CINCO PEIXOTOS NA GUERRA DO PARAGUAI
Este estudo é dedicado a João Lucas de Oliveira Linhares
Há descobertas que a
pesquisa histórica nos proporciona e que ultrapassam, em muito, aquilo que
inicialmente procurávamos. Algumas chegam quase por acaso, como se o passado,
depois de permanecer silencioso durante décadas, resolvesse bater à porta do
presente para surpreendê-lo. Foi exatamente isso que aconteceu comigo.Depois de
escrever um estudo sobre o meu tio-bisavô, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto,
mipibuense, veterano da Guerra do Paraguai, logo publiquei neste mesmo blog,
entendendo que, mesmo diante de algumas lacunas, o material precisava ser
disponibilizado, tendo em vista que muitos parentes meus, principalmente os
mais jovens, desconhecem essa história. De sua história eu só sabia a ponta do
novelo contada por minha mãe, Maria José Peixoto. Eu havia procurado
documentos, reconstituído sua trajetória militar, acompanhado os caminhos que o
levaram ao conflito, percorrido os caminhos de Belém, no Pará, onde ele também
residiu, e tentado devolver à sua biografia um pouco da dimensão que o tempo
havia apagado, enfim puxei todo o novelo, ou melhor, quase todo, pois pesquisa
quase não tem fim. O texto foi publicado no meu blog, e eu acreditava que,
naquele momento, aquela etapa da pesquisa estava concluída.
Leia o estudo sobre o Major Manoel
Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto
Foi então que aconteceu uma dessas coincidências
que parecem possuir uma lógica própria. Eu havia chegado apenas à metade do
novelo. Após a publicação, descobri que João Lucas de Oliveira Linhares,
jovem historiador formado pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte,
havia feito pesquisas sobre a participação dos norte-rio-grandenses na Guerra
do Paraguai, e o objeto de estudo dele era exatamente Antonio Martins
Correia Peixoto: O Diário do Alferes Antonio Martins Correia Peixoto e
as Memórias sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870). O trabalho, apresentado
em 2026, tem como fonte central o diário pessoal de Antônio Martins Correia
Peixoto, documento de extraordinário valor histórico.
A surpresa foi enorme. Aquele Antônio Martins
Correia Peixoto não era simplesmente mais um nome entre os potiguares que
participaram da Guerra do Paraguai. Era meu tio-bisavô. E, mais do que
isso, o pesquisador havia chegado a uma fonte que eu jamais imaginara
encontrar: o diário pessoal desse meu antepassado, que pertence ao Museu de
Paraú, Rio Grande do Norte. João Lucas teve ainda uma generosidade intelectual
que merece ser registrada, inclusive seu gesto serve de lição a muitos
historiadores que omitem informações. Depois de estabelecermos contato, ele me
enviou sua monografia e outros materiais afins. E foi assim que a pesquisa deixou de
ser apenas uma investigação sobre um personagem do passado e ganhou uma
dimensão profundamente familiar. Eu estava diante de um documento escrito por
alguém da minha própria família, um homem que havia atravessado os mares,
participado de uma guerra distante e carregado consigo, para o resto da vida,
as lembranças daquela experiência.
O trabalho de João Lucas é particularmente
importante porque não se limita a contar a história da Guerra do Paraguai. Seu
propósito é compreender como a experiência do conflito foi registrada, lembrada
e reelaborada por Antônio Martins Correia Peixoto. O diário, portanto, não é
tratado simplesmente como uma narrativa pronta e incontestável, mas como uma
fonte histórica que precisa ser confrontada com documentos militares, registros
eclesiásticos, fotografias, literatura memorialística e outras fontes, mas com
um ponto nobre: é documento, é fato. Essa metodologia confere ao trabalho uma
solidez que o torna muito mais do que uma biografia familiar. E foi justamente
nesse mergulho que encontrei uma das passagens mais emocionantes de toda essa
história.
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| Diário de Manoel Martins Correia Peixoto. Acervo: João Lucas de Oliveira Linhares |
Antônio Martins não foi sozinho para a guerra. Em
1865, quando ainda era um jovem residente na Fazenda Beldroega, na então
freguesia de Campo Grande, no Rio Grande do Norte, ele partiu como Voluntário
da Pátria acompanhado de três irmãos: Padre Amaro Theot Castor Brasil,
Manoel Martins Correia e Castro e José Lucas Barbosa. Os quatro irmãos
integraram o contingente potiguar enviado para a Guerra do Paraguai. E, como
pode ser visto no trabalho que cito acima, eram simplesmente cinco pessoas da
minha família, a contar com o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Correia
Peixoto.
Há outro detalhe precioso. A documentação militar foi pesquisada por um dos maiores intelectuais norte-rio-grandenses daquele período: Adauto Miranda Raposo da Câmara e ele confirma a presença dos quatro irmãos no Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande do Norte. Antônio Martins aparece como praça da 4ª Companhia; Amaro Theot Castor Brasil, como capelão-alferes da 1ª Companhia; Manoel Martins Correia e Castro, como alferes da 2ª Companhia; e José Lucas Barbosa, como praça da 4ª Companhia. São quatro irmãos de uma mesma casa, de uma mesma família, saindo juntos de sua terra para uma guerra que acontecia a milhares de quilômetros dali. E existe algo ainda mais poderoso: o próprio Antônio Martins deixou registrada essa despedida.
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| Diário de Manoel Martins Correia Peixoto. Acervo: João Lucas de Oliveira Linhares |
Em um trecho de seu diário, reproduzido por Yapery
Tupiassu de Brito Guerra em seu estudo sobre os norte-rio-grandenses que
participaram do conflito, Antônio escreveu que partira voluntariamente com seus
irmãos Padre Amaro Theot Castor Brasil, Manoel Corrêia e Castro e José Lucas
Barbosa, além de seu primo Elias, Francisco José de Melo, Sabino e outros.
A partida da casa paterna ocorreu em 13 de março de 1865. A mãe ficou
banhada em lágrimas, mas, segundo a lembrança registrada pelo filho,
recomendou-lhes que partissem tranquilos, pois suas orações os acompanhariam.
Pediu ainda que, depois da vitória, retornassem ao lar sãos e salvos para que
pudesse novamente abençoá-los.
É difícil ler essas palavras sem imaginar a cena.
Uma casa na antiga freguesia de Campo Grande. Uma mãe vendo os filhos partirem.
Um pai acompanhando-os até Natal e depois retornando, sem saber se os filhos
retornariam também. Quatro irmãos deixando para trás a segurança da família e
seguindo para uma guerra cujo teatro de operações lhes era absolutamente
distante e desconhecido. Não era apenas uma partida militar. Era uma ruptura
familiar. Em junho de 1865, eles seguiram para o Rio de Janeiro e, dali, para o
Sul. Chegaram a Cachoeira, onde iniciaram efetivamente a campanha em 29 de
agosto daquele ano. Antônio registrou que ali tiveram o chamado "batismo
de fogo", antes de marcharem para Uruguaiana, onde encontraram uma
situação em que os paraguaios acabaram se entregando.
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| Meu tio-bisavô Padre Amaro Theot Castor Brasil |
Antônio Martins
carregaria essas experiências durante toda a vida. Seu diário registra, segundo
o estudo de João Lucas, participação em 23 combates, entre 13 de março de 1865
e 1º de abril de 1870. Mas aquele caderno não é apenas um diário militar. Nele
aparecem também lembranças pessoais, informações genealógicas, registros
relacionados à fazenda Beldroega, reflexões e lamentações familiares. É, portanto, um retrato muito
mais amplo de um homem e de seu tempo.
Isso talvez seja o que mais me emociona nessa
descoberta, pois esse cuidado em ter sempre em mãos um papel e um lápis me
aproxima muito dele. São objetos que acompanham a minha vida. Talvez por isso
eu compreenda ainda melhor o significado daquele caderno. Antônio não escreveu
apenas para registrar acontecimentos. Escreveu para não deixar que determinadas
coisas se perdessem. E, sem saber, acabou deixando para seus descendentes e
para os historiadores uma porta aberta para um mundo que desapareceu. É aqui
que a história dos quatro irmãos se encontra novamente com a história do meu
tio-bisavô, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto.
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| Meu tio-bisavô Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto |
O TCC de João Lucas recupera uma importante
tradição memorialística potiguar: a comunicação de Yapery Tupiassu de Brito
Guerra, publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio
Grande do Norte, que procurou resgatar do esquecimento alguns dos
norte-rio-grandenses que participaram da Guerra do Paraguai. Entre os
personagens apresentados estão justamente Alferes Antonio Martins Corrêia,
Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro,
Tenente José Lucas Barbosa e Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro, além
de Joaquim Castriciano de Brito e Francisco Justiniano de Melo. Todos foram
apresentados como naturais de Campo Grande. É nesse ponto que a minha descoberta se torna
ainda mais significativa.
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| Meu tio-bisavô José Lucas Barbosa |
Eu havia começado a pesquisar UM parente que
participou da Guerra do Paraguai e descobri, no caminho, uma verdadeira
constelação familiar ligada àquele episódio da história brasileira. De um lado,
os QUATRO irmãos: Antônio Martins,
Amaro, Manoel Martins e José Lucas. De outro, o Major Manoel Cornélio Barbosa
Cordeiro, outro parente cuja trajetória militar também se ligou àquela guerra. Assim, CINCO homens da minha família passaram
a ocupar, de maneira muito mais concreta, um lugar na história da Guerra do
Paraguai. Não são mais apenas nomes encontrados em genealogias, registros
militares ou livros antigos. São homens que tiveram rosto, voz, família, medo,
esperança, coragem e destino. E, no caso de Antônio Martins, temos algo ainda
mais raro: temos a sua própria escrita.
O diário que permaneceu durante tantos anos
restrito à memória familiar ganhou, pelas mãos de João Lucas, uma nova
existência histórica. O pesquisador registra que o documento possui 104 páginas
e que havia sido digitalizado em 2006, depois que um descendente de Antônio
Martins procurou o Departamento de História da UERN. A análise revelou que o
manuscrito não trata apenas da guerra. Ele reúne também dados genealógicos,
contabilidade da fazenda, reflexões filosóficas e lamentações familiares. É,
portanto, um retrato muito mais amplo de um homem e de seu tempo.
A história não ficou confinada aos grandes
generais, aos presidentes, aos ministros ou aos grandes acontecimentos
registrados nos livros oficiais. Ela sobreviveu também nas mãos de homens
comuns que escreveram, guardaram, lembraram e transmitiram suas experiências. O
diário de Antônio Martins é exatamente isso: uma ponte entre o indivíduo e a
História. João Lucas percebeu isso com rara sensibilidade. Seu trabalho não
transforma simplesmente os personagens em estátuas de bronze. Ao contrário,
procura compreender como a memória foi construída, como os antigos combatentes
foram transformados em “heróis" e como a própria historiografia potiguar
muitas vezes exaltou o patriotismo sem discutir suficientemente as violências e
as contradições do recrutamento.
Essa postura torna a pesquisa ainda mais valiosa.
Afinal, reconhecer a coragem de nossos antepassados não significa abandonar o
olhar crítico do historiador. É possível admirar a trajetória de um homem e, ao
mesmo tempo, compreender as circunstâncias históricas que o levaram à guerra. É
possível honrar sua memória sem transformar a História em lenda. E talvez seja
justamente essa a maior homenagem que podemos prestar a eles. Há, entretanto,
um lugar onde essa memória parece ter encontrado uma casa.
Eu estava me preparando para ir ao município de
Paraú, no Rio Grande do Norte, para conhecer o museu onde se encontra uma parte
muito significativa da memória desses meus ancestrais. Ali, segundo as informações que
chegaram até mim e o material que venho pesquisando, existe uma verdadeira
reverência a esses homens. Fotografias, objetos pessoais, registros e outros
elementos relacionados à família e aos combatentes compõem um acervo que
permite ao visitante aproximar-se não apenas dos personagens, mas do universo
humano que os cercou. Paraú guarda, com orgulho, a memória desses cinco homens
ligados à Guerra do Paraguai. E isso possui um significado especial para mim.
Não se trata apenas de um município que preserva a lembrança de antigos
combatentes. Trata-se de um lugar onde a história da minha própria família
permanece materializada em fotografias, objetos e documentos. É como se aquilo
que encontrei primeiro em livros, depois no diário de Antônio Martins e,
finalmente, nas fotografias, tivesse um lugar físico para existir.
Tenho especial interesse em conhecer esse acervo
pessoalmente. Quero estar diante das fotografias, observar os objetos, perceber
os vestígios materiais deixados por esses homens e, sobretudo, imaginar a
trajetória que cada peça percorreu até chegar ali. Há algo diferente quando uma
pessoa deixa de olhar uma reprodução na tela do computador e passa a contemplar
o objeto original, aquele que pertenceu a alguém que viveu, amou, sofreu,
escreveu e partiu para uma guerra. E
Paraú parece ter compreendido o valor dessa memória. Inclusive familiares meus
residem nesse município, embora não os conheço e nem imaginava suas existências.
É por isso que vou me organizar para visitar todo esse achado.
A cidade se orgulha de saber que possui entre seus
referenciais históricos cinco homens ligados à Guerra do Paraguai, e
essa consciência patrimonial merece ser valorizada. Porque preservar a memória
não significa apenas guardar objetos antigos. Significa explicar às novas
gerações por que aqueles objetos sobreviveram e o que eles têm a dizer sobre
nós. Quando eu chegar a Paraú, portanto, não estarei apenas visitando um museu.
Estarei, de certa maneira, indo ao encontro de cinco parentes.
Antônio Martins Correia Peixoto, Padre Amaro Theot
Castor Brasil, Manoel Martins Correia e Castro, José Lucas Barbosa e Major
Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro pertencem agora a uma memória familiar que ganhou
novas dimensões. Quatro deles partiram juntos da casa paterna, acompanhados
pelas lágrimas e pelas orações da mãe. Outro, o Major Manoel Cornélio, também
carregou consigo o peso e a experiência daquela guerra que marcou profundamente
a sua geração. Hoje, tantos anos depois, seus nomes voltam a se encontrar. E
isso aconteceu porque um jovem historiador decidiu abrir um diário antigo e
perguntar o que havia dentro dele.
Por isso, esta história é também uma história de gratidão. Gratidão a Antônio Martins, que escreveu. Gratidão aos familiares que conservaram. Gratidão aos pesquisadores que procuraram. Gratidão à Universidade que acolheu a pesquisa. Gratidão a todos aqueles que, de alguma maneira, compreenderam que esses homens mereciam ser lembrados. E, de maneira muito especial, gratidão a João Lucas de Oliveira Linhares, pela generosidade de compartilhar comigo um trabalho que, para qualquer pesquisador, já seria extraordinário, mas que para mim adquiriu um significado ainda maior. João Lucas não me entregou apenas a sua monografia. Entregou-me, de certa maneira, uma parte da minha própria história. E seu gesto de generosidade intelectual é exemplar.
Eu já havia produzido um estudo, como disse,
obviamente uma produção mais acanhada, e não conhecia o TCC de João Lucas. Mas,
ao abrir aquele estudo tão amplo e rico, encontrei um antepassado. Ao conhecer
o diário, encontrei a voz de um homem que viveu a Guerra do Paraguai. Ao
descobrir que ele partira acompanhado dos irmãos, encontrei outros três
parentes. E, ao lado deles, reencontrei também o Major Manoel Cornélio Barbosa
Cordeiro, cuja trajetória havia sido justamente o ponto de partida dessa nova
investigação. É assim que a História às vezes acontece. Pensamos que estamos
procurando um homem e descobrimos uma família inteira. Pensamos que estamos
pesquisando o passado e descobrimos que, na verdade, o passado estava
procurando por nós.
E talvez essa seja a maior beleza de tudo isso:
depois de mais de um século e meio, cinco homens que um dia partiram para uma
guerra distante voltaram a se encontrar nas páginas de um diário, nas
fotografias de um museu, na memória de uma cidade e, agora, na memória de um
descendente. Muito obrigado, João Lucas! Você abriu um diário. E, ao
fazê-lo, abriu também uma porta. Do outro lado dela estavam cinco homens, uma
família, uma guerra e uma história que ainda precisava ser contada... (Nos próximos
dias escreverei sobre uma conferência que houve no Instituto Histórico e
Geográfico do Rio Grande do Norte – há 35 anos – e que o conferencista revela
que seu pai recebeu de Omar O’Grady, então prefeito de Natal, que propusesse
nomes a serem dados a ruas, praças, avenidas da capital... ele propôs os nomes
desses heróis)...




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