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| Imagem gerada por IA, inspirada no texto, sem comprometimento com a fidelidade |
UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA
Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada.
Há certas páginas antigas que, quando reencontradas,
parecem sair do silêncio dos arquivos para nos devolver não apenas uma
informação, mas uma maneira de olhar para o passado. Foi assim que me deparei
com um texto publicado na revista A Semana, em março de 1942, assinado por
Henrique Gonçalves e intitulado “Um Governador do Século XVIII” (Leia-o, no
final deste texto, ipsis literis). O título, por si só, poderia levar o leitor
a imaginar que se trata apenas de mais uma narrativa de personagens da história
luso-brasileira. Ele inicia o texto percorrendo esse universo curioso,
lembrando marinheiros, soldados, governadores, poetas, juízes e outros
personagens que, em diferentes momentos, receberam nomes que acabaram se
tornando mais conhecidos do que os próprios nomes de batismo. Mas, à medida que
o texto avança, ele entra num terreno muito mais interessante: os costumes, a
moralidade, as festas, o teatro, os papéis sociais e, sobretudo, a posição da
mulher na sociedade de outros tempos – única parte do texto que me interessou –
porque é exatamente nesse movimento que surge, quase de passagem, o nome de Nísia
Floresta e, com ele, uma referência a Henry Koster que, passados quase oitenta
anos, merece ser novamente examinada.
Ele fala inicialmente das antigas comemorações, das
“lamúrias”, dos fogos, do Te-Deum
Laudamus e do teatro, que, segundo sua compreensão, era visto como
instrumento de moralização. Recorda as representações religiosas, os autos de
Anchieta, a presença do anjo e do diabo como personificações do prêmio e do
castigo e, mais adiante, a chegada da comédia francesa ao Brasil. Lembra ainda que,
em determinados períodos, as mulheres não subiam aos palcos, sendo seus papéis
desempenhados por homens. A partir daí, sua reflexão deixa o teatro e passa
para o espaço doméstico. É então que afirma que “a preservação da mulher dos
meios masculinos se estendia pelo interior” e convoca Henry Koster como
exemplo. Escreve Henrique:
“A preservação da mulher dos meios
masculinos se estendia pelo exterior. Koster, por exemplo, não viu Nísia
Floresta, no Rio Grande do Norte, ao visitar o pai dela, advogado. Época
solene, onde o patriarca era senhor absoluto e autoritário. Tinha dentro de
casa um pequeno reino. Não somente o negro lhe prestava a mais humilde
obediência: também a mulher e as filhas eram vassalos incondicionais”.
É uma passagem forte, reveladora da mentalidade do
autor e, justamente por isso, não deve ser simplesmente descartada. Ao
contrário, ela precisa ser lida em seu contexto, porque nos mostra como, em
1942 (ano da publicação do texto), o autor interpretava a sociedade doméstica
na qual nascera Nísia Floresta. O problema começa quando uma interpretação
dessa natureza passa a ser tomada como se fosse uma constatação documental
absoluta.
Há, nesse ponto, uma distinção que considero
indispensável. O autor não escreveu que Nísia ainda não havia nascido. Escreveu
que Koster “não viu N´sia Floresta”. São fatos completamente diferentes. A
primeira seria uma afirmação cronológica; a segunda é uma afirmação sobre
aquilo que o viajante teria ou não teria visto. A cronologia conhecida da vida
de Nísia Floresta estabelece seu nascimento em 12 de outubro de 1810, no sítio
Floresta, em Papary. O relato original de Henry Koster registra sua passagem
por Papary durante sua viagem de 1810, quando esteve na propriedade de Dionísio
Gonçalves Pinto Lisboa, pai da futura escritora. O próprio Koster escreveu que
Dionísio lhe apresentou sua esposa, descreveu a pequena propriedade no vale e
registrou aspectos da hospitalidade que recebeu. A fonte primária, portanto, é
muito mais rica do que a frase do referido autor. E é justamente aqui que a
menção a Koster se torna, para mim, particularmente curiosa. Se o viajante
inglês é chamado pelo autor do texto para servir de testemunha de um costume
social, então é preciso ouvi-lo diretamente. Não basta ouvir aquilo que alguém
escreveu sobre ele em 1942. É necessário voltar ao livro do próprio Koster,
publicado originalmente em 1816. E quando fazemos isso encontramos uma cena
doméstica bastante concreta. O viajante chega a Papary, conhece Dionísio, entra
em sua casa, é apresentado à esposa do anfitrião, observa a propriedade,
participa de uma refeição e permanece ali durante algum tempo. Koster escreveu,
em seu inglês de viajante: “Senhor Dionisio introduced me to his lady; he is a
native of Portugal, and she a Brazilian.” Em seguida, descreve a pequena
propriedade no vale e registra inclusive os costumes da refeição que lhe foi
oferecida.
Esse pequeno detalhe possui enorme significado. Não
estou dizendo, evidentemente, que a casa de Dionísio fosse uma ilha de
igualdade feminina num mundo dominado pelo patriarcado. Seria um absurdo
interpretar assim um episódio isolado. O início do século XIX brasileiro estava
profundamente marcado pela autoridade masculina, pela estrutura patriarcal da
família e por inúmeras restrições impostas às mulheres. O que estou dizendo é
outra coisa: quando se utiliza a visita de Koster para demonstrar que as
mulheres estavam necessariamente afastadas dos homens estranhos, não se pode
ignorar que o próprio viajante registra ter sido apresentado à esposa de seu
anfitrião, ou seja, houve uma situação concreta que não corresponde
integralmente à generalização posterior. Dona Antônia Clara Freire do Revoredo
não ficou escondida na cozinha ou no quarto. E não foi uma quebra qualquer. O
documento concreto, aquele que nasceu da experiência do viajante, é mais
complexo do que a interpretação posterior.
E aqui chegamos ao ponto que considero essencial na
leitura do texto da revista de 1942. Ele não estava escrevendo uma biografia de
Nísia Floresta. Seu objetivo era totalmente outro. Estava falando das alcunhas,
das cerimônias, do teatro, da moralidade e dos costumes sociais. Nísia aparece
como exemplo isolado dentro de uma argumentação muito mais ampla sobre a
posição da mulher. Isso explica o tom categórico da passagem. Para o autor,
Koster não ter registrado Nísia era uma ilustração conveniente de sua ideia de
que a mulher permanecia preservada do contato masculino. Mas a História, muitas
vezes, é menos obediente às interpretações do que gostaríamos. O documento
primário não diz tudo aquilo que uma interpretação posterior gostaria que ele
dissesse. Há, inclusive, algo de profundamente interessante na passagem do
equivocado autor: ele descreve a casa patriarcal como um “pequeno reino”, no
qual o patriarca seria “senhor absoluto e autoritário” e no qual mulher e
filhas seriam “vassalos incondicionais”. A imagem é poderosa e literariamente
expressiva, mas não deixa de ser uma construção interpretativa. Ela pode
ajudar-nos a compreender a percepção de Gonçalves sobre a sociedade antiga, mas
não deve ser automaticamente aplicada, em sua totalidade, à casa de Dionísio
Gonçalves Pinto Lisboa. Para isso precisaríamos de mais documentos, mais testemunhos
e mais elementos capazesde reconstruir o cotidiano daquela família. E, quando
encontramos uma fonte primária como Koster registrando a apresentação da esposa
de Dionísio ao visitante, somos obrigados a introduzir uma nuance que o autor
do texto não introduziu.
É justamente essa nuance que considero necessária
quando se escreve sobre Nísia Floresta. A pesquisa sobre sua infância não pode
ser construída apenas sobre imagens posteriores da escritora adulta. Não
podemos olhar para a mulher que, décadas depois, se tornaria uma das grandes
vozes femininas do Brasil oitocentista e projetar retroativamente sobre sua infância
todas as características de sua personalidade madura. Da mesma maneira, não
podemos pegar uma interpretação de 1942 e tratá-la como fotografia fiel de uma
casa existente em 1810. Há quase um século entre o acontecimento e o texto de
1942. Nesse intervalo, mudaram os costumes, mudaram as ideias, mudaram as
maneiras de interpretar o papel da mulher e mudaram também as formas de
escrever História. É justamente por isso que considero tão importante trazer à
luz esse velho artigo publicado há 84 anos. Ele não deve ser destruído pela
crítica; deve ser salvo por ela. É uma fonte interessante não apenas pelo que
afirma sobre Nísia Floresta, mas pelo modo como um intelectual de 1942
enxergava a sociedade brasileira dos séculos anteriores. Seu texto revela uma determinada
concepção de autoridade patriarcal, de moralidade, de teatro, de costumes e de
comportamento feminino. Quando menciona Koster, ele está fazendo muito mais do
que registrar uma passagem de viagem: está utilizando o viajante como
testemunha para construir uma interpretação da sociedade. E é precisamente essa
operação que devemos examinar.
Existe ainda outro aspecto que torna a passagem
particularmente saborosa para quem pesquisa a história de Papary. Henry Koster
não passou simplesmente por um lugar qualquer. Ele esteve diante de uma pequena
comunidade que descreveu com interesse e simpatia. Viu a paisagem do vale,
falou sobre a lagoa, observou os pescadores chegando, comparou aquela pequena
movimentação ao mercado de peixes de Billingsgate, em Londres, e registrou a
hospitalidade que encontrou na residência de Dionísio. Papary aparece em suas
p´ginas como uma localidade viva, com suas águas, seus pescadores, seus
habitantes dispersos e sua pequena economia. E, dentro desse cenário, estava a
família de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, justamente a família na qual havia
nascido Dionísia Gonçalves Pinto, aquela que o futuro conheceria pelo nome de
Nísia Floresta Brasileira Augusta. O que mais me chama a atenção, entretanto, é
a facilidade com que uma frase como “Koster não viu Nísia Floresta” pode, ao
longo do tempo, ser transformada em uma certeza muito maior do que a fonte
permite. Não viu porque não a registrou? Não viu porque ela estava afastada?
Não viu porque era uma criança de colo? Não viu porque não estava presente
naquele momento? O documento não responde a essas perguntas. E é exatamente
aqui que devemos parar. Não temos o direito o direito de preencher o silêncio
documental com uma certeza inventada apenas porque ela parece combinar com uma
teoria.
Há, portanto, uma diferença enorme entre aquilo que
sabemos e aquilo que podemos imaginar. Sabemos que Nísia nasceu em 12 de
outubro de 1810. Sabemos que Koster esteve em Papary durante sua viagem daquele
ano. Sabemos que esteve na residência de Dionísio. Sabemos que Dionísio lhe
apresentou sua esposa. Sabemos que o inglês registrou a hospitalidade daquela
família. Sabemos também que Gonçalves, em 1942, escreveu que Koster não viu
Nísia Floresta. O que não sabemos, com segurança documental, é se Koster
efetivamente olhou para a criança, se a tomou nos braços, se ouviu seu nome ou
se simplesmente não teve contato direto com ela. Essa parte pertence ao
território do silêncio histórico. E talvez seja justamente esse silêncio que
torne o episódio tão fascinante. Imagine-se a cena, mas sem inventá-la: uma
pequena propriedade no vale de Papary, um viajante inglês chegando depois de
atravessar caminhos difíceis, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa recebendo o
estrangeiro, Antônia Clara presente naquela casa e, em algum ponto daquela
mesma existência doméstica, uma criança recém-nascida chamada Dionísia. O
visitante não poderia imaginar que aquela criança, ainda sem qualquer
importância para os olhos do mundo, se transformaria em Nísia Floresta
Brasileira Augusta. Koster estava registrando uma pequena passagem de sua
viagem; a História, entretanto, acabaria transformando aquela visita numa das
primeiras referências documentais à família da futura escritora.
Por isso, considero que a frase do autor equivocado
deve ser preservada, mas também confrontada. Ela é preciosa como documento de
1942, porém insuficiente como prova absoluta sobre o que aconteceu naquela
residência em 1810. O erro não está necessariamente na existência da frase;
está naquilo que se pretenda fazer com ela. Se alguém disser que ele registrou
que Koster não viu Nísia, estará reproduzindo a fonte. Se alguém disser que,
por causa disso, Nísia ainda não havia nascido, estará indo muito além do que
Gonçalves escreveu e, sobretudo, contrariando a cronologia biográfica
estabelecida. Se alguém afirmar que Koster não teve qualquer contato com
mulheres da casa, estará igualmente ignorando o testemunho do próprio viajante,
que registra ter sido apresentado à esposa de Dionísio. E aqui está,
talvez, a grande lição desse pequeno episódio: uma fonte não deve ser usada
contra outra fonte; as fontes devem conversar entre si. O artigo nos oferece a
interpretação de 1942. Koster nos oferece o testemunho da viagem. A cronologia
biográfica nos informa quando Dionísia nasceu. Cabe ao pesquisador colocar
essas peças sobre a mesa e deixar que elas revelem, juntas, aquilo que cada uma
isoladamente não consegue mostrar. O artigo de 1942 é uma dessas pequenas peças
que, encontradas quase por acaso em uma velha revista, ajudam a reconstruir a
própria história da memória. O texto fala de governadores, de apelidos, de
teatro, de costumes e de mulheres, mas, de repente, quase como quem abre uma
janela por alguns segundos, deixa entrar o nome de Nísia Floresta. E é
justamente essa janela que hoje podemos reabrir, desta vez com os documentos na
mão.
A minha refutação, portanto, não é contra o valor
histórico do artigo. É contra a aceitação automática de sua interpretação. O
autor escreveu a partir dos valores, conhecimentos e referências disponíveis
naquele momento. Nós, após 84 anos, temos a obrigação de voltar às fontes e
verificar o que pode ou não ser sustentado. E quando fazemos isso percebemos
que a frase sobre Koster é muito mais delicada do que parece. O viajante pode
não ter registrado Nísia; isso é uma coisa. Transformar esse silêncio em prova
de que ela não existia ou em explicação definitiva sobre sua ausência é outra,
inteiramente diferente. Há ainda uma ironia que não posso deixar de
registrar. Koster, convocado por Henrique para ilustrar o isolamento feminino,
deixou justamente um testemunho que mostra uma mulher da casa sendo apresentada
ao visitante. E a criança que não aparece nominalmente em suas páginas já
estava, segundo a cronologia conhecida, no mundo quando o viajante esteve ali.
Nísia faria um mês de vida. O futuro, como quase sempre acontece, estava
escondido no detalhe. Naquele momento, ninguém poderia saber que aquela pequena
Dionísia seria a mulher que atravessaria o Atlântico, publicaria livros,
enfrentaria preconceitos, defenderia a educação feminina e ocuparia um lugar
singular na história intelectual brasileira.
Pois bem, uma revista de 1942, uma página amarelada,
uma frase sobre um viajante inglês, um nome grafado como “Nizia Floresta”, um
diário publicado em Londres em 1816 e uma data de nascimento podem parecer
elementos dispersos. Mas, quando colocados lado a lado, eles formam uma pequena
constelação documental. E é nessa constelação, entre o que está escrito e o que
permaneceu silencioso, que podemos reencontrar a verdadeira dimensão daquele
episódio. Henrique merece, portanto, ser lido. Henry Koster merece ser relido.
E Nísia Floresta merece que ambos sejam confrontados. Porque a História não se
faz repetindo uma frase antiga como se ela fosse uma sentença definitiva.
Faz-se perguntando de onde veio a frase, em que contexto foi escrita, o que a
fonte original realmente diz e o que as datas permitem afirmar. No caso de
Nísia Floresta, essa cautela é ainda mais necessária, porque sua própria vida foi
marcada pela ruptura de muitos dos limites sociais que, posteriormente, tantos
autores procuraram explicar. Talvez por isso a menina que nasceu no sítio
Floresta seja ainda hoje tão resistente às interpretações fáceis.
E quanto à afirmação do texto de 1942, fica a
necessária reparação: ele escreveu que Koster não viu Nísia Floresta; não
escreveu que ela ainda não havia nascido. Essa diferença deve ser respeitada.
Sabemos que, durante algum tempo, mesmo que já existissem referências datando o
nascimento de Nísia em 12 de outubro de 1810, muitos ainda pensavam –
equivocadamente – que ela havia nascido
em 1809, portanto poderia surgir a pergunta: “como Koster não viu uma criança
que já contava com mais de um ano de idade?”. Mas isso não é dito no texto. A
cronologia do nascimento de Dionísia em 12 de outubro de 1810 e a passagem de
Koster por Papary naquele mesmo ano impedem que acrescentemos à fonte uma
conclusão que ela não contém. Se Koster efetivamente viu ou não aquela criança,
a documentação disponível não nos permite afirmar com absoluta segurança. E
talvez seja justamente essa a resposta mais honesta que a História pode
oferecer: não preencher a lacuna com imaginação, mas deixá-la aberta, como uma
pequena janela para um passado que, felizmente, ainda podemos continuar
investigando.
EIS O
TEXTO ORIGINAL, IPSIS LITERIS:
UM GOVERNADOR DO SECULO XVIII
HENRIQUE GONZALVES
De onde vieram os apelidos ou as alcunhas em Portugal? Possivelmente dos
marinheiros e soldados, gente de origem obscura, que a troco da liberdade se
dispunham a enfrentar a cólera dos Oceanos. Já em fins do século XV havia um
navegador afamado que tinha o apelido de Bofes de Bugaço. O médico da frota de
Cabral, em carta a D. Manuel, se refere a outro, de antonomásia o Bicupudo. O
próprio Camões não deixou de ter a sua alcunha: chamavam-no Trinca-Fortes. Por
certo meteu os dentes nalgum criado del-rei. Os documentos do Santo Ofício em
Pernambuco, em fins de 1500, já nos falam sobre a existência de indivíduos com
alcunhas, como Alma de Baratuzza e Boas Noites, nomes por que eram mais
conhecidos, segundo o depoimento dos que vieram à mesa da Inquisição.
Um caso interessante passado na Bahia, em 1593, nos mostra como nascia
um apelido. Depôs certa pessoa junto ao delegado inquisitorial Heitor Furtado
de Mendonça. Falou com gravidade. Disse que havia uma mulher que era bruxa; à
noite transformava-se em marreca e saía pelas encruzilhadas assustando os
transeuntes. Numa das ocasiões, o depoente estava à janela conversando com o
vigário da Igreja de N. S. da Vitória quando ela passou. O padre, indicando-a
com o dedo, disse muito convencido: - Lá vai Dona Patinha!
Alguns anos depois vem à mesa a testemunha, grave e memorativa, a contar
a brincadeira do vigário, que talvez tenha crismado a pobre mulher de D.
Patinha, agravando sem querer a situação dela. No século XVIII, na mesma Bahia,
houve um governador que nos fins do seu governo saiu apelidado de "Braço
de Prata". Ao governador de Minas Gerais, Luiz da Cunha Menezes, antes da
Inconfidência, os poetas puseram a alcunha de "Fanfarrão Minésio". A
um dos juízes do tribunal encarregado de julgar os Inconfidentes, Antonio Diniz
da Cruz e Silva, cognominaram "Corvo do Mondego". Os apelidos
portugueses transpuseram os mares. Vieram perpetuar-se neste lado do Atlântico
com aquelas características que assinalavam e definiam os seus portadores: um
nome ridículo que mais condizia com a personalidade do alcunhado…
As comemorações antigas, segundo costumes da época, eram constituídas
pelas luminárias (o que hoje denominamos simplesmente fogos), do Te-Deum
Laudamus e do drama. O teatro, no tempo, considerava-se um meio de pregar com
exemplos os atos da mais nobre moralidade. Em Pernambuco, em 1585, em sinal de
graça pela partida dos corsários Lancaster e Venner, era levado a efeito o
drama "Quem tem farelo?" ou o "Lázaro Pobre", atribuído a
Bento Teixeira. Anchieta tornava agradável a representação dos autos por ele
compostos, imprimindo-lhes a graça de Gil Vicente. Eram leves, não fatigavam o
indouto. As representações tinham um cunho moralizador: o prêmio do bom e o
castigo do mau. Um anjo se encarregava do primeiro, e o diabo do segundo.
Mais tarde se instala a comédia francesa no Brasil, que encontra no
espírito aprimorado e culto da época o melhor acolhimento. Não faltava a Casa
da Ópera, tanto que eram dois os teatros na Corte do Segundo Império: o francês
e o italiano. Uma moral severa presidia as coisas: mulheres não representavam
no palco. O papel destas era
desempenhado por homens. Tal costume verificava-se na Inglaterra no século
XVIII e em Portugal de D. Maria I. Um humorista viu, em 1684, na corte de D.
Pedro II, homens na ribalta substituindo artistas do sexo feminino. A presença
da mulher em meios masculinos não se estendia pelo interior. Koster, por
exemplo, quando visitou o Rio Grande do Norte, não viu Nísia Floresta, cujo pai
recém-adquirira terras. Época solene quando o patriarca era senhor absoluto e
autoritário. Tinha dentro de casa um pequeno reino. Não só exigia da mulher a
mais humilde obediência: também a mulher e as filhas eram vassalos
incondicionais.
Neste ambiente, severo de um lado e ridículo de outro, em que figuravam
tipos como Paulo da Gama, governador do Rio Grande do Sul, surgiam as mais
curiosas histórias. Este vinha substituir José Marcelino de Figueiredo, que, em
verdade, não era nem José, nem Marcelino, nem Figueiredo. Chamava-se Manoel
Gomes de Sepúlveda. Era general do exército português. Segundo Augusto Porto
Alegre em seu livro, ele refugiara-se no extremo sul do Brasil com um nome
suposto. Os ingleses, que costumavam estar com frequência no Porto de S. Pedro
do Sul nesse tempo, não encontrariam com facilidade José Marcelino, travestido
de governador. Fundador de Porto Alegre, o governador José Marcelino maldira um
oficial inglês na Europa... (Nota: O texto original terminava sugerindo o
motivo de sua fuga e o apelido "O Lentilhas" que dá título à
crônica).




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