Um aparte...
As fotografias acima e abaixo são as mesmas. A diferença é que a de cima recebeu uma limpeza através de recursos de inteligência artificial. Observe que a de baixo traz um reflexo sobre o baobá e manchas do tempo. Acho interessante - como curiosidade - os recursos da IA aplicados à fotografia histórica. Eles permitem recuperar detalhes que o desgaste do papel, da luz e da umidade foram apagando ao longo das décadas. Entretanto, confesso que, no que se refere à colorização, minha posição é mais cautelosa.
Por mais que algumas imagens colorizadas fiquem até palatáveis aos olhos contemporâneos, elas não são exatamente as mesmas fotografias. Acho-as amanteigadas. Estranhas. A que foi melhorada digitalmente não é verdadeira no sentido histórico pleno, pois não há como provar que as cores aplicadas correspondem fielmente às cores que existiam naquele instante do passado. Se fosse possível garantir que a colorização reproduzisse ipsis litteris as cores originais, talvez a aceitação fosse maior. No entanto, muitos dispositivos de inteligência artificial acabam modificando diversos pontos da imagem, acrescentando tonalidades, texturas e contrastes que jamais existiram. Trata-se, portanto, de uma interpretação tecnológica da imagem, não do documento em si.
Nesse sentido, a intervenção pode ser vista como uma espécie de tradução visual do passado, útil, interessante, mas inevitavelmente subjetiva. Ao alterar elementos da fotografia, mesmo que de forma sutil, corre-se o risco de produzir uma narrativa estética que interfere na autenticidade histórica do registro. Por essa razão, optei apenas pela limpeza da imagem, preservando sua natureza documental. Ao final, postei também a versão colorizada por IA, mas confesso que prefiro a fotografia em preto e branco. Observe, por exemplo, que as folhagens do baobá aparecem com a mesma tonalidade do gramado e das demais vegetações, uma uniformidade cromática improvável na natureza, revelando uma falsidade impressionante.
O preto e branco, nesse caso, preserva algo que vai além da estética: preserva o silêncio do tempo, permitindo que a fotografia permaneça como testemunha e não como reinterpretação.
Fotografia antiga é um documento precioso que, nas mãos de pessoas atenciosas - que cruzam informações prévias, sejam obtidas oralmente, pela tradição local, ou em livros e registros escritos - pode revelar dados importantes no futuro. Muitas vezes, um detalhe aparentemente banal se transforma em pista para compreender a evolução urbana, social ou cultural de uma cidade.
Nesta fotografia, por exemplo - registrada nos anos 80, portanto há quase cinquenta anos - encontramos diversas informações interessantes. Tomando o homem como parâmetro de escala, constatamos que o diâmetro do baobá, circundado por uma mureta de alvenaria, já era bastante volumoso e não muito diferente do que se observa hoje, em pleno ano de 2026. Isso nos leva a refletir sobre a longevidade dessa árvore extraordinária. Enquanto gerações humanas se sucedem rapidamente, o baobá permanece quase imperturbável, atravessando décadas como um marco vivo da paisagem urbana. E que ele não se avolumou muito, comparado ao tempo em que foi plantado.
O registro também deixa visível o prédio da prefeitura municipal, diante do qual uma mulher caminha em direção ao baobá. Atrás do edifício não se vê qualquer construção, o que indica um momento anterior à expansão urbana que viria nas décadas seguintes. O homem ao lado da árvore, a julgar pela roupa, parece ser um visitante que contempla a exótica espécie. A mulher, aparentemente bem vestida, talvez o acompanhe. São pequenos gestos congelados na fotografia que hoje nos convidam a imaginar histórias que o registro não revela completamente.
No extremo esquerdo observa-se uma residência murada, separada por uma rua que faz divisa com os muros da antiga Casa das Freiras, por onde passam duas meninas aparentemente uniformizadas com vestimenta escolar. A presença delas sugere a rotina cotidiana da cidade: escola, deslocamentos a pé, vida comunitária em escala humana, algo muito característico das cidades interioranas daquele período.
Também se vê um terreno baldio no formato de um triângulo escaleno, ainda sem qualquer construção. Ao lado, há uma calçada muito alta pertencente a um prédio público que não aparece integralmente na fotografia. Esses vazios urbanos são particularmente reveladores: muitas vezes, eles indicam áreas que posteriormente seriam ocupadas por edificações ou transformadas pelo crescimento da cidade.
Outro detalhe importante é a presença dos postes para fios de alta tensão, indicando que a infraestrutura elétrica já estava consolidada naquele momento. O baobá aparece carregado de frutos, o que também pode sugerir a época do ano em que a fotografia foi feita. As ruas já estavam calçadas com paralelepípedos, o que revela que o registro foi feito durante a administração do prefeito George Ney Ferreira, gestor que iniciou o calçamento da cidade , uma obra que marcou profundamente a modernização urbana local. Esse tipo de detalhe, aparentemente simples, ajuda a situar a fotografia dentro de um contexto administrativo e histórico mais amplo.
Constatamos ainda que não havia sido construído o setor de comércio logo após o baobá, como vemos hoje. Esse elemento praticamente nos ajuda a estabelecer uma data aproximada para o registro. À esquerda do homem observamos um gramado dividido por meio-fio. Ali estava a praça da cidade, que se estendia até o baobá, ainda de forma modesta. Não sei afirmar com certeza se naquele momento ela já se chamava Praça Coronel José de Araújo, mas registro a dúvida para eventual complementação futura.
Posteriormente, ainda durante a administração do prefeito George Ney Ferreira, essa praça foi cortada ao meio: construiu-se a rodoviária na parte superior e transformou-se o espaço inferior, que antes pertencia à praça, em uma rua ampla para veículos. Essa transformação urbana mostra como as cidades se reorganizam ao longo do tempo, muitas vezes sacrificando espaços de convivência para atender às demandas da mobilidade e do crescimento.
A fotografia seguinte é da mesma década e praticamente da mesma época, servindo como parâmetro para compreendermos melhor a cidade. Provavelmente há entre elas uma diferença de apenas um ou dois anos.
O que muda é o ângulo, que permite observar os casarios típicos das décadas de 1920, 1930 e 1940, construções que, além de abrigar famílias e histórias, compunham a identidade arquitetônica da cidade. A rua já se encontra calçada e nota-se o plantio recente de árvores, possivelmente parte de um projeto de arborização urbana.
O gramado aparece ressequido, indicando que a fotografia foi feita durante o verão. O baobá, no entanto, praticamente não difere em tamanho. Esse fato reforça a ideia de que estamos diante de um ser vivo cuja escala temporal é muito diferente da humana. Quatro pessoas aparecem registradas na cena. Assim como na primeira imagem, são presenças discretas, quase anônimas, mas que acabam conferindo vida à fotografia. Afinal, toda cidade é feita não apenas de ruas, prédios e árvores, mas principalmente das pessoas que a habitam e transitam por seus espaços.
Por fim, vemos um close da placa de bronze maciço, onde se lê:
“Essa árvore de nome Baobá foi plantada em 1877 pelo Snr. Manoel de Moura Júnior.
Nísia Floresta, 10-02-1949.
Gisaldo Cabral de Moura.”
A placa permanece no local até hoje, intacta — um pequeno monumento que liga três tempos distintos: o momento do plantio da árvore no século XIX, o momento da homenagem em 1949 e o nosso presente. Talvez esse seja o maior valor dessas fotografias antigas: elas nos lembram que a cidade não é apenas um espaço geográfico, mas uma acumulação de tempos, onde cada geração deixa marcas visíveis ou invisíveis. E, entre todas essas marcas, o velho baobá continua ali — silencioso, testemunhando a passagem da história.





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