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| Dom Quixote é difícil? Como ler sem se perder (ou desistir) |
Agora imagine você lendo um autor ou autora que chorou lágrimas de sangue para produzir um clássico que que viverá eternamente grudado na humanidade, que seus hexanetos o estarão lendo... que o futuro infinito o estará lendo...
Manoel de Barros declarou que “escrever sangra”. Ele quis dizer que é delicioso escrever, mas sangra, pois é trabalho minucioso, pesado, medido, pincelado, aparado, rasgado, jogado no lixo, recuperado, editado, e, nesse mister, o cérebro sua, cansa, e o medo de ser condenado, incompreendido e crucificado orbita... Isso é sangrar, pois também é sofrível... Um sofrível que nos possui como possessão,, pois não conseguimos livramento.
Escrever leva tempo, conhecimento, pesquisa, formação, leitura, estudo, desafios, noites de sono, entraves... A obra para, estaciona, fica esquecida, é retomada, é relida, é aparada, mexida, remexida e publicada. Um livro saído do cérebro de um escritor é um filho que até mesmo o pai sentiu a gestação, pois o viu nascer, engatinhar, andar e ser convidado a estar sob os olhos das crianças e dos adultos. É o filho que ouviu nossos puxões de orelha e sentiu a nossa palavra de aprovação.
Todo livro carrega histórias de bastidores inimagináveis. O computador que pifou. O texto que sumiu. O reencontro, a reescrita. As anotações dos insights madrugadores. A visita ao local de inspiração. O carro que quebrou. A xícara de café que virou sobre as anotações. O copo de água gelada que caiu nos teclados... O dinheiro que faltou na hora de pagar a xerox (pois livro tem que ser lido e corrigido a grafite, no papel)...
A escrita verdadeira, assim como a pintura verdadeira, como a música verdadeira, precisa ser reconhecida pelo leitor: “isso é de fulano”... “isso é de siclano”. Igual ver uma tela de van Gogh, Doryan Gray... É como RG.
Escrever é feito de todas as sensações. Uma simples poesia, uma prosa poética, pode ter uma história de meses ou até anos, pois é inconcebível a obra que não perpassou pelas veias, pelo coração, pelos neurônios... é inconcebível a escrita que não veio dos dedentros humanos... que não foi julgada pela nossa coragem, pelo nosso medo, que não perpassou por nossa sentença... que não foi lida por um amigo íntimo antes de perpassar pelas bobinas das máquinas...
Eu acredito no homem, na palavra que não brotou em segundos, gerada por condicionamento maquinal, oriunda dos submundos da inverdade e da frieza, mas que foi gerada como uma jaca, embu, graviola, melancia, macaxeira... a palavra que foi gerada como filho, que perpassou por dor, suor, lágrimas, alegria, êxtase, paz, felicidade plena... A palavra que tem impressão digital...

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