ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 2 de maio de 2026

HILTON ACIOLY: O HOMEM QUE ESCREVEU O "LULA, LÁ"...

Hilton Acioly: Fotografia de Carolina Garcia/IG.

Já ouviu falar em Hilton Acioly? O homem que escreveu o célebre jingle "Lula, lá"? Em Nísia Floresta, sua terra natal, poucos o conhecem, mas Hilton é um renomado, respeitado e reconhecido artista entre os mais célebres intelectuais da música. Ele integra o universo dos mais notáveis músicos brasileiros. Atualmente conta com 87 anos de idade. E como sempre digo: não ser conhecido em Nísia Floresta não significa que não seja no eixo-Rio/São Paulo, onde normalmente os grandes artistas são conhecidos por todos. 

Mas a família de Hilton Acioly evaporou como água em deserto quente? Claro que não. Ele tem parentes em Nísia Floresta: são os professores Cláudio Acioly, Ricardo Acioly e Nilma Acioly.

A trajetória de Hilton Acioly revela a formação de um artista singular, cuja obra transita entre a música popular, a experimentação estética e a comunicação de massa. Nascido em 4 de outubro de 1939, no povoado de Cururu, em Nísia Floresta (RN), cresceu cercado por uma paisagem natural que estimulava a imaginação. Ainda na infância, começou a transformar ideias em versos e melodias, demonstrando uma inclinação precoce para a criação musical, característica que, mais tarde, se consolidaria como sua maior virtude: a capacidade de sintetizar emoções complexas em formas simples e memoráveis.

Desde muito jovem, revelou inquietação e desejo de expandir horizontes. Ainda adolescente, passou a se deslocar com frequência até Natal, onde buscava contato com outros músicos. Foi nesse ambiente que conheceu Marconi Campos e Behring Leiros, com quem fundou, em 1954, o Trio Marayá. O grupo rapidamente conquistou espaço, tornando-se presença constante em rádios, palcos e programas de televisão, especialmente no eixo Rio-São Paulo.

No Trio Marayá, Hilton destacou-se como músico versátil, arranjador e compositor. A intensa vivência artística proporcionou-lhe domínio sobre o gosto popular e sobre os mecanismos de comunicação de massa, elementos decisivos para sua atuação futura. O grupo alcançou reconhecimento nacional e internacional, participando de festivais, gravando discos e convivendo com grandes nomes da música brasileira, como Geraldo Vandré, com quem Hilton viria a estabelecer parcerias em composições de cunho mais engajado.

A experiência acumulada nas décadas de 1950 e 1960 foi essencial para moldar sua compreensão estética: música não era apenas expressão artística, mas também linguagem capaz de mobilizar multidões. Com o endurecimento do regime militar, sobretudo após o AI-5, os espaços tradicionais da música foram sendo reduzidos, e muitos artistas migraram para novas formas de atuação. Foi nesse contexto que Hilton Acioly passou a investir na criação de jingles e trilhas sonoras, área em que alcançaria consagração.

O ponto culminante dessa trajetória ocorreu em 1989, quando recebeu o desafio de compor uma música para a campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. A tarefa era complexa: transformar a imagem de um líder sindical - até então identificado como “metalúrgico do ABC” - em um símbolo nacional de esperança. Com base apenas no slogan “Lula lá”, Hilton iniciou o processo criativo.

Inicialmente, apresentou uma versão que, embora bem recebida, não o satisfez plenamente. Percebendo que faltava um elemento essencial, decidiu refazer a composição. Foi então que, inspirado pela ideia de um “Brasil criança” e pelo clima de expectativa vivido naquele momento histórico, construiu a versão definitiva do jingle. O resultado foi uma obra de extraordinária força comunicativa: simples, envolvente e profundamente emocional.

A canção “Lula lá” ultrapassou os limites da propaganda política. Tornou-se um verdadeiro hino popular, acompanhando a trajetória do candidato por mais de uma década, até sua eleição em 2002. Sua eficácia residia justamente naquilo que define um grande jingle: repetição marcante, mensagem direta e forte identificação coletiva. Hilton conseguiu, com poucos versos, conferir ao candidato uma dimensão simbólica, aproximando-o de figuras consagradas da cultura brasileira, como Pixinguinha, Ari Barroso e Tom Jobim.

O impacto da música foi imediato. Artistas consagrados como Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil engajaram-se na campanha, e o jingle passou a ecoar em todo o país. Mesmo com a derrota eleitoral naquele ano, a composição permaneceu viva na memória coletiva, sendo reutilizada e reinterpretada em campanhas posteriores.

Curiosamente, Hilton Acioly sempre defendeu uma abordagem estética para os jingles, rejeitando fórmulas puramente mecânicas. Para ele, a repetição de números ou slogans vazios empobrece a comunicação. Em sua visão, o jingle deve preservar qualidade musical e força poética, funcionando como uma ponte entre arte e mensagem. Essa concepção explica por que “Lula lá” não menciona diretamente o partido político: a referência simbólica - a “estrela” - já era suficiente para estabelecer a identidade.

Além desse marco, Hilton produziu diversas composições e trabalhou intensamente na área publicitária, consolidando-se como uma das principais referências brasileiras em jingles. Paralelamente, atuou como professor e manteve atividade criativa constante, demonstrando longevidade artística. Sua formação acadêmica em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) também contribuiu para ampliar sua visão de mundo, refletindo-se na sensibilidade de suas obras.

Apesar de sua relevância, Hilton Acioly permanece relativamente pouco conhecido em sua terra natal, o que evidencia um paradoxo: um criador de impacto nacional, responsável por uma das músicas mais emblemáticas da política brasileira, mas que manteve ao longo da vida uma postura discreta, distante da autopromoção.

Em síntese, sua trajetória revela um artista que soube evoluir com o tempo sem perder a essência. Da infância em Cururu aos palcos internacionais, e destes ao universo da comunicação de massa, Hilton Acioly transformou a música em instrumento de conexão coletiva. Ao dominar a arte de dizer muito com pouco, elevou o jingle a um patamar de relevância cultural, deixando uma marca profunda e duradoura na história da música e da comunicação no Brasil. Veja, a seguir, o mais famoso e eterno jingle feito para a campanha de Lula...

LULA, LÁ (1989), POR HILTON ACIOLY

Passa o tempo e tanta gente a trabalhar
De repente, essa clareza pra votar
Quem sempre foi sincero em confiar
Sem medo de ser feliz, quero ver chegar

Lula-lá Campanha 1989

Lula lá, brilha uma estrela
Lula lá, cresce a esperança
Lula lá, o Brasil criança
Na alegria de se abraçar

Lula lá, com sinceridade
Lula lá, com toda a certeza pra você
Meu primeiro voto
Pra fazer brilhar nossa estrela

Lula lá, é a gente junto
Lula lá, valeu a espera
Lula lá, meu primeiro voto
Pra fazer brilhar nossa estrela

quarta-feira, 29 de abril de 2026

NÍSIA FLORESTA: ANOTAÇÕES, BASTIDORES E MEMÓRIAS HISTÓRICAS...

Nísia Floresta Brasileira Augusta

 

Nísia Floresta Brasileira Augusta, nascida Dionísia Gonçalves Pinto em 12 de outubro de 1810, na então povoação de Papari (atual Nísia Floresta), permanece como uma das figuras mais complexas e multifacetadas da história cultural brasileira. Sua vida, profundamente entrelaçada com o Brasil e a Europa, revela não apenas uma escritora, mas uma mulher que atravessou fronteiras sociais, intelectuais e geogr´ficas em pleno século XIX.

Nilo Pereira escreveu que, no Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, do qual fazia parte, Gilberto Freyre destacou a necessidade urgente de publicação das cartas de Nísia, guardadas na Casa de Auguste Comte, em Paris. Trata-se de um acervo de enorme valor, ainda hoje insuficientemente explorado, que pode revelar aspectos diretos do pensamento da autora, suas relações intelectuais na Europa e possíveis diálogos com o positivismo nascente. A ausência de uma edição crítica dessas correspondências constitui uma das maiores lacunas nos estudos nisianos, frequentemente apontada por pesquisadores dedicados à sua obra.

…….

Por ocasião da chegada dos despojos de Nísia ao Recife, enfrentando entraves burocráticos, Nilo Pereira, então ligado ao Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, recorreu diretamente ao presidente Café Filho, potiguar como a escritora. A resposta foi imediata: autorizou-se a liberação do corpo e determinou-se seu transporte oficial por uma corveta da Marinha de Guerra até Natal. Esse gesto evidencia o caráter político e simbólico do retorno, transformando o traslado em um verdadeiro ato de Estado.

No Recife, o corpo foi recebido com solenidade e intensa curiosidade pública. Sob a influência intelectual de Gilberto Freyre, o Instituto Joaquim Nabuco prestou-lhe homenagem, incluindo seu retrato na galeria de vultos nacionais, um reconhecimento tardio, mas significativo, da dimensão de sua obra.

……..

A lei que autorizou a repatriação foi de autoria do senador Luís Lopes Varela, inserindo o episódio no campo das políticas de memória. Em Natal, a recepção contou com autoridades dos três poderes, além de forte participação estudantil, com destaque para a Escola Doméstica, instituição fundada sob inspiração de Henrique Castriciano, que via em Nísia uma precursora da educação feminina no Brasil.

................

Durante a permanência da urna na capital, a professora Chicuta Nolasco Fernandes organizou uma guarda de honra composta por alunas, num gesto pedagógico e simbólico que reafirmava o papel da mulher na construção da memória histórica.

……..

O mausoléu onde Nísia repousa desde 1955 foi erguido por iniciativa de Manuel Rodrigues de Melo, presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Figura marcada por disciplina e obstinação, Melo assumiu a tarefa como missão pessoal, consolidando fisicamente a presença de Nísia no território potiguar.

……..

A transformação de Papari em Nísia Floresta decorreu de projeto do deputado Arnaldo Barbalho Simonetti, com apoio de Creso Bezerra de Melo. Essa mudança ultrapassa o aspecto administrativo, representando a incorporação da escritora à identidade geográfica e cultural do estado.

……..

O relato de Nilo Pereira sobre a abertura do ataúde permanece um dos episódios mais impressionantes da historiografia brasileira. Ao lado de Paulo Pinheiro de Viveiros e com auxílio de Nestor Lima, abriu-se o caixão duplo - um de zinco e outro de ébano. A descrição do corpo, ainda conservado, com longos cabelos e fisionomia visível, provocou forte impacto emocional. O ambiente, carregado de silêncio e curiosidade, assumiu contornos quase literários, evocando atmosferas sombrias que nos remetem a O Corvo.

O episódio também evidencia a dimensão simbólica atribuída ao corpo de Nísia: não apenas restos mortais, mas um relicário histórico que despertava fascínio coletivo.

…….

Nilo Pereira observou que Nísia jamais foi uma cristã submissa às determinações papais. Posicionou-se contra a infalibilidade pontifícia, o poder temporal da Igreja e o Syllabus de Pio IX. Essa postura revela uma religiosidade crítica, afinada com correntes liberais e com o pensamento moderno europeu, que ela conheceu de perto durante sua permanência no continente.

…….

O contexto político do Rio Grande do Norte, destacado por Juvenal Lamartine de Faria, que instituiu o voto feminino em 1927, encontra raízes culturais no pensamento de Nísia, que já defendia, no século XIX, a educação da mulher como base de sua emancipação social e pol´tica.

…….

A formação familiar de Nísia revela uma origem inserida na elite agrária. Seu pai, Dionísio Gonçalves Pinto, homem culto e de espírito independente, recusou a vida comercial para dedicar-se ao campo e à formação intelectual da filha. Educou-a diretamente, proporcionando-lhe acesso a línguas, literatura e filosofia, algo raríssimo para mulheres da época.

Sua mãe, Antônia Clara Freire, descendia da influente família Freire do Revorêdo, proprietária de vastas terras na região de Papary e Goianinha. O sítio Floresta, que daria nome à escritora, integrava esse patrimônio, com registros documentais que remontam a petições de posse do início do século XIX.

…….

O ambiente familiar incluía ainda figuras como Diogo Freire do Revorêdo, bisavô materno, atuante em Vila Flor no século XVIII, e Bento Freire do Revorêdo, grande proprietário de terras no vale do Rio Jacu, cuja influência política e econômica marcou a região. Essa base aristocrática contrasta com a postura crítica de Nísia em relação ao patriarcalismo.

……..

Nísia casou-se aos 14 anos com Manuel Alexandre Seabra de Melo, união breve e logo desfeita. Posteriormente, estabeleceu relação com Manuel Augusto de Faria Rocha, bacharel em Direito formado em Olinda em 1832, ambiente intelectual onde circulavam ideias liberais e reformistas.

…….

Sua trajetória internacional é notável: em 1849, partiu para Paris com os filhos, permanecendo até 1852. Retornou ao Brasil, mas voltou à Europa em 1856, vivendo cerca de 16 anos entre França, Alemanha e outros centros culturais. Em 1872, regressou ao Brasil por breve período e, em 1875, retornou definitivamente à França, onde viveu até sua morte em 1885, na cidade de Rouen.

Durante esse período, publicou obras em francês, manteve relações com intelectuais europeus, como George Duvernoy, e consolidou uma carreira transnacional incomum para uma mulher brasileira do século XIX.

…….

Sua filha, Lívia Augusta Gade, permaneceu na Europa, casando-se na Alemanha e enviuvando poucos meses depois, sem retornar ao Brasil, o que contribuiu para o distanciamento físico da família em relação ao país de origem.

…….

Henrique Castriciano teve papel decisivo na redescoberta de Nísia. Viajou à Europa, reuniu documentos junto à filha da escritora, adquiriu fotografias e obras, e reconheceu precocemente o valor literário e histórico de sua produção, incentivando estudos posteriores.

…….

Gilberto Freyre destacou que mulheres como Nísia eram exceções em uma sociedade patriarcal rígida, onde até as elites femininas tinham acesso limitado à educação formal. Sua existência intelectual causava estranhamento e admiração.

…….

Quando Nísia faleceu, em 1885, seu filho dirigia o Colégio Augusto, no Engenho Novo, no Rio de Janeiro, instituição respeitada que teve entre seus alunos Washington Luís.

Já em vida, Nísia alcançou reconhecimento internacional: em 1872, o jornal “O Novo Mundo”, de Nova York, publicou sua fotografia e dados biográficos, algo raríssimo para brasileiros naquele período.

…….

Oliveira Lima afirmou que Nísia foi a mais notável mulher de letras do Brasil, destacando sua amplitude intelectual e elegância estilística.

Dioclécio Dantas Duarte observou que foi necessário quase um século para que sua importância fosse plenamente reconhecida, evidenciando o atraso histórico no reconhecimento de mulheres intelectuais.

…….

A trajetória de Nísia Floresta revela, assim, uma figura que ultrapassa classificações simples: filha da elite agrária, educada de forma excepcional, escritora precoce, viajante internacional, crítica da religião institucional, defensora da educação feminina e símbolo tardio da memória nacional. Sua vida continua a ser desvelada por meio de documentos, relatos e pesquisas que, pouco a pouco, ampliam a compreensão de sua verdadeira dimensão histórica.

OBS. As informações acima são parte de anotações antigas, mas que só as digitei em 2004 e ora as publico como curiosidade, embora creio que quase todas essas informmações estão dispostas em vários textos publicados neste mesmo blog.Para não correr o risco de perder algo que ainda não publiquei, ei-las todas...


terça-feira, 28 de abril de 2026

NÍSIA FLORESTA: ENTRE O PRESTÍGIO EUROPEU E A FIDELIDADE ÀS IDEIAS ACIMA DE QUALQUER CONSAGRAÇÃO...


Quando o livro de Nísia Floresta Conselhos a Minha Filha ganhou forma em língua italiana, ecoando entre círculos religiosos de Mondovì, não tardou para que despertasse o interesse das mais altas autoridades católicas. Tratava-se de um livro de orientação moral - gênero amplamente difundido no século XIX em diversos países, inclusive no Brasil -, mas com um traço singular: não nascera da pena de um padre ou de uma freira, e sim da reflexão de uma viúva brasileira, a notável Nísia Floresta Brasileira Augusta. Esse fato, por si só, conferia à obra uma força incomum, quase insubmissa, ao mesmo tempo em que a tornava ainda mais digna de atenção.

Nísia Floresta Brasileira Augusta

O convite que lhe foi dirigido pelo bispo de Mondovi era honroso: autorizar a adoção do livro em escolas católicas de Mondovì e de outras cidades italianas. Contudo, trazia consigo uma exigência sutil e delicada: a supressão de um trecho específico. Nele, para ilustrar a grandeza do amor filial, a autora evocava uma narrativa da tradição romana, registrada por Valerius Maximus: a história de Pero e Cimon, conhecida como Caridade Romana. Condenado a morrer de fome na prisão, o velho pai é secretamente alimentado pela própria filha, que, transpondo as grades da cela, oferece-lhe o leite do próprio corpo. O gesto, ao mesmo tempo comovente e perturbador, sintetiza o extremo da piedade filial, amor levado ao limite do sacrifício, virtude elevada à fronteira do indizível.

Essa cena, carregada de tensão moral e intensidade simbólica, atravessou séculos e encontrou na pintura barroca uma de suas expressões mais eloquentes. Recordo-me de tê-la estudado na universidade, obviamente em outro contexto, mas vale um aparte: entre os artistas que a eternizaram, destaca-se o italiano Bernardino Mei, cuja tela sobre o tema captura, com vigor dramático, o contraste entre a fragilidade da velhice e a firmeza do gesto filial, entre a sombra da prisão e a luz do sacrifício. Sua interpretação não apenas ilustra a narrativa, mas a amplifica, transformando-a em uma meditação visual sobre os limites do amor humano.

Foi precisamente essa força - simultaneamente moral e inquietante - que levou à objeção: para que o livro pudesse adentrar os espaços formais da educação católica, seria necessário atenuar o impacto dessa imagem, muito embora o livro não continha ilustração - o que teria sido pior - mas a narração certamente preocupou o bispo. Creio que ele se preocupou com a possibilidade da divagação da ideia de incesto. Na verdade suponho que não foi dito isso com essas palavras, mas é óbvio. Todas as imagens dessa pintura são chocantes à primeira vista para quem não estudou a obra: um velho sugando o seio de uma jovem, estando ela com um bebê no colo. A imagem faz a imaginação secular viajar na maionese... Para o leitor ter noção, há sites que trazem a pintura com alerta de conteúdo. Porém, ao excluir o trecho solicitado pelo bispo, Nísia corria o risco de apagar um dos exemplos mais radicais e eloquentes de devoção filial já registrados. E assim, entre a aceitação institucional e a integridade do pensamento, permanecia suspensa uma questão essencial: até que ponto se pode suavizar a verdade de um sentimento sem empobrecer a sua grandeza?

Alguns sites trazem a pintura protegida para não chocar quem desconhece História da Arte.

Há, porém, um elemento ainda mais profundo que atravessa essa escolha. Quase toda a obra de Nísia Floresta Brasileira Augusta traz, em filigranas discretas, ecos de sua própria vida, sinais sutis de uma sensibilldade profundamente humana. Seus escritos deixam entrever o amor sem medida que nutria por seus pais, tantas vezes por ela evocados, bem como o afeto dedicado aos irmãos e aos filhos. Nesse horizonte íntimo, não é difícil compreender por que a narrativa da Caridade Romana lhe tocava de maneira tão intensa: ao evocar Pero e Cimon, ela não apenas citava umexemplo clássico de virtude, mas reconhecia, nele, uma expressão extrema de sentimentos que lhe eram caros e verdadeiros, ou seja, Nísia faria o mesmo por seu amado pai.


Quando o bispo de Mondovi lhe apresentou a objeção, esperando talvez uma concessão em nome de um bem maior - a ampla difusão de sua obra, o prestígio de vê-la adotada em inúmeras escolas italianas, sem ônus algum - a resposta foi firme e reveladora. Nísia Floresta Brasileira Augusta foi enfática: se o livro fosse adotado, seria exatamente como fora escrito, sem a exclusão de uma vírgula. E assim aconteceu, o livro foi aceito em sua integridade.


Nesse gesto, mais do que uma recusa, delineia-se um traço essencial de sua personalidade. Diante de uma oportunidade rara de projeção e reconhecimento internacional, ela não cedeu à tentação da fama fácil nem ao prestígio institucional. Preferiu resguardar a inteireza de suas ideias, a coerência de seu pensamento, a fidelidade àquilo que julgava verdadeiro. E, ao fazê-lo, revelou que, para ela, a grandeza de uma obra não reside em sua difusão, mas na honestidade com que sustenta, sem concessões, aquilo que tem a dizer. Tão interessante também é a decisão do bispo, que recuou, deixando claro que em sua obra Nísia Floresta transmitia com perfeição o que a Igreja Cat´lica queria transmitir. Tanto é que precisaram engolir um possível escÇândalo.

“O que você sabe que a maioria das pessoas não sabe?”

Enfim, ao dar uma busca em imagens que retratam narrativa da tradição romana, registrada por Valerius Maximus: a história de Pero e Cimon, conhecida como Caridade Romana, encontrei esse site estrangeiro, além de imagens protegidas. Nesse temos a curiosa frase: "O que você sabe que a maioria das pessoas não sabe?" E o assunto era exatamente sobre o impacto instantâneo que essa imagem pode gerar para quem não sabe do que se trata. Nísia Floresta era, de fato, visionária, pois, ontem foi a Igreja Católica que - assustada - tentou censurar, e hoje é o próprio mecanismo da internet. Nísia, com certeza foi quem se assustou, mas com a visão do bispoo, o qual conhecia a história, e mesmo assim quis censurá-la. Eu havia rascunhado este texto há uns cinco anos. Hoje, olhando algumas pastas, o encontrei e resolvi organizá-lo para publicar. Não sei o que vai acontecer. Talvez a imagem poderá ser censurada. Não sei. Pode ser. Pode não ser...

sexta-feira, 24 de abril de 2026

.

 .

QUANDO A MEMÓRIA SE REVELA EM IMAGENS: UMA FOTOGRAFIA DENTRO DA HISTÓRIA...


Hoje, 24 de abril, tendo ido prestigiar o II Movimento Pró-Memória Nísia Floresta - mesmo com ameaça de chuva - realizado em homenagem ao aniversário de morte dessa notável figura da cultura brasileira, vivi, à parte da programação, um encontro especial com a história. A programação previa um evento de maior amplitude, reunindo expressiva participação pública; contudo, uma chuva torrencial impôs a necessária adaptação das atividades, que foram reduzidas a uma breve, porém simbólica, solenidade às 18h00. Mas, particularmente, participei de outra solenidade na antiga casa vizinha, quando fui convidado para conhecer dois fatos muito interessantes...

A cerimônia ocorreu no Conjunto Histórico Nísia Floresta, espaço que abriga o monumento erguido em sua memória e o mausoléu onde repousam seus restos mortais, um lugar de profunda significação histórica e identitária para o Rio Grande do Norte. Ainda que mais concisa do que o planejado, a solenidade manteve sua densidade simbólica, reafirmando o compromisso com a preservação da memória de Nísia.

Foi nesse cenário, marcado pela persistência da memória mesmo sob a intempérie, que vivi um reencontro especial: revi Simone, minha ex-aluna, que, supondo que eu estaria no evento, me aguardava com entusiasmo para compartilhar uma curiosidade. Tratava-se de uma fotografia sua, ainda na infância, um registro singelo, mas carregado de afetividade e história pessoal. Ela, muito criança ao lado de uma amiguinha visitando o túmulo de Nísia Floresta. Perguntei quem era e me surpreendi. A menina vive no mundo, cantando... Encantei-me com a imagem e, movido por esse encantamento, fiz questão de fotografar a fotografia, preservando aquele instante em um novo registro, como que ampliando as camadas de memória que ali se entrelaçam.


Assim, entre a chuva que encurtou o evento e os encontros que o enriqueceram, a experiência de hoje reafirma que a memória - tal qual a obra de Nísia Floresta - resiste, atravessa o tempo e se reinventa nos gestos mais simples.

Brevemente escreverei sobre essa fotografia, descrevendo-a e revelando quem é a cantora 😂... Também descobri outro fato muito interessante com relação ao túmulo e que logo vai ao ar neste blog 😂😂...

NÍSIA MERECE...


Na manhã desta sexta-feira, 24 de abril de 2026, o dia amanheceu sob o peso das águas. A chuva, insistente e desmedida, parecia querer impor silêncio àquilo que, por natureza, nasceu para ser voz: a memória de Nísia Floresta Brasileira Augusta. Foi nesse cenário que recebi a ligação do secretário municipal de Cultura de Nísia Floresta, o professor Jorge Januário de Carvalho. Do outro lado da linha, a frase veio carregada de desalento: “Nísia Floresta está debaixo d’água”.


Respondi-lhe, numa tentativa de dividir o peso daquele instante: “Natal também está debaixo d’água”.

Para quem, há três meses, vinha se dedicando à construção de um grande evento - estruturado em quatro momentos distintos, cuidadosamente pensados e com tudo primorosamente pronto -, aquela constatação foi como água lançada sobre o fogo da expectativa. Restava-nos, então, o exercício difícil da lucidez: conversar, ponderar, buscar saídas. Mas não havia muitas. Ou se adiava - esvaziando o sentido simbólico da data -, ou se cancelava. E, privados nós de qualquer poder sobre as forças da natureza, restou-nos reconhecer a limitação humana diante do tempo e do céu.

Ainda assim, uma decisão aflorou, simples e firme: dentre os quatro momentos idealizados, ao menos um deveria resistir. “Vamos todos de guarda-chuva. Vá quem puder.” Era pouco, diante do projeto original, mas era tudo, diante das circunstâncias. Pessoas "loucas" são assim...

Após essa conversa, liguei para o dr. Iaperi Araújo - um dos intelectuais mais entusiasmados com esse evento, autor de mais de 70 livros, membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e profundo conhecedor da história potiguar. Disse-lhe, com franqueza: “Dr. Iaperi, mesmo com essas intempéries, cumpro convidá-lo a se arriscar conosco - eu, Jorge Januário, o prefeito e mais meia dúzia de teimosos ou loucos, de guarda-chuva, pisando em lama, rumo ao Conjunto Histórico no Sítio Floresta, pois, para onde se olha há sinais de chuva. Em Natal os postes estão acesos.”.

A resposta veio com a dignidade de quem deseja, mas conhece seus limites: a vontade era imensa, mas a idade não lhe permitia tal aventura. Compreendi, agradeci - e segui. Saí de Natal ainda sob chuva torrencial. Nísia merece esse presente. No trajeto, ao me aproximar de São José de Mipibu, a chuva cessou, mas o céu permanecia num azul escuro, carregado, como se a qualquer momento o céu despencasse. Era um intervalo, não uma trégua.

Ao chegar à Secretaria de Cultura, encontrei Jorge Januário sentado num ambiente de penumbra, na varanda, sozinho. Ouvi quando ele disse com sua voz potente, aparentemente feliz, mas não escondia um tom diferente. Sua fisionomia era a mesma de Lívia Augusta quando velou o corpo da mãe em Rouen, praticamente solitária. Havia tristeza, cansaço e, sobretudo, frustração. Jorge se aproxima dos 80 anos de idade. Soube que ele havia atravessado a madrugada ao lado de sua pequena equipe, cuidando de cada detalhe da ornamentação, ajustando os últimos elementos de uma programação impecável, primorosa que, horas depois, se desfazia diante da chuva. Jorge é desses raros homens cujo toque transforma - há nele um zelo de ourives, um compromisso com a beleza e com o rigor que poucos conseguem sustentar. Mas isso é Jorge...

Confesso: eu também estava profundamente abatido. Engoli um tijolo, emocionado.

Pouco depois, chegou o chefe de gabinete dele - um jovem, visivelmente emocionado, que dedicou três meses àquele evento que a chuva levou. Seus olhos denunciavam o que a voz tentou conter. Ao me cumprimentar, as lágrimas vieram. Evitei prolongar o momento e sugeri, com suavidade, que nos dirigíssemos ao Sítio Floresta. Ainda era cedo, por volta das 15h40. O tempo avançou lentamente até as proximidades das 18h00, quando, já de volta à Secretaria, recebemos uma ligação inesperada: membros do gabinete da governadora haviam chegado, e Fátima Bezerra estava a caminho. A surpresa foi geral, afinal, todas as autoridades haviam sido previamente comunicadas sobre o cancelamento da programação. Diante disso, retornamos ao Conjunto Histórico. E ali, como que no milagre de Fátima, de forma quase silenciosa e improvável, tudo começou a se recompor.

O público, evidentemente, não correspondia à grandiosidade originalmente planejada - que envolveria escolas, instituições culturais e grande participação popular -, mas havia ali algo talvez ainda mais significativo: presença com sentido. Pessoas que, mesmo sob a ameaça constante da chuva e diante da lama que marcava o chão, decidiram estar. Houve discursos breves, objetivos. Houve o descerramento da placa, gesto simbólico que justificava, por si só, a insistência em manter aquele momento. Houve música, emoção e, sobretudo, dignidade. No conjunto reinaugurado, onde se erguem o monumento de 1909 e o mausoléu que acolhe os restos mortais de Nísia, trasladados da França em 1955, a história foi novamente convocada. E atendeu.

Ao final, mesmo sendo apenas um recorte do que se sonhara, foi belo. Intensamente belo. Porque, por vezes, a grandeza não está na quantidade, mas na resistência. Creio, sinceramente, que Nísia tenha se alegrado. Como que em perfeita sintonia com o espírito daquele dia, recebi ainda pela manhã um Registro Comemorativo e esse retrato de Nísia (publicado abaixo) do Dr. Iaperi Araújo, alusivo à data, a ser publicado pela Academia de Letras. Nele, já estava contido tudo o que viríamos a viver: a chuva, a vigília, a permanência.

E assim, entre nuvens carregadas e gestos firmes, compreendemos que há memórias que não se deixam dissolver, nem mesmo sob o desabar das mais intensas tempestades...


Hoje 24 de abril completamos 141 anos da morte em Rouen na França da nossa mais ilustre escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta nascida em Papary que leva seu nome em 12 de outubro de 1810. Hoje a comunidade pelo seu prefeito inaugurar ia um monumento diante do túmulo da escritora com uma grande solenidade que a chuva não permitiu. Foi adiado, provavelmente para 12 de outubro próximo. Glórias a nossa mais ilustre intelectual, feminista, anti-escravagista, poeta, defensora dos povos originários e ensaísta.

Iaperi Araújo

II MOVIMENTO PRÓ-MEMÓRIA - DESCERRAMENTO DA PLACA DE REINAUGURAÇÃO DO MAUSOLÉU E MONUMENTO DE NÍSIA FLORESTA RESTAURADOS...


SOB O CÉU EM VIGÍLIA: MEMÓRIA, CHUVA E PERMANÊNCIA EM NÍSIA FLORESTA...

Nesta noite desta sexta-feira, 24 de abril de 2026, o município de Nísia Floresta foi palco de um acontecimento de profunda densidade histórica, simbólica e afetiva: a realização do II Movimento Pró-Memória Nísia Floresta, solenidade idealizada para assinalar os 141 anos do falecimento de Nísia Floresta Brasileira Augusta, uma das mais notáveis pensadoras do Brasil oitocentista, falecida em 1885, em Rouen, França.

O dia, porém, amanheceu sob o signo das águas. Chuvas torrenciais e persistentes desabaram copiosamente, tornando alguns pontos do centro da cidade de Nísia Floresta e a estrada de acesso ao Sítio Floresta, um verdadeiro mar desde as primeirashoras da manhã, impondo uma reconfiguração inevitável da programação previamente concebida.

Estavam previstas participações de instituições de elevado prestígio intelectual e cultural, como a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, a Academia de Letras e Artes de Parnamirim, além do Coral da SEMUC de Parnamirim e da Banda da Polícia Militar de Natal, nos moldes do I Movimento Pró-Memória, ocorrido no dia 12 de outubro de 1989. Também figurava na programação a outorga de medalhas por parte da Câmara Municipal de Nísia Floresta a diversos estudiosos e agentes culturais, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à preservação e difusão da memória nisiaflorestense.


Porém, diante da força da natureza, esses momentos precisaram ser cancelados, pois todos eles aconteceriam em espaço aberto. Ainda assim, o cerne da celebração não se dissipou. Ao contrário, concentrou-se com vigor e sentido na reinauguração do Conjunto Histórico Nísia Floresta, realizada pontualmente às 18h00. Ali, entre nuvens densas e o solo enlameado, reuniu-se um público pequeno, mas resiliente, composto por autoridades e munícipes, que, desafiando as intempéries, fez questão de testemunhar aquele instante de reconexão com a história.

O espaço reinaugurado, carregado de reverência cívica, abriga o Monumento em homenagem à filósofa - erguido em 1909 por ocasião do centenário de seu nascimento, ainda que sob imprecisão cronológica, visto que Nísia Floresta Brasileira Augusta nasceu em 1810 - e o seu Mausoléu, edificado em 1955, quando seus restos mortais foram trasladados da França para o solo potiguar nove meses antes de ali ser depositado.
Governadora Fátima Bezerra 

A escolha da data para o descerramento da nova placa comemorativa da restauração não poderia ser mais emblemática: tratava-se de restituir à memória o seu tempo exato, reconciliando história e homenagem, portanto a equipe organizadora decidiu que com chuva torrencial ou não, esse único momento não seria cancelado.

A solenidade contou com a presença de importantes autoridades, entre as quais a governadora do Estado, Fátima Bezerra; o prefeito municipal, Gustavo Santos; a vice-prefeita Maxsa Valéria Mesquita; o secretário municipal de Cultura; o presidente da Fundação José Augusto, Gilson Matias; o presidente da Capitania das Artes, Dácio Galvão; além de demais autoridades locais e representantes da sociedade civil. A presença dessas lideranças reafirmou o compromisso institucional com a preservação do patrimônio histórico e com a valorização da cultura potiguar.

Prefeito Gustavo Santos, tendo à sua esquerda a vice prefeita Maxsa e o secretário de Cultura, Jorge Januário. Á direita, a governadora Fátima e o Presidente da Câmara, Luiz de Castro

A Banda Anastácio Marques, sob a regência do Maestro Almeida, abrilahntou o evento, cuja execução musical conferiu à ocasião uma atmosfera de solenidade e lirismo, como se cada acorde dialogasse com o espírito inquieto e visionário de Nísia, inclusive executaram lindamente o Hino à Nísia Floresta, composto em 1909.

Em primeiro plano, Gilson Matias, presidente da Fundação José Augusto, um dos assessores de Fátima e Dácio Galvão, presidente da Capitania das Artes.

A abertura dos pronunciamentos coube a mim, Luís Carlos Freire. Em fala breve, evoquei as múltiplas frentes de atuação da homenageada: abolicionista, republicana, indianista e pioneira da educação feminina, destaquei sua coragem intelectual e sua postura de vanguarda em um século marcado por profundas desigualdades. Estabeleci paralelos entre a trajetória de Nísia e a da governadora Fátima Bezerra, reconhecendo, nesta, traços de resistência, abnegação e audácia, o compromisso social e afirmação feminina.

Na sequência, a vice-prefeita Maxsa Valéria Mesquita ressaltou, com emoção o papel fundacional de Nísia Floresta na luta pelo acesso das mulheres à educação. Reconheceu que a presença feminina nos espaços de poder contemporâneos não é fruto do acaso, mas de uma longa trajetória iniciada por vozes pioneiras como a de Nísia.
Jorge Januário de Carvalho, Fátima Bezerra, Gustavo Santos e Maxsa. à esquerda de Jorge, um dos assessores da governadora.

O prefeito Gustavo Santos, por sua vez, enfatizou o legado duradouro da homenageada, dirigindo palavras de apreço às mulheres presentes e reiterando o compromisso de sua gestão com a preservação e revitalização do patrimônio histórico do município. Destacou que a restauração do conjunto ora reinaugurado representava não apenas uma ação administrativa, mas um gesto de reparação histórica diante do estado de abandono e desgaste anteriormente observado..

O secretário municipal de Cultura, professor Jorge Januário de Carvalho, num pronunciamento fortemente poético, sublinhou a dimensão universal da obra de Nísia Floresta, projetando-a para além das fronteiras do Brasil. E ainda brincou com o vereador presente, Eugênio Gondim, relembrando que em tempos passados, o edil riu bastante e até hoje relembra quando ele, empolgado, pediu que Nísia Floresta saísse do túmulo, o que provocou risadas nos prseentes. Jorge Januário agradeceu ao prefeito pela sensibilidade e firmeza na condução de políticas públicas voltadas à valorização da memória cultural, ressaltando que iniciativas como aquela contribuem para consolidar a identidade histórica do município. Fez questão de esclarecer que, desde que o prefeito assumiu, deixou claro que daria dignidade àquele espaço sem mesmo ter sido cobrado, gesto este que me causa admiração, tendo em vista que desconheço história parecida, tendo em vista que o Conjunto Histórico Nísia Floresta nunca recebeu uma política perene de cuidado, oscilando em constante abandono e eventuais cuidados.


Um dos momentos mais expressivos da solenidade foi protagonizado pelo secretário adjunto de Cultura, Leonardo Paiva - conhecido como Léo do Pifi - que declamou um poema de Mauro Bessa dedicado aos professores, categoria que encontra em Nísia uma de suas mais ilustres representantes. Na ocasião, realizou também a entrega de uma placa de honra ao mérito ao secretário de Cultura,, simbolizando o reconhecimento intitucional por sua atuação contínua em prol da cultura local.


Encerrando a cerimônia, a governadora Fátima Bezerra proferiu um discurso conciso, porém carregado de significado. Traçou um panorama do protagonismo feminino no Rio Grande do Norte, inserindo Nísia Floresta entre as pioneiras que abriram caminhos para gerações futuras. Em gesto de reconhecimento, destacou a dedicação de Luís Carlos Freire à pesquisa e divulgação da obra nisiaflorestense, parabenizou o prefeito pela iniciativa de restauração do espaço e enalteceu o trabalho persistente do secretário de Cultura na realização de eventos que mantêm viva a memória de Nísia.



Como que desafiando o próprio céu que ameaçava desabar novamente, o encerramento da solenidade foi marcado por um espetáculo pirotécnico que, em excelsos clarões, transformaram em dia a noite do Sítio Floresta. As luzes, refletidas nas superfícies ainda enlameadas pela chuva, pareciam traduzir, em linguagem visual, a permanência luminosa de Nísia Floresta na história do Brasil.

Assim, mesmo sob possibilidade de o céu desabar a qualquer instante, o II Movimento Pró-Memória Nísia Floresta afirmou-se como um ato de resistência cultural, de reafirmação identitária e de compromisso com a memória, demonstrando que, quando a história é convocada com verdade e reverência, nem mesmo a força das chuvas é capaz de silenciar sua voz... Foi um momento de emoção... E, como gritou fortemente a governadora: "VIVA NÍSIA FLORESTA"...

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A MENINA DO VESTIDO ROXO: QUANDO OS DESPOJOS DE NÍSIA FLORESTA CHEGARAM À SUA TERRA NATAL...

Lúcia Elisa do Nascimento, "A Menina do Vestido Roxo"...


Aos 11 de setembro de 1954, há 72 anos, às 15 horas, uma imensa caixa de madeira com os restos mortais de Nísia Floresta, desembarcou do navio “Pirapiá”, um caça da Marinha de Guerra do Brasil, aportado nas docas da Ribeira, em Natal. Uma multidão se espremeu até a Praça André deAlbuquerque Maranhão. Houve homenagens na Base Naval e o cortejo seguiu para o Instituto de Educação, onde Nísia Floresta receberia homenagens organizadas pela professora Chicuta Nolasco (Entrevistei-a no final da década de 90, inclusive publiquei neste blog sobre esse encontro).  

No dia seguinte o cortejo se deslocou para Nísia Floresta, cujo município já havia recebido o nome dela por força de um projeto idealizado pelo deputado estadual Arnaldo Barbalho Simonetti, seis anos antes. E justamente em Nísia Floresta aconteceria um fato muito curioso, e que ficaria perpetuado nesse livro.

Livro "A Menina do Vestido Roxo"

Assim que a "grande caixa de madeira" chegou ao município de Nísia Floresta, aos 12 de setembro, houve um impasse. Todos aguardavam uma pequena caixa com os ossos de Nísia Floresta, jamais um caixão tradicional. A falta de comunicação permitiu que construíssem uma peça de alvenaria para sepultar os restos mortais, ao invés de construírem um túmulo para acomodar o caixão. Ninguém avisou. Comunicação naquele tempo era complicada. O que fazer? Onde colocar aquela imensa caixa.

Na missa de corpo presente, celebrada pelo cônego Rui Miranda (Entrevistei-o em 2006 e publiquei sobre esse encontro neste blog), perceberam que não seria possível o “enterro”, portanto resolveram guardar o caixão sobre uma mesa nos corredores desta Matriz, próximo à entrada da sacristia. A grande caixa ficou ali no período de quase uma gestação humana, fazendo juz à Padroeira também conhecida como Nossa Senhora da Expectação, ou Nossa Senhora Grávida). Passou o Natal e Ano Novo sob a sentinela da Senhora do Ó, mediante um acordo feito entre o prefeito José Ramires e as autoridades natalenses. 
 

Nesse interim, muitos faziam fila para verem a caixa. O prefeito demorou muito para cumprir o acordo. Houve uma indisposição. Então a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras resolveu assumir a obra, fazendo uma campanha envolvendo instituições e pessoas influentes. O túmulo foi construído oito meses após a chegada dos restos mortais. É nessa data que entrará para a história a pequena Lúcia Elisa do Nascimento, com apenas 8 anos de idade, e que se tornaria: 

A Menina do Vestido Roxo”. 
 
A grande caixa foi conduzida em cortejo até o “Sítio Floresta” no dia 11 de maio de 1955, acompanhada por uma multidão vinda de Natal. O ponto de apoio foi o alpendre de uma casa grande, muito antiga, situada no sítio de propriedade de Carlos Gondim, conforme me contou a sra. Elisa. A caixa foi depositada sobre uma mesa de madeira. Ali moravam os tios da pequena Lúcia Elisa do Nascimento. Eles eram empregados nesse sítio e presenciaram tudo. No local onde seria sepultado o caixão de Nísia Floresta já existia um monumento em homenagem a ela, construído em 1909, pelo pedreiro Eduardo dos Anjos. 
 
Criando as ilustrações para o livro "A Menina do Vestido Roxo".

Em 1993, dentre uma vasta pesquisa de História Oral, Lúcia Elisa do Nascimento me contou o seguinte : “Ainda me lembro dos meus tios prá lá e prá cá... um pedia uma coisa, outro pedia outra... era um monte de gente naquele dia, parecia que Natal veio toda ‘pralí’... tava até o ‘seu’ Zé Ramires, mas para mim aquilo era uma festa... eu não entendia aquelas coisas... não sabia que ali tinha uma morta, ficava só brincando, curiosa, olhando o povo... coisa de criança...”.
 
A pequena Lúcia ficou nas imediações, bastante admirada. Ao abrirem a grande caixa encontraram, intacto, um caixão de ébano envolvido numa grande quantidade de cetim de seda roxa. “Era um ‘panão’ grande... brilhoso, novinho... a coisa mais linda do mundo... Fiquei olhando aquilo muito admirada, doida pra pegar... era brilhoso, bonito que só!”, contou Lúcia.
 
Hoje, as pessoas não associam mais a cor roxa à morte devido aos modernismos, mas a tradição católica sempre relacionou a cor roxa aos tecidos mortuários, acessórios de féretro, caixão etc. Com certeza isso vem da ritualística católica, que associa o roxo à penitência, cujos tecidos roxos prevalecem nos paramentos sacerdotais, nos templos e procissões na “Sexta-Feira da Paixão”, quando o “Senhor-Morto” é envolto em tecido roxo.
 

Uma das pessoas que ajudou a abrir a grande caixa foi o senhor Antônio Amador do Nascimento, conhecido como “Tetéu”, tio da menina Lúcia, irmão de seu pai. Ele estava por ali em visita aos tios. O tecido era novo e ainda cheirava. Lúcia contou que seu tio pegou a bela fazenda e jogou sobre ela, dizendo “Pega prá tu! “Eu nem acreditei, fiquei assim, olhando, abestalhada com o pano... Saí doida, correndo pra mostrar pra mamãe". (É preciso esclarecer que esse tecido não tocou nos restos mortais. Veio enrolado no caixão e era uma peça nova, muito grande).
 
Sobre esse tecido, Lúcia contou exatamente isso: “Eu nunca vi um tecido tão lindo... embolei no corpo e fui correndo pro quarto... era um pedação grande... bastante pano... mamãe logo escondeu de mim. No outro dia, quando fomos no Porto, mamãe lavou o tecido, e vovó Geminiana fez um vestido de sair e uma camisolinha pra mim... eu adorava vestir o vestido e ficar sentada no alpendre... queria que as outras meninas que passavam na estrada me vissem com o vestido...achava bonito, era o vestido mais bonito de Nísia Floresta... eu parecia uma menina rica... corria até a cancela, subia nas árvores, pulava... o vento voava o vestido, às vezes enganchava nas árvores, mamãe dava brava, gritando: ‘menina, tu vai rasgar o vestido!’... para mim o vestido dava alegria, não tinha nada de morte... achava linda a cor roxa... Quando eu usava a camisolinha nem sabia que dormia com os paninhos de Nísia Floresta... eu lá sabia quem era Nísia Floresta! O povo só dizia que era uma mulher muito sabida...”.
 
Lúcia Elisa do Nascimento nasceu no dia 27 de novembro de 1946, filha de João Amador do Nascimento e Naura Elisa do Nascimento, neta de Geminiana Elisa do Nascimento, gente antiqüíssima da velha Papary. Francisco Amador do Nascimento era pai de “Maria de Zuza”, era irmão do pai de Lucia Elisa. Lúcia também contou o seguinte: “Eu cresci ouvindo o tio Tetéu mangando muito de mim por causa desse vestido roxo... dizia que eu tinha usado o vestido de Nísia Floresta... outra hora dizia que o meu vestido tinha vindo no caixão de Nísia Floresta... depois dizia que eu tinha usado o vestido de uma morta... ficava me caningando o tempo todo. Só depois de muito tempo eu dei conta daquela marmota, mas como era criança, nem percebi, achei foi bom. Até brincava, dizendo que o tecido do meu vestido tinha vindo da França. Quando eu ia pra rua com a minha mãe, vestia logo o vestido, ia bem importante.. exibida que só! Na minha cabeça todos estavam achando lindo o vestido roxo”.
 

O terreno onde se encontra o túmulo e o monumento à Nísia Floresta não pertencia à família Gondim quando construíram o monumento de 1909. O sr. Luiz Bezerra Augusto da Trindade o comprou - por procuração - à Srª Antonia Freire, mãe de Nísia Floresta, em 1857, pela importância de 400 Réis. Luiz Bezerra faleceu em 1881 e o sítio foi repartido entre os herdeiros. A maior parte ficou para Francisco Teófilo Bezerra da Trindade, falecido em 3 de outubro de 1838. Ele foi o doador do referido terreno.  
 
Lúcia Elisa do Nascimento, uma brasileira, uma mulher simples, mulher honrada, cheia de dignidade e importância. Ela não foi importante por ter escrito livros famosos ou ter assumido altos cargos, mas o destino fez com que a história dela se cruzasse com a história de Nísia Floresta numa circunstância muito curiosa. Parece que Nísia quis dar esse presente, e era para a pequena Elisa. A ela todos devem gratidão por ter protagonizado aos nisiaflorestenses esse belo e curioso episódio. Sua história é um achado, é uma pérola, é o seu poema de vida...  L.C.Freire (1993)

 

terça-feira, 24 de março de 2026

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA LITERATURA... CAMÕES E MACHADO CHORAM...

 

Dom Quixote é difícil? Como ler sem se perder (ou desistir)

Imagine você abrindo Grande Sertão: Veredas e viajando em suas páginas, tropeçando em seus neologismos, encantando-se com sua linguagem poética de João Guimarães Rosa... Imagine você desabotoando os olhos e percorrendo as letras saídas de A Hora da Estrela, A Paixão segundo G.H., Laços de Família, de Clarice Lispector... Imagine-se lendo Coração Disparado, de Adélia Prado; aliás, ouvi-la, pois lê-la é tão mágico quanto ouvi-la, e ouvi-la é lê-la como quem flutua. Imagine a capacidade cirúrgica de Edgar Allan Poe de nos botar medo e envolver-nos num suspense, a ponto de suas palavras serem as próprias pulsações... Imagine os cenários desprezados, invisíveis, sob folhas secas e podres, que, sob os grafites de Manoel de Barros, se transformam em requintada poesia... sua palavra inventada, sua prosa poética acometida de invencionática... Imagine a palavra que, de tão deliciosa, sai das páginas de Tatiana Belinky como um delicioso Medavik... Imagine o quanto Crime e Castigo se torna um castigo, de tanto nos prender, nos segurar: “Não me solte!”...

Agora imagine você lendo o autor ou autora que chorou lágrimas de sangue para produzir um clássico que que viverá eternamente grudado na humanidade, que seus hexanetos o estarão lendo... que o futuro infinito o estará lendo...

Manoel de Barros declarou que “escrever sangra”. Ele quis dizer que é delicioso escrever, mas sangra, pois é trabalho minucioso, pesado, medido, pincelado, aparado, rasgado, jogado no lixo, recuperado, editado, e, nesse mister, o cérebro sua, cansa, e o medo de ser condenado, incompreendido e crucificado orbita... Isso é sangrar, pois também é sofrível... Um sofrível que nos possui como possessão,, pois não conseguimos livramento.

Escrever leva tempo, conhecimento, pesquisa, formação, leitura, estudo, desafios, noites de sono, entraves... A obra para, estaciona, fica esquecida, é retomada, é relida, é aparada, mexida, remexida e publicada. Um livro saído do cérebro de um escritor é um filho que até mesmo o pai sentiu a gestação, pois o viu nascer, engatinhar, andar e ser convidado a estar sob os olhos das crianças e dos adultos. É o filho que ouviu nossos puxões de orelha e sentiu a nossa palavra de aprovação.

Todo livro carrega histórias de bastidores inimagináveis. O computador que pifou. O texto que sumiu. O reencontro, a reescrita. As anotações dos insights madrugadores. A visita ao local de inspiração. O carro que quebrou. A xícara de café que virou sobre as anotações. O copo de água gelada que caiu nos teclados... O dinheiro que faltou na hora de pagar a xerox (pois livro tem que ser lido e corrigido a grafite, no papel)...

A escrita verdadeira, assim como a pintura verdadeira, como a música verdadeira, precisa ser reconhecida pelo leitor: “isso é de fulano”... “isso é de siclano”. Igual ver uma tela de van Gogh, Doryan Gray...  É como RG.

Escrever é feito de todas as sensações. Uma simples poesia, uma prosa poética, pode ter uma história de meses ou até anos, pois é inconcebível a obra que não perpassou pelas veias, pelo coração, pelos neurônios... é inconcebível a escrita que não veio dos dedentros humanos... que não foi julgada pela nossa coragem, pelo nosso medo, que não perpassou por nossa sentença... que não foi lida por um amigo íntimo antes de perpassar pelas bobinas das máquinas...

Eu acredito no homem, na palavra que não brotou em segundos, gerada por condicionamento maquinal, oriunda dos submundos da inverdade e da frieza, mas que foi gerada como uma jaca, embu, graviola, melancia, macaxeira... a palavra que foi gerada como filho, que perpassou por dor, suor, lágrimas, alegria, êxtase, paz, felicidade plena...  A palavra que tem impressão digital...