ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

KOSTER EM PAPARY E A "AUSÊNCIA" DE NÍSIA FLORESTA...

Imagem gerada por IA, inspirada no texto, sem comprometimento com a fidelidade

UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA

Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada.

Há certas páginas antigas que, quando reencontradas, parecem sair do silêncio dos arquivos para nos devolver não apenas uma informação, mas uma maneira de olhar para o passado. Foi assim que me deparei com um texto publicado na revista A Semana, em março de 1942, assinado por Henrique Gonçalves e intitulado “Um Governador do Século XVIII” (Leia-o, no final deste texto, ipsis literis). O título, por si só, poderia levar o leitor a imaginar que se trata apenas de mais uma narrativa de personagens da história luso-brasileira. Ele inicia o texto percorrendo esse universo curioso, lembrando marinheiros, soldados, governadores, poetas, juízes e outros personagens que, em diferentes momentos, receberam nomes que acabaram se tornando mais conhecidos do que os próprios nomes de batismo. Mas, à medida que o texto avança, ele entra num terreno muito mais interessante: os costumes, a moralidade, as festas, o teatro, os papéis sociais e, sobretudo, a posição da mulher na sociedade de outros tempos – única parte do texto que me interessou – porque é exatamente nesse movimento que surge, quase de passagem, o nome de Nísia Floresta e, com ele, uma referência a Henry Koster que, passados quase oitenta anos, merece ser novamente examinada.

 

Ele fala inicialmente das antigas comemorações, das “lamúrias”, dos fogos, do Te-Deum Laudamus e do teatro, que, segundo sua compreensão, era visto como instrumento de moralização. Recorda as representações religiosas, os autos de Anchieta, a presença do anjo e do diabo como personificações do prêmio e do castigo e, mais adiante, a chegada da comédia francesa ao Brasil. Lembra ainda que, em determinados períodos, as mulheres não subiam aos palcos, sendo seus papéis desempenhados por homens. A partir daí, sua reflexão deixa o teatro e passa para o espaço doméstico. É então que afirma que “a preservação da mulher dos meios masculinos se estendia pelo interior” e convoca Henry Koster como exemplo. Escreve Henrique:

“A preservação da mulher dos meios masculinos se estendia pelo exterior. Koster, por exemplo, não viu Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, ao visitar o pai dela, advogado. Época solene, onde o patriarca era senhor absoluto e autoritário. Tinha dentro de casa um pequeno reino. Não somente o negro lhe prestava a mais humilde obediência: também a mulher e as filhas eram vassalos incondicionais”.

É uma passagem forte, reveladora da mentalidade do autor e, justamente por isso, não deve ser simplesmente descartada. Ao contrário, ela precisa ser lida em seu contexto, porque nos mostra como, em 1942 (ano da publicação do texto), o autor interpretava a sociedade doméstica na qual nascera Nísia Floresta. O problema começa quando uma interpretação dessa natureza passa a ser tomada como se fosse uma constatação documental absoluta.

 

Há, nesse ponto, uma distinção que considero indispensável. O autor não escreveu que Nísia ainda não havia nascido. Escreveu que Koster “não viu N´sia Floresta”. São fatos completamente diferentes. A primeira seria uma afirmação cronológica; a segunda é uma afirmação sobre aquilo que o viajante teria ou não teria visto. A cronologia conhecida da vida de Nísia Floresta estabelece seu nascimento em 12 de outubro de 1810, no sítio Floresta, em Papary. O relato original de Henry Koster registra sua passagem por Papary durante sua viagem de 1810, quando esteve na propriedade de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, pai da futura escritora. O próprio Koster escreveu que Dionísio lhe apresentou sua esposa, descreveu a pequena propriedade no vale e registrou aspectos da hospitalidade que recebeu. A fonte primária, portanto, é muito mais rica do que a frase do referido autor. E é justamente aqui que a menção a Koster se torna, para mim, particularmente curiosa. Se o viajante inglês é chamado pelo autor do texto para servir de testemunha de um costume social, então é preciso ouvi-lo diretamente. Não basta ouvir aquilo que alguém escreveu sobre ele em 1942. É necessário voltar ao livro do próprio Koster, publicado originalmente em 1816. E quando fazemos isso encontramos uma cena doméstica bastante concreta. O viajante chega a Papary, conhece Dionísio, entra em sua casa, é apresentado à esposa do anfitrião, observa a propriedade, participa de uma refeição e permanece ali durante algum tempo. Koster escreveu, em seu inglês de viajante: “Senhor Dionisio introduced me to his lady; he is a native of Portugal, and she a Brazilian.” Em seguida, descreve a pequena propriedade no vale e registra inclusive os costumes da refeição que lhe foi oferecida.

 

Esse pequeno detalhe possui enorme significado. Não estou dizendo, evidentemente, que a casa de Dionísio fosse uma ilha de igualdade feminina num mundo dominado pelo patriarcado. Seria um absurdo interpretar assim um episódio isolado. O início do século XIX brasileiro estava profundamente marcado pela autoridade masculina, pela estrutura patriarcal da família e por inúmeras restrições impostas às mulheres. O que estou dizendo é outra coisa: quando se utiliza a visita de Koster para demonstrar que as mulheres estavam necessariamente afastadas dos homens estranhos, não se pode ignorar que o próprio viajante registra ter sido apresentado à esposa de seu anfitrião, ou seja, houve uma situação concreta que não corresponde integralmente à generalização posterior. Dona Antônia Clara Freire do Revoredo não ficou escondida na cozinha ou no quarto. E não foi uma quebra qualquer. O documento concreto, aquele que nasceu da experiência do viajante, é mais complexo do que a interpretação posterior.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA (DIONÍSIA GONÇALVES PINTO LISBOA). IMAGEM REAL DELA

Há, porém, um aspecto ainda mais revelador nessa passagem e que, a meu ver, precisa ser destacado. Tudo indica que Henrique Gonçalves desconhecia a idade de Nísia no momento da visita de Koster (pelo menos isso fica claro, mesmo que ele não o tenha dito com todas as letras). Ao construir seu argumento, ele dá a entender que Nísia poderia ser compreendida dentro da mesma lógica das moças e mulheres da casa que, segundo sua interpretação dos costumes da época, deveriam ser preservadas dos olhos masculinos e da presença de homens estranhos. Mas Nísia não era uma moça. Era uma criança de colo, que faria apenas um mês de vida. E essa diferença muda inteiramente o sentido da passagem. Se a preocupação de Gonçalves era demonstrar que mulheres e moças eram mantidas afastadas da vista masculina, a presença de um bebê no interior da casa não se enquadraria necessariamente nessa regra. Afinal, qual seria o problema de um homem adulto ver uma criança do sexo feminino de apenas um mês de idade? A questão, portanto, não é simplesmente saber se Koster viu ou não viu Nísia, mas perceber que o autor de 1942 parece ter construído sua interpretação sem conhecer – ou sem considerar – esse dado elementar da cronologia. Ao aproximar Nísia da condição de uma “moça” que precisaria ser escondida dos olhos de um estrangeiro adulto, ele acaba projetando sobre um bebê uma regra de comportamento que faria sentido para mulheres jovens, mas que não necessariamente se aplicaria a uma criança recém-nascida. Essa parece ser uma das fragilidades mais significativas de sua argumentação. O autor parece partir da ideia geral de que, naquele universo doméstico, as moças eram protegidas dos olhares masculinos e, ao encontrar a informação de que Koster não registrou Nísia, encaixa o episódio nessa explicação.. Entretanto, ao que tudo indica, ele não percebeu que a criança a que se referia ainda era um bebê. E, se não conhecia essa circunstância, sua interpretação torna-se ainda mais frágil, porque passa a explicar a ausência de Nísia a partir de uma condição social que não correspondia à sua idade naquele momento.

 

E aqui chegamos ao ponto que considero essencial na leitura do texto da revista de 1942. Ele não estava escrevendo uma biografia de Nísia Floresta. Seu objetivo era totalmente outro. Estava falando das alcunhas, das cerimônias, do teatro, da moralidade e dos costumes sociais. Nísia aparece como exemplo isolado dentro de uma argumentação muito mais ampla sobre a posição da mulher. Isso explica o tom categórico da passagem. Para o autor, Koster não ter registrado Nísia era uma ilustração conveniente de sua ideia de que a mulher permanecia preservada do contato masculino. Mas a História, muitas vezes, é menos obediente às interpretações do que gostaríamos. O documento primário não diz tudo aquilo que uma interpretação posterior gostaria que ele dissesse. Há, inclusive, algo de profundamente interessante na passagem do equivocado autor: ele descreve a casa patriarcal como um “pequeno reino”, no qual o patriarca seria “senhor absoluto e autoritário” e no qual mulher e filhas seriam “vassalos incondicionais”. A imagem é poderosa e literariamente expressiva, mas não deixa de ser uma construção interpretativa. Ela pode ajudar-nos a compreender a percepção de Gonçalves sobre a sociedade antiga, mas não deve ser automaticamente aplicada, em sua totalidade, à casa de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa. Para isso precisaríamos de mais documentos, mais testemunhos e mais elementos capazesde reconstruir o cotidiano daquela família. E, quando encontramos uma fonte primária como Koster registrando a apresentação da esposa de Dionísio ao visitante, somos obrigados a introduzir uma nuance que o autor do texto não introduziu.

 

É justamente essa nuance que considero necessária quando se escreve sobre Nísia Floresta. A pesquisa sobre sua infância não pode ser construída apenas sobre imagens posteriores da escritora adulta. Não podemos olhar para a mulher que, décadas depois, se tornaria uma das grandes vozes femininas do Brasil oitocentista e projetar retroativamente sobre sua infância todas as características de sua personalidade madura. Da mesma maneira, não podemos pegar uma interpretação de 1942 e tratá-la como fotografia fiel de uma casa existente em 1810. Há quase um século entre o acontecimento e o texto de 1942. Nesse intervalo, mudaram os costumes, mudaram as ideias, mudaram as maneiras de interpretar o papel da mulher e mudaram também as formas de escrever História. É justamente por isso que considero tão importante trazer à luz esse velho artigo publicado há 84 anos. Ele não deve ser destruído pela crítica; deve ser salvo por ela. É uma fonte interessante não apenas pelo que afirma sobre Nísia Floresta, mas pelo modo como um intelectual de 1942 enxergava a sociedade brasileira dos séculos anteriores. Seu texto revela uma determinada concepção de autoridade patriarcal, de moralidade, de teatro, de costumes e de comportamento feminino. Quando menciona Koster, ele está fazendo muito mais do que registrar uma passagem de viagem: está utilizando o viajante como testemunha para construir uma interpretação da sociedade. E é precisamente essa operação que devemos examinar.

 

Existe ainda outro aspecto que torna a passagem particularmente saborosa para quem pesquisa a história de Papary. Henry Koster não passou simplesmente por um lugar qualquer. Ele esteve diante de uma pequena comunidade que descreveu com interesse e simpatia. Viu a paisagem do vale, falou sobre a lagoa, observou os pescadores chegando, comparou aquela pequena movimentação ao mercado de peixes de Billingsgate, em Londres, e registrou a hospitalidade que encontrou na residência de Dionísio. Papary aparece em suas p´ginas como uma localidade viva, com suas águas, seus pescadores, seus habitantes dispersos e sua pequena economia. E, dentro desse cenário, estava a família de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, justamente a família na qual havia nascido Dionísia Gonçalves Pinto, aquela que o futuro conheceria pelo nome de Nísia Floresta Brasileira Augusta. O que mais me chama a atenção, entretanto, é a facilidade com que uma frase como “Koster não viu Nísia Floresta” pode, ao longo do tempo, ser transformada em uma certeza muito maior do que a fonte permite. Não viu porque não a registrou? Não viu porque ela estava afastada? Não viu porque era uma criança de colo? Não viu porque não estava presente naquele momento? O documento não responde a essas perguntas. E é exatamente aqui que devemos parar. Não temos o direito o direito de preencher o silêncio documental com uma certeza inventada apenas porque ela parece combinar com uma teoria.

 

Há, portanto, uma diferença enorme entre aquilo que sabemos e aquilo que podemos imaginar. Sabemos que Nísia nasceu em 12 de outubro de 1810. Sabemos que Koster esteve em Papary durante sua viagem daquele ano. Sabemos que esteve na residência de Dionísio. Sabemos que Dionísio lhe apresentou sua esposa. Sabemos que o inglês registrou a hospitalidade daquela família. Sabemos também que Gonçalves, em 1942, escreveu que Koster não viu Nísia Floresta. O que não sabemos, com segurança documental, é se Koster efetivamente olhou para a criança, se a tomou nos braços, se ouviu seu nome ou se simplesmente não teve contato direto com ela. Essa parte pertence ao território do silêncio histórico. E talvez seja justamente esse silêncio que torne o episódio tão fascinante. Imagine-se a cena, mas sem inventá-la: uma pequena propriedade no vale de Papary, um viajante inglês chegando depois de atravessar caminhos difíceis, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa recebendo o estrangeiro, Antônia Clara presente naquela casa e, em algum ponto daquela mesma existência doméstica, uma criança recém-nascida chamada Dionísia. O visitante não poderia imaginar que aquela criança, ainda sem qualquer importância para os olhos do mundo, se transformaria em Nísia Floresta Brasileira Augusta. Koster estava registrando uma pequena passagem de sua viagem; a História, entretanto, acabaria transformando aquela visita numa das primeiras referências documentais à família da futura escritora.

 

Por isso, considero que a frase do autor equivocado deve ser preservada, mas também confrontada. Ela é preciosa como documento de 1942, porém insuficiente como prova absoluta sobre o que aconteceu naquela residência em 1810. O erro não está necessariamente na existência da frase; está naquilo que se pretenda fazer com ela. Se alguém disser que ele registrou que Koster não viu Nísia, estará reproduzindo a fonte. Se alguém disser que, por causa disso, Nísia ainda não havia nascido, estará indo muito além do que Gonçalves escreveu e, sobretudo, contrariando a cronologia biográfica estabelecida. Se alguém afirmar que Koster não teve qualquer contato com mulheres da casa, estará igualmente ignorando o testemunho do próprio viajante, que registra ter sido apresentado à esposa de Dionísio. E aqui está, talvez, a grande lição desse pequeno episódio: uma fonte não deve ser usada contra outra fonte; as fontes devem conversar entre si. O artigo nos oferece a interpretação de 1942. Koster nos oferece o testemunho da viagem. A cronologia biográfica nos informa quando Dionísia nasceu. Cabe ao pesquisador colocar essas peças sobre a mesa e deixar que elas revelem, juntas, aquilo que cada uma isoladamente não consegue mostrar. O artigo de 1942 é uma dessas pequenas peças que, encontradas quase por acaso em uma velha revista, ajudam a reconstruir a própria história da memória. O texto fala de governadores, de apelidos, de teatro, de costumes e de mulheres, mas, de repente, quase como quem abre uma janela por alguns segundos, deixa entrar o nome de Nísia Floresta. E é justamente essa janela que hoje podemos reabrir, desta vez com os documentos na mão.

 

A minha refutação, portanto, não é contra o valor histórico do artigo. É contra a aceitação automática de sua interpretação. O autor escreveu a partir dos valores, conhecimentos e referências disponíveis naquele momento. Nós, após 84 anos, temos a obrigação de voltar às fontes e verificar o que pode ou não ser sustentado. E quando fazemos isso percebemos que a frase sobre Koster é muito mais delicada do que parece. O viajante pode não ter registrado Nísia; isso é uma coisa. Transformar esse silêncio em prova de que ela não existia ou em explicação definitiva sobre sua ausência é outra, inteiramente diferente. Há ainda uma ironia que não posso deixar de registrar. Koster, convocado por Henrique para ilustrar o isolamento feminino, deixou justamente um testemunho que mostra uma mulher da casa sendo apresentada ao visitante. E a criança que não aparece nominalmente em suas páginas já estava, segundo a cronologia conhecida, no mundo quando o viajante esteve ali. Nísia faria um mês de vida. O futuro, como quase sempre acontece, estava escondido no detalhe. Naquele momento, ninguém poderia saber que aquela pequena Dionísia seria a mulher que atravessaria o Atlântico, publicaria livros, enfrentaria preconceitos, defenderia a educação feminina e ocuparia um lugar singular na história intelectual brasileira.

 

Pois bem, uma revista de 1942, uma página amarelada, uma frase sobre um viajante inglês, um nome grafado como “Nizia Floresta”, um diário publicado em Londres em 1816 e uma data de nascimento podem parecer elementos dispersos. Mas, quando colocados lado a lado, eles formam uma pequena constelação documental. E é nessa constelação, entre o que está escrito e o que permaneceu silencioso, que podemos reencontrar a verdadeira dimensão daquele episódio. Henrique merece, portanto, ser lido. Henry Koster merece ser relido. E Nísia Floresta merece que ambos sejam confrontados. Porque a História não se faz repetindo uma frase antiga como se ela fosse uma sentença definitiva. Faz-se perguntando de onde veio a frase, em que contexto foi escrita, o que a fonte original realmente diz e o que as datas permitem afirmar. No caso de Nísia Floresta, essa cautela é ainda mais necessária, porque sua própria vida foi marcada pela ruptura de muitos dos limites sociais que, posteriormente, tantos autores procuraram explicar. Talvez por isso a menina que nasceu no sítio Floresta seja ainda hoje tão resistente às interpretações fáceis.

 

E quanto à afirmação do texto de 1942, fica a necessária reparação: ele escreveu que Koster não viu Nísia Floresta; não escreveu que ela ainda não havia nascido. Essa diferença deve ser respeitada. Sabemos que, durante algum tempo, mesmo que já existissem referências datando o nascimento de Nísia em 12 de outubro de 1810, muitos ainda pensavam – equivocadamente –  que ela havia nascido em 1809, portanto poderia surgir a pergunta: “como Koster não viu uma criança que já contava com mais de um ano de idade?”. Mas isso não é dito no texto. A cronologia do nascimento de Dionísia em 12 de outubro de 1810 e a passagem de Koster por Papary naquele mesmo ano impedem que acrescentemos à fonte uma conclusão que ela não contém. Se Koster efetivamente viu ou não aquela criança, a documentação disponível não nos permite afirmar com absoluta segurança. E talvez seja justamente essa a resposta mais honesta que a História pode oferecer: não preencher a lacuna com imaginação, mas deixá-la aberta, como uma pequena janela para um passado que, felizmente, ainda podemos continuar investigando.

EIS O TEXTO ORIGINAL, IPSIS LITERIS:

UM GOVERNADOR DO SECULO XVIII

HENRIQUE GONZALVES

De onde vieram os apelidos ou as alcunhas em Portugal? Possivelmente dos marinheiros e soldados, gente de origem obscura, que a troco da liberdade se dispunham a enfrentar a cólera dos Oceanos. Já em fins do século XV havia um navegador afamado que tinha o apelido de Bofes de Bugaço. O médico da frota de Cabral, em carta a D. Manuel, se refere a outro, de antonomásia o Bicupudo. O próprio Camões não deixou de ter a sua alcunha: chamavam-no Trinca-Fortes. Por certo meteu os dentes nalgum criado del-rei. Os documentos do Santo Ofício em Pernambuco, em fins de 1500, já nos falam sobre a existência de indivíduos com alcunhas, como Alma de Baratuzza e Boas Noites, nomes por que eram mais conhecidos, segundo o depoimento dos que vieram à mesa da Inquisição.

Um caso interessante passado na Bahia, em 1593, nos mostra como nascia um apelido. Depôs certa pessoa junto ao delegado inquisitorial Heitor Furtado de Mendonça. Falou com gravidade. Disse que havia uma mulher que era bruxa; à noite transformava-se em marreca e saía pelas encruzilhadas assustando os transeuntes. Numa das ocasiões, o depoente estava à janela conversando com o vigário da Igreja de N. S. da Vitória quando ela passou. O padre, indicando-a com o dedo, disse muito convencido: - Lá vai Dona Patinha!

Alguns anos depois vem à mesa a testemunha, grave e memorativa, a contar a brincadeira do vigário, que talvez tenha crismado a pobre mulher de D. Patinha, agravando sem querer a situação dela. No século XVIII, na mesma Bahia, houve um governador que nos fins do seu governo saiu apelidado de "Braço de Prata". Ao governador de Minas Gerais, Luiz da Cunha Menezes, antes da Inconfidência, os poetas puseram a alcunha de "Fanfarrão Minésio". A um dos juízes do tribunal encarregado de julgar os Inconfidentes, Antonio Diniz da Cruz e Silva, cognominaram "Corvo do Mondego". Os apelidos portugueses transpuseram os mares. Vieram perpetuar-se neste lado do Atlântico com aquelas características que assinalavam e definiam os seus portadores: um nome ridículo que mais condizia com a personalidade do alcunhado…

As comemorações antigas, segundo costumes da época, eram constituídas pelas luminárias (o que hoje denominamos simplesmente fogos), do Te-Deum Laudamus e do drama. O teatro, no tempo, considerava-se um meio de pregar com exemplos os atos da mais nobre moralidade. Em Pernambuco, em 1585, em sinal de graça pela partida dos corsários Lancaster e Venner, era levado a efeito o drama "Quem tem farelo?" ou o "Lázaro Pobre", atribuído a Bento Teixeira. Anchieta tornava agradável a representação dos autos por ele compostos, imprimindo-lhes a graça de Gil Vicente. Eram leves, não fatigavam o indouto. As representações tinham um cunho moralizador: o prêmio do bom e o castigo do mau. Um anjo se encarregava do primeiro, e o diabo do segundo.

Mais tarde se instala a comédia francesa no Brasil, que encontra no espírito aprimorado e culto da época o melhor acolhimento. Não faltava a Casa da Ópera, tanto que eram dois os teatros na Corte do Segundo Império: o francês e o italiano. Uma moral severa presidia as coisas: mulheres não representavam no palco. O papel destas era desempenhado por homens. Tal costume verificava-se na Inglaterra no século XVIII e em Portugal de D. Maria I. Um humorista viu, em 1684, na corte de D. Pedro II, homens na ribalta substituindo artistas do sexo feminino. A presença da mulher em meios masculinos não se estendia pelo interior. Koster, por exemplo, quando visitou o Rio Grande do Norte, não viu Nísia Floresta, cujo pai recém-adquirira terras. Época solene quando o patriarca era senhor absoluto e autoritário. Tinha dentro de casa um pequeno reino. Não só exigia da mulher a mais humilde obediência: também a mulher e as filhas eram vassalos incondicionais.

Neste ambiente, severo de um lado e ridículo de outro, em que figuravam tipos como Paulo da Gama, governador do Rio Grande do Sul, surgiam as mais curiosas histórias. Este vinha substituir José Marcelino de Figueiredo, que, em verdade, não era nem José, nem Marcelino, nem Figueiredo. Chamava-se Manoel Gomes de Sepúlveda. Era general do exército português. Segundo Augusto Porto Alegre em seu livro, ele refugiara-se no extremo sul do Brasil com um nome suposto. Os ingleses, que costumavam estar com frequência no Porto de S. Pedro do Sul nesse tempo, não encontrariam com facilidade José Marcelino, travestido de governador. Fundador de Porto Alegre, o governador José Marcelino maldira um oficial inglês na Europa... (Nota: O texto original terminava sugerindo o motivo de sua fuga e o apelido "O Lentilhas" que dá título à crônica).

terça-feira, 22 de setembro de 2026

FRANCISCA HENRIQUE, HENRIQUE CASTRICIANO, NÍSIA FLORESTA E A ARTE DE VIAJAR PARA TRANSFORMAR...

 

Hoje, ao cutucar a tela do meu celular, deparei-me com uma postagem da professora Francisca Henrique que me causou uma dessas surpresas boas que, vez por outra, nos chegam aparentemente do nada pelo Instagram. Vi que ela esteve na Estônia e Finlândia, em caráter de estudo e pesquisa sobre a Educação daqueles países. No vídeo, uma moça lhe pergunta: “O que foi passar uma semana na Estônia?”. E Francisca responde: “Foi algo surpreendente... me tornou uma pessoa cheia de esperança pra colocar em prática noventa por cento do que eu observei, do que eu ouvi, das visitas que fiz... Criei repertório, novas experiências e pra isso eu estou voltando para a escola com um novo olhar do que eu posso transformar para o bem da minha equipe de professores, dos meus alunos e das famílias. É um modelo que dá para ser muito bem aplicado na realidade do Brasil. É por isso que eu estou aqui e sou grata a futuros eventos, por essa ideia e por esse convite”. Fiquei olhando a imagem da professora Francisca e imaginando o quanto a educação é extraordinária. E pensei imediatamente em outro norte-rio-grandense que, mais de um século atrás, também atravessou o oceano movido pela mesma inquietação: Henrique Castriciano. E foi então que percebi que aquela viagem de Francisca à Finlândia e à Estônia não era apenas uma notícia sobre uma educadora contemporânea. Havia ali uma história que conversava com outra história, e ambas se encontravam no mesmo ponto: o desejo de conhecer o que existe de melhor no mundo para trazer alguma coisa de volta à terra natal.

Em 1909, Henrique Castriciano viajou à Europa, já doente, mas não deixou de ampliar suas pesquisas sobre educação, especialmente sobre a educação feminina. Na Suíça, em Friburgo, visitou a École Ménagère, instituição que lhe causou profunda impressão e que se tornaria uma das grandes inspirações para aquilo que realizaria posteriormente em Natal. Não foi uma viagem de turista. Castriciano observou, estudou, procurou compreender o funcionamento daquele modelo e voltou para o Rio Grande do Norte carregando na cabeça uma ideia que, para a época, era extraordinariamente ousada. Ele acreditava que a educação poderia modificar a sociedade e que a mulher deveria ocupar papel fundamental nesse processo. A experiência suíça não ficou perdida entre as lembranças de uma viagem europeia. Em 23 de julho de 1911, ele participou da criação da Liga de Ensino do Rio Grande do Norte e, em 1º de setembro de 1914, surgia a Escola Doméstica de Natal, inspirada na experiência da escola suíça de Friburgo, tornando-se posteriormente uma das instituições educacionais femininas mais respeitadas do Brasil. Castriciano havia feito aquilo que Francisca acaba de fazer: olhou para fora, estudou uma realidade diferente e perguntou a si mesmo como aquele conhecimento poderia servir à sua pr´pria terra.

Há, porém, um detalhe ainda mais bonito nessa história. Henrique Castriciano não foi à Europa apenas para estudar instituições de ensino. Ele era também um educador profundamente interessado em Nísia Floresta. A admiração que nutria pela grande educadora, escritora e pensadora nascida em Papary foi tão intensa que se transformou em uma verdadeira paixão intelectual. Castriciano pesquisou durante anos a vida de Nísia, procurou documentos, examinou bibliotecas, entrevistou pessoas e manteve correspondência com familiares da escritora. Chegou a estabelecer contato com Lívia Augusta, filha de Nísia, já idosa, que lhe confiou fotografias, documentos e informações preciosas sobre a mãe. Castriciano reuniu durante anos um farto material com a intenção de escrever uma biografia de Nísia Floresta. A doença, entretanto, impediu que concluísse o trabalho. Generosamente, transferiu grande parte desse acervo para Adauto da Câmara, que publicou em 1941 a sua História de Nísia Floresta. É uma das passagens mais bonitas da história intelectual do nosso Estado, porque revela que o conhecimento, quando tratado com grandeza, não pertence a quem o recolhe. Ele pertence à posteridade.

E por que estou falando de Henrique Castriciano quando deveria estar falando de Francisca Henrique? Porque há pessoas que parecem atravessar o tempo através das ideias. Castriciano e Francisca nasceram em épocas completamente diferentes, viveram circunstâncias distintas e construíram suas trajetórias em mundos que não podem ser comparados mecanicamente. Mas existe entre eles uma afinidade que considero extraordinária: ambos compreenderam que educar exige inquietação. Nenhum dos dois parece ter se contentado em administrar aquilo que já sabia. Castriciano atravessou o oceano para conhecer uma experiência educacional que pudesse ajudar a transformar o Rio Grande do Norte. Francisca atravessou o oceano para conhecer experiências educacionais que possam ajudar a transformar sua escola, sua equipe de professores, seus alunos e suas famílias. Ele voltou da Suíça trazendo um projeto. Ela retorna da Finlândia e da Estônia trazendo repertório, experiências e esperança. Ele criou. Ela continua criando. Ele olhou para a Europa e pensou no futuro da educação potiguar. Francisca olha para o norte da Europa e pensa no futuro da educação em Parnamirim e no Brasil.

Mas existe ainda uma terceira personagem nessa história, e talvez seja justamente aquela que torna tudo mais bonito para mim: Nísia Floresta Brasileira Augusta. Tenho uma relação familiar com Nísia e, por isso, talvez eu não consiga falar dela com a distância de um historiador. Há uma dimensão afetiva que inevitavelmente se mistura à intelectual. Nísia foi uma mulher que não aceitou as limitações impostas pelo seu tempo. Educadora, escritora, jornalista e filósofa, percorreu diversos países da Europa e fez das viagens uma extensão de sua atividade intelectual. Não viajava apenas para ver. Viajava para conhecer, observar, pensar, escrever e comparar. Levava consigo perguntas e voltava com novas perguntas. Sua vida foi uma permanente procura por conhecimento. Quando penso nisso, e depois vejo Francisca Henrique retornando da Finlândia e Estônia cheia de entusiasmo, e que volta para a escola com um novo olhar, não consigo deixar de perceber uma espécie de parentesco espiritual entre essas mulheres, não no sentido genealógico, mas naquele território mais profundo em que vivem as pessoas que se recusam a permanecer intelectualmente paradas.

A história pessoal de Francisca torna essa comparação ainda mais significativa. Conheço sua trajetória e já escrevi sobre ela em meus blogs. Li e reli o seu relato autobiográfico e cada vez mais me convenço de que sua vida é uma das histórias mais lindas que conheci. Francisca nasceu em um contexto de grandes dificuldades materiais. Viveu numa casa humilde, conheceu o galpão de palha, perdeu cedo o pai e encontrou na mãe, Regina, uma dessas mulheres extraordinárias que parecem possuir dentro de si uma usina de força. Seu ensino fundamental foi feito praticamente em casa, de maneira autodidata, orientada pelo irmão que a alfabetizou. Aos dez anos já dominava a escrita e fazia todas as operações matemáticas. Aos quinze, resolvia contas avançadas. Quando foi para São Paulo, passou a visitar escolas, museus e instituições públicas sempre que tinha oportunidade. Ela própria diz que era praticamente um vício. Bastava sobrar tempo e lá estava ela dentro de um educandário, perguntando tudo. É impossível não perceber que aquela Francisca que hoje viaja à Finlândia e à Estônia já estava ali, décadas atrás, entrando nas escolas simplesmente para perguntar, observar e aprender.

De volta a Parnamirim, continuou estudando e trabalhando. Tornou-se professora, fez o Logus II, ingressou na UFRN em 1987 e concluiu o curso de Letras em 1991. Seu estágio foi realizado com o método Paulo Freire, experiência que a marcou profundamente. Depois, levou para Parnamirim projetos educacionais voltados à formação de jovens e adultos e percorreu escolas de todo o município orientando e formando professores. Muitas vezes, em razão da precariedade das condições daquele período, chegou a utilizar uma ambulância para alcançar as escolas. Aquilo que poderia parecer uma dificuldade tornou-se, para ela, um laboratório de aprendizagem. E talvez tenha sido justamente ali que se consolidou a educadora que mais tarde criaria uma das instituições de ensino mais conhecidas de Parnamirim. Em 1991 fundou o Núcleo Educacional Arco-Íris, inaugurado no ano seguinte com 120 alunos. Onze anos depois, a instituição passou a chamar-se PH3, nome que homenageia seus dois filhos e que Francisca também associa às ideias de Potencial Humano ao Cubo, Paz e Harmonia.

É impossível conhecer essa história e enxergar Francisca apenas como uma empresária da Educação. Antes da empresária existiu a menina que estudava sozinha, a balconista da Loja Cardoso cujos tecidos se confundiam com livros e cadernnos em seu horário de descanso, a mulher que buscava ampliar seus conhecimentos, a professora que percorria escolas, a universitária que estudava de madrugada enquanto embalava a filha, a educadora que levou Paulo Freire para Parnamirim e a mulher que transformou suas próprias dificuldades em combustível para construir alguma coisa maior. O PH3 não nasceu simplesmente de uma decisão empresarial. Nasceu de uma longa gestação intelectual e humana. Por isso, quando Francisca viaja para estudar sistemas educacionais em outros países, eu não vejo uma empresária fazendo uma viagem internacional. Vejo aquela mesma menina que, muitos anos atrás, queria saber mais e que nunca perdeu o hábito de perguntar.

Francisca é hoje proprietária do PH3 e também está à frente de uma franquia do Colégio Mappem Bear em Parnamirim. Ao longo dessa caminhada, acumulou prêmios, homenagens e reconhecimentos, mas talvez nenhum deles explique completamente quem ela é. Há pessoas cuja grandeza pode ser medida pelos diplomas que recebem. Outras, pelos prédios que constroem. Outras, ainda, pelo número de alunos que passaram por suas escolas. Francisca pode ser observada por tudo isso, mas existe algo que me parece mais importante: ela não parou. Mesmo depois de construir uma trajetória respeitável, continua viajando para aprender. Continua procurando novidades. Continua perguntando. Continua inquieta.

E essa inquietação recentemente ganhou também uma dimensão cultural. Em 10 de novembro de 2025, Parnamirim viveu um momento importante com a criação da Academia de Letras e Artes de Parnamirim, iniciativa ligada à própria Francisca Henrique. É como se a educadora que construiu uma escola tivesse decidido que Parnamirim precisava também de uma casa para as letras, para as artes, para a memória e para a inteligência. Não é dif´cil compreender esse movimento quando se conhece sua trajetória. Francisca sempre parece ter acreditado que educação não é apenas transmissão de conteúdo. Educação é construção humana. É cultura. É memória. É curiosidade. É possibilidade.

Talvez por isso eu veja tanta beleza nessa sucessão de acontecimentos. Nísia Floresta viajou pelo mundo como educadora e pensadora. Henrique Castriciano atravessou o Atlântico, foi à Suíça conhecer uma experiência educacional e trouxe para Natal a inspiração que ajudaria a produzir a Escola Doméstica. Ao mesmo tempo, dedicou anos de sua vida à preservação da memória de Nísia, recolhendo documentos e informações que poderiam ter desaparecido para sempre. Agora Francisca Henrique viaja à Finlândia e à Estônia, observa escolas, bibliotecas, órgãos educacionais, escuta pessoas, conhece métodos, cria repertório e retorna dizendo que pretende colocar em prática grande parte do que viu. São histórias diferentes, evidentemente, mas há entre elas um fio que não consigo deixar de perceber: o conhecimento não como ornamento, mas como instrumento de transformação.

Francisca Henrique não é apenas uma empresária que fundou uma escola, recebeu prêmios e construiu uma carreira bem-sucedida. É a menina de Vera Cruz que conheceu a pobreza, viveu numa casa de taipa, teve um galpão de palha como parte da paisagem da infância e, em vez de permitir que aquelas circunstâncias determinassem seu futuro, transformou cada dificuldade em tijolo e argamassa e nunca deixou de construir. Francisca é a filha da dona Regina, a professora, a mãe, a esposa, a universitária que estudava de madrugada, a educadora que percorria escolas, a mulher que criou o PH3 e que, mesmo depois de tudo isso, continua olhando para o mundo em busca de alguma coisa nova que possa trazer para casa.

Quando Francisca diz que a viagem à Estônia lhe deu esperança, essa palavra me chama especialmente a atenção. Esperança, para ela, não parece ser espera. É movimento. É trabalho. É transformação. É voltar para a escola com um novo olhar e perguntar o que pode ser feito de maneira diferente. Foi assim com Castriciano. Ele não voltou da Suíça apenas encantado com o que viu. Voltou determinado a fazer. Foi assim com Nísia, que transformou suas experiências de vida e de viagem em pensamento, livros e ação educacional. E é assim que vejo Francisca: uma mulher que viaja para aprender, aprende para transformar e transforma para deixar alguma coisa de melhor para aqueles que vêm depois.

Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual aquela postagem que vi no meu celular tenha me causado tanto orgulho. Francisca Henrique não estava simplesmente dizendo que havia gostado da Estônia. Estava dizendo que havia voltado com novas ideias para produzir frutos em Parnamirim. E nisso existe uma lição que Henrique Castriciano compreendera mais de um século atrás e que Nísia Floresta parecia compreender ainda antes dele: não há fronteira para quem procura conhecimento.

Francisca Henrique é, para mim, uma dessas pessoas inquietas que honram a cidade onde nasceram e construíram sua vida. Uma mulher que não se contenta com o que já fez, que não permite que o tempo a desatualize e que parece ter sempre uma nova porta para abrir. Se Parnamirim tem uma história feita de pioneiros, de homens e mulheres que colocaram tijolo sobre tijolo para construir a cidade, Francisca é uma dessas construtoras. Só que os seus tijolos são também escolas, professores, alunos, academia, livros, ideias, cultura, arte e projetos. Ela vem colocando esses tijolos há décadas.

E foi por isso que, ao vê-la na Estônia, pensei em Henrique Castriciano na Suíça e em Nísia Floresta atravessando fronteiras. Pensei que as cidades são feitas de ruas, casas, prédios e monumentos, mas sua verdadeira grandeza é construída por pessoas que têm coragem de imaginar aquilo que ainda não existe. Castriciano imaginou uma nova educação para o Rio Grande do Norte. Nísia imaginou uma mulher diferente para o Brasil. Francisca continua imaginando uma educação melhor para seus alunos, seus professores, suas famílias e para a cidade que escolheu como sua.

Algumas vidas não devem ficar apenas na memória de quem as conheceu. Precisam ser contadas. Francisca Henrique merece ser contada numa bela biografia. E, enquanto esse dia não chega, fico feliz em registrar aqui esse tão representativo fragmento que encontrei numa tela de celular.E, talvez sem perceber, Francisca Henrique continua fazendo aquilo que fizeram antes dela os grandes espíritos que compreenderam que viajar não é apenas mudar de lugar. Viajar é ampliar o mundo dentro de si para, depois, ter coragem de transformar o mundo à sua volta. Parabéns, Francisca!

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

AUTA DE SOUZA, ELÓI E HENRIQUE CASTRICIANO: UMA SAPIENTÍSSIMA TRINDADE QUE ORGULHA O RIO GRANDE DO NORTE.

Auta de Souza

A história da literatura, da educação e do acolhimento social no Brasil guarda um capítulo profundamente tocante que une o lirismo místico do Rio Grande do Norte ao trabalho intelectual, político e educacional de uma família extraordinária, revelando como a inteligência, a sensibilidade e a capacidade de servir podem romper as barreiras do tempo. No centro dessa história estão três irmãos de cérebros privilegiados - Auta, Elói e Henrique Castriciano de Souza -, que, por caminhos diferentes, deixaram marcas profundas na cultura e na vida social do Rio Grande do Norte e do Brasil.

Auta de Souza, a poetisa potiguar nascida em Macaíba em 12 de setembro de 1876, teve uma existência breve e dolorosa, transformada, porém, em uma das mais belas expressões da poesia mística brasileira. Órfã de pai e mãe antes de completar quatro anos de idade e marcada ainda pela perda trágica de um irmão em um acidente doméstico com pólvora, passou, juntamente com os irmãos, aos cuidados da avó materna, Silvina Maria, carinhosamente chamada de Dindinha, em uma chácara no Recife, onde receberam educação esmerada. Foi nesse ambiente, entre perdas familiares, formação intelectual e profunda religiosidade, que se desenvolveu uma das mais brilhantes gerações de intelectuais do Nordeste.

Ao lado de Auta estavam dois irmãos igualmente extraordinários. Eloi Castriciano de Souza, o mais velho, tornou-se jornalista, escritor e influente homem público, exercendo mandatos como deputado estadual, deputado federal e senador da República. Sua atuação ultrapassou a política partidária e alcançou questões centrais para o desenvolvimento do Nordeste. Homem atento aos avanços científicos de seu tempo, dedicou-se especialmente ao problema das secas e à busca de soluções t´cnicas e administrativas capazes de enfrentar o drama que castigava o sertão. Sua trajetória revela um intelectual que procurou colocar o conhecimento a serviço de problemas concretos da sociedade.

Henrique Castriciano de Souza

Henrique Castriciano, por sua vez, foi poeta, escritor, teatrólogo e homem público, além de vice-governador do Rio Grande do Norte. Sua maior marca, entretanto, talvez esteja na educação e na cultura. Visionário e atento às experiências educacionais desenvolvidas no exterior, tornou-se um dos principais responsáveis pela criação da Escola Doméstica de Natal, instituição pioneira que marcou a história da educação potiguar. Também participou da criação da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e teve atuaçãorelevante na difusão do escotismo no estado. Sua obra demonstra uma convicção que atravessou toda a sua vida: a de que a educação e a cultura eram instrumentos essenciais para transformar uma sociedade. É impossível olhar para esses três irmãos apenas como indivíduos isolados. Há entre eles uma extraordinária complementaridade de talentos. Auta transformou a dor em poesia e espiritualidade; Elói procurou transformar conhecimento em ação política e respostas para os grandes problemas sociais do Nordeste; Henrique converteu suas inquietações intelectuais em educação, cultura e instituições destinadas a sobreviver às gerações. Três caminhos diferentes, mas uma mesma vocação: servir à humanidade por meio da inteligência.

Cercada por esse ambiente de profunda efervescência intelectual, mas também pela fragilidade da saúde familiar, Auta encontrou na escrita e em uma fé cristã inabalável o seu refúgio, sem abandonar os sonhos de amor, lar e maternidade tão próprios de uma jovem de seu tempo. A tuberculose, entretanto, interrompeu precocemente sua existência. Aos 24 anos, deixou como principal legado literário Horto, publicado em 1900, com prefácio de Olavo Bilac. Em seus versos, melancolia, sofrimento, esperança e devoção se entrelaçam, como se a poeta transformasse suas próprias dores em uma prece permanente de consolo e transcendência.

ELOI CASTRICIANO DE SOUZA

Auta morreu em 1901, mas sua presença não desapareceu. Sua obra continuou sendo lida e reverenciada, e, posteriormente, sua memória ganhou também dimensão espiritual através das mensagens e poesias atribuídas a ela e psicografadas por Chico Xavier. Sua importância literária foi reconhecida com a escolha de seu nome como patrona da cadeira nº 20 da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. O mais impressionante, porém, é que a inspiração associada ao nome de Auta ultrapassou os limites da literatura. Em 1948, o médium Divaldo Franco fundou a Caravana Auta de Souza, vinculada ao Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador. A iniciativa assistencial posteriormente se relacionaria à criação da Mansão do Caminho, transformando a homenagem à poetisa em trabalho concreto de amparo aos necessitados. A poesia que nascera do sofrimento passou, assim, a inspirar ações de solidariedade, assistência e acolhimento.

É justamente nessa convergência entre os três irmãos que reside a dimensão maior desse legado. Elói voltou sua inteligência para os problemas públicos e para o drama das secas; Henrique dedicou-se à educação, à cultura e à formação humana; Auta converteu sua sensibilidade em poesia, fé e consolo. Um atuou na política e na questão social; outro, na educação e na cultura; a terceira, na literatura e na espiritualidade. Cada um encontrou uma linguagem própria para responder às dores e às necessidades de seu tempo. Por isso, Auta, Elói e Henrique Castriciano de Souza podem ser vistos como uma verdadeira trindade intelectual do Rio Grande do Norte. Não apenas pela excepcionalidade de seus talentos, mas pela capacidade de transformar esses talentos em patrimônio coletivo. Eles não deixaram somente livros, discursos, poemas ou instituições: deixaram ideias, exemplos e caminhos.

Há algo profundamente simbólico nessa história familiar. Três irmãos partiram de uma mesma experiência de perdas e dificuldades, receberam uma formação intelectual privilegiada e seguiram destinos diferentes, mas todos fizeram da inteligência uma forma de serviço. Auta acolheu a dor em seus versos; Elói enfrentou, pela política e pelo conhecimento, os grandes problemas do Nordeste; Henrique procurou combater o atraso por meio da educação e da cultura. Mais de um século depois, os três continuam presentes na memória potiguar. Auta permanece viva na poesia que consola; Elói, na história política e na preocupação com o desenvolvimento do Nordeste; Henrique, nas instituições educacionais e culturais que ajudou a construir. São legados diferentes, mas complementares, que revelam a extraordinária força intelectual de uma família capaz de produzir, em uma mesma geração, três personalidades tão marcantes.

A maior homenagem que se pode prestar a Auta, Elói e Henrique talvez seja reconhecer que suas vidas não pertencem apenas ao passado. O patrimônio que construíram continua vivo e pertence ao Rio Grande do Norte e ao Brasil. Suas trajetórias demonstram que a inteligência, quando iluminada pela sensibilidade e colocada a serviço do próximo, pode atravessar gerações. Três irmãos. Três talentos excepcionais. Três caminhos distintos. E uma herança comum: a demonstração de que a palavra, a educação, a cultura, a ciência, a política e a solidariedade podem ser instrumentos de transformação humana. Auta, Elói e Henrique de Souza deixaram, assim, muito mais que seus nomes na história. Legaram ao Rio Grande do Norte um patrimônio de inteligência, cultura e humanidade que o tempo, em vez de apagar, continua a engrandecer.


domingo, 20 de setembro de 2026

ELOI DE SOUZA: MEMÓRIAS DE BASTIDOR...

PÉROLAS DO DIÁRIO DE HUMBERTO DE CAMPOS

Há 87 anos foi publicada a obra póstuma Fragmentos de um Diário (1939), do maranhense Humberto de Campos, membro da Academia Brasileira de Letras. Seu filho, Henrique de Campos organizou a obra, compilando escritos que o pai havia publicado de forma fragmentada. São recortes de suas memórias. E eu, que gosto de ler livros velhos - que para mim me devolvem um tempo que sinto ter pertencido sem que possa explicar - encontro uma referência ao nosso Eloi Castriciano de Souza. A passagem documenta uma conversa de bastidores políticos ocorrida entre parlamentares nos corredores da Câmara dos Deputados. A conversa se deu numa tarde sem sessão, em maio de 1928, quando reuniram-se informalmente o escritor Humberto de Campos, o médico e romancista Afrânio Peixoto, o político Manoel Vilaboim e o potiguar Eloi de Souza. A conversa girava em torno dos meandros da política da Primeira República, especialmente das articulações relacionadas à sucessão presidencial de Rodrigues Alves, em 1906, e das candidaturas que se seguiram ao falecimento de Afonso Pena.

Humberto de Campos (Academia Maranhense de Letras).

No relato, Humberto de Campos apresenta Eloi de Souza como testemunha e participante privilegiado das negociações que envolviam o poder político nacional. Amigo íntimo de importantes figuras do cenário brasileiro, entre elas Carlos Peixoto e o influente senador gaúcho Pinheiro Machado, Eloi compartilhou com os presentes episódios até então pouco conhecidos, que contrastavam com a versão oficial dos acontecimentos. Segundo o relato, Eloi revelou como Carlos Peixoto e João Pinheiro haviam articulado secretamente movimentos favoráveis e contrários a diferentes nomes da política mineira e gaúcha, em uma complexa rede de alianças e disputas que envolvia também figuras como Rui Barbosa e Wenceslau Brás. As revelações expunham, assim, a fragilidade e a natureza circunstancial de muitas das alianças políticas daquele período.

Para além desse registro preservado no diário de Humberto de Campos, Eloi Castriciano de Souza (1873–1959) ocupa lugar de grande relevância na história cultural e política do Rio Grande do Norte e do Brasil. Ele pertenceu a uma das famílias mais ilustres do Seridó e do Agreste potiguar. Era irmão de Auta de Souza (1876–1901), uma das mais expressivas e cultuadas poetisas da literatura mística e parnasiano-simbolista brasileira, e de Henrique Castriciano (1874-1947), importante poeta, jornalista e político, além de figura fundamental na criação da Liga de Ensino no Rio Grande do Norte. Um episódio particularmente significativo de sua trajetória foi sua participação na divulgação da obra da irmã. Foi o próprio Eloi de Souza quem levou pessoalmente ao Rio de Janeiro os manuscritos de Horto, de Auta de Souza, entregando-os a Olavo Bilac. Esse gesto contribuiu para viabilizar o histórico prefácio assinado pelo então chamado “Príncipe dos Poetas”.

Eloi Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina Rodrigues de Souza, sua esposa.

Como destacado representante do Rio Grande do Norte, Eloi de Souza exerceu os cargos de Deputado Federal e Senador da República em diferentes mandatos durante a República Velha. Reconhecido por sua capacidade de oratória e articulação política, participou ativamente dos debates relacionados às secas e ao desenvolvimento do Nordeste. Tamb´m foi autor de obras de referência sobre essas questões e sobre sua própria trajetória, entre elas O Calvário das Secas e Memórias. O trecho do diário de Humberto de Campos permite recuperar uma dimensão menos conhecida da trajetória de Eloi de Souza: a de um personagem profundamente inserido nos círculos de poder do Rio de Janeiro, então capital federal. 

Nesse sentido, sua figura representa uma importante ponte entre a política oligárquica tradicional das primeiras décadas do século XX e a preservação da memória histórica e cultural do Rio Grande do Norte. O episódio registrado em 1928 também revela a existência de uma política construída não apenas nos espaços formais do Parlamento, mas igualmente em conversas reservadas, relações pessoais e articulações informais entre homens que ocupavam posições estratégicas na vida pública brasileira. Coisa que acontece até hoje...

Pois bem, eis que, envolto nesse livro velho de tempo, mas novo de informação - pelo menos para mim, acostumado aos ácaros das velhas letras - dou-me com esse pequeno fragmento aparentemente insignificante. Insignificante para quem não conheceu ELoi e tampouco Humberto de Campos...

UM POUQUINHO DE HUMBERTO CAMPOS PARA QUEM NÃO O CONHECE...

Humberto de Campos (1886–1934) foi um proeminente jornalista, crítico literário, político e escritor brasileiro, nascido em Miritiba (atual município de Humberto de Campos), no Maranhão. Membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 20, ele alcançou imensa popularidade nas primeiras décadas do século XX graças ao seu estilo memorialista, crônicas vibrantes e contos marcados por uma fina ironia e sensibilidade social. Além de sua brilhante carreira na imprensa do Rio de Janeiro e de suas funções como deputado federal, sua figura ganhou contornos singulares após a sua morte, tornando-se uma personalidade central na literatura espírita devido às diversas obras psicografadas pelo médium Chico Xavier que foram atribuídas ao seu espírito...

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A FRONTEIRA ENTRE HISTÓRIA, HIPÓTESE E PSEUDO-HISTÓRIA NA OBRA "PROTO-HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO NORTE" DE TARCÍSIO MEDEIROS.


QUANDO A ERUDIÇÃO SE APROXIMA DA LENDA

Quem pesquisa a História do Rio Grande do Norte por intermédio de livros inevitavelmente começa por Rocha Pombo, passa por Tavares de Lyra e Câmara Cascudo e, a partir deles, percorre uma expressiva tradição historiográfica, que inclui nomes como Hélio Galvão e Olavo de Medeiros Filho, chegando, posteriormente, a autores das últimas décadas e da produção historiográfica contemporânea. Há alguns anos, li Proto-História do Rio Grande do Norte, publicado em 1985 pela Presença Edições, em coedição com a Fundação José Augusto, de autoria de Tarcísio de Medeiros, intelectual norte-rio-grandense, autor de livros de natureza da História. Sua obra integra uma tradição de estudos que ajudou a construir e a interpretar a memória histórica do estado. É um livro que todo pesquisador deve ter. Livro de pesquisa, de consulta. Há autores que atribuem as inscrições da Pedra do Ingá, na Paraíba – situada na zona rural do município de Ingá, à margem da PB – aos fenícios e, pasmem, até mesmo a seres de outros planetas. O sítio arqueológico, oficialmente denominado Itacoatiaras do Rio Ingá, é um dos mais importantes registros de arte rupestre do Brasil e encontra-se protegido pelo IPHAN desde 1944. Há pouco mais de dois meses, estudando os capítulos intitulados “Sinais de antigas civilizações – período da lenda e do mito” e “No Rio Grande do Norte”, às páginas 113 a 129, entrei em contato com um amigo arqueólogo para saber sua visão. Afinal, por mais que consideremos pouco provável essa estadia de fenícios no Brasil, queremos ouvir quem é fundamentado no assunto. Obviamente, descartei a possibilidade extraterrestre. Cirurgicamente e sem rodeios, ele disse que são inscrições de povos indígenas e que, infelizmente, alguns pesquisadores têm dificuldade em reconhecer a competência desses povos para tal evento, acabando por defender até mesmo teses fantásticas. Nessa ocasião, ao pesquisar o assunto, deparei-me com o cruzamento de informações sobre as inscrições da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, cuja autoria fenícia é defendida pelos mesmos pesquisadores que a atribuem à Pedra do Ingá. Um exemplo é justamente a leitura atenta das páginas apresentadas de Proto-história do Rio Grande do Norte, que nos conduz a uma questão que ultrapassa o conteúdo específico do livro. Ela toca um problema permanente da produção intelectual: o que acontece quando um autor dotado de erudição, prest´gio e autoridade cultural apresenta ao leitor hipóteses extremamente especulativas sem submetê-las, com o mesmo rigor, ao confronto sistemático comas pesquisas especializadas que já apontavam em outra direção? A questão não consiste em condenar a imaginação histórica, nem em afirmar que toda hipótese extraordinária seja necessariamente falsa. A história e a arqueologia avançam justamente porque alguém formula perguntas que antes não haviam sido formuladas.. O problema começa quando a distância entre possibilidade, hipótese, tradição, lenda e fato comprovado deixa de ser suficientemente demarcada. Nesse momento, a narrativa pode adquirir aparência de ciência sem possuir o mesmo grau de demonstração que caracteriza uma investigação científica. É exatamente essa fronteira que se torna particularmente sensível nas páginas examinadas.


É importante, entretanto, fazer uma ressalva antes de qualquer crítica. Não seria correto transformar Tarcísio Medeiros, por causa dessas páginas, simplesmente em um autor de pseudo-história. Pelo contrário, ele é autor consagrado e respeitado em todo o RN. O próprio livro registra dúvidas e controvérsias. Ao tratar da chamada inscrição da Pedra da Gávea, por exemplo, Medeiros informa que a descoberta de Bernardo da Silva Ramos era "ainda hoje discutida e tida como falsa". Também utiliza expressões como "parece", "possivelmente", "dizem que" e "há quem afirme". Isso demonstra que o autor tinha consciência de que estava entrando em terreno controverso. O problema está menos na existência dessas ressalvas e mais na arquitetura geral da exposição. Depois de apresentar hipóteses extraordinárias, Medeiros as incorpora a uma longa sequência narrativa na qual fenícios, cartagineses, vikings, São Tomé, Atlântida e supostas civilizações antigas aparecem relacionados às terras americanas. O leitor que não possua conhecimento especializado pode facilmente perder a distinção entre aquilo que é documentação histórica, aquilo que é interpretação antiga, aquilo que é hipótese minoritária e aquilo que a arqueologia efetivamente demonstrou.


Esse ponto é particularmente significativo porque, já na época da publicação, algumas das afirmações apresentadas como possibilidades mereciam um confronto muito mais explícito com especialistas. O exemplo mais eloquente é a chamada Inscrição da Paraíba. Medeiros apresenta a posição de Cyrus H. Gordon, professor de Brandeis e reconhecido especialista em línguas semíticas, que defendia a autenticidade do texto e o interpretava como uma inscrição cananeia ou fenícia. A autoridade acadêmica de Gordon era real e não deve ser diminuída. Ele foi um importante especialista em línguas semíticas, Ugarítico e estudos do antigo Oriente Próximo. Justamente por isso, seu posicionamento tinha peso. Mas esse é o ponto fundamental: autoridade individual não transforma automaticamente uma interpretação em consenso científico. No mesmo ano de 1968, a revista Orientalia publicou, no mesmo fascículo, trabalhos de Johannes Friedrich sobre a falsidade da inscrição, de Cyrus Gordon defendendo o texto e de Frank Moore Cross Jr., da Universidade Harvard, intitulado explicitamente "The Phoenician Inscription from Brazil. A Nineteenth-Century Forgery". Ou seja, quando o livro de Medeiros foi publicado em 1985, havia uma controvérsia acadêmica altamente especializada que poderia ter sido apresentada ao leitor de forma muito mais equilibrada, mostrando não apenas a tradução de Gordon, mas também os argumentos epigráficos que levaram outros especialistas a rejeitá-la.Certamente ele não teve contato com essa obra.


O episódio da Paraíba é, aliás, um excelente exemplo de como funciona a diferença entre erudição e demonstração científica. Gordon era realmente um grande especialista, mas a conclusão que ele defendia nesse caso específico não prevaleceu. Frank Moore Cross, também uma autoridade internacional em epigrafia semítica, examinou a inscrição e publicou uma análise considerando-a uma falsificação do século XIX. A existência de um especialista respeitável de um lado não elimina a necessidade de avaliar os argumentos do outro. O leitor precisa saber quais são as evidências materiais, qual é a procedência do objeto, quais são suas características paleográficas, linguísticas e arqueológicas e se existe contexto independente que confirme sua antiguidade. Quando o objeto desaparece, quando sua procedência não pode ser estabelecida e quando a análise linguística apresenta problemas, a tradução de uma suposta inscrição deixa de constituir prova suficiente da presença de uma civilização antiga. É precisamente essa exigência de convergência de evidências que separa uma hipótese interessante de uma conclusão histórica.


A mesma questão aparece na narrativa da Pedra da Gávea. Medeiros reproduz a interpretação segundo a qual os sulcos da montanha seriam uma inscrição fenícia e apresenta a famosa leitura atribuída a Bernardo Ramos, segundo a qual ali estaria registrado o nome de Tiro, da Fenícia, e de Badezir, filho de Jethbaal. Bernardo Ramos merece ser levado a sério como personagem da história intelectual brasileira. Sua obra foi extraordinariamente extensa e procurou interpretar milhares de inscrições e sinais rupestres como vestígios de antigas civilizações mediterrâneas. Estudos historiográficos posteriores, entretanto, mostram que seu projeto partia de uma hipótese muito ampla de presença fenícia e grega na América e procurava interpretar diferentes registros rupestres a partir desse modelo. Isso é importante porque o problema não está na quantidade de trabalho realizada por Ramos, mas no sentido em que as evidências foram interpretadas. A arqueologia contemporânea trabalha de maneira diferente. Uma marca semelhante a uma letra não é automaticamente uma inscrição. Antes é necessário demonstrar que a marca é antrópica, isto é, produzida intencionalmente por seres humanos. Depois é preciso estabelecer que se trata realmente de escrita, e não de uma coincidência formal produzida por fraturas, erosão, veios minerais ou outras características da rocha. Finalmente, se a escrita for identificada, é necessário estabelecer sua cronologia, seu sistema gráfico, sua origem e seu contexto cultural. A ausência de um contexto arqueológico associado é especialmente importante. Uma inscrição isolada, sem artefatos, estruturas, depósitos, materiais datáveis ou outros vestígios culturalmente coerentes, não possui a mesma força de um conjunto arqueológico contextualizado.


O caso das chamadas "Sete Cidades" do Piauí é ainda mais instrutivo. Medeiros reproduz extensamente as interpretações de Ludwig Schwennhagen, Renato Castelo Branco e Jacques de Mahieu. Schwennhagen é apresentado como alguém que imaginava no local um grande centro político e religioso fenício, associado a povos tupis e a uma espécie de império colonial antigo. Jacques de Mahieu, por sua vez, reinterpretava os mesmos elementos como vestígios relacionados aos vikings. Assim, uma mesma paisagem rochosa passa, dependendo do autor, de monumento fenício a fortaleza viking. Esse fato, por si só, deveria despertar uma pergunta metodológica decisiva: se o mesmo vestígio pode ser interpretado como fenício, tupi ou viking conforme a teoria adotada previamente, onde está a evidência independente capaz de decidir entre essas hipóteses? A arqueologia realizada posteriormente em Sete Cidades oferece uma resposta muito diferente. O IPHAN caracteriza o parque como importante cenário arqueológico, com dezenas de sítios pré-coloniais cadastrados, mas também destaca que as formações rochosas resultam de processos erosivos de enorme antiguidade. Pesquisas arqueológicas identificaram pinturas rupestres associadas a grupos humanos pré-coloniais, e estudos especializados vêm documentando essas manifestações segundo métodos arqueológicos, arqueométricos e de conservação. Um trabalho publicado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte caracteriza Sete Cidades como monumento geológico associado a sítios de arte rupestre, enquanto pesquisas recentes continuam registrando e analisando os grafismos. Não há, nesse quadro científico, reconhecimento de uma cidade fenícia petrificada ou de uma fortaleza viking.


É justamente aqui que a obra de Gabriela Martin assume importância especial para o debate. Sua Pré-História do Nordeste do Brasil dedica atenção específica à história da arqueologia nordestina e ao que chama de "arqueologia pré-científica", incluindo o mito das Sete Cidades e a antiga tendência de interpretar monumentos e registros rupestres brasileiros à luz de supostas civilizações do Velho Mundo. A importância de Gabriela Martin não está apenas em rejeitar determinadas interpretações, mas em substituir conjecturas genéricas por investigação de campo, estratigrafia, cultura material, cronologia, contexto arqueológico e comparação controlada. No caso do Rio Grande do Norte, suas pesquisas contribuíram decisivamente para o estudo da área arqueológica do Seridó e de sua arte rupestre. O contraste fica ainda mais expressivo quando se observa o próprio Rio Grande do Norte. A arqueologia potiguar contemporânea não precisa recorrer a fenícios, gregos, egípcios ou vikings para demonstrar a antiguidade e a riqueza cultural do território. O IPHAN registra numerosos sítios arqueológicos no estado, com predominância de sítios de superfície no litoral e grande quantidade de arte rupestre no interior. Pesquisas desenvolvidas no Seridó identificaram diferentes conjuntos de vestígios, enquanto estudos sobre grupos caçadores-coletores apresentam datações radiocarbônicas de ocupações que chegam a milhares de anos. O Museu Câmara Cascudo da UFRN conserva um acervo arqueológico de enorme dimensão, constituído por instrumentos líticos, cerâmicas pré-coloniais, ossos humanos, urnas funerárias e outros materiais, resultado de décadas de pesquisas científicas.


Essa transformação metodológica é talvez a maior resposta contemporânea às narrativas presentes no livro de 1985. Entre os estudiosos fundamentais para compreender a arqueologia brasileira e nordestina estão Gabriela Martin, Niède Guidon, André Prous, Pedro Paulo Funari, Valdeci dos Santos Júnior, entre muitos outros pesquisadores que trabalharam com arqueologia, arte rupestre, cultura material, bioarqueologia e metodologia. No Rio Grande do Norte, pesquisas atuais continuam empregando escavações, levantamento de sítios, datações diretas e indiretas, análise de materiais e estudos de conservação. Em 2026, inclusive, o Museu Câmara Cascudo recebeu programação científica com André Prous e pesquisadores potiguares dedicada às gravuras rupestres no Brasil e no RN, demonstrando que o assunto continua sendo tratado dentro de uma arqueologia acadêmica especializada e metodologicamente controlada. O episódio de São Tomé demonstra outro mecanismo de transformação da tradição em “prova”. Tarcísio de Medeiros reúne relatos de Hans Staden, Jean de Léry, padre Antônio Vieira, Sérgio Buarque de Holanda e Frei Jaboatão sobre pegadas, marcas rupestres e a tradição de Sumé ou São Tomé. Em Natal, essa tradição localizava uma dessas supostas pegadas nas margens do rio Potengi, na região da Ribeira, um dos bairros mais antigos de Natal, mais precisamente em um rochedo situado na margem direita do rio, em área que corresponde atualmente ao terreno do Colégio Salesiano. Ali, numa enorme pedra, se via nitidamente a pegada de Sumé. Esses relatos são fontes históricas legítimas para estudar a formação do imaginário colonial brasileiro. O problema surge quando a tradição religiosa passa a ser utilizada como evidência direta de que o apóstolo efetivamente percorreu o continente. A arqueologia contemporânea tem estudado justamente esse processo. Thiago Leandro Vieira Cavalcante demonstrou como marcas rupestres existentes foram progressivamente ressignificadas pela tradição de São Tomé, transformando vestígios materiais em sinais atribuídos a uma personagem religiosa. A existência das marcas é uma coisa; a interpretação cultural que posteriormente lhes foi atribuída é outra.


O Triângulo das Bermudas e a mítica ilha de Atlântida habitam o mesmo território no imaginário popular, alimentados por teorias que tentam conectar o mistério geográfico ao mito histórico. A cultura de massa consagrou a ideia de que o Triângulo das Bermudas é um lugar amaldiçoado ou magnético, onde navios são subitamente sugados pelas águas e aviões caem sem deixar vestígios. Na ficção e nas pseudociências, essa suposta força destrutiva é frequentemente justificada como o eco tecnológico de uma civilização perdida, sugerindo que antigos cristais de energia submersos ainda estariam ativos no fundo do oceano. A Atlântida, contudo, exige distinção semelhante. Platão é uma fonte histórica extraordinariamente importante para o estudo da filosofia e do pensamento grego, mas a existência textual de Atlântida não equivale à demonstração arqueológica de sua existência como império histórico. A pesquisa contemporânea continua discutindo o significado do relato platônico e possíveis inspirações ambientais ou históricas, mas a literatura especializada não reconhece uma civilização atlante localizada a oeste de Gibraltar como fato arqueológico estabelecido. Portanto, quando a narrativa de Platão é colocada lado a lado com fenícios, cartagineses, vikings e supostos contatos com o Brasil, cria-se uma cadeia narrativa muito mais sólida literariamente do que arqueologicamente. Enquanto o folclore moderno desenha o Caribe como um sorvedouro de embarcações e aeronaves, a ciência e a historiografia preferem tratar tanto os naufrágios quanto os textos antigos sob a luz do rigor factual, separando o poder da literatura das realidades da história.


Há, contudo, uma distinção que torna o problema ainda mais interessante. A possibilidade de viagens transoceânicas anteriores a Colombo não é, em si, uma fantasia. A arqueologia demonstrou inequivocamente que navegadores nórdicos chegaram à América do Norte. O sítio de L'Anse aux Meadows, localizado no extremo norte da ilha de Terra Nova (Newfoundland), na província de Terra Nova e Labrador, Canadá, é reconhecido como assentamento nórdico, e estudos publicados na Nature estabeleceram, por meio de datação associada a um evento cósmico registrado nos anéis das árvores, atividade nórdica no ano de 1021. Isso mostra justamente como uma hipótese extraordinária pode deixar de ser hipótese quando aparecem evidências materiais independentes, datáveis e contextualizadas. Ao mesmo tempo, a mesma pesquisa registra que L'Anse aux Meadows é o único sítio nórdico confirmado nas Américas. Não existe equivalente arqueológico reconhecido que demonstre presença viking no Brasil. O capítulo de Medeiros sobre o Rio Grande do Norte contém ainda uma observação que merece ser preservada, mas corretamente interpretada. Ele chama atenção para os ventos, as correntes marítimas, o Cabo de São Roque, Fernando de Noronha, as Rocas e a posição geográfica do Nordeste brasileiro como elementos importantes para a navegação no Atlântico Sul. Nesse ponto, existe uma base geográfica real. Estudos oceanográficos modernos confirmam que a Corrente Sul-Equatorial se desloca para oeste e alcança a costa brasileira, bifurcando-se na região do Cabo de São Roque. O erro metodológico estaria em transformar essa possibilidade geográfica em prova de que determinada civilização efetivamente realizou determinada viagem. Uma corrente marítima pode tornar uma travessia possível; não pode, sozinha, demonstrar que alguém a realizou.


É nesse ponto que a expressão "pseudo-história" precisa ser utilizada com cuidado. Ela não deveria significar simplesmente "história errada" ou "história antiga". Uma obra pode conter erros não intencionalmente, pode conter hipóteses posteriormente abandonadas ou interpretações hoje superadas sem ser, por isso, inteiramente pseudo-histórica. A crítica contemporânea à pseudoarqueologia concentra-se sobretudo na maneira de produzir conhecimento: utilizar semelhanças isoladas como prova de contato, retirar objetos de seu contexto, selecionar apenas as evidências favor´veis à hipótese, transformar tradição oral ou mito em relato factual e, sobretudo, começar pela conclusão e procurar posteriormente elementos que a confirmem. Diria que isso se parece com os atuais fake News que abundam na internet e recebem credibilidade de pessoas aparentemente esclarecidas. Estudos metodológicos sobre pseudoarqueologia chamam atenção justamente para a importância docontexto, da datação da comparação das hipóteses concorrentes e da verificabilidade dos dados. O caso de Jacques de Mahieu torna esse problema particularmente claro. Medeiros o apresenta como pesquisador que interpretava Sete Cidades como obra viking. A historiografia recente sobre de Mahieu, porém, mostra que suas teorias arqueológicas são hoje estudadas como um exemplo de pseudoarqueologia e de hiper-difusionismo. Pesquisas acadêmicas recentes analisam como suas interpretações atribuíam aos europeus, especialmente aos vikings, papel civilizador sobre sociedades americanas. Isso não significa que sua obra não possua interesse histórico. Ao contrário, ela é valiosa para estudar como determinadas ideias sobre o passado foram construídas, divulgadas e utilizadas. O objeto de estudo muda: de evidência sobre o passado remoto, a obra passa a ser evidência sobre a maneira como determinados intelectuais imaginaram o passado.


E talvez seja exatamente essa a grande lição proporcionada pela leitura de Proto-história do Rio Grande do Norte. O livro é valioso não somente pelo que afirma, mas também pelo retrato intelectual de uma época que ele oferece. Nele convivem história, geografia, arqueologia, tradição religiosa, relatos de viajantes, epigrafia, oceanografia, mitologia e teorias difusionistas. Há curiosidade genuína, erudição, desejo de ampliar os horizontes da história regional e uma tentativa de colocar o Rio Grande do Norte dentro de uma história atlântica muito mais antiga. Mas justamente por isso o livro também demonstra o perigo da autoridade intelectual quando a forma narrativa é mais convincente do que a força das provas. Quando um intelectual respeitado apresenta uma hipótese ao público, o leitor tende naturalmente a emprestar credibilidade à afirmação. Se essa hipótese é acompanhada por nomes de universidades, professores, línguas antigas, traduções de inscrições, datas, mapas, referências a historiadores clássicos e descrições geográficas, a aparência de cientificidade aumenta consideravelmente. Entretanto, todos esses elementos podem produzir apenas uma aparência de demonstração se não forem submetidos ao confronto com evidências independentes. Uma narrativa erudita não é necessariamente uma narrativa comprovada.


Por isso, o verdadeiro rigor intelectual não exige que o pesquisador abandone hipóteses ousadas. Exige que ele as apresenta exatamente como são. Se uma inscrição é contestada, devem ser expostos os argumentos de quem a considera autêntica e os argumentos de quem a considera falsa. Se uma formação rochosa é interpretada como monumento humano, devem ser apresentados os estudos geológicos e arqueológicos que investigam sua origem. Se uma viagem transatlântica é considerada possível, deve-se separar a possibilidade náutica da demonstração histórica. Se uma tradição religiosa registra a passagem de uma personagem, deve-se distinguir a tradição como fenômeno cultural da comprovação material do acontecimento. Quando essa distinção não é feita com clareza, surge aquele "fio de desconfiança" a que a própria leitura conduz. Não porque todo intelectual esteja deliberadamente enganando seu público, nem porque uma hipótese minoritária seja necessariamente falsa, mas porque o leitor percebe que as evidências favoráveis receberam espaço narrativo muito maior do que as objeções capazes de enfraquecê-las. A verdadeira ciência não se caracteriza por eliminar o mistério. Caracteriza-se por saber exatamente onde termina aquilo que podemos afirmar e onde começa aquilo que apenas podemos imaginar.


Hoje, quase quarenta anos depois da publicação de Tarcísio Medeiros, a situação é particularmente esclarecedora. A arqueologia brasileira dispõe de universidades, laboratórios, datações, arqueometria, estudos de DNA antigo, análise de materiais, geologia, antropologia, conservação, sistemas de informação geográfica e extensos bancos de dados arqueológicos. O Rio Grande do Norte possui uma história pré-colonial extraordinariamente rica que pode ser investigada sem recorrer a civilizações desaparecidas do Mediterrâneo. A existência de milhares de anos de ocupação humana no Nordeste – a começar pelos povos indígenas – é muito mais interessante, cientificamente, do que a necessidade de atribuí-la a fenícios ou vikings. E essa talvez seja a ironia mais profunda: ao procurar no Velho Mundo os responsáveis pelos vestígios antigos do Brasil, certas interpretações acabaram diminuindo, involuntariamente, a capacidade histórica dos próprios povos indígenas que produziram esses vestígios, como bem ponderou meu amigo arqueólogo. A atualidade, portanto, não precisa destruir o livro de Tarcísio Medeiros. Pode lê-lo de maneira mais proveitosa. Ele pode ser entendido como documento de uma etapa da historiografia potiguar, como testemunho da persistência de antigas teorias difusionistas e como registro de uma época em que fronteiras entre história, tradição, arqueologia e imaginação ainda eram frequentemente mais porosas. Mas, quando suas afirmações são confrontadas com a arqueologia desenvolvida posteriormente, o leitor precisa recolocar cada uma delas em seu devido lugar. Fenícios no Brasil, inscrição da Paraíba, Pedra da Gávea, Sete Cidades como centro fenício ou viking, São Tomé como personagem historicamente comprovada no continente e Atlântida como civilização histórica não pertencem hoje ao mesmo nível das evidências arqueológicas que demonstram a ocupação indígena milenar do Nordeste ou a presença nórdica em Terra Nova.


O maior ensinamento talvez resida justamente nessa fronteira. O intelectual não abdica de sua respeitabilidade ao admitir o caráter provisório de uma hipótese; pelo contrário, é nessa honestidade metodológica que sua autoridade verdadeiramente se consolida. A ciência não impõe ao pesquisador o fardo da infalibilidade. Exige-lhe, antes, a transparência de demonstrar como se chegou a determinada afirmação: quais evidências sustentam a conclusão, quais dados a contradizem e, fundamentalmente, onde termina o conhecimento empírico e onde começa o território fascinante da conjectura. Da mesma forma, ao lidar com a história oral e com narrativas ainda carentes de validação científica estrita, o rigor intelectual impõe que a abundância de indícios e pistas seja convertida em vetor de investigação arqueológica ou historiográfica, tida como um ponto de partida legítimo para a busca da verdade.


REFERÊNCIAS

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