Hoje, ao descortinar o mês de agosto, mês consagrado ao Folclore Brasileiro, meu pensamento conduz-me, inevitavelmente, à memória daquele que, na esteira de Luís da Câmara Cascudo, Veríssimo de Melo e Deífilo Gurgel, tornou-se um dos maiores pilares da salvaguarda do patrimônio folclórico do Rio Grande do Norte e do Brasil: o professor e folclorista Severino Vicente. Seis meses de saudade: abrindo o Mês do Folclore com a lembrança de Severino Vicente. Seis meses parecem pouco para quem observa o calendário. Mas, para aqueles que tiveram o privil´gio de conviver com Severino, é tempo suficiente para perceber o tamanho do vazio que sua partida deixou. Há ausências que apenas entristecem outras transformam a paisagem humana de um lugar. A dele pertence a esta última categoria. O folclore norte-rio-grandense tornou-se mais silencioso desde que sua voz se calou.
Perdemos muito mais do que um pesquisador. Perdemos uma das mais respeitadas inteligências dedicadas à cultura popular brasileira. Perdemos um homem cuja vida confundiu-se com a missão de compreender, proteger, documentar e difundir aquilo que há de mais genuíno na alma do nosso povo. Enterrou-se um corpo, mas também uma memória extraordinária. Ainda hoje me vem à mente o pensamento que registrei no dia de sua despedida: quem continuará? Não era uma pergunta de desesperança. Era a constatação de que bibliotecas humanas não se substituem facilmente. Quem preencheu o espaço deixado por Câmara Cascudo? Quem preencheu o espaço deixado por Nísia Floresta? Quem preencheu o espaço deixado por dona Militana? É mais ou menos isso...
Conversar com Severino era como folhear uma obra rara. Não havia assunto relacionado ao folclore que não despertasse nele uma explicação rica, cuidadosa e sempre permeada de profundo respeito pelas manifestações populares, assim como nós, folcloristas, devemos ser. Bastava mencionar um folguedo, uma dança, um mito, uma cantiga, uma tradição ou um costume para que ele, com sua serenidade característica, abrisse diante de nós um universo de referências, interpretações e histórias. Eu costumava sair dessas conversas com a sensação de ter caminhado por páginas de livros que respiravam.
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| Daliana, Rosa Régis, Gutemberg Coosta, Buihú, Rita, Luís Carlos e Severino Vicente. |
Entretanto, o que mais me impressionava em Severino não era apenas a vastidão de seus conhecimentos. Era sua humanidade. Era simples, comunicativo, bondoso e incapaz de transformar a erudição em instrumento de vaidade. Recebia todos com a mesma atenção, fosse um pesquisador renomado, fosse um mestre da cultura popular, um estudante curioso ou uma criança encantada com uma brincadeira tradicional. Sabia que o verdadeiro conhecimento floresce quando é compartilhado.
Tive a alegria de encontrá-lo em inúmeros eventos dedicados à cultura popular do Rio Grande do Norte. Caminhamos juntos por congressos, seminários, encontros e festivais. Tive igualmente a honra de recebê-lo em Nísia Floresta e de compartilhar momentos memoráveis em eventos promovidos pela Associação Cajupiranga, em São José de Mipibu. Em cada ocasião, sua presença elevava o nível das discussões, enriquecia os debates e, sobretudo, fortalecia o sentimento de pertencimento à nossa identidade cultural.
Talvez uma das maiores virtudes de Severino tenha sido compreender que o folclore nunca foi sinônimo de passado imóvel. Ao contrário do que muitos imaginam, ele jamais defendeu uma cultura popular congelada no tempo. Sabia que as tradições se transformam porque a própria sociedade está em permanernte movimento. Entendia que o folclore é vivo, dinâmico e criativo. O que ele defendia com firmeza era a preservação da essência. Acreditava que as manifestações populares poderiam dialogar com o presente sem perder sua identidade suas raízes e sua força simbólica.
Era por isso que insistia na necessidade de aproximar o folclore das novas gerações. Sonhava em ver crianças, jovens e idosos convivendo naturalmente com as tradições populares; defendia que elas ocupassem as escolas, as praças, os terreiros, os palcos, os livros e, principalmente, o cotidiano das pessoas. Compreendia que um povo que esquece sua cultura perde também parte de sua memória, de sua identidade e de sua capacidade de reconhecer a própria história.
Poucos homens honraram tanto o folclore brasileiro quanto Severino Vicente. Exerceu com dignidade as presidências da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore e da Comissão Nacional de Folclore, mas sua grandeza nunca esteve nos cargos. Estava na coerência entre aquilo que ensinava e aquilo que vivia. Fez da defesa da cultura popular uma missão existencial. Não buscava reconhecimento pessoal; buscava reconhecimento para o povo, para seus mestres, seus brincantes, seus artistas e suas tradições.
Sei que a morte faz parte da condição humana. Todos partiremos um dia. Mas há partidas que representam um prejuízo coletivo. A de Severino Vicente foi uma delas. Quando homens dessa estatura intelectual se despedem, não perdemos apenas uma pessoa; perdemos décadas de experiências, de leituras, de observações, de pesquisas, de diálogos e de memórias que jamais poderão ser integralmente transmitidas. É como se parte da história deixasse de caminhar entrenós.
Ainda assim, há um sentimento que conforta o coração daqueles que o admiravam. Severino cumpriu sua missão de maneira exemplar. Viveu plenamente aquilo em que acreditava. Fez sua parte com absoluto louvor. Honrou o Rio Grande do Norte. Honrou a memória de Luís da Câmara Cascudo, de Veríssimo de Melo e de tantos outros estudiosos da cultura popular. Honrou o Brasil. Honrou, sobretudo, o povo brasileiro, dedicando sua inteligência à valorização daquilo que temos de mais precioso: nossa identidade cultural.
Ao abrir este Mês do Folclore, escolho lembrar de Severino não apenas com saudade, mas com gratidão. Sua ausência continuará sendo sentida, mas seu legado permanecerá iluminando aqueles que compreendem que defender o folclore é defender a memória, a dignidade e a alma de um povo. Que agosto comece, portanto, com reverência. Que cada roda de coco, cada pastoril, cada boi de reis, cada romance, cada cantiga, cada brinquedo popular e cada manifestação da cultura tradicional carreguem, ainda que silenciosamente, um pouco da presença desse homem extraordinário.
Severino Vicente partiu há seis meses. Mas os grandes homens não permanecem apenas na lembrança dos que os conheceram. Permanecem vivos nas causas que abraçaram, nos exemplos que deixaram e na esperança de que novas gerações continuem a proteger, amar e celebrar o folclore brasileiro com a mesma paixão, a mesma humildade e o mesmo compromisso que fizeram dele um dos maiores guardiões da cultura popular de nosso tempo.


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