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| Obs. Imagem criada por Inteligência Articial, apenas inspirada no estudo abaixo. |
Há livros que cumprem apenas a finalidade para a qual foram escritos. Outros, entretanto, parecem desafiar o tempo. Permanecem décadas adormecidos nas estantes de bibliotecas ou nas coleções particulares, aguardando apenas que um leitor curioso lhes devolva a voz. Foi exatamente essa sensação que experimentei quando, há alguns anos, tive acesso ao Diccionário Histórico e Geographico do Rio Grande do Norte - Volume I (A-E), de autoria de Antonio Soares, publicado pela Imprensa Official, em Natal, no ano de 1930.
Trata-se de uma obra singular, apresentada ao
Congresso Econômico do Rio Grande do Norte, realizado na capital potiguar em
janeiro daquele mesmo ano, durante as comemorações do segundo aniversário da
administração do então presidente do Estado, Juvenal Lamartine. Embora
concebido como um projeto muito mais amplo, abrangendo vários volumes
destinados a registrar localidades, acidentes geográficos, personagens
históricos e inúmeros outros aspectos da vida potiguar, o empreendimento jamais
ultrapassou seu primeiro tomo, dedicado às letras A até E. As razões desse
interrompimento não são conhecidas. É uma pena. Se o projeto tivesse sido concluído,
provavelmente possuir´amos hoje um importante repositório histórico e geogr´fico
já produzidos sobre o Estado, reunindo informações de enorme valor para
pesquisadores, professores, estudantes e todos aqueles que cultivam interesse
pela memória potiguar.
Em 1997, quando consultei esse volume, fiz diversas
anotações a lápis nos meus cadernos. Passados quase trinta anos, ao
reencontrá-las, percebi que aquelas pequenas notas continuavam despertando a
mesma curiosidade de outrora. Resolvi, então, revisitá-las, confrontando-as
novamente com o texto original e transcrevendo os verbetes relativos ao antigo
município de Papary - hoje Nísia Floresta.
É importante recordar que, em 1930, quando Antonio
Soares publicou sua obra, o município ainda conservava oficialmente o nome de
Papary. A alteração para Nísia Floresta somente ocorreria dezoito anos depois,
em 1948, numa justa homenagem à mais ilustre filha daquela terra. Assim, todas
as referências presentes no dicionário utilizam naturalmente a antiga
denominação. O leitor encontrará, nas linhas que seguem, numerosas transcrições
literais do texto de Antonio Soares. Fiz questão de preservar a grafia
original, respeitando não apenas a ortografia vigente naépoca, mas também a
própria feição documental da obra. Afinal, documentos históricos não transmitem
apenas informações: também revelam a maneira como uma sociedade escrevia,
nomeava lugares, descrevia paisagens e compreendia o mundo ao seu redor. À
primeira vista, pode parecer tratar-se apenas de um inventário de rios,lagoas,
povoados, acidentes geográficos e figuras notáveis. Contudo, basta um olhar
mais atento para perceber que o dicionário oferece muito mais do que isso. Cada
verbete funciona como uma pequena janela aberta para uma Papary de quase um
século atrás, revelando aspectos da hidrografia, da ocupação do território, da
economia, das comunicações, da religiosidade popular e da própria formação
histórica do município.
Há ainda um detalhe que chama particularmente a
atenção. Antonio Soares não se limita a indicar a localização dos lugares. Em
muitos casos, registra informações sobre a população das localidades, comenta a
piscosidade das lagoas, descreve características da paisagem, apresenta
etimologias indígenas e, não raramente, incorpora tradições orais que, sem esse
registro, talvez tivessem desaparecido para sempre. É precisamente esse
conjunto de observações que transforma o livro numa fonte documental de
extraordinária importância.
Percorrer suas páginas é como acompanhar um mapa
vivo de uma época em que as distâncias eram medidas muito mais pelas estradas
de barro do que pelos modernos sistemas de georreferenciamento; quando
determinadas lagoas jamais secavam, os rios ainda obedeciam aos seus cursos
naturais e pequenas povoações possuíam importância administrativa muito
superior àquela que hoje lhes atribuímos. Curiosamente, muitos dos lugares
mencionados continuam existindo, embora profundamente transformados. Outros
conservaram apenas o nome. Alguns praticamente desapareceram da memória
coletiva. Há também aqueles cuja grafia mudou, acompanhando as sucessivas
reformas ortográficas, enquanto outros permaneceram quase inalterados,
desafiando o tempo como discretos marcos da permanência histórica.
Foi justamente essa possibilidade de comparar a
Papary de Antonio Soares com a Nísia Floresta contemporânea que me motivou a
reunir estas notas. Não se trata de um estudo exaustivo, mas de um convite ao
leitor para caminhar por antigas veredas documentais e perceber que a História,
muitas vezes, encontra-se escondida em obras aparentemente modestas, esquecidas
pelo grande público, mas extraordinariamente generosas para quem delas se
aproxima com curiosidade.
UMA GEOGRAFIA VIVA, ONDE AS ÁGUAS
CONTAM A HISTÓRIA
A primeira informação que despertou minha atenção foi a respeito de um personagem hoje praticamente esquecido, embora tenha sido presidente da província do Rio Grande do Norte (governador) em duas oportunidades. Não se trata do conhecido Dr. Antônio José de Melo e Souza, o célebre Policarpo Feitosa, frequentemente lembrado quando se fala de figuras ilustres de Papary, mas do coronel Antonio Galdino da Cunha. Antonio Soares registra:
“Antonio Galdino da Cunha – Coronel da antiga
Guarda Nacional, natural do município de Papary e proprietário no município de
Goianinha, onde residia. Nomeado vice-presidente da província por Carta
Imperial de 4 de fevereiro de 1852, teve ocasião de assumir o governo do Rio
Grande do Norte por duas vezes: a primeira, durante vinte e quatro horas, de 16
para 17 de maio de 1861; a segunda, de 26 de maio de 1863 a 27 de junho do
mesmo ano, quando entregou a administração ao presidente Olintho Meyra. Faleceu
em Goianinha, a 6 de agosto de 1883.”
Também encontrei informação em outras fontes de que
que o coronel Antonio Galdino da Cunha,
era natural de Goianinha, figura que merece ser lembrada antes mesmo de nomes
muito mais conhecidos da historiografia potiguar. Era irmão do padre João
Jerônimo da Cunha, nascido a 12 de julho de 1813, provavelmente nascido em
Papary.
Esse pequeno verbete, aparentemente singelo,
lembra-nos como a história oficial costuma selecionar alguns nomes enquanto
deixa tantos outros à margem da memória coletiva. Quantos nisiaflorestenses
sabem hoje que um filho da antiga Papary chegou a governar a Província do Rio
Grande do Norte ainda no período imperial? São precisamente essas pequenas
descobertas que justificam o valor permanente de obras como a de Antonio
Soares. É algo a se investigar...
Mas é sobretudo quando trata da geografia que o
dicionário revela sua verdadeira riqueza. A leitura dos verbetes permite
perceber que Papary era, essencialmente, um território moldado pela água.
Lagoas, rios, riachos, enseadas e várzeas aparecem sucessivamente, compondo um
mosaico hidrográfico impressionante. Não por acaso, muitas dessas águas
continuam desempenhando papel fundamental no abastecimento e na identidade
paisagística do município. Antonio Soares menciona, por exemplo, a “Lagoa do Arroz”, topônimo hoje pouco
lembrado, embora certamente conhecido pelos moradores mais antigos. Da mesma
forma, registra um monte denominado “Banana”,
descrito simplesmente como “elevação à margem da lagoa Papary”. É facilmente
localizável quando se passa na estrada.
São referências aparentemente discretas, mas que
demonstram como o relevo também participava da construção da identidade local.
Em muitas ocasiões, pequenos acidentes geográficos acabavam fornecendo nomes às
propriedades, aos caminhos e até às famílias que ali se estabeleciam. Outro
registro curioso refere-se à antiga “Barra
de Estevão Ribeiro”, descrita da seguinte forma:
“Povoado, também conhecido pelo nome de Barra, no
município de Papary. É situado aproximadamente vinte quilômetros para leste da
sede municipal e tem uma população de cerca de cento e cinquenta habitantes.”
Hoje, quando percorremos a região, talvez não
imaginemos que esse pequeno núcleo populacional merecesse destaque num
dicionário estadual. Entretanto, o simples fato de Antonio Soares registrá-lo
demonstra sua importância regional no início do século XX. Aliás, um aspecto
chama continuamente a atenção ao longo da obra: a preocupação do autor em
registrar o número aproximado de habitantes de cada povoação. Esses dados,
embora estimativos, transformam-se atualmente em preciosa fonte para estudos
demográficos, permitindo reconstruir a distribuição populacional de Papary
antes mesmo da expansão urbana ocorrida nas décadas posteriores. As lagoas
aparecem quase como personagens. A “Boa
Água”, por exemplo, recebe uma descrição objetiva:
“Localizada no tabuleiro do mesmo nome, nove
quilômetros a nordeste da vila de Papary. Não é piscosa e conserva água ainda
mesmo no rigor do estio.”
Poucas linhas bastam para revelar muito. Quando
Antonio Soares afirma que determinada lagoa “não seca no verão”, fornece ao
pesquisador moderno uma informação ambiental extremamente valiosa. Trata-se de
um testemunho sobre o comportamento hídrico da região há quase um século. Em
tempos de intensas transformações ambientais, alterações climáticas e ocupação
crescente do território, observações dessa natureza passam a possuir um
significado que talvez o próprio autor jamais imaginasse. Mas nenhuma descrição
supera, em beleza, aquela dedicada à “Lagoa
do Bonfim.” Escreve Antonio Soares:
“Bonfim – Lagoa no município de Papary. É um bello
e pittoresco lago, de águas crystalinas, visitado frequentemente pelos
moradores dos logares visinhos e até mesmo por excursionistas que ahi encontram
excellente banho.”
É impossível
ler essas palavras sem imaginar a paisagem descrita pelo autor. Muito antes da preocupação
contemporânea com turismo ecológico, Antonio Soares já registrava que
excursionistas procuravam o Bonfim atraídos pela beleza natural do lugar. É uma
informação simples, mas extremamente significativa, pois demonstra que aquela
lagoa já era reconhecida como espaço de lazer e contemplação muito antes da
popularização do turismo moderno. Todavia, o aspecto mais fascinante do verbete
talvez esteja em sua observação linguística. Prossegue Antonio Soares:
“Teve outr'ora a denominação de Pochy, vocábulo
indígena, parece que alteração de pochii: feio, mau, ruim, sujo; ou, antes, de
hu-pochy: água suja – qualificativos que, entretanto, não se ajustam ao claro e
formoso lago.”
Aqui encontramos um detalhe extremamente
interessante. Ao tentar explicar a origem indígena do antigo nome da lagoa,
Antonio Soares distancia-se de interpretações posteriormente consagradas por
outros estudiosos. A grafia “Pochy”,
ou “Hu-Pochy”, difere
sensivelmente das formas registradas em outras obras ao longo do s´culo XX. Esse
fato abre uma instigante possibilidade de investigação. Sabe-se que muitos dos
significados indígenas utilizados pelos estudiosos potiguares chegaram até eles
por intermédio do grande engenheiro, geógrafo e filólogo Teodoro Sampaio, profundo
conhecedor das línguas tupi e autor de importantes estudos sobre a formação dos
topônimos brasileiros. Já Luís da
Câmara Cascudo, em diversas ocasiões, valeu-se dessas interpretações em
seus próprios trabalhos.
Entretanto, Antonio Soares escreve depois de Cascudo e apresenta explicação distinta. Isso não significa necessariamente que um estivesse errado e outro certo. Ao contrário, revela como a etimologia indígena frequentemente comporta diferentes hipóteses interpretativas, especialmente quando se trabalha com vocábulos recolhidos da tradição oral ou registrados em épocas distintas. A quaestão aqui é como ambos escreveram os vocábulos. São exatamente essas pequenas divergências que tornam apaixonante a pesquisa histórica. Muitas vezes, uma única palavra é capaz de abrir caminhos para investigações inteiras. Prosseguindo pela obra, encontramos outro curioso registro referente à região de “Boacica”. Antonio Soares descreve uma estrada nas proximidades da confluência de dois pequenos ribeiros, onde ocorre um fenômeno que ainda hoje desperta curiosidade:
“No logar da confluência observa-se um facto
curioso: ahi se distinguem perfeitamente as águas de um e outro dos ribeiros,
porque, a qualquer hora, uma é tépida e a outra é fria.”
Confesso que, ao reler esse trecho, imaginei
quantos moradores atuais conhecem essa singularidade. Seria ela ainda
observável? Ou teria desaparecido em razão das modificações ambientais
ocorridas ao longo das últimas décadas? São perguntas que apenas novas
pesquisas de campo poderão responder. E talvez aí resida uma das maiores
virtudes do velho dicionário de Antonio Soares: mais do que oferecer respostas,
ele continuamente desperta novas perguntas. As curiosidades reunidas por Antonio
Soares seguem encantando. Ao tratar da povoação de “Búzios”, por exemplo, registra:
“Povoação, à margem da enseada do mesmo nome, na
costa do município de Papary. Tem uma população de 200 habitantes, pequeno
porto do mar, e está situada vinte quilômetros ao norte da sede municipal.
Chamam-na também Porto de Búzios. Antes da conquista o porto era frequentado
por naus francesas, que ahi faziam carregamentos de páu-brasil.”
Poucas linhas bastam para nos transportar aos
primórdios da ocupação do litoral potiguar. Muito antes da colonização
portuguesa consolidar-se, embarcações francesas já frequentavam aquela costa,
atraídas pela exploração do pau-brasil, estabelecendo relações comerciais com
os povos indígenas. Não por acaso, a presença francesa deixou marcas profundas
em diversos pontos do litoral nordestino, constituindo um dos capítulos mais
interessantes da história colonial brasileira.
O verbete dedicado à “Cajarana” é breve, limitando-se a informar tratar-se de um sítio
localizado na costa sul do Estado, marcando um dos limites entre Arês e Papary,
também conhecido como “Ponta de
Cajarana”. A simplicidade da descrição não diminui seu valor documental,
pois evidencia como determinados acidentes geográficos serviam de referência
para a delimitação administrativa dos municípios. Outro registro
particularmente interessante refere-se ao “rio Cajupiranga”:
“Rio, nos limites do município de Natal com os de
São José de Mipibu e Papary. O Cajupiranga entra na lagoa do Jiqui, recebe pela
margem direita o seu afluente Pium e vai desembocar no oceano, entre as
povoações de Pirangi de Baixo e Pirangi de Cima. Nas proximidades de sua foz,
chamam-no também Pirangi.”
Essa observação permanece atual. Ainda hoje é comum
encontrar moradores que identificam o Cajupiranga simplesmente como “rio Pirangi”, demonstrando como a
tradição popular muitas vezes sobrevive às denominações oficiais. Antonio
Soares acrescenta uma observação etimológica igualmente preciosa:
“Cajupiranga é palavra indígena; de aca-yu, caju, e
piranga, vermelho: caju vermelho.”
É mais um exemplo da permanente presença da língua
tupi na formação da paisagem potiguar. Rios, lagoas, serras, praias e povoados
continuam guardando, em seus nomes, fragmentos da memória indígena que
resistiram à passagem dos séculos. Outro verbete digno de nota refere-se ao
então “Campo de Sant'Anna”,
atualmente mais conhecido por muitos como “Cururu”. Antonio Soares informa:
“Povoação, vinte quilômetros ao sul da vila de
Papary, a cujo território pertence. Tem população de cerca de setecentos
habitantes e é também conhecida pela antiga denominação de Cururú. Subdelegacia
de Polícia, creada em 1893. A capella de Campo de Sant'Anna é dedicada a São
Sebastião.”
Talvez esse seja um dos dados que mais surpreendem.
Uma população estimada em setecentos habitantes, no contexto das primeiras
décadas do século XX, representava um núcleo relativamente importante para os
padrões do interior potiguar. Mais significativo ainda é o registro da criação
de uma Subdelegacia de Polícia em 1893. Esse simples detalhe revela que Campo
de Sant'Anna exercia relevante função administrativa e possuía movimento
suficiente para justificar a presença permanente da autoridade policial. Já
andei escrevendo sobre Cururu neste blog e tenho a impressão de que, depois da
Villa de Papary, Cururu fosse aa maior
em população.
São informações que dificilmente aparecem nas
sínteses tradicionais da história regional. Também “Camurupim” comparece duas vezes na obra: como povoação e como rio.
O autor registra que a localidade era igualmente conhecida por “Barra de Camurupim”, acrescentando que
camurupim deriva do nome
indígena de um peixe bastante conhecido, também chamado “camboropi”. Mais uma vez, percebe-se
como a fauna serviu de inspiração para a formação dos topônimos litorâneos. Diante
desse dado é possível entender que, tendo Camurupim referenciada como “povoado”
àquela ocasião, hoje é o que chamamos de Praia de Camurupim, conforme se lê no
site da administração municipal. Embora não deixa de ser uma povoação e uma
praia, o IBGE usa a expressão técnica de “aglomerado rural ou povoado”.
Um dos verbetes mais ricos é, sem dúvida, o
referente ao “Vale do Capió”. Antonio
Soares descreve-o como um vale extenso e fértil, situado no baixo Trairi,
iniciando-se acima de São José de Mipibu e prolongando-se até a lagoa Papary.
Segundo ele, tratava-se de região extremamente favorável ao cultivo da
cana-de-açúcar, concentrando diversos engenhos, entre eles Capió, Belém, São
Luiz e Pavilhão. Chega mesmo a estimar uma produção anual de quarenta mil sacos
de açúcar bruto em anos de inverno regular. Mais do que um dado agrícola, esse
registro ajuda a compreender a importância econômica da região no contexto da
agroindústria açucareira potiguar, cuja influência marcou profundamente a
organização social, a ocupação do território e a formação de inúmeras famílias
tradicionais.
As lagoas continuam surgindo sucessivamente: “Caracará”, descrita como pouco
piscosa, mas permanente; “Carnahuba”,
que enchia apenas em anos de bom inverno; e “Escura”, apontada como nascente do rio Boacica. Essas observações,
aparentemente simples, constituem hoje um verdadeiro inventário ambiental do
município há quase um século. Em tempos de crescente preocupação com a
preservação dos recursos hídricos, documentos dessa natureza assumem valor
ainda maior, permitindo comparações entre a paisagem descrita em 1930 e aquela
que conhecemos atualmente. Outro aspecto curioso diz respeito às distâncias. Ao
longo de praticamente todos os verbetes, Antonio Soares informa quantos
quilômetros separavam cada povoação da sede da antiga vila de Papary.
Quando confrontamos essas medidas com os trajetos
atuais, percebemos que nem sempre coincidem. Evidentemente, não se trata de
erro do autor. O mais provável é que as antigas estradas seguissem percursos
bastante diferentes dos atuais. Ao longo do século XX, a abertura de novas
rodovias, o retificação de caminhos e a expansão urbana alteraram
significativamente a forma de percorrer o território. É um detalhe que passa
despercebido à primeira leitura, mas que oferece excelente material para
estudos sobre a evolução da malha viária do município. Também chama atenção a
constante preocupação do autor em registrar se determinada lagoa era ou não
piscosa, se permanecia cheia durante o verão ou se secava em anos de estiagem. Hoje
sabemos que tais informações representam muito mais do que simples
curiosidades. Constituem um importante retrato das condições ambientais do
início do século XX, podendo auxiliar pesquisadores interessados na evolução da
hidrografia regional.
Ao final dessa breve incursão pelo Diccionário
Histórico e Geographico do Rio Grande do Norte, fica uma certeza. Antonio
Soares não escreveu apenas um repertório de verbetes. Sem talvez imaginar,
legou um retrato extremamente fiel da antiga Papary, registrando rios, lagoas,
povoados, caminhos, atividades econômicas, tradições, etimologias e aspectos
ambientais que, em muitos casos, já desapareceram ou se transformaram
profundamente. É justamente aí que reside a grandeza das fontes históricas. Elas
não envelhecem. Envelhecemos nós, que frequentemente deixamos de consultá-las. Os
documentos permanecem silenciosos nas estantes, aguardando apenas que alguém
lhes devolva a palavra. E talvez seja essa a maior missão da pesquisa
histórica: permitir que o passado continue conversando com o presente. Quem
sabe, daqui a outros cem anos, algum pesquisador encontre este pequeno estudo,
sorria diante de nossas observações e, como aconteceu comigo diante das páginas
de Antonio Soares, descubra que a História nunca termina. Ela apenas muda de
interlocutores.
Mas... a propósito dessas “novidades”, Na
obra também conhecemos
uma passagem instigante e, embora não diz respeito à Nísia Floresta, mas à
Natal, somos informados sobre o “Morro do Estrondo”:
“Estrondo - Môrro, de grande elevação e situado ao S da cidade do Natal. A tradição
afirma que eram ouvidos, outr’ora, das visinhanças d’esse morro, longos
estrondos subterrâneos”.
Bem O que explicaria
esses estrondos? O barulho decorreria de algo sobrenatural ou abalo geológico? Pequenos
abalos sísmicos, relativamente comuns em algumas áreas do Nordeste? Simples
amplificações naturais produzidas pelo relevo? Ou apenas mais uma das tantas
tradições orais que povoam a imaginação popular? Já ouvi velhos nisiaflorestenses
dizendo que as franjas das dunas das praias locais, tocadas pelo vento veloz,
emitem “roncos”. Estaria explicado? Os
moradores da Vila de Ponta Negra contam que o Morro do Estrondo é o nome do
antigo “Morro do Careca”. Parece possível. Careca é um nome moderno, lembra uma cabeça careca. Mas nem sempre foi assim. Mas ouvi de um pescador da vila. Está revelado
o local, mas o mistério do estrondo - ou ronco - continuam... Pois é, uma boa
pesquisa hist´rica raramente termina quando se fecha um livro. Ao contrário, é
justamente nesse momento que costuma começar.
Fiquei curioso.... mas
o assunto aqui é Papary. Deixemos para Natal decifrar o estrondo, afinal. É assunto
que deverá interessar a muitos...




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