ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A BARRA DE ESTEVÃO RIBEIRO NOS TEMPOS DA VELHA PAPARY...


Na antiga Papary, atual Nísia Floresta, existe uma povoação conhecida como Barra, ou Barra de Tabatinga. Entenda por "Barra" uma abertura ou passagem de água que comunica um rio, lagoa ou estuário com o mar, geralmente através da faixa arenosa do litoral. Em referências históricas, aparece também a denominação Barra de Estevão Ribeiro. A localidade está situada a pouco mais de três léguas a leste da antiga cidade. A origem desse nome sempre despertou curiosidade. Não há, na tradição local, nenhuma lembrança de que Estevão Ribeiro tenha sido o primeiro proprietário da região, fundador do povoado ou grande senhor de terras. Ao contrário. A memória dos antigos moradores guardou seu nome por uma razão muito diferente: uma história de violência, vingança e morte que atravessou gerações. Os velhos moradores, verdadeiros guardiões da memória oral, já não sabiam dizer quem havia sido a vítima, nem conheciam todos os detalhes do acontecimento. Mas havia uma certeza transmitida de geração em geração: Estevão Ribeiro teria sido o homem que matou, de maneira calculada, uma autoridade do Rio Grande do Norte.

Mas o que realmente teria acontecido?

Segundo a tradição, Estevão Ribeiro morava em Piripiri, na região que hoje pertence ao município de Macaíba. Certo dia, teria ido a Natal procurar o governador da Capitania para apresentar uma reclamação. Em vez de receber atenção, teria sido tratado com violência e desprezo. Humilhado, deixou a residência do Governo decidido a se vingar. A partir daquele momento, teria começado a preparar cuidadosamente o crime. Conta-se que, ao sair da casa do governador, Estevão Ribeiro caminhou em direção à Igreja Matriz de Natal, contando os passos. Chegou a cem. Depois, procurou uma espingarda capaz de atingir um alvo naquela distância com precisão. De posse da arma, voltou a Natal. À noite, escondeu-se entre o mato, diante da residência do governador, e ficou à espera. Quando a escuridão já havia tomado conta da cidade, o governador saiu de casa. Estevão Ribeiro então disparou. O homem foi atingido gravemente e morreu alguns dias depois. Imediatamente após o atentado, Estevão Ribeiro fugiu. Primeiro teria retornado a Piripiri e, posteriormente, seguido para Papary. Ali comprou uma propriedade que, com o passar do tempo, acabou associada ao seu nome. Segundo a tradição, nunca foi preso ou levado à Justiça. O governador era uma figura profundamente impopular e, por isso, sua morte teria contribuído para que Estevão Ribeiro não fosse incomodado pela Justiça. A própria arma do crime teria sobrevivido durante mais de cem anos. Passando de mão em mão, era guardada e mostrada discretamente como uma espécie de relíquia familiar.

 

Mas quanto dessa história seria realmente verdade? 

 

A pesquisa histórica permite identificar um acontecimento que parece estar na origem da lenda. A vítima teria sido Luiz Ferreira Freire, capitão-mor e governador da Capitania do Rio Grande do Norte. Na noite de 22 de fevereiro de 1722, um domingo, ele foi atingido por disparos. Gravemente ferido, morreu seis dias depois, em 28 de fevereiro. Ferreira Freire era uma autoridade de temperamento agressivo e havia criado muitos desafetos em Natal. Sua administração foi marcada por conflitos e pela crescente impopularidade. Por trás de sua morte, entretanto, parece existir uma história ainda mais complicada. Ele era casado, mas sua esposa permanecia em Lisboa. Em Natal, apaixonou-se por uma jovem, filha do tenente-coronel Mateus Rodrigues de Sá, homem de posses, proprietário de sítios, fazendas, casas e rebanhos. O relacionamento provocou o afastamento de boa parte da sociedade local. Ferreira Freire ficou praticamente sem pessoas dispostas a servi-lo. Em determinado momento, decidiu resolver o problema à força. Mandou buscar uma escravizada pertencente a Manuel de Melo de Albuquerque, vereador do Senado da Câmara de Natal. O vereador protestou junto ao Ouvidor Geral, que determinou que a mulher fosse devolvida ao seu legítimo proprietário. Ferreira Freire reagiu com violência e ameaçou qualquer oficial de Justiça que tentasse cumprir a ordem. O conflito aumentou. Uma nova determinação foi enviada do Recife para que a escravizada fosse apreendida e devolvida ao seu dono. A ordem foi cumprida, mas o governador não aceitou a decisão. Armado e acompanhado por soldados, Ferreira Freire cercou a residência do vereador, retomou a escravizada e ainda mandou prender o próprio Manuel de Melo de Albuquerque, que foi levado para a Fortaleza.

 

A atitude provocou forte reação do Senado da Câmara. O órgão protestou junto ao governador de Pernambuco, que determinou a libertação imediata do vereador, sem sequer consultar Ferreira Freire. Tudo isso aconteceu entre novembro e dezembro de 1721. No início de 1722, a situação envolvendo a jovem filha de Mateus Rodrigues de Sá tornou-se ainda mais grave. A família exigiu que Ferreira Freire assumisse uma posição definitiva. Ele havia negado que fosse casado e prometera reparar a situação, segundo os costumes da época. Quando Mateus Rodrigues de Sá foi cobrar-lhe uma solução, porém, recebeu uma resposta brutal. Ferreira Freire recusou-se a levar a jovem ao altar e expulsou o pai de sua presença de maneira humilhante. O episódio deixou a família profundamente ofendida. Há ainda um detalhe importante: Manuel de Melo de Albuquerque, o vereador que havia entrado em conflito com Ferreira Freire por causa da escravizada, era parente próximo dos Rodrigues de Sá. Assim, os conflitos que cercavam o governador acabaram se cruzando. Décadas mais tarde, o escritor Gonçalves Dias, durante suas pesquisas em documentos antigos do Rio Grande do Norte, registrou uma tradição relacionada a esse episódio. Segundo o relato que encontrou, o pai da jovem teria procurado o capitão-mor para reclamar das ofensas sofridas e pedir a restituição da filha. Teria sido novamente humilhado e ameaçado pelo governador.

 

Ao deixar o palácio, abatido pela injustiça, encontrou os filhos no caminho. Eles teriam testemunhado seu sofrimento e prometido vingança. Pouco tempo depois, Ferreira Freire foi assassinado. Gonçalves Dias acrescentou ainda uma informação particularmente curiosa: a arma utilizada no crime, segundo a tradição, teria permanecido durante muitos anos entre os membros daquela família que viviam em Piripiri. É nesse ponto que a história de Estevão Ribeiro se aproxima da memória registrada pelos moradores. A documentação histórica registra que o governador Luiz Ferreira Freire foi assassinado em 1722. A tradição oral, por sua vez, conservou a história de um homem chamado Estevão Ribeiro, que teria cometido o crime e depois desaparecido em direção a Papary. Não há, porém, prova documental suficiente para afirmar que Estevão Ribeiro tenha sido efetivamente o assassino de Ferreira Freire. Também não parece haver evidência de que ele fosse membro da família Rodrigues de Sá. Uma possibilidade, seguindo a interpretação de Luís da Câmara Cascudo, é que tenha sido um homem ligado àquela família por relações de trabalho, dependência ou confiança. Poderia ter sido um foreiro, agregado ou simplesmente alguém que gozasse da confiança dos Rodrigues de Sá e tivesse assumido a missão de vingar as humilhações sofridas.

 

Com o passar dos anos, a história ganhou novas camadas. O acontecimento real foi sendo transformado pela memória popular em narrativa. O nome da vítima desapareceu, os detalhes se modificaram e a figura de Estevão Ribeiro passou a ocupar o centro da história. Assim nasceu, ou pelo menos assim pode ter sobrevivido, a lenda de Estevão Ribeiro. Mais do que a história de um homem, ela é também a história de uma memória. Uma memória que atravessou séculos sem documentos, preservada pela palavra dos moradores, até que a pesquisa histórica encontrasse, nos antigos registros da Capitania, o acontecimento que talvez tenha dado origem à tradição. Entre a realidade documentada e aquilo que o povo contou durante gerações, permanece a figura de Estevão Ribeiro, associada às antigas referências à região de Barra. E, como acontece com tantas lendas antigas, talvez nunca saibamos exatamente onde termina a história e começa a imaginação popular. Mas é justamente nessa fronteira entre o fato e a memória que a lenda sobrevive.

 

UM ESCLARECIMENTO SOBRE A BARRA DE ESTEVÃO RIBEIRO

 
Senado Federal


É importante fazer aqui um esclarecimento, pois a antiga denominação Barra de Estevão Ribeiro pode facilmente causar confusão com a atual Barra de Tabatinga. Os nomes das localidades do litoral de Papary, atual Nísia Floresta, sofreram diversas alterações ao longo do tempo, e os documentos antigos nem sempre utilizavam a mesma nomenclatura que conhecemos hoje. A antiga Barra de Estevão Ribeiro corresponde à atual Barreta. Ao longo do tempo, aquele trecho do litoral recebeu outras denominações. Um documento cartográfico de 1847 é particularmente esclarecedor. Trata-se de uma planta intitulada “Barras de Estevão Ribeiro, hoje da Santa Cruz, Nova de Camoropim, Rio do mesmo nome e lagoa Papary”, levantada pelo capitão-tenente Felippe José Ferreira. O próprio título do documento demonstra que, em 1847, “Barras de Estevão Ribeiro” era uma denominação anterior, enquanto Santa Cruz e Nova de Camoropim apareciam como denominações então utilizadas. O documento também relaciona essas barras ao rio do mesmo nome e à lagoa Papary.

 

Senado Federal


A confusão aumenta porque Estevão Ribeiro também aparece associado a outros pontos da região, especialmente nas referências antigas à área de Tabatinga. Isso, entretanto, não significa que Barra de Estevão Ribeiro e Barra de Tabatinga fossem necessariamente a mesma localidade. São denominações que precisam ser examinadas dentro do contexto de cada documento e de cada época. Assim, para compreender a lenda aqui narrada, é fundamental ter em mente que a Barra de Estevão Ribeiro mencionada nas fontes antigas deve ser relacionada à atual Barreta. A planta de 1847 é uma evidência particularmente importante dessa história dos nomes, pois registra uma denominação anterior - “Barras de Estevão Ribeiro” - e, ao mesmo tempo, as denominações então vigentes de Santa Cruz e Nova de Camoropim. A mudança dos nomes é um exemplo de como a paisagem histórica de Papary foi sendo renomeada ao longo dos séculos, deixando nos documentos diferentes vestígios de uma mesma localidade. É justamente essa variedade de denominações que, hoje, pode levar o pesquisador ou o leitor a confundir lugares que, em determinado período, possuíam nomes completamente diferentes dos atuais. E vale lembrar que outros lugares em Papary tiveram mudanças curiosas de nomes...

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

NOVE PAÍSES DENTRO DO NORDESTE...

Vou logo dizendo: esse título é mais uma brincadeira, mas com fundamento. Tenho visto, eventualmente, pessoas de outros estados brasileiros, algumas que estão por aqui a passeio e outras que vieram morar na região, produzindo vídeos “sobre o Nordeste”. Coloco a expressão entre aspas porque existe uma questão que, embora pareça óbvia, às vezes é esquecida: o Nordeste é uma região gigantesca, formada por nove estados, e não um pequeno territ´rio culturalmente uniforme. Embora o Nordeste seja a terceira maior região do Brasil, ele reúne nove estados, enquanto o Centro-Oeste reúne quatro unidades federativas e o Norte, sete. Falar “sobre o Nordeste” como se estivéssemos falando de um único lugar, com uma única maneira de falar, comer, cantar, dançar, viver e interpretar o mundo, é uma generalização que não corresponde à realidade. Quem nasceu ou vive há muitos anos em algum estado nordestino sabe que existem diferenças enormes entre um estado e outro. Essas diferenças aparecem na música, na literatura, na gastronomia, no folclore, nas danças, nos sotaques, nas expressões populares, na arquitetura, nos costumes, nas frutas, na vegetação e em inúmeras outras manifestações da vida cotidiana. O Nordeste é uma região, mas dentro dela existem muitos Nordestes. Se entre uma cidade e outra existem peculiaridades - quase dialetos - imagine nove estados.

Basta observar alguns exemplos em várias elementos das culturas do Nordeste. O frevo é uma manifestação cultural profundamente associada a Pernambuco, enquanto o bumba-meu-boi possui no Maranhão características e tradições muito particulares. A Bahia construiu uma identidade cultural própria, marcada por uma história singular e por manifestações musicais, religiosas e gastronômicas que não podem simplesmente ser tomadas como representativas de todo o Nordeste. O Ceará tem suas próprias expressões, costumes e formas de falar; Pernambuco também; Paraíba também; Alagoas, Sergipe, Piauí e Rio Grande do Norte igualmente. Mesmo estados vizinhos, separados às vezes por poucos quilômetros, podem apresentar diferenças surpreendentes. Na gastronomia, por exemplo, um mesmo alimento pode receber nomes diferentes conforme o lugar. Macaxeira, mandioca e aipim são palavras utilizadas em diferentes regiões brasileiras para designar a mesma raiz. O cuscuz aparece em praticamente toda a região, mas pode assumir preparações e acompanhamentos bastante distintos. A própria carne de sol, tão associada ao Nordeste, possui modos diferentes de preparo e apresentação. Isso mostra que proximidade geográfica não significa uniformidade cultural.

E talvez seja justamente a linguagem o campo em que essas diferenças mais facilmente provocam situações curiosas. Às vezes, uma pessoa chega a determinado estado, escuta uma palavra que nunca havia ouvido, acha aquela expressão engraçada, curiosa ou estranha e imediatamente produz um vídeo para contar aos seus seguidores “como os nordestinos falam”. O problema está justamente nessa generalização. Uma pessoa que chega ao Rio Grande do Norte não está descobrindo “como o Nordeste fala”. Está descobrindo como determinadas pessoas, em determinado lugar, utilizam a língua. Uma palavra absolutamente comum no Rio Grande do Norte pode ser desconhecida na Paraíba, embora os dois estados sejam vizinhos. Uma expressão utilizada normalmente em Pernambuco pode não fazer parte do vocabulário cotidiano de um cearense. Uma palavra comum na Bahia pode causar estranhamento em alguém do Maranhão. Isso é absolutamente normal. É assim que funcionam as línguas: elas variam conforme a região, a história, o grupo social e as circunstâncias em que são utilizadas.


Posso dar um exemplo pessoal. Embora toda a minha ancestralidade seja norte-rio-grandense, nasci no Mato Grosso do Sul, cheguei ao Rio Grande do Norte aos 24 anos de idade e foi aqui que encontrei diferenças enormes em relação a coisas que eu considerava absolutamente naturais em outros lugares. Uma delas está justamente no vocabulário. Em outro lugar onde vivi, era comum dizer que determinada criança era “atentada”, quando se queria dizer que era inquieta, travessa, incômoda, difícil de controlar. No Rio Grande do Norte, encontrei uma forma diferente de expressar praticamente a mesma ideia: “Aquele menino de fulana é muito caningado”. Aqui, “canigado” pode perfeitamente ser utilizado para caracterizar uma criança inquieta, travessa, que incomoda ou não para quieta. Para quem chegou de outro lugar, isso pode causar estranheza. Mas o que existe aí não é erro. Existe diferença regional.


E essa diferença é justamente uma das coisas mais fascinantes de uma língua. É perfeitamente normal que alguém escute uma palavra pela primeira vez e pense que ela é engraçada. É normal achar curioso um determinado modo de falar. É normal estranhar um sotaque ou descobrir que uma palavra possui um significado diferente daquele que conhecíamos. O que não é razoável é transformar o nosso desconhecimento em uma espécie de tribunal linguístico. Se eu nunca ouvi uma palavra, isso significa apenas que eu nunca ouvi aquela palavra. Não significa que ela esteja errada. Se uma expressão não é usada no meu estado, isso significa apenas que ela não faz parte da minha variedade linguística. Não significa que ninguém possa utilizá-la legitimamente em outro lugar.


Essa questão é muito bem discutida pelo linguista Marcos Bagno em seu livro Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. A obra é particularmente importante para compreender que a língua não é uma estrutura rígida, uniforme e utilizada da mesma maneira por todos os brasileiros. Existem diferentes variedades linguísticas, influenciadas pela região, pela história, pelo grupo social, pela situação de comunicação e por diversos outros fatores. Há, naturalmente, uma norma-padrão utilizada em determinados contextos formais, sobretudo na escrita, mas isso não significa que todas as demais formas de expressão sejam simplesmente “erradas”. Uma coisa é discutir adequação linguística em determinado contexto. Outra, completamente diferente, é tratar uma variedade regional como defeituosa apenas porque não corresponde àquela com a qual estamos acostumados.


Particularmente, considero impressionante a riqueza da linguagem no Rio Grande do Norte. Um exemplo que sempre me chamou atenção é a palavra “peia”, que possui cincco diferentes sentidos e usos no vocabulário regional. Dependendo do contexto, a palavra pode estar relacionada a uma surra, a um instrumento utilizado para bater ou castigar, a elementos empregados para prender ou controlar animais, peça para subir em coqueiros e a forma pejrativa de se referir ao órgão sexual masculino, ou seja são usos tradicionais registrados no vocabulário regional. Essa multiplicidade de significados é muito interessante porque mostra como uma palavra pode adquirir diferentes sentidos ao longo da história de uma comunidade. Em vez de simplesmente achar a palavra estranha, poderíamos perguntar de onde veio, como se desenvolveu, em quais situações é utilizada e por que adquiriu determinados significados. Isso é cultura. Isso é patrimônio linguístico. Isso é história preservada na fala cotidiana.


Por isso, quando alguém chega a um estado nordestino e encontra uma palavra que nunca ouviu, a atitude mais interessante não seria dizer que “os nordestinos falam assim”, porque essa afirmação já parte de uma generalização equivocada. Muito menos seria afirmar que a palavra está errada. Seria muito mais interessante dizer: “Descobri uma expressão que eu não conhecia e aqui no Rio Grande do Norte ela é utilizada dessa maneira”. Parece uma diferença pequena, mas muda completamente o sentido daquilo que está sendo apresentado. Na primeira situação, uma experiência particular é transformada em regra geral. Na segunda, uma descoberta cultural é apresentada como aquilo que realmente é: uma característica de determinado lugar. Fica muito mais bonito e civilizado publicar um vídeo nesses conformes. NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: A LINGUAGEM NO RIO GRANDE DO NORTE


É preciso também entender que o Brasil é bonito justamente porque não é uniforme. Seria muito triste se todos os estados tivessem o mesmo sotaque, as mesmas comidas, as mesmas festas, as mesmas músicas, as mesmas expressões e os mesmos costumes. Uma das maiores riquezas brasileiras está justamente na possibilidade de viajar para outro estado e perceber que existem outras maneiras de falar, cozinhar, celebrar, construir, cantar e contar histórias. É isso que nos atrai e dá sentido ao ato de viajar e conhecer o novo, o diferente, o exótico, enfim. Podemos até imaginar, de maneira metafórica, cada estado como uma espécie de pequeno país dentro de um país maior. Todos pertencem ao Brasil, compartilham uma história nacional e inúmeros elementos culturais mas cada um desenvolveu características próprias. E isso é especialmente evidente no Nordeste.


Por essa razão, considero que quem produz conteúdo sobre uma região que não é a sua deveria ter um pouco mais de cuidado. Não custa pesquisar antes de afirmar alguma coisa. Não custa conversar com uma pessoa que nasceu e cresceu naquele lugar. Não custa perguntar a alguém mais velho da comunidade se determinada expressão é realmente utilizada e em quais situações. Não custa consultar um dicionário regional, um estudo linguístico, uma obra acadêmica ou um pesquisador. Às vezes, uma conversa de poucos minutos é suficiente para transformar aquilo que poderia ser um vídeo equivocado ou até desagradável em um conteúdo realmente interessante sobre cultura brasileira. Isso pode expor o youtuber ao ridículo ou gerar hostilidades, pois nem todos aceitam na boa.


E isso não vale apenas para palavras. Vale para tudo. Vale para a comida, para a música, para a dança, para a arquitetura, para as festas populares, para os costumes, para as manifestações religiosas, para as frutas, para as formas de tratamento e para tantas outras características que fazem uma comunidade ser diferente de outra. A pessoa pode perfeitamente achar uma comida estranha, uma dança curiosa, um costume engraçado ou uma palavra inusitada. Isso faz parte da experiência de conhecer um lugar diferente. O problema começa quando o estranhamento se transforma em condenação. Há uma diferença enorme entre dizer “eu não conhecia isso” e dizer “isso está errado” ou expor para zombar ou riducularizar.


Talvez uma das maiores demonstrações de cultura seja justamente reconhecer aquilo que não conhecemos. Não precisamos gostar de tudo o que encontramos. Não precisamos incorporar todos os costumes. Não precisamos utilizar todas as palavras. Não precisamos achar bonito tudo aquilo que vemos. Mas precisamos ter humildade para compreender que o nosso modo de fazer as coisas não é necessariamente o único modo possível. Se para mim uma determinada palavra não funciona, isso não significa que ela não funcione para outra comunidade. Se para mim determinado costume parece estranho, isso não significa que ele não tenha um enorme valor afetivo e histórico para quem o pratica. Se eu não utilizo determinada expressão, isso não me transforma em autoridade para determinar que ninguém deveria utilizá-la.


Há, inclusive, algo de contraditório quando alguém viaja para conhecer uma cultura diferente e, ao encontrar algo que não conhece, decide imediatamente que aquilo está errado. Afinal, viajar deveria ampliar nossas referências, não reduzir o mundo àquilo que já conhecemos. O desconhecido deveria despertar curiosidade. A diferença deveria provocar perguntas. O estranho deveria ser uma oportunidade de aprender. Quando transformamos tudo aquilo que não corresponde à nossa experiência em erro, acabamos perdendo justamente a melhor parte da viagem: a descoberta.


A facilidade de publicar qualquer coisa nas redes sociais também criou uma situação curiosa: muitas vezes, uma descoberta feita em poucas horas é apresentada como se fosse conhecimento sobre uma cultura inteira. A pessoa ouve uma expressão, registra aquilo com surpresa e, em seguida, transforma sua impressão em uma espécie de conclusão. É aí que a curiosidade, que poderia resultar em um conteúdo interessante, acaba perdendo a oportunidade de se transformar em conhecimento. Antes de explicar ao mundo aquilo que acabou de descobrir, talvez fosse mais prudente ouvir quem vive naquele lugar, perguntar a quem nasceu ali, investigar a origem da expressão e perceber se aquilo que parece estranho para um visitante é, na verdade, absolutamente natural para a comunidade. A internet pode ser um excelente instrumento para divulgar a riqueza cultural de um povo, mas também pode ampliar rapidamente um equívoco. E quando esse equívoco vem acompanhado de deboche ou de uma suposta correção da maneira como os outros falam, quem acaba se revelando não é a cultura visitada, mas a falta de conhecimento de quem decidiu julgá-la.


No fim das contas, talvez uma das melhores maneiras de conhecer o Brasil seja exatamente perceber essas diferenças. Viajar pelo país é descobrir que o português continua sendo português, mas que os brasileiros encontraram incontáveis maneiras de falar, nomear as coisas e expressar sentimentos. É descobrir que uma mesma comida pode ter nomes diferentes, que uma mesma palavra pode possuir significados diferentes, que uma mesma festa pode assumir características próprias em cada lugar e que estados vizinhos podem conservar identidades culturais surpreendentemente distintas. Por isso, estranhar é normal. Achar curioso é normal. Até achar engraçada uma palavra que nunca ouvimos pode ser normal, desde que exista respeito. O que não deveria ser normal é transformar o desconhecimento em superioridade e a diferença em erro. Quem se dispõe a falar publicamente sobre a cultura de outro lugar precisa pesquisar, ouvir, conversar e, principalmente, respeitar. Porque diferença não é defeito. Diferença é patrimônio.


E talvez seja justamente isso que torne o Brasil tão extraordinário: somos um só país, mas não precisamos ser todos iguais. O Nordeste é um excelente exemplo disso. São nove estados, inúmeras histórias, muitos sotaques, milhares de palavras, sabores, ritmos, costumes e maneiras de interpretar a vida. Não existe um único Nordeste. Existem muitos Nordestes, e cada um deles merece ser conhecido sem preconceito e tratado com respeito. No final, há uma frase simples que resume tudo: se para mim não funciona, pode funcionar perfeitamente para outro. E, quando falamos de língua, cultura e identidade, essa diferença não precisa ser corrigida. Precisa ser compreendida, afinal, se são nove países, como diabos vou saber qual idioma fala cada um? (Então preciso conhecê-los antes de sentenciá-los). OBS. Todos são muito bem vindos ao Nordeste, principalmente as pessoas civilizadas...


domingo, 23 de agosto de 2026

O QUE CÂMARA CASCUDO NOS DIZ QUANDO MORREM OS GUARDIÕES DA MEMÓRIA...

 


Os "velhos" de S. José de Mipibu foram morrendo, morrendo, e com eles as reminiscências de tradições locais. Velho de hoje não tem memória e não gosta de recordar tempo passado, para que ninguém pense que ele é demasiado antigo. Outrora havia orgulho em fazer-se viver a vida dos dias idos, mas presentemente sente-se o pudor, respeito, timidez, acanhamento, em recordar o que desapareceu. A impressão é que o julgam contemporâneo aos fatos pretéritos. Como se toda a gente fosse coeva ao que sabe ter acontecido.
​Luís da Câmara Cascudo

 

​Um negociante do velho Mossoró, estória contada pelo Manuel Borges, ao perguntarem sobre o descobrimento do Brasil, respondeu, rápido, como afastando parentesco na quarta dimensão:
– Não é do meu tempo!... ​(A REPÚBLICA - 24/09/1959)


Quando morrem os guardiões da memória

Há, nessas palavras de Câmara Cascudo, escritas em uma de suas Actas Diurnas, uma inquietação que permanece profundamente atual: a percepção de que uma comunidade pode perder muito mais do que pessoas quando seus velhos desaparecem. Com eles podem desaparecer histórias, lendas, costumes, maneiras de falar, acontecimentos, nomes de lugares, personagens esquecidos, antigas relações de parentesco e, sobretudo, uma determinada maneira de compreender o mundo. Já contei inúmeras vezes sobre as pesquisas que fiz em Nísia Floresta, ocasião que conversei com inúmeros idosos, pois na lógica da existência, são eles que partem primeiro, portanto suas memórias precisam ser colhidas.

Cascudo percebeu isso com extraordinária lucidez. Nela, ele se refere ao município de São José de Mipibu/RN, mas, na verdade, pensava em todos os lugares. O que está em jogo não é simplesmente a velhice, mas a memória. O velho, naquele universo de que ele fala, não era apenas alguém que havia vivido muitos anos. Era, muitas vezes, uma espécie de arquivo vivo da comunidade. Sua memória guardava aquilo que os livros não registravam e que os documentos oficiais frequentemente ignoravam. Quando esse homem ou essa mulher morria, levava consigo uma parte de um passado que talvez jamais pudesse ser recuperada.

Há, porém, uma observação ainda mais delicada no pensamento de Cascudo: o velho de seu tempo já começava a sentir certo constrangimento em falar do passado. Havia uma espécie de pudor em admitir a idade, em recordar costumes antigos, em contar aquilo que testemunhara. Como se lembrar fosse denunciar a própria velhice. Como se recordar fosse confessar que se pertence a outro tempo. E aqui está uma das grandes ironias apontadas por Cascudo. A sociedade que deveria ouvir os mais velhos, justamente porque eles carregam experiências que ninguém mais possui, começa a tratá-los como se fossem inadequados ao presente. O passado passa a ser visto como coisa ultrapassada, e a memória, em vez de patrimônio, transforma-se em motivo de acanhamento.

Isso é particularmente grave quando pensamos nas pequenas cidades e comunidades, onde a história muitas vezes sobrevive muito mais na palavra do que no papel. Em lugares como São José de Mipibu, cada velho poderia ser portador de uma parcela da história coletiva. Um engenho que desapareceu, uma festa que deixou de existir, uma antiga família, um caminho, uma expressão popular, uma história de assombração, um acontecimento político, uma tradição religiosa ou simplesmente uma maneira de viver que já não encontra lugar no presente.

Tudo isso pode morrer silenciosamente. Por isso, a advertência de Cascudo não deve ser lida apenas como uma lembrança de seu tempo. Ela é também um chamado à responsabilidade. Antes que o último narrador desapareça, é preciso perguntar, ouvir e registrar. É preciso compreender que a memória oral não é uma memória menor. Ela é uma das formas pelas quais uma sociedade reconhece a si mesma. Talvez seja justamente por isso que a frase de Cascudo sobre os velhos de São José de Mipibu adquira, hoje, uma força ainda maior. Ele não estava apenas lamentando a morte de algumas pessoas. Estava percebendo o desaparecimento de um mundo.

E mundos inteiros podem desaparecer sem fazer barulho. Às vezes, desaparecem quando a última pessoa que sabia contar determinada história fecha os olhos. Não há funeral para a memória perdida. Não existe lápide para aquilo que ninguém mais poderá contar. O que se perdeu simplesmente deixa de ser conhecido. É por isso que ouvir os velhos é também uma forma de salvar o passado. E talvez seja esse um dos maiores ensinamentos de Câmara Cascudo: antes que a memória se transforme em silêncio, é preciso dar-lhe ouvidos.


sábado, 22 de agosto de 2026

.

.

.

.

RUA JOÃO PESSOA E O CAOS DE UMA OBRA DESNECESSÁRIA E QUE NÃO TERMINA...

Quem passa atualmente pela Rua João Pessoa, no coração da Cidade Alta, em Natal, tem dificuldade de compreender como uma obra que deveria representar a revitalização de um dos mais importantes espaços históricos da cidade conseguiu transformar-se em um verdadeiro transtorno para a população. INICIADA EM MAIO DE 2023 PELA PREFEITURA MUNICIPAL DE NATAL.

A INTERVENÇÃO JÁ ULTRAPASSA TRÊS ANOS DE RECOMEÇOS E RECOMEÇOS, paralisações, retomadas e novas promessas de conclusão. Nesse intervalo, comerciantes tiveram seus negócios prejudicados, pedestres passaram a disputar espaços improvisados com veículos, motocicletas e materiais de construção, e a circulação tornou-se um exercício permanente de risco. Não são poucos os relatos de pessoas que se machucaram diante das condições precárias de passagem.

Agora, mais uma vez - APROXIMANDO-SE AS ELEIÇÕES -, a obra foi anunciada como reiniciada, com a promessa de que finalmente será concluída até dezembro. É inevitável, diante de tantas interrupções e recomeços, perguntar se estamos diante de um verdadeiro projeto de urbanização pensado para a população ou de mais uma obra que acabou incorporada ao calendário político das administrações, MAS COM GRAVES EQUÍVOCOS.


NATAL JÁ É POBRE DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO, AGORA VÃO TAPAR A VISÃO DE DUAS PEÇAS ARQUITETÔNICAS, TENDO UMA DELAS, MAIS DE 100 ANOS...

E há ainda uma contradição que considero particularmente grave: a revitalização de um espaço histórico deveria valorizar e revelar a arquitetura existente, jamais escondê-la. No entanto, justamente diante dos antigos prédios e de suas fachadas, ergue-se uma gigantesca estrutura metálica - inclusive de péssima qualidade - MATERIAL DE QUINTA CATEGORIA -, destinada a cobrir a rua. A ironia é evidente: aquilo que deveria devolver visibilidade ao patrimônio pode acabar obscurecendo-o. Nas extremidades de ambas as esquinas, há dois imóveis, tendo um deles mais de 100 anos.

Mesmo que a estrutura fosse arquitetonicamente bela, ainda seria legítimo questionar a necessidade de criar um teto sobre uma rua histórica, tapando a visão das edificações que deveriam ser protagonistas da paisagem urbana. É difícil compreender como arquitetos, engenheiros, gestores públicos e os próprios órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio não têm visão diferenciada de descortinar os frontões, ao invés de cobri-los, mas aceitaram uma solução que, na minha visão, agride a lógica de valorização do conjunto histórico.

QUERO, INCLUSIVE, APROVEITAR E SUGERIR AOS VEREADORES DE NATAL QUE DELIBEREM UM PROJETO QUE RETIRE TODAS AS MARQUISES E ELEMENTOS QUE TAPAM OS FRONTÕES DE TODO O CENTRO HISTÓRICO, FAZENDO VALER O QUE SOBROU EM TERMOS DOS ADORNOS ORIGINAIS DAS PAREDES. AINDA SOBROU ALGUMA COISA. ERA PARA SE ARRANCAR TODAS AS MARQUISES. JÁ IMAGINOU VER APENAS AS PAREDES COM OS NOMES ESCRITOS NA PRÓPRIA PAREDE COMO ANTIGAMENTE? VAMOS RESSUSCITAR ATÉ MESMO O QUE CHAMAM DE "OS ABRIDORES DE LETRAS", JÁ MEIO EM EXTINÇÃO PELO FENÔMENO DOS BANNERS...

Revitalizar não deveria significar esconder. Restaurar a vida de uma rua histórica não deveria significar encobrir sua própria história. O que Natal precisa é de uma intervenção que respeite o cidadão, facilite sua circulação, fortaleça o comércio e, sobretudo, permita que seus prédios históricos sejam vistos, admirados e reconhecidos como parte viva da memória da cidade. Onde estão os profissionais de visão diferenciada?

HÉLIO SEREJO: UM MONUMENTO À CULTURA POPULAR SUL-MATO-GROSSENSE...

 

Por mais que estejamos longe do berço onde nascemos, por mais que vivamos onde a cultura popular é bela e rica, a nossa essência bate como um coração quando falamos de cultura popular, de memória e das coisas que dão sentido à nossa identidade. Por isso, como sul-mato-grossense, não poderia deixar passar este mês de agosto sem reverenciar um intelectual que realizou um verdadeiro prodígio: produzir uma gigantesca obra literária capaz de traduzir, com fidelidade, riqueza e abundância, a alma do povo sul-mato-grossense. Falo de HÉLIO SEREJO, escritor, jornalista, poeta, memorialista e folclorista, um dos maiores intérpretes da gente e da terra de Mato Grosso do Sul.

Nascido em Nioaque, em 1º de junho de 1912, Hélio Serejo viveu profundamente ligado ao universo dos ervais, da fronteira e da vida sertaneja. Desde muito cedo conheceu a dureza do trabalho e os homens que faziam daquele território um espaço de sobrevivência, esperança, coragem e convivência. Essa experiência não ficou apenas em sua memória: transformou-se em literatura. O menino que conheceu os caminhos, os ranchos, os ervais e as gentes de sua terra tornou-se, mais tarde, um extraordinário contador da história cotidiana de uma região.


É difícil falar de Hélio Serejo sem experimentar uma espécie de encantamento diante da dimensão de sua produção. São mais de sessenta obras atribuídas à sua trajetória, abrangendo contos, crônicas, poemas, romances, memórias, estudos de costumes, lendas e registros da vida regional. Em 2008, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul reuniu sua produção em nove volumes de Obras Completas, numa publicação monumental que permitiu perceber, de maneira ainda mais clara, a extensão e a unidade de seu legado.

E há algo particularmente extraordinário em sua escrita: o Folclore parece caminhar por dentro de toda a sua obra. Ele não precisa necessariamente anunciar que está escrevendo sobre cultura popular para que ela apareça. O Folclore surge naturalmente, como surge a conversa de um homem do campo, como surge o cheiro da erva-mate, como surge uma história contada no galpão ou uma lembrança evocada à beira do caminho. Está nos costumes, nas crenças, nas comidas, nas festas, nos modos de falar, nos medos, nas superstições, nas lendas, nas relações de trabalho e nas maneiras de compreender a vida.

É simplesmente impressionante perceber como essa presença atravessa livros de naturezas diferentes sem descaracterizá-los. Em Carreteiro de Minha Terra, Ronda Sertaneja, Rincão dos Xucros, Prosa Rude, Canto Caboclo, Vida de Erval, Pelas Orilhas da Fronteira, Palanques da Terra Nativa, Caraí e tantos outros títulos, a cultura popular aparece como uma espécie de fio invisível que costura a produção de Serejo.


Em algumas obras, esse compromisso com a cultura popular se torna ainda mais explícito. É o caso de Lendas da Erva-Mate e Lendas do Estado de Mato Gross do Sul, títulos que revelam o pesquisador atento às narrativas que habitavam o imaginário de sua gente. Em Abusões de Mato Grosso e de Outras Terras (escrito antes da divisão do estado do MT), mergulha no universo das crenças e dos assombros. Em Modismo do Sul de Mato Grosso, registra modos de falar e particularidades linguísticas. Em Vida de Erval e No Mundo Bruto da Erva-Mate, aproxima-nos do universo social e humano dos ervais, tão decisivo para a formação histórica e cultural da região.

Mas talvez uma das maiores grandezas de Hélio Serejo esteja justamente em não separar artificialmente literatura e vida. Ele compreendeu que a cultura de um povo não mora apenas nos grandes acontecimentos históricos. Ela mora também no pequeno gesto, na palavra aparentemente simples, no apelido, na superstição, no prato de comida, na conversa, na festa, no medo, na valentia, na maneira de cumprimentar um amigo e na história contada muitas vezes até adquirir a dimensão de lenda.

Por isso sua obra é, ao mesmo tempo, literatura e documento de uma época. Pesquisadores reconhecem nela um extraordinário patrimônio de memória, capaz de registrar costumes, trabalho ervateiro, alimentação, mitos, lendas, medicina natural, festas e modos de viver da região fronteiriça. E tudo isso é realizado com uma linguagem muito particular, marcada pelo encontro entre o português, o espanhol e o guarani, numa expressão literária que procura reproduzir a riqueza linguística daquela fronteira.

Há, portanto, em Hélio Serejo, um profundo respeito pelo homem simples. Ele não olha para o povo de longe. Ele escreve de dentro, com intimidade. Conhece suas dores, suas alegrias, suas crenças e contradições. Conhece a aspereza da vida nos ervais e a beleza das paisagens. Conhece o silêncio dos caminhos e a força das palavras. E, sobretudo, compreende que aquele homem que muitas vezes não aparece nos livros oficiais também é construtor da História.

Talvez por isso seja tão difícil encontrar uma definição que dê conta de sua importância. Chamá-lo apenas de escritor seria pouco. Dizer que foi apenas folclorista também seria insuficiente. Hélio Serejo foi um guardião da memória sul-mato-grossense. Foi um homem que percebeu, antes que muita coisa desaparecesse, que a cultura popular precisava ser registrada. Sua escrita funciona como uma grande casa onde ficaram abrigadas vozes que poderiam ter sido levadas pelo tempo.

Sua trajetória também é marcada por reconhecimento institucional. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e de outras instituições ligadas à cultura e ao folclore, inclusive organizações de outros países. Sua produção alcançou uma dimensão que ultrapassou as fronteiras regionais, embora tenha permanecido profundamente enraizada no chão de onde veio.

Hélio Serejo morreu em Campo Grande, em 8 de outubro de 2007, aos 95 anos. Mas há homens que não morrem inteiramente porque continuam vivendo naquilo que deixaram. Serejo permanece nas palavras que escreveu, nas histórias que registrou, nos personagens que criou, nos costumes que preservou e, sobretudo, na possibilidade que nos oferece de reencontrarmos uma parte de nós mesmos quando abrimos seus livros. No dia de hoje o meu coração viaja para longe...



sexta-feira, 21 de agosto de 2026

BARÔNCIO GUERRA E A MEMÓRIA DOS CINCO PEIXOTOS EXPEDICIONÁRIOS - HEROIS DA GUERRA DO PARAGUAI.

MEU TIO TRISAVÔ MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORDEIRO PEIXOTO, AOS 100 ANOS, EXPEDICIONÁRIO QUE PARTICIPOU DA GUERRA DO PARAGUAI, SENDO HOMENAGEADO POR GETÚLIO VARGAS EM 1940 EM BELÉM/PA.

O artigo “Álbum e cronologia da vida de Barôncio Guerra”, de Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro Furtado de Mendonça e Menezes, ambos sócio efetivos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, publicado na Revista Galo, n. 7, ano 4, constitui uma importante contribuição para a compreensão da vida de Barôncio de Brito Guerra e, ao mesmo tempo, do ambiente histórico, cultural e intelectual do Rio Grande do Norte nas primeiras décadas do século XX. O trabalho foi elaborado a partir de fotografias, jornais, revistas, almanaques, correspondências e outras fontes reunidas em arquivos públicos e privados, com o propósito de estabelecer uma cronologia capaz de acompanhar a trajetória de Barôncio e, por meio dela, recuperar aspectos da própria história de Natal.

Os autores ressaltam que Barôncio Guerra, nascido em Triunfo, no Rio Grande do Norte, em 1882, teve uma vida estreitamente ligada à capital potiguar, onde exerceu exerceu numerosas atividades, como funcionário da repartição de Melhoramentos do Porto, agente da Caixa Paulista de Pensões, empresário, jornalista, advogado, delegado e chefe do comando do Batalhão de Polícia, além de ter sido músico, escritor e participante ativo da vida cultural da cidade. Sua existência, como observam os autores, praticamente se confunde com a própria vida de Natal de seu tempo. Apreciando esse importante material encontramos – dentre diversos temas distintos – os cinco potiguares que participaram da Guerra do Paraguai, os quais são todos da minha família. Encontra-se exatamente em uma passagem da cronologia correspondente ao ano de 1930. Ele também cita mais dois expedicionários, os quais não são da minha família.

Biblioteca Nacional

Os autores informam que, naquele período, Barôncio Guerra escreveu uma série de perfis sobre figuras de Campo Grande, publicados no jornal A Republica. A iniciativa teria ocorrido em resposta a uma provocação do prefeito de Natal, Omar O'Grady, dirigida ao Instituto Histórico. O dado ganha especial relevância porque os nomes dos personagens foram posteriormente preservados por Yapery Yupiassu, filho de Barôncio, que enumerou aqueles sobre os quais o pai havia escrito. Entre os sete personagens relacionados, encontram-se Alferes Antonio Martins Corrêia, Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa e Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro – que são meus tios-trisavôs –, ao lado do Alferes Joaquim Castriciano de Brito e do Soldado Francisco Justiniano de Melo. É justamente nesse conjunto que reencontramos os cinco expedicionários que constituem objeto central de nossa investigação.

O registro possui importância especial porque revela que esses homens, cuja juventude havia sido marcada pela Guerra do Paraguai, continuavam presentes na memória histórica potiguar muitas décadas depois do conflito. Não estamos diante, portanto, de uma simples relação de militares. Barôncio Guerra os reuniu no contexto de uma série dedicada às figuras de Campo Grande, procurando recuperar personagens que, por suas trajetórias, haviam adquirido lugar na memória daquela antiga localidade. A presença simultânea de cinco expedicionários nessa relação é particularmente expressiva. Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro e Alferes Antonio Martins Correia passam a ser vistos, nesse documento, não apenas como homens ligados à Guerra do Paraguai, mas como integrantes de uma geração de personagens cuja lembrança permanecia vinculada à história de Campo Grande. O artigo, embora não reproduza os perfis originais escritos por Barôncio, confirma sua existência e identifica nominalmente os personagens que foram objeto daquela iniciativa memorialística.

Essa informação precisa ser compreendida dentro da própria trajetória intelectual de Barôncio Guerra. O artigo mostra que ele não se limitava à atividade jornalística, à advocacia ou à intensa vida social e cultural de Natal. Desde cedo demonstrava interesse pelo passado do Estado. Em 1908, por exemplo, ao registrar sua participação na vida musical natalense, o texto também o apresenta como alguém que estudava e pesquisava a história do Rio Grande do Norte. Essa inclinação ajuda a compreender a iniciativa de 1930. Barôncio já era então uma figura madura, com ampla experiência na imprensa e na vida pública, e voltou sua atenção para personagens da antiga Campo Grande, procurando registrar suas trajetórias em perfis publicados em A República. Sua atividade deve ser vista, portanto, como parte de um esforço mais amplo de preservação da memória histórica potiguar, desenvolvido por meio da imprensa e relacionado ao ambiente intelectual do Instituto Hist´rico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Há ainda um aspecto territorial que não pode ser desprezado. O artigo explica, em nota, a sucessão das denominações de Campo Grande, Triunfo e Augusto Severo, mostrando que a localidade passou por transformações administrativas e toponímicas ao longo do tempo. Campo Grande foi a denominação inicial; posteriormente, a localidade recebeu o nome de Triunfo e, mais tarde, Augusto Severo. A nota esclarece que Triunfo foi adotado em 1858 e que a denominação Augusto Severo constituiu homenagem ao grande amigo do chefe político Luís Pereira Tito Jacome, morto na explosão do dirigível Pax, em Paris, em 1902. Essa observação é importante para o nosso estudo porque ajuda a compreender as diferentes referências territoriais encontradas na documentação relativa aos expedicionários. Os homens que estamos estudando pertencem a uma realidade histórica anterior às denominações posteriores e, por isso, suas biografias podem aparecer em fontes diferentes associadas a Campo Grande, Triunfo ou Augusto Severo.

É nesse cenário que a figura do Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto adquire particular relevo. Seu nome aparece explicitamente entre os personagens de Campo Grande sobre os quais Barôncio Guerra escreveu. Para o presente estudo, essa informação possui grande significado, pois confirma que Cornélio não foi lembrado apenas por sua carreira militar ou por sua participação na Guerra do Paraguai. Sua trajetória permaneceu vinculada à memória histórica de Campo Grande, chegando à produção intelectual de Barôncio Guerra já na década de 1930. O artigo não fornece, nesse trecho, detalhes sobre sua carreira militar, sua atuação no conflito ou os acontecimentos posteriores de sua vida; não seria, portanto, correto atribuir ao texto informações que ele não apresenta, embora isso pode ser encontrado num texto recente que escrevi sobre cinco parentes meus, expedicionários da Guerra do Paraguai: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: MAJOR MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORDEIRO PEIXOTO: HERÓI DA GUERRA DO PARAGUAI - O FILHO DO RIO GRANDE DO NORTE QUE ATRAVESSOU A HISTÓRIA DO BRASIL O que o documento efetivamente confirma é que Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto foi escolhido por Barôncio como uma das figuras históricas de Campo Grande merecedoras de um perfil publicado em A República. Leia também outra matéria que trata sobre os mesmos personagens: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: REVELAÇÕES DO DIÁRIO DE ANTONIO MARTINS CORREIA PEIXOTO: QUANDO A PESQUISA HISTÓRICA REENCONTRA A MEMÓRIA DA FAMÍLIA...

O mesmo ocorre com os demais expedicionários. Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa e Alferes Antonio Martins Corrêia aparecem associados a Cornélio na mesma relação. O valor documental desse agrupamento é justamente a possibilidade de enxergar os cinco homens dentro de uma mesma tradição de memória. Embora suas trajetórias individuais tenham sido diferentes, todos foram recuperados por Barôncio Guerra como personagens ligados à antiga Campo Grande. Para uma investigação que busca reconstruir a participação dos potiguares na Guerra do Paraguai, essa coincidência é extremamente significativa. Ela demonstra que a experiência desses homens não desapareceu com o fim da guerra nem com o passar das gerações. Ao contrário, seus nomes continuaram disponíveis na memória local e puderam ser retomados, décadas mais tarde, por um pesquisador e jornalista interessado em registrar os personagens que haviam contribuído para a história de sua terra.

A própria circunstância de os perfis terem sido escritos na década de 1930 merece atenção. A Guerra do Paraguai havia terminado havia aproximadamente seis décadas. Já pertenciam ao passado os acontecimentos militares que haviam levado aqueles homens aos campos de batalha, e uma nova geração de potiguares começava a olhar para eles como personagens históricos. Barôncio Guerra pertence justamente a essa geração posterior. Ao recuperar suas figuras, ele estabelece uma ligação entre o século XIX, vivido pelos expedicionários, e o século XX, no qual a memória deles começava a ser transformada em registro histórico. É como se, através da escrita, Barôncio procurasse impedir que aquela geração desaparecesse inteiramente da lembrança coletiva. Esse gesto é de uma nobreza admirável, pois com certeza absoluta ele teve papel importante para que a memória desses meus cinco tios-bisavós não desaparecesse no tempo. Seus perfis, publicados em jornal, representavam uma maneira de devolver à sociedade os nomes de homens que haviam participado de momentos importantes da formação histórica do Estado e do país.

O artigo de Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro adquire – com igual valor – uma importância que ultrapassa a própria biografia de Barôncio Guerra. Ao reconstruírem sua vida, os autores acabam encontrando essa pequena, mas preciosa janela para a história dos cinco expedicionários. A cadeia documental é reveladora: Barôncio escreveu os perfis; seu filho Yapery Yupiassu preservou a relação dos personagens sobre os quais o pai havia escrito; décadas depois, os pesquisadores recuperaram essa informação ao estudar a vida de Barôncio. Agora, essa mesma referência retorna à investigação sobre os expedicionários da Guerra do Paraguai. Cada geração, de certa maneira, acrescentou uma nova camada à memória desses homens, fazendo com que seus nomes atravessassem o tempo. Isso reforça a ideia sobre o valor da História. Digo isso porque desde criança ouvia minha mãe falar que o seu tio-avô, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, havia participado da Guerra do Paraguai, mas eu não sabia nada mais que isso. Passei anos pesquisando, publiquei recentemente o texto acima e, nos últimos dias, como um algoritmo, as coisas vêm aparecendo incrivelmente, inspirando-me a escrever novos textos com novas abordagens sobre esses cinco parentes que me orgulham.

É preciso, entretanto, estabelecer com precisão os limites da fonte. O artigo da Revista Galo não transcreve os perfis de Barôncio Guerra sobre os cinco expedicionários. Ele apenas informa que esses textos existiram e identifica os personagens. Por isso, as informações biográficas mais amplas que já possuímos sobre esses cinco expedicionários da mesma família devem ser sustentadas pelas demais fontes que integram nossa pesquisa, e não atribuídas indevidamente a este artigo. O verdadeiro valor dessa publicação está em apontar para uma fonte primária ainda não explorada neste documento: os próprios textos publicados por Barôncio em A República. Encontrá-los poderá representar um avanço considerável, pois permitirá conhecer não apenas os nomes, mas a maneira como um intelectual potiguar da primeira metade do século XX interpretou e apresentou esses antigos combatentes.

A passagem da Revista Galo constitui, portanto, uma referência que merece ser incorporada ao estudo dos cinco expedicionários. Ela confirma que Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro e Alferes Antonio Martins Corrêia pertenciam à memória histórica de Campo Grande e que suas trajetórias foram consideradas dignas de registro por Barôncio Guerra. Mais do que isso, a fonte permite perceber que a lembrança desses homens ultrapassou o círculo familiar e militar e alcançou a imprensa e a produção intelectual potiguar. Quando Barôncio os recupera, na década de 1930, ele não está apenas recordando soldados de uma guerra distante; está trazendo novamente à luz personagens de uma geração que havia participado de acontecimentos fundamentais da história brasileira. E é precisamente essa permanência da memória que torna a referência tão importante para o este estudo.

O próximo passo, naturalmente, será buscar os perfis originais publicados por Barôncio Guerra em A República. Se encontrados, eles poderão constituir uma fonte de primeira grandeza para a reconstrução das trajetórias dos cinco expedicionários, permitindo comparar aquilo que Barôncio escreveu na década de 1930 com os documentos militares, registros familiares, jornais e demais fontes que já vêm sendo reunidos nesta pesquisa. O artigo de Sobral e Pignataro, nesse sentido, não encerra a investigação: ao contrário, abre uma porta. E talvez seja justamente atrás dessa porta que estejam algumas das mais importantes informações ainda não localizadas sobre esses cinco homens que, saídos do Rio Grande do Norte, atravessaram a história da Guerra do Paraguai e permaneceram, décadas depois, na memória de sua terra. Reitero: História é isso, o que pode começar com história oral – como foi o caso da informação da minha mãe – termina em material escrito: fato.

Referência: SOBRAL, Gustavo; MENDONÇA E MENEZES, André Felipe Pignataro Furtado de. Álbum e cronologia da vida de Barôncio Guerra. Revista Galo, Natal, n. 7, ano 4, p. 69-89. Recebido em 20 jul. 2022. Aprovado em 16 dez. 2022. A passagem relativa aos perfis das figuras de Campo Grande encontra-se na p. 82 da revista, correspondente à p. 14 do PDF disposto na internet. O artigo informa, ao final, que os autores consultaram jornais, revistas, almanaques, publicações do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, arquivos e coleções particulares, tendo desenvolvido a pesquisa e a redação ao longo de 2021 e 2022.

 


“SEU CASCUDO, TEM UM HOMEM AQUI FORA!”

Imagem apenas inspirada na história, sem compromisso com a fidelidade, gerada por IA.

Há histórias que parecem pequenas demais para serem contadas. Duram alguns segundos, caberiam facilmente entre uma porta e uma escadaria, entre duas vozes lançadas de um cômodo a outro. E, no entanto, algumas dessas histórias possuem uma espécie de eternidade. Ficam na memória porque, por trás do riso, carregam alguma coisa muito maior: revelam o homem, o ambiente em que viveu, a maneira como se relacionava com as pessoas e, sobretudo, uma época que não volta mais. Foi Daliana Cascudo Roberti Leite, neta de Câmara Cascudo quem me contou, certa vez, uma dessas histórias deliciosamente simples sobre seu avô, Luís da Câmara Cascudo. E nunca mais a esqueci. Daliana, herdeira da genética espirituosa da mãe e do avô, conta, encantando. 

Na casa de Cascudo, havia aquela atmosfera que só as casas verdadeiramente vividas conseguem guardar. O movimento das pessoas, a intimidade dos que ali trabalhavam, as conversas que atravessavam os cômodos, os visitantes que chegavam de todos os lugares e, no centro de tudo, aquele homem extraordinário, sentado em seu gabinete, cercado de livros, papéis, lembranças, documentos e ideias.

Cascudo estava em seu gabinete, logo na entrada da casa. Em determinado momento, alguém bateu palmas no portão. Uma das empregadas da casa foi atender. Era uma mulher simples, dessas criaturas que a vida aproxima dos outros sem cerimônia. E talvez aí esteja uma das características mais encantadoras do Nordeste: a espontaneidade. O nordestino, muitas vezes, não precisa de grandes formalidades para transformar um desconhecido em conhecido e, em pouco tempo, um conhecido em amigo. A conversa se estabelece, a distância desaparece e, quando se percebe, já existe uma intimidade que não precisou de convite.

Com aquela mulher acontecia exatamente isso. E havia ainda um detalhe: eram muitos anos trabalhando naquela casa. E trabalhar durante tantos anos na residência de quem? De Luís da Câmara Cascudo! A convivência havia dissolvido qualquer solenidade. Por isso, quando percebeu que havia um homem esperando do lado de fora, ela não achou necessário caminhar até o gabinete para avisar pessoalmente. Afinal, Cascudo estava ali perto. E, mais do que isso, tinha excelente audição. Ela simplesmente subiu um pouquinho a escadaria e, sentindo-se inteiramente em casa, chamou:

“SEU CASCUDO! SEU CASCUDO! TEM UM HOMEM AQUI FORA!”

E então aconteceu o que somente Cascudo poderia fazer. Com aquela instantaneidade de raciocínio que lhe era tão característica, sem perder um segundo sequer, ele respondeu:

“DIGA PARA ELE QUE TAMBÉM TEM UM HOMEM AQUI DENTRO!”

E está contada a história. É engraçada, aparentemente banal, quase doméstica demais. Mas talvez seja justamente aí que resida a sua grandeza. Porque, naquele breve diálogo, há um pouco de tudo o que sempre me encantou em Câmara Cascudo: a rapidez mental, o humor, a irreverência, a inteligência espontânea e aquela capacidade extraordinária de transformar uma situação corriqueira numa pequena obra de espírito.

A empregada viu um homem do lado de fora. Cascudo viu a oportunidade de fazer uma graça. E nós, tantos anos depois, podemos enxergar muito mais: podemos entrever o homem por trás do monumento, o escritor por trás do nome consagrado, o intelectual que, apesar de toda a sua grandeza, continuava sendo simplesmente “Seu Cascudo”, chamado aos gritos do alto de uma escadaria. É isso que me encanta nessa história. Porque às vezes conhecemos os grandes homens através de seus livros, de seus discursos, de seus retratos, das biografias e dos monumentos. Mas é em histórias assim, pequenas e quase domésticas, que eles verdadeiramente se humanizam.

Como eu queria ter conhecido Cascudo!

Digo isso com uma ponta de lamento, porque existem pessoas que parecem pertencer a um tempo que gostaríamos de ter alcançado. Pessoas que, embora já não estejam entre nós, continuam povoando os lugares onde viveram. Seus livros permanecem nas estantes, suas fotografias nas paredes, seus objetos sobre as mesas. E, de algum modo misterioso, a presença continua.

Mas confesso que, de certa maneira, tive o privilégio de conhecê-lo através de sua filha, Ana Cascudo, da qual apanhei algumas pérolas. Tive o gosto de conhecer uma mulher que carregava consigo uma herança muito maior do que um sobrenome ilustre. Quanto mais culta, mais simples. Quanto mais conhecedora, mais atenta. Quanto mais importante, mais disponível. Havia nela consideração, delicadeza, respeito e uma generosidade que não fazia esforço para aparecer. Era um amor de pessoa. Quando Ana Cascudo morreu, senti uma tristeza diferente. Foi como se, naquele momento, não estivesse partindo apenas uma pessoa querida, mas se fechando uma biblioteca inteira. Uma biblioteca viva, cheia de lembranças, histórias, afetos, conhecimentos e memórias que atravessaram gerações. E, ao mesmo tempo, partia um ser humano tremendamente útil à humanidade.

Mas talvez as bibliotecas verdadeiramente importantes não desapareçam quando suas portas se fecham. Ficam nos outros, nos ensinamentos que transmitiram e sobretudo, impregnadas de uma presença que o tempo não consegue apagar.

Por isso, quando penso naquele casarão, percebo o quanto suas paredes ainda guardam muito de Cascudo e de sua família. Talvez seja o silêncio dos livros. Talvez sejam as vozes antigas atravessando os corredores. Talvez seja a memória de tantas pessoas que ali chegaram e saíram levando consigo um pouco daquela casa. E talvez, se prestarmos atenção, ainda seja possível ouvir, em algum recanto da memória, uma voz chamando:

“SEU CASCUDO! SEU CASCUDO! TEM UM HOMEM AQUI FORA!”

E, logo em seguida, como se o tempo não tivesse passado, venha a resposta, rápida, espirituosa, absolutamente cascudiana:

“DIGA PARA ELE QUE TAMBÉM TEM UM HOMEM AQUI DENTRO!”

É por histórias assim que os grandes homens deixam de ser apenas nomes. Cascudo não está somente nos livros que escreveu. Está também na gargalhada que provocou, na resposta que ninguém esperava, na empregada que se sentia tão à vontade naquela casa que podia gritar por ele da escadaria, na filha que herdou a cultura sem perder a simplicidade e, sobretudo, nas pessoas que continuam contando suas histórias. E é por isso que hoje, tantos anos depois, ainda sinto que aquele homem continua lá. Não exatamente no gabinete Ou atrás dos livros, Mas dentro da memória. E, enquanto houver quem conte suas histórias, haverá sempre um pouco de Cascudo dentro da casa.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

CÂMARA CASCUDO: O ADVOGADO DO FOLCLORE...

Falar de Luís da Câmara Cascudo é sempre correr o risco de deixar algo importante de fora. Sua obra é tão vasta, tão múltipla e tão generosa em relação aos campos do conhecimento que qualquer tentativa de defini-lo parece, de algum modo, uma redução. Cascudo foi historiador, folclorista, etnógrafo, pesquisador da cultura popular, estudioso da música, do Direito, da alimentação, da religião, da linguagem, da literatura, dos costumes e de tantos outros assuntos que fizeram dele uma das inteligências mais fecundas que o Rio Grande do Norte ofereceu ao Brasil. Escreveu sobre a História do Rio Grande do Norte com a autoridade de quem conhecia documentos, personagens e acontecimentos; escreveu sobre música, sobre o cotidiano, sobre a vida social, sobre o Brasil e sobre aquilo que muitas vezes passava despercebido aos olhos dos homens que se julgavam mais cultos. Sua curiosidade parecia não conhecer fronteiras. Podia mergulhar num documento hist´rico, examinar uma lei, estudar uma palavra, investigar uma cantiga ou recolher uma história contada pela boca de um homem simples. E talvez seja justamente essa capacidade de transitar entre universos tão diferentes que explique parte de sua grandeza.

Mas há um Cascudo que, especialmente neste mês de agosto, merece ser lembrado com particular atenção: o Cascudo dedicado ao Folclore. Agosto, tradicionalmente associado às celebrações e reflexões em torno do folclore, oferece uma oportunidade para voltarmos os olhos para esse aspecto fundamental de sua obra. É extraordinariamente admirável que um homem capaz de escrever com tanta notoriedade sobre História, Direito, música, literatura e tantos outros campos do conhecimento tenha dedicado uma parcela tão expressiva de sua inteligência a uma área que, durante muito tempo, foi tratada com certo desprezo pelos setores mais eruditos da sociedade. Cascudo não enxergou o folclore como uma coleção de curiosidades ou como passatempo de gente simples. Compreendeu que, por trás de uma dança, de uma cantiga, de uma superstição, de um mito, de uma lenda ou de uma brincadeira, havia séculos de memória humana. Havia povos, encontros, crenças, medos, alegrias, sofrimentos, resistências e formas de compreender o mundo. E foi justamente essa percepção que fez dele um gigante dos estudos do folclore brasileiro.

O mais extraordinário é que Cascudo conseguiu mergulhar profundamente no universo dos mitos, das lendas, das histórias fantásticas, das assombrações e dos seres sobrenaturais sem permitir que o encantamento do folclore contaminasse o rigor com que tratava outros campos do conhecimento. O homem que estudava o mito sabia que mito era mito; o homem que recolhia uma lenda sabia que lenda era lenda; aquele que registrava uma história de assombração não precisava acreditar literalmente nela para compreender seu extraordinário valor cultural. Cascudo podia entrar no mundo do fantástico sem perder o caminho de volta à realidade. Se a fantasia tivesse invadido sua maneira de escrever História, se as lendas fossem tratadas como fatos documentais, seu legado certamente teria sido prejudicado. Mas não foi isso que aconteceu. Ele soube distinguir os territórios sem jamais isolá-los. Compreendeu que o fantástico, mesmo quando não corresponde à realidade factual, pode ser absolutamente verdadeiro enquanto expressão da imaginação, da memória e da experiência coletiva de um povo. Essa talvez seja uma das maiores lições de sua obra: não é preciso acreditar literalmente em uma lenda para reconhecer a verdade cultural que existe dentro dela.

Essa compreensão de Cascudo se torna ainda mais bonita quando lembramos não apenas o escritor, mas o homem que existia por trás dos livros. Há uma passagem que guardo com especial carinho, porque tive a oportunidade de ouvi-la de Ana Maria Cascudo Barreto, durante uma conferência no Ludovicus - Instituto Câmara Cascudo. Naquela ocasião, Ana Maria nos aproximou de um Cascudo que não aparece apenas nas bibliografias, nas fotografias ou nas lombadas dos livros, mas no cotidiano de sua relação com o povo. Ela contou que, em determinado período, manifestações da cultura popular realizadas por pessoas simples nas ruas, nas praças e nos quintais eram, muitas vezes, vistas por algumas pessoas e até por determinadas autoridades como arruaças. Brincadeiras como o bambelô, o zambê e outras manifestações marcadas pela percussão, pelo canto, pelo corpo e pela celebração eram incompreendidas por aqueles que não conseguiam enxergar ali uma expressão cultural. Para quem não conhecia aquela tradição, o som dos tambores podia parecer apenas barulho; a reunião de pessoas podia parecer desordem; a dança podia parecer perturbação da ordem pública. Para os brincantes, entretanto, aquilo não era arruaça. Era vida, tradição, memória. Era algo que traziam dentro da alma e que haviam recebido de seus antepassados.

E então acontecia uma situação que revela muito da grandeza humana de Cascudo. Em determinadas noites, quando essas pessoas eram levadas para a delegacia porque estavam brincando, alguém corria até sua casa. Às vezes era a esposa; às vezes uma filha, um avô, um parente ou alguém da comunidade. Chegavam aflitos, procurando socorro. Não procuravam apenas um intelectual famoso. Procuravam alguém que compreendesse - de forma muito especial - o que estava acontecendo. E Cascudo, segundo a narrativa que ouvi de Ana Maria, não fazia questão de esperar o dia seguinte. Se fosse noite ou madrugada, levantava-se e ia à delegacia. Muitos daqueles delegados eram seus amigos ou conhecidos. E então, diante da autoridade policial, dizia mais ou menos assim: “Meu amigo, solte essas criaturas. Elas não fazem mal a ninguém. Não são criminosos, apenas estão se divertindo. Isso é a cultura popular.” E o delegado, diante daquele pedido, mandava abrir a cela. Talvez com a cara fechada, talvez sem querer demonstrar muito entusiasmo para não “dar cabimento” aos brincantes, mas soltava. Aquela soltura, narrada por Ana Maria, me parece uma das imagens mais bonitas para compreender a verdadeira dimensão de Câmara Cascudo.

Ali estava o professor defendendo o folclore não como conceito abstrato, mas como direito de existir. O bambelô, o zambê, o batuque, a dança, a reunião de pessoas simples e a música produzida pelos tambores eram, para Cascudo, parte de uma herança cultural que precisava ser respeitada. Ele sabia que aquelas manifestações não tinham surgido do nada. Eram frutos de uma longa história brasileira, de encontros e permanências, de heranças africanas, indígenas e europeias, de adaptações feitas por homens e mulheres que transformaram suas experiências em canto, dança, ritmo, celebração e memória. O que alguns enxergavam como arruaça, Cascudo enxergava como documento vivo. O povo não precisava conhecer academicamente a palavra “folclore” para ser portador do folclore. E Cascudo compreendeu isso de maneira extraordinária.

É por isso que sua obra folclórica permanece tão grandiosa. Ele não ficou apenas sentado em sua biblioteca, recolhendo histórias para transformá-las em livros. Sabia que o folclore estava nas ruas, nos quintais, nas festas, nas vozes dos velhos, nos gestos das crianças, no corpo dos brincantes e no som dos tambores. O povo não era, para ele, apenas objeto de curiosidade. Era depositário de uma memória que os livros, muitas vezes, não conseguiam guardar. Sua biblioteca era enorme, mas sua fonte também era a rua. Seu arquivo estava nos livros, mas também estava na memória dos homens. É por isso que aquelas pessoas aflitas, que viam a sua cultura sendo interpretada como atentado à ordem pública, e por isso eram presas, corriam para se socorrer dele e, melhor, ele conhecia essas pessoas que para muitos eram invisíveis.

Neste mês dedicado ao folclore, falar de Câmara Cascudo é, portanto, muito mais do que lembrar o autor de Dicionário do Folclore Brasileiro. É lembrar o homem que percebeu que o folclore não era assunto menor. É lembrar aquele que levou para dentro das bibliotecas e dos círculos intelectuais aquilo que muitos consideravam apenas diversão de gente simples. É lembrar o intelectual que escreveu sobre mitos e lendas sem se tornar um fabulista; que estudou assombrações sem abandonar o rigor histórico; que registrou crenças sem transformar crença em documento factual; que entrou no território do fantástico sem permitir que o fantástico destruísse a fronteira entre imaginação e História. Talvez seja por isso que a imagem daquele Cascudo que ia à delegacia durante a noite seja tão poderosa. Ela resume uma vida inteira. O professor que defendia os brincantes não estava apenas pedindo um favor a um amigo delegado. Estava defendendo uma ideia. Estava dizendo que o povo tinha direito à sua própria cultura. Estava afirmando que aquelas pessoas não eram criminosas porque estavam tocando seus tambores e dançando suas tradições. Estava educando pessoas que ignoravam aquilo como cultura. E, quando o delegado abria a cela, alguma coisa maior também acontecia: a cultura popular saía da prisão.

Gosto de imaginar aquela cena como uma espécie de tribunal às avessas. De um lado, a autoridade formal da lei, representada pelo delegado. Do outro, a autoridade da cultura, representada por Câmara Cascudo. E, naquela noite, não era a força que vencia a força. Era o conhecimento que convencia o poder. Cascudo não precisava gritar. Bastava dizer, com a autoridade de quem havia dedicado a vida àquilo: “Meu amigo, solte essas criaturas.” E elas eram soltas. Talvez por isso aquela cena narrada por Ana Maria me pareça tão simbólica. O homem dos livros saía de sua biblioteca para defender aqueles que dificilmente teriam espaço nos livros. O intelectual consagrado colocava sua autoridade a serviço dos que não tinham autoridade alguma. Por isso, ao pensar em Câmara Cascudo neste mês de agosto, gosto de acrescentar à sua imensa bibliografia uma imagem que nenhum catálogo de livros consegue registrar: Cascudo diante de uma delegacia, à noite, pedindo a liberdade de brincantes do povo. Talvez essa seja uma das mais bonitas páginas de sua obra, justamente porque não foi escrita com tinta. Foi escrita com uma atitude. Foi escrita com humanidade. Foi escrita com a compreensão de que o folclore não vive apenas nos livros que falam dele, mas nas pessoas que o carregam. E então compreendemos que aquelas não eram apenas leis comuns. Eram outras leis. As leis da memória, da tradição, da cultura, daquilo que um povo recebe de seus antepassados e transmite aos que vêm depois. Leis do Folclore, isso sim. E, naquela pequena delegacia, diante de homens simples que apenas queriam continuar brincando, Câmara Cascudo parecia dizer que também havia uma autoridade acima da autoridade passageira dos homens: a autoridade da cultura que sobrevive ao tempo.

Foi esse Cascudo que Ana Maria Cascudo Barreto me fez enxergar naquela conferência no Ludovicus. Não apenas o homem dos livros e das escrivaninhas, mas o homem que abria espaço para aqueles que chegavam aflitos, vindos da rua, trazendo a notícia de que algum brincante havia sido preso. O homem que sabia reconhecer, por trás do som do tambor, aquilo que outros não conseguiam ouvir. E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois de sua morte, Câmara Cascudo continue tão vivo entre nós. Porque ele não estudou apenas o folclore. Ele compreendeu que, dentro do folclore, havia gente.

E quando um homem consegue enxergar gente onde outros enxergam apenas barulho, memória onde outros enxergam apenas brincadeira e cultura onde outros enxergam arruaça, então já não estamos diante apenas de um pesquisador. Estamos diante de alguém que compreendeu profundamente o seu povo. Esse foi Câmara Cascudo. E talvez essa seja uma das razões mais bonitas para que, neste mês de agosto, quando o Brasil volta os olhos para o folclore, nós também voltemos os nossos olhos para ele...