ANTES DE LER É BOM SABER...
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
Professora Cida Basílio, uma pioneira
segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
O bredo em Papari: no passado, a fartura; no presente, a indiferença.
Percebi que o “bredo” nasce de forma espontânea, cujas sementes certamente são levadas pelas aves.
Algum tempo depois despertou-me a curiosidade de pesquisar sobre o “bredo” e descobri que originou-se na América e foi trazido pelos escravos africanos, os quais o consumiam abundantemente, através de variados pratos. Na Bahia é alimento sagrado.
Não falta em nenhuma casa, principalmente durante a Quaresma, inclusive nessa época ele é encontrado em todos os lugares, assim como a “xanana”, embora essa não seja comestível. Mas o "bredo" nasce sem que seja plantado intencionalmente, nos cantos de muro, nos quintais, no mato e até mesmo nas calçadas. E isso não é exclusividade do Nordeste. Nasce em quase todo o Brasil e em muitos países. Na “Sexta-Feira da Paixão” se torna o único prato do almoço em muitos estados do Nordeste, pois é comum em todo o Brasil.
Creio que o uso do “bredo” não ocorra simplesmente porque é hortaliça, mas que os antigos o adotaram também por seu valor nutritivo. Pesquisando, descobri que o “bredo” é rico em cálcio, potássio, ferro, e contém vitaminas A, B1 e B2. Se a pessoa estiver com a vista fraca deve consumir boldo e sentirá grande diferença.
| Não sei se em Papari ainda afloram os ervais de "bredos", mas em casa adotei o hábito de tê-los como ornamento. Suas flores são verdadeiros poemas... |
Tenho impressão que tudo isso revela um comportamento cultural. Talvez o “bredo” seja associado à pobreza. Quem sabe entenderam que comer “bredo” fosse “coisa de pobre”. O “bredo” era consumido num tempo em que as diferenças entre pobres e ricos eram mais nítidas. Aos ricos, bacalhau. Aos pobres, “bredo” e peixes e camarão de lagoa.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
Trajano Leocádio de Medeiros Murta, o "Velho Trajano de Engenho Pavilhão" (1993-1999)
| Engenho Pavilhão atualmente - fotografia datada de 2003. Nada lembra o casarão, o qual foi quase todo demolido, dando origem a essa casa atual. |
Contam que até hoje há pessoas atraídas por coisas de morte. Gostam de velórios e exercem uma espécie de jornalismo fúnebre, enfronhando-se em mortes alheias para assistir os mínimos detalhes e depois contar para quem não prestigiou. Imagine naquela época!
O povo ficou perplexo com o episódio nunca visto. Carregar um morto em pé durante um enterro era no mínimo esqusito. O velho Trajano permaneceu devastado durante as exéquias. Após o corpo ter sido encomendado, foi depositado numa caixãozinho pintado de branco, e finalmente sepultado no cemitério local. Cândido Freire, famoso cirurgião-barbeiro, cujo seu nome seria dado muitos anos depois ao posto de saúde, prestigiou esse episódio e o contou por muitos anos. Cândido é descendente de Joan Lustaw Navarro (aquela história do Massacre de Tabatinga, mas é outra história!).
| Marcos Freire e Fídias Freire - Engenho Pavilhão, 2003 |
Velhos alfarrábios dão como dono do Engenho Pavilhão, em 1920, o senhor Joaquim Januário de Carvalho. Não posso informar ao leitor desde quando a propriedade veio às mãos deste. Os donos atuais, infelizmente, não sabem nada sobre o engenho.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
A santa que 'apareceu' nas paredes da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó
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| Terezinha Trindade (tia da escritora Socorro Trindade) |
Papari. Julho de 1954. Era mais ou menos oito horas da manhã. Duas moças muito apegadas uma a outra tomaram café e foram passear na Igreja Matriz de Nossa senhora do Ó. Na realidade foram contemplar o vuco-vuco que se inaugurara no templo naqueles dias. Era um bate-bate sem fim. Suficiente para chamar a atenção da cidade pacata e sem atrativo algum, não fossem os acontecimentos eclesiásticos.
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| Terezinha Trindade (2018) em nova entrevista, contando outros episódios antigos para o autor deste blog. |
Eram católicos. Tanto é que as irmãs Lenira e Terezinha eram freqüentadoras assíduas das celebrações e eventos ocorridos na Matriz. Ambas não se casaram. Uma de suas irmãs, a professora Conceição Bezerra da Trindade, nascida em 1924, é mãe da escritora Socorro Trindade. Um episódio provocou desencanto em D. Terezinha, a qual optou por uma vida mais reclusa, sem a tradicional frequência à matriz.
Com relação ao aparecimento da imagem da santa, resta-nos várias indagações inquietantes: quem a colocou ali? Quando? Por quê? Terá sido durante a construção da Matriz ou depois? Qual era a santa? São perguntas que jamais serão respondidas, pois essa história, que praticamente estava sepultada e só agora veio a público, é assunto de conhecimento de meia dúzia de sobreviventes, imagine saber quem e por quê santa foi guardada na parede. Mas restou a história!
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| Imagem do Sagrado Coração de Jesus, a qual pertencia aos pais de Lenira e Terezinha. |
| Cônego Rui Miranda, 77 anos (2006), ocasião em que o entrevistei. |
| O cônego Rui Miranda faleceu em Ceará-Mirim, aos 84 anos, em 2011. |
| Luís Carlos Freire diante do cônego, entrevistando-o numa manhã de domingo de 2006. |
| Como era mais ou menos Nísia Floresta em 1954. |
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| Primeira página do registro escrito que fiz à ocasião da entrevista com o a cônego Rui Miranda, em 2006 e Ceará-Mirim/RN. Se o leitor quiser ler todo o registro, clique aqui: |
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
Manoel de Barros - Uma lembrança inesquecível...
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| Manoel de Barros defronte a sua casa em Campo Grande/MS. |
Quando eu tinha dezessete anos inventei conhecer Manoel de Barros. Não sabia a dimensão do homem que encontraria, tampouco do poeta gigante que ele era. Aliás, quase o Brasil inteiro ainda o desconhecia. Falo de 1984.
Embora nascido e criado em Mato Grosso do Sul, eu o conhecia de maneira diluída, assim como muitos potiguares conhecem Câmara Cascudo, Nísia Floresta, Antônio de Souza, Otacílio Alecrim e tantos outros grandes nomes de sua terra. A grandeza, às vezes, mora ao lado da gente sem fazer barulho.
Naquela época, o máximo que eu me distanciava de casa eram uns trinta quilômetros. Campo Grande ficava a quase quatrocentos. Mesmo assim fui.
Desde que me dei por gente, os livros me apeteciam. Sempre fui enfronhado com eles. Cresci entre os Irmãos Grimm, Andersen, Esopo, Pedro Malasartes e tantos outros clássicos da literatura infantil e juvenil, brasileira e universal. Talvez tenha sido ali que a palavra começou a me adoecer de um jeito bom.
Essa convivência com a literatura despertou em mim uma vontade quase incontrolável de escrever poemas e histórias, ainda que não soubesse fazê-lo segundo os rigores da língua portuguesa. Eu sempre fui obediente aos sentimentos. Queria escrever sobre tudo. Era quase uma doença. Eu queria escrever, mesmo sem saber escrever.
Certo dia houve um evento público em minha cidade. Entre os convidados estava Iracema Sampaio, fundadora da famosa revista Executivo Pluss, publicação cultural de grande circulação em Campo Grande e em diversas cidades sul-mato-grossenses. Décadas antes ela havia sido a primeira professora da cidade onde nasci e, de tempos em tempos, voltava para rever antigos alunos que já eram avós.
Aproveitei sua presença e lhe mostrei meus escritos. Ela os leu com atenção, disse que eu tinha talento, mas precisava lapidá-lo. Pediu que eu lhe enviasse os poemas. Assim fiz. Mandei-lhe um verdadeiro calhamaço. Dias depois recebi sua resposta, composta por uma frase que jamais esqueci:
- Você precisa conhecer Manoel de Barros.
A partir daquele momento nasceu uma ideia fixa.
Por intermédio de dona Nelly Barbosa Martins, esposa do governador Wilson Barbosa Martins - tio da madrinha de um dos meus irmãos - consegui o endereço do poeta. Eles tinham parentes em minha cidade. Ênio Martins, irmão do governador, casado com dona Diva Câmara Martins, era compadre de meus pais. As coincidências da vida, às vezes, parecem preparar silenciosamente nossos caminhos.
Sempre fui muito curioso pelos lugares desconhecidos. Bastava ouvir dizer que existia um rio diferente, uma fazenda cercada de histórias, uma casa antiga ou qualquer canto capaz de despertar minha imaginação, lá ia eu. Às vezes a pé, outras de bicicleta, outras de ônibus. Minha mãe, não raro, era surpreendida por minhas aventuras. Eu desaparecia durante um dia inteiro, às vezes dois, e depois voltava cheio de histórias para contar e de explicações para dar.
A paixão pela numismática e pela filatelia servia de excelente desculpa para essas expedições. Percorria cidades, sítios e fazendas procurando moedas antigas, selos raros e objetos esquecidos pelo tempo. Bastava alguém dizer que numa determinada casa morava uma pessoa idosa guardando alguma relíquia, e eu logo aparecia disposto a negociar.
Foi esse mesmo espírito aventureiro que me levou à casa de Manoel de Barros.
Viajei cerca de quatro horas pela Viação Motta. Cheguei a Campo Grande ainda pela manhã. Recordo-me de que, por volta das nove horas, eu já estava diante da casa daquele extraordinário colecionador de frases.
No mesmo instante em que eu chegava, estacionou uma caminhonete Chevrolet C-10. Um rapaz desceu carregando algumas coisas da carroceria. Perguntei-lhe se ali morava Manoel de Barros.
Ele sorriu e respondeu que era filho dele. Chamava-se João Venceslau e acabara de chegar da fazenda.
Convidou-me a entrar.
Mal atravessamos a varanda, surgiu um senhor de cabelos grisalhos, óculos, calça de tergal bege e camisa branca.
João apresentou-me.
Manoel perguntou imediatamente se eu era estudante.
Respondi que sim.
Depois quis saber de onde eu vinha.
Quando lhe disse o nome da minha cidade, demonstrou sincera surpresa por eu ter viajado tão longe apenas para conhecê-lo.
Expliquei que gostava de escrever, que havia mostrado meus poemas à sua amiga Iracema Sampaio e que ela me aconselhara a procurá-lo.
Enquanto falava, retirei da pasta o grosso maço de poemas e o entreguei.
Hoje não sei dizer se fui ousado ou apenas ingênuo. Talvez as duas coisas.
Percebi que ele me olhava profundamente, mas sem qualquer afetação. Ouviu tudo com atenção. Falou com carinho de Iracema, elogiando-a, e isso imediatamente me deixou mais tranquilo. Se ela era querida por ele, eu já não me sentia completamente estranho naquela casa.
Enquanto João continuava descarregando a caminhonete, Manoel pediu que eu me sentasse à mesa da sala.
Dona Estela apareceu.
Ele pediu que me servissem café com leite, pão, queijo e frutas.
Fiquei impressionado com tamanha simplicidade.
Enquanto eu tomava café, ele mergulhou na leitura dos meus manuscritos.
Durante uns vinte minutos percorreu atentamente aquelas folhas escritas a grafite.
Ao terminar, levantou os olhos e disse:
- Você é um poeta em desenvolvimento. Tem talento. Continue escrevendo. Escreva sempre e leia muito, porque quem vai lhe ensinar é livro. Leia os poetas brasileiros, leia Padre Vieira, leia poetas de outros países. Leia tudo o que puder. Observe as coisas e tente escrever sobre o que você vê. Sobre tudo o que vê.
Perguntou quais autores eu conhecia. Comentou alguns poemas, sugeriu mudanças em outros e me fez perguntas sobre minhas leituras.
Conversamos durante horas.
Mostrou-me manuscritos escritos de próprio punho, pequenos livros artesanais confeccionados por ele mesmo. Deixou-me conhecer sua biblioteca. Falamos sobre literatura, poesia, leitura e sobre a difícil tarefa de escrever.
Em nenhum momento assumiu a postura do mestre inalcançável. Ao contrário, parecia diminuir a própria estatura para conversar de igual para igual com um rapaz que apenas sonhava ser escritor.
Em determinado momento disse uma frase que jamais esqueci:
- Eu me sinto desonrado quando publico um livro. Escrever tem disso. E me escondo por um bom tempo.
Naquele instante não compreendi inteiramente o que queria dizer.
Somente anos depois passei a entender que talvez falasse da distância entre o livro ideal e o livro possível, entre aquilo que o escritor sonha e aquilo que finalmente entrega ao leitor. Ou, quem sabe, do pudor que alguns grandes artistas experimentam ao expor ao mundo uma obra que sabem sempre inacabada.
Curiosamente, aquela resposta me tranquilizou.
Se um poeta daquela grandeza também experimentava dúvidas diante da própria obra, talvez a insegurança fosse menos um defeito do que parte inevitável do ofício.
Hoje penso que aquela manhã me ensinou tanto sobre literatura quanto sobre humildade.
Saí dali levando muito mais do que sugestões para meus poemas.
Levei a lembrança de um homem cuja genialidade jamais precisou fazer barulho.
Retornei outras duas vezes.
Depois que me mudei para o Rio Grande do Norte, continuei acompanhando sua trajetória, lendo seus livros e celebrando cada reconhecimento que finalmente o Brasil lhe concedia. Nas vezes em que voltei ao Mato Grosso do Sul já não consegui reencontrá-lo. Pouco tempo depois, camainhando para cem anos de idade, ele morreu.
Manoel de Barros foi, sem exagero, a maior experiência literária da minha vida. Minha fonte permanente de inspiração.
Em junho de 2019 retornei ao Mato Grosso do Sul por uma razão dolorosa: meu pai havia falecido.
Alguns dias depois do enterro resolvi esticar a viagem até Campo Grande para visitar dona Estela, viúva de Manoel de Barros. Ela se aproximava dos cem anos. Havia acabado de chegar de uma clínica e estava muito cansada. O cuidador pediu-me inúmeras desculpas por não poder recebê-lo.
Compreendi perfeitamente.
Voltei em silêncio.
Aquela foi a última benção que recebi dos ares manoelinos...
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| Trans Pantaneira - Minha irmã Regina |
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| Meu sobrinho Ricardo junto a escultura de Manoel de Barros em Campo Grande/MS Essa fotografia é recente. |
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| Dona Helena, uma pantaneira com o seu tererê |


























































