Ontem, conversando com um historiador sobre o baobá de Nísia Floresta - assunto que já me ocupou em algumas ocasiões e que também já rendeu algumas linhas neste mesmo espaço - ele me perguntou pela fonte exata de uma informação que publiquei há algum tempo NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: ACTA NOTURNA – O BAOBÁ DE OLHEIROS EM PAPARY – 29.8.2019) Eu disse que havia lido aquilo em Câmara Cascudo. Eu tenho essa mania, talvez herdada de minhas próprias leituras de Cascudo, que nunca citou suas fontes em suas "Actas Diurnas". Quando uma informação me alcança, escrevo num rompante. Leio muito, anoto pouco e, não raro, guardo na memória a essência do que li, mas deixo escapar o caminho exato que me levou até determinada informação. Diante da necessidade de entregar ao historiador a fonte que ele procurava fui reler meus próprios escritos. E, nesse exer´cio de voltar ao passado, acabei encontrando algo que estava muito mais perto do que eu imaginava. Mexi em velhos manuscritos. Alguns deles datados de 1994. São anotações antigas, feitas quando determinadas informações ainda eram apenas pistas soltas, nomes, parentescos, datas e referências que, à época, pareciam não guardar entre si nenhuma relação especial.
Foi então que percebi um dado curioso. Nós, que vivemos com os olhos voltados para a pesquisa, às vezes enxergamos como quem procura uma agulha no palheiro. O olhar fica tão concentrado no objeto da busca que podemos deixar passsar justamente aquilo que está diante de nós. Foi o que aconteceu comigo. Nos meus manuscritos antigos, embora eu nunca tivesse escrito sobre isso, aparece uma informação que agora me parece importante: Manoel de Moura Júnior, apontado como o plantador do baobá existente no centro de Nísia Floresta, era filho de Manoel José de Moura - nome que também aparece em documentos como Manoel Geraldo de Moura. E aqui começa uma história que talvez ainda esteja incompleta. Câmara Cascudo, na sua Acta Diurna dedicada ao baobá de Papary, conta que o Coronel José de Araújo, futuro presidente da Intendência de Papary, teria recebido uma cápsula do baobá de Olheiros e dado metade dela a Manuel José de Moura, que, por volta de 1870, teria “plantado-a na praça silenciosa”. A informação, vista isoladamente, parece simples. Mas, quando colocamos os nomes lado a lado, surge uma pergunta inevitável: Quem era esse Manuel José de Moura?
Se Manoel de Moura Júnior era filho de Manoel José de Moura - também registrado como Manoel Geraldo de Moura (conforme trago em manuscritos meus) - então é perfeitamente possível que o homem mencionado por Cascudo fosse o pai daquele que posteriormente ficou conhecido como o plantador do baobá do centro de Nísia Floresta. Não estou afirmando que a questão esteja definitivamente resolvida. Estou apenas colocando sobre a mesa uma possibilidade que, durante muitos anos, passou despercebida. Há ainda a conhecida placa existente junto à árvore. Ela registra: “Essa árvore por nome Baobá foi plantada em 1877 por Manoel de Moura Júnior. 10 de dezembro de 1949 - Gisaldo Cabral de Moura.” Temos, portanto, duas informações que parecem se tocar, mas que precisam ser examinadas com cuidado. De um lado, Cascudo fala em Manuel José de Moura, que teria plantado a cápsula “na praça silenciosa” por volta de 1870. De outro, a placa afirma que o baobá foi plantado, em 1877, por Manoel de Moura Júnior.
E existe ainda um detalhe que não pode ser desprezado. Em 1877, Manoel de Moura Júnior tinha aproximadamente 16 anos. Não seria impossível que um rapaz dessa idade plantasse uma árvore. Mas é razoável imaginar que uma semente de árvore de grande porte fosse inicialmente plantada em uma propriedade, onde pudesse receber cuidados, e somente depois fosse levada para o espaço público. Essa hipótese ganha alguma força quando lembramos que o baobá não é uma árvore qualquer. O baobá é conhecido por muitos povos como a árvore da vida. Em diferentes tradições africanas, suas raízes estão associadas aos ancestrais e às memórias da comunidade; o tronco representa as crianças e os jovens em crescimento; os galhos, o amadurecimento. Quando as folhas caem e retornam ao solo, alimentando as raízes, aparece a imagem de um ciclo que termina para começar novamente. É uma árvore profundamente ligada à ideia de continuidade. E talvez seja justamente essa característica que explique a força simbólica que ela adquiriu em diferentes lugares.
Predominante nas regiões semiáridas de Madagascar, o baobá pode ultrapassar cem anos e alcançar cerca de vinte metros de altura. Sua longevidade e sua dimensão física ajudam a compreender por que se tornou símbolo de grandiosidade e transcendência. Para algumas tradições africanas, não representa apenas o indivíduo, mas o “nós”. É uma árvore de ancestralidade. É uma árvore de memória. É uma árvore de passagem entre gerações. Suas raízes evocam aqueles que vieram antes; o tronco, aqueles que crescem; os galhos, aqueles que alcançam a maturidade. E suas folhas que retornam à terra lembram que a existência não termina simplesmente: há sempre uma continuidade, um novo ciclo. Não por acaso, o baobá também possui forte significado espiritual. Está associado a entidades das religiões africanas e a uma concepção na qual o natural pode dialogar com o sobrenatural. A árvore passa a representar, simbolicamente, o próprio ser humano em sua dimensão de corpo, alma e espírito. Talvez seja justamente por isso que a história de um baobá plantado há mais de um século seja mais do que uma simples história botânica. É uma história de pessoas, de nomes, de famílias, de memória e de transmissão.
Voltemos, então, aos Mouras. Nos meus antigos apontamentos, o pai de Manoel de Moura Júnior aparece como Manoel Geraldo de Moura. Em outras referências, aparece como Manoel José de Moura. Se for a mesma pessoa - e tudo indica que essa possibilidade merece investigação - teremos diante de nós uma linha que pode ajudar a esclarecer a origem do baobá do centro de Nísia Floresta. O Coronel José de Araújo teria recebido a cápsula do baobá de Olheiros. Uma parte dela teria sido entregue a Manuel José de Moura. Este, segundo Cascudo, teria plantado a semente por volta de 1870. Anos depois, em 1949, a placa atribui o plantio a Manoel de Moura Júnior. Seria pai e filho envolvidos no mesmo processo? Teria o pai iniciado o cultivo e o filho feito o plantio definitivo? Teria o pai permitido que o filho, então com dezesseis anos, levasse a árvore para o espaço que posteriormente se transformaria na praça? Ou estamos diante de duas informações que, embora pareçam relacionadas, dizem respeito a acontecimentos diferentes? Ainda não sei. E é justamente por não saber que considero necessário escrever. A História também se faz dessas perguntas.
Há outro detalhe que deve inquietar o leitor. Como Câmara Cascudo sabia dessa história? Ele nasceu em 1897. O episódio narrado por ele teria acontecido décadas antes. Mas a resposta talvez esteja justamente no ambiente em que Cascudo cresceu. Cascudo foi criado numa Natal em que a memória ainda circulava muito mais pela palavra, pela convivência e pelas relações pessoais. Seu pai, o Coronel Cascudo, recebia em sua residência figuras importantes da sociedade potiguar. Entre elas estava Pedro Velho de Albuquerque Maranhão,, além do próprio José de Araújo. Eram homens de uma mesma geração política e social. José de Araújo seria, posteriormente, uma figura importante na administração de Papary. Pedro Velho, por sua vez, assumiria papel central nos primeiros anos da República no Rio Grande do Norte. Assim, aquilo que para nós hoje parece uma informação perdida em algum documento poderia, para Cascudo, ter sido simplesmente uma história ouvida no ambiente familiar, transmitida por pessoas que haviam vivido ou conhecido os acontecimentos. Ou seja, a História Oral.
Cascudo não costumava apresentar suas fontes nas Actas Diurnas da maneira como hoje estamos acostumados a exigir numa pesquisa acadêmica. Ele escrevia. Registrava. Guardava. E, muitas vezes, lançava ao futuro a tarefa de confirmar aquilo que havia recolhido da tradição oral, dos documentos e das conversas. Talvez seja essa uma das razões pelas quais suas pequenas crônicas continuam abrindo portas. Uma frase de Cascudo pode permanecer silenciosa durante décadas até que alguém, em outro tempo, encontre um nome em um registro de nascimento, uma inscriçâo numa placa, uma anotação esquecida ou uma fotografia antiga. Foi o que aconteceu comigo. Eu procurava uma fonte. Encontrei uma dúvida. E a dúvida me levou a uma árvore.
O grande espaço onde hoje está a Praça Coronel José de Araújo, segundo antigas fotografias de Nísia Floresta, não apresentava originalmente a configuração urbana que conhecemos atualmente. Era uma área aberta, semelhante a um campo gramado, marcada pelo constante trânsito das pessoas. Isso também merece atenção. É difícil imaginar uma pequena semente de baobá sendo lançada diretamente no centro de um espaço público, exposta desde o início ao trânsito de pessoas e animais. Talvez a árvore tenha começado sua vida em outro lugar. Talvez tenha crescido sob os cuidados de uma família. Talvez tenha sido transferida quando já apresentava condições para enfrentar o espaço aberto. E talvez esse processo explique a aparente contradição entre o “por volta de 1870” de Cascudo e o “1877” registrado na placa. Mas tudo isso ainda é hipótese.
O que temos de concreto é que existe um baobá no coração de Nísia Floresta, árvore que atravessou gerações, mudanças políticas, transformações urbanas e o desaparecimento de muitas das pessoas que estiveram ligadas à sua origem. Temos a tradição do baobá de Olheiros. Temos a cápsula. Temos José de Araújo. Temos Manoel José de Moura. Temos Manoel Geraldo de Moura. Temos Manoel de Moura Júnior. Temos a data de 1877 gravada numa placa. E temos Câmara Cascudo registrando, décadas depois, uma história que não poderia ter presenciado pessoalmente, mas que certamente chegou até ele por algum caminho.
Talvez a árvore tenha sido plantada por pai e filho em momentos diferentes. Talvez tenha sido apenas o filho. Talvez Cascudo tenha registrado uma etapa anterior da história que a memória local posteriormente resumiu na figura de Manoel de Moura Júnior. Ou talvez exista ainda algum documento escondido em algum arquivo, esperando que alguém o encontre. É isso que torna a pesquisa histórica tão fascinante. Às vezes pensamos ter encontrado a resposta quando, na verdade, acabamos de encontrar a pergunta correta. E eu acredito que essa pergunta está agora colocada: quem, afinal, plantou o baobá de Papary? (Até porque há outras indagações em trânsito).
Enquanto não encontramos a resposta definitiva, continuemos pesquisando. Porque o baobá continua ali. Silencioso. Enraizado. Guardando no chão as suas memórias. E talvez, como ensinam as antigas simbologias africanas, suas raízes ainda estejam nos dizendo que nenhuma história termina realmente enquanto houver alguém disposto a escutá-la.
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