Certa manhã, o Curupira reuniu os principais seres lendários das matas brasileiras para anunciar uma novidade que logo provocaria enorme movimentação entre árvores, rios e criaturas encantadas: haveria uma eleição para escolher o Presidente das Matas. A notícia espalhou-se rapidamente. A Caipora, protetora dos animais, apresentou suas ideias de preservação; o Boitata prometeu combater as queimadas; a Iara defendeu a proteção dos rios; o Mapinguari falou sobre a segurança das regiões mais afastadas; o Boto apareceu elegantemente vestido, prometendo promover festas e melhorar a convivência entre os moradores das águas e da floresta. O Saci, naturalmente, declaroou que sua principal proposta seria "não deixar a eleição ficar chata". Até a Cuca apareceu, embora tenha avisado que sua prioridade continuaria sendo colocar todo mundo para dormir cedo
Tudo parecia caminhar tranquilamente quando, de repente, surgiu no meio da mata um personagem que ninguém conhecia. Vestia uma capa estranha, carregava uma bandeira enorme e falava com uma segurança impressionante. Apresentou-se como Patriótikus e anunciou que também queria participar da eleição. O Curupira perguntou de onde ele vinha, mas Patriótikus respondeu que sua origem era "muito importante para ser explicada". Bastaram poucos dias para que todos descobrissem que ele tinha uma habilidade extraordinária para criar confusão. Começou afirmando que as urnas eletrônicas eram fraudulentas, embora não apresentasse prova alguma. Depois passou a dizer que os seres fant´sticos deveriam andar armados para "garantir a segurança da floresta". A Caipora quase perdeu a paciência.
- Segurança da floresta é proteger os animais, as árvores e os rios, não transformar a mata em campo de batalha.
Patriótikus, entretanto, não parava. Passou também a defender os caçadores que entravam na floresta aterrorizando os animais, alegando que eles tinham "liberdade para fazer o que quisessem". O Curupira ficou indignado.
- Liberdade para destruir a floresta não é liberdade. É abuso.
As discussões tomaram conta das redes sociais da mata. A Iara transmitia tudo ao vivo, o Boto comentava os acontecimentos com uma elegância que só ele conseguia manter e o Saci fazia memes tão rapidamente que alguns animais nem conseguiam terminar de ler antes de aparecer outro. Patriótikus brigava com todo mundo. Brigou com o Curupira, discutiu com a Caipora, acusou a Iara de manipular as redes sociais, chamou o Boitatá de incendiário porque ele defendia o combate às queimadas e chegou a afirmar que o Mapinguari não tinha autoridade para falar de segurança porque era "grande demais para compreender os pequenos problemas da floresta".
O pior, porém, ainda estava por vir. Durante uma investigação realizada pelos próprios seres encantados, começaram a aparecer histórias muito antigas sobre a vida política de Patriótikus. Descobriu-se que, durante anos, ele havia se apropriado de coisas que pertenciam aos outros, apresentado como suas ideias que não eram suas e cometido uma série de arbitrariedades para conseguir aquilo que queria. Havia histórias de objetos desaparecidos, decisões tomadas em benefício próprio e até de situações em que Patriótikus simplesmente dizia que determinada coisa era dele porque tinha decidido que deveria ser. Quando a Caipora perguntou como ele justificava tudo aquilo, ele respondeu:
- Se eu consegui, é porque eu merecia.
O Saci colocou as mãos na cabeça.
- Essa é a primeira vez que vejo alguém transformar confusão em programa de governo.
A situação chegou a tal ponto que os demais seres fantásticos decidiram que Patriótikus não poderia continuar agindo daquela maneira. A Caipora apresentou os relatos, o Curupira reuniu as testemunhas, a Iara mostrou os registros das redes sociais e o Boitatá iluminou a documentação que havia sido escondida durante anos. Até a Cuca apareceu para prestar depoimento, embora tenha reclamado que precisara interromper seu sono da tarde. Diante da quantidade de irregularidades, Patriótikus acabou preso. Quando foi levado pelos guardiões da mata, ainda tentou fazer um último discurso.
- Isto tudo é uma perseguição!
O Saci, sentado sobre um galho, respondeu:
- Não, Patriótikus. Perseguição é o que você fazia com os animais quando defendia os caçadores.
E desapareceu num redemoinho.
A eleição continuou, mas todos aprenderam uma grande lição. O Presidente das Matas não deveria ser aquele que gritasse mais alto, espalhasse mais desconfianças, que defendesse ditadores, que não acreditasse nas minorias ou prometesse resolver tudo na base da força. Deveria ser alguém capaz de respeitar os outros, proteger a floresta e compreender que poder não significa possuir tudo aquilo que se deseja. No fim, os seres encantados decidiram criar um Conselho das Matas, reunindo representantes de todas as criaturas. A Caipora ficou responsável pelos animais, o Curupira pelas árvores e caminhos, a Iara pelos rios, o Boitatá pelas queimadas, o Mapinguari pela proteção das regiões mais distantes e o Saci, para desespero de todos, ficou encarregado das comunicações.
Quanto a Patriótikus, dizem que continua tentando convencer os guardas de que a prisão foi uma fraude. Mas ninguém acredita. Nem a Cuca. E isso, convenhamos, é porque até a Cuca, que vive assombrando os outros, já percebeu que há certas assombrações que não vêm das lendas, mas das próprias atitudes de quem não sabe conviver com os demais e desacredita na democracia.

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