Mas o que realmente teria acontecido?
Segundo a tradição, Estevão Ribeiro morava em Piripiri,
na região que hoje pertence ao município de Macaíba. Certo dia, teria ido a
Natal procurar o governador da Capitania para apresentar uma reclamação. Em vez
de receber atenção, teria sido tratado com violência e desprezo. Humilhado,
deixou a residência do Governo decidido a se vingar. A partir daquele momento,
teria começado a preparar cuidadosamente o crime. Conta-se que, ao sair da casa
do governador, Estevão Ribeiro caminhou em direção à Igreja Matriz de Natal,
contando os passos. Chegou a cem. Depois, procurou uma espingarda capaz de
atingir um alvo naquela distância com precisão. De posse da arma, voltou a
Natal. À noite, escondeu-se entre o mato, diante da residência do governador, e
ficou à espera. Quando a escuridão já havia tomado conta da cidade, o
governador saiu de casa. Estevão Ribeiro então disparou. O homem foi atingido
gravemente e morreu alguns dias depois. Imediatamente após o atentado, Estevão
Ribeiro fugiu. Primeiro teria retornado a Piripiri e, posteriormente, seguido
para Papary. Ali comprou uma propriedade que, com o passar do tempo, acabou
associada ao seu nome. Segundo a tradição, nunca foi preso ou levado à Justiça.
O governador era uma figura profundamente impopular e, por isso, sua morte
teria contribuído para que Estevão Ribeiro não fosse incomodado pela Justiça. A
própria arma do crime teria sobrevivido durante mais de cem anos. Passando de
mão em mão, era guardada e mostrada discretamente como uma espécie de relíquia
familiar.
Mas quanto dessa história seria realmente verdade?
A pesquisa histórica permite identificar um acontecimento
que parece estar na origem da lenda. A vítima teria sido Luiz Ferreira Freire,
capitão-mor e governador da Capitania do Rio Grande do Norte. Na noite de 22 de
fevereiro de 1722, um domingo, ele foi atingido por disparos. Gravemente
ferido, morreu seis dias depois, em 28 de fevereiro. Ferreira Freire era uma
autoridade de temperamento agressivo e havia criado muitos desafetos em Natal.
Sua administração foi marcada por conflitos e pela crescente impopularidade.
Por trás de sua morte, entretanto, parece existir uma história ainda mais
complicada. Ele era casado, mas sua esposa permanecia em Lisboa. Em Natal,
apaixonou-se por uma jovem, filha do tenente-coronel Mateus Rodrigues de Sá,
homem de posses, proprietário de sítios, fazendas, casas e rebanhos. O
relacionamento provocou o afastamento de boa parte da sociedade local. Ferreira
Freire ficou praticamente sem pessoas dispostas a servi-lo. Em determinado
momento, decidiu resolver o problema à força. Mandou buscar uma escravizada
pertencente a Manuel de Melo de Albuquerque, vereador do Senado da Câmara de
Natal. O vereador protestou junto ao Ouvidor Geral, que determinou que a mulher
fosse devolvida ao seu legítimo proprietário. Ferreira Freire reagiu com
violência e ameaçou qualquer oficial de Justiça que tentasse cumprir a ordem. O
conflito aumentou. Uma nova determinação foi enviada do Recife para que a
escravizada fosse apreendida e devolvida ao seu dono. A ordem foi cumprida, mas
o governador não aceitou a decisão. Armado e acompanhado por soldados, Ferreira
Freire cercou a residência do vereador, retomou a escravizada e ainda mandou
prender o próprio Manuel de Melo de Albuquerque, que foi levado para a
Fortaleza.
A atitude provocou forte reação do Senado da Câmara. O
órgão protestou junto ao governador de Pernambuco, que determinou a libertação
imediata do vereador, sem sequer consultar Ferreira Freire. Tudo isso aconteceu
entre novembro e dezembro de 1721. No início de 1722, a situação envolvendo a
jovem filha de Mateus Rodrigues de Sá tornou-se ainda mais grave. A família
exigiu que Ferreira Freire assumisse uma posição definitiva. Ele havia negado
que fosse casado e prometera reparar a situação, segundo os costumes da época.
Quando Mateus Rodrigues de Sá foi cobrar-lhe uma solução, porém, recebeu uma
resposta brutal. Ferreira Freire recusou-se a levar a jovem ao altar e expulsou
o pai de sua presença de maneira humilhante. O episódio deixou a família
profundamente ofendida. Há ainda um detalhe importante: Manuel de Melo de
Albuquerque, o vereador que havia entrado em conflito com Ferreira Freire por
causa da escravizada, era parente próximo dos Rodrigues de Sá. Assim, os
conflitos que cercavam o governador acabaram se cruzando. Décadas mais tarde, o
escritor Gonçalves Dias, durante suas pesquisas em documentos antigos do Rio
Grande do Norte, registrou uma tradição relacionada a esse episódio. Segundo o
relato que encontrou, o pai da jovem teria procurado o capitão-mor para
reclamar das ofensas sofridas e pedir a restituição da filha. Teria sido
novamente humilhado e ameaçado pelo governador.
Ao deixar o palácio, abatido pela injustiça, encontrou os
filhos no caminho. Eles teriam testemunhado seu sofrimento e prometido
vingança. Pouco tempo depois, Ferreira Freire foi assassinado. Gonçalves Dias
acrescentou ainda uma informação particularmente curiosa: a arma utilizada no
crime, segundo a tradição, teria permanecido durante muitos anos entre os
membros daquela família que viviam em Piripiri. É nesse ponto que a história de
Estevão Ribeiro se aproxima da memória registrada pelos moradores. A
documentação histórica registra que o governador Luiz Ferreira Freire foi
assassinado em 1722. A tradição oral, por sua vez, conservou a história de um
homem chamado Estevão Ribeiro, que teria cometido o crime e depois desaparecido
em direção a Papary. Não há, porém, prova documental suficiente para afirmar
que Estevão Ribeiro tenha sido efetivamente o assassino de Ferreira Freire. Também
não parece haver evidência de que ele fosse membro da família Rodrigues de Sá.
Uma possibilidade, seguindo a interpretação de Luís da Câmara Cascudo, é que
tenha sido um homem ligado àquela família por relações de trabalho, dependência
ou confiança. Poderia ter sido um foreiro, agregado ou simplesmente alguém que
gozasse da confiança dos Rodrigues de Sá e tivesse assumido a missão de vingar
as humilhações sofridas.
Com o passar dos anos, a história ganhou novas camadas. O
acontecimento real foi sendo transformado pela memória popular em narrativa. O
nome da vítima desapareceu, os detalhes se modificaram e a figura de Estevão
Ribeiro passou a ocupar o centro da história. Assim nasceu, ou pelo menos assim
pode ter sobrevivido, a lenda de Estevão Ribeiro. Mais do que a história de um
homem, ela é também a história de uma memória. Uma memória que atravessou
séculos sem documentos, preservada pela palavra dos moradores, até que a
pesquisa histórica encontrasse, nos antigos registros da Capitania, o acontecimento
que talvez tenha dado origem à tradição. Entre a realidade documentada e aquilo
que o povo contou durante gerações, permanece a figura de Estevão Ribeiro,
associada às antigas referências à região de Barra. E, como acontece com tantas
lendas antigas, talvez nunca saibamos exatamente onde termina a história e
começa a imaginação popular. Mas é justamente nessa fronteira entre o fato e a
memória que a lenda sobrevive.
UM ESCLARECIMENTO SOBRE A BARRA DE
ESTEVÃO RIBEIRO

Senado Federal
É importante fazer aqui um esclarecimento, pois a antiga
denominação Barra de Estevão Ribeiro pode facilmente causar confusão com a
atual Barra de Tabatinga. Os nomes das localidades do litoral de Papary, atual
Nísia Floresta, sofreram diversas alterações ao longo do tempo, e os documentos
antigos nem sempre utilizavam a mesma nomenclatura que conhecemos hoje. A
antiga Barra de Estevão Ribeiro corresponde à atual Barreta. Ao longo do tempo,
aquele trecho do litoral recebeu outras denominações. Um documento cartográfico
de 1847 é particularmente esclarecedor. Trata-se de uma planta intitulada
“Barras de Estevão Ribeiro, hoje da Santa Cruz, Nova de Camoropim, Rio do mesmo
nome e lagoa Papary”, levantada pelo capitão-tenente Felippe José Ferreira. O
próprio título do documento demonstra que, em 1847, “Barras de Estevão Ribeiro”
era uma denominação anterior, enquanto Santa Cruz e Nova de Camoropim apareciam
como denominações então utilizadas. O documento também relaciona essas barras
ao rio do mesmo nome e à lagoa Papary.
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A
confusão aumenta porque Estevão Ribeiro também aparece associado a outros
pontos da região, especialmente nas referências antigas à área de Tabatinga.
Isso, entretanto, não significa que Barra de Estevão Ribeiro e Barra de
Tabatinga fossem necessariamente a mesma localidade. São denominações que
precisam ser examinadas dentro do contexto de cada documento e de cada época.
Assim, para compreender a lenda aqui narrada, é fundamental ter em mente que a
Barra de Estevão Ribeiro mencionada nas fontes antigas deve ser relacionada à
atual Barreta. A planta de 1847 é uma evidência particularmente importante
dessa história dos nomes, pois registra uma denominação anterior - “Barras de
Estevão Ribeiro” - e, ao mesmo tempo, as denominações então vigentes de Santa Cruz
e Nova de Camoropim. A mudança dos nomes é um exemplo de como a paisagem
histórica de Papary foi sendo renomeada ao longo dos séculos, deixando nos
documentos diferentes vestígios de uma mesma localidade. É justamente essa
variedade de denominações que, hoje, pode levar o pesquisador ou o leitor a
confundir lugares que, em determinado período, possuíam nomes completamente
diferentes dos atuais. E vale lembrar que outros lugares em Papary tiveram
mudanças curiosas de nomes...




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