ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

RENATO ALVES PEIXOTO (1913–2006): A INSURREIÇÃO COMUNISTA DE 1935 EM NATAL ...


Renato Alves Peixoto nasceu em 18 de novembro de 1913, na propriedade Morgado, município de São José de Mipibu, Rio Grande do Norte. Era filho de Antônio Ezequiel Peixoto (1869–1946) e de Joana Alves Maciel, posteriormente Joana Alves Peixoto (1875–1975), pertencendo a um dos mais tradicionais ramos da família Peixoto estabelecidos na região desde o século XIX.

Seu nascimento somente foi registrado em 29 de novembro de 1919, seis anos após ocorrer, conforme consta no Livro de Registros de Nascimento de São José de Mipibu. O assento foi lavrado mediante autorização judicial, em razão do registro fora do prazo legal. Na ocasião, seu pai declarou que Renato havia nascido em seu domicílio, no Morgado, em 18 de novembro de 1913, sendo filho legítimo do casal Antônio Ezequiel Peixoto e Joana Alves Maciel.

Morgado, onde nasceu Renato e os demais irmãos.

O registro tardio não constitui uma exceção para a época. Era relativamente comum, nas primeiras décadas do século XX, que crianças fossem registradas anos após o nascimento, havendo inclusive pessoas que somente providenciavam o registro civil ao contrair matrimônio. Antônio Ezequiel Peixoto aproveitou a mesma ocasião para registrar quatro de seus filhos: Luzia, Ezequiel, João, Renato e, logo em seguida, Palmiro, todos nascidos anteriormente.

Renato era neto paterno de Ezequiel Corrêa Peixoto (1835–1930) e de Luzia Brasileira Peixoto (Luzia Brasileira Pacheco), casal que consolidou um importante núcleo familiar no Morgado. Por linha materna, era neto de João Alves Maciel (1840–1922), proprietário do Engenho Descanso, e de Joana Quitéria de Araújo (1845–1919), pertencendo igualmente a uma tradicional família da região de São José de Mipibu.

Era irmão de:

  • Luzia Alves Peixoto (1905–2009), posteriormente Luzia Peixoto Maranhão, casada com o intendente Roque de Albuquerque Maranhão, do Engenho São Roque;
  • Ezequiel Alves Peixoto (26 de setembro de 1909 – 8 de novembro de 1936), assassinado em circunstâncias nunca completamente esclarecidas, em um sobrado localizado no centro de São José de Mipibu, aos vinte e sete anos de idade;
  • João Alves Peixoto (27 de julho de 1911 – 25 de fevereiro de 1992), casado com Clhóris Trigueiro, pai de Abdon Trigueiro Peixoto e Tamires Ítalo Trigueiro Peixoto;
  • Palmiro Alves Peixoto (24 de março de 1916 – 8 de outubro de 1980), agricultor, posteriormente residente em Natal, casado com Severina Peixoto de Araújo, deixando extensa descendência;
  • José Alves Peixoto (1918–1986).

Renato pertencia, portanto, a uma família enraizada na história agrária do litoral sul potiguar, cujos diversos ramos se distribuíram pelo Morgado, Descanso, São Roque, Olho d'Água e outras propriedades tradicionais da região. Engenheiro de profissão, Renato Alves Peixoto teve seu nome ligado a um dos episódios mais marcantes da história política do Rio Grande do Norte: a Insurreição Comunista de novembro de 1935, quando Natal tornou-se a primeira capital brasileira a permanecer, ainda que por poucos dias, sob controle dos revolucionários ligados à Aliança Nacional Libertadora.

Sua participação encontra-se documentada nos processos do extinto Tribunal de Segurança Nacional, posteriormente estudados pelo historiador Homero de Oliveira Costa em A Insurreição Comunista de 1935: o caso de Natal.

Segundo essa documentação, Renato participou da operação destinada ao recolhimento dos recursos financeiros arrecadados pelos insurgentes durante o movimento revolucionário. Coube-lhe, juntamente com o sapateiro Jaime de Brito e o motorista Francisco Braz Leopoldo, transportar a importância de 4:376$000 (quatro contos, trezentos e setenta e seis mil-réis) proveniente da Agência de Rendas Estadual.

Os recursos foram encaminhados para a chamada Vila Cincinato, local onde funcionou o Comitê Revolucionário durante os poucos dias em que os insurgentes exerceram o controle da capital potiguar. O fato de Renato integrar uma operação de natureza financeira evidencia que ele gozava de confiança por parte dos dirigentes revolucionários responsáveis pela administração do governo insurrecional.

Sua presença entre os envolvidos na Insurreição Comunista de 1935 revela um aspecto pouco conhecido da história da família Peixoto do Morgado. Enquanto muitos de seus parentes permaneceram vinculados às atividades agrícolas e ao funcionalismo público, Renato passou a integrar um dos episódios políticos mais significativos da história republicana do Rio Grande do Norte.

Sua trajetória também demonstra como famílias tradicionais do interior potiguar não permaneceram alheias às profundas transformações políticas e sociais ocorridas durante a década de 1930, período marcado pela Revolução de 1930, pela radicalização ideológica e pela reorganização dos movimentos operários e militares em todo o país. E Renato destoou a se unir a outros comunistas norte-rio-grandenses.

Após a derrota do movimento revolucionário, Renato Alves Peixoto passou a ser procurado pelas autoridades encarregadas da repressão aos participantes da insurreição. A política de combate ao comunismo adotada pelo governo de Getúlio Vargas mobilizou a Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte, as forças policiais estaduais, o Exército e os órgãos federais de segurança, responsáveis pela prisão e pelo encaminhamento dos acusados à Justiça de exceção, representada pelo Tribunal de Segurança Nacional. 

Os participantes da Insurreição Comunista de 1935 que eram capturados pelas forças legalistas eram inicialmente submetidos a inquéritos policiais, sendo muitos deles vítimas de torturas e outras formas de violência durante os interrogatórios. Em seguida, permaneciam recolhidos em cadeias públicas, quartéis ou estabelecimentos prisionais, onde aguardavam a conclusão das investigações. Posteriormente, eram denunciados e processados pelo Tribunal de Segurança Nacional, criado em 1936 para julgar os acusados de crimes políticos contra a ordem institucional. Entre os principais locais de encarceramento destacavam-se a Casa de Detenção do Recife, a Casa de Correção do Rio de Janeiro, o Quartel da Polícia Especial, na então capital federal, e a Colônia Correcional de Fernando de Noronha, destinada principalmente ao confinamento de presos políticos considerados mais perigosos pelo governo Vargas. Muitos insurgentes permaneceram anos encarcerados, submetidos a longos processos judiciais, enquanto outros responderam às acusações em liberdade ou conseguiram permanecer foragidos durante anos para escapar à intensa repressão desencadeada pelo Estado.

Para escapar dessa perseguição política, Renato refugiou-se, acompanhado da esposa, na cidade de Russas, no Ceará, onde permaneceu durante vários anos em relativo anonimato, evitando qualquer exposição que pudesse levar à sua localização e prisão. Renato Alves Peixoto permaneceu escondido em Russas, no Ceará, durante os anos de maior repressão aos participantes da Insurreição Comunista de 1935. Com o enfraquecimento das buscas e a normalização gradual de sua situação processual - após a anistia concedida em 1945 - retornou ao estado, onde retomou sua vida profissional e familiar. Seus últimos anos se passaram no Morgado, onde sentia protegido pelas memórias de sua infância. 

Ele permanecia semanas no Morgado, onde passava longos períodos recolhido, quase sempre entregue à leitura em uma velha cadeira de balanço. Homem de grande cultura, distinguia-se também pela discrição, pela reserva e pela extrema polidez no trato com as pessoas. Em 2005, meu primo Amauri e eu tivemos a oportunidade de entrevistá-lo, ocasião em que revelou o quanto se sentia acolhido e confortado naquele lugar. Ali, certamente, reencontrava as lembranças mais afetivas de sua vida: a presença da mãe, do pai, dos irmãos e as memórias de sua infância .

Tamires Ítalo Trigueiro Peixoto

Ele me lembrava muito Tamires, seu sobrinho, que, mesmo já idoso, conservava o hábito de falar sobre a mãe quase todos os dias. Assim também Renato guardava uma ligação profunda com as suas próprias memórias familiares. Tamires amava tanto a velha Chlóris - sua mãe - que jamais teve coragem de se desfazer de seus vestidos, mantendo-os guardados e expostos no armário exatamente como ela os havia deixado, como se preservasse, por meio daqueles objetos, a presença e a lembrança dela. Também me recordo de um velho baú de fotografias dos antepassados que jazia na sala do velho Morgado. Não sei que fim tomou... Renato faleceu em 2006, aos 93 anos, em Natal, encerrando uma longa trajetória iniciada ainda nos tempos da República Velha e que atravessou praticamente todo o século XX.

Como descendente direto de Ezequiel Corrêa Peixoto e integrante de uma das mais antigas famílias de São José de Mipibu, Renato Alves Peixoto ocupa posição singular na história regional, reunindo, em sua trajetória, a herança de uma antiga linhagem de proprietários rurais e a participação em um dos mais importantes acontecimentos políticos da história contemporânea do Rio Grande do Norte.

EXCERTOS...

SÃO JOSÉ DE MIPIBU - REGISTROS DE NASCIMENTO - 1918-1927

35 - Aos vinte e nove dias do mês de novembro de 1919, nesta cidade de São José, estado do Rio Grande do Norte, em meu cartório, compareceu, Antônio Ezequiel Peixoto, filho de Ezequiel Corrêa Peixoto e dona Luzia Brasileira Peixoto, casado com dona Joanna Alves Peixoto, filha de João Alves Maciel e Joanna Alves Maciel, e depois de obter licença por ter vindo fora do prazo legal, declarou: que em seu domicílio no dia dezoito de novembro de mil novecentos e treze, neste município, onde se casou, nasceu uma criança do sexo masculino, que recebeu o nome de Renato, filho d'elle, declarante e sua dita mulher. O que para constar fiz este termo que assinam com as testemunhas abaixo, a tudo presentes e commigo ...........(ilegível) Guedes o escrevi e assignam Antonio Ezequiel Peixoto, João Ferreira, Austricliano Lopes de Macedo.

......x.......

Observações importantes sobre o registro acima: O livro de assento de nascimentos que registra o nascimento de Renato Alves Peixoto nos pede algumas reflexões bastante pertinentes, a começar pelo próprio livro. Se os registros de nascimento são do período de 1918 a 1927, como pode ser registrada uma pessoa que nasceu em 1913, ano que Renato nasceu?. Na verdade, o pai de Renato, Antônio Ezequiel Peixoto o registrou tardiamente, após seis anos de seu nascimento, em 1919. Àquela época era comum esses registros tardios. Havia pessoas que tinham os seus registros de nascimento feitos no dia que se casavam, portanto o pai de Renato, se comparado a isso, não demorou muito a registrar esses três filhos. Outra curiosidade diz respeito aos escrivães, os quais escreveriam apenas o primeiro nome da criança, desse modo no registro aparece apenas "Renato". Antônio Ezequiel registrou quatro filhos no mesmo dia, sendo "Luzia" (Luzia Peixoto), nasceu no dia 2 de fevereiro de 1905, registro nº 32, e "Ezequiel" (Ezequiel Peixoto) nasceu no dia 22 de setembro de 1909, registro nº 33 e "João" nascido no dia (ilegível) de julho de 1912, registro nº 34. "Palmyro", 24 de março de 1916, registro nº 36. Curiosidade: Luzia se tornaria no futuro, Luzia Peixoto Maranhão, ao se casar com Roque Maranhão, os quais residiam no Engenho São Roque.  Ezequiel seria assassinado num sobrado no centro de São José de Mipibu no ano de 1935.

Engenho São Roque, onde Luzia Peixoto Maranhão viveu toda a sua fase de casada com Roque Albuquerque Maranhão

Sobrado onde Ezequiel Peixoto foi assassinado.


ABDON ÁLVARES TRIGUEIRO (1868–1941): O ANTEPASSADO, O MILITAR E O MÚSICO

 

Capitão Abdon Álvares Trigueiro, avô materno de Tamires e Abdon

INSERÇÃO GENEALÓGICA

Abdon Álvares Trigueiro - "Pai Abdon" no círculo familiar - integra o tronco familiar materno de Tamires, figurando como seu avô materno. Sua trajetória distingue-se não apenas pela posição na linhagem, mas pelo relevo público que alcançou como militar e músico, projetando o sobrenome Trigueiro para além do âmbito doméstico, no cenário cultural e institucional do Rio Grande do Norte entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Obra publicada pelo Governo do Estado, durante a gestão Wilma de Faria


Filho de Francisco Álvares Trigueiro, Abdon nasceu em Guarabira, Paraíba, no ano de 1868. Casou-se com Higina Campos Trigueiro ("Mãe Santa" no círculo familiar), também paraibana, com quem constituiu família numerosa já radicada em Natal.

Higina Campos Trigueiro ("Mãe Santa"), esposa de Abdon Álvares Trigueiro, avós de Tamires e Abdon.

Dessa união nasceram Maria Esmeraldina Rodrigues Trigueiro (10.07.1891), Othoniel, Tharsis, Dalila, Ercila e Clhóris, todos registrados na capital potiguar. Nos últimos anos de vida, Abdon fixou residência em São José de Mipibu, onde faleceu em 1941.

Maria Esmeraldina Rodrigues Trigueiro, filha de Abdon Álvares Trigueiro, tia de Tamires

FORMAÇÃO MILITAR E PRIMEIROS ANOS DE SERVIÇO

A carreira militar de Abdon Álvares Trigueiro teve início no Exército Nacional, com ingresso no 27º Batalhão de Infantaria, em 20 de janeiro de 1890, na Paraíba. Permaneceu nessa unidade até 4 de maio de 1893, retornando ao serviço ativo em 20 de fevereiro de 1895, quando foi incorporado ao 34º Batalhão de Infantaria, já então residente em Natal.

Desde o início, foi admitido na condição de músico de 2ª classe, evidenciando que sua habilidade musical precedia a carreira castrense e foi por ela absorvida. Os registros de assentamento indicam evolução funcional contínua até seu desligamento definitivo do Exército, ocorrido em 5 de novembro de 1900.

CAMPANHA DE CANUDOS (1897)

Canudos/BA

Durante sua permanência no 34º Batalhão de Infantaria, Abdon Álvares Trigueiro participou da Campanha de Canudos, no interior da Bahia, entre os meses de junho e dezembro de 1897. Atuando como regente da banda da unidade, não permaneceu restrito a funções auxiliares ou cerimoniais.

Os assentamentos militares registram sua participação direta em ações de combate, inclusive na tomada da cidadela de Canudos, sendo oficialmente elogiado por bravura, disciplina e iniciativa. Consta nos registros a menção elogiosa à forma como ocupou posições designadas “na linha de fogo” e à atuação nas noites de enfrentamento aos ataques inimigos. À época, era identificado como 2º sargento, o que confirma seu envolvimento efetivo na operação militar.

CARREIRA MILITAR NA POLÍCIA MILITAR DO RIO GRANDE DO NORTE

Desligado do Exército, Abdon ingressou no Batalhão de Segurança em 4 de novembro de 1900, como alferes em comissão. Poucos dias depois, em 17 de novembro, foi nomeado pelo governador Alberto Maranhão para exercer simultaneamente as funções de inspetor e regente da banda da corporação.
Sua ascensão funcional foi progressiva e regular:
• 2º tenente (14 de novembro de 1900)
• 1º tenente (1º de fevereiro de 1911)
• Capitão (31 de dezembro de 1917)
Foi reformado por ato do governador Juvenal Lamartine, em 10 de janeiro de 1929. Ao todo, Abdon dedicou nove anos ao Exército e vinte e oito anos à Polícia Militar, exercendo também funções administrativas e policiais no interior do estado, inclusive como capitão sediado em Macaíba e delegado em diversas localidades.

ATUAÇÃO MUSICAL E VIDA CULTURAL

Paralelamente à carreira militar, Abdon Álvares Trigueiro construiu sólida atuação musical. Desde 1896, seu nome aparece nos jornais associado a apresentações, composições e regências. Nesse ano, apresentou ao piano, na redação do jornal O Diário de Natal, o “Hino à Imprensa”, de sua autoria, com letra do professor Elias Souto.

Cláudio Galvão

Entre 1899 e 1900, compôs e regeu a música da opereta “O Palito Milagroso”, de Ezequiel Wanderley, encenada pela Sociedade Dramática 12 de Outubro”. Também musicou a comédia “A Pulga”, com texto do poeta Segundo Wanderley, sendo elogiado pela imprensa como “inteligentíssimo maestrino”. As partituras dessas obras, entretanto, não foram localizadas.

Cláudio Galvão

Em 1º de outubro de 1902, a banda do Batalhão de Segurança executou, pela primeira vez em Natal, a introdução da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes, fato que demonstra o nível técnico alcançado pela corporação sob sua regência.

Cláudio Galvão

RECONHECIMENTO PÚBLICO E EPISÓDIOS MARCANTES

Após um período de menor visibilidade, a atividade musical de Abdon foi retomada com destaque em 1907, quando uma de suas polcas foi executada em retreta pública, recebendo elogios entusiasmados da imprensa, que celebrava seu retorno ao cenário musical da cidade.

Em 1913, durante um episódio de forte tensão política em Natal, Abdon teve atuação destacada em confronto armado envolvendo forças policiais e militares. Sua ação foi oficialmente elogiada pelo comando da Polícia Militar, que ressaltou a iniciativa do então 1º tenente Abdon Álvares Trigueiro ao assumir posição estratégica no combate, contribuindo para conter os atacantes.

ATUAÇÃO RELIGIOSA, MAÇONARIA E ÚLTIMOS ANOS

Abdon também teve participação ativa na vida religiosa e associativa. Foi dirigente da Associação Evangélica de Natal, reeleito vice-presidente em 1916, sob a presidência do reverendo Jerônimo Gueiros. Regeu por muitos anos o coro da Igreja Presbiteriana, compondo músicas sacras associadas a textos bíblicos e poesias religiosas.

Na maçonaria, foi venerável da Loja ‘Evolução II’, onde teve seu retrato inaugurado ao deixar o cargo. Após a reforma militar, passou a residir em São José de Mipibu, dedicando-se a viagens pelo interior do estado em atividades de pregação evangélica.

PRODUÇÃO MUSICAL E LEGADO

Embora não seja classificado como modinheiro típico, Abdon Álvares Trigueiro destacou-se como compositor de valsas, polcas, dobrados, hinos e canções de serenata, entre elas “Aos 15 anos”, com letra de Segundo Wanderley. Seu maior reconhecimento ocorreu em 1922, quando venceu concurso promovido pelo governo Antônio de Souza, por ocasião do 1º Centenário da Independência do Brasil, com as melodias para os poemas “Caminho do Sertão” e “Olhos”, de Auta de Souza.

Recebeu dois prêmios no valor de 500$000 (Quinhentos mil réis) cada, além da impressão das partituras pela Casa Bevilacqua, do Rio de Janeiro. As obras foram apresentadas no Teatro Carlos Gomes, sob sua regência.

Teatro Carlos Gomes, atualmente Alberto Maranhão.

Grande parte de sua produção perdeu-se ao longo do tempo. Sobreviveram referências em jornais, partituras dispersas e registros preservados em arquivos religiosos. Ainda assim, sua contribuição é reconhecida por estudiosos da música potiguar, como Cláudio Galvão, que o menciona na obra Modinha Rio-Grandense, dentre renomados músicos e jornalistas de época.

terça-feira, 21 de julho de 2026

AS PÉROLAS DA MINHA TIA MARIA DE LOURDES FREIRE DIAS...

Maria de Lourdes Freire Dias ("Joana de Vareda")...

Havia um ritual que eu cultivava com alegria: visitar tia Maria de Lourdes juntamente com uma prima. Já centenária e, embora cheia de saúde, sabíamos que ela poderia partir a qualquer hora. Então não poderíamos nos poupar de estarmos sempre com ela, um poço de alegria, receptividade e memória intacta. Tia Maria leu e escreveu a vida toda. Era uma figura encantadora, cheia de amorosidade. 

Nunca era apenas uma visita. Era um mergulho em um tempo que eu não vivi, mas que aprendi a conhecer através da memória de quem o habitou. Eu chegava disposto a ouvir, e ela, quase sempre, estava pronta para abrir o baú das lembranças. Bastava uma pergunta, um nome ou uma fotografia para que as histórias começassem a desfilar, uma puxando a outra, como contas de um rosário antigo.
Aprendi cedo que as melhores histórias não costumam estar nos livros. Moram na boca dos mais velhos, esperando apenas um ouvido paciente. E eu fazia questão de recolher essas pequenas preciosidades. Eram pérolas que, se não fossem registradas, talvez desaparecessem com o tempo.
Numa dessas tardes, tia Maria sorriu antes mesmo de começar a falar. Lembrou-se dos apelidos que os irmãos inventavam uns para os outros durante a infância. Eram apelidos de criança, desses que fazem sentido apenas dentro da família e que carregam muito mais afeto do que malícia.



Numa dessas tardes, tia Maria sorriu antes mesmo de começar a falar. Lembrou-se dos apelidos que os irmãos inventavam uns para os outros durante a infância. Eram apelidos de criança, desses que fazem sentido apenas dentro da família e que carregam muito mais afeto do que malícia.

Ela própria era chamada de Joana de Vareda. Meu pai, José Amaro respondia por Caboré. Olindina era Verdolenga. Sebastiana, Sapatiana. Calazans atendia pelo curioso Calango Sardanha. Dos meus tios Manoel e Júlio, infelizmente, a lembrança ficou pela metade. Em algum momento deixei escapar o registro dos apelidos que também lhes pertenciam. Até hoje lamento essa pequena lacuna, dessas que nenhum esforço da memória consegue preencher depois.

(José Freire) Caboré

Confesso que até hoje dou risada quando leio isso. Fico comparando aquela mulher que viria a morrer com 103 anos de idade com a menina Joana de Vareda. Tenho impressão que Joana de Vareda foi uma criança muito feliz, altiva, altruísta, cheia de viva que grudou nela e nunca mais saiu, pois Maria de Lourdes era inspiradora como pessoa. Era realmente uma Joana de Vareda...
Enquanto ela recordava aqueles nomes, eu imaginava a cena: um terreiro de chão batido, irmãos correndo, rindo uns dos outros, brigando por um instante e fazendo as pazes logo depois. Os apelidos eram quase uma segunda certidão de nascimento, concedida não pelo cartório, mas pela convivência. Revelavam uma infância simples, sem brinquedos caros, mas rica na criatividade e na cumplicidade entre irmãos. Ela, inclusive me contava que os irmãos - todos idosos - fazia questão de recordar desses apelidos e darem gargalhadas.


Foi então que a conversa tomou outro rumo, como tantas vezes acontecia. Sem perceber, Joana de Vareda, aliás, tia Maria, saltou décadas e voltou aos primeiros dias de escola. Contou que estudou o primário na cartilha Felisberto de Carvalho, organizada por Antonio Firmino Proença. Era um nome que, para mim, soava distante, mas que para ela trazia o cheiro das primeiras letras, do caderno novo e do esforço de decifrar o mundo através das palavras. Ela descreveu a cartilha com o sentimento que pertence apenas a quem gosta muito de estudar. Eu vi a cartilha diante de mim...

Foi então que a conversa tomou outro rumo, como tantas vezes acontecia. Sem perceber, Joana de Vareda, aliás, tia Maria, saltou décadas e voltou aos primeiros dias de escola. Contou que estudou o primário na cartilha Felisberto de Carvalho, organizada por Antonio Firmino Proença. Era um nome que, para mim, soava distante, mas que para ela trazia o cheiro das primeiras letras, do caderno novo e do esforço de decifrar o mundo através das palavras. Ela descreveu a cartilha com o sentimento que pertence apenas a quem gosta muito de estudar. Eu vi a cartilha diante de mim...

Depois vieram as lembranças das professoras. Primeiro, Dulce e Biá, ambas de Lagoa Dantas. Em seguida, Bernardete, Adelaide e Expedita, que vinham de Natal montadas a cavalo para ensinar. Passavam a semana na cidade e retornavam a cada 15 dias ou cada sexta-feira. Já imaginou uma coisa dessa! Só essa imagem já bastava para transformar a professora em personagem de romance: mulheres enfrentando estradas de barro, sol e inverno, apenas para que as crianças aprendessem a ler.

Tia Maria ainda fez questão de situar Expedita na árvore da família. Era filha de Maria Velha, irmã de Amaro Justino da Cruz. Na memória dos antigos, ninguém existia sozinho. Cada pessoa vinha acompanhada de seus laços de parentesco, como se a identidade estivesse costurada à família inteira. 

Ao voltar para casa naquele dia, pensei que eu não havia recolhido apenas informações. Levei comigo uma fotografia invisível de uma época. Os apelidos, a cartilha, as professoras que cavalgavam léguas para ensinar... tudo isso parecia pequeno quando contado separadamente. Junto, porém, compunha o mosaico de uma geração.

Hoje compreendo que minhas visitas à tia Maria de Lourdes nunca foram apenas encontros entre sobrinho e tia. Eram lições de memória. Ela narrava; eu escutava. Ela recordava; eu anotava. Ela revivia; eu preservava.

E é curioso como funciona a lembrança. Esqueci de registrar o apelido de tio Júlio, mas jamais esquecerei o brilho nos olhos de tia Maria enquanto contava aquelas histórias. Talvez seja esse o verdadeiro nome da memória: não aquilo que conseguimos guardar no papel, mas aquilo que permanece vivo dentro de nós, iluminando o passado com a ternura de quem o viveu.

Todos partiram. Um deles com 98 anos de idade. E assim, aos 103 anos, partiu Joana de Vareda, a minha tia Maria de Lourdes Freire Dias...

quarta-feira, 15 de julho de 2026

DONA IRACEMA E AS CORRENTES DA MEMÓRIA...


Dona Iracema, acometida por Diabete, enfrentou a doença com sofrimento, mas sem perder o amor a vida, sem perder o amor dos filhos e parentes, e assim, abençoada pelo amor da família caminhou até quando o corpo resistiu.

Ontem, recebi com profundo pesar a notícia do falecimento da Senhora Iracema Elisa de Carvalho, aos 85 anos. Ela foi uma das vozes mais generosas que ouvi ao longo das minhas atividades de História Oral, desenvolvidas no município de Nísia Floresta a partir de 1992. Dona Iracema pertenceu a uma geração que testemunhou – ainda que de forma involuntária – décadas de movimentação em torno do conjunto histórico de Nísia Floresta, situado exatamente em frente à sua residência. Embora fosse a pessoa que zelava daquele espaço. Essa proximidade geográfica fez dela e de seus familiares testemunhas oculares por excelência; os guardiões silenciosos de um espaço cujas memórias herdaram também de seus pais.

Como sempre faço questão de ressalvar, o mapeamento etnográfico que realizei em Nísia Floresta buscou apreender a densidade cultural daquela comunidade sob a ótica de seus próprios habitantes. Através de conversas informais e espontâneas, sem a rigidez protocolar de uma entrevista de gabinete, pude inventariar o grau de apropriação local sobre a biografia de Nísia Floresta, bem como salvaguardar manifestações multifacetadas da cultura material e imaterial da região. Evidentemente, cada tema ocupou seu devido lugar: investiguei a religiosidade, o folclore, as lendas, as curiosidades locais, as práticas da culinária típica, o universo do lúdico infantil tradicional e a perpetuação de costumes e tradições que definem a singularidade identitária dos nisiaflorestenses.
Quando iniciei minhas incursões de campo, elegi como prioridade dialogar com os mais idosos. Movia-me a urgência de que a finitude da vida não levasse consigo os testamentos orais daquela geração. Para mim, perder um idoso sem registrar suas memórias equivale a queimar os mais preciosos livros de história, peças unicas que a arqueologia jamais redescobrirá. Afinal, a Inteligência Artificial ainda não foi capaz de conceber um dispositivo que extraia do cranio de um falecido o saber acumulado ao longo de toda uma vida.
Dona Iracema zelava do conjunto histórico de Nísia Floresta e era relativamente jovem quando a conheci, em 1992; tinha 51 anos, era mais nova do que sou hoje. Contudo, habitavam aquela casa parentes mais velhos e, considerando que o sepultamento de Nísia Floresta havia ocorrido 37 anos antes, aquele nucleo familiar representava umafonte inestimável de informação. Dali, extraí relatos interessantes por meio de indagações estruturadas, mas nenhuma delas foi mais importante do que um dado fornecido por Dona Iracema, capaz de desfazer uma mentira cuja origem desconheço e que, por razões igualmente ignoradas, ao invés de ser absorvida pelo imaginário popular, gerou revolta nos nisisflorestenses, conforme veremos abaixo.
Sobrinhas da Dona Iracema brincando próximas ao conjunto histórico de Nísia Floresta há quase 40 anos.
Normalmente, as perguntas que eu fazia para os nativos variavam conforme certas peculiaridades, conforme o caso dela, que, para mim, era a "guardiã daquele espaço". E a ela eu perguntei:  A senhora se lembra do dia da chegada dos restos mortais em 1954? Como era o terreno ou o espaço em frente à sua casa antes da construção desse monumento? Na época do sepultamento, as pessoas da comunidade já conheciam a história de Nísia Floresta ou a senhora e suas vizinhas aprenderam mais sobre ela por causa do monumento? Como é a rotina da senhora morando exatamente em frente ao túmulo de uma figura histórica tão importante? Quem são as pessoas que a senhora costuma ver visitando este local no dia a dia? Ao longo desses 37 anos, a senhora se lembra de o monumento ter passado por momentos de abandono ou por reformas importantes? Existe alguma tradição, homenagem ou celebração feita pelas mulheres ou pela comunidade aqui em frente ao túmulo em datas específicas? Para a senhora, a mudança do nome da cidade de Papary para Nísia Floresta mudou o seu orgulho de morar aqui?
Exemplar de túmulo antigo no Rio Grande do Sul, cujas correntes são um recurso ornamental amplamente empregado na arquitetura cemiterial.

Como folclorista nato, eu não poderia deixar de explorar as fronteiras do imaginário popular. Perguntei-lhe se pudesse escolher uma história ou caso curioso que aconteceu aqui em frente a este monumento nestes anos todos, qual seria? E como se trata de um túmulo às margens de uma estrada e levando em conta a imaginação fértil das pessoas, perguntei também se ela já ouviu alguma história de ‘malassombro’ relacionada ao túmulo de Nísia Floresta? A indagação despertou risos imediatos. Dona Iracema confessou que, embora brincasse que morar ali parecia viver dentro de um cemitério, lidava com aquilo com naturalidade absoluta, sentenciando com sabedoria popular: “Os mortos não mexem com ninguém. Quem faz mal aos outros são os vivos”. Nenhum de seus familiares jamais presenciara qualquer manifestação sobrenatural ali. Confesso que - obviamente sem imaginar que, no futuro, alguém pudesse criar uma história de malassombro envolvendo a figura de Nísia Floresta -, jamais supus que o malassombro criado pudesse ser exatamente sobre ela.

Até então, as demais famílias que eu pesquisava compartilhavam da mesma visão; nunca, em quase três décadas de estudo, emergiu qualquer narrativa que vinculasse Nísia Floresta a almas penada. Surpreendeu-me, portanto, uma mat´ria publicada em 2005 pela revista de circulação nacional Cláudia com tal informação.

Revista Cláudia, 2005.

Embora louvável o espaço concedido à escritora, o texto veiculava uma informação inusitada: afirmava que, no imaginário de Nísia Floresta, as correntes de ferro que circundam o monumento teriam sido instaladas para “impedir que a alma de Nísia saísse à noite para atacar os vivos”. Vejam se isso não é um devaneio, considerando que almas, segundo a tradição milenar, transpõem paredes e não há barreira que as impeçam de atravessar, portanto acreditar nisso soa como falta de cognição. Obviamente foi isso que gerou revolta em muitos nisiaflorestenses.

Professor Jorge Januário de Carvalho. Mais de meio século dedicado ao zelo pela história e memória de Nísia Floresta
A tese era hilária. Apresentei o artigo ao professor Jorge Januário de Carvalho, que reagiu com indignação. Para ele, tal afirmação subestimava o intelecto dos nisiaflorestenses; ele próprio, aos 58 anos de idade, jamais ouvira semelhante absurdo. Voltei a campo e consultei outros idosos, que receberam a história entre risadas e desmentidos.

Sabemos que as correntes em monumentos fúnebres possuem função estritamente ornamental ou de isolamento, servindo para evitar que os vivos pisem sobre o jazigo, nunca para enclausurar espíritos. Retornei a questionar Dona Iracema, então com 64 anos. Ela riu novamente e reiterou o que me dissera no início dos anos 1990. Nem ela, nem seus vizinhos, tampouco a família Paulino – cuja residência foi erguida simultaneamente à construção do túmulo – jamais ouviram tal lenda. Divertidos, os vizinhos até me disseram que estavam me dizendo aquilo para me “fazer medo”. Enfim, aquilo não fazia parte da cultura de Nísia Floresta.
Ao longo de todos esses anos, Dona Iracema jamais se furtou a colaborar com minhas pesquisas. Sempre me recebeu com atenção, paciência e uma generosidade rara, respondendo às minhas perguntas com espontaneidade e sinceridade, sem jamais demonstrar qualquer incômodo diante da insistência própria do ofício do pesquisador. Sua disposição em compartilhar lembranças, esclarecer dúvidas e preservar aquilo que sabia transformou-a em uma colaboradora de valor inestimável para o meu trabalho de História Oral. 

Residência da família Paulino, construída simultaneamente ao túmulo de Nísia Floresta

Grande parte da compreensão que hoje possuímos sobre a memoria social do conjunto histórico de Nísia Floresta, inegavelmente deve-se também à sua boa vontade em transmitir aquilo que viveu e ouviu de seus familiares. Por isso, minha gratidão para com Dona Iracema transcende o reconhecimento de um pesquisador: é a gratidão de quem encontrou, em sua casa e em sua acolhida, uma das mais sólidas correntes de ligação entre o passado e o presente.

Monumento em homenagem a Tavares de Lira, vendo-se as correntes que o revestem (Cais de Natal)
Nos últimos anos, acometida pela diabetes, Dona Iracema enfrentou o doloroso sofrimento da amputação da perna direita. Contudo, o amparo e o amor de sua família foram o bálsamo que lhe suavizou as provações, dando-lhe forças para aceitar uma realidade que, infelizmente, não era apenas sua, mas compartilhada por tantos outros. Com serenidade e coragem, venceu as adversidades e alcançou a dádiva dos 85 anos de vida. Partiu em paz, cercada pelo carinho e pelo amor de todos os que lhe eram queridos.
Ao tomar conhecimento do falecimento de Dona Iracema, essas memórias inundaram minhas recordações como água corrente. Ela foi parte indissociável e afetiva da minha jornada pela história de Nísia Floresta. Não poderia deixar de manifestar publicamente meu agradecimento e minhas condolências aos seus familiares. Embora meu blog já registre menções à sua importância, este tributo impõe-se como um dever de gratidão.
Dona Iracema cuidou com zelo do conjunto histórico de Nísia Floresta durante anos, fazendo-se merecedora do respeito de todos nós. Ontem, ela transpôs as correntes definitivas da existência, encerrando com dignidade sua missão terrena. À sua família, deixo meu abraço fraterno e a minha eterna gratidão...
Lúcia Elisa do Nascimento (In memorian): "A Menina do Vestido Roxo" riu bastante quando lhe perguntei se era verdade que a corrente no túmulo de Nísia era para evitar que ela saísse para assombrar as pessoas.