ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O FOLCLÓRICO PENTEADO DE NÍSIA FLORESTA...

 

Imagem feita por Inteligência Artificial, baseada no retrato, mas essa não é Nísia Floresta. É apenas uma brincadeira alusiva à reflexão do texto.

FOLCLORE TAMBÉM É HUMOR...

Imagine que você passe por este mundo e deixe apenas uma fotografia. Agora imagine que essa fotografia, fatalmente, seja aquela do dia em que você participou do “Dia do Cabelo Doido” da sua escola, ou aquela fotografia de Carnaval em que você aparece coberto de spray colorido, purpurina e sabe Deus mais o quê. Enfim, imagine que só exista essa fotografia sua. Você morre, passam-se décadas, você se torna uma pessoa famosa e aquela única fotografia começa a ser reproduzida, desenhada, pintada, esculpida e reinterpretada. De repente, sua infância, adolescência, mocidade, maturidade e velhice passam a ser representadas exatamente com aquele mesmo cabelo. É mais ou menos isso que acontece com Nísia Floresta.

Antes de adentrarmos nessa seara capilar, porém, faço uma ressalva: trago esta reflexão para a gente desopilar um pouco e rir da situação do que para transformar o penteado de Nísia numa questão de Estado. Afinal, agosto é mês do folclore e, se o folclore tamb´m é aquilo que fazemos, repetimos e transmitimos sem perceber, talvez já seja hora de reconhecer uma das mais persistentes tradições iconográficas do Rio Grande do Norte: o folclórico penteado de Nísia Floresta. 

Você já reparou? Num evento infantil, quando alguém representa Nísia Floresta, lá vem ela: cabelos com tantos cachos que mais parecem um espiral, uma mola de colchão, uma colmeia capilar ou uma sentinela especialmente treinada para espantar pernilongos. A Nísia Floresta adolescente só muda no corpo. Os cabelos foram transplantados. Quando saltamos para a Nísia Floresta já madura, lá estão novamente os cachos, firmes e vigorosos tais quais os da menina. E, como se não bastasse, mais adiante aparece a Nísia idosa, de cabelos grisalhos, mas, pasme, tão cacheada quanto durante toda a vida. É gostar de cachos demais!

E olha que as mulheres são muito vaidosas. Até mesmo as intelectuais, por mais ocupadas que estejam escrevendo livros, discutindo ideias, viajando pela Europa ou enfrentando os preconceitos de seu tempo, não costumam declinar de suas vaidades por menores que sejam. Por isso, permitam-me uma pergunta absolutamente impertinente: será que Nísia Floresta passou setenta e cinco anos usando exatamente o mesmo penteado? Setenta e cinco anos! No Brasil, na França, na Alemanha, na Grécia, na Itália, na Inglaterra, em Portugal e por onde mais tenha andado? Será que nunca olhou para uma vitrine parisiense e pensou: “Minha Nossa Senhora, preciso mudar esse cabelo”?

Paris era a capital da moda. E moda, naquela época, como hoje, não tinha compromisso algum com a eternidade. Mudavam-se vestidos, chapéus, luvas, acessórios, golas, mangas, saias e, evidentemente, os cabelos. Ora aparecia um coque. Ora cabelos presos de outra maneira. Ora cachos. Depois vinham outras ondulações, outros penteados e novas maneiras de arrumar a cabeça. Portanto, enquanto a Europa inteira trocava o cabelo, será que Nísia permanecia fiel aos seus cachos como quem permanece fiel ao casamento? Teria sido um penteado congelado no tempo? Um amor capilar até que a morte os separasse?

Então, o que teria feito Nísia Floresta resistir heroicamente durante toda a vida aos seus famosos cachos? Teria ela amado platonicamente aqueles cabelos? Teria feito um pacto de fidelidade com o pente? Teria dito à cabeleireira: “Pode fazer qualquer coisa, desde que tenha cachos”? Ou será que o problema não está em Nísia, mas em nós? Talvez os artistas e retratistas que vieram depois tenham encontrado uma imagem tão forte de Nísia que simplesmente não conseguiram imaginá-la de outra maneira. Uma vez consolidado o rosto, consolidou-se também o cabelo. E, a partir daí, começou uma espécie de moda retroativa. Pegamos um penteado que pode ter sido usado por Nísia em determinado momento de sua vida e o colocamos na cabeça da menina. Depois colocamos na cabeça da adolescente. Depois na cabeça da mulher adulta. Depois na cabeça da senhora. E pronto! Está criada a Nísia Floresta de penteado vitalício.

Deem uma olhada nos livros. Você verá a Princesa Isabel, a Imperatriz Tereza Cristina, Dona Leopoldina, a Marquesa de Santos e tantas outras mulheres com os mais variados penteados, mas Nísia Floresta, não. Engessaram o seu cabelho. É quase como se alguém tivesse decretado: daqui para a frente, esta mulher não muda mais de cabelo! A menina nasce cacheada, a adolescente permanece cacheada, a mulher amadurece cacheada e a senhora envelhece cacheada e morrerá cacheada. Só faltou alguém representar Nísia no leito de morte perguntando ao médico: “Doutor, ela está bem?” E o médico responder: “Ela está. Mas os cachos continuam firmes”.

Em 2024, quando escrevi um espetáculo de aproximadamente uma hora e quarenta minutos sobre Nísia Floresta, confesso que já estava traumatizado com aqueles horrorosos espirais. Sugeri à equipe técnica que priorizasse penteados diferentes justamente para romper com essa espécie de condenação capilar. Eu queria libertar Nísia dos cachos. Queria devolver-lhe o direito de mudar de cabelo. Afinal, se até nós, pessoas comuns, conseguimos ter uma fotografia com um cabelo na infância, outra na adolescência, outra na juventude e outra na velhice, por que Nísia, logo Nísia, teria de passar pela vida inteira com o mesmo penteado?

Porque, se a história de uma mulher é longa, sua cabeça também tem direito à história. É muito provável que Nísia tenha usado penteados com cachos. Afinal, o Brasil sempre esteve muito atento à moda francesa e os famosos cachos em anéis, aqueles cachos tubulares e bem definidos, realmente fizeram parte de determinados períodos da moda feminina. O problema não está, portanto, em representar Nísia com cachos. O problema é transformar os cachos em patrimônio permanente do couro cabeludo nisiano. É quase uma tombamento capilar. Ninguém mais pode mexer. Não se pinta, não se penteia, não se solta, não se prende. Está tombado pelo patrimônio histórico.

Nísia não nasceu necessariamente com aquele penteado. Nísia não morreu necessariamente com aquele penteado. E, entre uma coisa e outra, convenhamos, muita água passou por baixo da ponte. É bem possível que tenha mudado de penteado. Que tenha prendido os cabelos. Que tenha usado coque. Que tenha experimentado outras formas de arrumá-los. Que tenha acompanhado, como qualquer mulher de seu tempo, as transformações da moda. Afinal, uma mulher que atravessou décadas, países e transformações culturais provavelmente não passou a vida dizendo ao espelho: “Hoje vou fazer exatamente o mesmo cabelo de 1815”.

Mas nós fizemos algo curioso: congelamos Nísia. Não apenas no tempo, mas também no penteado. E isso é particularmente interessante quando pensamos que ela foi justamente uma mulher que não aceitou ficar parada no tempo. Nísia viajou, escreveu, rompeu convenções, discutiu educação, defendeu ideias que estavam muito à frente de seu tempo e transitou por diferentes ambientes culturais. Sua vida foi movimento. Seu cabelo, entretanto, parece ter recebido ordem de permanecer no mesmo lugar. Talvez seja esse o verdadeiro folclore da história. A imagem foi repetida tantas vezes que passou a parecer verdade absoluta. Crianças aprendem assim. Ilustrações reproduzem assim. Representações teatrais repetem assim. Desenhos copiam os desenhos anteriores. E, pouco a pouco, aquilo que era apenas uma representação artística transforma-se numa espécie de documento. E eis que Nísia, menina, adolescente, adulta e idosa, atravessa dois séculos com o mesmo penteado. Se isso não é folclore, já não sei mais o que é!

Mas há uma lição interessante escondida nessa brincadeira. Toda imagem histórica precisa ser interrogada. Não basta perguntar quem é a pessoa retratada. É preciso perguntar quando aquela imagem foi produzida, quem a produziu, em que época, com quais referências e sob quais padrões estéticos. Porque até o cabelo conta história. A moda muda. Os penteados mudam. As mulheres mudam. E Nísia Floresta, que passou a vida inteira enfrentando mudanças, certamente não merece que nós a condenemos a uma eterna prisão de cachos ao modo espiral.

E talvez seja justamente aí que esteja a graça. Nós, que tanto gostamos de falar de Nísia como mulher moderna, independente, viajante, escritora e intelectual, acabamos fazendo com sua cabeça exatamente o contrário: transformamos seu penteado numa espécie de peça de museu. A mulher pode viajar para a França, publicar livros, discutir educação, desafiar costumes e atravessar oceanos. O cabelo, não. O cabelo fica em Papary. Portanto, neste agosto, mês do folclore, proponho uma pequena revolução. Da próxima vez que alguém representar Nísia Floresta, não perguntem apenas: “Onde estão os cachos?” Perguntem também: “Em que ano estamos?” Se for Nísia menina, talvez um penteado. Se for adolescente, outro. Se for adulta, quem sabe um coque. Se for uma senhora, talvez cabelos mais naturais, presos ou simplesmente diferentes. E se aparecer uma Nísia idosa com exatamente o mesmo cabelo da menina, não se assustem. Talvez não seja Nísia. Talvez seja apenas o nosso folclórico penteado de Nísia Floresta.

E, pensando bem, talvez esteja na hora de deixar a nossa grande escritora finalmente mudar de cabelo. Ela merece. Depois de enfrentar preconceitos, atravessar países, escrever livros e desafiar convenções, acho que o mínimo que podemos fazer é permitir que ela escolha outro penteado. Afinal, Nísia já foi suficientemente revolucionária para mudar muita coisa no mundo. Só falta agora alguém revolucionar seus cabelos.


AGOSTO, O MÊS EM QUE AS PALAVRAS SAEM DE CASA...


Imagem criada por IA

Agosto chega e, com ele, aquela velha lembrança de que temos um mês para falar de folclore, como se o folclore tivesse calendário, hora marcada e pudesse, durante trinta e um dias, sair de algum baú empoeirado, vestir sua melhor roupa, dançar uma ciranda diante de nós e depois voltar para o lugar de onde veio. Eu, particularmente, nunca consegui enxergar o folclore assim. Talvez porque, cresci ouvindo minha mãe contando os festejos que meu avô realizava na Fazenda Catolé de Fátima, aqui no Rio Grande do Norte. Toda a minha ancestralidade está no Rio Grande do Norte. Meus pais nasceram aqui, mas tendo migrado para a terra do Pantanal em 1953, perderam grande parte dos hábitos potiguares. Minha mãe, hoje com 95 anos de idade, não preservou suas tradições nem mesmo na culinária norte-rio-grandense, exceto seus doces de laranja da terra, de maneira que, tendo nascido nas terras de Manoel de Barros, eu e meus irmãos fomos formatados ao modo sul-mato-graossense. Sei que ainda aprendi com ela expressões como “malamanhado” e “amufambado”, palavras desconhecidas pelo povo sul-mato-grossense e que era para nós uma espécie de dialeto.

E então, desde que comecei a caminhar pelas veredas de Nísia Floresta, descobri que o folclore não mora nos livros, embora também esteja neles; não mora nos museus, embora possa ser encontrado neles; não mora exclusivamente nas festas, nos cantos, nas danças ou nas lendas, embora tudo isso seja profundamente folclórico.  O folclore mora sobretudo naquilo que fazemos sem perceber que estamos fazendo. Está na palavra que uma avó repete, no jeito que um agricultor chama determinada ferramenta, na expressão que uma mãe usa para repreender o filho, na receita que passa de uma mão para outra, no apelido que atravessa décadas, na maneira de contar uma história, na forma de rir, de xingar, de cumprimentar, de despedir-se, de pedir licença, de benzer uma criança, de explicar uma doença, de inventar uma desculpa. Está, inclusive, naquele sujeito que diz “vou chegando” justamente quando está indo embora, deixando para trás uma das mais deliciosas contradições da nossa língua. E foi justamente aí, nas palavras, que acabei encontrando uma das maiores manifestações do nosso folclore.

Quando iniciei, em 1992, a pesquisa sobre a linguagem no Rio Grande do Norte, eu não imaginava onde estava me metendo. Eu apenas morava em Nísia Floresta e, como todo recém-chegado que presta atenção, comecei a perceber que as pessoas falavam de maneira diferente da minha. Eu vinha do Mato Grosso do Sul, carregando outro sotaque, outras palavras, outros significados e outras maneiras de organizar a fala. Minha primeira vinda para cá deu-se de ônibus, e quando eu ainda estava chegando ao Nordeste, que um menino de cinco anos chamado Heitor sentou-se perto de mim e, sem saber, tornou-se meu primeiro professor e foi ele que despertou um dicionário que futuramente criei sobre a linguagem no Rio Grande do Norte. Ele falava “painho”, “mainha”, “vôti”, “arrochado”, “capei o gato”, “mó d’eu”, “torou”, “é chão!”, e eu, encantado com aquilo que para ele era simplesmente o modo natural de falar, abri minha agenda e comecei a anotar. Eu não sabia, naquele instante, que aquelas palavras seriam a primeira pedra de uma obra que me acompanharia por d´cadas. O menino provavelmente nem se lembra de mim. Talvez jamais tenha imaginado que suas palavras, ditas espontaneamente durante uma viagem sobreviveriam numa velha agenda e, depois, em centenas de páginas. Mas é assim que a cultura acontece. Ela não avisa quando está sendo criada. Ela simplesmente acontece.

Foi também assim que aprendi que pesquisar cultura popular é, antes de tudo, aprender a olhar e a ouvir. Não basta chegar com um livro debaixo do braço e perguntar às pessoas quais são as palavras antigas de sua cidade, porque muitas vezes elas não saberão responder. A palavra popular não gosta de ser interrogada. Ela aparece quando quer. Ela escapa no meio da conversa, vem escondida numa história, surge durante uma receita, salta da boca de um agricultor enquanto ele trabalha. Foi por isso que durante anos carreguei comigo lápis, agendas, papéis, cadernos e qualquer coisa que pudesse servir de suporte para uma anotação. Escrevi palavras em pedaços de papel, em capas de caderno, nas mãos e até na roupa. Uma vez, ouvi uma palavra e tive de anotá-la discretamente num muro para depois voltar e copiá-la. Em outra ocasião, conversando com um velho agricultor no meio da roça, ouvi uma expressão que poderia desaparecer da minha memória antes que eu chegasse em casa. Então escrevi no próprio chão. Corri para buscar papel e caneta, voltei à roça e copiei. Pode parecer exagero, mas quem pesquisa a cultura sabe que aquilo que não se registra pode desaparecer em segundos, principalmente quando é inédito (para você) A pessoa que pronunciou a palavra talvez nunca mais a pronuncie da mesma maneira; e se perguntarmos depois “como era aquela expressão que o senhor disse?”, provavelmente ela já terá ido embora. A cultura popular é assim: enquanto a gente pensa se deve anotar, ela pode estar morrendo.

Talvez seja justamente por isso que eu não consiga separar folclore de linguagem. Para mim, a palavra popular é um objeto folclórico de extraordinária importância, porque carrega dentro dela uma história que muitas vezes ninguém escreveu. Uma palavra pode revelar a origem de uma família, o contato entre povos, uma transformação social, uma antiga profissão, uma brincadeira infantil, uma crença, uma doença, uma característica do ambiente ou simplesmente a criatividade de alguém que, um dia, resolveu dizer uma coisa de maneira diferente e foi compreendido. O povo pega a língua, põe no bolso e sai andando com ela. Não pede licença ao gramático, não consulta o dicionário e não pergunta se determinada construção é bonita. Ele precisa comunicar-se. E, nessa necessidade, inventa, corta, acrescenta, troca sons, engole sílabas, transforma significados, cria metáforas, exagera, compara, brinca e, principalmente, faz-se entender. É por isso que nunca consegui chamar essas palavras de “erradas”. O erro, nesse caso, muitas vezes está no nosso olhar. Quando alguém diz “peitchu” em vez de “peito”, “mulé” em vez de “mulher”, “ramo” em vez de “vamos”, “rou” em vez de “vou”, ou “entonce” em vez de “então”, não está necessariamente destruindo a língua. Está utilizando uma língua que recebeu, modificou e devolveu ao mundo com a sua própria marca. E isso também é cultura.

Ao longo dos anos fui descobrindo que cada povoado, cada família e, às vezes, cada casa possui pequenas particularidades linguísticas. Algumas palavras são conhecidas por toda a cidade; outras vivem restritas a duas ou três famílias. Algumas estão vivíssimas; outras parecem respirar por aparelhos, esperando que a última pessoa que as conhece as pronuncie pela última vez. Há palavras que os jovens já não entendem e há expressões que as crianças ainda aprendem com os avós, mas deixam de usar na escola porque alguém riu delas. Isso me preocupa mais do que qualquer palavra estrangeira que apareça numa placa comercial. A língua sempre recebeu influências. O português brasileiro nasceu justamente dessa capacidade de absorver, transformar e recriar. O problema não está em mudar. O problema está em acreditar que mudar significa necessariamente apagar. Quando uma criança deixa de dizer uma palavra porque alguém a chamou de matuta, não estamos diante de uma simples alteração linguística. Estamos diante de uma pequena violência cultural. Ela aprende, talvez sem perceber, que a maneira como seus avós falam é inferior. E, quando isso acontece repetidamente, perdemos não apenas uma palavra, mas uma pequena parcela da nossa história.

Foi por isso que, durante a pesquisa, procurei registrar tudo aquilo que encontrava, inclusive as palavras consideradas chulas, estranhas, engraçadas ou desconcertantes. Não poderia fazer um inventário da linguagem popular e escolher somente aquilo que me parecesse bonito. A cultura não é uma sala arrumada para receber visitas. Ela possui poeira, gargalhada, palavrão, superstição, exagero, contradição, malícia, inocência, ingenuidade e até aquilo que preferimos esconder. O povo xinga de maneira criativa. Às vezes uma pessoa que dispõe de cinquenta palavras para expressar sua indignação escolhe justamente a mais inesperada. E quando junta “gota serena”, “mulesta”, “cachorra”, “balaio”, “estopô” e tantas outras, produz uma construção que talvez pareça absurda para quem não pertence àquele universo, mas que para o nativo possui significado imediato. Há ali uma espécie de engenharia espontânea da linguagem. O indivíduo não está simplesmente xingando: está construindo uma cena. A palavra vem acompanhada da cara, do gesto, da voz, da pausa, da mão na cintura, do movimento da cabeça, da expressão dos olhos. A linguagem popular é quase teatral. Muitas vezes, se retirarmos os gestos, a entonação e a circunstância, perderemos metade do significado.

Eis, então, outra razão pela qual considero a linguagem parte essencial do folclore: ela não pode ser inteiramente separada do corpo. O povo fala com a boca, mas também fala com as mãos, com os olhos, com os ombros, com a postura, com a expressão facial. Uma mesma palavra pode significar coisas completamente diferentes dependendo de quem a diz, como a diz e em que momento a diz. O pesquisador que apenas registra a palavra, sem observar o contexto, pode perder justamente aquilo que procurava. Foi por isso que meu trabalho nunca se limitou a uma lista de vocábulos. Procurei registrar significados, exemplos, observações, curiosidades e circunstâncias. Eu queria conservar não somente a palavra, mas o mundo em que ela vivia. Porque uma palavra fora do seu ambiente é como um peixe fora d’água: continua sendo peixe, mas já não se comporta da mesma maneira.

E agosto me faz pensar nisso com ainda mais intensidade. Fala-se muito em preservar o folclore, mas pouco se fala em preservar o ouvido. Talvez devêssemos começar por aí. Antes de fotografar uma manifestação, precisamos aprender a escutá-la. Antes de escrever sobre uma festa, precisamos perguntar quem a realiza, há quanto tempo, quem ensinou, o que mudou e o que permaneceu. Antes de registrar uma cantiga, precisamos saber quem a canta. Antes de escrever uma palavra no papel, precisamos descobrir em que boca ela nasceu, ou pelo menos em que boca ela sobreviveu. O verdadeiro pesquisador da cultura precisa ter alguma coisa daqueles viajantes europeus – os honestos, no caso –, que aqui chegavam e registravam tudo. Precisa caminhar. Precisa conversar. Precisa sentar-se com quem sabe. Precisa ter paciência. Precisa aceitar que uma tarde inteira pode resultar numa única palavra. E precisa compreender que essa palavra pode valer mais do que cem páginas escritas sem contato com a realidade.

Foi assim que passei a compreender melhor aquilo que fiz durante tantos anos. Eu não estava simplesmente colecionando palavras. Estava recolhendo pequenas peças de uma memória coletiva. Cada expressão anotada representava uma pessoa, uma família, uma conversa, um lugar, uma situação. Quando escrevi uma palavra no chão da roça, estava, sem saber, tentando impedir que um pequeno pedaço daquela paisagem desaparecesse comigo. Quando anotei as palavras de Heitor naquela viagem de ônibus, estava registrando não apenas o modo de falar de uma criança, mas o encontro entre dois universos linguísticos: o meu, sul-mato-grossense, e aquele Nordeste que eu começava a descobrir. Quando entrei nas casas, conversei com idosos, ouvi agricultores, donas de casa, crianças, comerciantes, trabalhadores, pessoas escolarizadas e pessoas que jamais haviam estado numa universidade, compreendi uma coisa que nenhum dicionário poderia me ensinar: a língua pertence a quem a usa.

E talvez seja essa a grande beleza do folclore. Ele não pede diploma para existir. Não exige autorização. Não precisa que alguém diga que aquilo é cultura para que passe a sê-lo. Uma senhora que guarda uma receita de família está preservando cultura. Um agricultor que sabe o nome antigo de uma ferramenta está preservando cultura. Uma criança que aprende uma cantiga com a avó está preservando cultura. Um homem que utiliza uma expressão que já quase ninguém conhece está carregando um pedaço do passado dentro da boca. E quando esse homem morre, aquela palavra pode morrer com ele, a menos que alguém tenha parado para ouvir.

Por isso, quando chega agosto e vejo tantas homenagens ao folclore, não consigo deixar de pensar nas palavras que ainda estão por aí, esperando que alguém as escute. Penso nas expressões que talvez estejam desaparecendo neste exato momento, enquanto escrevo. Penso nos idosos que ainda conhecem histórias que seus netos jamais ouviram. Penso nas crianças que já falam através das telas, incorporando palavras que chegam de longe, enquanto algumas palavras da própria casa vão ficando silenciosas. Não sou contra a modernidade, nem poderia ser. A língua sempre mudou e continuará mudando. A televisão, o rádio, a internet, os telefones e as redes sociais apenas aceleraram um processo que existe desde que o primeiro homem percebeu que podia aprender uma palavra de outro homem. O problema não é a mudança. O problema é a substituição inconsciente, aquela em que deixamos de usar o que é nosso porque passamos a acreditar que aquilo que vem de fora é mais bonito, mais moderno ou mais correto. Sou contra a perda da identidade.

Aprendi, pesquisando, que uma palavra pode viajar mais do que um homem. Pode atravessar estados, países, oceanos e séculos. Pode chegar diferente, perder uma sílaba, ganhar outra, mudar de significado e continuar sendo reconhecida por alguém. O português que falamos hoje é justamente o resultado de incontáveis encontros dessa natureza. Há nele português antigo, línguas indígenas, influências africanas, palavras árabes, italianas, francesas, inglesas e tantas outras marcas que seria impossível separá-las completamente. O idioma é uma espécie de grande rio: recebe afluentes, mistura águas, carrega sedimentos e nunca permanece exatamente igual. Querer impedir esse movimento seria tão inútil quanto tentar segurar um rio com as mãos. O que podemos fazer é conhecer o rio, reconhecer seus afluentes e não esquecer de onde veio a água que estamos bebendo.

Foi isso que tentei fazer com minha pesquisa. Olhar. Ouvir. Anotar. Perguntar. Voltar. Comparar. E, sobretudo, não deixar desaparecer. Talvez por isso eu tenha passado tantos anos reunindo palavras. Não havia pressa. A pesquisa popular possui um tempo próprio. Às vezes eu passava meses sem abrir o velho livro de atas onde anotava algo novo e revisava. De repente, alguém dizia uma palavra e lá estava eu novamente, procurando papel, caneta ou qualquer superfície disponível. A palavra vinha e eu precisava agarrá-la antes que escapasse. Hoje, olhando para trás, percebo que talvez esse tenha sido o verdadeiro método da pesquisa: esperar que a cultura falasse.

E ela falou muito. Falou através de crianças e idosos, de agricultores e donas de casa, de pessoas simples e de pessoas instruídas. Falou atrav´s das festas, das histórias, dos apelidos, das expressões, das pronúncias, dos erros que não eram erros, das palavras que só faziam sentido dentro de determinada família, dos termos que pareciam absurdos até serem colocados dentro de uma frase. Falou através de “vou chegando”, de “capei o gato”, de “piquei a mula”, de “entonce”, de “vórrmicê”, de “peitchu”, de “muintcho”, de “xerém”, “priziaca”, “brebote”, “indês, de tantas outras palavras que, quando pronunciadas por alguém, deixam de ser apenas palavras e passam a ser pequenos retratos de uma gente.

Talvez seja essa a minha maneira de comemorar agosto. Não quero apenas falar sobre folclore. Quero ouvi-lo. Quero procurá-lo onde ele ainda está vivo, especialmente onde ninguém colocou uma placa dizendo “aqui existe patrimônio cultural”. Quero continuar acreditando que uma conversa numa calçada pode ter o mesmo valor documental de um livro; que a memória de um agricultor pode guardar informações que jamais aparecerão num arquivo oficial; que uma palavra aparentemente insignificante pode ser uma relíquia; que o sotaque de uma pessoa pode contar a história de sua família; que uma expressão engraçada pode conservar dentro dela uma visão de mundo. Sábado passado, por exemplo, fui à feira do Alecrim comprar pupunha (que adoro). Para minha surpresa o dono da banca havia sido meu aluno em Nísia Floresta. Logo ele disse “essa é tão boa que o senhor come e não enfara” (enjoa). Obviamente que entendi, mas muitos poderiam não saber o significado.

Depois de tantos anos, uma coisa me parece cada vez mais evidente: o nosso folclore não está morto; nós é que, muitas vezes, deixamos de escutá-lo. Ele continua falando. Está na boca do povo. Está na voz da velha que ainda diz uma palavra que ninguém mais entende. Está no menino que repete uma expressão aprendida do avô. Está no agricultor que nomeia o mundo à sua maneira. Está na mulher que prepara uma comida ensinada pela mãe. Está na festa que continua acontecendo mesmo depois que quase ninguém sabe explicar sua origem. Está na gargalhada, na reza, na cantiga, no apelido, no palavrão, no silêncio e até naquela palavra estranha que alguém acaba de pronunciar e que, por algum motivo, me faz imediatamente procurar uma caneta.

É por isso que, neste agosto, mês dedicado ao folclore, eu volto às minhas velhas anotações com a sensação de quem retorna a uma casa antiga. Algumas palavras ainda estão de pé. Outras desapareceram. Algumas mudaram de significado. Outras permanecem teimosamente vivas. E há aquelas que continuam esperando alguém dizer novamente. Eu, se puder, continuarei ouvindo. Porque aprendi que pesquisar a cultura popular é, no fundo, uma maneira de dizer às pessoas: eu ouvi o que você disse; aquilo que parecia pequeno para você também tem valor; sua maneira de falar também conta a história deste lugar. E talvez seja essa a maior homenagem que podemos prestar ao nosso folclore. Antes de celebrá-lo, escutá-lo. Antes de dizer que determinada palavra está errada, perguntar por que ela nasceu assim. E, antes que desapareça, anotá-la. Uma palavra que desaparece da boca de um povo talvez leve consigo uma pequena parte daquilo que esse povo foi. Viva apalavra!

sábado, 8 de agosto de 2026

BAMBELÔ ENTRE DUAS TERRAS: NÍSIA FLORESTA E SÃO JOSÉ DE MIPIBU...

Mestre de Bambelô: "Paraguai", deputada Federal Fátima Bezerra e Prefeita de São José de Mipibu: Norma Ferreira

O TAMBOR E A MEMÓRIA: MESTRE PARAGUAI, DJALMA MARANHÃO E CÂMARA CASCUDO  

É aproveitando os ares de agosto, mês em que tradicionalmente voltamos nossos olhos para as manifestações do folclore brasileiro, que vale a pena recordar o Bambelô, uma das expressões mais significativas da cultura popular do Rio Grande do Norte. Mais do que uma dança ou um simples divertimento, o Bambelô reúne música, ritmo, canto, movimento, memória coletiva e uma forma particular de sociabilidade, transmitida durante gerações entre homens e mulheres que fizeram da roda um espaço de encontro e celebração. No Rio Grande do Norte, essa manifestação encontrou diferentes formas de permanência e expressão, entre elas as tradições de Nísia Floresta e de São José de Mipibu, municípios próximos geograficamente e ligados também por antigas relações culturais. Recuperar essas memórias significa reconhecer a riqueza de um patrimônio que, durante muito tempo, foi transmitido sobretudo pela oralidade e pela prática, dependendo da presença dos mestres e brincantes para continuar existindo.

Mestre Paraguai, manejando o Pau Furado acompanhado por Maria Preta, Amauri Freire e Mateus Freire (2007)

A leitura do estudo dedicado ao Bambelô por Gumercindo Saraiva, em Câmara Cascudo: musicólogo desconhecido, publicado em 1969 pela Gráfica da Companhia Editora de Pernambuco, ajuda a compreender a importância dessa manifestação no universo da cultura popular potiguar. O texto, construído a partir das observações e referências de Luís da Câmara Cascudo, registra aspectos de uma tradição que não pode ser compreendida apenas pela descrição de seus passos ou de seus instrumentos. O Bambelô é uma experiência coletiva, uma roda em que o ritmo conduz os corpos, os cantos estabelecem a comunicação entre os participantes e o mestre ocupa uma posição fundamental na condução da brincadeira. Por isso, quando pensamos no Bambelô de Nísia Floresta e no Bambelô de São José de Mipibu, estamos diante de duas expressões de uma mesma tradição cultural que encontrou, em cada lugar, seus próprios mestres, repertórios, modos de brincar e formas de transmissão.

A RODA, O RITMO E A COREOGRAFIA DO BAMBELÔ

A coreografia do Bambelô nasce da própria roda. Os brincantes se dispõem em círculo e acompanham o ritmo marcado pela percussão, enquanto o mestre conduz a sequência da brincadeira e os participantes respondem corporalmente à música. O movimento não se reduz a uma coreografia rígida, previamente determinada como ocorre em uma dança de palco. Há uma estrutura tradicional, mas existe também espaço para a espontaneidade, para a improvisação e para a comunicação entre o mestre, os tocadores e os dançadores. O corpo acompanha o compasso, os pés marcam o chão, os braços e o tronco respondem ao ritmo e os brincantes avançam, recuam, giram e se movimentam dentro da roda, mantendo uma relação permanente com o centro e com os demais participantes. A dança acontece, portanto, como uma conversa corporal conduzida pela música, em que cada movimento encontra sua resposta no ritmo e no canto.

Amauri Freire, Dário, Nilson Eloy e Maria Preta

O tambor – originalmente feito de um tronco de árvore ocado pela queima – ocupa lugar essencial nessa experiência. É ele que sustenta o andamento e estabelece a pulsação sobre a qual se desenvolve a dança. O mestre, por sua vez, não é apenas aquele que sabe cantar ou conhece o repertório. É o condutor da brincadeira, aquele que conhece seus códigos, organiza a participação dos brincantes, dá andamento aos versos e mantém viva a comunicação entre música e dança. É justamente por isso que a transmissão oral tem importância tão grande no Bambelô. Um mestre não transmite apenas palavras: transmite maneiras de cantar, de responder, de entrar na roda, de movimentar o corpo e de compreender o momento certo de cada gesto. O conhecimento está no repertório, mas também está no corpo e na experiência. Antigamente era comum o acompanhamento da fogueira para esquentar a pele da percussão, melhorando o som.

É importante observar ainda que certas imagens corporais frequentemente associadas às manifestações populares nordestinas precisam ser tratadas com cuidado. A umbigada, por exemplo, é normalmente relacionada a outros gêneros e folguedos de matriz afro-brasileira e não deve ser apresentada simplesmente como elemento definidor da coreografia do Bambelô. No entanto, há uma memória particularmente saborosa relacionada a Djalma Maranhão que permite compreender como essas fronteiras podiam ser atravessadas no calor da festa. Djalma, profundamente envolvido com as manifestações populares de Natal e conhecido por sua alegria contagiante, não se limitava a observar os brincantes. Em meio à animação, aproximava-se deles e, tomado pelo entusiasmo, dava umbigadas nos participantes, incorporando espontaneamente àquele momento festivo um gesto mais característico de outras danças. A cena, mais do que servir para estabelecer uma regra coreográfica, revela a maneira como Djalma se relacionava com a cultura popular: com proximidade, entusiasmo e participação.

DJALMA MARANHÃO E O BAMBELÔ COMO EXPRESSÃO DA CULTURA POPULAR

A presença de Djalma Maranhão nessa história não é circunstancial. O político, jornalista, professor de Educação Física e prefeito de Natal foi também um dos grandes incentivadores da cultura popular potiguar. Durante sua administração, os folguedos populares receberam atenção institucional e passaram a ocupar espaços importantes na vida cultural da cidade. Registros da época mencionam entre as manifestações apoiadas pela administração municipal o Camaleão, as quadrilhas, o fandango, o boi calemba, a chegança e o próprio Bambelô. O Memorial Online dedicado a Djalma Maranhão preserva, inclusive, a publicação Apresentação do Bambelô, de Veríssimo de Melo, entre os livros publicados ou apoiados durante sua administração. Essa atuação estava relacionada a uma concepção mais ampla de cultura. Djalma não enxergava os folguedos como manifestações menores ou como simples atrações destinadas a divertir o público. Ele procurava colocá-los no centro da vida cultural de Natal, valorizando grupos, mestres e tradições que durante muito tempo haviam permanecido à margem das instituições oficiais. Um testemunho de José Condé sobre Djalma Maranhão destaca justamente esse aspecto de sua administração, ressaltando o incentivo dado aos grupos que cultivavam danças e autos populares na capital, entre eles o Bambelô. O mesmo texto registra que o Bambelô tinha uma presença diferenciada, funcionando durante todo o ano, enquanto outros folguedos estavam mais vinculados aos ciclos junino e natalino.

Djalma Maranhão (com um papel branco na mão)

A relação de Djalma com o Bambelô, portanto, deve ser compreendida dentro desse projeto de valorização da cultura popular. Ele não era um administrador distante que simplesmente destinava recursos ou criava programas. Sua personalidade expansiva o levava a aproximar-se dos brincantes, conversar com eles e participar da alegria das rodas. Ele entrava na dança. Há uma dimensão quase teatral nessa presença: o prefeito que se misturava ao povo, que acompanhava a música, que vibrava com os folguedos e que, em determinados momentos, deixava de ser espectador para tornar-se participante. A lembrança das umbigadas que dava nos brincantes deve ser entendida nesse contexto. Não se trata de afirmar que a umbigada constitua passo obrigatório do Bambelô, mas de registrar uma atitude espontânea de Djalma, que, embevecido pela brincadeira, incorporava ao seu entusiasmo um gesto corporal que pertence mais propriamente a outras tradições.

Essa proximidade com os folguedos ajuda a explicar por que Djalma Maranhão permanece tão associado à memória cultural de Natal. Um registro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte lembra que, no antigo Grande Ponto, espaço central da cidade, realizavam-se grandes comemorações nas quais apareciam manifestações como o Bambelô de Guedes, o Araruna de mestre Cornélio, os índios de Bum-Bum, as Lapinhas, os Fandangos e a Nau-Catarineta de Caldas Moreira. Em outro documento, o próprio Djalma evoca poeticamente o universo dos folguedos natalenses, mencionando o velho Calixto comandando o Bambelô e o coco de roda associado à umbigada e ao sapateado. Essas referências são importantes porque mostram que, para Djalma, a cultura popular não era um compartimento isolado da vida da cidade. Ela fazia parte da própria paisagem afetiva de Natal.

O BAMBELÔ DE NÍSIA FLORESTA E A MEMÓRIA DE SÃO JOSÉ DE MIPIBU

Quando deslocamos o olhar para o território onde se encontram Nísia Floresta e São José de Mipibu, percebemos que o Bambelô também constitui uma ponte entre comunidades e gerações. A proximidade entre os dois municípios favoreceu durante muito tempo a circulação de pessoas, costumes, festas e repertórios, fazendo com que determinadas manifestações populares ultrapassassem as fronteiras administrativas. O Bambelô de Nísia Floresta permanece, assim, como parte de uma memória cultural mais ampla, que dialoga com tradições existentes em outros municípios da região, entre eles São José de Mipibu. Foi nesse município que a Associação Cajupiranga realizou um trabalho de enorme importância para a preservação dessa memória ao resgatar o Bambelô e aproximar-se de um de seus grandes guardiões, o mestre Paraguai. A experiência que tivemos com ele merece ser registrada não apenas como uma lembrança pessoal, mas como um verdadeiro acontecimento de preservação da memória oral. Mestre Paraguai sentou-se conosco e, com a tranquilidade de quem carregava décadas de experiência, cantou todo o repertório que conhecia enquanto nós o transcrevíamos. 

Aquela tarde ou aquele encontro, aparentemente simples, tinha uma dimensão que talvez só possa ser plenamente compreendida depois de passado o tempo: estávamos diante de um homem que guardava na memória um repertório imenso de versos, toadas, chamadas e respostas do Bambelô, aprendido desde a infância e preservado durante toda a sua vida. Aqui talvez seja mais adequado falar em versos, toadas e cantos do Bambelô, e não simplesmente em "canções", porque o repertório da brincadeira está profundamente ligado à oralidade, à condução do mestre e à interação entre quem puxa o canto e os demais participantes. Dependendo da situação e da tradição específica do grupo, diferentes denominações podem aparecer. O mais importante, entretanto, é compreender que aquilo que Mestre Paraguai nos transmitiu não era apenas uma coleção de letras isoladas. Eram fragmentos vivos de uma tradição, associados a melodias, ritmos, memórias, personagens, situações e maneiras específicas de brincar.

MESTRE PARAGUAI, UM GUARDIÃO DA MEMÓRIA

Mestre Paraguai morreu com mais de 80 anos, depois de atravessar praticamente toda a sua existência acompanhando o Bambelô de São José de Mipibu. Desde criança, esteve próximo dos festejos e das rodas, observando os mestres mais antigos, aprendendo os versos e assimilando os movimentos da brincadeira. Quando chegou à juventude, já possuía o conhecimento necessário para assumir a condução do grupo e tornou-se mestre, passando a dirigir os brincantes daquele município. Sua trajetória é particularmente importante porque demonstra como o conhecimento popular se perpetua: primeiro pela observação, depois pela participação, em seguida pela aprendizagem e, finalmente, pela responsabilidade de transmitir aos outros aquilo que se recebeu dos mais velhos. O encontro com Mestre Paraguai permitiu interromper, ainda que parcialmente, o processo natural de desaparecimento desse patrimônio. Cada verso que ele cantava era uma informação que poderia ter desaparecido com sua morte. Cada toada recuperada representava uma pequena vitória contra o esquecimento. Ao transcrevermos seu repertório enquanto ele cantava, estávamos fazendo algo que hoje parece simples, mas que naquele momento tinha enorme significado: transformar a memória individual de um mestre em documento capaz de ser consultado por outras pessoas. O que estava guardado durante décadas na memória de um homem passou a existir também em registro escrito, podendo servir de fonte para pesquisadores, brincantes e novas gerações.

Essa experiência também nos ensina que a preservação do folclore não acontece apenas em livros, museus ou arquivos institucionais. Muitas vezes, ela começa quando alguém se senta ao lado de um mestre e pergunta o que ele sabe. A cultura popular sobrevive porque existem pessoas que se lembram. E, enquanto houver alguém capaz de cantar uma toada, repetir um verso, ensinar um movimento ou explicar como se formava uma roda, existe ainda a possibilidade de reconstruir a tradição. O problema surge quando o mestre desaparece sem que seu conhecimento tenha sido registrado. Nesse sentido, o encontro com Mestre Paraguai foi também um ato de urgência: sabíamos que estávamos diante de uma memória que não poderia ser deixada exclusivamente à mercê do tempo.

ENTRE A MEMÓRIA ESCRITA E A MEMÓRIA VIVIDA

É justamente nessa passagem entre a memória escrita e a memória vivida que o estudo de Gumercindo Saraiva sobre Luís da Câmara Cascudo ganha nova dimensão quando colocado em diálogo com a experiência do Bambelô de São José de Mipibu. O texto publicado em Câmara Cascudo: musicólogo desconhecido, em 1969, registra informações provenientes de um período em que os folguedos ainda possuíam forte presença na vida cotidiana e em que os pesquisadores precisavam recorrer diretamente aos mestres e praticantes para compreender suas estruturas. Hoje, quando lemos essas descrições ao lado do repertório que Mestre Paraguai nos transmitiu, podemos perceber que estamos diante de diferentes camadas de uma mesma memória. O livro registra o olhar do pesquisador sobre a manifestação; os mestres registram a manifestação por meio do próprio corpo e da própria voz. Um documento escrito pode preservar uma descrição, uma informação ou uma interpretação, mas há aspectos da cultura popular que somente aparecem plenamente quando o mestre canta, quando o tambor começa a tocar, quando os brincantes entram na roda e quando o corpo passa a responder ao ritmo. Por isso, preservar o Bambelô exige reunir essas diferentes dimensões: os estudos de pesquisadores como Cascudo, os registros de escritores como Gumercindo Saraiva e Veríssimo de Melo, a memória dos mestres, os repertórios orais, as fotografias, os testemunhos e, sobretudo, a continuidade da prática.

O BAMBELÔ COMO MEMÓRIA DE UM POVO

Talvez seja essa a razão mais profunda para aproveitarmos o mês de agosto para falar do Bambelô. O folclore não deve ser lembrado apenas como um conjunto de manifestações pitorescas do passado, mas como uma forma de conhecimento produzida e transmitida pelo povo. No caso do Bambelô, há uma história de comunidades, mestres, famílias e brincantes que encontraram na roda um espaço de expressão e pertencimento. Nísia Floresta e São José de Mipibu guardam, cada um à sua maneira, parcelas dessa memória, e a experiência de Mestre Paraguai mostra como uma tradição aparentemente frágil pode sobreviver durante décadas graças à dedicação de indivíduos que assumem a responsabilidade de mantê-la viva. Entre o Bambelô de Nísia Floresta, as referências registradas por Cascudo, o trabalho de Gumercindo Saraiva, a atuação de Djalma Maranhão na valorização dos folguedos de Natal e a memória preservada pela Associação Cajupiranga em São José de Mipibu, forma-se uma espécie de fio invisível que atravessa gerações. 

Djalma Maranhão compreendeu a importância de colocar os folguedos no centro da vida cultural da cidade; Mestre Paraguai compreendeu a importância de aprender e transmitir; a Associação Cajupiranga compreendeu a urgência de registrar e recuperar; e nós, ao sentarmos diante daquele velho mestre para transcrever seus versos, tivemos a oportunidade de participar, ainda que modestamente, desse movimento de passagem da memória de uma geração para outra. E há algo especialmente bonito nessa história: Djalma Maranhão, tão identificado com a cultura popular de Natal, aparece nas lembranças dos folguedos não como uma autoridade distante, mas como alguém tomado pela alegria da brincadeira. As suas espontâneas umbigadas nos brincantes, embora não devam ser confundidas com um elemento coreográfico próprio do Bambelô, ajudam a humanizar essa memória. Elas revelam um homem que se deixava envolver pelo ritmo e pela alegria coletiva. Ao mesmo tempo, a lembrança de Mestre Paraguai, sentado diante de nós, cantando uma após outra as toadas e os versos que guardava na memória, revela o outro lado dessa mesma história: o homem simples que carregava dentro de si uma biblioteca oral inteira.

É entre essas duas imagens que talvez possamos compreender melhor o Bambelô: de um lado, a roda viva, o tambor, o canto, o corpo, a alegria e a espontaneidade; de outro, a memória, o conhecimento, a transmissão e o registro. Uma tradição só permanece quando essas duas dimensões se encontram. O Bambelô não vive apenas porque foi estudado, nem apenas porque foi lembrado. Vive quando alguém toca, canta, dança, ensina e brinca. Vive quando um mestre transmite o que aprendeu. Vive quando uma comunidade reconhece naquele repertório uma parte de sua própria história. Por isso, neste agosto, mês do Folclore, lembrar o Bambelô é também lembrar os homens e mulheres que fizeram dele uma experiência viva. É lembrar Nísia Floresta e sua tradição, São José de Mipibu e seus mestres, a Associação Cajupiranga e seu esforço de recuperação, Gumercindo Saraiva e seu registro, Câmara Cascudo e sua atenção à música e aos folguedos populares, Djalma Maranhão e sua paixão pela cultura do povo. E é lembrar, sobretudo, Mestre Paraguai, que durante mais de oito décadas carregou consigo uma parte preciosa da memória de Mipibu e que, antes de partir, teve a generosidade de sentar-se conosco e cantar aquilo que aprendera desde criança. Graças àquela disposição e àquele encontro, uma parte importante do Bambelô de São José de Mipibu deixou de depender exclusivamente da memória de um homem e passou a existir também como documento. É assim que a cultura popular atravessa o tempo: de voz em voz, de corpo em corpo, de mestre em mestre, até que alguém compreenda que é preciso registrar para que o silêncio não venha a ser a última forma de transmissão.

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O PROJETO MEMÓRIA DA UFRN E A PRESERVAÇÃO DA CULTURA POPULAR POTIGUAR NOS LPs (1981–1983)

 

RARIDADES DA MÚSICA POTIGUAR NOS SULCOS DO VINIL E OS ARES DE AGOSTO

Agosto sempre chega ao Nordeste com um sopro diferente. Minha mãe – atualmente com 95 anos – diz que é o mês dos ventos fortes e o mês dos cachorros loucos (não me perguntem o porquê), sei que é o período em que o Brasil se volta para as suas raízes mais profundas para celebrar o Dia do Folclore. E eu, como folclorista de berço, não poderia deixar de trazer as pérolas da cultura popular que guardo em meu acervo.

Creio que no bojo das celebrações do amplo universo do folclore do Folclore, ele também acontece nos estalinhos sutis da agulha riscando os discos de vinis: os quase esquecidos Long Player, chamados LP’s. Embora eu conviva bem com as novas tecnologias, ainda me atrevo a ser do tempo da radiola. Na contramão de um mundo que digitalizou os afetos e transformou a música em arquivos invisíveis lá pelos dedentros da internet, preservo em minha casa uma radiola antiga, perfeitamente regulada e em pleno funcionamento. Ao redor dela, orbita um acervo de mais de 500 LPs, lapidados ao longo de anos de garimpo e organizados segundo o meu gosto pessoal. Alguns deles me viram adolescente. É um templo de acetato e papelão onde guardo as minhas maiores relíquias afetivas. F., meu filho, cresceu enfronhado nesses LP’s já no tempo do auge dos CD’s.

Enfim, aproveitando justamente o folcloricamento de agosto, decidi abrir as portas desse acervo para apresenta-lo àqueles que os desconhecem. Selecionei uma série de LPs lançados no Rio Grande do Norte entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, a maioria sob o selo do pioneiro “Projeto Memória” da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Creio que essas peças não existiriam com essa qualidade, sensibilidade e visão sem que o poeta Diógenes da Cunha Lima não tivesse se sentado na cadeira de reitor da UFRN à época. Assim como os artistas fazem a diferença, os poetas também o fazem. Muitos desses discos são verdadeiras peças de colecionador, raridades absolutas que escaparam das grandes plataformas e que correm o risco de sumir da história fonográfica, portanto, cumpro também o papel de resgatar essas pérolas.

Minha proposta aqui é pedagógica e afetiva: levar essas joias ao conhecimento de quem nunca teve a oportunidade de ouvi-las ou pegá-las nas mãos. Pesquisei cada álbum individualmente, esmiuçando os detalhes preciosos de suas capas, os textos históricos de suas contracapas, as letras de seus encartes e os profissionais de destaque que acercaram cada lançamento. E agora os ofereço ao leitor. Para mim, as capas – dos LP’s – falam. São obras de arte por maisque carreguem simplicidade. Construí este estudo como uma espécie de catalogação e farei reflexões que cruzam esses dados com a história, a culinária, a geografia e as tradições orais do nosso estado. Ajustem o braço da radiola, aumentem o volume e acompanhem-me nesta jornada pelos sulcos da cultura popular potiguar...

ÁLBUM 1: CANTOS DA TERRA DO MAR - MADRIGAL DA UFRN (1981)


A Capa e o Simbolismo Armorial: O primeiro volume que repousa no prato da minha radiola é o pioneiro Projeto Memória – 1, lançado em 1981. A identidade visual do álbum é um manifesto estético por si só. Vemos uma ilustração em nankin, cujos traços rústicos em preto e branco remetem imediatamente à xilogravura e à literatura de cordel. A imagem exibe duas figuras de feições clássicas e populares perfeitamente integradas à vegetação nativa. Uma delas empunha um instrumento de cordas (uma viola popular ou bandolim) e a outra segura uma lira grega clássica. Esse arranjo visual traduz perfeitamente a proposta do disco: o encontro da tradição erudita do canto coral com a pureza e a riqueza do folclore norte-rio-grandense.

A Contracapa e o Manifesto Institucional: No verso do LP, o texto institucional assinado pela diretoria da Escola de Música e pela reitoria contextualiza a urgência da obra. Fundado na década de 1960 e composto por 32 integrantes divididos no quarteto clássico (sopranos, contraltos, tenores e baixos), o Madrigal da UFRN utilizou sua técnica polifônica e seu estilo madrigalístico tradicional para “documentar e valorizar compositores do Rio Grande do Norte”.

O disco foi gravado nos lendários Estúdios da Transamérica, no Rio de Janeiro, sob a direção técnica de Edeltrudes Marques da Silva e engenharia de som de Aníbal Félix a mesma equipe de ponta que garantiu a alta fidelidade de quase todo o Projeto Memória. A coordenação foi da Diretora da Escola de Música, Deijair Henrique Borges, com regência do Padre Pedro Ferreira da Costa. Curiosamente, o reitor da época, o intelectual Diógenes da Cunha Lima, não assina o projeto apenas como burocrata, mas também como artista, figurando como compositor de uma das faixas, pois também é poeta.

O Repertório Comentado: O repertório deste Volume 1 é uma aula de geografia e etnografia potiguar, dividindo-se entre temas do sertão e do litoral:

Lado A:

 

1.      Aruanda (Oswaldo de Souza/Arr. Clóvis Pereira)

2.      Cantiga de Beira-Mara (Enoch Domingos/Arr. Clóvis Pereira)

3.      Minha Maria (Diógenes da Cunha Lima/Arr. Pe. Pedro Ferreira)

4.      Prece ao Vento (Gilvan Chaves - Alcyr Pires - Fernando Luiz/Arr. Pe. Pedro Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)

5.      Vadiação de Vaqueiro (Celso da Silveira/Arr. Pe. Pedro Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)

 

Lado B:

 

6.      Duas Toadas (Oswaldo de Souza/Arr. Clóvis Pereira – Solo: Pe. Pedro Ferreira)

7.      Moinho d'Água (Francisco Elion/Arr. Pe. Pedro Ferreira – Solo: Gláucio Teófilo Câmara de Sá)

8.      Sonhador (Márcio Marinho/Arr. Pe. Pedro Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)

9.      Cavaco Chinês (Roberto Lima de Souza / Arr. Pe. Pedro Ferreira)

 

Reflexões do Colecionador: A grande joia oculta deste LP reside nos arranjos de Clóvis Pereira nas faixas “Aruanda”, “Cantiga de Beira-Mara” e “Duas Toadas”. Clóvis foi um dos pilares do Movimento Armorial, fundado por Ariano Suassuna na década de 1970 em Recife. A presença de suas orquestrações vocais no Madrigal da UFRN prova que a inteligência musical potiguar estava perfeitamente sintonizada com a vanguarda nordestina, que buscava criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares (o romanceiro, o aboio e as bandas de pífano). Destaca-se também a voz do jovem tenor Emmanuel de Melo e Silva, cujos solos em “Prece ao Vento” e “Vadiação de Vaqueiro” antecipavam o nascimento de um dos maiores intérpretes da música popular do nosso estado.

ÁLBUM 2: BAMBELÔ – EMMANUEL DE MELO E SILVA (1982) – Esse LP e o que trataremos abaixo – Floração – são duas pérolas incríveis para mim.

A Capa e a Estética do Litoral: A agulha avança e o próximo disco a girar é o Projeto Memória - 7, lançado em 1982: o emblemático Bambelô, de Emmanuel de Melo e Silva. A capa traz uma belíssima ilustração em nanquim com traços de forte inspiração expressionista e puramente popular. O desenho retrata dois músicos descalços – um tocando um pandeiro e o outro ao violão – emoldurados por coqueiros e casas simples de taipa. É a tradução visual exata da paisagem litorânea e suburbana de Natal. O título do álbum é um monumento ao nosso folclore. O bambelô (ou coco de bambelô) é uma manifestação folclórica tipicamente potiguar. Dança de roda e ritmo sincopado de forte matriz afro-brasileira, o bambelô historicamente fincou suas raízes na Praia da Redinha, animando as noites de pescadores e comunidades litorâneas, assim como Nísia Floresta e São José de Mipibu. Ao batizar o disco com esse nome, a UFRN assumia o compromisso direto com a etnografia musical do estado.

O Encarte e a Rede de Intelectuais (Lado A): Diferente das edições convencionais, este LP traz um encarte completo com as letras e fichas técnicas que revelam uma rede impressionante de parcerias entre músicos e os maiores intelectuais potiguares da época. No Lado A, a faixa de abertura é justamente “Bambelô”, cuja autoria pertence a Fernando Luís da Câmara Cascudo (filho do patrono do folclore brasileiro, Luís da Câmara Cascudo). A letra é um registro fidedigno das manifestações de terreiro, citando elementos estruturais das danças populares como o zabumba, o maracá, o coco catolé e as festas de congo (“Que a noite é bela, seu Mano/Pra nós congar, seu Mano”).

O encarte traz ainda duas parcerias com Diógenes da Cunha Lima: “Teu Ventre” e o enigmático “Poema dos Macunis”. Este último é um achado etnográfico fantástico. A letra abre com fonemas indígenas originais (“Abaai, bita, popi/Amabá poaté poitecé”) e faz referência direta aos povos nativos do estado, os Gês, Tapuias e Tupis, que musicavam o entardecer. Fechando o Lado A, Emmanuel grava “Miragens” (de Enoch Domingos), “Pouso” (de Roberto Lima de Souza, que evoca as palmeiras e as dunas de areia) e “Navegante Sem Mar”, de autoria de Babal – um dos grandes nomes da vanguarda da MPB produzida em Natal na virada dos anos 1970 para os 1980.

O Encarte e a Geografia Afetiva (Lado B): Se o Lado A do LP Bambelô (Projeto Memória - 7) fincou os pés na ancestralidade indígena e nos ritmos de terreiro, o Lado B desenha um autêntico diário de bordo pelas praias, costumes e cidades do Rio Grande do Norte. As letras deste lado do encarte funcionam como crônicas folclóricas vivas. A faixa de abertura do Lado B é “Procissão dos Navegantes”, uma composição primorosa de Roberto Lima de Souza. A letra é o retrato mais perfeito da tradicional festa de Nossa Senhora dos Navegantes na Praia da Redinha. Tico capta os elementos identitários de Natal: as barcaças no rio Potengi, os cajus vermelhos, a lancha que trazia os moradores do bairro das Rocas e o peixe com tapioca (“Mulatos bebem cachaça / Com peixes e tapiocas...”).

Em seguida, o disco traz “As Ancas de Maria” (Diógenes da Cunha Lima), uma canção que usa as dunas e o vento litorâneo como metáforas poéticas, e “Xote na Ribanceira” (Fábio Fernandes), que resgata os bailes de interior à beira dos ribeirões. O cotidiano urbano de Natal ganha contornos em “O Ônibus” (Roberto Lima de Souza), mostrando operários, lavadeiras, ambulantes e estudantes cruzando as ladeiras da capital. A penúltima faixa viaja até o Litoral Norte com “Touros”, escrita por Ivanildo. Trata-se de um inventário riquíssimo do vocabulário e hábitos locais: cita o Farol do Calcanhar, a bebida “jurrubado”, o fruto nativo “guajiru”, a pesca artesanal com “tresmalho” e a figura folclórica da solteirona de província (“Em cada uma eu vejo Vitalina/Toda empoada esperando seu amor”). Fechando o disco, a faixa “Pilão” (Diógenes da Cunha Lima) resgata onomatopaicamente os antigos cantos de trabalho das mulheres do sertão (Pilo, pilo, pilo no pilão/Na mão do pilão tem sangue e suor”).

Reflexões: O que torna este LP do Emmanuel uma raridade absoluta de colecionador é a sua capacidade de mimetizar os sons do trabalho e do sagrado popular sem perder o viço da MPB moderna dos anos 1980. Ao colocar no prato da radiola a faixa “Pilão”, o estalo do vinil parece se misturar à batida física da madeira moendo o milho ou o café. A menção ao "peixe com tapioca" na Redinha em "Procissão dos Navegantes" antecede em décadas o tombamento dessa iguaria como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte. É a prova de que o folclore não estava morto; estava pulsando nas praias e feiras.

ÁLBUM 3: FLORAÇÃO – LUCINHA LIRA (1981)

A Capa e o Traço de Dorian Gray: O terceiro disco a girar na radiola é o Projeto Memória - 3, lançado em 1981, trazendo o protagonismo feminino de Lucinha Lira no álbum Floração. A identidade visual da capa é uma obra de arte histórica: uma ilustração original em nanquim assinada pelo mestre Dorian Gray Caldas. Ele desenha uma figura feminina cujos longos cabelos se transformam em flores, e cujas vestes se misturam a texturas de folhas, sementes, raízes e pequenos insetos (como uma joaninha). Ao fundo, árvores estilizadas evocam a vegetação do tabuleiro litorâneo e da caatinga. O conceito de “floração” dialoga diretamente com a ideia do desabrochar da cultura popular a partir das suas raízes mais profundas.

A Contracapa e o Manifesto Modernista: O verso do LP traz um texto institucional e crítico formidável, que serve como um verdadeiro manifesto em defesa da produção cultural nordestina descentralizada. O texto argumenta que a musica produzida em Natal corre um risco histórico de “pura e simples desaparição” por estar longe dos grandes centros e mercados consumidores do Sudeste, restringindo-se a serestas e encontros informais.

Para justificar a necessidade do registro fonográfico do Projeto Memória, a UFRN evoca o poeta potiguar Jorge Fernandes (1887–1953). O texto lembra que Jorge Fernandes foi apontado por ninguém menos que Mário de Andrade – o pai do Modernismo brasileiro – como um precursor do movimento por ter introduzido a fala do povo e os temas locais na poesia nacional. O disco Floração nasce, portanto, para evitar que a nova safra de compositores sofra o esquecimento histórico. A ficha técnica repete o padrão de alta fidelidade: gravado na Transamérica (Rio), coordenado por Deijair Henrique Borges sob a reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado (Encarte do Lado A): O encarte interno de Floração traz as letras completas, revelando composições de um lirismo impecável:

1 - Floração (Diogenes da Cunha Lima): Faixa-título que abre o Lado A cantando a beleza da manhã e a efemeridade do tempo (“Antes que o tempo tome de ti em sua mão/As flores da manhã nascem do teu corpo”).

2 - Cajueiro (Música: Oriano de Almeida/Versos: Veríssimo de Melo): Uma das maiores preciosidades do disco. Unindo o piano erudito de Oriano à sensibilidade do folclorista Veríssimo de Melo, a letra canta as dunas e o caju à beira-mar, evocando a mítica figura da sereia (“Cajueiro da beira do mar/Cadê a sereia que eu quero noivar”).

3 - Cidade de Dezembro (Nei Leandro de Castro/Rogério Rossini): Uma composição belíssima que resgata as memórias e os autos folclóricos do ciclo natalino em Natal, citando expressamente o Pastoril, a Chegança, as figuras das mestras e contramestras e o Bumba-Meu-Boi.


O Repertório Comentado (Encarte do Lado B): O Lado B do encarte aprofunda a imersão nas paisagens e nos sentimentos telúricos do estado:

1 - Velhas Oiticicas (Letra: Pery Lamartine/Música: Roberto Lima): Uma canção belíssima de resgate do imaginário sertanejo do Seridó. Pery Lamartine canta a oiticica, árvore frondosa que serve de morada e abrigo contra o sol, mas que no imaginário infantil também evoca o folclore das assombrações noturnas (“Eram velhas oiticicas com seu cheiro penetrante/Tinham sombra repousante das moradas do sertão/Que me davam segurança e, à noite, assombração”). E, para quem não sabe, há uma célebre Oiticica plantada por ele – que inclusive traz uma história impressionante, cuja síntese está numa placa ao lado. Fica na Avenida Campos Sales, em Natal.

2 - Verde Mar (Diógenes da Cunha Lima): Uma faixa melancólica que afasta o mar do clichê turístico e o aproxima da dura realidade social do pescador de subsistência (“O cardume de albacoras busca fome jangadeira/Sou homem oprimido, a tristeza me consome”).

3 - O Olhar da Amada é Como um Barco a Vela Navegante (Roberto Lima de Souza): Canção de forte lirismo praieiro que compara os sentimentos humanos aos movimentos das embarcações nos portos potiguares.

4 - Eterna Harmonia (Zezé Delgado): Uma ode à natureza e à alvorada, comparando o sorriso humano ao canto livre das andorinhas.

5 - Coisa Boa (Música: Hianto de Almeida/Versos: Veríssimo de Melo): Uma das faixas mais célebres do disco, que condensa em sua letra o espírito do lazer e da boemia litorânea tradicional do Rio Grande do Norte (“Coisa boa é querer bem, ter alguém, namorar... Coisa boa é o mar, o luar, e caju com pitu, cafuné, cochilar...”).

6 - Brinco de Amor (Diógenes da Cunha Lima/Veríssimo de Melo): Pequeno poema amoroso que fecha o álbum celebrando a noite e a paixão perfeita sob o clima do litoral.

Reflexões: O álbum Floração é um monumento por conseguir reunir em um único objeto de papelão e vinil as maiores mentes do Rio Grande do Norte. Ver a assinatura visual de Dorian Gray na capa, ler a evocação de Jorge Fernandes e Mário de Andrade na contracapa, e escutar a voz de Lucinha Lira cantando versos de Veríssimo de Melo e Pery Lamartine é o auge do que o Mês do Folclore representa. Quando escuto “Coisa Boa” na minha radiola, a expressão “caju com pitu” (o fruto símbolo de Natal harmonizado com a tradicional cachaça nordestina) salta dos sulcos como um retrato fidedigno de um alpendre praieiro nas lindas praias norte-rio-grandenses.

ÁLBUM 4: SAUDADES DA JUVENTUDE – AMARO SIQUEIRA POR FIDJA SIQUEIRA (1983)

A Capa e a Iconografia do Intérprete: O quarto disco a repousar no prato da radiola é o Projeto Memória - 14, lançado em 1983. A capa estampa uma linda ilustração em formato de caricatura de perfil do compositor Amaro Siqueira, assinada pelo artista Nivaldo. O traço em nankim e bico de pena revela um detalhe de refinada sensibilidade artística: a linha de contorno da lapela do paletó de Amaro se funde, de maneira estilizada, ao desenho de um violão integrado a uma clave de sol. É a iconografia exata de um homem cuja existência confundiu-se inteiramente com o próprio instrumento.

A Contracapa e a Linhagem do Violão Potiguar: O verso do LP funciona como um documento biográfico e musicológico de valor inestimável para o Nordeste. O texto resgata a trajetória de Amaro Carvalho de Siqueira (1908–1970), nascido nas salinas de Areia Branca, cuja mãe foi sua primeira professora de violão. Em 1931, Amaro estudou em Recife com o renomado Isidoro Bacelar (SP), absorvendo uma técnica refinada.

Ao lado do mestre Waldemar de Almeida, ocupou a cadeira de violão do Instituto de Música do Rio Grande do Norte e ajudou a fundar o lendário Clube de Violão de Natal, do qual foi o primeiro presidente. Transitou entre a intelectualidade e os grandes mestres do instrumento no mundo, mantendo contato com nomes do calibre de Maria Luísa Anido (Argentina) e Isaías Sávio (Uruguai/SP). Convidado em 1966 por Waldemar de Almeida para lecionar na Escola de Música da UFRN, Amaro exerceu a função por apenas um mês devido a problemas de saúde, falecendo em 1970.

A gravação deste volume é um ato de amor familiar e acadêmico: as partituras manuscritas de Amaro são executadas por seu filho, Fidja Nicolai de Siqueira, professor de violão da UFRN que se formou na Escola de Belas Artes da UFPE e refinou sua técnica nos Seminários Internacionais de Violão com os monstros sagrados Abel Carlevaro e Jorge Martínez Zárate. O disco mantém a equipe técnica padrão: direção de Deijair Henrique Borges, gravação de Aníbal Félix na Transamérica (Rio) e reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado: O disco é dividido inteiramente entre as criações originais de Amaro Siqueira, resgatadas de seus cadernos de manuscritos:

Lado A:

 

1        - Prelúdio nº 5 (Composto em 1948)

2        - Dança Brasileira nº 2 (Composto em 1953)

3        - Estudo nº 11 (Composto em 1960 – integrante da série “Saudades da Juventude”)

4        - Estudo nº 4 (Composto em 1948)

5        - Valsa de Esquina (Composto em 1960 – integrante da série “Saudades da Juventude”)

 

Lado B:

 

1        - Devaneio nº 1 (Composto em 1960 - integrante da série “Saudades da Juventude”)

2 - Canção Triste (Composto em 1960)

3 - Reminiscências (Valsa – Composta em 1959)

4 - Confidências (Valsa –  Composta em 1959)

Reflexões: Este LP é uma obra de arte por revelar a espinha dorsal do violão erudito potiguar, cuja base melódica bebe diretamente da fonte popular. O texto crítico da contracapa define com precisão: as composições de Amaro Siqueira possuem o “sabor do seresteiro lírico e poético”. Ao escutar faixas como “Valsa de Esquina” ou “Reminiscências” na radiola, percebe-se que Amaro transpôs para a sofisticação técnica do violão solo a atmosfera das calçadas, das esquinas e das serenatas que embalavam as noites do Rio Grande do Norte nas décadas de 1940 e 1950. É a erudição que não nega a sua certidão de nascimento popular.

ÁLBUM 5: ORIANO INTERPRETA ORIANO – PRELÚDIOS POTIGUARES (VOLUME II)

A Capa e a Sobriedade Tipográfica: O quinto álbum a girar na rotação dos afetos é o Projeto Memória - 19: Oriano interpreta Oriano. Rompendo com o padrão visual de ilustrações em bico de pena ou fotografias, esta capa aposta em uma estética puramente tipográfica de corte clássico e sóbrio. Um fundo marrom profundo destaca as letras estilizadas em tom creme, assinadas graficamente por Pedro Pavani. A sobriedade visual antecipa a maturidade e a magnitude do mestre que assume o piano.

A Contracapa e o Inventário da Alma Nordestina: O verso do LP traz um texto crítico fundamental assinado por Mozart Romano. Ele resgata a formação de Oriano de Almeida (1920–2004), potiguar que passou a infância em Natal, diplomou-se no Instituto de Música na classe do professor Waldemar de Almeida e aperfeiçoou seus estudos no Rio de Janeiro sob a lendária orientação de Magdalena Tagliaferro.

Aclamado internacionalmente na Europa, EUA e América do Sul como um legítimo intérprete romântico de Chopin, Oriano definia-se humildemente como “um simples inventor de melodias, que surgem da contemplação da paisagem, ou de uma vaga lembrança do passado...”.

O texto de Mozart Romano pontua com precisão que, embora Oriano transitasse pelo cosmopolitismo europeu (com valsas dedicadas a Paris e Roma), nos seus “Prelúdios Potiguares” sua criatividade sonora identifica-se visceralmente com o colorido das praias, o sussurro do vento e a nostalgia romântica da alma nordestina. A ficha técnica repete a chancela de qualidade: produção de Deijair Henrique Borges, gravação de Aníbal Félix na Transamérica (Rio), montagem de Wilson Medeiros e reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado: Este álbum é um dos maiores inventários etnográficos da história da música brasileira, onde cada faixa funciona como uma crônica de costumes, folclore ou geografia do Rio Grande do Norte:

Lado A:

 

1 - No Caminho do Sertão: Evocação melódica da transição da paisagem litorânea para o interior.

2 - Lenda do Carreiro: Resgate da tradicional figura do condutor de carro de boi do sertão.

3 - Toada Ingênua: Peça lírica inspirada nos cantos tradicionais de interior.

4 - À Sombra da Velha Jaqueira: Crônica quintaleira e afetiva da infância.

5 - Flor de Cactus: Homenagem à resistência e à beleza da vegetação da caatinga.

6 - Chorinho de Guarapes: Louvação ao histórico bairro e região pesqueira de Natal.

7 - Sequilhos e Alfinins: Obra-prima gastronômica que traduz para o piano a textura dos doces tradicionais das feiras nordestinas.

8 - Caiçara do Rio dos Ventos: Pintura sonora inspirada na geografia do município potiguar.

9 - Sertanejo Cantador: Homenagem aos repentistas e poetas da tradição oral.

10 Os Negros do Rosário: Resgate da ancestralidade e da tradicional dança sincopada da Irmandade dos Negros do Rosário do Seridó.

 

Lado B:

 

1 - Polytheama: Homenagem ao pioneiro cinema e teatro que animava a vida cultural de Natal no início do século XX.

3 - Saudade do Potengi: Peça lírica inspirada nas águas e no pôr do sol do rio Potengi.

4 - O Galinho de Santo Antônio: Referência à mítica igreja, marco histórico da capital.

5 - Xarias e Canguleiros: Transposição pianística da célebre rivalidade política e social da Natal do século XIX (os aristocratas “Xarias”, da Cidade Alta, contra os populares “Canguleiros”, do bairro da Ribeira).

6 - O Alvissareiro da Torre da Matriz: Lembrança poética dos sinos e mensageiros da antiga Matriz.

7 - Sarau na Rua da Conceição: Resgate da atmosfera das velhas reuniões musicais da Natal antiga.

8 - “Compraia Juá Jucá”: Obra-prima etnográfica baseada inteiramente nos antigos pregões dos vendedores ambulantes que ecoavam pelas calçadas coloniais.

9 - Lamento da Senzala: Lamento profundo que resgata a memória e as dores da escravidão na formação cultural do estado.

10 -Natal: Homenagem lírica e definitiva à capital potiguar.

11 - As Imburanas da Pedra Grande: Pintura telúrica inspirada no bioma e nas formações geológicas do interior do estado.

Reflexões: Colocar os Prelúdios Potiguares de Oriano de Almeida para rodar na radiola é testemunhar um dos momentos mais geniais da música nacional. Oriano faz com o piano o que Câmara Cascudo fez com a caneta: etnografia pura. Quando a agulha toca os sulcos de faixas como “Os Negros do Rosário”, o piano deixa de ser um instrumento europeu e aristocrático para incorporar o ritmo percussivo do congo e dos tambores afro-potiguares do Seridó. Em “Sequilhos e Alfinins”, a música mimetiza a leveza do açúcar dos doces de tabuleiro, e em “'Compraia Juá Jucá'’, escuta-se perfeitamente o canto dos antigos vendedores de rua de Natal. É o folclore potiguar elevado ao topo do piano de concerto universal.

AMÉRICA LATENTE – TICO DA COSTA (1983)

A Capa e a Estética Latino-Americana: O sexto álbum a ocupar o prato da minha radiola é o Projeto Memória - 31, lançado em 1983. Rompendo com o padrão das ilustrações gráficas dos volumes iniciais, esta capa aposta em uma fotografia colorida de Tico da Costa. O artista aparece de cabelos longos e fisionomia serena, deitado de forma descontraída em uma tradicional rede. A imagem da rede, longe de sugerir mera indolência, estabelece um forte simbolismo: ela é um elemento ancestral e cotidiano da cultura indígena e nordestina. Funciona como o berço para o conceito do álbum, América Latente, que enxerga o Rio Grande do Norte não como um território isolado, mas como parte pulsar de uma América Latina profunda, unida pelas mesmas dores e heranças.

A Contracapa e o Voo Cosmopolita de Areia Branca: O verso do LP apresenta uma síntese biográfica extraordinária de Tico da Costa (Francisco das Chagas da Costa). Nascido na cidade salinense de Areia Branca, sua grande escola foi a própria família de dezesseis irmãos, onde aprendeu violão e começou a compor. Iniciou os estudos formais na Escola de Música de Natal, continuou em Recife e, em seguida, partiu para Roma. Tico viveu oito anos na Europa, realizando turnês pela Itália, Suíça, Áustria, Alemanha, Holanda e França. Gravou cinco discos em solo italiano e assinou colunas sonoras para o cinema, trabalhando com a lendária cineasta Lina Wertmüller. Nos Estados Unidos, realizou espetáculos em um longo circuito universitário.


A ficha técnica documenta a gravação nos Estúdios da Transamérica (Rio), mantendo a engenharia de som de Aníbal Félix, montagem de Wilson Medeiros e a assistência da equipe de estúdio (Laci, Enock e Mauro). A coordenação permaneceu a cargo de Deijair Henrique Borges sob a reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado (Encarte do Lado A): O encarte interno de América Latente exibe as letras completas do Lado A, revelando um jogo de palavras sofisticado e parcerias instrumentais de peso, como a participação especial de Chiquinho do Acordeon e as flautas de Sando:

1 - Carybé-Nancy (Tico da Costa): Canção que saúda as matrizes do candomblé baiano e os traços do pintor Carybé, marcada pelo balanço percussivo do agogô de João Leite e do acordeon de Chiquinho. 


Ai ai que dor/Tá fazendo muito tempo/Que eu não vou a Salvador/Tá fazendo muito tempo/Que eu não vejo Carybé/Cadê cadê candomblé/A poeira da capoeira / Vou subir a ladeira da Sé...


2 - Paixão Atômica (Tico da Costa): Uma composição ágil, urbana e irônica, que dialoga com as vanguardas estéticas e os movimentos sociais da virada da década.

Você me cheira selvática/Fulô amazônica/Uns ares de irônica/Olho de igarapé/Você me caiu simpática... Vixe! Virgem das galáxias/Ondas telepáticas/Vieram informar/ Meu astral afrodisíaco...


3 - América Latente (Tico da Costa): A faixa-título é um jogo de linguagem geopolítico brilhante, adornada pelas flautas de Sando, unindo o Nordeste às fronteiras hispânicas.

Faz mil anos faz/Que a gente quer/Ir ao Paraguai/Aí a gente erra/Esquece a guerra/E vai pro Uruguai/Quais quais quais quais... Quem lá do Pará/Para o Paraná/Vai parar no arrolo Chui/Não, não é aí Ypacaraí/Com essa cara aí/Caray!!


4 - Durango Tango (Tico da Costa): Uma incursão performática e dramática pela sonoridade portenha, cantada em português e espanhol, amparada unicamente pelo violão de Tico e o acordeon de Chiquinho.

É tango argentino/Nossas vidas/É um tango argentino/Nosso amor/O drama de nós dois/É fatal/Carinho de nós dois/É punhal...

5 - Menino Menina (Tico da Costa): Um acalanto poético de rara doçura, que traz a participação de Ely Oliveira no coro e evoca o riso luminoso de Elis Regina.

A vida ensina/Muita coisa em surdina/E fala mansinha/Como a voz de Lurdinha... Como o riso de Elis Regina/Bem-dita seja a vida/E a vida que da vida vinga...


6 - Ridinha (Tico da Costa): Uma das maiores obras-primas do álbum, onde Tico reconecta a mítica praia natalense à clássica estrutura rítmica da ciranda de roda e do folclore praieiro.

Eu sou feliz na praia da Ridinha/Numa redinha balançando o mar/Adoro adorar lua rainha/Que vem ralando feito arraia no céu/A lua arria na areia do rio/O rio se areia/ E vai virando mar...

O Repertório Comentado (Encarte do Lado B): O Lado B do encarte aprofunda a imersão na oralidade do interior nordestino, nas festas de fogueira e no sentimento do exílio:

1 - Lagartixa (Tico da Costa): Um dos momentos mais viscerais do disco. Tico utiliza termos da oralidade sertaneja (como “brocoió”, "calango" e “zambeta”) para construir uma crônica social crua sobre a lida e a escassez do homem do campo.

Ó, lagartixa, brocoió calango longo/No telhado se espreguiça/Que o gato tá lhe cubando/A testa larga a lagartixa... Olha “fartura”:/farta carne, farta o feijão/Farta verdura, ó, vida dura, e sem condição... Filho de besta é besta filho/É filho da luta...

2 - Lua Pheia (Tico da Costa): Faixa sustentada pelo surdo de Mingo e o coro de Ely Oliveira, onde a lua é personificada como um agente enxerido do folclore amoroso, capaz de quebrar simpatias e desfazer cirandas.

Ai lua vazia/Sua luz não alumia/Só danço essa ciranda/Se dançar com meu amor... O lua sem-vergonha/Da cara de pamonha/La vem você metida/Ó lua enxerida/Vem cheia de ilusão/Me enchendo de saudade / Botando mau-olhado/Na minha felicidade...

3 – Roma – Olinda (Tico da Costa): A canção que melhor resume o espírito do álbum. O compositor contrasta a amargura urbana e o inferno do exílio europeu com o desejo catártico de retornar às festas juninas do Nordeste.

Arruma as malas/Vou voltar pra Pernambuco/Já tô virando maluco/Neste inferno infernal... Quero acender fogueira/Pra São João/São João me disse/E São Pedro confirmou... Ai o amor fumega em meu peito/Feito lenha/Feito tição... Eu sou que nem um fogueeeeeeeeeeetão...

4 - Atonia (Tico da Costa): Um samba triste e confessional, adornado pela flauta melancólica de Sando, que canta a dor da ausência e a despedida amorosa em surdina.

Tem pena;Tem dó;Do meu sofrer... No beijo frio/Que você deu/Havia um tom/De adeus; Que me deixou/Pra lá de só... Meu violão desafogou/Minha dissonância / Em ré maior...

5 - Cabelos de Sol (Tico da Costa): Uma ode delicada à infância e à paternidade, embalada por uma atmosfera praieira de calmaria.

Menino dos cabelos de sol/Menino do cheirinho de mar/Que morde o papai/Que dança pra mamãe/Dá quatro, cinco passos e cai...

Reflexões: Colocar América Latente para rodar na radiola é compreender o “folclore em movimento”. Tico da Costa prova que o artista popular não precisa ficar confinado geograficamente para preservar sua autenticidade. O genial trocadilho poético construído na faixa “Lagartixa” (“Olha 'fartura': farta carne, farta o feijão...”), invertendo o sentido de abundância para denunciar a falta, é de uma precisão literária assustadora. E a explosão vocal teatralizada no encerramento de "Roma-Olinda" (“fogueeeeeeeeeeetão”) captura a mais pura espontaneidade das manifestações populares de rua. É o Rio Grande do Norte ganhando o mundo sem jamais romper o cordão umbilical com a terra.

ÁLBUM 7: CANÇÃO PARA NATAL – VÁRIOS AUTORES (1983)

A Capa e a Pintura Ribeirinha: O sétimo álbum a girar na rotação dos afetos é o Projeto Memória - 28, lançado em 1983. A identidade visual deste volume é uma das mais deslumbrantes de todo o acervo. Trata-se de uma aquarela e nanquim que retrata a Natal antiga, boêmia e portuária. Na pintura, destaca-se em primeiro plano o leito dos trilhos e vagões de trem da antiga Great Western, contornando o casario histórico do tradicional bairro da Ribeira.

Logo adiante, as águas azuis do rio Potengi servem de berço para jangadas e barcaças a vela, tendo ao fundo a icônica silhueta da Fortaleza dos Reis Magos e o farol estilizado. A pintura traz a assinatura clássica de Dorian Gray Caldas (“Mariano. 82”). Curiosamente, o verso do LP credita a obra a outro gigante das artes plásticas potiguares, Newton Navarro, sugerindo uma rica colaboração, alternância de projetos gráficos ou uma homenagem cruzada entre os dois mestres na editoria da universidade.

A Contracapa e o Manifesto da Modernidade Popular: O verso do LP traz um texto crítico fundamental assinado por Paulo de Tarso C. Melo. Ele revela um dado estatístico formidável sobre a magnitude da iniciativa universitária: até aquele ano de 1983, o Projeto Memória da UFRN já havia garantido o resgate e a permanência de mais de trezentas músicas de autores norte-rio-grandenses, que antes estavam sujeitas à pura e simples desaparição devido ao isolamento em relação aos grandes mercados do Sudeste.


Paulo de Tarso pontua que, após o projeto documentar o canto classico do Madrigal, o piano de Oriano e conjuntos tradicionais de choro (como o “Choro Brejeiro”), este volume assume uma visão “aberta e despreconceituosa de documentação cultural”, recrutando um “conjunto jovem” de instrumentistas de Natal. O grupo, composto por Etelvino (teclado), Chagas (guitarra e viola), Prentice (violão), Jeferson (baixo), Ivanildo Bauru (bateria) e Negão (percussão), além da flauta de Luizinho Braga, introduziu arranjos modernos da MPB dos anos 1980 para vestir temas profundamente tradicionais e telúricos. A produção manteve o selo de Deijair Henrique Borges e a engenharia de som de Aníbal Félix na Transamérica (Rio), sob a reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado (Encarte do Lado A): O encarte interno de Canção Para Natal traz as letras completas, revelando parcerias primorosas entre intelectuais e folcloristas:

1 - Saga do Carnaubal (Almir Padilha/Celso da Silveira – Intérprete: Almir Padilha): Um dos maiores monumentos etnográficos do disco. A letra descreve minuciosamente o ciclo socioeconômico e o vocabulário técnico do corte da carnaúba (a árvore da providência do sertão).

Vareiro que corta a palha/Tuleiro que apara espinho/Juntador que enfeixa a palha/Pra cambitar no burrinho... Tangerino carrega a palha/Para empilhar estaleiro... Trinchador que trincha a palha/Em faca de sete pontas... Tacheiro que coze a cera...

2 - Assunto Pessoal (Veríssimo de Melo/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Lucinha Lyra): Uma feliz e rara parceria musical entre o lendário folclorista Veríssimo de Melo e o reitor-poeta Diógenes, cantando o mistério e a invenção do amor.

Não me perguntem/O que se passou/Na cama bonita do amor... Guardo o segredo de amor sem fim... Segredo é a invenção do amor / Como Deus inventou a flor...

3 - Canção Para Natal (Nelson Hermógenes Freire/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Silvinha): A faixa-título funciona como um hino de exaltação geográfica e afetiva da capital potiguar.

Se você passar por aqui/Não pode deixar de ver/A Ribeira, o sol, a lama/As águas do Potengi/O Farol no alto morro/Dunas brancas que nem lençol... Os cajueiros em Pirangi...

4 - Canção do Índio Triste (Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Zezé Delgado): Uma composição melancólica de resgate das matrizes indígenas, que utiliza em seus versos e refrãos a expressão em língua nativa “Zan Noyoliyo”.

Zan Noyoliyo / Zan Noyoliyo / Eu de mim só tenho a vida / A vida que foi canção / Venha apresentar-se aqui / Quem tem triste o coração...

5 - Naquele Tempo de Cadeiras nas Calçadas (Roberto Lima / Alberto Lima – Intérprete: Silvinha): Uma belíssima e nostálgica ode ao hábito folclórico e interiorano das tertúlias e conversas ao anoitecer, que resistia na Natal antiga.

Naquele tempo de cadeiras nas calçadas / Brincadeiras inventadas / Eram mais do que brincar... As nossas ruas eram todas conhecidas / Suas casas parecidas / Seus viventes tão leais / Que a gente sempre conhecia o seu segredo...

O Repertório Comentado (Encarte do Lado B): O Lado B estende o mapa musical do estado em direção aos grandes espelhos d'água e ao cancioneiro do Seridó:

1 - Coisas Raras (Zezé Delgado/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Zezé Delgado): Canção de forte acento poético existencial sobre a capacidade de reencantar o olhar sobre a vida.

A vida é surpresas minha amiga/Coisas raras acontecem todo dia... É preciso ver o mundo novamente/Com os olhos espantados de menino...

2 - Gargalheiras (Almir Padilha/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Almir Padilha): Uma obra-prima telúrica e de vocação universalista, cantada inteiramente em espanhol, homenageando o imponente Açude Gargalheiras, em Acari, símbolo hídrico do Seridó.

Partiendo las sierras/Cortando los cerros/Una gran fonte/El Gargalheiras/Como si fuera un mar... Hermano de cedro, del Pueblo/Lino blanco del Seridó... Madre y Padre, de los hijos de Acari...

3 - A Moça em Flor (Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Silvinha): Uma composição bucólica e praieira que resgata o balanço e a mística do descanso na rede nordestina.

Rede branca de varanda/Como as espumas do mar/É uma carícia pra o corpo/E uma canção de ninar... Armador geme o amor...

4 - Pixanana (Roberto Lima/Pery Lamartine – Intérprete: Negão): Parceria com o pesquisador Pery Lamartine que exalta a beleza singela da pixanana, flor brava e nativa do chão duro do sertão potiguar.

Pixanana flor do mato/Nasce no meio da rua/No sertão é flor de dama/Na cidade não atua/No chão duro, pedregoso... Ai Pixanana que saudade você tem/É beleza, é singeleza, é lembrança do meu bem...

5 - Pesca de Açude (Celso da Silveira – Intérprete: Lucinha Lyra): Uma crônica perfeita e festiva sobre a subsistência no semiárido quando as grandes barragens do interior sangram com as chuvas.

A chuva chegou/Barragem sangrou/Peixinho que ficou/Menino pescou ó/Traíra, Coró, Cará/Menino pescou com seu landuá... Menino só pesca em açude com seu landuá...

Reflexões: Este Volume 28 é um achado indispensável para qualquer colecionador por demonstrar que o folclore não é um fóssil congelado no passado, mas uma tradição em permanente mutação e diálogo com o seu tempo. Quando coloco a agulha da minha radiola para trilhar os sulcos de “Saga do Carnaubal”, escuto um vocabulário técnico de lida (o landuá, o tuleiro, o cambitar) que corre o risco de sumir dos dicionários modernos, mas que permanece vivo no vinil. E a audácia de Almir Padilha ao cantar o Gargalheiras em espanhol revela a sofisticação de uma província que sabia dialogar com o mundo inteiro a partir de suas próprias águas.

ÁLBUM 8: CANCIONEIRO POTIGUAR (VALSAS E MODINHAS DE SERESTA) – VOLUME II (1983)

A Capa e o Relicário Fotográfico: O oitavo e último disco a ocupar o prato da minha radiola é o Projeto Memória - 18, lançado em 1983. Rompendo com o padrão das ilustrações em nanquim ou aquarela dos volumes anteriores, esta capa aposta no registro puramente fotográfico, capturado pelas lentes de Cândida Bezerra. A imagem colorida exibe cinco figuras reunidas em um ambiente de jardim, com folhagens ao fundo. Duas mulheres estão sentadas em um clássico banco de praça branco e três homens encontram-se de pé logo atrás, com vestes sóbrias da época.

A Contracapa e a Memória das Serenatas: O verso do Cancioneiro Potiguar (Valsas e Modinhas de Seresta – Volume II) é um delicado exercício de preservação da memória afetiva. Logo no alto, a escolha do verso de Carlos Drummond de Andrade - “Mas as coisas findas / Muito mais que lindas / Essas ficarão” - funciona como a chave de leitura de todo o álbum. A frase sintetiza a proposta do Projeto Memória: demonstrar que as antigas serenatas, embora desaparecidas das ruas, permanecem vivas quando encontram abrigo na música e na lembrança coletiva.

A A fotografia central registra os intérpretes Fátima de Brito e Gerardo Parente durante a gravação, diante do piano, reforçando o caráter documental do disco. Não se trata de uma produção voltada ao espetáculo, mas do testemunho de um trabalho de pesquisa e reconstrução histórica. Ao lado da imagem, um breve texto esclarece que aquelas canções chegaram até o presente graças à memória de informantes como José de Almeida, Luiz de França Moraes, Nilberto Cavalcanti de Souza, Regina Lima Machado e Rosa Cabral de Brito. A frase final -“Poetas e músicos mortos, poemas e melodias vivos” - resume com rara felicidade a missão do álbum: devolver voz a um repertório que sobrevivia apenas na tradição oral e nas recordações de antigas famílias natalenses.

A composição gráfica da contracapa também revela uma opção estética coerente com todo o projeto. A sobriedade da ficha técnica, a simples relação das faixas e a fotografia de estúdio dispensam qualquer exuberância visual para colocar em primeiro plano aquilo que realmente importa: a permanência da música. É um documento de enorme valor histórico, pois registra não apenas um repertório de valsas e modinhas, mas o esforço consciente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em transformar a memória sentimental de Natal em patrimônio fonográfico permanente.

Essa disposição visual emoldurada em amarelo remete imediatamente aos retratos de famílias tradicionais e antigos grupos de seresteiros do interior. O subtítulo do álbum, (valsas e modinhas de seresta), grafado em tom creme sobre o fundo marrom e alaranjado, amarra o projeto visual diretamente ao seu propósito sonoro: resgatar a trilha sonora sentimental do Rio Grande do Norte nas primeiras décadas do século XX.

O Encarte e o Clima Passadista da Velha Natal: O encarte interno deste LP é um dos documentos memorialistas mais bonitos de todo o acervo da UFRN. O texto de abertura resgata com profunda melancolia a transição da sociabilidade urbana na capital potiguar, funcionando como um verdadeiro ensaio folclórico. Ele evoca a “Natal das primeiras décadas do novecentos... tempo de cadeiras nas calçadas...”, período em que os poemas mais queridos passavam de boca em boca através do aprendizado oral ou eram anotados em cadernos pessoais de rapazes e moças. O texto pontua a divisão social desse folclore urbano: enquanto o violão acompanhava as vozes nas serenatas de rua, o piano substituía o instrumento nas casas abastadas, de modo que “a modinha estava dentro e fora das casas”.

O manifesto encerra-se com um lamento poético sobre o advento da modernidade: “Tempo passado. Foram-se as cadeiras nas calçadas. Também se foi a luz da lua, apagada pela luz elétrica. Ficaram, porém, os poemas musicados, memória linda deste tempo findo”. O disco assume que sua missão foi recolher, junto a informantes sobreviventes e familiares – como José de Almeida, Luiz de França Moraes, Nilberto Cavalcanti de Souza, Regina Lima Machado e Rosa Cabral de Brito –, as melodias e solfas (partituras) que o tempo e a tradição oral modificavam, fixando a interpretação com o objetivo de “deixar fluir o clima passadista que só a memória pode guardar”. A ficha técnica repete o padrão sob a coordenação de Deijair Henrique Borges, gravação de Aníbal Félix na Transamérica (Rio), montagem de Wilson Medeiros e reitoria de Diógenes da Cunha Lima.

O Repertório Comentado (Lado A): O Lado A do encarte traz as letras completas defendidas pelo canto lírico de Fátima de Brito e o piano sofisticado de Gerardo Parente, resgatando poetas e músicos históricos:

1 - Súplica (Poesia: Ferreira Itajubá/Música: Olímpio Galvão): Obra-prima do lirismo potiguar. A poesia do mestre Ferreira Itajubá ganha uma melodia dramática e romântica, perfeita para as antigas serenatas de janela.

Ó minha amada, dize que me queres/Tira da minha mente essa descrença/Que eu sou a vítima de tantas dores... Abre a janela, vem ouvir as queixas/Deste infeliz que vive a te adorar...

2 - Por Estes Teus Olhos Tão Bonitos (Autor: Manuel de Oliveira Costa): Modinha tradicional de corte romântico e confessional, marcada pelo jogo lírico da dor do amor sob o luar.

Por este teus olhos tão bonitos/Que me trazem num doce encanto/Não permitas que eu viva em prantos... A frouxa luz da lua / Que clareia a imensidão...

3 - Caminho do Sertão (Poesia: Anfilóquio Souza/Música: Abdon Praxedes): Transposição de um tema tradicional do interior (já explorado na música instrumental do projeto) para o formato de modinha cantada.

No caminho do sertão/Eu vi uma linda flor/Que trazia no coração/A lembrança do meu amor... Era uma linda rosa branca...

4 - Sereia (Autor: Luiz de França Moraes): Composição que resgata a mítica figura folclórica da sereia sob a perspectiva do lirismo litorâneo potiguar, sob o Cruzeiro do Sul.

Sereia, que vives no mar/Vem ouvir o meu cantar/Que a noite está tão linda/E eu quero te namorar...

5 - Primeiro Amor (Tradição Oral): Canção de autoria anônima, transmitida de geração em geração pelos cadernos de modinhas de Natal.

O primeiro amor que tive na vida/Foi um sonho de rara beleza/Deixou minh'alma ferida/No meio de tanta tristeza...

6 - Sozinho (Tradição Oral): Outro achado do cancioneiro anônimo das calçadas, que canta a solidão urbana e a recordação amorosa ao cair da noite.

Eu vivo na terra sozinho/Sem ter quem me queira bem... A noite desce serena/Trazendo a recordação...

O Repertório Comentado (Lado B): O Lado B do encarte coroa o disco unindo grandes nomes da história literária e musical do estado, incluindo peças do gênio Tonheca Dantas:

1 - Maria (Poesia: Lourival Açucena/Música: Tonheca Dantas): Um dos encontros mais monumentos da cultura potiguar. Os versos do poeta Lourival Açucena recebem a arquitetura melódica do gênio do Seridó, Tonheca Dantas (autor da célebre valsa Royal Cinema).

Maria, cujo nome evoca o céu/Cuja imagem me traz a doce luz/Se do meu peito cai o negro véu/É o teu olhar que à vida me conduz... Vem, escuta a voz que te chama/Nesta noite de calmaria e luar...

2 - Na Hora em que se Encobre de Neve as Serranias... (Tradição Oral): Modinha de acento nostálgico e passadista, que usa imagens climáticas dramáticas para cantar a ausência da amada.

Na hora em que se encobre de neve as serranias/E o sol esconde a sua luz dourada /Eu sinto voltar as velhas nostalgias...

3 - Um Sonho (Poesia: Nelson Hermógenes Freire/Música: João Rodrigues): Poema transformado em canção que contrasta a ilusão perfeita do sonho amoroso com a dura e escura realidade da solidão.

Eu tive um sonho de encanto/No qual tu eras a minha rainha... Mas acordei e vi a realidade/O quarto escuro e a solidão...

4 - Aurideia (Autor: Pedro Guimarães): Modinha romântica que personifica a amada como a estrela-d'alva, guia dos caminhos do seresteiro.

Aurideia, estrela d'alva/Que brilha no céu azul/O teu olhar me salva/Do norte ao extremo sul...

5 - Para os Teus Olhos (Autor: Antônio Justino de Caldas): Belíssima e melancólica peça de calçada sobre o desencontro de olhares e a dor do adeus gelado.

Para os teus olhos voltei o meu olhar/Buscando neles a luz da esperança... Mas os teus olhos fugiram dos meus...

6 - Recordação (Poesia: Ferreira Itajubá/Música: Luiz de França Moraes): O álbum se encerra de forma perfeitamente coerente, unindo novamente Ferreira Itajubá ao mestre Luiz de França Moraes para cantar a saudade das velhas serenatas e das coisas findas.

Volto ao passado em pensamento/Buscando os dias que não voltam mais... A velha casa, a rua deserta/Onde a seresta costumava passar... Mas as coisas findas, bem o sei/Ficarão vivas no meu coração...

Reflexões: Colocar este segundo volume do Cancioneiro Potiguar para tocar na minha radiola, neste mês de agosto, é realizar um ato de comunhão com a história de Natal. Este disco é o retrato de um tempo em que a poesia andava pelas ruas e o amor era declarado ao rés do chão, nas calçadas coloniais da Ribeira ou da Cidade Alta. A constatação do encarte de que “a luz da lua foi apagada pela luz elétrica” resume com precisão cirúrgica o impacto do progresso sobre as manifestações folclóricas urbanas. Escutar a voz de Fátima de Brito dando vida às notas que o gênio Tonheca Dantas escreveu para os versos de Lourival Açucena em “Maria” é a prova cabal de que esses cadernos de poemas não morreram; eles encontraram abrigo eterno na fidelidade do vinil.



O Legado dos LP’s

Analisar detalhadamente este conjunto de oito raridades do “Projeto Memória” da UFRN, retirados diretamente do acervo de 500 LPs da minha radiola, é compreender que o folclore e a cultura popular do Rio Grande do Norte não são fósseis estáticos destinados ao esquecimento. Através do canto polifônico do Madrigal, das crônicas litorâneas do coco e do bambelô, do manifesto modernista de Lucinha Lira, do violão de Amaro Siqueira, do piano etnográfico de Oriano de Almeida, do voo latino de Tico da Costa, das odes modernas de Canção para Natal e do lirismo boêmio do Cancioneiro Potiguar, a nossa universidade operou um milagre estético. Ela salvou uma herança inteira da desaparição, garantindo que a identidade norte-rio-grandense permanecesse gravada, girando na rotação exata da nossa história. Neste mês de agosto, celebrar o folclore é, acima de tudo, manter viva essa agulha sobre o vinil.

LETRAS DAS MÚSICAS E FICHAS TÉCNICAS DOS ÁLBUNS COM ENCARTE

ÁLBUM 2 - BAMBELÔ - EMMANUEL DE MELO E SILVA (1982)

Ficha técnica

Projeto: Projeto Memória - 7

Artista/intérprete: Emmanuel de Melo e Silva

Entidade realizadora: Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

Ano: 1982

Coordenação: Deijair Henrique Borges

Gravação: Aníbal Félix - Estúdios da Transamérica, Rio

Montagem: Wilson Medeiros

Diretor técnico: Edeltrudes Marques da Silva

Reitor: Diógenes da Cunha Lima

1. BAMBELÔ

Autoria: Fernando Luís da Câmara Cascudo

Eu quero tomar banho

Eu quero me banhar

Eu quero tomar banho

Nos banheiros de Iaiá

Oi no meu sertão, seu Mano

Tem um boi morto, seu Mano

Quando era vivo, seu Mano

Comia solto, seu Mano

Eu tirando côco, seu Mano

É pra imbolar, seu Mano

Traga o zabumba, seu Mano

E o maracá, seu Mano

Traga as morena, seu Mano

Pra nós dançar, seu Mano

Que a noite é bela, seu Mano

Pra nós congar, seu Mano

O côco pra ser côco

Tem que ser catolé

O homem pra ser homem

Tem que ter cinco mulher

Oi no meu sertão, seu Mano

Tem um boi morto, seu Mano

Quando era vivo, seu Mano

Comia solto, seu Mano

Eu tirando côco, seu Mano

É pra imbolar, seu Mano

Traga o zabumba, seu Mano

E o maracá, seu Mano

Traga as morena, seu Mano

Pra nós dançar, seu Mano

Que a noite é bela, seu Mano

Pra nós folgar, seu Mano.

2. TEU VENTRE

Autoria: Diógenes da Cunha Lima

As minhas retinas guardam

A brancura do teu ventre

A vida viva tecida

Perde fios nos meus dentes

Um displicente amor

Curtindo a alma da gente

És um amor leviano

Que finda e não se pressente

Resta parte do teu corpo

Nada fica em tua mente

Os caminhos se mudaram

Para amores diferentes

As minhas retinas guardam

A brancura do teu ventre

A vida viva tecida

Perde fios nos meus dentes

Um displicente amor

Curtindo a alma da gente

És um amor leviano

Que finda e não se pressente

Tenho o prêmio de guardar-te

Tua voz já não me encanta

Ganham ausência, distância

Guardo a linha do teu ventre

Teu ventre, teu ventre

3. MIRAGENS

Autoria: Enoch Domingos

Ouvi da princesa da noite

Estórias de morte e de amor

No canto do mago alquimista

Segredos da pedra e da flor

Revistas lidas pelo tempo

No dia da encarnação

Morenas de estrela na testa

Nos dias de festa

Na festa dos dias

Miragens

Que o tempo

Inda guarda

Na boca da noite

O veneno amarga

Miragens

Que o tempo

Inda guarda

Na boca da noite

O veneno amarga.

4. POUSO

Autoria: Roberto Lima de Souza

Este coração magoado,

Meu coração maltratado,

Tem vontade de voar...

Quem quiser comigo vir pelo azul

Tem que ter amor pra dar...

Este coração magoado,

Meu coração maltratado,

Tem vontade de falar...

Tem vontade de dizer tanta coisa,

Mas não diz pra não chorar...

Este coração cansado

De tanta mágoa guardar

Também guarda uma esperança que alcança

Às profundezas do mar...

Volta, coração,

Que é hora de retornar

De pousar por sobre as dunas de areia

De ficar no teu lugar...

Volta, coração,

Que é hora de retornar,

De dormir sob as palmeiras macias

Numa noite de luar...

5. POEMA DOS MACUNIS

Autoria: Diógenes da Cunha Lima

Abaai, bita, popi

Amabá poaté poitecé

Anari anari anari

Anari anari anari

O Poema dos Macunis

Você não pode entender

Os Gês Tapuias Tupis

Musicavam o entardecer

Se você mal traduzir

Não vai bem compreender

Você por certo vai rir

Da tradução pra valer

Quando as mulheres vão urinar

As árvores olham sem comentar

Comentar comentar comentar

Comentar comentar comentar

Abaai, bita, popi

Amabá poaté poitecé

Anari anari anari

Anari anari anari.

6. NAVEGANTE SEM MAR

Autoria: Babal

Nos raios do amor

Da cor desse mar

Ladeira do sol

Praias, quebra-mar

Onde eu me vi

Crescer no olhar

Na canção que fiz

Pra você cantar

Quero sua lua

Pra me iluminar

Sonho ser um

Navegante sem mar

Sê meu coração

Barco, vela, mar

Navegante flor

Girando no ar

Junto o azul do céu

Com a luz do olhar

Na canção que fiz

Pra você cantar

7. PROCISSÃO DOS NAVEGANTES

Autoria: Roberto Lima de Souza

Rio azul, vela ligeira

Na Redinha a velejar,

Morenice da praieira,

Verde abraço desse mar...

Na Redinha, a lua cheia,

Rendilhando o coqueiral,

Espedaça luz na areia,

Traz um beijo de Natal...

Cajus vermelhos dourados

Enfeitam as cores daqui,

Barcaças de velas brancas

Sobre o azul do Potengi...

Rainha dos navegantes,

Senhora, Senhora minha,

Abençoando as jangadas

Lá da praia da Redinha!

Meninas gingam com graça

Na lancha que vem das Rocas,

Mulatos bebem cachaça

Com peixes e tapiocas...

Rainha dos navegantes,

Senhora, Senhora minha,

Abençoando as jangadas

Lá da praia da Redinha...

Pandeiros cheios de fitas

No meio da multidão,

Mulata em rendas bonitas,

Barcaças em procissão...

Rainha dos navegantes

Senhora, Senhora minha,

Abençoando as jangadas

Lá da praia da Redinha...

Ave Maria

Rainha dos Navegantes } Bis

8. AS ANCAS DE MARIA

Autoria: Diógenes da Cunha Lima

Maria se foi

Alegre poltranca

Nunca mais voltou

Rebolando as ancas

Se sonho sonho redondo

Com as ancas de Maria

As ondas redondam o mar

Verdes côcos da Bahia

Ai, ai, são as ancas de Maria (bis)

No encavado das dunas

Nas voltas da ventania

No som do sapato alto

Em noites de calmaria

Ai, ai, são as ancas de Maria (bis)

Em duas partes da flor

Nos quilhões da barcaria

Na nuvem que se juntou

Foco de luz me alumia

Ai, ai, são as ancas de Maria (bis)

Na lua quarto crescente

Nas torres da abadia

Na forma desta viola

Nas nascentes do meu dia

Ai, ai, são as ancas de Maria (bis)

Nas curvas da natureza

No mapa mundi estaria

Em motivo de emoção

Balanço, cor, fantasia

Ai, ai, são as ancas de Maria (bis)

Maria foi e ficou

Que vida doida e ruim

A poltranca pulou cerca

Mas ficou dentro de mim

Ai, ai, são as ancas de Maria (bis)

9. XOTE NA RIBANCEIRA

Autoria: Fábio Fernandes

Fui dançar xote

Na margem da ribanceira

Com o céu mostrando a lua

Brilhando no ribeirão

E as meninas entraram

Na brincadeira, dançamos

A noite inteira com fogo

No coração

E as meninas entraram

Na brincadeira, dançamos

A noite inteira com fogo

No coração

Chegando o dia

Com a noite indo embora

Me recordo toda hora

Como é gostoso xotear

Dançando xote na margem

Da ribanceira

Durante a noite inteira

Até o dia clarear

Dançando xote na margem

Da ribanceira

Durante a noite inteira

Até o dia clarear

10. O ÔNIBUS

Autoria: Roberto Lima de Souza

O ônibus vai

No dia que vem,

Levando operário

E ambulante que tem

Brinquedos pra todos

Com qualquer vintém,

O funcionário,

O colegial,

Lavadeira e bancário,

Vendedor de jornal...

A dona de casa

Que vai para a feira,

O ônibus vai

Sobe e desce a ladeira,

E todos que vão

Sobem e descem também,

No dia que vai,

O ônibus vem,

Vai trazendo quem foi,

Até trazer ninguém...

O ônibus vai,

O ônibus vem,

Levando saudade

E esperança também,

Quem foi, quem não foi,

Quem ia ou não ia,

Quem foi, quem não foi,

Quem vinha ou não vinha

Todos vão se encontrar

Lá no fim da linha...

Todos vão se encontrar lá...

Lá no fim, lá no fim,

No fim, no fim, no fim

11. TOUROS

Autoria: Ivanildo

Tem pic-nic

Lá pras bandas do farol

Pescaria pela barra

Do riacho Maceió

Tem jurrubado

No penhasco escarpado

E coqueiro recortado

Trás dos montes

Contra o sol

Eu esmoreço

Esqueço até da hora

Preso no tresmalho

Sem querer sair

E só me mexo

Quando meu xamego

Arma a sua rede

E vem chamar

Pra nós dormir

Tê, tê, tê,

Tê Touro, Touros (bis)

Se o sol desponta

Lá na barra do horizonte

Meu amor me acorda cedo

Pra eu poder me espreguiçar

É lavrador

Eu vou pro cabo da enxada

Jangadeiro pra jangada

Boiadeiro pra aboiar

De volta ao rancho

Eu fico assuntando

Terá doce de côco

Goiabada ou caju

Mas quando eu vou

Chegando no terreiro

Debaixo daquele beijo

Com sabor de guajiru

Tê, tê, tê,

Tê Touro, Touros... etc.

E assim a vida

Escorrega bem dolente

Quem se enrabichou contente

Mas nem tudo é só fulô

Tem moça veia

Que se posta no batente

Esperando finalmente

Um xodó que não voltou

E essa coisa toda me azucrina

Em riba dessa sina

Quer enganar a dor

Em cada uma

Eu vejo Vitalina

Toda empoada

Esperando seu amor

Tê, tê, tê,

Tê Touro, Touros... etc.

12. PILÃO

Autoria: Diógenes da Cunha Lima

Pilo, pilo, pilo

pilo, pilo no pilão (bis)

Na mão do pilão

Tem sangue e suor

Tem resto de tempo

Tempero e café

Pilo, pilo... etc.

Na mão do pilão

Eu bato a tristeza

Machuco a beleza

De quem não me quer

Pilo, pilo... etc.

Na vida sem brilho

Farelo de milho

Tem carne, farinha

O amor me sufoca

Eu faço paçoca

De quem não me quer

Pilo, pilo... etc.

ÁLBUM 3 - FLORAÇÃO - LUCINHA LIRA (1981)

Ficha técnica

Projeto: Projeto Memória - 3

Artista/intérprete: Lucinha Lira

Entidade realizadora: Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

Ano: 1981

Gravação: Estúdios da Transamérica - Rio

Coordenação: Deijair Henrique Borges

Reitor: Diógenes da Cunha Lima

Capa: Dorian Gray Caldas

1. FLORAÇÃO

Autoria: Diógenes da Cunha Lima

Ias florando

A manhã onde passavas

Teu riso faz

Sorriso em caras duras

Meninos sentem

Por ti, mil alegrias

Meninas, sono tornadas,

Ficam puras.

Sons em ti se combinam em melodia

Do meu dia, em melodia

Estão em ti as horas boas do meu dia

Em melodia, do meu dia

Passa na tarde

O som verde dos teus passos,

O ar imita forma

Tua Floração

É preciso

Reter teu lindo instante

Antes que o tempo

Tome de ti em sua mão

Sons, em ti...

Caminha a noite

Por teus olhos calados

Raios em pelo nua

Restam do sol posto

Madrugada destina

A noite para longe

As flores da manhã

Nascem do teu corpo

2. CAJUEIRO

Autoria: Música: Oriano de Almeida; Verso: Veríssimo de Melo

Cajueiro

Da beira do mar

Cadê a sereia

Qu’eu quero noivar

Que eu quero beijar

Cajús amarelos

Vermelhos também

Procurem bem longe

Pra ver se ela vem

Pra ver se ela vem

Cajueiro

Na alvura das dunas

Teu verde é tão verde

Que fere o luar

Cajueiro

Conversa com a lua

Encontra a sereia

Que eu quero beijar

3. CIDADE DE DEZEMBRO

Autoria: Nei Leandro de Castro e Rogério Rossini

4. VELHAS OITICICAS

Autoria: Letra: Pery Lamartine; Música: Roberto Lima

Velhas árvores que eu via

No meu tempo de criança

Que me davam segurança

E, à noite, assombração,

Eram velhas oiticicas

Com seu cheiro penetrante,

Tinham sombra repousante

Das moradas do sertão...

As crianças buliçosas

Pelos seus galhos subiam

E brincavam e ouviam

A passarada a cantar...

Eram velhas oiticicas

Com seu cheiro penetrante

Tinham sombra repousante

Das moradas do sertão...

Tão antigas, tão serenas,

Inda vivem seu destino,

Acolhendo outros meninos

Daquele mesmo lugar...

Eram velhas oiticicas

Com seu cheiro penetrante,

Tinham sombra repousante

Das moradas do sertão...

Oiticicas tão amadas

Não consigo esquecê-las

Outro dia fui revê-las

Num encontro de saudade:

Abracei, com emoção,

Os seus troncos retorcidos

Já gretados, corroídos

Pelo tempo, pela idade...

5. VERDE MAR

Autoria: Diógenes da Cunha Lima

O mar assanha as ondas

O azul no alto mar

O mar canta na praia

Cantigas de embalar

Verde mar, verde mar, verde mar

Meu mal é amar, cura o mal esse mar

Verde mar, verde mar...

O cardume de albacoras

Busca fome jangadeira

A tristeza me sufoca

E a mulher não companheira.

Verde mar...

A dor não mede o choro

Nem o prato a minha fome

Sou homem oprimido

A tristeza me consome.

Verde mar...

6. O OLHAR DA AMADA É COMO UM BARCO A VELA NAVEGANTE

Autoria: Roberto Lima de Souza

Entre o homem e a sua fome

Dois modelos de mulher

A primeira é a solidária

A outra o desejo quer.

Vem mulher, vem mulher, vem mulher

Vem mulher, vem mulher, vem mulher

Vem mulher, vem mulher, vem mulher

Olha, gente,

O olhar da amada é como

um barco a vela navegante,

Olhar mirante

Em mar amante,

Perto ou distante,

Vou caminhante

Buscar-lhe a cor,

Momento amor,

Momento flor...

Olha, gente,

Eu vi em noites, madrugadas,

luas, sol e estradas,

Vendo alvoradas

De migalhas

De esperança e dor,

Do amor amante,

Do amado amor,

Amor instante

E eterno amor...

Ah! eu vim trazendo em mim,

Como um porto pr’esse olhar,

Todo o amor pra lhe dar...

O que esse olhar não viu

Foi a dor dessa paixão...

Ah! quem me dera que o meu coração

Fosse como esse mar,

Onde o seu olhar

Fosse navegar,

Onde o seu olhar fosse navegar...

7. ETERNA HARMONIA

Autoria: Zezé Delgado

Sua beleza se iguala a natureza

Lembra o dia amanhecendo

E o sol posto pra nascer

O seu sorriso

Canto livre de andorinha

Que anuncia céu acima

Mais um dia vai nascer

Você me ensina

Que a noite é melodia

Que a dor é fantasia

No seu modo de viver

Você é planta

Com as folhas orvalhadas

Que eterniza a madrugada

Na presença de você

Sua palavra

Badalada de um sino

Que ecoa como um hino

Ressonância de saber

Toda expressão

Do seu ser me irradia

Chuvarada de harmonia

Nunca vou lhe esquecer

Você me ensina

Que a noite é melodia

Que a dor é fantasia...

8. COISA BOA

Autoria: Música: Hianto de Almeida; Verso: Veríssimo de Melo

Coisa boa é querer bem,

ter alguém, namorar...

Coisa boa é um xodó,

um fobó, vadiar...

(Coisa boa é o mar,

Bis { (o luar,

(e caju com pitu,

(cafuné, cochilar...

Coisa boa

é tudo isso que se diz, e que se faz

na hora que a gente quer...

Coisa boa,

é uma noite, numa praia, num alpendre,

numa rede, uma mulher...

9. BRINCO DE AMOR

Autoria: Diógenes da Cunha Lima e Veríssimo de Melo

Você me fez

Cantar assim

Ai de mim

Você é coisa

Brinco de amor

Dizer loucuras

Fazer loucuras

Que o amor

Sempre permite

Tudo é juízo

Dentro da Noite

Com uma mulher

Junto de mim.

Sempre permito

O amor lindo

Tudo perfeito

Amor infindo

Homem e mulher

São dois amantes

E nada mais.

Pilo, pilo... etc.

ÁLBUM 6 - AMÉRICA LATENTE - TICO DA COSTA (1983)

Ficha técnica

Projeto: Projeto Memória - 31

Artista/intérprete: Tico da Costa

Autoria das músicas: Tico da Costa

Instrumentistas: Tico da Costa - voz e violões; Chico Guedes - baixo; Clauton - bateria; Mingo e João Leite - percussão

Participações especiais: Chiquinho do Acordeon - acordeon; Sando - flauta

Arranjos: Tico da Costa

Assistentes: Laci, Enock e Mauro

Técnico: Aníbal Félix

Coordenação e produção: Deijair Henrique Borges

Montagem: Wilson Medeiros

Técnico de manutenção: Walter Guimarães

Diretor técnico: Edeltrudes Marques da Silva

Foto da capa: Laco

Estúdio: Estúdios da Transamérica - Rio

Instituição: UFRN - Escola de Música - Natal - RN

Ano: 1983

Reitor: Diógenes da Cunha Lima

1. CARYBÉ-NANCY

Autoria: Tico da Costa

Ai ai que dor

Ai ai que dor

Tá fazendo muito tempo

Que eu não vou a Salvador

Ai ai que dor

Ai ai que dor

Tá fazendo muito tempo

Que eu não vejo Carybé

Cadê cadê candomblé

A poeira da capoeira

Vou subir a ladeira da Sé é é é

Oxumaré

Oxumaré

Oxumaré

Oxum

A Nancy já me deu um bom-fim

E o bom-fim não sei que fim levou

Só sei que eu vou buscar um novinho

Lá no Nosso Bom-Fim do Senhor

Eu vou eu vou eu vou

Eu vou eu vou eu vou

Babá Abaloa Exu

Iansã Yemanjá Exu

Omolu Oxóssi Xangô

Pra nos abençoar

A benção a benção

A benção a benção

2. PAIXÃO ATÔMICA

Autoria: Tico da Costa

Você me cheira selvatica

Fulô amazônica

Uns ares de irônica

Olho de igarapé

Você me caiu simpática

Mexeu no patético

Flexou-me o cardíaco

Hilarizou my self

Vixe! Virgem das galáxias

Ondas telepáticas

Vieram informar

Meu astral afrodisíaco

Meu ser hipocondríaco

Precisa de você

Meu espírito agonístico

Precisa um pacítico psique

Mesmo se fosse

Uma festiva anti-machista

Mas que tivesse molejados

Os movimentos feministas

Paixão hormônica

Super-atômica

Estereofônica

Meu jazz

3. AMÉRICA LATENTE

Autoria: Tico da Costa

Faz mil anos faz

Que a gente quer

Ir ao Paraguai

Aí a gente erra

Esquece a guerra

E vai pro Uruguai

Quais quais quais quais

Quais quais quais quais

Quais quais quais

Quais?

Quem lá do Pará

Para o Paraná

Vai parar no arrolo Chui

Não, não é aí Ypacaraí

Com essa cara aí

Caray!!

Honduras Haiti?

Ah! Vou pelo Peru

Lugo-lugo-lugo

Quero ouvir a voz da foz do Iguaçu

Em guarani

Pra ver se ela escorre guarana

Ou guarani

Pra ver se ela escorre guarana

Nina nina ni

Faz mil anos faz

Que a gente quer

Ir ao Paraguai

Mil anos faz (Sara)

4. DURANGO TANGO

Autoria: Tico da Costa

É tango argentino

Nossas vidas

É um tango argentino

Nosso amor

O drama de nós dois

É fatal

Carinho de nós dois

É punhal

E antes que termine o tango

O melhor é acabar

Porém

Vamos dançar

Fingir que tudo continua

As bocas nuas

Os beijos loucos

Que teu baton

Me deixe todo encarnado

De tanto abraço

Nossos corpos desbandonados

Vamos gargalhar no chão

Mas só até quando

Enquanto dure

Este tango no salão

Porém...

Es tango argentino

Nuestras vidas

Es tango argentino

Nuestro amor

El drama de nós dois

Es fatal

Cariño de nós dois

Es puñal

Y antes que termine el tango

Lo mejor es acabar

Porém...

Vamos danzar

Fingir que todo continua

Las bocas desnudas

Los besos locos

Que tu baton

Me deje todo encarnado

De tanto abrazo

Nuestros cuerpos bandoneonados

Vamos gargalhar no chão

Até quando enquanto dure

Este tango no salão

Porém...

5. MENINO MENINA

Autoria: Tico da Costa

A vida ensina

Muita coisa em surdina

E fala mansinha

Como a voz de Lurdinha

Menino Menina

Toda rima rima

Menino menina

É linda é linda

Amando cantando

Tudo se ilumina

Como o riso de Elis Regina

Bem-dita seja a vida

E a vida que da vida vinga

A vida que da vida ainda

6. RIDINHA

Autoria: Tico da Costa

Eu sou feliz na praia da Ridinha

Numa redinha balançando o mar

Adoro adorar lua rainha

Que vem ralando feito arraia no céu

A lua arria na areia do rio

O rio se areia

E vai virando mar

De manhã de manhazinha

De noite ou de noitinha

Ser feliz é cantar na Ridinha

De madrugada tem luarada

Todo mundo de mão dada

É ciranda é ciranda

Felicidade vai rodando a roda

A roda roda a saia

Chega a gente desmaia

E lá no céu o brinco da sereia

Brincando ser estrela brilhante de Natal

De manhã de manhazinha

De noite ou de noitinha

Ser feliz é cantar na Ridinha

7. LAGARTIXA

Autoria: Tico da Costa

Ó, lagartixa, brocoió calango longo

No telhado se espreguiça

Que o gato tá lhe cubando

A testa larga a lagartixa

Balança a cabeça

A besta fera, a besta fica

Tiririca vespa

Ideia fraca, as calças trouxas

O andar zambeta

A mão tremendo, a fala rouca

O dedão porreta

A boca funda, o fundo sujo

Calção, camiseta

O sol no couro, o pé rachado

Cheiro de alpargata

Rasteja, lagarta

Rasteja, lagartixa (se bem não mereça)

Pior ser barata

Pior cobra-bicha

Olha "fartura":

farta carne, farta o feijão

Farta verdura, ó, vida dura, e sem condição

A terra dá, o corpo dá

Mas tem vegetação

Andar pra trás, subir descendo

É a mesma lição

Filho de besta é besta filho

É filho da luta

A presa fica assustadiça

Se bem não mereça

8. LUA PHEIA

Autoria: Tico da Costa

Ai lua vazia

Sua luz não alumia

Só danço essa ciranda

Se dançar com meu amor

Ai lua vazia

Sua luz não alumia

Só danço essa ciranda

Se dançar com meu amor

Ciranda Cirandinha

Ciranda meu amor

É a é ó

É a é ó

O lua sem-vergonha

Da cara de pamonha

Ia vem você saindo

Por trás dos edifícios

Lá vem você metida

Ó lua enxerida

Vem cheia de ilusão

Me enchendo de saudade

Botando mau-olhado

Na minha felicidade

Por isso que Ciranda

Cirandinha me deixou

Olerê olara

Ciranda Cirandinha

Não é mais o meu amor

Olerê olara

9. ROMA - OLINDA

Autoria: Tico da Costa

Arruma as malas

Vou voltar pra Pernambuco

Já tô virando maluco

Neste inferno infernal

Tô precisando de amor,

De gente pura

De curar esta amargura

No coração

Quero a Lua

Lá por trás das bananeiras

Onde conto meus segredos

Onde posso até chorar

Quero ser eu

Ser mais pessoa verdadeira

Quero acender fogueira

Pra São João

São João me disse

E São Pedro confirmou

Quem quer ser minha madrinha

Quer também ser meu amor

Ai o amor fumega em meu peito

Feito lenha

Feito tição

Amor amor explode

Eu sou que nem um fogueeeeeeeeeeetão...

10. ATONIA

Autoria: Tico da Costa

Tem pena

Tem dó

Tem pena

Do meu sofrer

Tem pena

Tem dó

No beijo frio

Que você deu

Havia um tom

De adeus

Que me deixou

Pra lá de só

Sua ausência me desatina

Tem pena...

Meu violão desafogou

Minha dissonância

Em ré maior

Você roubou meu sol sem dó

Se um samba triste matasse

Tô morto

11. CABELOS DE SOL

Autoria: Tico da Costa

Menino dos cabelos de sol

Menino do cheirinho de mar

Que morde o papai

Que dança pra mamãe

Dá quatro, cinco passos e cai

Menino dos dentinhos nascendo

Parece que já está entendendo

Olhando pra mamãe

Pra barriga crescendo

Que vai ter um amiguinho pequeno

Menino dos cabelos de sol

Menino do cheirinho de mar

Você vai dividir seu mundinho de paz

E tudo que a vida traz

Vem menino dos cabelos de sol

Vem menino do cheirinho de mar

ÁLBUM 7 - CANÇÃO PARA NATAL - VÁRIOS AUTORES (1983)

Ficha técnica

Projeto: Projeto Memória - 28

Entidade realizadora: Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

Parceria institucional: SESC/RN

Coordenação e produção: Deijair Henrique Borges

Técnico de gravação e mixagem: Aníbal Felix

Assistentes de gravação: Mauro - Laci

Montagem: Wilson Medeiros

Técnico de manutenção: Walter Guimarães

Diretor técnico: Edeltrudes Marques da Silva

Capa creditada no estudo: Newton Navarro; o estudo observa que a pintura frontal traz assinatura/traços de Dorian Gray

Estúdio: Estúdios da Transamérica - Rio

Instituição: UFRN - Escola de Música - Natal - RN

Ano: 1983

Reitor: Diógenes da Cunha Lima

Instrumentistas: Etelvino - teclado; Chagas - guitarra e viola; Prentice - violão e V.L. tone; Jeferson - baixo; Ivanildo (Bauru) - bateria; Negão - percussão

Participações especiais: Luizinho Braga - flauta; Jurandyr da Feira - violão

1. SAGA DO CARNAUBAL

Autoria: Almir Padilha - Celso da Silveira

Vareiro que corta a palha

Tuleiro que apara espinho

Juntador que enfeixa a palha

Pra cambitar no burrinho

Homem que espalha a palha

Que o sol seca ao relento

E seca recolhe a palha

Protegida contra o vento

Palha seca que dá pó

E pó que a cera dá

O leque de palha verde

Ficou lá no mangará

Tangerino carrega a palha

Para empilhar estaleiro

Pra bater de madrugada

Em empanada no terreiro

Trinchador que trincha a palha

Em faca de sete pontas

Batedor batendo pó

Em lençol de quatro pontas

Tacheiro que coze a cera

Riqueza para o patrão

Humos da carnaubeira

Vida, morte e paixão

Acalanto do meu povo...

2. ASSUNTO PESSOAL

Autoria: Veríssimo de Melo - Diógenes da Cunha Lima

Não me perguntem

O que se passou

Na cama bonita do amor

Do amor

Guardo o segredo de amor sem fim

Faço menos que você por mim

É assunto pessoal

De você pra mim

De mim pra você

Eu vivo a vida que Deus me deu

O gozo que o amor rendeu

É assunto pessoal

Ninguém vai saber o que se passou

Segredo é a invenção do amor

Como Deus inventou a flor

Ninguém jamais vai saber

E existe a flor e existe o amor

E existe...

3. CANÇÃO PARA NATAL

Autoria: Nelson Hermógenes Freire - Diógenes da Cunha Lima

Se você passar por aqui

Não pode deixar de ver

A Ribeira, o sol, a lama

As águas do Potengi

O Farol no alto do morro

Dunas brancas que nem lençol

Essa brisa que embala morna

E uma gostosa carne de sol

Em Natal a canção tem mais beleza

Em Natal o amor é mais amor

São mais lindos seu mar e seus coqueiros

Suas praias, seu sol tem mais calor

Se você passar por aqui

Não pode deixar de ver

A Barreira, o sal, o forte

Os cajueiros em Pirangi

O Farol no alto do morro

Dunas brancas que nem lençol

Essa brisa que embala morna

E uma gostosa carne de sol

4. CANÇÃO DO ÍNDIO TRISTE

Autoria: Diógenes da Cunha Lima

Zan Noyoliyo

Zan Noyoliyo

Eu de mim só tenho a vida

A vida que foi canção

Venha apresentar-se aqui

Quem tem triste o coração.

Zan Noyoliyo

Zan Noyoliyo

A minha vida é breve

O homem é traição

Não tenho fé, nem futuro

Que a morte pisa o meu chão.

Zan Noyoliyo

Ma ya hual moquetza

A inyollo in cocohua

Zan Noyoliyo.

Os mais tristes deste mundo

Tristeza cantem comigo

Vizinho de mim, a morte

Planejada pelo amigo.

Zan Noyoliyo

Zan Noyoliyo

5. NAQUELE TEMPO DE CADEIRAS NAS CALÇADAS

Autoria: Roberto Lima

Naquele tempo de cadeiras nas calçadas,

Brincadeiras inventadas

Eram mais do que brincar

Enquanto a gente lá da escola retornava

A canção que se cantava

Era mais do que cantar...

Nossos caminhos tinham mais pra descobrir

Ver a flor a se abrir

E uma ave a se emplumar

Frutos silvestres tinham gosto diferente

A natureza era da gente

Sem ninguém pra reclamar

As nossas ruas eram todas conhecidas,

Suas casas parecidas,

Seus viventes tão leais

Que a gente sempre conhecia o seu segredo

O momento não fazia medo

Dividia os seus quintais

6. COISAS RARAS

Autoria: Zezé Delgado - Diógenes da Cunha Lima

O amor se consome no instante

De fazer amor perdidamente

Resta apenas a vontade de estar juntos

Imaginar variações livres da mente.

A vida é surpresas minha amiga

Coisas raras acontecem todo dia

O amor doce e áspero tem belezas

Que inventar não pode a fantasia.

É preciso ver o mundo novamente

Com os olhos espantados de menino

Descobrir sutis prazeres no teu corpo

E devolver rica ilusão ao meu destino.

7. GARGALHEIRAS

Autoria: Almir Padilha - Diógenes da Cunha Lima

Partiendo las sierras

Cortando los cerros

Una gran fuente

El Gargalheiras

Como si fuera un mar

Una lára

Besando las bocas

De agua dulce

Batiendo en las piedras

Como un corazón

Hermano de cedro, del Pueblo

Lino blanco del Seridó

Chorros que llenan los colchos

De los animales

Manos que lavan los campos de algodones

Minas, tesoros, sus aguas a pulir

Madre y Padre, de los hijos de Acari

Partindo as serras, cortando os serrotes

Uma grande fonte o Gargalheiras

Como se fosse um mar

Uma lara beijando as bocas

De água doce, batendo nas pedras

Como um coração

Irmão de cedro do povo

Linho branco do Seridó

Jorro que enche os colchos dos animais

Mão que lava os campos de algodão

Minas, tesouros, suas águas a polir

Mãe e Pai, dos filhos de Acari

8. A MOÇA EM FLOR

Autoria: Diógenes da Cunha Lima

Rede branca de varanda

Como as espumas do mar

É uma carícia pra o corpo

E uma canção de ninar

Rede branca de varanda

Balança ao vento do mar

O sono fica mais leve

Sonho bom traz pra sonhar

Armador geme o amor

Coração sempre em mim manda

Numa rede de varanda

Rede branca a moça em flor

A moça em flor manhãzinha

Deixa o seu gato Angorá

Faz de seus braços uma rede

Uma rede de aconchegar.

9. PIXANANA

Autoria: Roberto Lima - Pery Lamartine

Pixanana flor do mato

Nasce no meio da rua

No sertão é flor de dama

Na cidade não atua

No chão duro, pedregoso

De manhã logo cedinho

Salpicada de orvalho

É uma prenda em meu caminho.

Ai Pixanana que saudade você tem

É beleza, é singeleza, é lembrança do meu bem.

Ai Pixanana que saudade você tem

É beleza, é com certeza uma flor para o meu bem.

Para o povo da cidade

Essa flor é quase nada

Lá na ponta da calçada

Sem ninguém a reparar

Ela tem beleza pura

Que alegra o sol nascente

Quando o sol cai no poente

Ela tranca o seu olhar.

Ai Pixanana que saudade você tem... (Repete o refrão)

10. PESCA DE AÇUDE

Autoria: Celso da Silveira

A chuva chegou

Barragem sangrou

Peixinho que ficou

Menino pescou ó

Traíra, Coró, Cará

Menino pescou } bis

Com seu landuá

Menino não pesca no rio

Menino não pesca no mar

Menino só pesca em açude

Com seu landuá

Traíra, Coró, Cará

Menino pescou } bis

Com seu landuá

ÁLBUM 8 - CANCIONEIRO POTIGUAR (VALSAS E MODINHAS DE SERESTA) - VOLUME II (1983)

Ficha técnica

Projeto: Projeto Memória - 18

Intérpretes: Fátima de Brito - canto; Gerardo Parente - piano

Parceria institucional: SESI/RN

Coordenação e produção: Deijair Henrique Borges

Técnico de gravação e mixagem: Aníbal Felix

Assistentes de gravação: Mauro - Paulinho

Montagem: Wilson Medeiros

Técnico de manutenção: Walter Guimarães

Diretor técnico: Edeltrudes Marques da Silva

Foto da capa: Cândida Bezerra

Estúdio: Estúdios da Transamérica - Rio

Instituição: UFRN - Escola de Música - Natal - RN

Reitor: Diógenes da Cunha Lima

1. SÚPLICA

Autoria: Poesia: Ferreira Itajubá; Música: Olímpio Galvão

Ó minha amada, dize que me queres,

Tira da minha mente essa descrença,

Que eu sou a vítima de tantas dores,

Que padece a tortura da sentença.

Não, tu não podes ser assim tão fria,

Vendo a minh'alma soluçar de dor,

Mostra que tens a doce simpatia,

E aceita as juras de um fiel amor.

Abre a janela, vem ouvir as queixas

Deste infeliz que vive a te adorar,

Sinto-me só se tu assim me deixas,

Sinto morrer se tu não vens amar.

Eu vivo na terra como um exilado,

Minhas noites são noites de luar,

O meu sofrer por ti foi decretado,

E só a morte me fará parar.

2. POR ESTES TEUS OLHOS TÃO BONITOS

Autoria: Manuel de Oliveira Costa

Por estes teus olhos tão bonitos

Que me trazem num doce encanto,

Não permitas que eu viva em prantos,

No meio de dores e de aflição.

Tu bem sabes que te amo tanto,

Não permitas que o sofrer

Destrua o meu viver,

Fazendo sofrer o meu coração.

A frouxa luz da lua

Que clareia a imensidão,

Possa levar-te a grande mágoa,

Que invade o meu pobre coração.

O teu fugir me tortura,

Pois de ti não sei esquecer,

Dá-me a doce ventura,

E faz-me esquecer o sofrer.

3. CAMINHO DO SERTÃO

Autoria: Poesia: Anfilóquio Souza; Música: Abdon Praxedes

No caminho do sertão

Eu vi uma linda flor,

Que trazia no coração

A lembrança do meu amor.

Era uma linda rosa branca,

Que no mato vicejava,

Sua alvura me encanta,

Enquanto ela ali brotava.

Quero colher essa flor,

Pra levar para o meu bem,

Que é a dona do meu amor,

E que não amo mais ninguém.

4. SEREIA

Autoria: Luiz de França Moraes

Sereia, que vives no mar,

Vem ouvir o meu cantar,

Que a noite está tão linda,

E eu quero te namorar.

Nas ondas do mar azul,

O teu corpo vi flutuar,

Sob o céu do cruzeiro do sul,

Eu te vi a navegar.

Sereia, linda sereia,

Vem, escuta o meu cantar,

Que a noite está tão cheia,

Se tu não vens me escutar.

5. PRIMEIRO AMOR

Autoria: Não indicado - Tradição Oral

O primeiro amor que tive na vida

Foi um sonho de rara beleza,

Deixou minh'alma ferida,

No meio de tanta tristeza.

Tu foste a doce ilusão

Que me fez tanto sonhar,

Mas hoje no meu coração,

Só resta a dor de lembrar.

6. SOZINHO

Autoria: Não indicado - Tradição Oral

Eu vivo na terra sozinho,

Sem ter quem me queira bem,

Não tenho o teu carinho,

Não tenho o amor de ninguém.

A noite desce serena,

Trazendo a recordação,

Desse teu rosto de anjo,

Que prendeu o meu coração.

7. MARIA

Autoria: Poesia: Lourival Açucena; Música: Tonheca Dantas

Maria, cujo nome evoca o céu,

Cuja imagem me traz a doce luz,

Se do meu peito cai o negro véu,

É o teu olhar que à vida me conduz.

Tu és a rosa que no prado floresce,

Exalando o perfume do amor,

O meu peito por ti padece,

A tortura de uma grande dor.

Vem, escuta a voz que te chama,

Nesta noite de calmaria e luar,

É o coração de quem te ama,

Que te convida a escutar.

8. NA HORA EM QUE SE ENCOBRE DE NEVE AS SERRANIAS...

Autoria: Não indicado - Tradição Oral

Na hora em que se encobre de neve as serranias,

E o sol esconde a sua luz dourada,

Eu sinto voltar as velhas nostalgias,

Do tempo em que eras minha namorada.

O frio desce por sobre a terra,

E o vento sopra com precisão,

Mas a grande dor que em mim se encerra,

É a ausência do teu coração.

9. UM SONHO

Autoria: Poesia: Nelson Hermógenes Freire; Música: João Rodrigues

Eu tive um sonho de encanto,

No qual tu eras a minha rainha,

Afastando de mim todo o pranto,

Dizendo que eras só minha.

Mas acordei e vi a realidade,

O quarto escuro e a solidão,

Vi que o sonho era só falsidade,

Que torturou o meu coração.

A noite passa, o dia vem vindo,

E eu continuo a chorar,

Desse amor que se foi sumindo,

Sem nunca mais retornar.

10. AURIDEIA

Autoria: Pedro Guimarães

Aurideia, estrela d'alva,

Que brilha no céu azul,

O teu olhar me salva,

Do norte ao extremo sul.

Por ti eu tenho vivido,

No meio de tanta aflição,

Não deixes no esquecimento,

Quem te deu o coração.

Os teus olhos são duas estrelas,

Que iluminam o meu caminhar,

Quem dera poder tê-las,

Para sempre me guiar.

11. PARA OS TEUS OLHOS

Autoria: Antônio Justino de Caldas

Para os teus olhos voltei o meu olhar,

Buscando neles a luz da esperança,

Que pudesse o meu sofrer abrandar,

Trazendo de volta a doce lembrança.

Mas os teus olhos fugiram dos meus,

Deixando-me na mais triste escuridão,

Foi o sinal do mais frio adeus,

Que despedaçou o meu coração.

12. RECORDAÇÃO

Autoria: Poesia: Ferreira Itajubá; Música: Luiz de França Moraes

Volto ao passado em pensamento,

Buscando os dias que não voltam mais,

Relembro as horas de contentamento,

Que se perderam nos tempos atrás.

A velha casa, a rua deserta,

Onde a seresta costumava passar,

Hoje só resta a lembrança incerta,

Desse tempo que não vai voltar.

Mas as coisas findas, bem o sei,

Ficarão vivas no meu coração,

Do amor antigo que tanto amei,

Só me restou esta recordação.

Notas de identificação constantes do estudo

“Súplica”: poema de Ferreira Itajubá; música de Olímpio Galvão.

“Maria”: música de Tonheca Dantas sobre versos de Lourival Açucena.

“Recordação”: poema de Ferreira Itajubá musicado por Luiz de França Moraes.

“Para os Teus Olhos”: letra e música atribuídas a Antônio Justino de Caldas.

“Primeiro Amor” e “Sozinho”: autoria não indicada, classificados no estudo como tradição oral.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Oriano de. Oriano interpreta Oriano: prelúdios potiguares (Volume II). Natal: UFRN, Escola de Música, [1982-1983]. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 19. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

CANTOS da Terra do Mar. Intérprete: Madrigal da UFRN. Regência: Pe. Pedro Ferreira da Costa. Natal: UFRN, Escola de Música, 1981. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 1. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

CANÇÃO para Natal. Intérpretes: Almir Padilha, Lucinha Lyra, Silvinha, Zezé Delgado, Negão. Coordenação: Deijair Henrique Borges. Natal: UFRN, Escola de Música; SESC/RN, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 28. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

COSTA, Tico da. América Latente. Natal: UFRN, Escola de Música, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 31. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

DORIAN Gray Caldas. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dorian_Gray_Caldas. Acesso em: 6 fev. 2026.

LIRA, Lucinha. Floração. Natal: UFRN, Escola de Música, 1981. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 3. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

MELO E SILVA, Emmanuel de. Bambelô. Natal: UFRN, Escola de Música, 1982. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 7. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

ORIANO de Almeida. In: MUSICABRASILIS. Rio de Janeiro, [202-]. Disponível em: https://www.musicabrasilis.org.br/compositores/oriano-de-almeida. Acesso em: 12 abr. 2026.

SIQUEIRA, Amaro. Saudades da juventude. Intérprete: Fidja Siqueira. Natal: UFRN, Escola de Música, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 14. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).

VALSAS e modinhas de seresta. Intérpretes: Fátima de Brito, Gerardo Parente. Coordenação: Deijair Henrique Borges. Natal: UFRN, Escola de Música; SESI/RN, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Cancioneiro Potiguar, Volume II. Projeto Memória, v. 18. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).