
RARIDADES DA MÚSICA POTIGUAR NOS SULCOS DO VINIL E OS ARES DE AGOSTO
Agosto sempre chega ao Nordeste
com um sopro diferente. Minha mãe – atualmente com 95 anos – diz que é o mês
dos ventos fortes e o mês dos cachorros loucos (não me perguntem o porquê), sei
que é o período em que o Brasil se volta para as suas raízes mais profundas
para celebrar o Dia do Folclore. E eu, como folclorista de berço, não poderia
deixar de trazer as pérolas da cultura popular que guardo em meu acervo.
Creio que no bojo das celebrações do amplo universo do folclore do
Folclore, ele também acontece nos estalinhos sutis da agulha riscando
os discos de vinis: os quase esquecidos Long Player, chamados LP’s. Embora eu
conviva bem com as novas tecnologias, ainda me atrevo a ser do tempo da
radiola. Na contramão de um mundo que digitalizou os afetos e transformou a
música em arquivos invisíveis lá pelos dedentros da internet, preservo em minha
casa uma radiola antiga, perfeitamente regulada e em pleno funcionamento. Ao
redor dela, orbita um acervo de mais de 500 LPs, lapidados ao longo de anos de
garimpo e organizados segundo o meu gosto pessoal. Alguns deles me viram
adolescente. É um templo de acetato e papelão onde guardo as minhas maiores
relíquias afetivas. F., meu filho, cresceu enfronhado nesses LP’s já no
tempo do auge dos CD’s.
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Enfim, aproveitando justamente o
folcloricamento de agosto, decidi abrir as portas desse acervo para
apresenta-lo àqueles que os desconhecem. Selecionei uma série de LPs lançados
no Rio Grande do Norte entre o final da década de 1970 e o início dos anos
1980, a maioria sob o selo do pioneiro “Projeto Memória” da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Creio que essas peças não existiriam com essa qualidade, sensibilidade e visão sem que o poeta Diógenes da Cunha Lima não tivesse se sentado na cadeira de reitor da UFRN à época. Assim como os artistas fazem a diferença, os poetas também o fazem. Muitos desses discos são verdadeiras
peças de colecionador, raridades absolutas que escaparam das grandes
plataformas e que correm o risco de sumir da história fonográfica, portanto, cumpro também o papel de resgatar essas pérolas.
Minha proposta aqui é pedagógica
e afetiva: levar essas joias ao conhecimento de quem nunca teve a oportunidade
de ouvi-las ou pegá-las nas mãos. Pesquisei cada álbum individualmente,
esmiuçando os detalhes preciosos de suas capas, os textos históricos de suas
contracapas, as letras de seus encartes e os profissionais de destaque que
acercaram cada lançamento. E agora os ofereço ao leitor. Para mim, as capas – dos LP’s – falam. São obras de
arte por maisque carreguem simplicidade. Construí este estudo como uma espécie de catalogação e
farei reflexões que cruzam esses dados com a história, a culinária, a geografia
e as tradições orais do nosso estado. Ajustem o braço da radiola, aumentem o
volume e acompanhem-me nesta jornada pelos sulcos da cultura popular potiguar...
ÁLBUM 1: CANTOS DA TERRA DO MAR -
MADRIGAL DA UFRN (1981)
A Capa e o Simbolismo Armorial: O primeiro volume que repousa no
prato da minha radiola é o pioneiro Projeto
Memória – 1, lançado em 1981. A identidade visual do álbum é um
manifesto estético por si só. Vemos uma ilustração em nankin, cujos traços
rústicos em preto e branco remetem imediatamente à xilogravura e à literatura
de cordel. A imagem exibe duas figuras de feições clássicas e populares
perfeitamente integradas à vegetação nativa. Uma delas empunha um instrumento
de cordas (uma viola popular ou bandolim) e a outra segura uma lira grega
clássica. Esse arranjo visual traduz perfeitamente a proposta do disco: o
encontro da tradição erudita do canto coral com a pureza e a riqueza do
folclore norte-rio-grandense.
A
Contracapa e o Manifesto Institucional: No verso do LP, o texto institucional assinado pela
diretoria da Escola de Música e pela reitoria contextualiza a urgência da obra.
Fundado na década de 1960 e composto por 32 integrantes divididos no quarteto
clássico (sopranos, contraltos, tenores e baixos), o Madrigal da UFRN utilizou
sua técnica polifônica e seu estilo madrigalístico tradicional para “documentar
e valorizar compositores do Rio Grande do Norte”.

O disco foi gravado nos lendários
Estúdios da Transamérica, no Rio de Janeiro, sob a direção técnica de Edeltrudes
Marques da Silva e engenharia de som de Aníbal Félix – a mesma equipe de ponta que garantiu a alta
fidelidade de quase todo o Projeto Memória. A coordenação foi da Diretora da
Escola de Música, Deijair Henrique Borges, com regência do Padre Pedro Ferreira
da Costa. Curiosamente, o reitor da época, o intelectual Diógenes da Cunha
Lima, não assina o projeto apenas como burocrata, mas também como artista,
figurando como compositor de uma das faixas, pois também é poeta.
O
Repertório Comentado: O repertório deste Volume 1 é uma aula de geografia e etnografia
potiguar, dividindo-se entre temas do sertão e do litoral:
Lado A:
1. Aruanda (Oswaldo de Souza/Arr. Clóvis
Pereira)
2. Cantiga de Beira-Mara (Enoch Domingos/Arr. Clóvis
Pereira)
3. Minha Maria (Diógenes da Cunha Lima/Arr. Pe.
Pedro Ferreira)
4. Prece ao Vento (Gilvan Chaves - Alcyr Pires -
Fernando Luiz/Arr. Pe. Pedro Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)
5. Vadiação de Vaqueiro (Celso da Silveira/Arr. Pe.
Pedro Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)
Lado B:
6. Duas Toadas (Oswaldo de Souza/Arr. Clóvis
Pereira – Solo: Pe. Pedro Ferreira)
7. Moinho d'Água (Francisco Elion/Arr. Pe. Pedro
Ferreira – Solo: Gláucio Teófilo Câmara de Sá)
8. Sonhador (Márcio Marinho/Arr. Pe. Pedro
Ferreira – Solo: Emmanuel de Melo e Silva)
9. Cavaco Chinês (Roberto Lima de Souza / Arr.
Pe. Pedro Ferreira)
Reflexões
do Colecionador: A grande
joia oculta deste LP reside nos arranjos de Clóvis Pereira nas faixas “Aruanda”,
“Cantiga de Beira-Mara” e “Duas Toadas”. Clóvis foi um dos pilares do Movimento
Armorial, fundado por Ariano Suassuna na década de 1970 em Recife. A
presença de suas orquestrações vocais no Madrigal da UFRN prova que a
inteligência musical potiguar estava perfeitamente sintonizada com a vanguarda
nordestina, que buscava criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes
populares (o romanceiro, o aboio e as bandas de pífano). Destaca-se
também a voz do jovem tenor Emmanuel de Melo e Silva, cujos solos em
“Prece ao Vento” e “Vadiação de Vaqueiro” antecipavam o nascimento de um dos
maiores intérpretes da música popular do nosso estado.
ÁLBUM 2: BAMBELÔ – EMMANUEL DE
MELO E SILVA (1982) – Esse LP e o que trataremos abaixo – Floração – são
duas pérolas incríveis para mim.

A Capa e a Estética do Litoral: A agulha avança e o próximo disco
a girar é o Projeto Memória - 7, lançado em 1982: o emblemático Bambelô,
de Emmanuel de Melo e Silva. A capa traz uma belíssima ilustração em nanquim
com traços de forte inspiração expressionista e puramente popular. O desenho retrata
dois músicos descalços – um tocando um pandeiro e o outro ao violão –
emoldurados por coqueiros e casas simples de taipa. É a tradução visual exata
da paisagem litorânea e suburbana de Natal. O título do álbum é um
monumento ao nosso folclore. O bambelô (ou coco de bambelô) é uma
manifestação folclórica tipicamente potiguar. Dança de roda e ritmo sincopado
de forte matriz afro-brasileira, o bambelô historicamente fincou suas raízes na
Praia da Redinha, animando as noites de pescadores e comunidades litorâneas,
assim como Nísia Floresta e São José de Mipibu. Ao batizar o disco com esse
nome, a UFRN assumia o compromisso direto com a etnografia musical do estado.

O Encarte
e a Rede de Intelectuais (Lado A): Diferente das edições convencionais, este LP traz
um encarte completo com as letras e fichas técnicas que revelam uma rede
impressionante de parcerias entre músicos e os maiores intelectuais potiguares
da época. No Lado A, a faixa de abertura é justamente “Bambelô”,
cuja autoria pertence a Fernando Luís
da Câmara Cascudo (filho do patrono do folclore brasileiro, Luís da
Câmara Cascudo). A letra é um registro fidedigno das manifestações de terreiro,
citando elementos estruturais das danças populares como o zabumba, o maracá, o
coco catolé e as festas de congo (“Que a noite é bela, seu Mano/Pra nós
congar, seu Mano”).
O encarte traz ainda duas
parcerias com Diógenes da Cunha Lima: “Teu Ventre” e o enigmático “Poema
dos Macunis”. Este último é um achado etnográfico fantástico. A letra abre
com fonemas indígenas originais (“Abaai, bita, popi/Amabá poaté poitecé”)
e faz referência direta aos povos nativos do estado, os Gês, Tapuias e Tupis,
que musicavam o entardecer. Fechando o Lado A, Emmanuel grava “Miragens”
(de Enoch Domingos), “Pouso” (de Roberto Lima de Souza, que evoca as
palmeiras e as dunas de areia) e “Navegante Sem Mar”, de autoria de Babal
– um dos grandes nomes da vanguarda da MPB produzida em Natal na virada dos
anos 1970 para os 1980.

O Encarte
e a Geografia Afetiva (Lado B): Se o Lado A do LP Bambelô (Projeto Memória -
7) fincou os pés na ancestralidade indígena e nos ritmos de terreiro, o Lado
B desenha um autêntico diário de bordo pelas praias, costumes e cidades do
Rio Grande do Norte. As letras deste lado do encarte funcionam como crônicas
folclóricas vivas. A faixa de abertura do Lado B é “Procissão dos
Navegantes”, uma composição primorosa de Roberto Lima de Souza. A letra é o
retrato mais perfeito da tradicional festa de Nossa Senhora dos Navegantes na
Praia da Redinha. Tico capta os elementos identitários de Natal: as barcaças no
rio Potengi, os cajus vermelhos, a lancha que trazia os moradores do bairro das
Rocas e o peixe com tapioca (“Mulatos bebem cachaça / Com peixes e
tapiocas...”).
Em seguida, o disco traz “As
Ancas de Maria” (Diógenes da Cunha Lima), uma canção que usa as dunas e o
vento litorâneo como metáforas poéticas, e “Xote na Ribanceira” (Fábio
Fernandes), que resgata os bailes de interior à beira dos ribeirões. O
cotidiano urbano de Natal ganha contornos em “O Ônibus” (Roberto Lima de
Souza), mostrando operários, lavadeiras, ambulantes e estudantes cruzando as
ladeiras da capital. A penúltima faixa viaja até o Litoral Norte com “Touros”,
escrita por Ivanildo. Trata-se de um inventário riquíssimo do vocabulário e
hábitos locais: cita o Farol do Calcanhar, a bebida “jurrubado”, o fruto nativo
“guajiru”, a pesca artesanal com “tresmalho” e a figura folclórica da
solteirona de província (“Em cada uma eu vejo Vitalina/Toda empoada
esperando seu amor”). Fechando o disco, a faixa “Pilão” (Diógenes da
Cunha Lima) resgata onomatopaicamente os antigos cantos de trabalho das
mulheres do sertão (Pilo, pilo, pilo no pilão/Na mão do pilão tem sangue e
suor”).
Reflexões:
O que
torna este LP do Emmanuel uma raridade absoluta de colecionador é a sua
capacidade de mimetizar os sons do trabalho e do sagrado popular sem perder o
viço da MPB moderna dos anos 1980. Ao colocar no prato da radiola a faixa
“Pilão”, o estalo do vinil parece se misturar à batida física da madeira moendo
o milho ou o café. A menção ao "peixe com tapioca" na Redinha em
"Procissão dos Navegantes" antecede em décadas o tombamento dessa
iguaria como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte. É a prova de
que o folclore não estava morto; estava pulsando nas praias e feiras.
ÁLBUM 3: FLORAÇÃO – LUCINHA LIRA
(1981)
A Capa e o Traço de Dorian Gray: O terceiro disco a girar na
radiola é o Projeto Memória - 3, lançado em 1981, trazendo o
protagonismo feminino de Lucinha Lira no álbum Floração. A identidade
visual da capa é uma obra de arte histórica: uma ilustração original em nanquim
assinada pelo mestre Dorian Gray Caldas. Ele desenha uma figura feminina cujos longos cabelos se
transformam em flores, e cujas vestes se misturam a texturas de folhas,
sementes, raízes e pequenos insetos (como uma joaninha). Ao fundo, árvores
estilizadas evocam a vegetação do tabuleiro litorâneo e da caatinga. O conceito
de “floração” dialoga diretamente com a ideia do desabrochar da cultura popular
a partir das suas raízes mais profundas.
A
Contracapa e o Manifesto Modernista: O verso do LP traz um texto institucional e crítico
formidável, que serve como um verdadeiro manifesto em defesa da produção
cultural nordestina descentralizada. O texto argumenta que a musica produzida
em Natal corre um risco histórico de “pura e simples desaparição” por estar
longe dos grandes centros e mercados consumidores do Sudeste, restringindo-se a
serestas e encontros informais.

Para justificar a necessidade do
registro fonográfico do Projeto Memória, a UFRN evoca o poeta potiguar Jorge
Fernandes (1887–1953). O texto lembra que Jorge Fernandes foi apontado por
ninguém menos que Mário de Andrade – o pai do Modernismo brasileiro –
como um precursor do movimento por ter introduzido a fala do povo e os temas
locais na poesia nacional. O disco Floração nasce, portanto, para evitar
que a nova safra de compositores sofra o esquecimento histórico. A ficha
técnica repete o padrão de alta fidelidade: gravado na Transamérica (Rio),
coordenado por Deijair Henrique Borges sob a reitoria de Diógenes da Cunha
Lima.
O
Repertório Comentado (Encarte do Lado A): O encarte interno de Floração traz as letras
completas, revelando composições de um lirismo impecável:
1 - Floração (Diogenes da Cunha Lima): Faixa-título
que abre o Lado A cantando a beleza da manhã e a efemeridade do tempo (“Antes
que o tempo tome de ti em sua mão/As flores da manhã nascem do teu corpo”).
2 - Cajueiro (Música: Oriano de Almeida/Versos:
Veríssimo de Melo): Uma das maiores preciosidades do disco. Unindo o piano
erudito de Oriano à sensibilidade do folclorista Veríssimo de Melo, a letra
canta as dunas e o caju à beira-mar, evocando a mítica figura da sereia (“Cajueiro
da beira do mar/Cadê a sereia que eu quero noivar”).
3 - Cidade de Dezembro (Nei Leandro de Castro/Rogério
Rossini): Uma composição belíssima que resgata as memórias e os autos
folclóricos do ciclo natalino em Natal, citando expressamente o Pastoril, a
Chegança, as figuras das mestras e contramestras e o Bumba-Meu-Boi.
O Repertório Comentado (Encarte
do Lado B): O Lado
B do encarte aprofunda a imersão nas paisagens e nos sentimentos telúricos
do estado:
1 - Velhas Oiticicas (Letra: Pery Lamartine/Música:
Roberto Lima): Uma canção belíssima de resgate do imaginário sertanejo do
Seridó. Pery Lamartine canta a oiticica, árvore frondosa que serve de morada e
abrigo contra o sol, mas que no imaginário infantil também evoca o folclore das
assombrações noturnas (“Eram velhas oiticicas com seu cheiro penetrante/Tinham sombra repousante das moradas do sertão/Que me davam segurança e, à
noite, assombração”). E, para quem não sabe, há uma
célebre Oiticica plantada por ele – que inclusive traz uma história
impressionante, cuja síntese está numa placa ao lado. Fica na Avenida Campos
Sales, em Natal.
2 - Verde Mar (Diógenes da Cunha Lima): Uma
faixa melancólica que afasta o mar do clichê turístico e o aproxima da dura
realidade social do pescador de subsistência (“O cardume de albacoras busca
fome jangadeira/Sou homem oprimido, a tristeza me consome”).
3 - O Olhar da Amada é Como um
Barco a Vela Navegante (Roberto Lima de Souza): Canção de forte lirismo praieiro que compara
os sentimentos humanos aos movimentos das embarcações nos portos potiguares.
4 - Eterna Harmonia (Zezé Delgado): Uma ode à
natureza e à alvorada, comparando o sorriso humano ao canto livre das
andorinhas.
5 - Coisa Boa (Música: Hianto de Almeida/Versos:
Veríssimo de Melo): Uma das faixas mais célebres do disco, que condensa em sua
letra o espírito do lazer e da boemia litorânea tradicional do Rio Grande do
Norte (“Coisa boa é querer bem, ter alguém, namorar... Coisa boa é o mar, o
luar, e caju com pitu, cafuné, cochilar...”).
6 - Brinco de Amor (Diógenes da Cunha Lima/Veríssimo
de Melo): Pequeno poema amoroso que fecha o álbum celebrando a noite e a paixão
perfeita sob o clima do litoral.
Reflexões:
O álbum Floração
é um monumento por conseguir reunir em um único objeto de papelão e vinil as
maiores mentes do Rio Grande do Norte. Ver a assinatura visual de Dorian Gray
na capa, ler a evocação de Jorge Fernandes e Mário de Andrade na contracapa, e
escutar a voz de Lucinha Lira cantando versos de Veríssimo de Melo e Pery
Lamartine é o auge do que o Mês do Folclore representa. Quando escuto “Coisa
Boa” na minha radiola, a expressão “caju com pitu” (o fruto símbolo de Natal
harmonizado com a tradicional cachaça nordestina) salta dos sulcos como um
retrato fidedigno de um alpendre praieiro nas lindas praias
norte-rio-grandenses.
ÁLBUM 4: SAUDADES DA JUVENTUDE –
AMARO SIQUEIRA POR FIDJA SIQUEIRA (1983)
A Capa e a Iconografia do
Intérprete: O quarto
disco a repousar no prato da radiola é o Projeto Memória - 14, lançado
em 1983. A capa estampa uma linda ilustração em formato de caricatura de perfil
do compositor Amaro Siqueira, assinada pelo artista Nivaldo. O traço em
nankim e bico de pena revela um detalhe de refinada sensibilidade artística: a
linha de contorno da lapela do paletó de Amaro se funde, de maneira estilizada,
ao desenho de um violão integrado a uma clave de sol. É a iconografia exata de
um homem cuja existência confundiu-se inteiramente com o próprio instrumento.
A
Contracapa e a Linhagem do Violão Potiguar: O verso do LP funciona como um documento biográfico
e musicológico de valor inestimável para o Nordeste. O texto resgata a
trajetória de Amaro Carvalho de Siqueira (1908–1970), nascido nas
salinas de Areia Branca, cuja mãe foi sua primeira professora de violão. Em
1931, Amaro estudou em Recife com o renomado Isidoro Bacelar (SP), absorvendo
uma técnica refinada.
Ao lado do mestre Waldemar de
Almeida, ocupou a cadeira de violão do Instituto de Música do Rio Grande do
Norte e ajudou a fundar o lendário Clube de Violão de Natal, do qual foi o
primeiro presidente. Transitou entre a intelectualidade e os grandes mestres do
instrumento no mundo, mantendo contato com nomes do calibre de Maria Luísa
Anido (Argentina) e Isaías Sávio (Uruguai/SP). Convidado em 1966 por Waldemar
de Almeida para lecionar na Escola de Música da UFRN, Amaro exerceu a função
por apenas um mês devido a problemas de saúde, falecendo em 1970.
A gravação deste volume é um ato
de amor familiar e acadêmico: as partituras manuscritas de Amaro são executadas
por seu filho, Fidja Nicolai de
Siqueira, professor de violão da UFRN que se formou na Escola de Belas
Artes da UFPE e refinou sua técnica nos Seminários Internacionais de Violão com
os monstros sagrados Abel Carlevaro e Jorge Martínez Zárate. O disco mantém a
equipe técnica padrão: direção de Deijair Henrique Borges, gravação de Aníbal Félix
na Transamérica (Rio) e reitoria de Diógenes da Cunha Lima.
O
Repertório Comentado: O disco é dividido inteiramente entre as criações originais de Amaro
Siqueira, resgatadas de seus cadernos de manuscritos:
Lado A:
1
- Prelúdio nº 5 (Composto em 1948)
2
- Dança Brasileira nº 2 (Composto em 1953)
3
- Estudo nº 11
(Composto em 1960 – integrante da série “Saudades da Juventude”)
4
- Estudo nº 4
(Composto em 1948)
5
- Valsa de Esquina (Composto em 1960 – integrante da série “Saudades da Juventude”)
Lado B:
1
- Devaneio nº 1 (Composto em 1960 - integrante da série “Saudades da Juventude”)
2 - Canção
Triste
(Composto em 1960)
3 - Reminiscências (Valsa – Composta em 1959)
4 - Confidências (Valsa – Composta em 1959)
Reflexões:
Este LP é
uma obra de arte por revelar a espinha dorsal do violão erudito potiguar, cuja
base melódica bebe diretamente da fonte popular. O texto crítico da contracapa
define com precisão: as composições de Amaro Siqueira possuem o “sabor do
seresteiro lírico e poético”. Ao escutar faixas como “Valsa de Esquina” ou “Reminiscências”
na radiola, percebe-se que Amaro transpôs para a sofisticação técnica do violão
solo a atmosfera das calçadas, das esquinas e das serenatas que embalavam as
noites do Rio Grande do Norte nas décadas de 1940 e 1950. É a erudição que não
nega a sua certidão de nascimento popular.
ÁLBUM 5: ORIANO INTERPRETA ORIANO
– PRELÚDIOS POTIGUARES (VOLUME II)
A Capa e a Sobriedade Tipográfica:
O quinto
álbum a girar na rotação dos afetos é o Projeto Memória - 19: Oriano
interpreta Oriano. Rompendo com o padrão visual de ilustrações em bico de
pena ou fotografias, esta capa aposta em uma estética puramente tipográfica de
corte clássico e sóbrio. Um fundo marrom profundo destaca as letras estilizadas
em tom creme, assinadas graficamente por Pedro Pavani. A sobriedade visual
antecipa a maturidade e a magnitude do mestre que assume o piano.
A
Contracapa e o Inventário da Alma Nordestina: O verso do LP traz um texto
crítico fundamental assinado por Mozart Romano. Ele resgata a formação de Oriano
de Almeida (1920–2004), potiguar que passou a infância em Natal,
diplomou-se no Instituto de Música na classe do professor Waldemar de Almeida e
aperfeiçoou seus estudos no Rio de Janeiro sob a lendária orientação de Magdalena
Tagliaferro.
Aclamado internacionalmente na
Europa, EUA e América do Sul como um legítimo intérprete romântico de Chopin,
Oriano definia-se humildemente como “um simples inventor de melodias, que
surgem da contemplação da paisagem, ou de uma vaga lembrança do passado...”.
O texto de Mozart Romano pontua
com precisão que, embora Oriano transitasse pelo cosmopolitismo europeu (com
valsas dedicadas a Paris e Roma), nos seus “Prelúdios Potiguares” sua
criatividade sonora identifica-se visceralmente com o colorido das praias, o
sussurro do vento e a nostalgia romântica da alma nordestina. A ficha técnica
repete a chancela de qualidade: produção de Deijair Henrique Borges, gravação
de Aníbal Félix na Transamérica (Rio), montagem de Wilson Medeiros e reitoria
de Diógenes da Cunha Lima.
O
Repertório Comentado: Este álbum é um dos maiores inventários etnográficos da história da
música brasileira, onde cada faixa funciona como uma crônica de costumes,
folclore ou geografia do Rio Grande do Norte:
Lado A:
1 - No Caminho do Sertão: Evocação melódica da transição
da paisagem litorânea para o interior.
2 - Lenda
do Carreiro: Resgate
da tradicional figura do condutor de carro de boi do sertão.
3 - Toada
Ingênua: Peça
lírica inspirada nos cantos tradicionais de interior.
4 - À
Sombra da Velha Jaqueira: Crônica quintaleira e afetiva da infância.
5 - Flor de Cactus: Homenagem à resistência e à
beleza da vegetação da caatinga.
6 - Chorinho de Guarapes: Louvação ao histórico bairro e
região pesqueira de Natal.
7 - Sequilhos e Alfinins: Obra-prima gastronômica que
traduz para o piano a textura dos doces tradicionais das feiras nordestinas.
8 - Caiçara do Rio dos Ventos: Pintura sonora inspirada na
geografia do município potiguar.
9 - Sertanejo Cantador: Homenagem aos repentistas e
poetas da tradição oral.
10 Os Negros do Rosário: Resgate da ancestralidade e da
tradicional dança sincopada da Irmandade dos Negros do Rosário do Seridó.
Lado B:
1 - Polytheama: Homenagem ao pioneiro cinema e
teatro que animava a vida cultural de Natal no início do século XX.
3 - Saudade do Potengi: Peça lírica inspirada nas águas
e no pôr do sol do rio Potengi.
4 - O Galinho de Santo Antônio: Referência à mítica igreja,
marco histórico da capital.
5 - Xarias e Canguleiros: Transposição pianística da
célebre rivalidade política e social da Natal do século XIX (os aristocratas
“Xarias”, da Cidade Alta, contra os populares “Canguleiros”, do bairro da
Ribeira).
6 - O
Alvissareiro da Torre da Matriz: Lembrança poética dos sinos e mensageiros da
antiga Matriz.
7 - Sarau na Rua da Conceição: Resgate da atmosfera das velhas
reuniões musicais da Natal antiga.
8 - “Compraia Juá Jucá”: Obra-prima etnográfica baseada
inteiramente nos antigos pregões dos vendedores ambulantes que ecoavam pelas
calçadas coloniais.
9 - Lamento da Senzala: Lamento profundo que resgata a
memória e as dores da escravidão na formação cultural do estado.
10 -Natal: Homenagem lírica e definitiva à
capital potiguar.
11 - As Imburanas da Pedra Grande: Pintura telúrica inspirada no
bioma e nas formações geológicas do interior do estado.
Reflexões:
Colocar
os Prelúdios Potiguares de Oriano de Almeida para rodar na radiola é
testemunhar um dos momentos mais geniais da música nacional. Oriano faz com o
piano o que Câmara Cascudo fez com a caneta: etnografia pura. Quando a agulha
toca os sulcos de faixas como “Os Negros do Rosário”, o piano deixa de ser um
instrumento europeu e aristocrático para incorporar o ritmo percussivo do congo
e dos tambores afro-potiguares do Seridó. Em “Sequilhos e Alfinins”, a música
mimetiza a leveza do açúcar dos doces de tabuleiro, e em “'Compraia Juá Jucá'’,
escuta-se perfeitamente o canto dos antigos vendedores de rua de Natal. É o
folclore potiguar elevado ao topo do piano de concerto universal.
AMÉRICA LATENTE – TICO DA COSTA
(1983)
A Capa e a Estética
Latino-Americana: O sexto
álbum a ocupar o prato da minha radiola é o Projeto Memória - 31,
lançado em 1983. Rompendo com o padrão das ilustrações gráficas dos volumes
iniciais, esta capa aposta em uma fotografia colorida de Tico da Costa. O
artista aparece de cabelos longos e fisionomia serena, deitado de forma
descontraída em uma tradicional rede. A imagem da rede, longe de sugerir
mera indolência, estabelece um forte simbolismo: ela é um elemento ancestral e
cotidiano da cultura indígena e nordestina. Funciona como o berço para o
conceito do álbum, América Latente, que enxerga o Rio Grande do Norte
não como um território isolado, mas como parte pulsar de uma América Latina
profunda, unida pelas mesmas dores e heranças.
A
Contracapa e o Voo Cosmopolita de Areia Branca: O verso do LP apresenta uma síntese
biográfica extraordinária de Tico da Costa (Francisco das Chagas da Costa).
Nascido na cidade salinense de Areia Branca, sua grande escola foi a própria
família de dezesseis irmãos, onde aprendeu violão e começou a compor. Iniciou
os estudos formais na Escola de Música de Natal, continuou em Recife e, em
seguida, partiu para Roma. Tico viveu oito anos na Europa, realizando
turnês pela Itália, Suíça, Áustria, Alemanha, Holanda e França. Gravou cinco
discos em solo italiano e assinou colunas sonoras para o cinema, trabalhando
com a lendária cineasta Lina Wertmüller. Nos Estados Unidos, realizou
espetáculos em um longo circuito universitário.

A ficha técnica documenta a
gravação nos Estúdios da Transamérica (Rio), mantendo a engenharia de som de
Aníbal Félix, montagem de Wilson Medeiros e a assistência da equipe de estúdio
(Laci, Enock e Mauro). A coordenação permaneceu a cargo de Deijair Henrique
Borges sob a reitoria de Diógenes da Cunha Lima.
O Repertório Comentado (Encarte
do Lado A): O
encarte interno de América Latente exibe as letras completas do Lado
A, revelando um jogo de palavras sofisticado e parcerias instrumentais de
peso, como a participação especial de Chiquinho do Acordeon e as flautas
de Sando:
1 - Carybé-Nancy (Tico da Costa): Canção que
saúda as matrizes do candomblé baiano e os traços do pintor Carybé, marcada
pelo balanço percussivo do agogô de João Leite e do acordeon de Chiquinho.
Ai ai que
dor/Tá fazendo muito tempo/Que eu não vou a Salvador/Tá fazendo muito tempo/Que
eu não vejo Carybé/Cadê cadê candomblé/A poeira da capoeira / Vou subir a
ladeira da Sé...
2 - Paixão Atômica (Tico da Costa): Uma composição
ágil, urbana e irônica, que dialoga com as vanguardas estéticas e os movimentos
sociais da virada da década.
Você me
cheira selvática/Fulô amazônica/Uns ares de irônica/Olho de igarapé/Você me
caiu simpática... Vixe! Virgem das galáxias/Ondas telepáticas/Vieram informar/
Meu astral afrodisíaco...
3 - América Latente (Tico da Costa): A faixa-título
é um jogo de linguagem geopolítico brilhante, adornada pelas flautas de Sando,
unindo o Nordeste às fronteiras hispânicas.
Faz mil
anos faz/Que a gente quer/Ir ao Paraguai/Aí a gente erra/Esquece a guerra/E vai
pro Uruguai/Quais quais quais quais... Quem lá do Pará/Para o Paraná/Vai parar
no arrolo Chui/Não, não é aí Ypacaraí/Com essa cara aí/Caray!!
4 - Durango Tango (Tico da Costa): Uma incursão
performática e dramática pela sonoridade portenha, cantada em português e
espanhol, amparada unicamente pelo violão de Tico e o acordeon de Chiquinho.
É tango
argentino/Nossas vidas/É um tango argentino/Nosso amor/O drama de nós dois/É
fatal/Carinho de nós dois/É punhal...
5 - Menino Menina (Tico da Costa): Um acalanto
poético de rara doçura, que traz a participação de Ely Oliveira no coro e evoca
o riso luminoso de Elis Regina.
A vida
ensina/Muita coisa em surdina/E fala mansinha/Como a voz de Lurdinha... Como o
riso de Elis Regina/Bem-dita seja a vida/E a vida que da vida vinga...
6 - Ridinha (Tico da Costa): Uma das maiores
obras-primas do álbum, onde Tico reconecta a mítica praia natalense à clássica
estrutura rítmica da ciranda de roda e do folclore praieiro.
Eu sou
feliz na praia da Ridinha/Numa redinha balançando o mar/Adoro adorar lua
rainha/Que vem ralando feito arraia no céu/A lua arria na areia do rio/O rio se
areia/ E vai virando mar...
O Repertório Comentado (Encarte
do Lado B): O Lado
B do encarte aprofunda a imersão na oralidade do interior nordestino, nas
festas de fogueira e no sentimento do exílio:
1 - Lagartixa (Tico da Costa): Um dos momentos
mais viscerais do disco. Tico utiliza termos da oralidade sertaneja (como
“brocoió”, "calango" e “zambeta”) para construir uma crônica social
crua sobre a lida e a escassez do homem do campo.
Ó, lagartixa,
brocoió calango longo/No telhado se espreguiça/Que o gato tá lhe cubando/A testa
larga a lagartixa... Olha “fartura”:/farta carne, farta o feijão/Farta verdura,
ó, vida dura, e sem condição... Filho de besta é besta filho/É filho da luta...
2 - Lua Pheia (Tico da Costa): Faixa
sustentada pelo surdo de Mingo e o coro de Ely Oliveira, onde a lua é
personificada como um agente enxerido do folclore amoroso, capaz de quebrar
simpatias e desfazer cirandas.
Ai lua
vazia/Sua luz não alumia/Só danço essa ciranda/Se dançar com meu amor... O lua
sem-vergonha/Da cara de pamonha/La vem você metida/Ó lua enxerida/Vem cheia de
ilusão/Me enchendo de saudade / Botando mau-olhado/Na minha felicidade...
3 – Roma – Olinda (Tico da Costa): A canção que
melhor resume o espírito do álbum. O compositor contrasta a amargura urbana e o
inferno do exílio europeu com o desejo catártico de retornar às festas juninas
do Nordeste.
Arruma as
malas/Vou voltar pra Pernambuco/Já tô virando maluco/Neste inferno infernal...
Quero acender fogueira/Pra São João/São João me disse/E São Pedro confirmou...
Ai o amor fumega em meu peito/Feito lenha/Feito tição... Eu sou que nem um
fogueeeeeeeeeeetão...
4 - Atonia (Tico da Costa): Um samba triste
e confessional, adornado pela flauta melancólica de Sando, que canta a dor da
ausência e a despedida amorosa em surdina.
Tem pena;Tem
dó;Do meu sofrer... No beijo frio/Que você deu/Havia um tom/De adeus; Que me
deixou/Pra lá de só... Meu violão desafogou/Minha dissonância / Em ré maior...
5 - Cabelos de Sol (Tico da Costa): Uma ode
delicada à infância e à paternidade, embalada por uma atmosfera praieira de
calmaria.
Menino
dos cabelos de sol/Menino do cheirinho de mar/Que morde o papai/Que dança pra
mamãe/Dá quatro, cinco passos e cai...
Reflexões:
Colocar América
Latente para rodar na radiola é compreender o “folclore em movimento”. Tico
da Costa prova que o artista popular não precisa ficar confinado
geograficamente para preservar sua autenticidade. O genial trocadilho poético
construído na faixa “Lagartixa” (“Olha 'fartura': farta carne, farta o
feijão...”), invertendo o sentido de abundância para denunciar a falta, é
de uma precisão literária assustadora. E a explosão vocal teatralizada no
encerramento de "Roma-Olinda" (“fogueeeeeeeeeeetão”) captura a
mais pura espontaneidade das manifestações populares de rua. É o Rio Grande do
Norte ganhando o mundo sem jamais romper o cordão umbilical com a terra.
ÁLBUM 7: CANÇÃO PARA NATAL –
VÁRIOS AUTORES (1983)
A Capa e a Pintura Ribeirinha: O sétimo álbum a girar na rotação
dos afetos é o Projeto Memória - 28, lançado em 1983. A identidade
visual deste volume é uma das mais deslumbrantes de todo o acervo. Trata-se de
uma aquarela e nanquim que retrata a Natal antiga, boêmia e portuária. Na
pintura, destaca-se em primeiro plano o leito dos trilhos e vagões de trem da
antiga Great Western, contornando o casario histórico do tradicional
bairro da Ribeira.
Logo adiante, as águas azuis do
rio Potengi servem de berço para jangadas e barcaças a vela, tendo ao fundo a
icônica silhueta da Fortaleza dos Reis Magos e o farol estilizado. A pintura
traz a assinatura clássica de Dorian Gray Caldas (“Mariano. 82”).
Curiosamente, o verso do LP credita a obra a outro gigante das artes plásticas
potiguares, Newton Navarro, sugerindo uma rica colaboração, alternância
de projetos gráficos ou uma homenagem cruzada entre os dois mestres na editoria
da universidade.
A
Contracapa e o Manifesto da Modernidade Popular: O verso do LP traz um texto
crítico fundamental assinado por Paulo
de Tarso C. Melo. Ele revela um dado estatístico formidável sobre a
magnitude da iniciativa universitária: até aquele ano de 1983, o Projeto
Memória da UFRN já havia garantido o resgate e a permanência de mais de
trezentas músicas de autores norte-rio-grandenses, que antes estavam
sujeitas à pura e simples desaparição devido ao isolamento em relação aos
grandes mercados do Sudeste.

Paulo de Tarso pontua que, após o
projeto documentar o canto classico do Madrigal, o piano de Oriano e conjuntos
tradicionais de choro (como o “Choro Brejeiro”), este volume assume uma visão “aberta
e despreconceituosa de documentação cultural”, recrutando um “conjunto
jovem” de instrumentistas de Natal. O grupo, composto por Etelvino (teclado),
Chagas (guitarra e viola), Prentice (violão), Jeferson (baixo), Ivanildo Bauru
(bateria) e Negão (percussão), além da flauta de Luizinho Braga, introduziu
arranjos modernos da MPB dos anos 1980 para vestir temas profundamente
tradicionais e telúricos. A produção manteve o selo de Deijair Henrique Borges
e a engenharia de som de Aníbal Félix na Transamérica (Rio), sob a reitoria de
Diógenes da Cunha Lima.
O
Repertório Comentado (Encarte do Lado A): O encarte interno de Canção Para Natal traz
as letras completas, revelando parcerias primorosas entre intelectuais e
folcloristas:
1 - Saga do Carnaubal (Almir Padilha/Celso da
Silveira – Intérprete: Almir Padilha): Um dos maiores monumentos etnográficos
do disco. A letra descreve minuciosamente o ciclo socioeconômico e o
vocabulário técnico do corte da carnaúba (a árvore da providência do sertão).
Vareiro
que corta a palha/Tuleiro que apara espinho/Juntador que enfeixa a palha/Pra cambitar no burrinho... Tangerino carrega a palha/Para empilhar
estaleiro... Trinchador que trincha a palha/Em faca de sete pontas...
Tacheiro que coze a cera...
2 - Assunto Pessoal (Veríssimo de Melo/Diógenes da
Cunha Lima – Intérprete: Lucinha Lyra): Uma feliz e rara parceria musical entre
o lendário folclorista Veríssimo de Melo e o reitor-poeta Diógenes, cantando o
mistério e a invenção do amor.
Não me
perguntem/O que se passou/Na cama bonita do amor... Guardo o segredo de
amor sem fim... Segredo é a invenção do amor / Como Deus inventou a flor...
3 - Canção Para Natal (Nelson Hermógenes Freire/Diógenes da Cunha Lima – Intérprete: Silvinha): A faixa-título funciona como um
hino de exaltação geográfica e afetiva da capital potiguar.
Se você
passar por aqui/Não pode deixar de ver/A Ribeira, o sol, a lama/As águas
do Potengi/O Farol no alto morro/Dunas brancas que nem lençol... Os
cajueiros em Pirangi...
4 - Canção do Índio Triste (Diógenes da Cunha Lima –
Intérprete: Zezé Delgado): Uma composição melancólica de resgate das matrizes
indígenas, que utiliza em seus versos e refrãos a expressão em língua nativa “Zan
Noyoliyo”.
Zan
Noyoliyo / Zan Noyoliyo / Eu de mim só tenho a vida / A vida que foi canção /
Venha apresentar-se aqui / Quem tem triste o coração...
5 - Naquele Tempo de Cadeiras nas
Calçadas (Roberto
Lima / Alberto Lima – Intérprete: Silvinha): Uma belíssima e nostálgica ode ao
hábito folclórico e interiorano das tertúlias e conversas ao anoitecer, que
resistia na Natal antiga.
Naquele
tempo de cadeiras nas calçadas / Brincadeiras inventadas / Eram mais do que
brincar... As nossas ruas eram todas conhecidas / Suas casas parecidas / Seus
viventes tão leais / Que a gente sempre conhecia o seu segredo...
O Repertório Comentado (Encarte
do Lado B): O Lado
B estende o mapa musical do estado em direção aos grandes espelhos d'água e
ao cancioneiro do Seridó:
1 - Coisas Raras (Zezé Delgado/Diógenes da Cunha
Lima – Intérprete: Zezé Delgado): Canção de forte acento poético existencial
sobre a capacidade de reencantar o olhar sobre a vida.
A vida é
surpresas minha amiga/Coisas raras acontecem todo dia... É preciso ver o mundo
novamente/Com os olhos espantados de menino...
2 - Gargalheiras (Almir Padilha/Diógenes da Cunha
Lima – Intérprete: Almir Padilha): Uma obra-prima telúrica e de vocação
universalista, cantada inteiramente em espanhol, homenageando o imponente Açude
Gargalheiras, em Acari, símbolo hídrico do Seridó.
Partiendo
las sierras/Cortando los cerros/Una gran fonte/El Gargalheiras/Como si fuera un
mar... Hermano de cedro, del Pueblo/Lino blanco del Seridó... Madre y Padre, de
los hijos de Acari...
3 - A Moça em Flor (Diógenes da Cunha Lima –
Intérprete: Silvinha): Uma composição bucólica e praieira que resgata o balanço
e a mística do descanso na rede nordestina.
Rede
branca de varanda/Como as espumas do mar/É uma carícia pra o corpo/E uma canção
de ninar... Armador geme o amor...
4 - Pixanana (Roberto Lima/Pery Lamartine –
Intérprete: Negão): Parceria com o pesquisador Pery Lamartine que exalta a
beleza singela da pixanana, flor brava e nativa do chão duro do sertão
potiguar.
Pixanana
flor do mato/Nasce no meio da rua/No sertão é flor de dama/Na cidade não atua/No
chão duro, pedregoso... Ai Pixanana que saudade você tem/É beleza, é singeleza,
é lembrança do meu bem...
5 - Pesca de Açude (Celso da Silveira – Intérprete:
Lucinha Lyra): Uma crônica perfeita e festiva sobre a subsistência no semiárido
quando as grandes barragens do interior sangram com as chuvas.
A chuva
chegou/Barragem sangrou/Peixinho que ficou/Menino pescou ó/Traíra, Coró, Cará/Menino
pescou com seu landuá... Menino só pesca em açude com seu landuá...
Reflexões:
Este
Volume 28 é um achado indispensável para qualquer colecionador por demonstrar
que o folclore não é um fóssil congelado no passado, mas uma tradição em
permanente mutação e diálogo com o seu tempo. Quando coloco a agulha da minha
radiola para trilhar os sulcos de “Saga do Carnaubal”, escuto um vocabulário
técnico de lida (o landuá, o tuleiro, o cambitar) que
corre o risco de sumir dos dicionários modernos, mas que permanece vivo no
vinil. E a audácia de Almir Padilha ao cantar o Gargalheiras em espanhol revela
a sofisticação de uma província que sabia dialogar com o mundo inteiro a partir
de suas próprias águas.
ÁLBUM 8: CANCIONEIRO POTIGUAR
(VALSAS E MODINHAS DE SERESTA) – VOLUME II (1983)
A Capa e o Relicário Fotográfico:
O oitavo
e último disco a ocupar o prato da minha radiola é o Projeto Memória - 18,
lançado em 1983. Rompendo com o padrão das ilustrações em nanquim ou aquarela
dos volumes anteriores, esta capa aposta no registro puramente fotográfico,
capturado pelas lentes de Cândida Bezerra. A imagem colorida exibe cinco
figuras reunidas em um ambiente de jardim, com folhagens ao fundo. Duas
mulheres estão sentadas em um clássico banco de praça branco e três homens encontram-se
de pé logo atrás, com vestes sóbrias da época.
A Contracapa e a Memória das Serenatas: O verso do Cancioneiro Potiguar (Valsas e Modinhas de Seresta – Volume II) é um delicado exercício de preservação da memória afetiva. Logo no alto, a escolha do verso de Carlos Drummond de Andrade - “Mas as coisas findas / Muito mais que lindas / Essas ficarão” - funciona como a chave de leitura de todo o álbum. A frase sintetiza a proposta do Projeto Memória: demonstrar que as antigas serenatas, embora desaparecidas das ruas, permanecem vivas quando encontram abrigo na música e na lembrança coletiva.

A A fotografia central registra os intérpretes Fátima de Brito e Gerardo Parente durante a gravação, diante do piano, reforçando o caráter documental do disco. Não se trata de uma produção voltada ao espetáculo, mas do testemunho de um trabalho de pesquisa e reconstrução histórica. Ao lado da imagem, um breve texto esclarece que aquelas canções chegaram até o presente graças à memória de informantes como José de Almeida, Luiz de França Moraes, Nilberto Cavalcanti de Souza, Regina Lima Machado e Rosa Cabral de Brito. A frase final -“Poetas e músicos mortos, poemas e melodias vivos” - resume com rara felicidade a missão do álbum: devolver voz a um repertório que sobrevivia apenas na tradição oral e nas recordações de antigas famílias natalenses.
A composição gráfica da contracapa também revela uma opção estética coerente com todo o projeto. A sobriedade da ficha técnica, a simples relação das faixas e a fotografia de estúdio dispensam qualquer exuberância visual para colocar em primeiro plano aquilo que realmente importa: a permanência da música. É um documento de enorme valor histórico, pois registra não apenas um repertório de valsas e modinhas, mas o esforço consciente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em transformar a memória sentimental de Natal em patrimônio fonográfico permanente.
Essa disposição visual emoldurada
em amarelo remete imediatamente aos retratos de famílias tradicionais e antigos
grupos de seresteiros do interior. O subtítulo do álbum, (valsas e modinhas
de seresta), grafado em tom creme sobre o fundo marrom e alaranjado, amarra
o projeto visual diretamente ao seu propósito sonoro: resgatar a trilha sonora
sentimental do Rio Grande do Norte nas primeiras décadas do século XX.
O Encarte
e o Clima Passadista da Velha Natal: O encarte interno deste LP é um dos documentos
memorialistas mais bonitos de todo o acervo da UFRN. O texto de abertura
resgata com profunda melancolia a transição da sociabilidade urbana na capital
potiguar, funcionando como um verdadeiro ensaio folclórico. Ele evoca a “Natal
das primeiras décadas do novecentos... tempo de cadeiras nas calçadas...”,
período em que os poemas mais queridos passavam de boca em boca através do
aprendizado oral ou eram anotados em cadernos pessoais de rapazes e moças. O
texto pontua a divisão social desse folclore urbano: enquanto o violão
acompanhava as vozes nas serenatas de rua, o piano substituía o instrumento nas
casas abastadas, de modo que “a modinha estava dentro e fora das casas”.
O manifesto encerra-se com um lamento
poético sobre o advento da modernidade: “Tempo passado. Foram-se as cadeiras
nas calçadas. Também se foi a luz da lua, apagada pela luz elétrica. Ficaram,
porém, os poemas musicados, memória linda deste tempo findo”. O disco
assume que sua missão foi recolher, junto a informantes sobreviventes e
familiares – como José de Almeida, Luiz de França Moraes, Nilberto
Cavalcanti de Souza, Regina Lima Machado e Rosa Cabral de Brito –, as
melodias e solfas (partituras) que o tempo e a tradição oral modificavam,
fixando a interpretação com o objetivo de “deixar fluir o clima passadista
que só a memória pode guardar”. A ficha técnica repete o padrão sob a
coordenação de Deijair Henrique Borges, gravação de Aníbal Félix na
Transamérica (Rio), montagem de Wilson Medeiros e reitoria de Diógenes da Cunha
Lima.

O
Repertório Comentado (Lado A): O Lado A do encarte traz as letras completas
defendidas pelo canto lírico de Fátima de Brito e o piano sofisticado de
Gerardo Parente, resgatando poetas e músicos históricos:
1 - Súplica (Poesia: Ferreira Itajubá/Música:
Olímpio Galvão): Obra-prima do lirismo potiguar. A poesia do mestre Ferreira
Itajubá ganha uma melodia dramática e romântica, perfeita para as antigas
serenatas de janela.
Ó minha
amada, dize que me queres/Tira da minha mente essa descrença/Que eu sou a
vítima de tantas dores... Abre a janela, vem ouvir as queixas/Deste infeliz que
vive a te adorar...
2 - Por Estes Teus Olhos Tão
Bonitos (Autor:
Manuel de Oliveira Costa): Modinha tradicional de corte romântico e
confessional, marcada pelo jogo lírico da dor do amor sob o luar.
Por este
teus olhos tão bonitos/Que me trazem num doce encanto/Não permitas que eu viva
em prantos... A frouxa luz da lua / Que clareia a imensidão...
3 - Caminho do Sertão (Poesia: Anfilóquio Souza/Música:
Abdon Praxedes): Transposição de um tema tradicional do interior (já explorado
na música instrumental do projeto) para o formato de modinha cantada.
No
caminho do sertão/Eu vi uma linda flor/Que trazia no coração/A lembrança do meu
amor... Era uma linda rosa branca...
4 - Sereia (Autor: Luiz de França Moraes):
Composição que resgata a mítica figura folclórica da sereia sob a perspectiva
do lirismo litorâneo potiguar, sob o Cruzeiro do Sul.
Sereia,
que vives no mar/Vem ouvir o meu cantar/Que a noite está tão linda/E eu quero
te namorar...
5 - Primeiro Amor (Tradição Oral): Canção de
autoria anônima, transmitida de geração em geração pelos cadernos de modinhas
de Natal.
O primeiro
amor que tive na vida/Foi um sonho de rara beleza/Deixou minh'alma ferida/No
meio de tanta tristeza...
6 - Sozinho (Tradição Oral): Outro achado do
cancioneiro anônimo das calçadas, que canta a solidão urbana e a recordação
amorosa ao cair da noite.
Eu vivo
na terra sozinho/Sem ter quem me queira bem... A noite desce serena/Trazendo a
recordação...
O Repertório Comentado (Lado B): O Lado B do encarte coroa
o disco unindo grandes nomes da história literária e musical do estado,
incluindo peças do gênio Tonheca Dantas:
1 - Maria (Poesia: Lourival Açucena/Música:
Tonheca Dantas): Um dos encontros mais monumentos da cultura potiguar. Os
versos do poeta Lourival Açucena recebem a arquitetura melódica do gênio do
Seridó, Tonheca Dantas (autor da célebre valsa Royal Cinema).
Maria,
cujo nome evoca o céu/Cuja imagem me traz a doce luz/Se do meu peito cai o
negro véu/É o teu olhar que à vida me conduz... Vem, escuta a voz que te chama/Nesta
noite de calmaria e luar...
2 - Na Hora em que se Encobre de
Neve as Serranias...
(Tradição Oral): Modinha de acento nostálgico e passadista, que usa imagens
climáticas dramáticas para cantar a ausência da amada.
Na hora
em que se encobre de neve as serranias/E o sol esconde a sua luz dourada /Eu
sinto voltar as velhas nostalgias...
3 - Um Sonho (Poesia: Nelson Hermógenes
Freire/Música: João Rodrigues): Poema transformado em canção que contrasta a
ilusão perfeita do sonho amoroso com a dura e escura realidade da solidão.
Eu tive
um sonho de encanto/No qual tu eras a minha rainha... Mas acordei e vi a
realidade/O quarto escuro e a solidão...
4 - Aurideia (Autor: Pedro Guimarães):
Modinha romântica que personifica a amada como a estrela-d'alva, guia dos
caminhos do seresteiro.
Aurideia,
estrela d'alva/Que brilha no céu azul/O teu olhar me salva/Do norte ao extremo
sul...
5 - Para os Teus Olhos (Autor: Antônio Justino de
Caldas): Belíssima e melancólica peça de calçada sobre o desencontro de olhares
e a dor do adeus gelado.
Para os teus
olhos voltei o meu olhar/Buscando neles a luz da esperança... Mas os teus olhos
fugiram dos meus...
6 - Recordação (Poesia: Ferreira Itajubá/Música:
Luiz de França Moraes): O álbum se encerra de forma perfeitamente coerente,
unindo novamente Ferreira Itajubá ao mestre Luiz de França Moraes para cantar a
saudade das velhas serenatas e das coisas findas.
Volto ao
passado em pensamento/Buscando os dias que não voltam mais... A velha casa, a rua
deserta/Onde a seresta costumava passar... Mas as coisas findas, bem o sei/Ficarão
vivas no meu coração...
Reflexões:
Colocar
este segundo volume do Cancioneiro Potiguar para tocar na minha radiola,
neste mês de agosto, é realizar um ato de comunhão com a história de Natal.
Este disco é o retrato de um tempo em que a poesia andava pelas ruas e o amor
era declarado ao rés do chão, nas calçadas coloniais da Ribeira ou da Cidade
Alta. A constatação do encarte de que “a luz da lua foi apagada pela luz
elétrica” resume com precisão cirúrgica o impacto do progresso sobre as
manifestações folclóricas urbanas. Escutar a voz de Fátima de Brito dando vida
às notas que o gênio Tonheca Dantas escreveu para os versos de Lourival
Açucena em “Maria” é a prova cabal de que esses cadernos de poemas não
morreram; eles encontraram abrigo eterno na fidelidade do vinil.
O Legado dos LP’s
Analisar detalhadamente este
conjunto de oito raridades do “Projeto Memória” da UFRN, retirados diretamente
do acervo de 500 LPs da minha radiola, é compreender que o folclore e a cultura
popular do Rio Grande do Norte não são fósseis estáticos destinados ao
esquecimento. Através do canto polifônico do Madrigal, das crônicas litorâneas
do coco e do bambelô, do manifesto modernista de Lucinha Lira, do violão de
Amaro Siqueira, do piano etnográfico de Oriano de Almeida, do voo latino de
Tico da Costa, das odes modernas de Canção para Natal e do lirismo
boêmio do Cancioneiro Potiguar, a nossa universidade operou um milagre
estético. Ela salvou uma herança inteira da desaparição, garantindo que a
identidade norte-rio-grandense permanecesse gravada, girando na rotação exata
da nossa história. Neste mês de agosto, celebrar o folclore é, acima de tudo,
manter viva essa agulha sobre o vinil.
LETRAS DAS MÚSICAS E FICHAS TÉCNICAS DOS ÁLBUNS COM ENCARTE
ÁLBUM 2 - BAMBELÔ - EMMANUEL DE MELO E SILVA (1982)
Ficha técnica
Projeto:
Projeto Memória - 7
Artista/intérprete:
Emmanuel de Melo e Silva
Entidade
realizadora: Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN
Ano:
1982
Coordenação:
Deijair Henrique Borges
Gravação:
Aníbal Félix - Estúdios da Transamérica, Rio
Montagem:
Wilson Medeiros
Diretor
técnico: Edeltrudes Marques da Silva
Reitor:
Diógenes da Cunha Lima
1. BAMBELÔ
Autoria:
Fernando Luís da Câmara Cascudo
Eu
quero tomar banho
Eu
quero me banhar
Eu
quero tomar banho
Nos
banheiros de Iaiá
Oi
no meu sertão, seu Mano
Tem
um boi morto, seu Mano
Quando
era vivo, seu Mano
Comia
solto, seu Mano
Eu
tirando côco, seu Mano
É
pra imbolar, seu Mano
Traga
o zabumba, seu Mano
E
o maracá, seu Mano
Traga
as morena, seu Mano
Pra
nós dançar, seu Mano
Que
a noite é bela, seu Mano
Pra
nós congar, seu Mano
O
côco pra ser côco
Tem
que ser catolé
O
homem pra ser homem
Tem
que ter cinco mulher
Oi
no meu sertão, seu Mano
Tem
um boi morto, seu Mano
Quando
era vivo, seu Mano
Comia
solto, seu Mano
Eu
tirando côco, seu Mano
É
pra imbolar, seu Mano
Traga
o zabumba, seu Mano
E
o maracá, seu Mano
Traga
as morena, seu Mano
Pra
nós dançar, seu Mano
Que
a noite é bela, seu Mano
Pra
nós folgar, seu Mano.
2. TEU VENTRE
Autoria:
Diógenes da Cunha Lima
As
minhas retinas guardam
A
brancura do teu ventre
A
vida viva tecida
Perde
fios nos meus dentes
Um
displicente amor
Curtindo
a alma da gente
És
um amor leviano
Que
finda e não se pressente
Resta
parte do teu corpo
Nada
fica em tua mente
Os
caminhos se mudaram
Para
amores diferentes
As
minhas retinas guardam
A
brancura do teu ventre
A
vida viva tecida
Perde
fios nos meus dentes
Um
displicente amor
Curtindo
a alma da gente
És
um amor leviano
Que
finda e não se pressente
Tenho
o prêmio de guardar-te
Tua
voz já não me encanta
Ganham
ausência, distância
Guardo
a linha do teu ventre
Teu
ventre, teu ventre
3. MIRAGENS
Autoria:
Enoch Domingos
Ouvi
da princesa da noite
Estórias
de morte e de amor
No
canto do mago alquimista
Segredos
da pedra e da flor
Revistas
lidas pelo tempo
No
dia da encarnação
Morenas
de estrela na testa
Nos
dias de festa
Na
festa dos dias
Miragens
Que
o tempo
Inda
guarda
Na
boca da noite
O
veneno amarga
Miragens
Que
o tempo
Inda
guarda
Na
boca da noite
O
veneno amarga.
4. POUSO
Autoria:
Roberto Lima de Souza
Este
coração magoado,
Meu
coração maltratado,
Tem
vontade de voar...
Quem
quiser comigo vir pelo azul
Tem
que ter amor pra dar...
Este
coração magoado,
Meu
coração maltratado,
Tem
vontade de falar...
Tem
vontade de dizer tanta coisa,
Mas
não diz pra não chorar...
Este
coração cansado
De
tanta mágoa guardar
Também
guarda uma esperança que alcança
Às
profundezas do mar...
Volta,
coração,
Que
é hora de retornar
De
pousar por sobre as dunas de areia
De
ficar no teu lugar...
Volta,
coração,
Que
é hora de retornar,
De
dormir sob as palmeiras macias
Numa
noite de luar...
5. POEMA DOS MACUNIS
Autoria:
Diógenes da Cunha Lima
Abaai,
bita, popi
Amabá
poaté poitecé
Anari
anari anari
Anari
anari anari
O
Poema dos Macunis
Você
não pode entender
Os
Gês Tapuias Tupis
Musicavam
o entardecer
Se
você mal traduzir
Não
vai bem compreender
Você
por certo vai rir
Da
tradução pra valer
Quando
as mulheres vão urinar
As
árvores olham sem comentar
Comentar
comentar comentar
Comentar
comentar comentar
Abaai,
bita, popi
Amabá
poaté poitecé
Anari
anari anari
Anari
anari anari.
6. NAVEGANTE SEM MAR
Autoria:
Babal
Nos
raios do amor
Da
cor desse mar
Ladeira
do sol
Praias,
quebra-mar
Onde
eu me vi
Crescer
no olhar
Na
canção que fiz
Pra
você cantar
Quero
sua lua
Pra
me iluminar
Sonho
ser um
Navegante
sem mar
Sê
meu coração
Barco,
vela, mar
Navegante
flor
Girando
no ar
Junto
o azul do céu
Com
a luz do olhar
Na
canção que fiz
Pra
você cantar
7. PROCISSÃO DOS NAVEGANTES
Autoria:
Roberto Lima de Souza
Rio
azul, vela ligeira
Na
Redinha a velejar,
Morenice
da praieira,
Verde
abraço desse mar...
Na
Redinha, a lua cheia,
Rendilhando
o coqueiral,
Espedaça
luz na areia,
Traz
um beijo de Natal...
Cajus
vermelhos dourados
Enfeitam
as cores daqui,
Barcaças
de velas brancas
Sobre
o azul do Potengi...
Rainha
dos navegantes,
Senhora,
Senhora minha,
Abençoando
as jangadas
Lá
da praia da Redinha!
Meninas
gingam com graça
Na
lancha que vem das Rocas,
Mulatos
bebem cachaça
Com
peixes e tapiocas...
Rainha
dos navegantes,
Senhora,
Senhora minha,
Abençoando
as jangadas
Lá
da praia da Redinha...
Pandeiros
cheios de fitas
No
meio da multidão,
Mulata
em rendas bonitas,
Barcaças
em procissão...
Rainha
dos navegantes
Senhora,
Senhora minha,
Abençoando
as jangadas
Lá
da praia da Redinha...
Ave
Maria
Rainha
dos Navegantes } Bis
8. AS ANCAS DE MARIA
Autoria:
Diógenes da Cunha Lima
Maria
se foi
Alegre
poltranca
Nunca
mais voltou
Rebolando
as ancas
Se
sonho sonho redondo
Com
as ancas de Maria
As
ondas redondam o mar
Verdes
côcos da Bahia
Ai,
ai, são as ancas de Maria (bis)
No
encavado das dunas
Nas
voltas da ventania
No
som do sapato alto
Em
noites de calmaria
Ai,
ai, são as ancas de Maria (bis)
Em
duas partes da flor
Nos
quilhões da barcaria
Na
nuvem que se juntou
Foco
de luz me alumia
Ai,
ai, são as ancas de Maria (bis)
Na
lua quarto crescente
Nas
torres da abadia
Na
forma desta viola
Nas
nascentes do meu dia
Ai,
ai, são as ancas de Maria (bis)
Nas
curvas da natureza
No
mapa mundi estaria
Em
motivo de emoção
Balanço,
cor, fantasia
Ai,
ai, são as ancas de Maria (bis)
Maria
foi e ficou
Que
vida doida e ruim
A
poltranca pulou cerca
Mas
ficou dentro de mim
Ai,
ai, são as ancas de Maria (bis)
9. XOTE NA RIBANCEIRA
Autoria:
Fábio Fernandes
Fui
dançar xote
Na
margem da ribanceira
Com
o céu mostrando a lua
Brilhando
no ribeirão
E
as meninas entraram
Na
brincadeira, dançamos
A
noite inteira com fogo
No
coração
E
as meninas entraram
Na
brincadeira, dançamos
A
noite inteira com fogo
No
coração
Chegando
o dia
Com
a noite indo embora
Me
recordo toda hora
Como
é gostoso xotear
Dançando
xote na margem
Da
ribanceira
Durante
a noite inteira
Até
o dia clarear
Dançando
xote na margem
Da
ribanceira
Durante
a noite inteira
Até
o dia clarear
10. O ÔNIBUS
Autoria:
Roberto Lima de Souza
O
ônibus vai
No
dia que vem,
Levando
operário
E
ambulante que tem
Brinquedos
pra todos
Com
qualquer vintém,
O
funcionário,
O
colegial,
Lavadeira
e bancário,
Vendedor
de jornal...
A
dona de casa
Que
vai para a feira,
O
ônibus vai
Sobe
e desce a ladeira,
E
todos que vão
Sobem
e descem também,
No
dia que vai,
O
ônibus vem,
Vai
trazendo quem foi,
Até
trazer ninguém...
O
ônibus vai,
O
ônibus vem,
Levando
saudade
E
esperança também,
Quem
foi, quem não foi,
Quem
ia ou não ia,
Quem
foi, quem não foi,
Quem
vinha ou não vinha
Todos
vão se encontrar
Lá
no fim da linha...
Todos
vão se encontrar lá...
Lá
no fim, lá no fim,
No
fim, no fim, no fim
11. TOUROS
Autoria:
Ivanildo
Tem
pic-nic
Lá
pras bandas do farol
Pescaria
pela barra
Do
riacho Maceió
Tem
jurrubado
No
penhasco escarpado
E
coqueiro recortado
Trás
dos montes
Contra
o sol
Eu
esmoreço
Esqueço
até da hora
Preso
no tresmalho
Sem
querer sair
E
só me mexo
Quando
meu xamego
Arma
a sua rede
E
vem chamar
Pra
nós dormir
Tê,
tê, tê,
Tê
Touro, Touros (bis)
Se
o sol desponta
Lá
na barra do horizonte
Meu
amor me acorda cedo
Pra
eu poder me espreguiçar
É
lavrador
Eu
vou pro cabo da enxada
Jangadeiro
pra jangada
Boiadeiro
pra aboiar
De
volta ao rancho
Eu
fico assuntando
Terá
doce de côco
Goiabada
ou caju
Mas
quando eu vou
Chegando
no terreiro
Debaixo
daquele beijo
Com
sabor de guajiru
Tê,
tê, tê,
Tê
Touro, Touros... etc.
E
assim a vida
Escorrega
bem dolente
Quem
se enrabichou contente
Mas
nem tudo é só fulô
Tem
moça veia
Que
se posta no batente
Esperando
finalmente
Um
xodó que não voltou
E
essa coisa toda me azucrina
Em
riba dessa sina
Quer
enganar a dor
Em
cada uma
Eu
vejo Vitalina
Toda
empoada
Esperando
seu amor
Tê,
tê, tê,
Tê
Touro, Touros... etc.
12. PILÃO
Autoria:
Diógenes da Cunha Lima
Pilo,
pilo, pilo
pilo,
pilo no pilão (bis)
Na
mão do pilão
Tem
sangue e suor
Tem
resto de tempo
Tempero
e café
Pilo,
pilo... etc.
Na
mão do pilão
Eu
bato a tristeza
Machuco
a beleza
De
quem não me quer
Pilo,
pilo... etc.
Na
vida sem brilho
Farelo
de milho
Tem
carne, farinha
O
amor me sufoca
Eu
faço paçoca
De
quem não me quer
Pilo,
pilo... etc.
ÁLBUM 3 - FLORAÇÃO - LUCINHA LIRA (1981)
Ficha técnica
Projeto:
Projeto Memória - 3
Artista/intérprete:
Lucinha Lira
Entidade
realizadora: Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN
Ano:
1981
Gravação:
Estúdios da Transamérica - Rio
Coordenação:
Deijair Henrique Borges
Reitor:
Diógenes da Cunha Lima
Capa:
Dorian Gray Caldas
1. FLORAÇÃO
Autoria:
Diógenes da Cunha Lima
Ias
florando
A
manhã onde passavas
Teu
riso faz
Sorriso
em caras duras
Meninos
sentem
Por
ti, mil alegrias
Meninas,
sono tornadas,
Ficam
puras.
Sons
em ti se combinam em melodia
Do
meu dia, em melodia
Estão
em ti as horas boas do meu dia
Em
melodia, do meu dia
Passa
na tarde
O
som verde dos teus passos,
O
ar imita forma
Tua
Floração
É
preciso
Reter
teu lindo instante
Antes
que o tempo
Tome
de ti em sua mão
Sons,
em ti...
Caminha
a noite
Por
teus olhos calados
Raios
em pelo nua
Restam
do sol posto
Madrugada
destina
A
noite para longe
As
flores da manhã
Nascem
do teu corpo
2. CAJUEIRO
Autoria:
Música: Oriano de Almeida; Verso: Veríssimo de Melo
Cajueiro
Da
beira do mar
Cadê
a sereia
Qu’eu
quero noivar
Que
eu quero beijar
Cajús
amarelos
Vermelhos
também
Procurem
bem longe
Pra
ver se ela vem
Pra
ver se ela vem
Cajueiro
Na
alvura das dunas
Teu
verde é tão verde
Que
fere o luar
Cajueiro
Conversa
com a lua
Encontra
a sereia
Que
eu quero beijar
3. CIDADE DE DEZEMBRO
Autoria:
Nei Leandro de Castro e Rogério Rossini
4. VELHAS OITICICAS
Autoria:
Letra: Pery Lamartine; Música: Roberto Lima
Velhas
árvores que eu via
No
meu tempo de criança
Que
me davam segurança
E,
à noite, assombração,
Eram
velhas oiticicas
Com
seu cheiro penetrante,
Tinham
sombra repousante
Das
moradas do sertão...
As
crianças buliçosas
Pelos
seus galhos subiam
E
brincavam e ouviam
A
passarada a cantar...
Eram
velhas oiticicas
Com
seu cheiro penetrante
Tinham
sombra repousante
Das
moradas do sertão...
Tão
antigas, tão serenas,
Inda
vivem seu destino,
Acolhendo
outros meninos
Daquele
mesmo lugar...
Eram
velhas oiticicas
Com
seu cheiro penetrante,
Tinham
sombra repousante
Das
moradas do sertão...
Oiticicas
tão amadas
Não
consigo esquecê-las
Outro
dia fui revê-las
Num
encontro de saudade:
Abracei,
com emoção,
Os
seus troncos retorcidos
Já
gretados, corroídos
Pelo
tempo, pela idade...
5. VERDE MAR
Autoria:
Diógenes da Cunha Lima
O
mar assanha as ondas
O
azul no alto mar
O
mar canta na praia
Cantigas
de embalar
Verde
mar, verde mar, verde mar
Meu
mal é amar, cura o mal esse mar
Verde
mar, verde mar...
O
cardume de albacoras
Busca
fome jangadeira
A
tristeza me sufoca
E
a mulher não companheira.
Verde
mar...
A
dor não mede o choro
Nem
o prato a minha fome
Sou
homem oprimido
A
tristeza me consome.
Verde
mar...
6. O OLHAR DA AMADA É
COMO UM BARCO A VELA NAVEGANTE
Autoria:
Roberto Lima de Souza
Entre
o homem e a sua fome
Dois
modelos de mulher
A
primeira é a solidária
A
outra o desejo quer.
Vem
mulher, vem mulher, vem mulher
Vem
mulher, vem mulher, vem mulher
Vem
mulher, vem mulher, vem mulher
Olha,
gente,
O
olhar da amada é como
um
barco a vela navegante,
Olhar
mirante
Em
mar amante,
Perto
ou distante,
Vou
caminhante
Buscar-lhe
a cor,
Momento
amor,
Momento
flor...
Olha,
gente,
Eu
vi em noites, madrugadas,
luas,
sol e estradas,
Vendo
alvoradas
De
migalhas
De
esperança e dor,
Do
amor amante,
Do
amado amor,
Amor
instante
E
eterno amor...
Ah!
eu vim trazendo em mim,
Como
um porto pr’esse olhar,
Todo
o amor pra lhe dar...
O
que esse olhar não viu
Foi
a dor dessa paixão...
Ah!
quem me dera que o meu coração
Fosse
como esse mar,
Onde
o seu olhar
Fosse
navegar,
Onde
o seu olhar fosse navegar...
7. ETERNA HARMONIA
Autoria:
Zezé Delgado
Sua
beleza se iguala a natureza
Lembra
o dia amanhecendo
E
o sol posto pra nascer
O
seu sorriso
Canto
livre de andorinha
Que
anuncia céu acima
Mais
um dia vai nascer
Você
me ensina
Que
a noite é melodia
Que
a dor é fantasia
No
seu modo de viver
Você
é planta
Com
as folhas orvalhadas
Que
eterniza a madrugada
Na
presença de você
Sua
palavra
Badalada
de um sino
Que
ecoa como um hino
Ressonância
de saber
Toda
expressão
Do
seu ser me irradia
Chuvarada
de harmonia
Nunca
vou lhe esquecer
Você
me ensina
Que
a noite é melodia
Que
a dor é fantasia...
8. COISA BOA
Autoria:
Música: Hianto de Almeida; Verso: Veríssimo de Melo
Coisa
boa é querer bem,
ter
alguém, namorar...
Coisa
boa é um xodó,
um
fobó, vadiar...
(Coisa
boa é o mar,
Bis
{ (o luar,
(e
caju com pitu,
(cafuné,
cochilar...
Coisa
boa
é
tudo isso que se diz, e que se faz
na
hora que a gente quer...
Coisa
boa,
é
uma noite, numa praia, num alpendre,
numa
rede, uma mulher...
9. BRINCO DE AMOR
Autoria:
Diógenes da Cunha Lima e Veríssimo de Melo
Você
me fez
Cantar
assim
Ai
de mim
Você
é coisa
Brinco
de amor
Dizer
loucuras
Fazer
loucuras
Que
o amor
Sempre
permite
Tudo
é juízo
Dentro
da Noite
Com
uma mulher
Junto
de mim.
Sempre
permito
O
amor lindo
Tudo
perfeito
Amor
infindo
Homem
e mulher
São
dois amantes
E
nada mais.
Pilo,
pilo... etc.
ÁLBUM 6 - AMÉRICA LATENTE - TICO DA COSTA (1983)
Ficha técnica
Projeto:
Projeto Memória - 31
Artista/intérprete:
Tico da Costa
Autoria
das músicas: Tico da Costa
Instrumentistas:
Tico da Costa - voz e violões; Chico Guedes - baixo; Clauton - bateria; Mingo e
João Leite - percussão
Participações
especiais: Chiquinho do Acordeon - acordeon; Sando - flauta
Arranjos:
Tico da Costa
Assistentes:
Laci, Enock e Mauro
Técnico:
Aníbal Félix
Coordenação
e produção: Deijair Henrique Borges
Montagem:
Wilson Medeiros
Técnico
de manutenção: Walter Guimarães
Diretor
técnico: Edeltrudes Marques da Silva
Foto
da capa: Laco
Estúdio:
Estúdios da Transamérica - Rio
Instituição:
UFRN - Escola de Música - Natal - RN
Ano:
1983
Reitor:
Diógenes da Cunha Lima
1. CARYBÉ-NANCY
Autoria:
Tico da Costa
Ai
ai que dor
Ai
ai que dor
Tá
fazendo muito tempo
Que
eu não vou a Salvador
Ai
ai que dor
Ai
ai que dor
Tá
fazendo muito tempo
Que
eu não vejo Carybé
Cadê
cadê candomblé
A
poeira da capoeira
Vou
subir a ladeira da Sé é é é
Oxumaré
Oxumaré
Oxumaré
Oxum
A
Nancy já me deu um bom-fim
E
o bom-fim não sei que fim levou
Só
sei que eu vou buscar um novinho
Lá
no Nosso Bom-Fim do Senhor
Eu
vou eu vou eu vou
Eu
vou eu vou eu vou
Babá
Abaloa Exu
Iansã
Yemanjá Exu
Omolu
Oxóssi Xangô
Pra
nos abençoar
A
benção a benção
A
benção a benção
2. PAIXÃO ATÔMICA
Autoria:
Tico da Costa
Você
me cheira selvatica
Fulô
amazônica
Uns
ares de irônica
Olho
de igarapé
Você
me caiu simpática
Mexeu
no patético
Flexou-me
o cardíaco
Hilarizou
my self
Vixe!
Virgem das galáxias
Ondas
telepáticas
Vieram
informar
Meu
astral afrodisíaco
Meu
ser hipocondríaco
Precisa
de você
Meu
espírito agonístico
Precisa
um pacítico psique
Mesmo
se fosse
Uma
festiva anti-machista
Mas
que tivesse molejados
Os
movimentos feministas
Paixão
hormônica
Super-atômica
Estereofônica
Meu
jazz
3. AMÉRICA LATENTE
Autoria:
Tico da Costa
Faz
mil anos faz
Que
a gente quer
Ir
ao Paraguai
Aí
a gente erra
Esquece
a guerra
E
vai pro Uruguai
Quais
quais quais quais
Quais
quais quais quais
Quais
quais quais
Quais?
Quem
lá do Pará
Para
o Paraná
Vai
parar no arrolo Chui
Não,
não é aí Ypacaraí
Com
essa cara aí
Caray!!
Honduras
Haiti?
Ah!
Vou pelo Peru
Lugo-lugo-lugo
Quero
ouvir a voz da foz do Iguaçu
Em
guarani
Pra
ver se ela escorre guarana
Ou
guarani
Pra
ver se ela escorre guarana
Nina
nina ni
Faz
mil anos faz
Que
a gente quer
Ir
ao Paraguai
Mil
anos faz (Sara)
4. DURANGO TANGO
Autoria:
Tico da Costa
É
tango argentino
Nossas
vidas
É
um tango argentino
Nosso
amor
O
drama de nós dois
É
fatal
Carinho
de nós dois
É
punhal
E
antes que termine o tango
O
melhor é acabar
Porém
Vamos
dançar
Fingir
que tudo continua
As
bocas nuas
Os
beijos loucos
Que
teu baton
Me
deixe todo encarnado
De
tanto abraço
Nossos
corpos desbandonados
Vamos
gargalhar no chão
Mas
só até quando
Enquanto
dure
Este
tango no salão
Porém...
Es
tango argentino
Nuestras
vidas
Es
tango argentino
Nuestro
amor
El
drama de nós dois
Es
fatal
Cariño
de nós dois
Es
puñal
Y
antes que termine el tango
Lo
mejor es acabar
Porém...
Vamos
danzar
Fingir
que todo continua
Las
bocas desnudas
Los
besos locos
Que
tu baton
Me
deje todo encarnado
De
tanto abrazo
Nuestros
cuerpos bandoneonados
Vamos
gargalhar no chão
Até
quando enquanto dure
Este
tango no salão
Porém...
5. MENINO MENINA
Autoria:
Tico da Costa
A
vida ensina
Muita
coisa em surdina
E
fala mansinha
Como
a voz de Lurdinha
Menino
Menina
Toda
rima rima
Menino
menina
É
linda é linda
Amando
cantando
Tudo
se ilumina
Como
o riso de Elis Regina
Bem-dita
seja a vida
E
a vida que da vida vinga
A
vida que da vida ainda
6. RIDINHA
Autoria:
Tico da Costa
Eu
sou feliz na praia da Ridinha
Numa
redinha balançando o mar
Adoro
adorar lua rainha
Que
vem ralando feito arraia no céu
A
lua arria na areia do rio
O
rio se areia
E
vai virando mar
De
manhã de manhazinha
De
noite ou de noitinha
Ser
feliz é cantar na Ridinha
De
madrugada tem luarada
Todo
mundo de mão dada
É
ciranda é ciranda
Felicidade
vai rodando a roda
A
roda roda a saia
Chega
a gente desmaia
E
lá no céu o brinco da sereia
Brincando
ser estrela brilhante de Natal
De
manhã de manhazinha
De
noite ou de noitinha
Ser
feliz é cantar na Ridinha
7. LAGARTIXA
Autoria:
Tico da Costa
Ó,
lagartixa, brocoió calango longo
No
telhado se espreguiça
Que
o gato tá lhe cubando
A
testa larga a lagartixa
Balança
a cabeça
A
besta fera, a besta fica
Tiririca
vespa
Ideia
fraca, as calças trouxas
O
andar zambeta
A
mão tremendo, a fala rouca
O
dedão porreta
A
boca funda, o fundo sujo
Calção,
camiseta
O
sol no couro, o pé rachado
Cheiro
de alpargata
Rasteja,
lagarta
Rasteja,
lagartixa (se bem não mereça)
Pior
ser barata
Pior
cobra-bicha
Olha
"fartura":
farta
carne, farta o feijão
Farta
verdura, ó, vida dura, e sem condição
A
terra dá, o corpo dá
Mas
tem vegetação
Andar
pra trás, subir descendo
É
a mesma lição
Filho
de besta é besta filho
É
filho da luta
A
presa fica assustadiça
Se
bem não mereça
8. LUA PHEIA
Autoria:
Tico da Costa
Ai
lua vazia
Sua
luz não alumia
Só
danço essa ciranda
Se
dançar com meu amor
Ai
lua vazia
Sua
luz não alumia
Só
danço essa ciranda
Se
dançar com meu amor
Ciranda
Cirandinha
Ciranda
meu amor
É
a é ó
É
a é ó
O
lua sem-vergonha
Da
cara de pamonha
Ia
vem você saindo
Por
trás dos edifícios
Lá
vem você metida
Ó
lua enxerida
Vem
cheia de ilusão
Me
enchendo de saudade
Botando
mau-olhado
Na
minha felicidade
Por
isso que Ciranda
Cirandinha
me deixou
Olerê
olara
Ciranda
Cirandinha
Não
é mais o meu amor
Olerê
olara
9. ROMA - OLINDA
Autoria:
Tico da Costa
Arruma
as malas
Vou
voltar pra Pernambuco
Já
tô virando maluco
Neste
inferno infernal
Tô
precisando de amor,
De
gente pura
De
curar esta amargura
No
coração
Quero
a Lua
Lá
por trás das bananeiras
Onde
conto meus segredos
Onde
posso até chorar
Quero
ser eu
Ser
mais pessoa verdadeira
Quero
acender fogueira
Pra
São João
São
João me disse
E
São Pedro confirmou
Quem
quer ser minha madrinha
Quer
também ser meu amor
Ai
o amor fumega em meu peito
Feito
lenha
Feito
tição
Amor
amor explode
Eu
sou que nem um fogueeeeeeeeeeetão...
10. ATONIA
Autoria:
Tico da Costa
Tem
pena
Tem
dó
Tem
pena
Do
meu sofrer
Tem
pena
Tem
dó
No
beijo frio
Que
você deu
Havia
um tom
De
adeus
Que
me deixou
Pra
lá de só
Sua
ausência me desatina
Tem
pena...
Meu
violão desafogou
Minha
dissonância
Em
ré maior
Você
roubou meu sol sem dó
Se
um samba triste matasse
Tô
morto
11. CABELOS DE SOL
Autoria:
Tico da Costa
Menino
dos cabelos de sol
Menino
do cheirinho de mar
Que
morde o papai
Que
dança pra mamãe
Dá
quatro, cinco passos e cai
Menino
dos dentinhos nascendo
Parece
que já está entendendo
Olhando
pra mamãe
Pra
barriga crescendo
Que
vai ter um amiguinho pequeno
Menino
dos cabelos de sol
Menino
do cheirinho de mar
Você
vai dividir seu mundinho de paz
E
tudo que a vida traz
Vem
menino dos cabelos de sol
Vem
menino do cheirinho de mar
ÁLBUM 7 - CANÇÃO PARA NATAL - VÁRIOS AUTORES (1983)
Ficha técnica
Projeto:
Projeto Memória - 28
Entidade
realizadora: Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN
Parceria
institucional: SESC/RN
Coordenação
e produção: Deijair Henrique Borges
Técnico
de gravação e mixagem: Aníbal Felix
Assistentes
de gravação: Mauro - Laci
Montagem:
Wilson Medeiros
Técnico
de manutenção: Walter Guimarães
Diretor
técnico: Edeltrudes Marques da Silva
Capa
creditada no estudo: Newton Navarro; o estudo observa que a pintura frontal traz
assinatura/traços de Dorian Gray
Estúdio:
Estúdios da Transamérica - Rio
Instituição:
UFRN - Escola de Música - Natal - RN
Ano:
1983
Reitor:
Diógenes da Cunha Lima
Instrumentistas:
Etelvino - teclado; Chagas - guitarra e viola; Prentice - violão e V.L. tone;
Jeferson - baixo; Ivanildo (Bauru) - bateria; Negão - percussão
Participações
especiais: Luizinho Braga - flauta; Jurandyr da Feira - violão
1. SAGA DO CARNAUBAL
Autoria:
Almir Padilha - Celso da Silveira
Vareiro
que corta a palha
Tuleiro
que apara espinho
Juntador
que enfeixa a palha
Pra
cambitar no burrinho
Homem
que espalha a palha
Que
o sol seca ao relento
E
seca recolhe a palha
Protegida
contra o vento
Palha
seca que dá pó
E
pó que a cera dá
O
leque de palha verde
Ficou
lá no mangará
Tangerino
carrega a palha
Para
empilhar estaleiro
Pra
bater de madrugada
Em
empanada no terreiro
Trinchador
que trincha a palha
Em
faca de sete pontas
Batedor
batendo pó
Em
lençol de quatro pontas
Tacheiro
que coze a cera
Riqueza
para o patrão
Humos
da carnaubeira
Vida,
morte e paixão
Acalanto
do meu povo...
2. ASSUNTO PESSOAL
Autoria:
Veríssimo de Melo - Diógenes da Cunha Lima
Não
me perguntem
O
que se passou
Na
cama bonita do amor
Do
amor
Guardo
o segredo de amor sem fim
Faço
menos que você por mim
É
assunto pessoal
De
você pra mim
De
mim pra você
Eu
vivo a vida que Deus me deu
O
gozo que o amor rendeu
É
assunto pessoal
Ninguém
vai saber o que se passou
Segredo
é a invenção do amor
Como
Deus inventou a flor
Ninguém
jamais vai saber
E
existe a flor e existe o amor
E
existe...
3. CANÇÃO PARA NATAL
Autoria:
Nelson Hermógenes Freire - Diógenes da Cunha Lima
Se
você passar por aqui
Não
pode deixar de ver
A
Ribeira, o sol, a lama
As
águas do Potengi
O
Farol no alto do morro
Dunas
brancas que nem lençol
Essa
brisa que embala morna
E
uma gostosa carne de sol
Em
Natal a canção tem mais beleza
Em
Natal o amor é mais amor
São
mais lindos seu mar e seus coqueiros
Suas
praias, seu sol tem mais calor
Se
você passar por aqui
Não
pode deixar de ver
A
Barreira, o sal, o forte
Os
cajueiros em Pirangi
O
Farol no alto do morro
Dunas
brancas que nem lençol
Essa
brisa que embala morna
E
uma gostosa carne de sol
4. CANÇÃO DO ÍNDIO
TRISTE
Autoria:
Diógenes da Cunha Lima
Zan
Noyoliyo
Zan
Noyoliyo
Eu
de mim só tenho a vida
A
vida que foi canção
Venha
apresentar-se aqui
Quem
tem triste o coração.
Zan
Noyoliyo
Zan
Noyoliyo
A
minha vida é breve
O
homem é traição
Não
tenho fé, nem futuro
Que
a morte pisa o meu chão.
Zan
Noyoliyo
Ma
ya hual moquetza
A
inyollo in cocohua
Zan
Noyoliyo.
Os
mais tristes deste mundo
Tristeza
cantem comigo
Vizinho
de mim, a morte
Planejada
pelo amigo.
Zan
Noyoliyo
Zan
Noyoliyo
5. NAQUELE TEMPO DE
CADEIRAS NAS CALÇADAS
Autoria:
Roberto Lima
Naquele
tempo de cadeiras nas calçadas,
Brincadeiras
inventadas
Eram
mais do que brincar
Enquanto
a gente lá da escola retornava
A
canção que se cantava
Era
mais do que cantar...
Nossos
caminhos tinham mais pra descobrir
Ver
a flor a se abrir
E
uma ave a se emplumar
Frutos
silvestres tinham gosto diferente
A
natureza era da gente
Sem
ninguém pra reclamar
As
nossas ruas eram todas conhecidas,
Suas
casas parecidas,
Seus
viventes tão leais
Que
a gente sempre conhecia o seu segredo
O
momento não fazia medo
Dividia
os seus quintais
6. COISAS RARAS
Autoria:
Zezé Delgado - Diógenes da Cunha Lima
O
amor se consome no instante
De
fazer amor perdidamente
Resta
apenas a vontade de estar juntos
Imaginar
variações livres da mente.
A
vida é surpresas minha amiga
Coisas
raras acontecem todo dia
O
amor doce e áspero tem belezas
Que
inventar não pode a fantasia.
É
preciso ver o mundo novamente
Com
os olhos espantados de menino
Descobrir
sutis prazeres no teu corpo
E
devolver rica ilusão ao meu destino.
7. GARGALHEIRAS
Autoria:
Almir Padilha - Diógenes da Cunha Lima
Partiendo
las sierras
Cortando
los cerros
Una
gran fuente
El
Gargalheiras
Como
si fuera un mar
Una
lára
Besando
las bocas
De
agua dulce
Batiendo
en las piedras
Como
un corazón
Hermano
de cedro, del Pueblo
Lino
blanco del Seridó
Chorros
que llenan los colchos
De
los animales
Manos
que lavan los campos de algodones
Minas,
tesoros, sus aguas a pulir
Madre
y Padre, de los hijos de Acari
Partindo
as serras, cortando os serrotes
Uma
grande fonte o Gargalheiras
Como
se fosse um mar
Uma
lara beijando as bocas
De
água doce, batendo nas pedras
Como
um coração
Irmão
de cedro do povo
Linho
branco do Seridó
Jorro
que enche os colchos dos animais
Mão
que lava os campos de algodão
Minas,
tesouros, suas águas a polir
Mãe
e Pai, dos filhos de Acari
8. A MOÇA EM FLOR
Autoria:
Diógenes da Cunha Lima
Rede
branca de varanda
Como
as espumas do mar
É
uma carícia pra o corpo
E
uma canção de ninar
Rede
branca de varanda
Balança
ao vento do mar
O
sono fica mais leve
Sonho
bom traz pra sonhar
Armador
geme o amor
Coração
sempre em mim manda
Numa
rede de varanda
Rede
branca a moça em flor
A
moça em flor manhãzinha
Deixa
o seu gato Angorá
Faz
de seus braços uma rede
Uma
rede de aconchegar.
9. PIXANANA
Autoria:
Roberto Lima - Pery Lamartine
Pixanana
flor do mato
Nasce
no meio da rua
No
sertão é flor de dama
Na
cidade não atua
No
chão duro, pedregoso
De
manhã logo cedinho
Salpicada
de orvalho
É
uma prenda em meu caminho.
Ai
Pixanana que saudade você tem
É
beleza, é singeleza, é lembrança do meu bem.
Ai
Pixanana que saudade você tem
É
beleza, é com certeza uma flor para o meu bem.
Para
o povo da cidade
Essa
flor é quase nada
Lá
na ponta da calçada
Sem
ninguém a reparar
Ela
tem beleza pura
Que
alegra o sol nascente
Quando
o sol cai no poente
Ela
tranca o seu olhar.
Ai
Pixanana que saudade você tem... (Repete o refrão)
10. PESCA DE AÇUDE
Autoria:
Celso da Silveira
A
chuva chegou
Barragem
sangrou
Peixinho
que ficou
Menino
pescou ó
Traíra,
Coró, Cará
Menino
pescou } bis
Com
seu landuá
Menino
não pesca no rio
Menino
não pesca no mar
Menino
só pesca em açude
Com
seu landuá
Traíra,
Coró, Cará
Menino
pescou } bis
Com
seu landuá
ÁLBUM 8 - CANCIONEIRO POTIGUAR (VALSAS E MODINHAS DE SERESTA)
- VOLUME II (1983)
Ficha técnica
Projeto:
Projeto Memória - 18
Intérpretes:
Fátima de Brito - canto; Gerardo Parente - piano
Parceria
institucional: SESI/RN
Coordenação
e produção: Deijair Henrique Borges
Técnico
de gravação e mixagem: Aníbal Felix
Assistentes
de gravação: Mauro - Paulinho
Montagem:
Wilson Medeiros
Técnico
de manutenção: Walter Guimarães
Diretor
técnico: Edeltrudes Marques da Silva
Foto
da capa: Cândida Bezerra
Estúdio:
Estúdios da Transamérica - Rio
Instituição:
UFRN - Escola de Música - Natal - RN
Reitor:
Diógenes da Cunha Lima
1. SÚPLICA
Autoria:
Poesia: Ferreira Itajubá; Música: Olímpio Galvão
Ó
minha amada, dize que me queres,
Tira
da minha mente essa descrença,
Que
eu sou a vítima de tantas dores,
Que
padece a tortura da sentença.
Não,
tu não podes ser assim tão fria,
Vendo
a minh'alma soluçar de dor,
Mostra
que tens a doce simpatia,
E
aceita as juras de um fiel amor.
Abre
a janela, vem ouvir as queixas
Deste
infeliz que vive a te adorar,
Sinto-me
só se tu assim me deixas,
Sinto
morrer se tu não vens amar.
Eu
vivo na terra como um exilado,
Minhas
noites são noites de luar,
O
meu sofrer por ti foi decretado,
E
só a morte me fará parar.
2. POR ESTES TEUS
OLHOS TÃO BONITOS
Autoria:
Manuel de Oliveira Costa
Por
estes teus olhos tão bonitos
Que
me trazem num doce encanto,
Não
permitas que eu viva em prantos,
No
meio de dores e de aflição.
Tu
bem sabes que te amo tanto,
Não
permitas que o sofrer
Destrua
o meu viver,
Fazendo
sofrer o meu coração.
A
frouxa luz da lua
Que
clareia a imensidão,
Possa
levar-te a grande mágoa,
Que
invade o meu pobre coração.
O
teu fugir me tortura,
Pois
de ti não sei esquecer,
Dá-me
a doce ventura,
E
faz-me esquecer o sofrer.
3. CAMINHO DO SERTÃO
Autoria:
Poesia: Anfilóquio Souza; Música: Abdon Praxedes
No
caminho do sertão
Eu
vi uma linda flor,
Que
trazia no coração
A
lembrança do meu amor.
Era
uma linda rosa branca,
Que
no mato vicejava,
Sua
alvura me encanta,
Enquanto
ela ali brotava.
Quero
colher essa flor,
Pra
levar para o meu bem,
Que
é a dona do meu amor,
E
que não amo mais ninguém.
4. SEREIA
Autoria:
Luiz de França Moraes
Sereia,
que vives no mar,
Vem
ouvir o meu cantar,
Que
a noite está tão linda,
E
eu quero te namorar.
Nas
ondas do mar azul,
O
teu corpo vi flutuar,
Sob
o céu do cruzeiro do sul,
Eu
te vi a navegar.
Sereia,
linda sereia,
Vem,
escuta o meu cantar,
Que
a noite está tão cheia,
Se
tu não vens me escutar.
5. PRIMEIRO AMOR
Autoria:
Não indicado - Tradição Oral
O
primeiro amor que tive na vida
Foi
um sonho de rara beleza,
Deixou
minh'alma ferida,
No
meio de tanta tristeza.
Tu
foste a doce ilusão
Que
me fez tanto sonhar,
Mas
hoje no meu coração,
Só
resta a dor de lembrar.
6. SOZINHO
Autoria:
Não indicado - Tradição Oral
Eu
vivo na terra sozinho,
Sem
ter quem me queira bem,
Não
tenho o teu carinho,
Não
tenho o amor de ninguém.
A
noite desce serena,
Trazendo
a recordação,
Desse
teu rosto de anjo,
Que
prendeu o meu coração.
7. MARIA
Autoria:
Poesia: Lourival Açucena; Música: Tonheca Dantas
Maria,
cujo nome evoca o céu,
Cuja
imagem me traz a doce luz,
Se
do meu peito cai o negro véu,
É
o teu olhar que à vida me conduz.
Tu
és a rosa que no prado floresce,
Exalando
o perfume do amor,
O
meu peito por ti padece,
A
tortura de uma grande dor.
Vem,
escuta a voz que te chama,
Nesta
noite de calmaria e luar,
É
o coração de quem te ama,
Que
te convida a escutar.
8. NA HORA EM QUE SE
ENCOBRE DE NEVE AS SERRANIAS...
Autoria:
Não indicado - Tradição Oral
Na
hora em que se encobre de neve as serranias,
E
o sol esconde a sua luz dourada,
Eu
sinto voltar as velhas nostalgias,
Do
tempo em que eras minha namorada.
O
frio desce por sobre a terra,
E
o vento sopra com precisão,
Mas
a grande dor que em mim se encerra,
É
a ausência do teu coração.
9. UM SONHO
Autoria:
Poesia: Nelson Hermógenes Freire; Música: João Rodrigues
Eu
tive um sonho de encanto,
No
qual tu eras a minha rainha,
Afastando
de mim todo o pranto,
Dizendo
que eras só minha.
Mas
acordei e vi a realidade,
O
quarto escuro e a solidão,
Vi
que o sonho era só falsidade,
Que
torturou o meu coração.
A
noite passa, o dia vem vindo,
E
eu continuo a chorar,
Desse
amor que se foi sumindo,
Sem
nunca mais retornar.
10. AURIDEIA
Autoria:
Pedro Guimarães
Aurideia,
estrela d'alva,
Que
brilha no céu azul,
O
teu olhar me salva,
Do
norte ao extremo sul.
Por
ti eu tenho vivido,
No
meio de tanta aflição,
Não
deixes no esquecimento,
Quem
te deu o coração.
Os
teus olhos são duas estrelas,
Que
iluminam o meu caminhar,
Quem
dera poder tê-las,
Para
sempre me guiar.
11. PARA OS TEUS OLHOS
Autoria:
Antônio Justino de Caldas
Para
os teus olhos voltei o meu olhar,
Buscando
neles a luz da esperança,
Que
pudesse o meu sofrer abrandar,
Trazendo
de volta a doce lembrança.
Mas
os teus olhos fugiram dos meus,
Deixando-me
na mais triste escuridão,
Foi
o sinal do mais frio adeus,
Que
despedaçou o meu coração.
12. RECORDAÇÃO
Autoria:
Poesia: Ferreira Itajubá; Música: Luiz de França Moraes
Volto
ao passado em pensamento,
Buscando
os dias que não voltam mais,
Relembro
as horas de contentamento,
Que
se perderam nos tempos atrás.
A
velha casa, a rua deserta,
Onde
a seresta costumava passar,
Hoje
só resta a lembrança incerta,
Desse
tempo que não vai voltar.
Mas
as coisas findas, bem o sei,
Ficarão
vivas no meu coração,
Do
amor antigo que tanto amei,
Só
me restou esta recordação.
Notas de identificação constantes do estudo
“Súplica”:
poema de Ferreira Itajubá; música de Olímpio Galvão.
“Maria”:
música de Tonheca Dantas sobre versos de Lourival Açucena.
“Recordação”:
poema de Ferreira Itajubá musicado por Luiz de França Moraes.
“Para
os Teus Olhos”: letra e música atribuídas a Antônio Justino de Caldas.
“Primeiro
Amor” e “Sozinho”: autoria não indicada, classificados no estudo como tradição
oral.
Referências
Bibliográficas
ALMEIDA, Oriano de. Oriano
interpreta Oriano: prelúdios potiguares (Volume II). Natal: UFRN, Escola de
Música, [1982-1983]. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto
Memória, v. 19. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).
CANTOS da Terra do Mar.
Intérprete: Madrigal da UFRN. Regência: Pe. Pedro Ferreira da Costa. Natal:
UFRN, Escola de Música, 1981. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo.
Projeto Memória, v. 1. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).
CANÇÃO para Natal. Intérpretes:
Almir Padilha, Lucinha Lyra, Silvinha, Zezé Delgado, Negão. Coordenação:
Deijair Henrique Borges. Natal: UFRN, Escola de Música; SESC/RN, 1983. 1 disco
de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 28. Gravado nos
Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).
COSTA, Tico da. América
Latente. Natal: UFRN, Escola de Música, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3
rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 31. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio
de Janeiro).
DORIAN Gray Caldas. In: WIKIPÉDIA:
a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Dorian_Gray_Caldas. Acesso em: 6 fev. 2026.
LIRA, Lucinha. Floração.
Natal: UFRN, Escola de Música, 1981. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm,
estéreo. Projeto Memória, v. 3. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de
Janeiro).
MELO E SILVA, Emmanuel de. Bambelô.
Natal: UFRN, Escola de Música, 1982. 1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm,
estéreo. Projeto Memória, v. 7. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de
Janeiro).
ORIANO de Almeida. In: MUSICABRASILIS.
Rio de Janeiro, [202-]. Disponível em: https://www.musicabrasilis.org.br/compositores/oriano-de-almeida.
Acesso em: 12 abr. 2026.
SIQUEIRA, Amaro. Saudades da
juventude. Intérprete: Fidja Siqueira. Natal: UFRN, Escola de Música, 1983.
1 disco de vinil (LP), 33 1/3 rpm, estéreo. Projeto Memória, v. 14. Gravado nos
Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).
VALSAS e modinhas de seresta.
Intérpretes: Fátima de Brito, Gerardo Parente. Coordenação: Deijair Henrique
Borges. Natal: UFRN, Escola de Música; SESI/RN, 1983. 1 disco de vinil (LP), 33
1/3 rpm, estéreo. Cancioneiro Potiguar, Volume II. Projeto Memória, v.
18. Gravado nos Estúdios da Transamérica (Rio de Janeiro).