do Brasil e a participação jesuíta, esses religiosos idealizaram os aldeamentos justamente para conseguir restringir as comunidades indígenas a um local específico, quebrando-lhes o hábito do nomadismo que tanta dificuldade trazia para a catequese católica. Com tal estratégia foram “aldeados” em São José de Mipibu os indígenas do próprio local, os de Papari e de outros locais. Nessa região, tal prática deu-se através dos padres Capuchinhos, pois só assim conseguiriam incutir-lhes a doutrina católica.
Para melhor compreensão sobre o surgimento das primitivas estradas, pode ser analisada a informação de MEDEIROS (1985, p. 90): “[...] Donos do litoral, os potiguares da nação Tupi alongaram os seus domínio desde os limites da Paraíba (Guaju), até o Ceará, na direção sul-norte. De Natal para o sul, no vale do Capió, pontificaram nos limites da praia dos marcos de Baía Formosa, os nomes de Pau Seco, Sorobobé e Ilha Grande, chefe que foram dos Paiaguás, que tiveram seus campos nos atuais municípios de Vila Flor, Canguaretama, Pedro Velho, Várzea e Espírito Santo; dos Jundiás, que ocuparam Lagoa Salgada, Vera Cruz e Bom Jesus; e os Guaraíras, que habitavam Arês, Nísia Floresta, São José de Mipibu, Macaíba, Parnamirim, até Januário Cicco.”Analisando essa geografia indígena, supõe-se a existência de caminhos primitivos no litoral. Nesse caso, o autor refere-se aos domínios dos Potiguares numa extensão entre o Ceará e a Paraíba. Esse mesmo raciocínio pode ser considerado para refletir-se sobre a região litorânea do Brasil e, obviamente, das três Américas, cada uma com suas nações indígenas, tendo em vista que esses continentes já eram habitados há milhares de anos.
Diante disso, faz-se necessária uma análise aprofundada sobre o primitivismo humano em terras brasileiras, e em especial, nesse caso, na região entre Natal e as proximidades com a Paraíba. Abre-se um leque de hipóteses sobre a origem das comunidades indígenas, inclusive os caminhos construídos pelas mesmas. No caudal dessas discussões surgem até mesmo lendas – ou o que, até então é entendido dessa forma –, pois há quem defenda a ideia de que povos fenícios, já estiveram por aqui muito antes de Cristo, inclusive alguns deles no Rio Grande do Norte.
Existem teses, inclusive, que defendem a possibilidade de Pedro Álvares Cabral, ter chegado ao Brasil de posse de informações escritas antes de Cristo, conforme diz BRANCO (1971, p. 55) “[...] Foi Pedro Álvares Cabral quem descobriu o Brasil em 1500 (d.C.) ou navegadores Fenícios em 1100 (a. C.)? Cabral o terá descoberto por acaso, como narram os compêndios de histórias, ou ele já conhecia, detalhadamente, a descrição feita pelo historiador grego Diodoro, ao século I antes de Cristo, na sua História Universal?”. De acordo com alguns estudiosos, muito antes de Cristo algumas civilizações primitivas dominavam talentosamente a arte da navegação.
Fazem-se necessárias discussões sobre o assunto, inclusive sobre as intrigantes inscrições tidas como fenícias da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, datadas de 2800 anos a. C.



Inscrições feitas na Pedra da Gávea: mistério pouco explicado.

Pedra da Gávea - Rio de Janeiro

Robert Marx (Folha de São Paulo, 23.09.1982), norte-americano, mergulhador profissional e arqueólogo, considera o Brasil “o país mais rico do mundo em pesquisa arqueológica marinha”. O pesquisador fez questão de ir ao Rio de Janeiro para analisar ânforas encontradas em 1977 na Baia da Guanabara, RJ, atribuídas aos fenícios. Mas esse assunto foge da proposta desse texto.



A inexistência de material historiográfico no município de Nísia Floresta, São José de Mipibu e região – fruto da falta de educação de muitas autoridades que tem passado pelo poder – somada à falta de pesquisas e investigações sistemáticas por parte de órgãos competentes, levam a população ao desconhecimento de episódios importantes do seu passado enquanto cenário de desbravamento durante as primeiras décadas do descobrimento do Brasil. 


Centro de Nísia Floresta - Grande Natal
Os resquícios da estrada colonial entremeada com o centro de Papari (Nísia Floresta) e o litoral, passando por Cururu, a qual interligava-se com diversos pontos do país, é um exemplo digno de estudos aprofundados, e pode ter sua origem no contexto do nomadismo tratado anteriormente, podendo ter sido aproveitada pelos portugueses quando aqui chegaram.
Após o descobrimento do Brasil, houve um arrastão encampado pelos portugueses à procura de ouro e outras riquezas, inclusive no Rio Grande do Norte. O país passou por trezentos anos de isolamento por parte de outras nações, embora alguns países conseguiram furar o cerco e chegar ao Mundo Novo e explorar pau-brasil. Sabe-se que em 1501, Gaspar de Lemos veio ao Rio Grande do Norte, a mando do Rei de Portugal para oficializar – ou pelo menos tentar – o domínio português. Foi chantado no solo de Touros, região situada no litoral norte de Natal, na chamada Região do Mato Grande, o primeiro marco português no Brasil. Logo em seguida teve início a abertura das primeiras picadas, aproveitando os primitivos caminhos para dar vazão ao enxame de portugueses esganados que faziam dessas veredas, verdadeiras quinta avenida, ávidos por interesses diversos.
As informações sobre o Brasil eram guardadas sob sete chaves pela maioria dos portugueses, os quais visavam impedir que outras nações tomassem conhecimento das riquezas aqui existentes, pois grande era a curiosidade do Velho Continente. Mas como nem todos possuíam os avanços náuticos dos lusitanos – sofisticados para a época – poucos arriscavam-se a navegar pelos perigosos e lendários mares. Em 1504, franceses PESQ. fizeram incursões pelo litoral brasileiro e passaram a explorar pau-brasil durante décadas, escondidos ou sob a cumplicidade de muitos portugueses corruptos.
Para atingir os seus objetivos, os lusitanos cuidaram de preparar terreno, conquistando as comunidades indígenas com quinquilharias trazidas do Velho Mundo e trocadas por madeiras nobres, essências vegetais, especiarias, minérios baratos, objetos indígenas, animais e outros. A mesma surpresa que a civilização de Pindorama (País das Palmeiras) sentiu com os souvenires portugueses foi sentida em Portugal, ao receber esses exóticos produtos e as notícias de que por aqui existiam milhares de pessoas nuas pelas matas, vivendo de forma selvagem.
Logo após o descobrimento, os portugueses começaram a desenhar os primeiros mapas e cartas náuticas com o intuito de facilitar a movimentação dos empreendimentos que sucederiam-se. Inicialmente pelo litoral, e depois, pelo interior do país.
Caravelas portuguesas e francesas atracavam na região a qual está situada o município de Nísia Floresta, no porto de Búzios, e retornavam para a Europa, abarrotadas de pau-brasil. Milhares de búzios (cypraea moneta, linneu) foram levados para a África, onde serviam de moeda. Era uma festa. Os portugueses queriam apenas vantagens, relegando as comunidades indígenas a meros selvagens sem discernimento. Em 1564, Antonio Pinheiro, procurador de João de Barros, arrendou trechos de terras para corte de pau-brasil e colheita de búzios na praia homônima.
O Rio Grande do Norte viu seus mares tornarem-se pequenos para as esquadras provenientes do Velho Mundo. As comunidades indígenas surpreendiam-se com os objetos estranhos chamados de “caravelas” e “naus”, navegando mansa e silenciosamente pela costa potiguar, atracando também em Touros, Ponta Negra, “Pirangypepe” e Barra de Tabatinga, numa precursora ação de tráfico de madeira em terras brasileiras.


Mapa de Marcgrave
Num alvará datado de 1561, assinado pelo rei de Portugal, o porto de Búzios até então era denominado “Pirangypepe”, depois “Pyrangipe”, em língua tupi aportuguesada. Não se tratava da atual praia de Pirangi. Somente mais tarde houve a diferenciação, na qual a praia vizinha passou a ter esse nome.
Em 1570 os holandeses construíram em Pirangi uma imensa casa de pedra para guardar madeira e outros produtos, cujas ruínas ainda resistem. A estrada colonial contempla a primitiva construção. Entre 1571 a 1580, os cartógrafos Fernão Vaz Dourado e Jaime Cortesão organizaram vários mapas, nos quais aparecem nomes conservados até hoje, salvo pequenas diferenças de grafia, como Piranji, Tabatinga, “Camarapim”, lagoa Papary e rio Pirangi, onde era explorado o pau-brasil.
Em 1587 Gabriel Soares de Sousa, descrevendo a seção de terra entre o Cabo de São Roque e o Porto de Búzios, em seu “Tratado Descritivo do Brasil”, cita diversos pontos onde os franceses retiravam pau-brasil, dentre eles, Búzios e Tabatinga, em Nísia Floresta.



Casa de Pedra de Pirangi - Há poucos Km's do antigo Cururu
Há registros de que, em 1597, Mascarenhas Homem, capitão-mor de Pernambuco, flagrou no Porto de Búzios, sete caravelas recebendo carregamento de pau-brasil por traficantes franceses, prática esta iniciada décadas antes. Esse número elevado de embarcações dá ideia da quantidade surpreendente de árvores retiradas da costa potiguar.
Pouco depois, a Holanda lançou o seu olhar de cobiça ao Brasil, precisamente em 1621, quando comerciantes desse país, com a cumplicidade temporária de alguns portugueses – diga-se de passagem – passaram a dominar a navegação para o Brasil, graças a um intenso contrabando estabelecido por testas de ferro com origem no Porto e em Viana do Castelo, em Portugal. À época, quinze mil toneladas de açúcar chegavam aos países baixos, provenientes do Nordeste brasileiro.
Em 1624, com a intenção de tomar o domínio português, os holandeses invadiram a Bahia, mas fracassaram. Em 1630, invadiram Pernambuco e Paraíba, permanecendo ali em constantes conflitos. Nesse mesmo ano mandaram o holandês Adrien Verdonck espionar o Rio Grande do Norte, invadindo-o, quatro anos depois, quando dominaram a Fortaleza dos Reis Magos e mudaram o seu nome para Forte Keulen, e Natal para Nova Amsterdam (1633 a 1654).

Em 1637 chegou ao Brasil o militar e administrador holandês Johan Mauritz van Nassau-Siegen (1604-1679), o famoso “Maurício de Nassau”. 

Homem culto e visionário, o qual trouxe Georg Marcgrav (1610-1644) que tornaria-se autor dos primeiros mapas do Brasil, Willen Piso (ambos cientistas naturais), e Frans Post, Albert Eckhout e Zacharias Wagener, pintores retratistas. É iniciado um período de reconstrução em Recife e Olinda com inovações na arquitetura e no urbanismo. Durante esse período Marcgrav empreendeu várias expedições pelo Nordeste, em caráter cartográfico, inclusive esteve na Fortaleza dos Reis Magos e obviamente percorreu toda a costa do Rio Grande do Norte, pois a representou em mapas com a mesma característica atual. Os holandeses, diferentemente das relevantes contribuições dadas a Recife, nada fizeram de interessante entre Natal e Arês, áreas estas vasculhadas por eles, exceto elaborar importantes registros e mapas.
Num documento datado de 1607, provavelmente escrito pelo jesuíta Gaspar de Samperes, a região de Nísia Floresta é mencionada como “Uparari” e “Ipapari”, embora não refira-se exatamente ao povoado, mas a lagoa (ou rio) Papary. 




Diante disso é possível supor que o nome da localidade Papary (hoje Nísia Floresta) veio depois, numa alusão a sua paradisíaca lagoa.
Em 1640, o padre Manoel de Moraes registrou a lagoa Papary com o nome de “Para-Wassu”. Em 1643, Marcgrav a registrou como “Paraguaçu”. A cartografia de Marcgrav nomina várias localidades que hoje encontram-se em área nisiaflorestense, como “Piranhi” (Pirangi), Barra de Tabatinga, Camurupim, “Búsios” (Búzios) e “Upari” (Papary). Observando esse mapa, constata-se uma estrada que ligava Pirangy ao engenho de João Lostau Navarro, em Barra de Tabatinga; a partir daí seguia rumo ao sudoeste. Entre as lagoas “Ipuxi” ou “ipu-xim”, depois “Puxi” (atual lagoa do Bom Fim). Logo a seguir chegava-se á margem esquerda do rio Trairi.
Atravessando-a contornava-se a atual lagoa Papary, pelo lado oriental, procedendo-se da mesma maneira com relação à lagoa de “Guiraraira” (Guaraira) em Arês, até chegar ao Engenho Cunhaú. Marcgrav aponta também o local “Cururu-açu”. Será o antigo povoado de Cururu, localizado em Campo de Santana? É possível, pois pesquisando antigos mapas e topônimos indígenas do Rio Grande do Norte, não encontra-se outro Cururu nessas proximidades. Câmara Cascudo informa que em 1676 havia a lagoa “Paraguaçu” e o rio “Papari”, elementos naturais distintos.
Sobre o vocábulo “Papary”, na realidade, é uma criação do homem branco, o qual fez uma mistura (a seu modo) com os vocábulos de língua tupi: “pari”, “ipa” ou “upa”. Não existe o vocábulo “Papary” em língua indígena, assim como não existe o vocábulo “mipibu”. Ademais, boa parte dessas palavras indígenas, registradas por europeus em velhos documentos, eram escritas “de ouvido”, ou seja, conforme escutavam os índios ou os próprios portugueses pronunciá-las. É por isso que existem tantas formas parecidas e com acepções confusas.A propósito, o nome Papari aparece tanto com “i” quanto com “y” ao longo de históricas referências documentais.
Retomando o contexto das estradas, CASCUDO (1954, p. 88), referindo-se aos municípios dominados pelos holandeses (Canguaretama, Goianinha, Arês, São José de Mipibu, Papary, Natal Macaíba, o antigo São Gonçalo e o vale do baixo Ceará-Mirim), escreveu: 
“O mapa de Marcgrav, que é mais informativo, dando até os itinerários desde Sergipe, registra a B. de Paba, que é a Baia de Genipabu, de Domingos Martins ou Martins Thyssen [...] Pelo interior dos municípios possuídos pelo holandês, ia-se até Piquiri, Pedro Velho, toda a redondeza das lagos de Guaraíras, Papeba e Paraguaçu (Papari) e São José, várzeas de Jacu, Baldum, Sapé, Capió, tabuleiros para Cajupiranga, Pitimbu e Natal, incluindo os vales úmidos de Maxaranguape”.Vê-se nessa descrição o início do itinerário informando Sergipe, assinalando a existência da estrada aqui tratada. Mais adiante complementou “A região mais povoada e trabalhada pelo flamengo foi o agreste, Natal até Canguaretama, perto dos rios torrenciais, população mais ou menos garantida pela proximidade das guarnições holandesas, comboiadoras dos produtos para Recife, embarcando-se para Natal e nos portos da embocadura dos rios (Pirangi, Camurupim, Barra de Cunhaú) para a cidade maurícia. Todo o sertão constituiu mistério, rasgado durante a guerra dos cariris, na década final do século XVII” (op. cit. p. 89).Refletindo sobre tais mapas e referências é possível imaginar que por aqui existia um complexo de caminhos que interligava-se com a estrada colonial do litoral, tendo em vista a exploração de produtos embarcados nos portos localizados em pontos distintos da costa potiguar. Tais vias logicamente não eram oficiais, consistindo em veredas que seguiam um curso definido, mas desconforme devido aos acidentes geográficos. Ademais, a Coroa Portuguesa proibia a construção de estradas. Sua autorização oficial viria trezentos anos após o “descobrimento”. Sobre isso, GOMES (2010, p. 193/4), referindo-se a um período da história do Brasil, informa que “[...] Sua construção estava oficialmente proibida por lei desde 1733, com a desculpa de combater o contrabando de ouro e pedras preciosas”. Se foi necessária uma lei específica para proibir a abertura de estradas no Brasil, certamente as mesmas estavam em clandestina proliferação. A abertura oficial foi autorizada em 1808, por D. João VI, ainda em sua escala em Salvador. Somente a partir daí rompeu-se o isolamento que vigorava entre as províncias. Em 1809 foi aberta uma estrada de 800 quilômetros entre Goiás e a região Norte do país e aberto novos caminhos entre Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo e o norte do atual estado do Rio de Janeiro.
Sobre a região de Papary, a cartografia de Marcgrav mostra uma curiosa ramificação de caminhos ligando Cururu a Malembá (em Georgino Avelino), rumo à Paraíba, pelo litoral. Esse último trecho, diferente dos demais, encontra-se muito evidente. Porém, alguns trechos, inclusive um adquirido recentemente por europeus, exatamente a fazenda que pertenceu a Domício Andrade (entre Camurupim e Barreta), encontra-se com o trânsito interrompido por porteiras com cadeados, valas e troncos de coqueiro, numa clara manifestação de impedimento intencional. Como pode-se constatar, trata-se de uma das mais antigas estradas do Brasil.
Quando Marcgrav elaborou tais mapas, logicamente documentou o que viu. Isso permite-se acreditar que tal estrada era trilhada por europeus nas primeiras décadas do século XVI e pode ter sido caminho dos nativos.
Em 1974, o antigo povoado de Cururu ficou submerso durante inverno intenso e rigoroso, forçando os nativos a procurarem terras mais altas. Após a famosa “cheia de 74”, a qual trouxe conseqüências sentidas até hoje, o local foi abandonado, mas ainda conserva resquícios de um conjunto secular, destacando uma capela colonial, um cemitério em ruínas, e túmulos com características interessantes. O ponto de apoio dos que deserdaram o velho Cururu deu origem ao atual distrito de Campo de Santana, um dos mais povoados de Nísia Floresta.
Cururu resiste, inexplicavelmente ignorado – ou desconhecido – pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e Fundação José Augusto (FJA). O local pode ser celeiro de importantes descobertas, tendo em vista provavelmente consistir num sítio arqueológico. A resistência das ruínas de Cururu em não desaparecer de vez, talvez sinalize o grito silencioso da história, cujas investigações pertinentes poderão explicar as origens do município de Nísia Floresta. Faltam apenas olhos de especialistas e ações institucionais.
A julgar pela cartografia e a óbvia movimentação ocorrida nessa estrada entre os séculos XVI a meado de XX, não seria peripécia supor a possibilidade de o povoado de Cururu ser muito mais antigo que o próprio centro da cidade de Nísia Floresta, considerando que seu monumento mais antigo – a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó – “Já aparece nos assentamentos eclesiásticos remanescentes, em 1727” (FILHO, 1991, p. 42) –, ou seja, 16 anos após o mapa de Marcgrav.
Cururu originalmente teria surgido como estalagem? De quem? Portugueses, franceses, holandeses ou dos próprios nativos? Por situar-se às margens da referida estrada colonial, pode ter funcionado inicialmente como ponto de descanso de viajantes, dando origem à povoação, conforme surgiram tantas cidades brasileiras. Ademais, não é difícil supor que tal estrada fosse apenas um trecho que serpenteava todo o litoral brasileiro, unindo o Amapá ao Rio Grande do Sul pela costa brasileira. A origem dessa estrada seria uma picada aberta pelos índios que habitavam Pindorama? Cururu teria surgido de uma aldeia indígena?
O presente estudo, além de trazer à tona esse assunto pouco conhecido, deve chamar a atenção de todos os potiguares, principalmente autoridades do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, e da Fundação José Augusto, de Natal, e os próprios nisiaflorestenses, os quais, por ignorarem aspectos importantes da sua história, deixam de imporem-se como responsáveis por esse cenário histórico, digno de preservação, revitalização, divulgação e decente exploração turística.
A Estrada Colonial de Papary, se recebedora do estudo necessário e políticas públicas voltadas para o turismo histórico, cultural e natural, poderá ter representatividade similar às famosas Estradas Coloniais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, e dessa forma terá autoridade para legitimar-se como uma das mais antigas estradas do Brasil. Isso atrairá o turismo e possibilitará projetos educacionais junto a diversas instituições, inclusive educacionais. E, mais importante, explicará as raízes desse lugar, até porque um povo que não identifica o seu passado não tem identidade. Um povo que não preserva a sua história não tem valores. O patrimônio, seja material ou imaterial, é o retrato do tempo e mostra quem somos.
Este estudo é apenas uma camada sutil, retirada de sobre um profundo poço de curiosidades históricas de nossa região. Esse poço – região – precisa ser cavoucado.
Segue, abaixo, os significados dos topônimos indígenas, exceto Baldum, empregadas neste texto:
- Baldum: Não é vocábulo indígena.
Cajupiranga: (“acaiú-piranga”): o caju vermelho.
Camurupim: “acamoro-pim”: ter a cabeça dura, rija (nome de uma das praias de Nísia Floresta);
Canguaretama: caá-guá-retama”: no vale das matas, onde há muitas árvores. Obs. caá: mata; guá: vale; retama: sufixo exprimindo abundância.
- Capió (“caa-pió”): A goma da planta, goma da árvore. GRILO (1998, p. 177), sem apresentar a referência, diz “cai-pió”, e apresenta a mesma interpretação acima.
- Cunhaú (“cunhã-u”): bebedouro, aguada das mulheres.
- Cururu-açu: (sapo grande).
- Guaraíras:- Ipuxi: “ipu-xim”: a fonte, o manadouro brilhante, faiscante, pelo aspecto das águas transparentes. Até 1863 chamavam-na apenas lagoa “Puxi”, até que nesse ano Frei Serafim de Catania mudou o nome para lagoa do Bom Fim.
- “Ipa” ou “upa”: lagoa;
- Jacu: (“iacu”): esperto, cuidadoso, desconfiado (é uma ave do gênero Penélope).
- Jundiás: (“iu-ndi-á”): a cabeça armada de barbatanas (é um peixe de água doce (“Playstoma Spatula).
-Macaíba: (“macá-iba”): árvore da macaba (Palmeira: acrocomia sclerocarpa, Conhecida também por “coco de catarro” pela viscosidade da polpa comestível).
- Maxaranguape (“mboi-cinung-gua-pe”): no vale ou na baixa da cascavel. (Maxaranguape era originalmente “boixununguape”). Câmara Cascudo também apresenta este vocábulo como “mboi-xinun-gua-pé).
- Mipibu: (“mpi-pu”): o que surge, emerge, inopinado, súbito (alusão à fonte do rio, brotando do seio de um bosque (É o rio da bica). Obs. Câmara Cascudo traz também a seguinte interpretação feita por Teodoro Sampaio: “o saco de couro para conduzir água, a borracha dos nossos comboiemos”. O historiador potiguar faz críticas a essa tradução de Teodoro Sampaio, alegando que “nossos indígenas não conduziam água em odres. Foi processo trazido pelos portugueses”. E reforça a primeira interpretação acima, dizendo que sua tradução vem “talvez de ‘mbi-mbu’, o que surge, emerge, inopinado, súbito (alusão à fonte do rio, brotando do seio de um bosque)”. Antigos documentos trazem as grafias “Mopobu” e “Mepebu”. Em 1630, Adriano Verdonck registrou o local (aldeia) como “Moppobu”. Em 1639, Adriano van der Dussen, referiu-se ao local como “Mompabu”. Em 1640, o padre Manoel de Moraes o registrou como “Mopebi”. Em 1643, Marcgrave o registrou como “Mopebi”. Em 1645 realizou-se uma assembléia de índios em Goiana, PE, estando presentes representantes dessa região, o local foi referido como “Monpebú”. Uma relação de 1756, elaborada pelo Senado da Câmara de Natal informa o local como “Mopebú”. Em 1689, o mesmo Senado da Câmara de Natal referia-se ao local como “Mepebu”. Existem outras versões sempre parecidas. Fica a reflexão do texto, tendo em vista que esses topônimos foram primitivamente registrados por europeus, e não os donos da língua indígena. Cada um escrevia o que entendia. E essas variantes foram se avolumando segundo a criatividade de cada um.
- Paba:
- Paiaguás:- Papari: (papã-ry”): rio encachoeirado, rio de contas, na versão de (GRILLO, op. cit). Tal versão é apontada pela autora sem menção de fonte, portanto não é possível saber para comparar, pois, como já foi dito, não existe o topônimo específico “papary” ou “papari”.
- Papeba (“ipá-peba”): lagoa rasa.
-Paraguaçu: rio grande; “pára-guá-açu”: grande enseada, baía dilatada, ampla. (nome original da atual lagoa Papari).
- Parnamirim (“Paraná-mirim”): o rio pequeno.
- Pindorama: país das palmeiras (nome que os indígenas chamavam as terras descobertas por Cabral).
- Piranji (“pirã-gi-pe”: rio das piranhas)
-“Pari”: armadilha de pesca. (É uma espécie de covo feito até hoje pelos pescadores).
- Piquiri (“piqui-r-i”): rio dos peixinhos.
- Pitimbu: (“potim-bu”): nascente, rio, manadouro do camarão).
- Tabatinga (“tauá-tinga”): barro branco.
- Trairi (“tarayr-y”): rio das traíras.
- Sapé (“eça-pé”): ver caminho, iluminar
- Sorobobé:
Upapari/Ipapari: a lagoa do pari, cerca para prender peixes.
- “y”: água.
Luís Carlos Freire – Estudioso da história e da cultura do município de Nísia Floresta e região.Bibliografia: Mapa de Marcgrav. Cartografia Os Holandeses no Rio Grande do Norte – O Rio Grande do Norte na Cartografia do século XVI-XVII – História do Rio Grande do Norte, Manuel Ferreira Nobre (1877) – História do Rio Grande do Norte, Câmara Cascudo, 1955 - História do Rio Grande do Norte, Tavares de Lyra, (1982) – Os Holandeses no Rio Grande do Norte, Alfredo de Cravalho, 1906-1907 – Ludovico Schwennagen, As estações das antigas estradas que atravessam o Rio Grande do Norte e Paraíba (1901) – descrição das Capitanias de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, Adrien Verdonck – Câmara Cascudo: Onde ficava o Engenho de João Lostau Navarro – Traslado de Auto de repartição das terras da Capitania do Rio Grande do Norte, no dia 21 do mês de fevereiro de 1614 – Minas de Ouro Preto no Rio Grande do Norte – Explorações Holandesas no século XVII, 1905 – Aires Casal: Corografia Brasílica ou Relação Hitórico Geográfica do Reino do Brasil – José M. B. Castelo Branco – O Rio Grande do Norte na Cartografia do Século XVI – Nomes da Terra, Luís da Câmara Cascudo, FJA, 1968. Goianinha no contexto histórico da província, 1998, Maria Simonetti Gadelha Grillo. FILHO, Olavo de Medeiros, Terra Natalense, 1991, FJA.

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