ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

NÍSIA FLORESTA: A SEMENTE INTELECTUAL DO VOTO FEMININO BRASILEIRO...


O fato ocorreu no dia 5 de abril de 1928, em Mossoró, Rio Grande do Norte. Nessa data histórica, votou a professora Celina Guimarães Viana, consolidando um dos episódios mais simbólicos da democracia brasileira. Entretanto, o acontecimento não surgiu de forma isolada: foi resultado de um processo político, intelectual e social iniciado anos antes e profundamente marcado pelo pioneirismo potiguar.

Em 25 de outubro de 1927, entrou em vigor no Rio Grande do Norte a Lei nº 660, que regulamentava o serviço eleitoral no estado. O texto legal estabelecia algo revolucionário para a época: o fim da “distinção de sexo” para o exercício do voto. Em um Brasil ainda profundamente conservador, onde as mulheres eram afastadas da vida pública e política, o legislador potiguar abriu caminho para uma transformação nacional.


Pouco depois da promulgação da lei, Celina Guimarães Viana, então com 29 anos e residente em Mossoró, solicitou seu alistamento eleitoral, tornando-se a primeira mulher a se registrar como eleitora no Brasil. No ano seguinte, ela e outras quatorze mulheres participaram das eleições locais. Ainda que esses votos tenham sido posteriormente anulados pela Justiça Eleitoral nacional, reflexo das resistências institucionais existentes, o gesto já havia produzido efeito irreversível: o Rio Grande do Norte passava à história como precursor da inclusão feminina no sistema democrático brasileiro.

Celina com o filho Pedro Viana


A repercussão foi imediata. Telegramas de autoridades chegaram ao estado, intelectuais celebraram o avanço e lideranças políticas locais reconheceram o alcance histórico da medida. Entre os nomes decisivos desse processo destacou-se Juvenal Lamartine, então deputado federal e posteriormente governador do Rio Grande do Norte, que se revelou um político sensível à causa da emancipação feminina.

Nada disso ocorreu por acaso. Décadas antes, o solo potiguar já havia produzido uma das maiores intelectuais do século XIX: Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810–1885). Escritora, educadora e pioneira do pensamento feminista no Brasil, Nísia defendia a educação feminina, a igualdade intelectual entre homens e mulheres e a participação da mulher na sociedade. O ambiente cultural criado por sua obra ajudou a formar uma mentalidade progressista que floresceria politicamente no início do século XX.

Bertha Lutz, Juvenal Lamartine ao lado de feministas. Macaíba, 1928.


Quando a bióloga e líder feminista Berta Lutz, filha do cientista Adolfo Lutz, visitou o Rio Grande do Norte em 1926, encontrou em Juvenal Lamartine um aliado receptivo às ideias de igualdade política. As conversas iniciadas ainda no Rio de Janeiro, então capital federal, fortaleceram a estratégia de inserção feminina na política municipal potiguar, resultando em acontecimentos absolutamente pioneiros.

Assim, no mesmo ano de 1928, o Rio Grande do Norte protagonizou dois marcos simultâneos da história brasileira: oficializou a primeira mulher eleitora e elegeu a primeira prefeita do país, e também da América Latina, Alzira Soriano, escolhida para governar o município de Lajes. Sua vitória simbolizou não apenas um triunfo local, mas uma ruptura histórica na política latino-americana, demonstrando que a participação feminina nos espaços de poder era possível.


O protagonismo feminino potiguar não cessou ali. Em 1935, Maria do Céu Pereira Fernandes foi eleita deputada estadual, tornando-se a primeira mulher a ocupar um parlamento estadual no Brasil. Era esposa do líder político Aristófanes Fernandes, mas construiu trajetória própria dentro da política, ampliando a presença feminina nas instituições democráticas.

Enquanto o Rio Grande do Norte vivia esses avanços, o reconhecimento nacional do voto feminino só ocorreria anos depois. Em 1932, o novo Código Eleitoral brasileiro finalmente reconheceu oficialmente o direito das mulheres ao voto, conquista incorporada à Constituição de 1934 e tornada obrigatória apenas em 1965. O Dia da Conquista do Voto Feminino, celebrado em 24 de fevereiro e instituído pela Lei nº 13.086/2015, recorda essa trajetória histórica e reforça o papel pioneiro do estado potiguar nesse processo.


Mesmo passadas décadas, os desafios persistem. Embora as mulheres representem cerca de 52% do eleitorado brasileiro, ainda ocupam menos de um quinto das cadeiras do Congresso Nacional, mantendo o Brasil entre os países com menor representação feminina parlamentar. A conquista iniciada por aquelas pioneiras permanece, portanto, como um chamado permanente à ampliação da igualdade política.

O pioneirismo do Rio Grande do Norte manifesta-se também em outras áreas da vida social e cultural. Há mais de oito décadas, a natalense Lucy Garcia já pilotava aeronaves, obtendo seu brevet em 1942. Naquele mesmo ano, realizou voos rasantes sobre Natal, causando espanto na população, não pela máquina aérea — mas pelo fato de ser conduzida por uma mulher, em um tempo em que a aviação ainda era território predominantemente masculino.



A relação precoce de Natal e Parnamirim com a aviação também ajudou a alimentar sonhos femininos. Em 1937, a célebre aviadora norte-americana Amelia Earhert decolou da capital potiguar durante sua tentativa de volta ao mundo, causando enorme admiração popular. É provável que jovens potiguares, como Lucy Garcia, tenham encontrado inspiração naquele espetáculo de coragem e modernidade.

O espírito pioneiro feminino no estado remonta ainda a 1920, quando o futebol sequer havia se consolidado como paixão nacional. Naquele ano ocorreu, em Natal, uma partida entre o “Team” feminino do ABC Futebol Clube e o Centro Esportivo Natalense, realizada no sítio Senegal, residência do coronel Joaquim Manoel Teixeira de Moura, área onde hoje funciona o 16º Batalhão de Infantaria Motorizada, no Tirol. O evento ganhou repercussão em revistas de circulação nacional, revelando mulheres ocupando espaços esportivos muito antes de o país discutir oficialmente o futebol feminino.


Na fotografia histórica daquele encontro aparecem nomes como João Café Filho, Galdino Lima e o próprio Quincas Moura. Entre as jogadoras estavam Jandira Café, Nanita Maranhão, Dulce Moura, Aline Moreira Brandão, Maria de Lourdes de Moura Brito, Mabel e Isaura Tavares, Maria Antonieta Chaves, Alice Tavares de Lyra, Maria Amélia Medeiros, Cândida Palma, Belezita Moura, entre tantas outras mulheres que desafiaram padrões sociais e ampliaram horizontes para as gerações seguintes.

O conjunto desses acontecimentos demonstra que o voto feminino no Brasil não nasceu apenas de uma decisão jurídica nacional em 1932. Ele foi preparado por uma sucessão de gestos corajosos, ideias progressistas e experiências pioneiras que encontraram no Rio Grande do Norte terreno fértil para florescer.



É assim a história: aquilo que vemos, ouvimos ou lemos pode tornar-se o estalo de uma transformação profunda. O exemplo das mulheres potiguares, educadoras, políticas, aviadoras, esportistas e intelectuais, prova que grandes conquistas nacionais frequentemente começam em lugares onde alguém ousa dar o primeiro passo. O Rio Grande do Norte deu esse passo, e mudou a história do Brasil.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O QUE TINHA NAS LATAS DE CONSERVA DA "ACADÊMICOS DE NITEROI"?

 


Quem me conhece sabe: nunca escondi minha posição política. Sou de esquerda, e não vejo sentido em viver nos limbos ideológicos para agradar a todos. Neutralidade, muitas vezes, é apenas conforto disfarçado. E se há algo que salta aos olhos no debate público atual é a avalanche diária de ataques, distorções e fake news direcionadas à esquerda. É tanto conteúdo enviesado que daria uma enciclopédia da desinformação.
Mas é preciso maturidade: opinião alheia não é sentença. Se eu fosse reagir a cada postagem que ataca a esquerda ou Lula, minha vida se resumiria a rebater fantasmas digitais. Escolho intervir apenas quando a mentira ultrapassa o limite do razoável, especialmente quando ela se disfarça de moralidade religiosa ou de defesa da família para justificar intolerância.
Foi exatamente nesse ponto que a escola de samba Acadêmicos de Niterói tocou ao levar para a avenida a ala intitulada “Neoconservadores em conserva”. A imagem era potente: foliões vestidos como latas, com o rótulo de “família tradicional em conserva”. Uma metáfora clara, pensamentos “enlatados”, preservados artificialmente, resistentes ao diálogo e à transformação social.


O Carnaval sempre foi espaço de crítica social. A sátira é linguagem legítima da cultura popular brasileira. Não se tratava de atacar famílias, muito menos religião. Tratava-se de expor a contradição entre discurso e prática. E foi aí que muitos se sentiram atingidos.
Alguns segmentos evangélicos - e é fundamental dizer que não são todos - reagiram como se a escola tivesse promovido um ataque direto à fé cristã. Mas a pergunta que fica é: por que se sentir pessoalmente ofendido por uma crítica à hipocrisia? Se a carapuça não serve, por que insistir em experimentá-la?
A própria realidade cotidiana mostra o ponto da crítica. Conheço uma família evangélica aqui no bairro cuja fachada é de cordialidade exemplar. “Bom dia” e “boa tarde” são distribuídos com sorriso impecável. Mas dentro de casa, segundo relatos próximos, há imposições rígidas, controle, repressão de identidade, destruição de sonhos, violência psicológica e, possivelmente, física. Os filhos são obrigados a ir para a igreja, mas dizem até para os vizinhos que não gostam. O pai já rasgou vários vestidos, saias e 'shorts' da filha adolescente. Ela não participa de quase nada na escola, pois ele não quer que ela se misture com outras moças. O filho também não quer seguir a doutrina da família, inclusive participa de eventos em outra religião. A matrona dessa família é totalmente submissa a esse senhor, embora advogada e artista plástica, tornou-se mera dona de casa, pois ele a proibiu de atuar, tendo vendido o seu forno de queima de porcelana (era o que ela fazia). Uma senhora muito idosa já disse que ele é violento com ela. Mas quem passa de frente a essa casa, é cumprimentada com cordialidade espetaculosa por esse senhor, numa horrorosa hipocrisia. Isso não é regra de evangélicos, pois há muitos que vivem sua religiosidade familiar com profundo respeito, mas também não é exceção, como esse caso.


Uma mulher formada, advogada e artista, reduzida à submissão por proibição do marido, impedida de trabalhar. Filhos impedidos de viver a própria juventude. Essa é a “família tradicional” defendida? Se for, estamos falando de tradição de opressão, não de amor. Pois é isso que a Escola de Samba também retratou.
O problema nunca foi a fé. O problema é o uso da fé como instrumento de poder, controle e dominação. O problema são os mercadores do sagrado, os que transformam púlpitos em palanques, que falam de moral enquanto praticam violência doméstica, que condenam o “mundo” enquanto traem, manipulam e silenciam dentro de casa. Por acaso quem não conhece o "Caso Flor de Liz"? num breve exemplo. Cristianismo, em sua essência, fala de amor, compaixão e justiça. Se alguém vive esses valores, não há motivo para se sentir atacado por uma crítica à hipocrisia. Pelo contrário: deveria ser o primeiro a repudiá-la. Deveria parabenizar a escola de samba.
O incômodo revela mais do que a fantasia. Ao reagir com fúria a uma metáfora, talvez o desconforto venha do espelho que ela oferece. Quando alguém veste a carapuça - seja por ingenuidade, seja por identificação - acaba expondo o que tenta esconder.
A escola não falou de fé. Falou de contradição. Não falou de famílias reais que vivem amor e respeito. Falou de estruturas que usam o rótulo de “tradicional” para conservar desigualdades, silenciar mulheres e controlar corpos e consciências, como os dois exemplos que escrevi acima.
Se você não pratica a opressão, não há motivo para se sentir retratado. Mas se a crítica incomoda profundamente, talvez valha a pena perguntar: o que exatamente está sendo defendido? A fé, ou o poder?
Dê uma olhadinha nessa lata de conserva que Traz Trump e Epsteim. Pois bem, Epstein é judeu e Trump é de família evangélica...
Entendeu agora?

domingo, 15 de fevereiro de 2026

UM FEMINICÍDIO DIFERENTE: DEIXAR UMA VIVA-MORTA...


No último dia ... – como se não bastasse o quanto o caso do “Orelha” abalou o país – o Brasil chocou-se com o episódio passado em Itumbiara, interior de Goiás, quando Thales Machado, homem comum, sem qualquer problema, secretário de governo e genro do prefeito – durante uma viagem da esposa para São Paulo – atirou nos dois filhos e depois se matou. O menino de 13 anos morreu na hora e o outro, de oito anos, internado em estado grave, morreu no dia seguinte. Ele deixou uma carta, “justificando” o crime como sendo motivado pela "traição" da mulher.

Para mim, o autor desse crime se chama machismo, o pensamento equivocado de que a mulher é um objeto de posse do homem, e uma vez casada, deve conviver com o marido até a morte, mesmo que a relação conjugal esteja falida.

Thales Machado, segundo depoimentos, era um homem de conduta ilibada, excelente esposo, excelente pai, excelente marido, excelente profissional e amava a família. Um homem querido por todos. E sobre a mulher, todos têm a mesma impressão. Não há o que se falar dela, exceto após a novidade da possível traição. Digo “possível” porque, de acordo com o que li, ela não vivia maritalmente com ele há meses, tendo lhe comunicado que pretendia se separar, por não nutrir mais amor algum por ele. E considerando esse detalhe, a traição se torna diferente de uma traição em que o homem ou a mulher vivem debaixo do mesmo teto sem ter conhecimento de que um ou outro nutre o desejo secreto de se separar.

Mas o que me chocou tanto quanto esse crime horroroso foi a exposição que as redes sociais fizeram dessa mulher. A grande maioria fê-la uma criminosa, ignorando que o crime – hediondo – foi do marido tomado pelo machismo. Ela foi execrada durante o enterro do filho e, mesmo despedaçada, precisou se se retirar às pressas do cemitério como se não tivesse sentimentos.

Antes de cometer o crime abominável, o homem era um exemplo de pessoa, mas quando ele mata dois inocentes, no auge da vida, com futuros brilhantes pela frente – e de maneira covarde (publicando vídeos amorosos um dia antes, visitando os filhos na escola, falando de amor) – ele se revela um monstro. Um monstro que a sociedade construiu e segue construindo desenfreadamente ao formar homens machistas, que se acham donos de mulheres. E o que agrava a situação é o fato de o assassino usar os filhos para vingar-se, ciente de que a ex-mulher seria uma viva-morta para sempre. Ele selou o seu futuro com uma sentença maquiavélica. Matou-se, mas deixou uma viva-morta.

O machismo é autor de tragédias deploráveis ao longo dos séculos, a exemplo do famoso caso de Ana de Assis, esposa de Euclides da Cunha, numa tragédia oriunda de traição conjugal que chocou São Paulo. Só depois de décadas que o Brasil tomou conhecimento e virou minissérie.

O caso de Thales Machado foi um feminicídio diferente. Ele quis levar o que de mais precioso existe para uma mãe: os filhos. E a "sereja do bolo" foi ter se matado para garantir que a sociedade sentenciasse a esposa como monstro. Ele quis deixar uma viva-morta, pois jamais essa mulher será feliz. É dor que nunca acaba. O que é isso senão feminicídio? O que é isso senão machismo? Era uma família linda, tanto o casal, quanto os filhos, mas não existia o principal da parte da esposa, ela o comunicou sobre a separação, mas ele não aceitou. Quantos homens deixam de amar suas esposas? Muitos. E raramente se sabe de casos de ‘masculinicídios’. Todos os valores que Thales possuía foram por água abaixo pelo fato de tais valores não terem sufocado o machismo que se formatou ao longo da sua vida, fruto de uma cultura equivocada na qual apenas o homem tem sentimento e razão. E assim ele se tornou um assassino e monstro. Para a esposa, ele era tudo de bom, menos marido. Então seu coração se abriu para outro, mesmo que talvez não fosse a pessoa certa, mas a fragilidade do momento lhe incorreu ao ato.

Faltou a Thales a maturidade de entender a situação da mulher. E se tivesse sido com ele? Com certeza teria deixado a casa há muito tempo e já teria até filhos com a outra, pois o machismo protege a imagem masculina. E ninguém jamais saberia que esse casal existiu. A sociedade educa homens e mulheres a entender que o homem pode tudo, por tal razão é comum – pasmem – que até mesmo mulheres sejam machistas. Na verdade ninguém tem culpa, pois é cultural. É a forma como educam as crianças.

No fundo, Thales, apesar de encerrar sua vida como um monstro, também foi vítima. Vítima do machismo encrustrado nos meninos desde criança. É exatamente isso que deve ser mudado. Entendo que as escolas devem trabalhar a questão do machismo, educando as crianças sobre o necessário respeito à mulher, ensinando que homens e mulheres tem livre arbítrio, devem respeitar um ao outro sobre suas decisões e gostos, e que a mulher não é um objeto com dono. As famílias - em primeiro lugar - devem ensinar o mesmo, afinal, a educação de berço é muito poderosa.

A historiografia traz as mais bizarras histórias sobre a redução da mulher a mera vida doméstica, um objeto, um ser que deve estar escondido da vista de outros homens, submissa, amedrontada, humilhada, torturada psico e fisicamente, apedrejada, traída e morta quando for o caso. Isso veio nas caravelas portuguesas, herança dos mouros. Era dito à mulher que se ela se separasse seria tida por todos como p.u.t.a. Então o medo era maior. Assim, mesmo sem amor, elas morriam ao lado de maridos que as traiam debaixo do nariz com escravas, meretrizes e quem quisesse, e com aprovação da sociedade. À mulher cabia apenas assistir em silêncio. Muita coisa mudou atualmente, exceto o pensamento machista de ‘mulher como propriedade privada’, sem direito de decidir o que é melhor para si. O jovem Thales herdou essa educação moura. Mesmo tendo uma vida pela frente e com a possibilidade de ser feliz num novo relacionamento, escolheu ser machista. Infelizmente.

Os meninos são “educados” desde pequenos a trair, serem desleais para suas namoradas e esposas. É como se tudo fosse permitido ao homem. Isso é muito perigoso porque a linha que separa o machismo da violência e do feminicídio é muito tênue. Essa “educação” equivocada é normalizada, e quando a mulher não quer mais ser objeto, ou simplesmente deixa de sentir amor pelo cônjuge, corre o risco de ver o ex-marido macular sua imagem aos amigos próximos, ou morta, ou - no caso dessa situação do Thales - ser "causadora" de uma tragédia. Seu machismo foi tão doentio que ele parece ter pensado: "vou destruir tudo, inclusive ela". É como só ele pudesse decidir até mesmo a tragédia, jamais a mulher.

Não sou a pessoa certa para opinar, pois não sou psicólogo, psicanalista etc. Mas escrevo como pai, esposo e marido. Escrevo como quem tem família, e esse fato também me abalou. Escrevo como quem já leu muitas obras literárias em que o feminicídio é normalizado. Escrevo como quem, desde criança, vê mulheres execradas, apedrejadas em todo o Brasil e sempre se compadeceu. Muito triste essa história e, infelizmente, não será a última enquanto não educarem as crianças contra a chaga do machismo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

MORRE O PROFESSOR SEVERINO VICENTE - MONUMENTO HUMANO DO RIO GRANDE DO NORTE...


Hoje foi um dia muito difícil para todos, tendo em vista a perda irreparável do amigo pessoal e folclorista, professor Severino Vicente. No livro de assinaturas da Casa de Velórios São José escrevi apenas: "Quem continuará?". Foi o que veio na mente naquele momento de profunda consternação. 

Sei que não se engessa a cultura popular, a qual é muito dinâmica e mutante, mas penso nesses grandes monumentos que estão indo embora. Tanto os estudiosos do Folclore quanto os mestres e brincantes. Professor Severino Vicente foi um baluarte na salvaguarda do folclore do Rio Grande do Norte.

Não acreditei quando vi aquele monumento num caixão. Quanta sabedoria viraria cinza! Uma biblioteca foi sepultada hoje. É certo que Severino não é gigante apenas por isso, afinal foi excelente amigo, querido por todos, excelente pai, esposo e avô. Um homem de caráter. Pessoa admirável. Sua filha fez uma linda homenagem.

Estive na Casa de Velório e Cremação São José, onde houve a celebração da missa de encomendação seguida de uma homenagem feita por um grupo folclórico, cujos atores dançaram lhe reverenciaram junto ao ataúde.  Logo após se deu a cemimônia de cremação. 

Homenagem Póstuma a Severino Vicente (1948–2026)

Com profunda tristeza, a cultura popular potiguar e brasileira despede-se do professor, historiador, escritor e folclorista Severino Vicente, falecido em 11 de fevereiro de 2026, aos 77 anos, após longa e corajosa batalha contra o câncer. Sua partida representa uma perda imensurável para o estudo, a preservação e a valorização do folclore no Rio Grande do Norte e no Brasil.

Nascido em 1948, na Fazenda Lajinha, município de Pedro Avelino (RN), mudou-se ainda jovem para Natal, onde construiu sua trajetória acadêmica e cultural. Foi esposo dedicado de Zeneide Maria de Seixas Vicente e pai de Bartira Seixas Vicente, Jagoanhara Seixas Vicente e Juliane Seixas Vicente. Homem de família e de convicções firmes, soube conciliar a vida pessoal com uma atuação pública marcada pelo compromisso inabalável com a cultura popular.

Severino Vicente dedicou sua existência à pesquisa, à difusão e à defesa das tradições nordestinas. Sua trajetória intelectual confunde-se com a própria história da valorização do folclore potiguar nas últimas décadas. Mais do que estudioso, foi articulador, incentivador e presença ativa nos movimentos culturais que buscavam assegurar reconhecimento e dignidade às manifestações do povo.

Dotado de vasta erudição e sensibilidade humana, exerceu papel de grande relevância institucional ao presidir a Comissão Nacional de Folclore, instância fundamental na articulação dos estudos e das políticas voltadas às manifestações culturais populares em âmbito nacional. Também presidiu a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, entidade histórica dedicada à salvaguarda, pesquisa e promoção do patrimônio imaterial do estado. Nessas funções, consolidou-se como uma das maiores referências nos estudos do folclore do Rio Grande do Norte, sendo respeitado por pesquisadores, mestres da cultura tradicional e instituições culturais em todo o país.

Autor de três livros, investigou com profundidade as raízes históricas, simbólicas e sociais das manifestações culturais nordestinas. Sua obra examinou, inclusive, as influências europeias reinterpretadas no contexto regional, demonstrando como o povo potiguar recriou e ressignificou heranças culturais ao longo dos séculos. Para Severino, o folclore jamais foi mero espetáculo ou peça de museu: era memória viva, identidade coletiva e patrimônio dinâmico, que precisava ser compreendido, respeitado e transmitido às novas gerações.

Deixa esposa, filhos, netos e bisnetos, que hoje guardam não apenas a saudade, mas o orgulho de uma trajetória íntegra e exemplar. À família unem-se incontáveis amigos, colegas e discípulos que nele encontraram um mestre generoso, sempre disposto a compartilhar saberes, orientar pesquisas e estimular vocações.

Sua morte representa um prejuízo incalculável à cultura popular norte-rio-grandense. Perdemos um guardião da memória, um intelectual comprometido com as raízes do povo, um articulador incansável de políticas culturais e um defensor firme das tradições populares. Em tempos em que o patrimônio imaterial enfrenta desafios decorrentes da massificação cultural e do esquecimento das tradições locais, sua ausência deixa uma lacuna difícil de preencher.

Permito-me acrescentar, neste momento de despedida, meu testemunho pessoal. Foram 29 anos de amizade, convivência e admiração. Compartilhamos inúmeros eventos folclóricos pelo Rio Grande do Norte, seminários, encontros, debates, cursos, festivais e celebrações da cultura popular, ao lado de outros abnegados folcloristas potiguares. Caminhamos juntos na defesa das tradições do nosso estado, aprendendo e ensinando mutuamente. Sua presença distinguia-se pela firmeza intelectual, elegância no trato, espírito conciliador e amor incondicional ao folclore.

Seu exemplo, contudo, também nos convoca à reflexão. Não vejo surgir, na mesma proporção em que partem, homens e mulheres dedicados ao folclore norte-rio-grandense com o mesmo grau de abnegação e compromisso. Após nosso maior mestre, Luís da Câmara Cascudo (1986), despedimo-nos de Veríssimo de Melo (1996), Deífilo Gurgel (2012) e, agora, de Severino Vicente - verdadeiros monumentos humanos da cultura potiguar. Essa realidade impõe um debate urgente.

As instituições culturais precisam eleger como prioridade o fomento e a valorização do folclore em todas as suas expressões: nas brincadeiras populares, nas artes plásticas, no teatro, na música, na literatura oral e nas celebrações tradicionais. As escolas, por sua vez, devem inserir de forma sistemática o estudo e a vivência do folclore norte-rio-grandense em seus projetos pedagógicos, garantindo que crianças e jovens reconheçam, respeitem e se orgulhem de suas raízes. Só assim asseguraremos a continuidade de nossa herança cultural.

Hoje, despeço-me não apenas de um grande pesquisador, mas de um amigo leal, inspirador e coerente com seus ideais. Seu legado permanece vivo nas páginas que escreveu, nas instituições que fortaleceu e, sobretudo, nas manifestações culturais que ajudou a preservar. Severino Vicente parte, mas sua obra continua iluminando o caminho daqueles que compreendem que a cultura popular é a alma de um povo.

Honrou a memória de Câmara Cascudo, honrou o Rio Grande do Norte e honrou, acima de tudo, o seu povo.

























LENDA DA LAGOA PAPARY - TEATRO ALBERTO MARANHÃO