ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Das Cruzes Medievais ao Litoral Potiguar: A Bandeira de Nísia Floresta e seus Diálogos com o Mundo

 

Quando conheci a bandeira de Nísia Floresta - em 1992 -, tive a estranha sensação de já tê-la visto antes. Aos poucos compreendi que não era exatamente aquela bandeira que habitava minha memória, mas sim o conjunto das inúmeras bandeiras estudadas nas antigas aulas de Geografia e História, quando éramos obrigados a decorá-las juntamente com as capitais de cada país à época da Ditadura Militar. A bandeira nisiaflorestense, em linhas gerais, apresenta uma cruz vermelha e branca sobre um fundo azul. Contudo, não se trata da cruz completa, mas precisamente de sua parte principal. Isso porque, na simbologia tradicional da cruz cristã, o lenho vertical superior é menor, enquanto o inferior se prolonga de forma mais extensa. A bandeira parece, portanto, destacar justamente esse segmento central da cruz, evocando de maneira sutil referências históricas, religiosas e visuais que despertam no observador uma curiosa sensação de familiaridade.

A bela bandeira bandeira do município de Nísia Floresta apresenta uma composição visual tão clássica e universal que, vista à distância, poderia facilmente ser confundida com versões simplificadas de antigas bandeiras europeias. Seu fundo azul cortado por cruzes branca e vermelha remete imediatamente às tradicionais bandeiras nórdicas, especialmente à da Islândia, além de recordar antigos estandartes cristãos medievais e símbolos marítimos utilizados por nações europeias ao longo dos séculos. Essa semelhança não significa identidade de origem ou de significado, mas evidencia como a bandeira nisiaflorestense dialoga com modelos vexilol´gicos históricos profundamente associados à fé cristã, à navegação, à heráldica portuguesa e às tradições ocidentais de representação simbólica. Seu desenho sóbrio, marcado pela força cromática do azul, do branco e do vermelho, confere-lhe uma aparência solene e atemporal, semelhante à de antigos pavilhões religiosos e militares que atravessaram gerações da história europeia.

Muitas bandeiras de diversos países, estados e municípios brasileiros também trazem esses dois elementos em destaque (cruz e fundo), seguido de outros elementos e brasão ao centro. A maioria é assim. Algumas cruzes são deitadas (ou deslocadas, como queiram), tendo a parte menor à esquerda e a parte maior à direita. Mas a de Nísia Floresta tem a cruz simetricamente centrada com todas as partes iguais, geometricamente falando. No centro há o brasão e acima dele uma coroa real. É uma bela bandeira.

Recordo-me que, quando me tornei professor na EMYP, em março de 1992, conheci um documento sobre a bandeira de Nísia Floresta, que me foi mostrado pelo professor Jorge Januário de Carvalho, então diretor à época. E quando assumi a Escola Municipal Yayá Paiva, em janeiro de 1997, dei-me com a referida pasta cuidadosamente guardada pelo num móvel, contendo todas as informações sobre a bandeira do município: autor do desenho, significado de cada elemento e o decreto-lei que a oficializava. Também encontrei inúmeros álbuns fotográficos, primorosamente guardados, permitindo ao observador passear na história daquela gestão do início até aquela data. 

Tive o cuidado de preservar esse precioso acervo, sabedor da importância para as novas gerações. Mas vale ressaltar que, embora seja possível uma leitura empírica e imediata sobre a bandeira de Nísia Floresta, não tenho informações sobre ela no que se refere ao que está escrito nesse documento. Recordo-me que li o documento, que algumas pessoas pesquisaram na diretoria, que guardei sempre, mas nada sei sobre ele.

Há poucos dias, recebi um telefonema do professor Ricardo Acioly, interessado em saber se eu tinha informações sobre o significado da bandeira de Nísia Floresta e a história da mesma. Desse contato me senti inspirado a escrever o presente texto.

A bandeira do município de Nísia Floresta chama atenção por sua composição extremamente tradicional dentro da vexilologia (área de estudo dedicada às bandeiras, estandartes e demais símbolos representativos, analisando suas origens históricas, significados, composições visuais e formas de utilização ao longo do tempo). Ela apresenta uma cruz vermelha sobre uma cruz branca, ambas centralizadas sobre fundo azul. Esse modelo remete imediatamente a antigas bandeiras cristãs, marítimas, escandinavas e heráldicas europeias.

Olhar uma bandeira prediz ler o que ela nos mostra literalmente e qual a sua mensagem sublimar, ou seja, o que está nas entrelinhas, nos bastidores... algo do tipo. Isso não é regra, mas é muito comum, por exemplo, quando olhamos a bandeira de Nísia Floresta, de pronto constatamos uma pequena historinha sobre o municcípio. E isso se vê nos desenhos. Mas o que as cores, a estrutura, a geometria, as simbologias dizem?

Grosso modo, a bandeira de Nísia Floresta revela uma nostalgia com o seu passado de realeza. O próprio Coronel Joaquim José de Carvalho e Araújo, primeiro presidente da Intendência da “Vila Imperial de Papary”, quando perguntado de onde era, escandia o nome de sua terra: “Sou da VILA IM-PE-RIA-AL DE  PA... PA... RY!”. Dizia com orgulho, impregnado da devoção ao imperador e às coisas do império. Portanto, entendo que a apresentação da coroa real sobre tudo traduz uma superioridade – pelo menos na intenção. É uma devoção, um louvor ao “Brazil Império”. Parece haver uma nostalgia nisso. Creio.

Penso que seja ingênuo conceber a bandeira com a mesma profusão como aprendemos nos bancos escolares durante a Ditadura Militar o significado da bandeira do Brasil. O verde é a mata. O amarelo é o ouro e nossas riquezas. O azul é o céu e os mares. O branco é a paz. Ótimo! Pode até ser parecido com isso. Mas é só isso? Não. Em 1986 ganhei de uma prima um livro denominado “Os Símbolos Nacionais”, uma obra de arte. Então fiquei sabendo o significado real após anos tendo aprendido errado. Não vou me ater a isso, pois tornaria muito cansativo, mas leiam um texto que escrevi nesse mesmo blog, no dia 20 de novembro de 2021. Vale a pena apreciar, inclusive as imagens eu escaneei do referido livro. O link é o seguinte:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Um olhar diferente sobre a Bandeira do Brasil

Mas, vamos retomar o assunto. Embora os significados de cada bandeira seja diferente em cada caso, a semelhança visual é evidente, portanto fiz uma ampla pesquisa sobre bandeiras de países, bandeiras estaduais e bandeiras de municípios do Rio Grande do Norte. Algumas lembram a bandeira nisiaflorestense. Vamos aprecia´-las e entender as simbologias de cada uma:

A BANDEIRA DE NÍSIA FLORESTA

A bandeira de Nísia Floresta possui: - fundo azul. - cruz branca. - cruz vermelha centralizada.

Seu desenho lembra especialmente a chamada “Cruz de São Jorge”, muito utilizada na tradição cristã europeia. Quando digo “lembra”, me refiro à cruz que tem a mesma estética (uma cruz pela metade). Não me refiro ao formato geométrico.

Continuando sobre a bandeira de Nísia Floresta, o azul geralmente está associado: - ao céu. - às lagoas e ao litoral. - à serenidade. - à espiritualidade.

A cruz branca costuma simbolizar: - paz - fé - pureza.

Já a cruz vermelha é tradicionalmente ligada: - ao cristianismo - ao martírio - à coragem - à proteção espiritual.

A bandeira do município de Nísia Floresta constitui um dos mais expressivos símbolos da identidade histórica, cultural e afetiva da cidade. Seu desenho, marcado pela presença das cores azul, branca e vermelha organizadas em forma de cruz, revela forte influência da tradição vexilológica europeia e cristã, lembrando antigos estandartes medievais, bandeiras marítimas e modelos heráldicos clássicos. Ao mesmo tempo, a composição adquire significado próprio ao representar a memória, a espiritualidade e o sentimento de pertencimento do povo nisiaflorestense.

 No centro da bandeira costuma estar inserido o brasão municipal, elemento que sintetiza aspectos fundamentais da vida econômica, social e natural do município. O brasão simboliza as riquezas agrícolas, a ligação com as lagoas, o litoral e as paisagens naturais da região, além da força produtiva e do desenvolvimento local construído ao longo das gerações.

Mais do que um simples símbolo administrativo, a bandeira expressa o orgulho de uma terra profundamente marcada pela presença das tradições populares, das raízes indígenas e da cultura oral preservada por rezadeiras, parteiras, pescadores, agricultores, artesãos e mestres da sabedoria popular. Cada elemento presente em sua composição remete à formação histórica de um município que preserva costumes ancestrais sem perder sua identidade cultural.

 A bandeira também constitui uma homenagem permanente à educadora, escritora e pioneira do feminismo brasileiro Nísia Floresta Brasileira Augusta, nascida na antiga Papari, em 1810. Ao adotar o nome da intelectual potiguar, o município transformou sua bandeira em um símbolo não apenas territorial, mas também cultural e histórico, associado à educação, à liberdade de pensamento e à valorização da mulher brasileira.

 Utilizada em solenidades cívicas, repartições públicas, eventos culturais, festividades religiosas e competições esportivas, a bandeira representa a união coletiva e o espírito comunitário da população. Sua presença reafirma o sentimento de identidade local e a continuidade histórica de uma cidade cuja memória permanece ligada tanto às tradições populares quanto ao legado intelectual de uma das figuras mais importantes da história do Brasil.

AGORA VAMOS APRECIAR ALGUMAS BANDEIRAS DE PAÍSES QUE SE PARECEM – DE CERTO MODO –  COM A DE NÍSIA FLORESTA:

Islândia


Ela traz: • fundo azul; • cruz vermelha; • contorno branco.

Significados: • azul: oceano Atlântico e montanhas; • branco: gelo e neve; • vermelho: vulcões e fogo interior da ilha.

A semelhança com Nísia Floresta é impressionante, sobretudo pela predominância do azul com cruz vermelha.

Noruega


Ela possui: - fundo vermelho; - cruz azul; - contorno branco.

Significados: - vermelho: bravura e independência; - branco: paz; - azul: liberdade e ligação marítima.

A cruz escandinava representa o cristianismo.

Reino Unido


A famosa “Union Jack”.

A bandeira do Reino Unido nos apresenta: • a cruz vermelha de São Jorge (Inglaterra); • a cruz diagonal branca de Santo André (Escócia); • a cruz diagonal vermelha de São Patrício (Irlanda).

Significados: • união política dos reinos britânicos; • tradição cristã medieval; • poder naval histórico.

A presença da cruz vermelha sobre fundo azul aproxima visualmente da bandeira de Nísia Floresta.

Finlândia


Ela nos mostra: - fundo branco; - cruz azul.

Significados: - branco: neve; - azul: milhares de lagos finlandeses.

A simplicidade e o modelo escandinavo lembram a estrutura da bandeira nisiaflorestense.

Dinamarca


Uma das bandeiras mais antigas do mundo.

Ela se apresenta da seguinte forma: - fundo vermelho; - cruz branca (Cruz deslocada, ou cruz deitada).

Significados: - cristianismo; - tradição monárquica; - identidade nacional dinamarquesa.

Foi modelo para quase todas as bandeiras escandinavas posteriores

Suécia


Possui: - fundo azul; - cruz amarela.

Significados: - azul: justiça e lealdade; - amarelo: generosidade.

Também segue o padrão cristão escandinavo.

Geórgia


A bandeira georgiana nos traz o seguinte: - fundo branco; - grande cruz vermelha; - quatro pequenas cruzes vermelhas.

Significados: - cristianismo ortodoxo; - unidade nacional; - proteção divina.

A cruz vermelha central produz forte semelhança simbólica.

República Dominicana


Ela mostra o seguinte: - cruz branca central; - quadrantes azuis e vermelhos.

Significados: - branco: salvação; - vermelho: sangue dos heróis; - azul: proteção divina.

É uma das bandeiras nacionais mais próximas do estilo heráldico municipal brasileiro.

BANDEIRAS BRASILEIRAS PARECIDAS

Pernambuco


Embora diferente, ela se reporta à cruz. E cruz, igualmente a de Nísia Floresta, é uma alusão ao Cristianismo. Ela traz: - fundo azul; - cruz vermelha; - elementos cristãos.

Significados: - cruz: fé cristã; - arco-íris: união; - sol: força e liberdade.

- A estrela, acima, é o próprio estado do Pernambuco dentro da federação brasileira.

A cruz vermelha sobre azul lembra bastante a estética de Nísia Floresta.

Paraíba


A bandeira do estado da Paraíba traz: - vermelho e preto; - palavra “NEGO”.

Embora não semelhante estruturalmente, compartilha igualmente o forte uso simbólico do vermelho político e histórico.

Significados: - vermelho: revolução; - preto: luto; - “NEGO” - resistência política de João Pessoa.

São Gonçalo do Amarante

A bandeira traz: - a cruz central muito semelhante à bandeira da Islândia, mas nos remete com facilidade à bandeira do município de Nísia Floresta; - fundo azul; - faixas vermelhas e brancas.

Significados: - fé; - tradição; - poder; - espiritualidade.

Visualmente, há enorme parentesco com a bandeira de Nísia Floresta.

Natal


A bandeira natalense utiliza: - azul; - branco; - vermelho; - cruz estilizada.

Significados: - tradição católica; - herança portuguesa; - ligação marítima.

Cruz

Algumas versões históricas apresentam: - cruz central; - azul e branco.

O simbolismo remete: - ao cristianismo; - ao próprio nome do município.

A ORIGEM DESSE MODELO DE BANDEIRA

O padrão da bandeira de Nísia Floresta deriva principalmente de três influências históricas, Vejamos:

1: HERÁLDICA PORTUGUESA

Portugal difundiu: - cruzes; - brasões; - símbolos cristãos; - cores azul, vermelho e branco.

Isso influenciou profundamente os municípios brasileiros.

2: TRADIÇÃO CRISTÃ

A cruz vermelha é frequentemente associada: - a São Jorge; - às Cruzadas; - aos antigos estandartes cristãos.

3: BANDEIRAS ESCANDINAVAS

O chamado “modelo nórdico”: - cruz deslocada ou central; - fundo monocromático; - combinação azul/vermelho/branco.

Esse estilo se tornou mundialmente reconhecido.

UMA CURIOSA OBSERVAÇÃO VEXILOLÓGICA

A bandeira de Nísia Floresta poderia facilmente ser confundida, à distância, com: - versões simplificadas das bandeiras da Islândia; - antigas bandeiras cristãs medievais; - bandeiras marítimas europeias; - estandartes religiosos.

Isso ocorre porque ela segue um modelo visual extremamente clássico da vexilologia ocidental.

OUTRAS BANDEIRAS NORTE-RIO-GRANDENSES E SUAS “SEMELHANÇAS” COM A BANDEIRA DE NÍSIA FLORESTA:

Bandeira de São José de Mipibu:


São José de Mipibu: Diferente, mas parecida:

A bandeira do município de São José de Mipibu apresenta um desenho simples, porém profundamente simbólico, marcado pela forte influência da tradição heráldica e religiosa que caracterizou inúmeros municípios brasileiros ao longo do século XX. Composta por faixas verticais nas cores vermelha, branca e verde, tendo ao centro o brasão municipal, a bandeira traduz elementos históricos, culturais e espirituais ligados à formação do povo mipibuense.

A cor vermelha associa-se tradicionalmente à coragem, à força e ao espírito de luta do povo, além de remeter à fé cristã e à tradição religiosa ligada aos padroeiros São José e Sant’Ana. O branco simboliza a paz, a espiritualidade e a harmonia, enquanto o verde representa a fertilidade das terras, a agricultura, os antigos engenhos e a exuberância natural que marcou a história econômica da região. No centro da composição, o brasão municipal sintetiza aspectos históricos e culturais da cidade, evocando a colonização portuguesa, a tradição agrícola e as raízes indígenas presentes na origem do município.

A semelhança entre as bandeiras de Nísia Floresta e São José de Mipibu não se explica apenas pela utilização de cores e elementos típicos da vexilologia. Como disse acima, existem bastidores. Há uma profunda ligação geográfica, histórica e cultural entre os dois municípios. Além de fazerem divisa territorial, Nísia Floresta pertenceu historicamente a São José de Mipibu durante parte de sua formação administrativa, até o dia 18 de fevereiro de de 1852, o que ajuda a compreender determinadas aproximações simbólicas presentes em suas identidades visuais e culturais.

Essa proximidade histórica fez com que ambas as cidades compartilhaem influências religiosas, costumes populares, tradições agrícolas e referências heráldicas semelhantes, refletidas inclusive em seus símbolos oficiais. Assim, ainda que cada bandeira possua características próprias e significados específicos, ambas dialogam dentro de um mesmo universo histórico regional, marcado pela herança colonial portuguesa, pela forte presença do catolicismo e pelos vínculos sociais construídos ao longo dos séculos entre as populações vizinhas do litoral sul potiguar.

Bandeira de Santa Cruz


A bandeira de Santa Cruz talvez seja uma das que mais dialogam simbolicamente com a de Nísia Floresta, especialmente pela centralidade da cruz cristã em sua identidade histórica. O próprio nome do município evidencia a importância desse símbolo religioso, também presente de maneira marcante na composição da bandeira nisiaflorestense. Em ambas, a fé aparece como elemento fundamental da memória coletiva e da formação cultural do município.

Bandeira de Cruzeta:


A bandeira de Cruzeta mantém forte aproximação simbólica com a bandeira de Nísia Floresta pela presença marcante da tradição cristã em sua composição visual e histórica. O próprio nome do município remete diretamente à cruz, elemento que também se destaca no simbolismo nisiaflorestense. Em ambas, percebe-se a influência da heráldica portuguesa e dos antigos estandartes religiosos que moldaram grande parte das bandeiras municipais brasileiras.

Bandeira de Extremoz

A bandeira de Extremoz apresenta semelhanças com a de Nísia Floresta sobretudo pelo uso predominante das cores azul e branca, tradicionalmente associadas à paz, ao céu e às águas. Os dois municípios compartilham forte ligação com a história colonial do litoral potiguar, refletindo em seus símbolos oficiais traços da religiosidade católica e da influência portuguesa presentes desde os primeiros tempos da ocupação da região.

Bandeira de Goianinha


A bandeira de Goianinha dialoga com a de Nísia Floresta pela utilização de elementos heráldicos clássicos e cores tradicionais da vexilologia brasileira. Assim como ocorre em Nísia Floresta, seu desenho expressa valores ligados à identidade popular, à agricultura, à espiritualidade e ao sentimento de pertencimento da população à sua terra e às suas tradições culturais. Em caráter de informação – embora não esteja presente nela – vale lembrar que toda a família ancestral da intelectual Nísia Floresta é oriunda de Goianinha.

Bandeira de Caicó


A bandeira de Caicó, embora mais elaborada em seus detalhes, aproxima-se da de Nísia Floresta pela forte influência da tradição heráldica e religiosa. Ambas carregam elementos que representam a fé, a memória histórica e o orgulho regional de seus povos. Em cada uma delas, a bandeira ultrapassa o aspecto meramente administrativo e transforma-se em símbolo da identidade cultural de seus municípios.

Bandeira de Jardim do Seridó


A bandeira de Jardim do Seridó mantém relação simbólica com a de Nísia Floresta pela presença de referências históricas e religiosas típicas das antigas bandeiras municipais brasileiras. Seu estilo heráldico, associado às tradições sertanejas e à valorização da cultura local, aproxima-se do mesmo universo simbólico presente na bandeira nisiaflorestense, marcada pela sobriedade e pela forte influência cristã.

ENFIM...

Como divaguei no início: Toda interpretação simbólica está diretamente relacionada ao repertório cultural, histórico e intelectual de quem observa. Nenhuma bandeira fala sozinha: ela “dialoga” com o olhar do intérprete, com suas experiências, memórias e referências de mundo. Assim, os significados percebidos numa composição vexilológica não são apenas resultados objetivos de cores e formas – a exemplo de uma reflexão que fiz, acima, sobre o “significado chapado da Bandeira do Brasi –, mas também construções subjetivas elaboradas a partir do universo de conhecimento de cada indivíduo. Ou seja, enxergamos o mundo a partir da amplitude ou limitação do conhecimento que temos.

Essa reflexão aproxima-se de concepções defendidas por importantes pensadores da linguagem, da cultura e da leitura simbólica, segundo os quais o ser humano interpreta o mundo conforme os limites - ou as amplitudes - de sua própria percepção cultural. Em outras palavras, cada pessoa “lê” os símbolos a partir do tamanho do seu mundo interior. Não por acaso, a célebre ideia poética de que “o meu quintal é maior que o mundo”, eternizada por Manoel de Barros, meu conterrâneo, sugere justamente que o universo simbólico ultrapassa dimensões geográficas e materiais, sendo ampliado pela imaginação, pela memória e pela sensibilidade humana.

Essa perspectiva torna-se ainda mais significativa quando relacionada à própria Nísia Floresta Brasileira Augusta, intelectual que dá nome ao município e é muito bem representada na bandeira (com livro, nankin e pena). Nísia foi uma mulher muito além de seu tempo. Em pleno século XIX, enxergou o mundo com amplitude rara para a época, ultrapassando os limites sociais, culturais e intelectuais impostos às mulheres brasileiras. Sua obra demonstra exatamente essa capacidade de interpretar a realidade para além das aparências imediatas, buscando os sentidos mais profundos da educação, da liberdade, da dignidade humana e da condição feminina. Assim, não deixa de ser simbólico que o município que carrega seu nome possua uma bandeira aberta a múltiplas leituras e conexões culturais, capaz de dialogar visualmente com tradições históricas espalhadas pelo mundo. Olhar a bandeira de Nísia Floresta pede uma alta criticidade. Do contrário nos resumimos. Se Nísia tivesse ficado no Sítio Floresta, ela não teria se tornado tão conhecida e tão atual, mesmo passados 141 anos de sua “morte”.

Desse modo, ao observarmos a bandeira de Nísia Floresta - ou qualquer outro símbolo histórico - não estamos apenas diante de um objeto visual institucional. Estamos diante de uma narrativa aberta, sujeita a múltiplas interpretações e associações culturais. As cores, as cruzes, as formas geométricas e as aproximações com bandeiras de outros povos revelam tanto a história do município quanto os horizontes culturais daquele que contempla o símbolo. Afinal, toda bandeira possui aquilo que mostra visivelmente e, ao mesmo tempo, aquilo que silenciosamente sugere.

 

 

 


quarta-feira, 13 de março de 2024

O avesso dos críticos...

 

SOBRE O LIVRO "O AVESSO DA PELE"

Todo escritor escreve para ser lido. O escritor por excelência não aguarda que a sua obra cause polêmica para vender mais ou explodir nas livrarias. Se assim fosse, escrever perderia o sentido, principalmente quando o mote da polêmica fosse o que falta na literatura: uma ideia extraordinária, visionária, impactante, algo novo. E se agravaria se a polêmica decorresse de breves passagens do livro. 

Recebi um vídeo em que uma mulher, creio se tratar de uma vereadora ou deputada (não me lembro agora). Ela se mostra indignada com o livro que trabalha identidade complexa das relações raciais e racismo, destinado para professores e estudantes de escolas públicas de todo o país. Depois, vi outro vídeo de uma diretora da região Sul, também indignada. Sua escola recebeu mais de 200 exemplares da obra e a mesma pede a sua censura.

A diretora disse “...Lamentável o Governo Federal através do MEC adquirir esta obra literária e enviar para as escolas com vocabulários de tão baixo nível para serem trabalhados com estudantes do ensino médio...”, escreveu ela na legenda do vídeo. OBSERVAÇÃO: O MEC não escolhe livros. Esse livro foi enviado pelo Governo Federal, por intermédio do Ministério da Educação – MEC/ Programa Nacional do Livro e do Material Didático – PNLD, após passar pela escola de uma equipe. Inclusive achei estranho a diretora não se contentar em meramente mostrar o trecho que recrimina (no vídeo), mas ela lê em voz alta. Se são palavras ‘de baixo calão”, por que lê-las em voz alta? Deixasse os internautas lerem. Como dizem os jovens: aí tem um pouco de lacração.

Intitulado “O Avesso da Pele”, escrito por Jeferson Tenório, o livro é vencedor do Prêmio Jabuti 2021 e vem se tornando um dos livros mais vendidos no Brasil, quebrando recordes de vendas na Amazon, dentre outras postagens indignantes.

Na verdade “O Avesso da Pele” é a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado numa desastrosa abordagem policial, sai em busca de resgatar o passado da família e refazer os caminhos paternos. Com uma narrativa sensível e por vezes brutal, Jeferson Tenório traz à superfície um país marcado pelo racismo e por um sistema educacional falido, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos. O que está em jogo é a vida de um homem abalado pelas inevitáveis fraturas existenciais da sua condição de negro em um país racista, um processo de dor, de acerto de contas, mas também de redenção, superação e liberdade. O personagem principal é Pedro e sua namorada, que é branca.

Pois bem, voltando sobre a indignação das mulheres. A mulher (política) desce o pau no Governo Federal, bem ao estilo daquela história inventada das cartilhas gay e da mamadeira de piroca (que só existiu na cabeça de pessoas com problemas cognitivos). Acredito que, na cabeça dela, pensou-se assim: "Lula e Alckmin mandaram esse livro para os alunos do Brasil só pra sacanear".  Ela se mostra indignada porque o dito livro está sendo distribuído para alunos do ensino médio das escolas do Sul. Ela mostra a capa do livro, abre, lê algumas partes que revelam uma conversa íntima entre adolescentes amigas. 

Uma delas, branca, está namorando o dito rapaz preto. O trecho lido é a parte em que uma das amigas pergunta “... o pau dele? É grande? É verdade que eles são insaciáveis?...” (numa alusão às características dos pretos, segundo o imaginário). A diretora vai para outra página e lê certamente uma cena íntima entre o casal de jovens. Está escrito “...Vem minha branquinha. Vem meu negão. Chupa a tua branquinha. Chupa o teu nego. Adoro a tua pele branquinha. Adoro a tua pele...”

O vereador Rodrigo Rabuske, de Santa Cruz do Sul, também botou a boca no trombone, caracterizando o fato como “absurdo” o uso de O Avesso da Pele em escolas.

Todas as obras paradidáticas passam por rigorosa análise técnica, física e pedagógica feita por especialistas, e mesmo assim é obrigatória a análise dos professores. O registro das obras escolhidas – pelos professores – é feito pelo diretor da escola, ou seja, cumpre a ele, como gestor, apenas lançar os títulos e as quantidades no site do MEC.

A editora Companhia das Letras, que lançou o referido livro, divulgou a seguinte nota: “A retirada de exemplares de um livro, baseada em uma interpretação distorcida e descontextualizada de trechos isolados, é um ato que viola os princípios fundamentais da educação e da democracia, empobrece o debate cultural e mina a capacidade dos estudantes de desenvolverem pensamento crítico e reflexivo”.

Embora o livro diz respeito a todas as escolas e municípios brasileiros, dei uma pesquisada sobre Santa Cruz do Sul, município do Rio Grande do Sul, e encontrei informações que pelo visto, essa diretora, essa política e esse vereador (de Santa Cruz do Sul) desconhecem, fazem vistas grossas ou só enxergam aquilo que lhes convém. São seletivos quanto ao que causa-lhes indignação. Houve nessa cidade um projeto municipal intitulado “Pacto Santa Cruz pela Paz”. A pesquisa, feita pelo “Instituto Cidade Segura”, apontou os terrenos baldios e perturbação de sossego como principais problemas nos bairros do município. 

Aparecem como pontos negativos apontados pela população a questão de embriaguez nas ruas, pontos de vendas de drogas, ruas sem iluminação e prédios abandonados. Outro ponto apontado na pesquisa diz respeito ao consumo de bebida alcóolica por menores - 43,4% - e ainda violência contra mulheres. VEJAM QUE LOUCO: 43,4% DOS MENOTRES CONSOMEM ÁLCOOL. Esse último, aponta que 29,2% das mulheres, considerando a idade acima dos 16 anos, foram importunadas sexualmente em transporte público (VEJAM QUE ABSURDO), sendo 60% nos ônibus, 30% nos aplicativos e 9% nos táxis. Seguido desse, estão os comentários desrespeitosos no sentido sexual, com 24,8%, assédio com 19,6% e violência doméstica, com 15,6% dos relatos. Essa diretora poderia fazer um projeto na escola trabalhando essas barbaridades pertinentes às mulheres).

Sobre o consumo de drogas nas ruas, 43,4% dos santa-cruzenses responderam que já viram usuários e que, 60% deles, utilizavam a maconha. VEJAM QUE DADO: 60% DESSES UTILIZAM A MACONHA. Na sequência aparece o crack, com 12,4% e a cocaína, com 8.5%. Houve questionamentos sobre crimes e ameaças contra vida, como brigas e agressões, onde o alto número trouxe o alerta. 

Não quero desmerecer essas pessoas simplesmente porque criticam a citada obra. Também não desmereço o município de Santa Cruz do Sul – até porque há outros municípios pelo Brasil afora em situação igual ou pior –, mas critico a indignação seletiva deles – a falta de prioridade deles no momento em que possuem preocupações assustadoramente maiores em seu município e acham de cismar justamente com a liberdade de expressão de um escritor. É um cerceamento da arte literária. O que seria muito mais digno de um alarde e pedido de socorro? Não seriam os números acima? E vejam que os afetados – pasmem – são adolescentes.

E se o protagonista da história fosse branco? Teria rejeição mesmo com os trechos picantes? Que tal pensar.

Se atitudes assim tornarem-se normais, logo teremos um “Index Librorun Proihibitorun” a serviço dos representantes da sociedade puritana que faz sexo só para parir. Condenar um livro de grande qualidade literária, detentor de um enredo atualíssimo, por causa de trechos picantes, é questionável e sem propósito.

A partir dos meus 13 anos – ao mesmo tempo em que a escola pedia que lêssemos José Mauro de Vasconcelos, Hélio Serejo, José de Alencar, Raquel de Queiroz, dentre outros autores clássicos, eu, por livre arbítrio, simultaneamente, lia Adelaide Carraro, Cassandra Rios e uma diversidade de autores com narrativas inapropriadas para a minha idade e isso não afetou em nada a minha vida. Pelo contrário. Sempre li, de São Cipriano a Hare Krishna e o caudal disso legou-me um ser humano apaixonado pela palavra, pela escrita, por histórias, invenções e tudo o que vem da escrita.

Até compreendo a crítica dessas pessoas quanto ao livro – aliás, trechos do livro. A questão de pudor, religiosidade, tradições, culturas são diferentes em algumas pessoas. Pesa, também, um dado interessante: nem todo professor é leitor. Nem todo professor gosta de Literatura. E esse turbilhão de posturas implica em sentimentos diferenciados. Mas nenhum sentimento deve sobrepujar a liberdade de expressão. Até onde sei, a escolha de todo livro, inclusive “O Avesso da Pele” perpassa por rigorosa análise. Chego a SUPOR que “julgaram esse livro pela capa” ou pela orelha durante o seu processo de escolha. Deve ter ocorrido algo parecido com “Que maravilha, um livro que trabalha o racismo! Vamos escolhê-lo?!”. E bastou. Não leram o livro.

Mas, se minha suposição estiver errada e, de fato, o referido livro tiver sido lido em sua totalidade, analisado e, de fato, ESCOLHIDO/DELIBERADO? Não estou analisando os fatos sob as lentes do meu exemplo pessoal. O meu pai sempre dizia “esse tempo não me pertence”, referindo-se ao passado querer congelar o presente. Hoje entendo o porquê. Faz 44 anos que eu li os autores citados acima, cuja narrativa era “inadequada” para mim, e que não foram orientados pela escola, ou seja, tem quase meio século. Estou falando do período da Ditadura Militar. E hoje, por causa de alguns trechos picantes e isolados, vai se censurar uma obra inteira? Que absurdo! O que esse povo diria de “O Bom Crioulo”? Com certeza que foi obra do Comunismo ou de Satan.

Aqui mesmo, no Rio Grande do Norte, a escritora Socorro Trindade, embora que num contexto, diz “A boceta da minha mãe é uma flor”, numa esplêndida explosão de poeticidade e filosofia quando visualiza a intimidade de sua mãe como uma flor que traz vida e perfume (s) para o mundo. Como entender isso se o leitor só leu esse trecho porque polemizou, e nunca pegou noutro livro para ler sequer a capa?

O que dizer de “Um balde de bucetas” no “ingênuo” Manoel de Barros, tão lido em todas as escolas do Brasil? Meu filho o leu aos 9 anos. E Carlos Drummond de Andrade em suas diversas colocações “pornográficas”? São tantos escritores e tantas “palavras de baixo calão” que é bom revisitar o passado e crucificar quem já morreu, pertenceu ou pertence à própria Academia Brasileira de Letras.

Enfim, se há escolas que não aceitam o livro, que o façam. Mas deve ser dito que o livro foi DELIBERADO, e se há erro em ter sido escolhido, não é obrigado entregar aos alunos. Esse alarde, essa essa “Santa Inquisição”, acaba sendo ótima, principalmente para o autor, pois todos os alunos irão ler e conhecer o autor. Tenho certeza disso. O melhor de tudo é que esse é o caso cuja obra não é um lixo, que não polemizou por ser lixo. Pelo contrário, polemizou por determinados trechos. Então temos uma obra de qualidade e que não precisou do marketing tradicional. O grande marketing foi esse vavavu que essa minoria provocou e findou explodindo a obra em todo o Brasil, até fora das escolas.

Como disse no início, “todo escritor escreve para ser lido. O escritor não aguarda que a sua obra cause polêmica para vender mais ou explodir”. Mas, no caso “d’O Avesso da Pele”, o livro é de excelente qualidade literária, e ter entrado nessa polêmica de gente que muitas vezes não lê nem dois livros por ano, muitas vezes nenhum, só fez bem para o autor que, merecidamente, está vendendo feito banana na feira. L.C.F. 12.3.2024.

terça-feira, 5 de março de 2024

Acta Noturna - A Visita de Dom José à Vila Imperial de Papary - 1882...


Há 142 anos o bispo de Olinda, Dom José Pereira da Silva Barros visitou a então "Vila Imperial de Papary", mas vamos entender o contexto a partir de seu desembarque no cais do porto, em Natal, a bordo do navio Pirapara. 

Natal foi ao êxtase, como se chegasse um semideus... Houve comissão de recepção, clérigos, autoridades, banda de música... o diabo a quatro se desmanchando em mesuras típicas das que até hoje se fazem à rainha Elizabeth II.

Um cortejo gordo acompanhou o bispo a pé até a igreja do Bom Jesus. Na sacristia ele se paramentou e seguiu a pé até a catedral de Nossa Senhora da Apresentação, onde era vigário um que seria santo: João Maria Cavalcanti de Brito (coincidentemente o padre João Maria havia deixado a Vila Imperial de Papary há 1 ano, onde exercera 4 anos de vigariato naquela matriz). 


Diferentemente do padre João, cuja casa era a sacristia, e muitas vezes dormia no chão por presentear a própria rede aos pedintes, o bispo ficou hospedado durante uns três dias no Palácio da Assembleia, depois Palácio do Governo (hoje EDTAN, na rua Chile, Ribeira). 

Ali lhe chegava de tudo da melhor qualidade. De comida a souveniers oferecidos pelas madamas natalenses. Após a realização dos mais diversos trabalhos eclesiásticos, seguidos de visitas a todos os órgãos públicos e às casas das pessoas mais ricas de Natal, ele empreende uma verdadeira odisseia por diversas cidades e vilas locais. Uma delas é a então "Vila Imperial de Papary". 

Ele estava em Canguaretama, quando embarcou na "Maria-Fumaça" da Great Western. Ao chegar na Estação "Papary", que ainda iria completar um ano de construída, mais ou menos às 17h00, como dizem os nordestinos "estava um moído"... não tinha lugar para se colocar o pé. Música, autoridades, paroquianos, tudo o que se tem direito e mais um pouco promovia a maior festividade. 

Por incrível que pareça, as autoridades mandaram uma "cadeira de arruar" para que o ilustre visitante viajasse confortavelmente até o centro da vila (igual a essa da foto com escravisados). O bispo nega. Escolhe ir a pé. 


Ao se aproximar do centro da freguesia, se surpreende. A partir da entrada do Engenho Descanso, perfilava uma sequência de fogueiras que ia até o átrio da Matriz. A vila estava um verdadeiro dia, tudo muito enfeitado pelos fieis. Então ele celebra na Matriz de Nossa Senhora do Ó e segue para um jantar nababesco no dito Engenho Descanso. 

Até então a vila nunca tinha visto um bispo. Ele passa dois dias ali, onde celebra casamentos, batizados, crismas, discursos, celebrações, visitas às famílias mais ricas da localidade, incluindo a do "Cavaleiro da Rosa" – que à essa época já era um homem idoso – e outras. 

Realizado o compromisso, ele segue para a estação "Papary", sob forte comoção popular. Contam que ele não deu um passo em Papary sem que uma multidão o acompanhasse, como se para levá-lo... um misto de curiosidade, o impacto da novidade, a imagem de semideus etc.


Enfim ele embarca para Natal. É outro vavavu na Estação. No outro dia a Vila Imperial de Papary se transformou num cemitério. Em Natal, ele passa mais uns dias e toma destino ao Pernambuco. 

Naquela época, a província do Rio Grande era subordinada à Diocese de Olinda. Dom José Pereira da Silva Barros foi o primeiro e único conde de Santo Agostinho. Era de São Paulo. Foi bispo de Olinda e do Rio de Janeiro. Foi o último bispo de S. Sebastião do Rio de Janeiro.

Acta Noturna - Antonio de Sousa (Polycarpo Feitosa) - "Quase Romance Quase Memória"...

Polycarpo Feitosa

O livro intitulado “Quase Romance, Quase Memória”, assinado por Polycarpo Feitosa, alcunha de Antonio José de Melo e Souza (Papary: 24.12.1967 - Recife: 5.7.1955), foi publicado em 1969, pela Imprensa Oficial, com apoio do IHGRN e ANRL muito tempo após a morte do autor, graças à compreensão da irmã do escritor, dona Isabel Emiliana de Melo e Sousa, que disponibilizou os manuscritos. É uma obra não concluída, mas bastante vasta e com informações preciosas. Antonio de Sousa era um grande observador de tudo. Altamente crítico. Foi governador algumas vezes e ocupou pastas respeitáveis no estado. Embora esquecido pelas grandes massas, é figura conhecidíssima nos meios intelectuais norte-rio-grandenses. É considerado por especialistas como uma revelação na Literatura do período modernista, embora não seja reconhecido nacionalmente como tal. No capítulo “No tempo da República”, o autor estuda os primeiros dias do novo regime, entre nós, figuras principais, posição de liberais e conservadores, destacando o jornal “A Alvorada”, ou seja, A República, como centro das atividades republicanas. Quem conhece a história social e política do estado, idetifica logo, em Paulo Júnior, A. Benévolo, Andrade Brasil, as figuras de Pedro Velho, o Líder, e Augusto Severo e Brás de Melo, os redatores do jornal.O dr. Deodato Juazeiro, bacharel em direito, filho de  fazendeiro, poeta por desenfado, iniciannte em política, candidato a deputado, está a exigir um exame mais detido, a fim de ser devidamente identificado. 


No segundo capítulo “Diário de um recolhido”, memórias igualmente inacabadas, o autor analisa tipos e figuras da vida político-partidária potiguar, sem descer ao mau gosto do remoque e da pilhéria picante e dessaborida. As figuras de seu diário, tocadas pela magia do seu estilo, retornam, assim, ao cotidiano da vida norte-rio-grandense, mais engrandecidas e atualizadas, na palavra comedida e austera do memorialista contemporâneo. José Augusto, Castriciano, Sebastião Fernandes e tantos outros são ali discutidos, observados e analisados à luz dos fatos de sua época, por um autêntico observador da vida nordestina. Antonio de Sousa possuía uma biblioteca impecável. Era poliglota e assinava algumas revistas internacionais. Escreveu em diversos jornais potiguares e na revista do IHGRN. 

Maria Alice de Melo e Sousa


Dedicou-se principalmente ao conto e ao romace de costumes, escrevendo e publicando vários livros de ficção, com destaque pa “Flor do Sertão” (1928) e “Gizinha” (1930) Quando governador, marcou época, tendo em vista que era muito enérgico e exigente nas coisas públicas. É muito citada a sua honestidade. Tinha umas excentricidades. Certa vez, aleatoriamente, sua irmã recebeu uma jóia de um empresário natalense. Antonio de Sousa mandou que ela devolvesse imediatamente. O empresário queria privilégios em compras. O governador indeferiu imediatamente a sua má intenção. Dizem que mandou retirar o pneu do carro oficial para que ninguém usasse. 

Maria Isabel Emiliana de Melo e Sousa


Nasceu e morreu solteiro. Em 1997 fui procurado pelo dr. Erich Gemeinder, de São Paulo, profundo pesquisador e conhecedor da vida e obra de Antonio de Sousa. Não pude ajudá-lo, pois até então não possuía grandes coisas. O melhor de tudo é que ficamos amigos. Enviei-lhe uma revista da UFRN e recebi dele "O Bando", de 1955. Muito tempo depois chegou às minhas mãos relíquias de Antonio de Sousa, mas Erich Gemeinder havia falecido. Cedi alguma parte para o dr. Manoel Onofre Jr. É assim... a História é assim...

Do livro “Quase Romance, Quase Memória” retirei alguns ditos populares curiosos, já que não devo contar o conteúdo. Vejamos:

“Pobre como urubu de sertão em ano de inverno e sem epizootias”

(p.33)

“Quem tem uma pena e não tem vaidade ainda vai nascer” (p.33)

“Os cabelos de uma serra estão sempre sujeitos aos ventos de todos os quadrantes” (p.46)

“Não há nada melhor que que um dia atrás do outro e uma noite no meio” (p.46)

“É como macaco em loja de louças” (p.51)

“Pobre arbusto seco que, incapaz de dar frutos, apenas cria bichos para estragar os dos outros” (p.52)

“Cachorro com gafeira não pode deixar de se coçar” (p.52)

“É como paletó de estudante pobre, quando está muito sujo, como estava o Império, leva-se ao adelo, este desmancha tudo, vira o pano pelo avesso, põe novos forros, e aí está uma farpela nova… mas o pano é o mesmo, com o sujo escondido” (p.55)

“Todo sujeito avarento é mau” (p.54)

“Olhos de carneiro mal morto” (p.78)

OBS. As fotografias trazem Antonio de Sousa e suas irmãs, Maria Alice de Melo e Sousa e Maria Isabel Emiliana de Melo e Sousa. 6.6.2016.

. Um balé que desconsagra...

Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino.

Câmara Cascudo, disse que “Natal não consagra nem desconsagra ninguém”. Pauto-me dessa frase clássica do nosso insigne potiguar, para comentar sobre o último Edital de Credenciamento para Instrutores de Dança da EDTAM - Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão), do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, encerrado no último dia 1º de março/24. É notória a desconsagração ao próprio balé de Natal. 

No artigo 1º, DAS DEFINIÇÕES E EXIGÊNCIAS, parágrafo 1.3 está escrito: “1.3. No que se refere ao estilo BALLET CLÁSSICO, o (a)s CANDITADO(A)S devem ter, obrigatoriamente, experiência comprovada na METODOLOGIA RUSSA/VAGANOVA, por meio de certificação comprovada.

Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino.

Nada contra o método - tão importante quanto qualquer outro desde que combinado a seu habitat -, mas tudo contra a engenharia dos bastidores. O que é isso, se não a desconsagração de inúmeros professores de Balé Clássico, qualificados e experientes em outros métodos, e que ficarão de fora por causa da desnecessária exigência obrigatória de experiência comprovada na METODOLOGIA RUSSA/VAGANOVA, por meio de certificação. E a coisa é tão séria, para não deixar dúvida, que está em caixa alta. Estranhíssimo. Sugiro, inclusive, a quem elaborou o Edital, que assistam a série "O Preço da Perfeição", na Netflix. Acaso não favoreçam minha reflexão.

Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino.

Por que somente esse método para o Balé Clássico? O que tem esse método que sobrepuja os demais? Nem todos os corpos se encaixam nesse método. Até mesmo os professores de Balé Clássico que trabalham, por exemplo, Vaganova Cubano, o fazem levando em consideração o biótipo brasileiro (corpos com maior massa muscular, portanto mais alto, pulo, muito pliê etc). Ou seja, fazem uma miscelânea, tendo em vista a incompatibilidade desse método com o corpo potiguar. Diferente das russas, com técnicas ao pé da letra, magérrimas, mais dançante, mais braço, mas linhas etc.


Espetáculo "Câmara Cascudo e o Tapete Mágico" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos.

O edital poderia ter dado abertura para que profissionais do Balé Clássico, em vários métodos, pudessem aplicá-los. Até porque todas as escolas potiguares que ministram aulas de balé clássico trabalham todos os métodos, inclusive o Vaganova. Mas sem provilegiá-lo. Essa mudança – excludente – é recente e desnecessária, já que a maioria dos professores não se identificam com tal método e não tem formação específica nele. Quantos professores norte-rio-grandenses de balé, residentes em natal, estão dentro desse critério exigido? Terá-se que buscar esses profissionais fora, o que é outra exclusão local. Que desconsagração desnecessária. Parece meio "Santo de casa não faz milagre".

Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino.

Seria compreensível - embora esquisito - se a EDTAM pretendesse criar um ambiente específico para o método russo Vaganova, mas à parte, sem comprometer nem excluir os outros métodos, já que demonstra querer jogar holofotes no Vaganova. Não se trata de sugerir a criação de uma escola especializada em Vaganova, mas que houvesse um espaço físico específico para o mesmo, justificando esse estranho e inesplicável destaque a tal método. Para sermos honestos, o Vaganova puro nem combina com o físico das brasileiras, em especial, as potiguares. É só comparar os corpos. Longe de sugerir preconceito, mas é questão de corpo, de anatomia.. Portanto, para que essa seletividade?

A outra desconsagração observada no edital diz respeito ao universo da Cultura Popular. Estamos assistindo a uma decadência da Cultura Popular. É grave. Essa decadência ocorre com a conivência das autoridades dos municípios do Rio Grande do Norte, com raras exceções. Todas as instituições natalenses que trabalham com Cultura no aspecto de patrocínio, incentivo, revitalização, promoção etc, estão inertes quanto a salvar o Folclore Potiguar.  Não se trata de engessar, por exemplo, grupos folclóricos, mas criar condições para que cada cidade potiguar, que têm suas expressões folclóricas, torne-as vivas, mesmo que sejam releituras ou, no mínimo, uma pegada parafolclórica.

Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino.

Em se tratando do edital da EDTAM, não se viu um olhar diferenciado para a cultura popular de Natal. Vê-se a disponibilidade para Jazz, Danças Urbanas, Heels dance Balé Clássico, Dança Contemporânea, Sapateado, e dança de salão. Aplausos para todas essas danças, pois são lindas, necessárias e salvam. Mas a Cultura Popular, em termos do genuíno brasileiro, ou até mesmo do parafolclórico, ficou no escuro (em sucessivos editais). Isso é um perigo para a nossa brasilidade, e o pecado é superiormente maior quando as próprias instituições que trabalham com cultura não se sensibilizam a reverter o quadro.

Espetáculo "Dom Quixote em Parnamoscou" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos.

É necessário jogar holofotes, também, nos grupos folclóricos locais, trabalhar continuamente com oficinas voltadas para essa riqueza brasileira, revitalizando-as, dinamizando-as, enaltecendo-as, promovendo-as, exibindo-as. São muitos entraves que colaboram para que o Folclore não tenha a repercussão que se deve. Entra governo e sai governo e não se vê diferença. O poder público não pode se somar aos entraves.

Espetáculo "Manoel de Barros, Alquimista da Palavra" - Teatro Municipal de Parnamirim - Escrito por Luís Carlos Freire que também assina o cenário e objetos cenográficos. Figurinos de João Marcelino.

Finalizando. Admiro a cultura como um todo. Escrevi vários espetáculos de dança, inclusive musicais. Sou cenógrafo. Trabalho com Arte. Minha fala não é isolada. Meu olhar é holístico. Por coincidência, meu filho, após esperar quase nove meses para conseguir um ingresso para o Bolshoi, em Moscou, Rússia, descreveu, radiante um espetáculo que ali contemplou. Meu filho, assim como eu, respira arte, embora, diferente de mim, sua área profissional seja outra. Digo isso para que não seja interpretado como se falando do que não se entende. Respiro arte.

Como disse no início: Sugiro, inclusive, a quem elaborou o Edital, que assistam a série "O Preço da Perfeição", na Netflix. Acaso não favoreçam minha reflexão.

Enfim, Não existe dança linda. Não existe dança superior. Existem danças lindas, seja Clássica ou Folclórica, e nenhuma é superior a outra. Por isso não entendi essa prioridade ao método Vaganova em Natal. Que me perdoe o mestre Cascudo, mas vejo como desconsagração e grande estranheza esse edital.