ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

NOVE PAÍSES DENTRO DO NORDESTE...

Vou logo dizendo: esse título é mais uma brincadeira, mas com fundamento. Tenho visto, eventualmente, pessoas de outros estados brasileiros, algumas que estão por aqui a passeio e outras que vieram morar na região, produzindo vídeos “sobre o Nordeste”. Coloco a expressão entre aspas porque existe uma questão que, embora pareça óbvia, às vezes é esquecida: o Nordeste é uma região gigantesca, formada por nove estados, e não um pequeno territ´rio culturalmente uniforme. Embora o Nordeste seja a terceira maior região do Brasil, ele reúne nove estados, enquanto o Centro-Oeste reúne quatro unidades federativas e o Norte, sete. Falar “sobre o Nordeste” como se estivéssemos falando de um único lugar, com uma única maneira de falar, comer, cantar, dançar, viver e interpretar o mundo, é uma generalização que não corresponde à realidade. Quem nasceu ou vive há muitos anos em algum estado nordestino sabe que existem diferenças enormes entre um estado e outro. Essas diferenças aparecem na música, na literatura, na gastronomia, no folclore, nas danças, nos sotaques, nas expressões populares, na arquitetura, nos costumes, nas frutas, na vegetação e em inúmeras outras manifestações da vida cotidiana. O Nordeste é uma região, mas dentro dela existem muitos Nordestes. Se entre uma cidade e outra existem peculiaridades - quase dialetos - imagine nove estados.

Basta observar alguns exemplos em várias elementos das culturas do Nordeste. O frevo é uma manifestação cultural profundamente associada a Pernambuco, enquanto o bumba-meu-boi possui no Maranhão características e tradições muito particulares. A Bahia construiu uma identidade cultural própria, marcada por uma história singular e por manifestações musicais, religiosas e gastronômicas que não podem simplesmente ser tomadas como representativas de todo o Nordeste. O Ceará tem suas próprias expressões, costumes e formas de falar; Pernambuco também; Paraíba também; Alagoas, Sergipe, Piauí e Rio Grande do Norte igualmente. Mesmo estados vizinhos, separados às vezes por poucos quilômetros, podem apresentar diferenças surpreendentes. Na gastronomia, por exemplo, um mesmo alimento pode receber nomes diferentes conforme o lugar. Macaxeira, mandioca e aipim são palavras utilizadas em diferentes regiões brasileiras para designar a mesma raiz. O cuscuz aparece em praticamente toda a região, mas pode assumir preparações e acompanhamentos bastante distintos. A própria carne de sol, tão associada ao Nordeste, possui modos diferentes de preparo e apresentação. Isso mostra que proximidade geográfica não significa uniformidade cultural.

E talvez seja justamente a linguagem o campo em que essas diferenças mais facilmente provocam situações curiosas. Às vezes, uma pessoa chega a determinado estado, escuta uma palavra que nunca havia ouvido, acha aquela expressão engraçada, curiosa ou estranha e imediatamente produz um vídeo para contar aos seus seguidores “como os nordestinos falam”. O problema está justamente nessa generalização. Uma pessoa que chega ao Rio Grande do Norte não está descobrindo “como o Nordeste fala”. Está descobrindo como determinadas pessoas, em determinado lugar, utilizam a língua. Uma palavra absolutamente comum no Rio Grande do Norte pode ser desconhecida na Paraíba, embora os dois estados sejam vizinhos. Uma expressão utilizada normalmente em Pernambuco pode não fazer parte do vocabulário cotidiano de um cearense. Uma palavra comum na Bahia pode causar estranhamento em alguém do Maranhão. Isso é absolutamente normal. É assim que funcionam as línguas: elas variam conforme a região, a história, o grupo social e as circunstâncias em que são utilizadas.


Posso dar um exemplo pessoal. Embora toda a minha ancestralidade seja norte-rio-grandense, nasci no Mato Grosso do Sul, cheguei ao Rio Grande do Norte aos 24 anos de idade e foi aqui que encontrei diferenças enormes em relação a coisas que eu considerava absolutamente naturais em outros lugares. Uma delas está justamente no vocabulário. Em outro lugar onde vivi, era comum dizer que determinada criança era “atentada”, quando se queria dizer que era inquieta, travessa, incômoda, difícil de controlar. No Rio Grande do Norte, encontrei uma forma diferente de expressar praticamente a mesma ideia: “Aquele menino de fulana é muito caningado”. Aqui, “canigado” pode perfeitamente ser utilizado para caracterizar uma criança inquieta, travessa, que incomoda ou não para quieta. Para quem chegou de outro lugar, isso pode causar estranheza. Mas o que existe aí não é erro. Existe diferença regional.


E essa diferença é justamente uma das coisas mais fascinantes de uma língua. É perfeitamente normal que alguém escute uma palavra pela primeira vez e pense que ela é engraçada. É normal achar curioso um determinado modo de falar. É normal estranhar um sotaque ou descobrir que uma palavra possui um significado diferente daquele que conhecíamos. O que não é razoável é transformar o nosso desconhecimento em uma espécie de tribunal linguístico. Se eu nunca ouvi uma palavra, isso significa apenas que eu nunca ouvi aquela palavra. Não significa que ela esteja errada. Se uma expressão não é usada no meu estado, isso significa apenas que ela não faz parte da minha variedade linguística. Não significa que ninguém possa utilizá-la legitimamente em outro lugar.


Essa questão é muito bem discutida pelo linguista Marcos Bagno em seu livro Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. A obra é particularmente importante para compreender que a língua não é uma estrutura rígida, uniforme e utilizada da mesma maneira por todos os brasileiros. Existem diferentes variedades linguísticas, influenciadas pela região, pela história, pelo grupo social, pela situação de comunicação e por diversos outros fatores. Há, naturalmente, uma norma-padrão utilizada em determinados contextos formais, sobretudo na escrita, mas isso não significa que todas as demais formas de expressão sejam simplesmente “erradas”. Uma coisa é discutir adequação linguística em determinado contexto. Outra, completamente diferente, é tratar uma variedade regional como defeituosa apenas porque não corresponde àquela com a qual estamos acostumados.


Particularmente, considero impressionante a riqueza da linguagem no Rio Grande do Norte. Um exemplo que sempre me chamou atenção é a palavra “peia”, que possui cincco diferentes sentidos e usos no vocabulário regional. Dependendo do contexto, a palavra pode estar relacionada a uma surra, a um instrumento utilizado para bater ou castigar, a elementos empregados para prender ou controlar animais, peça para subir em coqueiros e a forma pejrativa de se referir ao órgão sexual masculino, ou seja são usos tradicionais registrados no vocabulário regional. Essa multiplicidade de significados é muito interessante porque mostra como uma palavra pode adquirir diferentes sentidos ao longo da história de uma comunidade. Em vez de simplesmente achar a palavra estranha, poderíamos perguntar de onde veio, como se desenvolveu, em quais situações é utilizada e por que adquiriu determinados significados. Isso é cultura. Isso é patrimônio linguístico. Isso é história preservada na fala cotidiana.


Por isso, quando alguém chega a um estado nordestino e encontra uma palavra que nunca ouviu, a atitude mais interessante não seria dizer que “os nordestinos falam assim”, porque essa afirmação já parte de uma generalização equivocada. Muito menos seria afirmar que a palavra está errada. Seria muito mais interessante dizer: “Descobri uma expressão que eu não conhecia e aqui no Rio Grande do Norte ela é utilizada dessa maneira”. Parece uma diferença pequena, mas muda completamente o sentido daquilo que está sendo apresentado. Na primeira situação, uma experiência particular é transformada em regra geral. Na segunda, uma descoberta cultural é apresentada como aquilo que realmente é: uma característica de determinado lugar. Fica muito mais bonito e civilizado publicar um vídeo nesses conformes. NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: A LINGUAGEM NO RIO GRANDE DO NORTE


É preciso também entender que o Brasil é bonito justamente porque não é uniforme. Seria muito triste se todos os estados tivessem o mesmo sotaque, as mesmas comidas, as mesmas festas, as mesmas músicas, as mesmas expressões e os mesmos costumes. Uma das maiores riquezas brasileiras está justamente na possibilidade de viajar para outro estado e perceber que existem outras maneiras de falar, cozinhar, celebrar, construir, cantar e contar histórias. É isso que nos atrai e dá sentido ao ato de viajar e conhecer o novo, o diferente, o exótico, enfim. Podemos até imaginar, de maneira metafórica, cada estado como uma espécie de pequeno país dentro de um país maior. Todos pertencem ao Brasil, compartilham uma história nacional e inúmeros elementos culturais mas cada um desenvolveu características próprias. E isso é especialmente evidente no Nordeste.


Por essa razão, considero que quem produz conteúdo sobre uma região que não é a sua deveria ter um pouco mais de cuidado. Não custa pesquisar antes de afirmar alguma coisa. Não custa conversar com uma pessoa que nasceu e cresceu naquele lugar. Não custa perguntar a alguém mais velho da comunidade se determinada expressão é realmente utilizada e em quais situações. Não custa consultar um dicionário regional, um estudo linguístico, uma obra acadêmica ou um pesquisador. Às vezes, uma conversa de poucos minutos é suficiente para transformar aquilo que poderia ser um vídeo equivocado ou até desagradável em um conteúdo realmente interessante sobre cultura brasileira. Isso pode expor o youtuber ao ridículo ou gerar hostilidades, pois nem todos aceitam na boa.


E isso não vale apenas para palavras. Vale para tudo. Vale para a comida, para a música, para a dança, para a arquitetura, para as festas populares, para os costumes, para as manifestações religiosas, para as frutas, para as formas de tratamento e para tantas outras características que fazem uma comunidade ser diferente de outra. A pessoa pode perfeitamente achar uma comida estranha, uma dança curiosa, um costume engraçado ou uma palavra inusitada. Isso faz parte da experiência de conhecer um lugar diferente. O problema começa quando o estranhamento se transforma em condenação. Há uma diferença enorme entre dizer “eu não conhecia isso” e dizer “isso está errado” ou expor para zombar ou riducularizar.


Talvez uma das maiores demonstrações de cultura seja justamente reconhecer aquilo que não conhecemos. Não precisamos gostar de tudo o que encontramos. Não precisamos incorporar todos os costumes. Não precisamos utilizar todas as palavras. Não precisamos achar bonito tudo aquilo que vemos. Mas precisamos ter humildade para compreender que o nosso modo de fazer as coisas não é necessariamente o único modo possível. Se para mim uma determinada palavra não funciona, isso não significa que ela não funcione para outra comunidade. Se para mim determinado costume parece estranho, isso não significa que ele não tenha um enorme valor afetivo e histórico para quem o pratica. Se eu não utilizo determinada expressão, isso não me transforma em autoridade para determinar que ninguém deveria utilizá-la.


Há, inclusive, algo de contraditório quando alguém viaja para conhecer uma cultura diferente e, ao encontrar algo que não conhece, decide imediatamente que aquilo está errado. Afinal, viajar deveria ampliar nossas referências, não reduzir o mundo àquilo que já conhecemos. O desconhecido deveria despertar curiosidade. A diferença deveria provocar perguntas. O estranho deveria ser uma oportunidade de aprender. Quando transformamos tudo aquilo que não corresponde à nossa experiência em erro, acabamos perdendo justamente a melhor parte da viagem: a descoberta.


A facilidade de publicar qualquer coisa nas redes sociais também criou uma situação curiosa: muitas vezes, uma descoberta feita em poucas horas é apresentada como se fosse conhecimento sobre uma cultura inteira. A pessoa ouve uma expressão, registra aquilo com surpresa e, em seguida, transforma sua impressão em uma espécie de conclusão. É aí que a curiosidade, que poderia resultar em um conteúdo interessante, acaba perdendo a oportunidade de se transformar em conhecimento. Antes de explicar ao mundo aquilo que acabou de descobrir, talvez fosse mais prudente ouvir quem vive naquele lugar, perguntar a quem nasceu ali, investigar a origem da expressão e perceber se aquilo que parece estranho para um visitante é, na verdade, absolutamente natural para a comunidade. A internet pode ser um excelente instrumento para divulgar a riqueza cultural de um povo, mas também pode ampliar rapidamente um equívoco. E quando esse equívoco vem acompanhado de deboche ou de uma suposta correção da maneira como os outros falam, quem acaba se revelando não é a cultura visitada, mas a falta de conhecimento de quem decidiu julgá-la.


No fim das contas, talvez uma das melhores maneiras de conhecer o Brasil seja exatamente perceber essas diferenças. Viajar pelo país é descobrir que o português continua sendo português, mas que os brasileiros encontraram incontáveis maneiras de falar, nomear as coisas e expressar sentimentos. É descobrir que uma mesma comida pode ter nomes diferentes, que uma mesma palavra pode possuir significados diferentes, que uma mesma festa pode assumir características próprias em cada lugar e que estados vizinhos podem conservar identidades culturais surpreendentemente distintas. Por isso, estranhar é normal. Achar curioso é normal. Até achar engraçada uma palavra que nunca ouvimos pode ser normal, desde que exista respeito. O que não deveria ser normal é transformar o desconhecimento em superioridade e a diferença em erro. Quem se dispõe a falar publicamente sobre a cultura de outro lugar precisa pesquisar, ouvir, conversar e, principalmente, respeitar. Porque diferença não é defeito. Diferença é patrimônio.


E talvez seja justamente isso que torne o Brasil tão extraordinário: somos um só país, mas não precisamos ser todos iguais. O Nordeste é um excelente exemplo disso. São nove estados, inúmeras histórias, muitos sotaques, milhares de palavras, sabores, ritmos, costumes e maneiras de interpretar a vida. Não existe um único Nordeste. Existem muitos Nordestes, e cada um deles merece ser conhecido sem preconceito e tratado com respeito. No final, há uma frase simples que resume tudo: se para mim não funciona, pode funcionar perfeitamente para outro. E, quando falamos de língua, cultura e identidade, essa diferença não precisa ser corrigida. Precisa ser compreendida, afinal, se são nove países, como diabos vou saber qual idioma fala cada um? (Então preciso conhecê-los antes de sentenciá-los). OBS. Todos são muito bem vindos ao Nordeste, principalmente as pessoas civilizadas...


domingo, 23 de agosto de 2026

O QUE CÂMARA CASCUDO NOS DIZ QUANDO MORREM OS GUARDIÕES DA MEMÓRIA...

 


Os "velhos" de S. José de Mipibu foram morrendo, morrendo, e com eles as reminiscências de tradições locais. Velho de hoje não tem memória e não gosta de recordar tempo passado, para que ninguém pense que ele é demasiado antigo. Outrora havia orgulho em fazer-se viver a vida dos dias idos, mas presentemente sente-se o pudor, respeito, timidez, acanhamento, em recordar o que desapareceu. A impressão é que o julgam contemporâneo aos fatos pretéritos. Como se toda a gente fosse coeva ao que sabe ter acontecido.
​Luís da Câmara Cascudo

 

​Um negociante do velho Mossoró, estória contada pelo Manuel Borges, ao perguntarem sobre o descobrimento do Brasil, respondeu, rápido, como afastando parentesco na quarta dimensão:
– Não é do meu tempo!... ​(A REPÚBLICA - 24/09/1959)


Quando morrem os guardiões da memória

Há, nessas palavras de Câmara Cascudo, escritas em uma de suas Actas Diurnas, uma inquietação que permanece profundamente atual: a percepção de que uma comunidade pode perder muito mais do que pessoas quando seus velhos desaparecem. Com eles podem desaparecer histórias, lendas, costumes, maneiras de falar, acontecimentos, nomes de lugares, personagens esquecidos, antigas relações de parentesco e, sobretudo, uma determinada maneira de compreender o mundo. Já contei inúmeras vezes sobre as pesquisas que fiz em Nísia Floresta, ocasião que conversei com inúmeros idosos, pois na lógica da existência, são eles que partem primeiro, portanto suas memórias precisam ser colhidas.

Cascudo percebeu isso com extraordinária lucidez. Nela, ele se refere ao município de São José de Mipibu/RN, mas, na verdade, pensava em todos os lugares. O que está em jogo não é simplesmente a velhice, mas a memória. O velho, naquele universo de que ele fala, não era apenas alguém que havia vivido muitos anos. Era, muitas vezes, uma espécie de arquivo vivo da comunidade. Sua memória guardava aquilo que os livros não registravam e que os documentos oficiais frequentemente ignoravam. Quando esse homem ou essa mulher morria, levava consigo uma parte de um passado que talvez jamais pudesse ser recuperada.

Há, porém, uma observação ainda mais delicada no pensamento de Cascudo: o velho de seu tempo já começava a sentir certo constrangimento em falar do passado. Havia uma espécie de pudor em admitir a idade, em recordar costumes antigos, em contar aquilo que testemunhara. Como se lembrar fosse denunciar a própria velhice. Como se recordar fosse confessar que se pertence a outro tempo. E aqui está uma das grandes ironias apontadas por Cascudo. A sociedade que deveria ouvir os mais velhos, justamente porque eles carregam experiências que ninguém mais possui, começa a tratá-los como se fossem inadequados ao presente. O passado passa a ser visto como coisa ultrapassada, e a memória, em vez de patrimônio, transforma-se em motivo de acanhamento.

Isso é particularmente grave quando pensamos nas pequenas cidades e comunidades, onde a história muitas vezes sobrevive muito mais na palavra do que no papel. Em lugares como São José de Mipibu, cada velho poderia ser portador de uma parcela da história coletiva. Um engenho que desapareceu, uma festa que deixou de existir, uma antiga família, um caminho, uma expressão popular, uma história de assombração, um acontecimento político, uma tradição religiosa ou simplesmente uma maneira de viver que já não encontra lugar no presente.

Tudo isso pode morrer silenciosamente. Por isso, a advertência de Cascudo não deve ser lida apenas como uma lembrança de seu tempo. Ela é também um chamado à responsabilidade. Antes que o último narrador desapareça, é preciso perguntar, ouvir e registrar. É preciso compreender que a memória oral não é uma memória menor. Ela é uma das formas pelas quais uma sociedade reconhece a si mesma. Talvez seja justamente por isso que a frase de Cascudo sobre os velhos de São José de Mipibu adquira, hoje, uma força ainda maior. Ele não estava apenas lamentando a morte de algumas pessoas. Estava percebendo o desaparecimento de um mundo.

E mundos inteiros podem desaparecer sem fazer barulho. Às vezes, desaparecem quando a última pessoa que sabia contar determinada história fecha os olhos. Não há funeral para a memória perdida. Não existe lápide para aquilo que ninguém mais poderá contar. O que se perdeu simplesmente deixa de ser conhecido. É por isso que ouvir os velhos é também uma forma de salvar o passado. E talvez seja esse um dos maiores ensinamentos de Câmara Cascudo: antes que a memória se transforme em silêncio, é preciso dar-lhe ouvidos.


sábado, 22 de agosto de 2026

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RUA JOÃO PESSOA E O CAOS DE UMA OBRA DESNECESSÁRIA E QUE NÃO TERMINA...

Quem passa atualmente pela Rua João Pessoa, no coração da Cidade Alta, em Natal, tem dificuldade de compreender como uma obra que deveria representar a revitalização de um dos mais importantes espaços históricos da cidade conseguiu transformar-se em um verdadeiro transtorno para a população. INICIADA EM MAIO DE 2023 PELA PREFEITURA MUNICIPAL DE NATAL.

A INTERVENÇÃO JÁ ULTRAPASSA TRÊS ANOS DE RECOMEÇOS E RECOMEÇOS, paralisações, retomadas e novas promessas de conclusão. Nesse intervalo, comerciantes tiveram seus negócios prejudicados, pedestres passaram a disputar espaços improvisados com veículos, motocicletas e materiais de construção, e a circulação tornou-se um exercício permanente de risco. Não são poucos os relatos de pessoas que se machucaram diante das condições precárias de passagem.

Agora, mais uma vez - APROXIMANDO-SE AS ELEIÇÕES -, a obra foi anunciada como reiniciada, com a promessa de que finalmente será concluída até dezembro. É inevitável, diante de tantas interrupções e recomeços, perguntar se estamos diante de um verdadeiro projeto de urbanização pensado para a população ou de mais uma obra que acabou incorporada ao calendário político das administrações, MAS COM GRAVES EQUÍVOCOS.


NATAL JÁ É POBRE DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO, AGORA VÃO TAPAR A VISÃO DE DUAS PEÇAS ARQUITETÔNICAS, TENDO UMA DELAS, MAIS DE 100 ANOS...

E há ainda uma contradição que considero particularmente grave: a revitalização de um espaço histórico deveria valorizar e revelar a arquitetura existente, jamais escondê-la. No entanto, justamente diante dos antigos prédios e de suas fachadas, ergue-se uma gigantesca estrutura metálica - inclusive de péssima qualidade - MATERIAL DE QUINTA CATEGORIA -, destinada a cobrir a rua. A ironia é evidente: aquilo que deveria devolver visibilidade ao patrimônio pode acabar obscurecendo-o. Nas extremidades de ambas as esquinas, há dois imóveis, tendo um deles mais de 100 anos.

Mesmo que a estrutura fosse arquitetonicamente bela, ainda seria legítimo questionar a necessidade de criar um teto sobre uma rua histórica, tapando a visão das edificações que deveriam ser protagonistas da paisagem urbana. É difícil compreender como arquitetos, engenheiros, gestores públicos e os próprios órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio não têm visão diferenciada de descortinar os frontões, ao invés de cobri-los, mas aceitaram uma solução que, na minha visão, agride a lógica de valorização do conjunto histórico.

QUERO, INCLUSIVE, APROVEITAR E SUGERIR AOS VEREADORES DE NATAL QUE DELIBEREM UM PROJETO QUE RETIRE TODAS AS MARQUISES E ELEMENTOS QUE TAPAM OS FRONTÕES DE TODO O CENTRO HISTÓRICO, FAZENDO VALER O QUE SOBROU EM TERMOS DOS ADORNOS ORIGINAIS DAS PAREDES. AINDA SOBROU ALGUMA COISA. ERA PARA SE ARRANCAR TODAS AS MARQUISES. JÁ IMAGINOU VER APENAS AS PAREDES COM OS NOMES ESCRITOS NA PRÓPRIA PAREDE COMO ANTIGAMENTE? VAMOS RESSUSCITAR ATÉ MESMO O QUE CHAMAM DE "OS ABRIDORES DE LETRAS", JÁ MEIO EM EXTINÇÃO PELO FENÔMENO DOS BANNERS...

Revitalizar não deveria significar esconder. Restaurar a vida de uma rua histórica não deveria significar encobrir sua própria história. O que Natal precisa é de uma intervenção que respeite o cidadão, facilite sua circulação, fortaleça o comércio e, sobretudo, permita que seus prédios históricos sejam vistos, admirados e reconhecidos como parte viva da memória da cidade. Onde estão os profissionais de visão diferenciada?

HÉLIO SEREJO: UM MONUMENTO À CULTURA POPULAR SUL-MATO-GROSSENSE...

 

Por mais que estejamos longe do berço onde nascemos, por mais que vivamos onde a cultura popular é bela e rica, a nossa essência bate como um coração quando falamos de cultura popular, de memória e das coisas que dão sentido à nossa identidade. Por isso, como sul-mato-grossense, não poderia deixar passar este mês de agosto sem reverenciar um intelectual que realizou um verdadeiro prodígio: produzir uma gigantesca obra literária capaz de traduzir, com fidelidade, riqueza e abundância, a alma do povo sul-mato-grossense. Falo de HÉLIO SEREJO, escritor, jornalista, poeta, memorialista e folclorista, um dos maiores intérpretes da gente e da terra de Mato Grosso do Sul.

Nascido em Nioaque, em 1º de junho de 1912, Hélio Serejo viveu profundamente ligado ao universo dos ervais, da fronteira e da vida sertaneja. Desde muito cedo conheceu a dureza do trabalho e os homens que faziam daquele território um espaço de sobrevivência, esperança, coragem e convivência. Essa experiência não ficou apenas em sua memória: transformou-se em literatura. O menino que conheceu os caminhos, os ranchos, os ervais e as gentes de sua terra tornou-se, mais tarde, um extraordinário contador da história cotidiana de uma região.


É difícil falar de Hélio Serejo sem experimentar uma espécie de encantamento diante da dimensão de sua produção. São mais de sessenta obras atribuídas à sua trajetória, abrangendo contos, crônicas, poemas, romances, memórias, estudos de costumes, lendas e registros da vida regional. Em 2008, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul reuniu sua produção em nove volumes de Obras Completas, numa publicação monumental que permitiu perceber, de maneira ainda mais clara, a extensão e a unidade de seu legado.

E há algo particularmente extraordinário em sua escrita: o Folclore parece caminhar por dentro de toda a sua obra. Ele não precisa necessariamente anunciar que está escrevendo sobre cultura popular para que ela apareça. O Folclore surge naturalmente, como surge a conversa de um homem do campo, como surge o cheiro da erva-mate, como surge uma história contada no galpão ou uma lembrança evocada à beira do caminho. Está nos costumes, nas crenças, nas comidas, nas festas, nos modos de falar, nos medos, nas superstições, nas lendas, nas relações de trabalho e nas maneiras de compreender a vida.

É simplesmente impressionante perceber como essa presença atravessa livros de naturezas diferentes sem descaracterizá-los. Em Carreteiro de Minha Terra, Ronda Sertaneja, Rincão dos Xucros, Prosa Rude, Canto Caboclo, Vida de Erval, Pelas Orilhas da Fronteira, Palanques da Terra Nativa, Caraí e tantos outros títulos, a cultura popular aparece como uma espécie de fio invisível que costura a produção de Serejo.


Em algumas obras, esse compromisso com a cultura popular se torna ainda mais explícito. É o caso de Lendas da Erva-Mate e Lendas do Estado de Mato Gross do Sul, títulos que revelam o pesquisador atento às narrativas que habitavam o imaginário de sua gente. Em Abusões de Mato Grosso e de Outras Terras (escrito antes da divisão do estado do MT), mergulha no universo das crenças e dos assombros. Em Modismo do Sul de Mato Grosso, registra modos de falar e particularidades linguísticas. Em Vida de Erval e No Mundo Bruto da Erva-Mate, aproxima-nos do universo social e humano dos ervais, tão decisivo para a formação histórica e cultural da região.

Mas talvez uma das maiores grandezas de Hélio Serejo esteja justamente em não separar artificialmente literatura e vida. Ele compreendeu que a cultura de um povo não mora apenas nos grandes acontecimentos históricos. Ela mora também no pequeno gesto, na palavra aparentemente simples, no apelido, na superstição, no prato de comida, na conversa, na festa, no medo, na valentia, na maneira de cumprimentar um amigo e na história contada muitas vezes até adquirir a dimensão de lenda.

Por isso sua obra é, ao mesmo tempo, literatura e documento de uma época. Pesquisadores reconhecem nela um extraordinário patrimônio de memória, capaz de registrar costumes, trabalho ervateiro, alimentação, mitos, lendas, medicina natural, festas e modos de viver da região fronteiriça. E tudo isso é realizado com uma linguagem muito particular, marcada pelo encontro entre o português, o espanhol e o guarani, numa expressão literária que procura reproduzir a riqueza linguística daquela fronteira.

Há, portanto, em Hélio Serejo, um profundo respeito pelo homem simples. Ele não olha para o povo de longe. Ele escreve de dentro, com intimidade. Conhece suas dores, suas alegrias, suas crenças e contradições. Conhece a aspereza da vida nos ervais e a beleza das paisagens. Conhece o silêncio dos caminhos e a força das palavras. E, sobretudo, compreende que aquele homem que muitas vezes não aparece nos livros oficiais também é construtor da História.

Talvez por isso seja tão difícil encontrar uma definição que dê conta de sua importância. Chamá-lo apenas de escritor seria pouco. Dizer que foi apenas folclorista também seria insuficiente. Hélio Serejo foi um guardião da memória sul-mato-grossense. Foi um homem que percebeu, antes que muita coisa desaparecesse, que a cultura popular precisava ser registrada. Sua escrita funciona como uma grande casa onde ficaram abrigadas vozes que poderiam ter sido levadas pelo tempo.

Sua trajetória também é marcada por reconhecimento institucional. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e de outras instituições ligadas à cultura e ao folclore, inclusive organizações de outros países. Sua produção alcançou uma dimensão que ultrapassou as fronteiras regionais, embora tenha permanecido profundamente enraizada no chão de onde veio.

Hélio Serejo morreu em Campo Grande, em 8 de outubro de 2007, aos 95 anos. Mas há homens que não morrem inteiramente porque continuam vivendo naquilo que deixaram. Serejo permanece nas palavras que escreveu, nas histórias que registrou, nos personagens que criou, nos costumes que preservou e, sobretudo, na possibilidade que nos oferece de reencontrarmos uma parte de nós mesmos quando abrimos seus livros. No dia de hoje o meu coração viaja para longe...



sexta-feira, 21 de agosto de 2026

BARÔNCIO GUERRA E A MEMÓRIA DOS CINCO PEIXOTOS EXPEDICIONÁRIOS - HEROIS DA GUERRA DO PARAGUAI.

MEU TIO TRISAVÔ MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORDEIRO PEIXOTO, AOS 100 ANOS, EXPEDICIONÁRIO QUE PARTICIPOU DA GUERRA DO PARAGUAI, SENDO HOMENAGEADO POR GETÚLIO VARGAS EM 1940 EM BELÉM/PA.

O artigo “Álbum e cronologia da vida de Barôncio Guerra”, de Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro Furtado de Mendonça e Menezes, ambos sócio efetivos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, publicado na Revista Galo, n. 7, ano 4, constitui uma importante contribuição para a compreensão da vida de Barôncio de Brito Guerra e, ao mesmo tempo, do ambiente histórico, cultural e intelectual do Rio Grande do Norte nas primeiras décadas do século XX. O trabalho foi elaborado a partir de fotografias, jornais, revistas, almanaques, correspondências e outras fontes reunidas em arquivos públicos e privados, com o propósito de estabelecer uma cronologia capaz de acompanhar a trajetória de Barôncio e, por meio dela, recuperar aspectos da própria história de Natal.

Os autores ressaltam que Barôncio Guerra, nascido em Triunfo, no Rio Grande do Norte, em 1882, teve uma vida estreitamente ligada à capital potiguar, onde exerceu exerceu numerosas atividades, como funcionário da repartição de Melhoramentos do Porto, agente da Caixa Paulista de Pensões, empresário, jornalista, advogado, delegado e chefe do comando do Batalhão de Polícia, além de ter sido músico, escritor e participante ativo da vida cultural da cidade. Sua existência, como observam os autores, praticamente se confunde com a própria vida de Natal de seu tempo. Apreciando esse importante material encontramos – dentre diversos temas distintos – os cinco potiguares que participaram da Guerra do Paraguai, os quais são todos da minha família. Encontra-se exatamente em uma passagem da cronologia correspondente ao ano de 1930. Ele também cita mais dois expedicionários, os quais não são da minha família.

Biblioteca Nacional

Os autores informam que, naquele período, Barôncio Guerra escreveu uma série de perfis sobre figuras de Campo Grande, publicados no jornal A Republica. A iniciativa teria ocorrido em resposta a uma provocação do prefeito de Natal, Omar O'Grady, dirigida ao Instituto Histórico. O dado ganha especial relevância porque os nomes dos personagens foram posteriormente preservados por Yapery Yupiassu, filho de Barôncio, que enumerou aqueles sobre os quais o pai havia escrito. Entre os sete personagens relacionados, encontram-se Alferes Antonio Martins Corrêia, Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa e Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro – que são meus tios-trisavôs –, ao lado do Alferes Joaquim Castriciano de Brito e do Soldado Francisco Justiniano de Melo. É justamente nesse conjunto que reencontramos os cinco expedicionários que constituem objeto central de nossa investigação.

O registro possui importância especial porque revela que esses homens, cuja juventude havia sido marcada pela Guerra do Paraguai, continuavam presentes na memória histórica potiguar muitas décadas depois do conflito. Não estamos diante, portanto, de uma simples relação de militares. Barôncio Guerra os reuniu no contexto de uma série dedicada às figuras de Campo Grande, procurando recuperar personagens que, por suas trajetórias, haviam adquirido lugar na memória daquela antiga localidade. A presença simultânea de cinco expedicionários nessa relação é particularmente expressiva. Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro e Alferes Antonio Martins Correia passam a ser vistos, nesse documento, não apenas como homens ligados à Guerra do Paraguai, mas como integrantes de uma geração de personagens cuja lembrança permanecia vinculada à história de Campo Grande. O artigo, embora não reproduza os perfis originais escritos por Barôncio, confirma sua existência e identifica nominalmente os personagens que foram objeto daquela iniciativa memorialística.

Essa informação precisa ser compreendida dentro da própria trajetória intelectual de Barôncio Guerra. O artigo mostra que ele não se limitava à atividade jornalística, à advocacia ou à intensa vida social e cultural de Natal. Desde cedo demonstrava interesse pelo passado do Estado. Em 1908, por exemplo, ao registrar sua participação na vida musical natalense, o texto também o apresenta como alguém que estudava e pesquisava a história do Rio Grande do Norte. Essa inclinação ajuda a compreender a iniciativa de 1930. Barôncio já era então uma figura madura, com ampla experiência na imprensa e na vida pública, e voltou sua atenção para personagens da antiga Campo Grande, procurando registrar suas trajetórias em perfis publicados em A República. Sua atividade deve ser vista, portanto, como parte de um esforço mais amplo de preservação da memória histórica potiguar, desenvolvido por meio da imprensa e relacionado ao ambiente intelectual do Instituto Hist´rico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Há ainda um aspecto territorial que não pode ser desprezado. O artigo explica, em nota, a sucessão das denominações de Campo Grande, Triunfo e Augusto Severo, mostrando que a localidade passou por transformações administrativas e toponímicas ao longo do tempo. Campo Grande foi a denominação inicial; posteriormente, a localidade recebeu o nome de Triunfo e, mais tarde, Augusto Severo. A nota esclarece que Triunfo foi adotado em 1858 e que a denominação Augusto Severo constituiu homenagem ao grande amigo do chefe político Luís Pereira Tito Jacome, morto na explosão do dirigível Pax, em Paris, em 1902. Essa observação é importante para o nosso estudo porque ajuda a compreender as diferentes referências territoriais encontradas na documentação relativa aos expedicionários. Os homens que estamos estudando pertencem a uma realidade histórica anterior às denominações posteriores e, por isso, suas biografias podem aparecer em fontes diferentes associadas a Campo Grande, Triunfo ou Augusto Severo.

É nesse cenário que a figura do Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto adquire particular relevo. Seu nome aparece explicitamente entre os personagens de Campo Grande sobre os quais Barôncio Guerra escreveu. Para o presente estudo, essa informação possui grande significado, pois confirma que Cornélio não foi lembrado apenas por sua carreira militar ou por sua participação na Guerra do Paraguai. Sua trajetória permaneceu vinculada à memória histórica de Campo Grande, chegando à produção intelectual de Barôncio Guerra já na década de 1930. O artigo não fornece, nesse trecho, detalhes sobre sua carreira militar, sua atuação no conflito ou os acontecimentos posteriores de sua vida; não seria, portanto, correto atribuir ao texto informações que ele não apresenta, embora isso pode ser encontrado num texto recente que escrevi sobre cinco parentes meus, expedicionários da Guerra do Paraguai: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: MAJOR MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORDEIRO PEIXOTO: HERÓI DA GUERRA DO PARAGUAI - O FILHO DO RIO GRANDE DO NORTE QUE ATRAVESSOU A HISTÓRIA DO BRASIL O que o documento efetivamente confirma é que Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto foi escolhido por Barôncio como uma das figuras históricas de Campo Grande merecedoras de um perfil publicado em A República. Leia também outra matéria que trata sobre os mesmos personagens: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: REVELAÇÕES DO DIÁRIO DE ANTONIO MARTINS CORREIA PEIXOTO: QUANDO A PESQUISA HISTÓRICA REENCONTRA A MEMÓRIA DA FAMÍLIA...

O mesmo ocorre com os demais expedicionários. Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa e Alferes Antonio Martins Corrêia aparecem associados a Cornélio na mesma relação. O valor documental desse agrupamento é justamente a possibilidade de enxergar os cinco homens dentro de uma mesma tradição de memória. Embora suas trajetórias individuais tenham sido diferentes, todos foram recuperados por Barôncio Guerra como personagens ligados à antiga Campo Grande. Para uma investigação que busca reconstruir a participação dos potiguares na Guerra do Paraguai, essa coincidência é extremamente significativa. Ela demonstra que a experiência desses homens não desapareceu com o fim da guerra nem com o passar das gerações. Ao contrário, seus nomes continuaram disponíveis na memória local e puderam ser retomados, décadas mais tarde, por um pesquisador e jornalista interessado em registrar os personagens que haviam contribuído para a história de sua terra.

A própria circunstância de os perfis terem sido escritos na década de 1930 merece atenção. A Guerra do Paraguai havia terminado havia aproximadamente seis décadas. Já pertenciam ao passado os acontecimentos militares que haviam levado aqueles homens aos campos de batalha, e uma nova geração de potiguares começava a olhar para eles como personagens históricos. Barôncio Guerra pertence justamente a essa geração posterior. Ao recuperar suas figuras, ele estabelece uma ligação entre o século XIX, vivido pelos expedicionários, e o século XX, no qual a memória deles começava a ser transformada em registro histórico. É como se, através da escrita, Barôncio procurasse impedir que aquela geração desaparecesse inteiramente da lembrança coletiva. Esse gesto é de uma nobreza admirável, pois com certeza absoluta ele teve papel importante para que a memória desses meus cinco tios-bisavós não desaparecesse no tempo. Seus perfis, publicados em jornal, representavam uma maneira de devolver à sociedade os nomes de homens que haviam participado de momentos importantes da formação histórica do Estado e do país.

O artigo de Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro adquire – com igual valor – uma importância que ultrapassa a própria biografia de Barôncio Guerra. Ao reconstruírem sua vida, os autores acabam encontrando essa pequena, mas preciosa janela para a história dos cinco expedicionários. A cadeia documental é reveladora: Barôncio escreveu os perfis; seu filho Yapery Yupiassu preservou a relação dos personagens sobre os quais o pai havia escrito; décadas depois, os pesquisadores recuperaram essa informação ao estudar a vida de Barôncio. Agora, essa mesma referência retorna à investigação sobre os expedicionários da Guerra do Paraguai. Cada geração, de certa maneira, acrescentou uma nova camada à memória desses homens, fazendo com que seus nomes atravessassem o tempo. Isso reforça a ideia sobre o valor da História. Digo isso porque desde criança ouvia minha mãe falar que o seu tio-avô, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, havia participado da Guerra do Paraguai, mas eu não sabia nada mais que isso. Passei anos pesquisando, publiquei recentemente o texto acima e, nos últimos dias, como um algoritmo, as coisas vêm aparecendo incrivelmente, inspirando-me a escrever novos textos com novas abordagens sobre esses cinco parentes que me orgulham.

É preciso, entretanto, estabelecer com precisão os limites da fonte. O artigo da Revista Galo não transcreve os perfis de Barôncio Guerra sobre os cinco expedicionários. Ele apenas informa que esses textos existiram e identifica os personagens. Por isso, as informações biográficas mais amplas que já possuímos sobre esses cinco expedicionários da mesma família devem ser sustentadas pelas demais fontes que integram nossa pesquisa, e não atribuídas indevidamente a este artigo. O verdadeiro valor dessa publicação está em apontar para uma fonte primária ainda não explorada neste documento: os próprios textos publicados por Barôncio em A República. Encontrá-los poderá representar um avanço considerável, pois permitirá conhecer não apenas os nomes, mas a maneira como um intelectual potiguar da primeira metade do século XX interpretou e apresentou esses antigos combatentes.

A passagem da Revista Galo constitui, portanto, uma referência que merece ser incorporada ao estudo dos cinco expedicionários. Ela confirma que Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro e Alferes Antonio Martins Corrêia pertenciam à memória histórica de Campo Grande e que suas trajetórias foram consideradas dignas de registro por Barôncio Guerra. Mais do que isso, a fonte permite perceber que a lembrança desses homens ultrapassou o círculo familiar e militar e alcançou a imprensa e a produção intelectual potiguar. Quando Barôncio os recupera, na década de 1930, ele não está apenas recordando soldados de uma guerra distante; está trazendo novamente à luz personagens de uma geração que havia participado de acontecimentos fundamentais da história brasileira. E é precisamente essa permanência da memória que torna a referência tão importante para o este estudo.

O próximo passo, naturalmente, será buscar os perfis originais publicados por Barôncio Guerra em A República. Se encontrados, eles poderão constituir uma fonte de primeira grandeza para a reconstrução das trajetórias dos cinco expedicionários, permitindo comparar aquilo que Barôncio escreveu na década de 1930 com os documentos militares, registros familiares, jornais e demais fontes que já vêm sendo reunidos nesta pesquisa. O artigo de Sobral e Pignataro, nesse sentido, não encerra a investigação: ao contrário, abre uma porta. E talvez seja justamente atrás dessa porta que estejam algumas das mais importantes informações ainda não localizadas sobre esses cinco homens que, saídos do Rio Grande do Norte, atravessaram a história da Guerra do Paraguai e permaneceram, décadas depois, na memória de sua terra. Reitero: História é isso, o que pode começar com história oral – como foi o caso da informação da minha mãe – termina em material escrito: fato.

Referência: SOBRAL, Gustavo; MENDONÇA E MENEZES, André Felipe Pignataro Furtado de. Álbum e cronologia da vida de Barôncio Guerra. Revista Galo, Natal, n. 7, ano 4, p. 69-89. Recebido em 20 jul. 2022. Aprovado em 16 dez. 2022. A passagem relativa aos perfis das figuras de Campo Grande encontra-se na p. 82 da revista, correspondente à p. 14 do PDF disposto na internet. O artigo informa, ao final, que os autores consultaram jornais, revistas, almanaques, publicações do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, arquivos e coleções particulares, tendo desenvolvido a pesquisa e a redação ao longo de 2021 e 2022.

 


“SEU CASCUDO, TEM UM HOMEM AQUI FORA!”

Imagem apenas inspirada na história, sem compromisso com a fidelidade, gerada por IA.

Há histórias que parecem pequenas demais para serem contadas. Duram alguns segundos, caberiam facilmente entre uma porta e uma escadaria, entre duas vozes lançadas de um cômodo a outro. E, no entanto, algumas dessas histórias possuem uma espécie de eternidade. Ficam na memória porque, por trás do riso, carregam alguma coisa muito maior: revelam o homem, o ambiente em que viveu, a maneira como se relacionava com as pessoas e, sobretudo, uma época que não volta mais. Foi Daliana Cascudo Roberti Leite, neta de Câmara Cascudo quem me contou, certa vez, uma dessas histórias deliciosamente simples sobre seu avô, Luís da Câmara Cascudo. E nunca mais a esqueci. Daliana, herdeira da genética espirituosa da mãe e do avô, conta, encantando. 

Na casa de Cascudo, havia aquela atmosfera que só as casas verdadeiramente vividas conseguem guardar. O movimento das pessoas, a intimidade dos que ali trabalhavam, as conversas que atravessavam os cômodos, os visitantes que chegavam de todos os lugares e, no centro de tudo, aquele homem extraordinário, sentado em seu gabinete, cercado de livros, papéis, lembranças, documentos e ideias.

Cascudo estava em seu gabinete, logo na entrada da casa. Em determinado momento, alguém bateu palmas no portão. Uma das empregadas da casa foi atender. Era uma mulher simples, dessas criaturas que a vida aproxima dos outros sem cerimônia. E talvez aí esteja uma das características mais encantadoras do Nordeste: a espontaneidade. O nordestino, muitas vezes, não precisa de grandes formalidades para transformar um desconhecido em conhecido e, em pouco tempo, um conhecido em amigo. A conversa se estabelece, a distância desaparece e, quando se percebe, já existe uma intimidade que não precisou de convite.

Com aquela mulher acontecia exatamente isso. E havia ainda um detalhe: eram muitos anos trabalhando naquela casa. E trabalhar durante tantos anos na residência de quem? De Luís da Câmara Cascudo! A convivência havia dissolvido qualquer solenidade. Por isso, quando percebeu que havia um homem esperando do lado de fora, ela não achou necessário caminhar até o gabinete para avisar pessoalmente. Afinal, Cascudo estava ali perto. E, mais do que isso, tinha excelente audição. Ela simplesmente subiu um pouquinho a escadaria e, sentindo-se inteiramente em casa, chamou:

“SEU CASCUDO! SEU CASCUDO! TEM UM HOMEM AQUI FORA!”

E então aconteceu o que somente Cascudo poderia fazer. Com aquela instantaneidade de raciocínio que lhe era tão característica, sem perder um segundo sequer, ele respondeu:

“DIGA PARA ELE QUE TAMBÉM TEM UM HOMEM AQUI DENTRO!”

E está contada a história. É engraçada, aparentemente banal, quase doméstica demais. Mas talvez seja justamente aí que resida a sua grandeza. Porque, naquele breve diálogo, há um pouco de tudo o que sempre me encantou em Câmara Cascudo: a rapidez mental, o humor, a irreverência, a inteligência espontânea e aquela capacidade extraordinária de transformar uma situação corriqueira numa pequena obra de espírito.

A empregada viu um homem do lado de fora. Cascudo viu a oportunidade de fazer uma graça. E nós, tantos anos depois, podemos enxergar muito mais: podemos entrever o homem por trás do monumento, o escritor por trás do nome consagrado, o intelectual que, apesar de toda a sua grandeza, continuava sendo simplesmente “Seu Cascudo”, chamado aos gritos do alto de uma escadaria. É isso que me encanta nessa história. Porque às vezes conhecemos os grandes homens através de seus livros, de seus discursos, de seus retratos, das biografias e dos monumentos. Mas é em histórias assim, pequenas e quase domésticas, que eles verdadeiramente se humanizam.

Como eu queria ter conhecido Cascudo!

Digo isso com uma ponta de lamento, porque existem pessoas que parecem pertencer a um tempo que gostaríamos de ter alcançado. Pessoas que, embora já não estejam entre nós, continuam povoando os lugares onde viveram. Seus livros permanecem nas estantes, suas fotografias nas paredes, seus objetos sobre as mesas. E, de algum modo misterioso, a presença continua.

Mas confesso que, de certa maneira, tive o privilégio de conhecê-lo através de sua filha, Ana Cascudo, da qual apanhei algumas pérolas. Tive o gosto de conhecer uma mulher que carregava consigo uma herança muito maior do que um sobrenome ilustre. Quanto mais culta, mais simples. Quanto mais conhecedora, mais atenta. Quanto mais importante, mais disponível. Havia nela consideração, delicadeza, respeito e uma generosidade que não fazia esforço para aparecer. Era um amor de pessoa. Quando Ana Cascudo morreu, senti uma tristeza diferente. Foi como se, naquele momento, não estivesse partindo apenas uma pessoa querida, mas se fechando uma biblioteca inteira. Uma biblioteca viva, cheia de lembranças, histórias, afetos, conhecimentos e memórias que atravessaram gerações. E, ao mesmo tempo, partia um ser humano tremendamente útil à humanidade.

Mas talvez as bibliotecas verdadeiramente importantes não desapareçam quando suas portas se fecham. Ficam nos outros, nos ensinamentos que transmitiram e sobretudo, impregnadas de uma presença que o tempo não consegue apagar.

Por isso, quando penso naquele casarão, percebo o quanto suas paredes ainda guardam muito de Cascudo e de sua família. Talvez seja o silêncio dos livros. Talvez sejam as vozes antigas atravessando os corredores. Talvez seja a memória de tantas pessoas que ali chegaram e saíram levando consigo um pouco daquela casa. E talvez, se prestarmos atenção, ainda seja possível ouvir, em algum recanto da memória, uma voz chamando:

“SEU CASCUDO! SEU CASCUDO! TEM UM HOMEM AQUI FORA!”

E, logo em seguida, como se o tempo não tivesse passado, venha a resposta, rápida, espirituosa, absolutamente cascudiana:

“DIGA PARA ELE QUE TAMBÉM TEM UM HOMEM AQUI DENTRO!”

É por histórias assim que os grandes homens deixam de ser apenas nomes. Cascudo não está somente nos livros que escreveu. Está também na gargalhada que provocou, na resposta que ninguém esperava, na empregada que se sentia tão à vontade naquela casa que podia gritar por ele da escadaria, na filha que herdou a cultura sem perder a simplicidade e, sobretudo, nas pessoas que continuam contando suas histórias. E é por isso que hoje, tantos anos depois, ainda sinto que aquele homem continua lá. Não exatamente no gabinete Ou atrás dos livros, Mas dentro da memória. E, enquanto houver quem conte suas histórias, haverá sempre um pouco de Cascudo dentro da casa.