ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

COMO SE DEU O ABOLICIONISMO EM NÍSIA FLORESTA?


NÍSIA FLORESTA: PRIMEIRA ABOLICIONISTA DO BRASIL


Imagine você nascer e ter quem faça tudo por você: comida à mesa, ajuda para banho, abanar penas para afastar o calor etc etc etc. Imagine você criança, vendo adultos dando ordens o dia inteiro aos escravos, por vezes os humilhando e torturando-os física e mentalmente. Nísia Floresta Brasileira Augusta nasceu nesse contexto. Ela não via essa estupidez no Sítio Floresta, afinal eles não eram proprietários de escravos, à exceção a Pepe, uma preta que a acompanhou durante o tempo que ela morou no Sítio Floresta. Embora Pepe é mencionada no corpo de sua obra, não se sabe detalhes sobre a mesma, exceto o grande afeto que Nísia Floresta sentia por ela.

Nísia Floresta Brasileira Augusta


Nísia não viu a truculência da escravidão no sítio onde morava, mas via a escravidão nos sucessivos engenhos da Vila Imperial de Papary, pois nasceu numa região nordestina permeada por incontáveis engenhos. Na Vila Imperial de Papary assistia ao comércio de escravos no velho pé de Oiti, onde acontecia a compra e venda de escravos, próximo ao Engenho São Roque.

É impossível não admitirmos que qualquer criança que visse isso acharia normal, pois estava descobrindo o mundo. Ela olharia a sua pele, depois a pele preta, e perceberia que a diferença explicava a servidão criada pelo sistema. Pois bem, Nísia Floresta nasceu nesse contexto. Agora imagine você começar a estranhar isso e expor sua insatisfação. Obviamente que você se tornaria uma alienígena, pois incomodaria a maioria.

Verdadeiramente, os escravos pretos não eram vistos como gente por quase todos, portanto não compreenderiam uma criança ou uma jovem pedindo clemência por eles e recriminando o tratamento truculento a eles dispensado. Era esse o tratamento dado aos burros de carga e aos bois arrastando toneladas sobre os carros de madeira que gemiam quilômetros a fio, carregando os partidos de cana. Em conseqüência, se não eram gente, mereciam o mesmo tratamento.

Até hoje, em pleno século XXI, vimos cavalos e jumentos apanhando de seus donos por não conseguirem carregar as carroças. Pois saibam que o mesmo aconteceu aos escravos. Muitos morreram de exaustão. Não conseguiam dar conta do peso ou do ofício exaustivo dos canaviais e outros serviços, então apanhavam para recuperar a força. Assim, morriam. Nísia Floresta, ainda muito jovem, percebendo isso, pedia tratamento mais humano aos pretos. Inicialmente ela não pedia a abolição da escravidão. Talvez nem imaginasse ser possível acabar com aquilo.

Depois ela faz reflexões sobre a situação deplorável como eles viviam nas senzalas e sugere que recebessem maiores cuidados, mas não pede a extinção da escravidão. Certa vez alguém publicou um texto no Diário de Natal no qual acusava Nísia Floresta de endossar a escravidão. O autor se serviu de um trecho isolado de uma de sua obras, na qual ela condena as mulheres brancas por darem seus bebês para serem amamentados pelas pretas sujas. De fato ler isso assusta.

Qualquer pessoa que lesse o trecho de maneira isolada, entenderia da mesma forma. Mas Nísia Floresta, na realidade condenava a imundície e situação de insalubridade na qual viviam as escravas. Ela proclamava que a amamentação era um ato de amor, portanto o gesto pertencia somente às mães biológicas, e não às escravas. Nísia Floresta, que sabia que as mães brancas faziam isso para conservar suas siluetas – ou seja, por vaidade e preguiça – não media esforços para condenar os gestos das senhoras donas de escravos.

Muito adiante, veríamos Nísia fazendo ataques fortíssimos às mães francesas, as quais mandavam seus filhos-bebês para serem cuidados por amas de leite, em situações deploráveis nos campos próximos a Paris. Ela presenciou "in loco" o fato, tendo registrado suas impressões. O abolicionismo em Nísia Floresta passeia ao longo de suas obras, pois ela foi uma escritora que pulverizava assuntos semelhantes em várias de seus livros. Mesmo que não estivesse escrevendo sobre a escravidão, ela entrava nessas águas e logo retomava o seu objeto de discussão principal. E no caudal disso tudo encontramos uma Nísia Floresta que amadureceu lentamente a sua condição de abolicionista. Aquilo que para ela – e para todos – era normal, se tornou hostil ao longo de suas últimas publicações. E não poderia ser diferente. Ela percebeu muito cedo a desumanidade da escravidão preta, portanto precisou se camuflar no bojo dos escravagistas, escrever numa visão que não assustava tanto, mas que significava o sutil plantel da semente abolicionista.

Lentamente ela assume sua condição anti-escravagista e seus escritos se tornam mais densos e com forte criticidade. Na própria obra “A Lágrima de Um Caeté”, que não era um livro sobre escravidão, ela encontra espaço para condená-la. E essa obra foi censurada pelo Império. Pois bem, discutir o tema ABOLICIONISMO em Nísia Floresta pede a contextualização dos fatos para o necessário entendimento. E isso dá muitas laudas e horas e horas de discussões. Como sempre, coloco-me ao seu dispor para discutirmos o assunto a qualquer momento e em qualquer espaço. L.C.F 1999

13 DE MAIO - DIA DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO. .. NÍSIA FLORESTA E PRINCESA ISABEL – O QUE HÁ EM COMUM ENTRE AMBAS...


Aproveitando a data de hoje lembrei que, muito anos antes de a Princesa Isabel nascer, precisamente 26 antes, Nísia Floresta era abolicionista. Antes dela ninguém escreveu nada condenando a escravidão. Nísia nasceu aos 12.10.1810 e faleceu aos 24.4.1885. Princesa Isabel nasceu aos 29.7.1846 e morreu aos 14.11.1921. Quando Princesa Isabel ainda nem era nascida, Nísia Floresta era autora de livros. Quando Isabel tinha três anos de idade, Nísia perguntava em uma de suas obras:
“... que uma raça não fez para sobre as outras ter revoltante primazia ilimitado poder?”...
Quando Isabel tinha 7 anos, Nísia colocava as autoridades brasileiras contra a parede e sentenciava:
“Senhores do Brasil, esse solo abençoado em que respirais, mostrai-vos dignos dele, fazendo desaparecer do meio de vós a maior vergonha dos povos cristãos! Vergonha que macula ainda os vossos altivos vizinhos do Norte, apesar dos admiráveis progressos do seu gênio empreendedor e dinâmico. Cessai uma horrível profanação da natureza humana: ela deve ter, cedo ou tarde, como resultado, terríveis represálias”...


Se desenrolarmos o novelo das referências abolicionistas feitas por Nísia Floresta em suas diversas obras, e as discutirmos aqui, este texto viraria tese. Servi-me dessas duas significativas falas para trazer à baila essa importante informação que alguns desconhecem.
O Movimento Abolicionista, no Brasil, foi crescer em 1870, ou seja, 21 anos depois de Nísia Floresta ter aventado seu ideário abolicionista em livros. Isso é fato. Está escrito! A abolição da escravatura no Brasil só aconteceria tardiamente, em 13 de maio de 1888, comprovando o conservadorismo das elites brasileiras. E não pensem que foi um ato de bondade.
A Lei Áurea foi conseqüência do envolvimento popular com a causa da abolição. O povo foi às ruas gritar sua voz. O imperador sentiu-se pressionado a finá-la. Os grandes latifundiários, fazendeiros e a elite dona de milhares de "peças" ficaram enlouquecidos... não teriam mais mão de obra grátis. Não teriam mais seus brinquedos sexuais... não teriam mais válvulas de escape para dar vazão aos seus atos psicopatas, como certa vez revelou Darwin, ao visitar o Brasil e ver uma senhora de engenho batendo numa criança para se divertir...
Entre 1870 até a deflagração da abolição tivemos abolicionistas como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco André Rebouças, Luís Gama, o poeta Castro Alves e outros. Sem contar os abolicionistas pretos. Mas Nísia Floresta veio na dianteira, abrindo caminho a facão e sofrendo todo tipo de preconceito e tabu. Não poderia ser diferente.
Ter sido precursora não a torna melhor que ninguém, até porque, nascida no meio da escravidão, ela foi construindo o seu comportamento abolicionista ais poucos, dando conta de que aquilo não podia ser normal nem se perpetuar. E para isso precisou ser cuidadosa trabalhando o assunto nos jornais e livros aos poucos, meio impregnada daquele habitat - porque não poderia ser diferente. Foi um abolicionismo construído. Nísia é a grande referência em toda a América Latina, inclusive fomos o último país da nossa América a decretar o “fim da escravidão”.
O seu pioneirismo também serve para reconhecermos que, além de suas ideias estarem a frente de seu tempo, havia muita audácia e coragem em sua pessoa. E o fato de se tratar de uma mulher, era como ter que matar um leão por dia. Primeiro que "mulher era para a cozinha e outras prendas domésticas", e jamais para o mundo das ideias.
O que chama a atenção nessa história é que a “bondade” da Princesa Isabel foi apenas um ato forçado e sem responsabilidade alguma perante milhares de "ex-escravos" soltos, sem eira e nem beira. A ABOLIÇÃO FOI A ALTERNATIVA PARA O GOVERNO SE LIVRAR DA REFORMA AGRÁRIA. Desse modo eles abriram os ferrolhos das senzalas e soltaram os ex-escravos como se abre uma cancela do curral... retiraram os grilhões e tiraram de cena o pastoreio dos capitães do mato.
É exatamente como - hoje - você abrir a portinha da gaiola e dar liberdade ao passarinho ali sequestrado há dez anos. Para onde ele vai? O que fará? Não sabe voar, não sabe ser predador, não conhece as árvores, os rios... não sabem nada... ASSIM FOI COM OS ESCRAVOS!
Aos pretos restou abandono. Abandonados, se viram obrigados a viver à míngua nas periferias e arrabaldes, marginalizados e discriminados. Então inauguraram as favelas. Não eram gente para muitos. A metade ficou nas cozinhas das madames, nos pastos dos senhores e em todos os serviços que branco não fazia. Assim aprenderam.
O que se pode esperar de pessoas marginalizadas? A discriminação e o desprezo são como açoite. Dói, gera revolta... E os reflexos são visíveis até hoje nas páginas policiais. Essa realidade não foi regra para todos, mas para muitos. Prova disso são as estatísticas de criminalidade.
Só pretos cometem crimes? Claro que não! Comete crimes quem é abandonado por sucessivos governos inconseqüentes, segregacionistas, que não oportunizam políticas públicas de dignidade para a sua nação, sem priorizar cor ou qualquer condição. Foi o caso deles!
Pois é, hoje é 13 de maio: dia em que Isabel Augusta Micaela Gabriela de Bragança e Bourbom aboliu a escravidão, mas num ato meramente de conveniências... ato politiqueiro como ocorre hoje, por exemplo, com algumas figuras públicas super conhecidas, que não gostam de pobre, de negros, de indígenas, de gays, mas como é ano político, a máscara do marketing os modificam como camaleões, e ficam temporariamente bem na fita, embora que PARA INGLÊS VER!
É exatamente por isso que aproveito o detalhe de estarmos falando de Nísia Floresta, - uma mulher, diga-se de passagem -, há mais de um século e meio, sozinha, gritando contra a escravidão e diversas injustiças, mesmo sabendo que poderia sofrer retaliações, e hoje - pasmem! - assistimos mulheres a favor de torturadores, misóginos, racistas homofóbicos todo comportamento não civilizado. O QUE ACONTECEU COM ESSAS MULHERES? E COM AS SILENCIOSAS?
Pois então, já estava mudando o assunto... como dizia, abolicionista mesmo - e precursora - foi Nísia Floresta. Leiam o currículo dela e depois leiam o currículo da princesa Isabel. O assunto é longo. Quis apenas deixar essa breve reflexão importante sobre a visão adiante do tempo de Nísia Floresta Brasileira Augusta. L.C.F. 1998.

HOJE É DIA DE LEMBRAR, PEDIR PERDÃO E LUTAR CONTRA ESSA PÁGINA VERGONHOSA DA NOSSA HISTÓRIA...


As imagens, por mais que choquem, não são maiores do que a crueldade política da escravidão. Por isso, quando você ver o racismo, condene, execre. Faça desse ato um ato político sem esperar pelo "lugar de fala". Esse "lugar de fala" é do homem. Aboliram a escravidão, mas os escravos negros continuaram da cozinha para o quintal. Não houve política pública. Surgiram as favelas... Tempos atrás, conversando com uma nisiaflorestense, ela me contou que nos anos 50, quando tinha 10 anos, se recorda de sua mãe e muitas pessoas de cor, empregadas domésticas em Papari, as quais eram tratadas como se fossem bichos. Não podiam se aproximar da sala. Entendem, agora, a razão das Cotas nas universidades?










PRINCESA ISABEL EM UMA DE SUAS ÚLTIMAS FOTOGRAFIAS...


Isabel de Bragança (1846-1921) exilada no Castelo d’Eu, França, em seu último ano de vida, 1921. Ela morreu em 14 de Novembro de 1921, há 101anos.

Fonte: História Oculta Photos

13 DE MAIO - DIA DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO...


Foi por conveniência mesmo, mas foi um passo importante! E saber que a "desconhecida" NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA - vinte e nove anos antes da princesa Isabel -, lutava contra a escravidão, se confirma a ideia de que a sociedade civil deve se organizar sempre. O caminho é esse. Só esse,, pois ela é a grande provocadora de transformações. Nísia foi pássaro ferido, solitário, mas foi capinando o seu caminho... abrindo veredas que se tornaram estradas e hoje são avenidas... pense!

domingo, 10 de maio de 2026

LENDA DA LAGOA PAPARY E UMA MENSAGEM DEIXADA POR ELA...

Fotografia de Newton Bruno, publicada em: G1 - Projeto fotográfico 'Papari' mostra realidade de ribeirinhos no RN - notícias em Rio Grande do Norte

LENDA DA LAGOA PAPARY (Autoria desconhecida no momento)

Contava-se em Papari
A lenda de uma sereia;
Era a história de Jaci,
Jovem tapuia da aldeia.

Jaci formosa e catita,
Filha do chefe Aribó
Era a índia mais bonita
Do Vale do Capió.

Amava com amor ardente
Guaracy jovem guerreiro,
Cujo peito igualmente
Nasceu um afeto primeiro

Sozinho na solidão
Guaracy vagava a toa,
Ora ao redor da Caiçara,
Ora ao redor da lagoa.

Certa vez quando pescava
Tentando esquecer as mágoas,
Ouviu que perto cantava
A voz de Jaci nas águas.

A delirar, Guaracy.
Na lagoa mergulhou
Seguiu a voz de Jaci
E a tona não mais voltou.

Hoje esta lenda triste
Quem se dispõe a cantar
Vê quanto mistério existe
Entre a lagoa e o mar.

VÍDEOS ABAIXO (CLIQUE E ASSISTA):





MENSAGEM (L.C.F.)

Eu, Lagoa Papary - outrora chamada Paraguaçu - brasileira, natural destas terras antigas do Rio Grande do Norte, casada simbolicamente com os nativos que durante séculos viveram às minhas margens, domiciliada entre o Porto, Morrinhos, Tororomba, Oitizeiro, Georgino Avelino, Currais e Genipapeiro, dirijo-me respeitosamente a você, nisiaflorestense, para pedir socorro.

Antes, porém, permita-me falar da minha origem.

Você sabia que meu nome original era Paraguaçu? Na língua tupi, significa “Mar Imenso”. Nem é difícil entender o motivo. Já fui muito maior do que sou hoje. Minhas águas avançavam por extensões hoje inimagináveis, abraçando caminhos, rios, mangues e várzeas que o tempo, o abandono e a ação humana lentamente mutilaram.

Sou filha da Lagoa do Bonfim, antigamente chamada “Puxi”, nome indígena posteriormente rejeitado pelos missionários capuchinhos. Nasci no seio de uma imensa família de lagoas e espelhos d’água. Tenho muitas irmãs: Papeba, Papebinha, Ferreira Grande, Ferreirinha, Urubu, Escura, Lagoa Seca, Carcará, Arituba, Cavalos, Pium, Amarela, Ilhota, Lodo, Sítio, Dourada, Alcaçuz, Tacho, Jabuti, Hiola, Redonda, Redondinha, Carnaúba, Teixeira, Anjos, Custódia dos Negros e Peixe, embora algumas delas sejam apenas irmãs adotivas do mesmo sistema hídrico que alimenta estas terras.

Tenho ainda inúmeros primos em forma de rios, riachos e veios d’água espalhados pelo centro da cidade, pelo Porto, Ilha, Boacica, Pirangi, Alcaçuz, Pium, Cururu e Hortigranjeira. De certa forma, estou presente em quase todo o município.

Sobre minha idade, prefiro manter o mistério. Mas deixo uma pista: eu já existia muito antes da chegada dos primeiros indígenas a estas terras. Muito antes dos portugueses, antes das estradas, antes dos engenhos, antes das cercas e dos viveiros. Vi o tempo nascer sobre estas margens.

Fiz a alegria de incontáveis gerações indígenas que habitavam minhas matas ciliares. Vi homens e mulheres pescando, navegando em canoas, banhando-se em minhas águas cristalinas e vivendo em profunda harmonia com a natureza. Das minhas entranhas saíam peixes gigantescos, alguns pesando quase trinta quilos. Fui berço abundante de goiamuns, camarões, pitus, siris, caranguejos-sá e de uma vasta e rica microfauna aquática.

Sou a lendária Lagoa Papary - antiga Paraguaçu - grande reservatório das águas do Trairi, receptáculo das enxurradas vindas do inverno sertanejo. Pequenos riachos descem dos tabuleiros arenosos e, ao longo dos séculos, alimentaram esta imensidão de águas interligadas a rios e lagoas que seguem em direção ao mar pelo velho Cururu.

Desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, meu nome passou a figurar em mapas, documentos e relatos históricos. Já aparecia na cartografia de Marcgrave, em meados da década de 1640. E antes mesmo disso, já era conhecida em Portugal. Em 1810, o célebre viajante inglês Henry Koster visitou-me quando minhas águas ainda alcançavam o Porto.

Em seu livro Viagem ao Nordeste do Brasil, ele descreveu o encanto de ver pescadores chegando em canoas abarrotadas de peixes, comparando minha fartura ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra. Fui cantada em versos por autores anônimos, evocada em antigas lendas indígenas e mencionada por inúmeros viajantes europeus em documentos hoje raríssimos.

Sempre fui vista como misteriosa, bela e acolhedora. Foi nesse contexto que surgiu a célebre lenda de Jaci e Guaracy, uma narrativa profundamente romântica, provavelmente escrita sob influência do Indianismo do século XIX, quando a imaginação literária brasileira transformava indígenas em personagens míticos e heroicos.

A lenda dizia que Jaci, bela índia tapuia, apaixonara-se pelo guerreiro Guaracy. Mas o destino cruel transformou o amor em tragédia. Certo dia, ouvindo a voz de sua amada ecoar sobre as águas, Guaracy mergulhou em mim e jamais retornou à superfície. Desde então, muitos afirmam existir um mistério profundo entre a lagoa e o mar.

E quantas memórias guardo…

Vi passar silenciosamente Jacob Rabbi e seus homens logo após a Chacina de Cunhaú, rumo à Barra de Tabatinga para novos massacres. Era uma noite de lua cheia. As sombras daqueles assassinos tocaram meus juncos enquanto seguiam pelas antigas veredas destas terras.

Também testemunhei homens brancos de olhos claros devastando as matas ciliares em busca do precioso pau-brasil. Recordo-me de dias em que dezenas de navios franceses deixavam esta região carregados da madeira vermelha arrancada das florestas.

Apesar de tudo, minhas águas permaneceram limpas durante séculos. A própria fauna aquática realizava naturalmente minha limpeza. Eu era ora doce, ora salgada, ora salobra, abraçada pelas águas da Caiçara, que me envolvia completamente em determinados períodos.

Aliás, você sabe o que significa “caiçara”?

A palavra vem do tupi-guarani: “caa” significa mato ou madeira; “içara”, armadilha ou cerca. Originalmente, designava cercas feitas pelos indígenas com galhos e varas. Mais tarde, passou a identificar os povos litorâneos formados da mistura entre indígenas, portugueses e africanos, populações profundamente ligadas à pesca, à agricultura e aos ciclos naturais.

Hoje quase ninguém se lembra disso.

Minhas margens já foram povoadas por galinhas-d’água, marrecos, tetéus, xexéus, sabiás, gaviões, concrizes e inúmeras outras aves. Saciei a sede de tatus, cotias, raposas, jacarés, timbus, preás e guaxinins. Isto aqui parecia um pequeno Pantanal potiguar.

Durante décadas, especialmente na tradicional Festa dos Pescadores, em setembro, minhas águas ofereciam centenas de quilos de peixes e camarões. O Porto se enchia de barracas, forrós, celebrações e alegria. As casas eram simples, cobertas de palha, mas havia fartura e dignidade. Existia até o antigo “dízimo do peixe”.

Então vieram as mudanças.

Durante séculos recebi águas vindas do sertão. Mas essas águas começaram a trazer também toneladas de barro decorrentes do desmatamento. Aos poucos fui sendo assoreada. Em 1974 ocorreu a inesquecível “Cheia de 74”. A força das águas rompeu a BR-101 nas proximidades de São José de Mipibu, despejando sobre mim enormes quantidades de sedimentos.

Pouco depois, rompeu-se também a barragem de Georgino Avelino. Toneladas de barro e entulho invadiram meu leito. Nunca mais fui a mesma.

Áreas antes tomadas por água hoje estão cobertas por aninga, pasta e aguapé. Meu fundo acumula sedimentos trazidos de rios e cidades cujas margens foram destruídas. Em um dos meus pontos mais profundos surgiu um gigantesco banco de areia, semelhante a uma ilha.

Minha flora e fauna aquáticas entraram em colapso. Plânctons desapareceram. Peixes e crustáceos diminuíram drasticamente. O manguezal - minha verdadeira muralha de proteção - foi devastado ao longo dos anos para construção de casas, lenha e, mais recentemente, pela expansão dos viveiros.

Eu acreditava que a destruição diminuiria com o avanço da alvenaria. Enganei-me.

Hoje minhas margens se transformam lentamente num descampado. Produtos químicos são despejados sobre mim. Um líquido estranho mata tudo que encontra pela frente. Pequenos peixes sobem mortos à superfície. O mau cheiro já lembra rios urbanos completamente degradados.

E o mais grave: estou situada sobre os aquíferos Aluvião e Barreiras, uma das mais importantes reservas hídricas do Rio Grande do Norte. Minha morte não representará apenas o desaparecimento de uma lagoa. Representará um desastre ambiental de enormes proporções.

Confesso minha tristeza.

Escuto lamentos de pescadores, ambientalistas e moradores antigos, mas quase ninguém age. Onde estão as autoridades? Onde estão os estudantes, pesquisadores, ecologistas, gestores públicos e amantes da natureza?

Lembro aos que possuem memória curta: fui eu quem matou a fome de seus antepassados quando tudo era mais difícil. Muito antes dos programas sociais e da modernidade, fui fonte de sobrevivência para inúmeras famílias humildes que viviam em casas de taipa e palha.

Fui eu quem encheu os cestos de peixes, pitus e caranguejos levados pelos seus avós para dentro de casa. Vi mulheres sentadas nos batentes limpando o pescado enquanto o fogão de lenha aquecia inhame, macaxeira, fruta-pão, batata assada e café recém-passado.

À noite, havia fartura. Havia união. Havia dignidade.

Foi de mim que nasceu também a tradição gastronômica que transformou Nísia Floresta na célebre “Terra do Camarão”. Pequenas barracas de palha às margens das estradas evoluíram para restaurantes populares conhecidos pelo camarão no alho e óleo, no molho e no vatapá.

Todos os dias, antes do amanhecer, pescadores partiam rumo a Natal vendendo camarões, peixes, siris e goiamuns pelas ruas da capital.

E havia ainda os domingos felizes…

Famílias inteiras chegavam cedo para banhar-se em minhas águas e passear de canoa. As árvores ao redor serviam de parque de diversão. Passavam o dia inteiro entre sombras frescas, água de pote e liguento.

Eles eram felizes - e não sabiam.

NÍSIA FLORESTA E O SAGRADO OFÍCIO DA MATERNIDADE...




Hoje bem cedo liguei para minha irmã R., lá pelas bandas do Mato Grosso do Sul, onde reside minha mãe e irmãos. Desejei-lhe feliz Dia das Mães e pedi que hoje à tarde, quando os filhos estivessem todos na casa da minha mãe, ela ligasse para mim para conversarmos juntos. Com certeza será uma grande alegria. Minha mãe está com 94 anos de idade. Nessas datas, inevitavelmente, a memória figura como estrada e nos transporta ao passado, revivendo lembranças inesquecíveis ao lado de nossas mães, sobretudo no tempo em que éramos crianças e adolescentes, quando a maternidade de nossas genitoras nos abraçava de maneira especial, calorosa e quase sagrada.

Foi justamente pensando nisso que me lembrei de Nísia Floresta Brasileira Augusta, uma mulher cuja grandeza intelectual jamais conseguiu apagar nela aquilo que talvez tenha sido sua marca mais profunda: o sentimento maternal.

Poucas mulheres da história brasileira souberam amar com tamanha intensidade os seus familiares como Nísia Floresta. Em suas obras, em suas cartas, em seus escritos memorialísticos e até mesmo em suas observações sobre o mundo, percebe-se constantemente um coração povoado de saudades, afetos e preocupações familiares. A figura de sua mãe, Antônia Clara Freire do Revoredo (Goianinha: 1780 - Rio de Janeiro: 1855), aparece em sua trajetória como verdadeiro porto sentimental. Nísia jamais esqueceu as referências maternas recebidas na infância. Dona Antônia Freire não era alfabetizada, mas o que lhe faltava em instrução formal sobrava-lhe em sabedoria prática, amor e proteção à filha. Foi ela quem transmitiu à futura educadora noções essenciais de humanidade, sensibilidade e firmeza moral.

Mesmo vivendo longos anos na Europa, distante do Brasil e dos familiares, Nísia carregava consigo a memória amorosa da mãe, frequentemente evocada em seus escritos de maneira delicada, respeitosa e profundamente emocionada. O mesmo ocorria em relação ao pai, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, assassinado tragicamente em 1828, quando Nísia tinha apenas dezoito anos de idade e sua mãe quarenta e oito. A dor dessa perda atravessou toda a sua existência. Ela jamais conseguiu apagar da alma o trauma da violência que arrancou tão cedo a presença paterna do convívio familiar.

A maneira como Nísia se referia ao pai - homem culto e profundamente empenhado na educação da filha - revelava não apenas admiração, mas verdadeira reverência afetiva. Em suas recordações, Dionísio surgia como homem digno, honrado, amoroso e culto, cuja ausência marcou para sempre a estrutura emocional da família. Talvez exatamente por haver conhecido tão cedo a dor da perda, Nísia tenha desenvolvido um sentimento maternal ainda mais intenso e protetor. Isso se percebe claramente em sua relação com o irmão caçula, Joaquim Pinto Brasil (Papari: 1819 – Rio de Janeiro: 1875), nascido Joaquim Pinto Lisboa e que posteriormente adotaria o sobrenome Brasil. Após o assassinato do pai, Joaquim era apenas uma criança de nove anos de idade. Nísia praticamente assumiu para si uma postura de segunda mãe e ela mesma declararia isso mais tarde. Sentia-se responsável pelo menino órfão, como se precisasse dobrar o amor familiar para compensar a ausência brutal do pai.

Depositou nele cuidado, zelo, orientação e expectativas. Talvez por isso tenha sido tão profunda a decepção que sentiu posteriormente quando ele, aos dezesseis anos de idade, decidiu por um casamento precoce e inesperado. Não era simples frustração entre irmãos: era a dor de alguém que havia amado maternalmente, preocupando-se sinceramente com o futuro do irmão e da família.

Mais tarde, em Opúsculo Humanitário, publicado em 1853, Nísia mencionaria que Joaquim Pinto Brasil era “pai de sete filhos”. Contudo, anos depois, em Fragments d’un Ouvrage Inédit: Notes Biographiques, lançado em 1878, ela esclareceria que o irmão tivera, na verdade, onze filhos, referindo-se anteriormente apenas aos que estavam vivos. Joaquim tornar-se-ia figura respeitada na Corte, destacando-se como advogado, professor, filósofo e homem público, chegando inclusive a ocupar a pasta provincial da Agricultura, Comércio e Obras Públicas no Rio de Janeiro.

A própria estrutura familiar de Nísia revela uma história marcada por perdas, recomeços e afetos profundos. Ela era filha do segundo casamento de Antônia Clara Freire do Revoredo, que enviuvou muito jovem do português Antonio Rodrigues Fernandes. Desse primeiro matrimônio nasceu Maria Isabel do Sacramento. Posteriormente, Antônia casou-se com Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, união da qual nasceram Maria Clara, Joaquim Pinto Brasil e Nísia Floresta. Maria Clara era chamada carinhosamente por Nísia de “Chixi”, apelido familiar que revela a intimidade afetiva existente entre as irmãs.

A própria vida conjugal de Nísia foi marcada por episódios difíceis. Casou-se ainda adolescente, aos treze anos de idade, com Manoel Alexandre Seabra de Melo, união que durou menos de um ano. Posteriormente, estabeleceu relação com Manuel Augusto de Faria Rocha, homem que se tornaria grande companheiro, mas que fatalmente morreria pouco tempo depois, em 1833, deixando Augusto Américo recé-m nascido.

É especialmente na relação com os filhos que o espírito maternal de Nísia Floresta alcança sua dimensão mais comovente. Ela foi mãe de Lívia Augusta de Faria Rocha (Recife: 1830 - França: 1912) e Augusto Américo de Faria Rocha (Porto Alegre: 1833 - Rio de Janeiro: 1889), aos quais dedicou amor incondicional. Em meio às dificuldades da vida, às perseguições intelectuais, às viagens constantes e aos desafios de uma mulher muito à frente de seu tempo, Nísia jamais abandonou o sentimento de proteção e responsabilidade para com os filhos. Sua maternidade não era apenas biológica; era profundamente moral, intelectual e espiritual.

Uma das maiores provas disso encontra-se em sua célebre obra Conselhos à Minha Filha, escrita especialmente para Lívia Augusta por ocasião de seus doze anos de idade e publicada em 1842. Trata-se talvez de um dos mais belos testemunhos de amor maternal da literatura brasileira. O filho Augusto Américo lhe deu muitos netos, prolongando a descendência familiar. Lívia Augusta, porém, encerrou a existência em si mesma. Ficou viúva muito jovem, não teve filhos e jamais voltou a casar.

Naquele pequeno livro, Nísia não oferece apenas recomendações domésticas a uma filha adolescente, a “Cerinha”, apelidada assim pelo irmão Joaquim, como carinhosamente Nísia também a chamava. Ela entrega verdadeiro mapa ético para a vida. Cada conselho parece escrito sob a típica preocupação materna. Há ali o desejo sincero de preparar L´via para um mundo duro, desigual e frequentemente cruel com as mulheres. N´sia desejava que a filha caminhasse pela estrada da dignidade, da justiça, da honestidade, do respeito ao próximo e da educação intelectual. Para ela, educar uma filha era formar uma consciência.

Existe algo profundamente simbólico nesse gesto. Enquanto muitas jovens da época recebiam vestidos, joias ou adornos sociais ao atingirem determinada idade, Nísia resolveu presentear a filha com um livro de orientações morais e humanas. Era como se dissesse silenciosamente que nenhum luxo, nenhuma joia ou riqueza material teria valor superior à construção do caráter.

O espírito maternal de Nísia também se manifestava em sua visão humanitária diante das dores do mundo. Em sua obra O Brasil, ela relata, horrorizada, a realidade encontrada em determinadas áreas rurais da França, onde crianças eram entregues a amas de leite e cuidadoras improvisadas. O cenário descrito por ela é profundamente doloroso. Nísia ficou chocada com a sujeira das casas, com a precariedade dos ambientes e com o abandono ao qual muitas crianças eram submetidas.

Relata situações de extrema negligência, nas quais mães biológicas - desnaturadas pelo egoísmo e pela futilidade social - praticamente esqueciam os próprios filhos naquelas propriedades miseráveis. O episódio mais terrível narrado por ela envolve uma criança devorada por um porco diante do absoluto descaso em que vivia.

A indignação de Nísia diante daquela realidade revela muito sobre sua concepção de maternidade. Ela entendia que maternidade é instransferível. Para ela, o cuidado com a infância era algo sagrado. A maternidade não poderia coexistir com abandono, negligência ou indiferença. Seu horror não era apenas social; era profundamente humano e maternal. Ela sofria ao perceber crianças privadas de carinho, proteção e dignidade.

Essa mesma sensibilidade aparece em diversas outras passagens de sua obra. Nísia sempre demonstrou especial preocupação com a educação das meninas, com a formação moral da juventude e com a construção de uma sociedade mais humana. Sua defesa da educação feminina não nascia apenas de um ideal político ou intelectual. Nascida também de uma percepção maternal do mundo, ela acreditava que mulheres instruídas poderiam formar filhos melhores, famílias mais conscientes e uma sociedade menos brutal. Talvez por isso sua escrita possua delicadeza que atravessa o tempo. Mesmo quando combatia injustiças sociais, preconceitos ou estruturas patriarcais, havia em suas palavras dimensão afetiva muito forte. Era a voz de uma mulher que compreendia o sofrimento humano não apenas pela razão, mas também pelo coração.

Hoje, enquanto tantas mães abraçam seus filhos, recordo que Nísia Floresta Brasileira Augusta permanece como forte expressão do sentimento maternal. Não apenas por ter gerado filhos, mas porque transformou a maternidade em elevada forma de amor ao próximo, proteção familiar e responsabilidade humana.

Hoje, lá nas terras pantaneiras, para onde ela migrou minha mãe aguarda ligação telefônica de três filhos que moram longe: uma filha no Oeste Paulista, outra na Mooca, em São Paulo, e eu aqui, na terra onde ela e meu pai nasceram. Aguarda também o telefonema de um neto que vive na Rússia e outro que mora na Irlanda. E nessa espera - digo espera porque as mães estão sempre esperando ouvir filhos e netos - compreendo ainda mais o valor dessas mulheres que sustentam silenciosamente a memória das famílias.

Mulheres como Antônia Clara. Mulheres como Nísia Floresta. Mulheres que envelhecem carregando no coração o nome de cada filho, de cada neto, de cada ausência e de cada saudade. Talvez seja exatamente isso a maternidade: um amor que jamais termina. Um amor que atravessa oceanos, décadas e até mesmo a morte. Um amor como aquele que Nísia Floresta guardou eternamente por sua mãe, por seu pai, por seus filhos e por seus irmãos. Um amor tão grande que ainda hoje, mais de um século após sua morte, continua emocionando aqueles que aprendem a conhecê-la.

E desse modo, saúdo minha mãe, e desse modo, saúdo Nísia Floresta e todas as mães do nosso querido Brasil!

domingo, 3 de maio de 2026

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O QUE ESTÁ ESCRITO NAS PLACAS AFIXADAS NO MONUMENTO EM HOMENAGEM A NÍSIA FLORESTA?

Placa frontal, afixada no monumento em homenagem a Nísia Floresta. O polimento revelou marcas de pedradas, como se vê.

No último dia 24 de abril de 2026, ao participar do II Movimento Pró Memória Nísia Floresta (cujos detalhes do evento estão neste mesmo blog), ocasião em que ocorreu bela solenidade e descerramento da placa alusiva à restauração do monumento em homenagem a Nísia Floresta Brasileira Augusta , erigido originalmente em 1909, e do mausoléu onde repousam seus restos mortais, tive a oportunidade de realizar um registro que considero de especial relevância documental e afetiva. Naquela ocasião, fotografei atentamente as quatro placas originais afixadas no monumento desde a sua inauguração, peças que guardam inscrições históricas de grande valor para a memória da intelectual potiguar.

Essas placas haviam sido recentemente removidas para um processo de polimento e conservação, o que lhes conferiu, naquele momento, uma nitidez visual rara, permitindo a leitura clara e precisa de seus dizeres, algo que, em condições habituais, é dificultado pela ação do tempo, que lhes imprime uma tonalidade mais escurecida. O recente polimento trouxe à tona uma informação curiosa, que me remete a um relato ouvido de um rapaz no início da década de 1990: ao passarem pelo monumento com amigos, costumavam lançar pedras contra a placa, numa espécie de desafio lúdico, em que vencia quem acertasse o alvo, algo facilmente percebido pelo som do impacto. Tal prática ajuda a explicar por que justamente a placa frontal apresenta marcas tão evidentes de apedrejamento. O episódio, aliás, ainda sugere outras interpretações, cuja leitura deixo à livre imaginação do internauta. Consciente de que esse efeito de clareamento é apenas transitório e que, em breve, as placas retomariam sua aparência mais opaca, senti a necessidade de registrar fotograficamente esse instante privilegiado.

Assim, movido não apenas pelo interesse pessoal, mas também pelo compromisso com a preservação e difusão da memória histórica, realizei essas fotografias com o propósito de, posteriormente, transcrever fielmente o conteúdo nelas inscrito, garantindo que tais informações permaneçam acessíveis e legíveis para outros estudiosos, pesquisadores e admiradores da obra e da trajetória de Nísia Floresta.

Felizmente, todas as placas originais permanecem preservadas, permitindo ao visitante contemporâneo não apenas contemplar a estrutura física, mas também mergulhar nas narrativas simbólicas e históricas que ali se inscrevem. Trata-se, portanto, de um dos mais importantes marcos da memória cultural do Rio Grande do Norte, reunindo história, arte, literatura e identidade em um único espaço.

Com relação ao monumento, houve um cuidado poético nas inscrições, a começar pela placa que diz "Neste ninho até agora ignorado...", revelando ser desconhecido até então o local de nascimento de Nísia Floresta. Vale a pena conhecê-las. Uma delas está escrita em francês e tive o cuidado de traduzir mais abaixo. Em suas faces há as seguintes inscriçóes:

A LESTE: Deste ninho, até agora ignorado, levantou voo altaneiro a notável norte-rio-grandense a quem a mocidade rende esta homenagem.

A OESTE: - “Votre touchante composition est irrévocablement placée dans la tiroir sacré qui ne contient que la correspondance exceptionelle. Respect e sympathie. AUGUSTE COMTE”. Carta de 29 de agosto de 1857. Tradução: “Sua comovente composição será irrevogavelmente arquivada na gaveta sagrada reservada apenas para correspondências excepcionais. Respeito e condolências. AUGUSTE COMTE”.

AO NORTE - NÍSIA FLORESTA. 1809-1909. 12 de Outubro. Papari.

AO SUL: - O Congresso Literário, reunido em setembro de 1909, sob os auspícios do exmº dr. Alberto Maranhão, seu presidente de honra e Governador do Estado, resolveu erigir este monumento.

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