UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA
Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada.
NOTA PRÉVIA - ADAUTO DA CÂMARA E NÍSIA FLORESTA - 1938.
Há leitores que atravessam um livro como quem percorre uma estrada sem jamais olhar as margens. Passam pelas páginas centrais, detêm-se apenas nos capítulos principais e ignoram justamente aquilo que muitas vezes constitui a alma secreta de uma obra: os prefácios, as notas prévias, as dedicatórias, as orelhas, as advertências ao leitor. Entretanto, para os estudiosos atentos - sobretudo aqueles que se dedicam à pesquisa histórica - esses espaços aparentemente periféricos podem esconder verdadeiras pepitas documentais. Uma simples observação feita num prefácio pode tornar-se o ponto de partida para uma investigação inteira. É exatamente essa sensação que experimentamos ao ler a extraordinária "Nota Prévia" escrita por Adauto da Câmara (14.03.1898-17.10.1952) para o livro História de Nísia Floresta, publicado em 1941. Mais do que uma apresentação, aquele texto é um testemunho emocionado das dificuldades, dos achados, das paixões intelectuais e do espírito arqueológico que envolveram a construção da primeira grande biografia moderna de Nísia Floresta Brasileira Augusta (12.10.1810-24.04.1885).
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Logo no primeiro parágrafo, Adauto da Câmara toca numa questão central para todos os que, ainda hoje, estudam Nísia Floresta: o peso das lendas, dos equívocos e das repetições acríticas em torno de sua biografia. Sua observação de que "os estudiosos iam repetindo sem maiores escrúpulos" informações errôneas revela uma prática infelizmente comum na historiografia antiga: a reprodução automática de dados sem conferência documental. Durante décadas, Nísia foi envolvida por uma névoa quase mítica. Datas equivocadas, episódios romantizados, calúnias e interpretações fantasiosas passaram de autor em autor como verdades estabelecidas. A frase de Adauto denuncia exatamente esse processo de fossilização do erro histórico. É importante lembrar que, em 1938, quando ele iniciou sua investigação, haviam transcorrido aproximadamente cinquenta e três anos desde a morte de Nísia Floresta, ocorrida em 1885. Ou seja: tratava-se de uma personagem cuja memória já estava parcialmente obscurecida pelo tempo, pela ausência de documentação acessível e pela dispersão de seus escritos. A coragem intelectual de Adauto consistiu justamente em desconfiar da tradição repetida e regressar às fontes primárias, tarefa arduentíssima.
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| NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA (DIONÍSIA GONÇALVES PINTO LISBOA) |
No segundo parágrafo, emerge outra dificuldade monumental: encontrar os próprios livros escritos por Nísia Floresta. Hoje, na era digital, muitos estudiosos conseguem acessar obras raríssimas através de bibliotecas virtuais, hemerotecas digitais ou arquivos internacionais digitalizados num simples toque. Ademais, há livros em banda de lata escritos por Nísia e sobre Nísia espalhados em livrarias Brasil afora, acessíveis a quem quiser. Mas, em 1938, a situação era dramaticamente distinta. Algumas obras nisianas simplesmente não existiam no Brasil, enquanto outras sobreviviam em pouquíssimos exemplares dispersos em acervos privados ou instituições públicas. Adauto menciona a Biblioteca Nacional, o Instituto Histórico e o Gabinete Português de Leitura como espaços fundamentais para sua pesquisa. Deve-se imaginar o esforço hercúleo que significava consultar obras frágeis, muitas vezes deterioradas pelo tempo, sem catálogos modernos, sem digitalização, sem ferramentas de busca. E, à medida que iam consumindo a obra nisiana, a impressão que lhes surgia era a de uma inteligência extraordinária injustamente esquecida. O próprio Adauto reconhece "quanto era ainda pouco apreciada, por desconhecida, a sua pujança espiritual". Essa expressão é belíssima porque traduz exatamente o espanto de quem descobre uma autora muito maior do que a tradição oficial permitira enxergar. Cada livro de Nísia parecia desmontar o preconceito de que ela fosse apenas uma curiosidade feminina do século XIX; revelava-se, na verdade, uma intelectual cosmopolita, viajante, educadora, feminista pioneira e observadora aguda das questões sociais de seu tempo.
O terceiro parágrafo talvez seja um dos mais fascinantes da "Nota Prévia", porque nele Adauto da Câmara descreve aquilo que poderíamos chamar de arqueologia documental. Não é exagero afirmar que pesquisar Nísia Floresta naquele período equivalia a escavar ruínas históricas em busca de fragmentos dispersos, por tal razão, tenho devoção santificada a Adauto e Henrique Castriciano (15.03.1874-26.07.1947). E o mais impressionante é perceber o encantamento quase afetivo que ele demonstra diante desse processo. As "canseiras", como diz, eram suportadas com satisfação. Quem pesquisa Nísia Floresta conhece exatamente essa sensação: a alegria indescritível de encontrar uma pequena nota perdida num jornal oitocentista, um anúncio aparentemente banal, uma referência esquecida numa coluna social. Adauto compreendeu, com rara sensibilidade metodológica, que os grandes enigmas históricos às vezes se resolvem nos detalhes mínimos. Por isso sua observação sobre os "Comunicados", os "A Pedidos", os anúncios, os convites de missa, os obituários e as gazetilhas possui enorme importância historiográfica. Ele revela ali uma concepção moderna de pesquisa histórica, baseada não apenas em documentos oficiais, mas nos rastros cotidianos da vida social. Os jornais mencionados - Jornal do Commercio, Diário de Pernambuco, O Mercantil e O Liberal - transformaram-se para ele em minas documentais. Cada pequena referência podia iluminar um episódio obscuro da vida de Nísia. É justamente isso que ainda hoje torna a pesquisa tão apaixonante. E vale ressaltar que mesmo tendo se passado tantos anos, algumas lacunas seguem não explicadas sobre a nossa Nísia. Embora não se compara às lacunas antes de Henrique e Adauto.
A repercussão da conferência pronunciada no Clube Militar demonstra o impacto daquele trabalho pioneiro. Publicada em excertos no Jornal do Commercio e no Diário de Noticias, a investigação despertou imediatamente a atenção dos meios culturais cariocas e potiguares. É significativo perceber que figuras como Henrique Castriciano e José Augusto Bezerra de Medeiros (22.09.1884-18.05.1971) reconheceram ali a importância histórica do empreendimento. A futura publicação de História de Nísia Floresta como Volume V da "Biblioteca de Historia Norte-Riograndense" também revela um projeto cultural profundamente ambicioso: construir uma memória intelectual do Rio Grande do Norte através de suas grandes figuras históricas. José Augusto compreendia que preservar essas biografias era erguer um monumento simbólico à identidade cultural potiguar. Não se tratava apenas de publicar livros; tratava-se de salvar memórias ameaçadas pelo esquecimento.
Nesse contexto, o episódio narrado em torno do livro Itineraire d’un Voyage en Allemagne assume um valor quase novelesco. Em 1925, quarenta anos após a morte de Nísia Floresta, José Augusto Bezerra de Medeiros entra numa livraria da Rua Chile, no Rio de Janeiro, e descobre que, justamente no dia anterior, um raríssimo exemplar da obra havia sido vendido ao major Pedro Gomes, oficial do Exército. A cena é quase cinematográfica: o desapontamento do pesquisador diante da oportunidade perdida e, em seguida, a inesperada generosidade do comprador, que decide presenteá-lo com o volume. O episódio revela algo maior: a percepção, ainda restrita a poucos, do imenso valor histórico daqueles livros. Talvez o major Pedro Gomes tenha compreendido que, nas mãos de José Augusto, a obra serviria melhor à memória nacional do que em uma coleção particular. E foi exatamente o que aconteceu: o livro foi destinado à biblioteca pública de Natal, tornando-se patrimônio coletivo. Mas onde estaria hoje esse exemplar? A qual biblioteca José Augusto se referia? Seria a atual Biblioteca Câmara Cascudo? Ali, porém, o livro não mais se encontra. Estaria no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte? Suponho que sim. Há, entretanto, uma lembrança que reforça essa hipótese. Em 1994, quando eu era bolsista do CNPq e pesquisava para a Base de Educação História e Sociedade, coordenada pelo professor Dr. José Willington Germano, fiz amizade com o Dr. Enélio Petrovich (13.06.1934-06.01.2012), então presidente do IHGRN. Em uma de nossas conversas sobre Nísia Floresta, para meu encantamento, ele pegou de uma chave, abriu a gaveta de um pequeno móvel, quase um aparador, e me mostrou justamente o livro acima citado. Seria esse o mesmo exemplar encontrado por José Augusto tantos anos antes?
Enfim, a gratidão demonstrada por Adauto da Câmara a Henrique Castriciano ocupa um dos trechos mais emocionantes da "Nota Prévia". E com razão. Sem o trabalho silencioso e persistente de Henrique, muito provavelmente teríamos perdido informações preciosíssimas sobre Nísia Floresta. É impressionante perceber que ele conseguiu realizar suas pesquisas numa época ainda mais difícil, no início do século XX, quando muitos contemporâneos ainda mais próximos de Nísia ainda estavam vivos. Henrique teve contato com sobrinhas da escritora residentes no Rio de Janeiro; correspondeu-se com sua filha, Lívia Augusta de Faria Gade (1832-1912), já idosa e residente na França; pesquisou pessoalmente em território europeu; reuniu documentação que ninguém mais possuía. Quando Adauto afirma que Henrique explorou "mananciais que só ele explorou", está reconhecendo algo fundamental: houve fontes orais e documentais que desapareceram para sempre depois daquela geração. Sem Henrique Castriciano, jamais saberíamos certos detalhes íntimos da vida de Nísia contados pela própria filha. Isso se parece com o que aconteceria anos depois - em 1954 - quando os restos mortais de Nísia Floresta foram trasladados para o Brasil e houve uma exposição no Centro Norte-Rio-Grandense no Rio de Janeiro. Àquela ocasião, Marciano Freire (14.5.1863-?) teve um encontro com uma senhora de 103 anos de idade, ex-funcionária do Colégio Augusto, informação esta que me foi contada por Wânia Zaremba (1913-2012) em 1996.
Esse reconhecimento é ainda mais importante porque o livro definitivo que Henrique Castriciano pretendia escrever sobre Nísia Floresta nunca chegou a ser publicado. E isso representa uma das grandes perdas da historiografia potiguar, embora, até onde se sabe, doente, ele doou a Adauto, tudo o que havia reunido até então. O próprio Adauto o define como "o órgão mais autorizado, o estudioso mais bem informado, a última instância neste assunto". Trata-se de um testemunho fortíssimo. Henrique era, naquele momento, a principal autoridade nisiana do Brasil. Seu trabalho funcionou como verdadeira ponte entre o século XIX e os pesquisadores posteriores. Da mesma forma, o agradecimento dirigido a Geonisio Curvelo de Mendonça, da Igreja Positivista do Brasil, suscita uma reflexão dolorosa. Durante muito tempo, a sede da Igreja Positivista enfrentou graves problemas estruturais e patrimoniais. Muitos documentos ali guardados deterioraram-se ou desapareceram. É perfeitamente possível que materiais relacionados a Nísia Floresta, compilados por Geonisio e consultados por Adauto, tenham se perdido irremediavelmente. Isso nos faz compreender ainda mais o valor do trabalho daqueles pioneiros: eles registraram informações que talvez hoje não existam mais.
No último trecho da "Nota Prévia", Adauto da Câmara explica que inseriu excertos da produção nisiana para proporcionar aos leitores uma impressão de seu estilo, imaginação e cultura. Essa decisão foi extremamente importante. Afinal, até então, muita gente falava sobre Nísia Floresta sem jamais tê-la lido efetivamente. Seus textos revelavam uma autora sofisticada, dotada de forte consciência moral, vasta cultura europeia e extraordinária capacidade argumentativa. Os jornais da época não apenas registravam sua atuação; eram também espaços onde circulavam debates sobre sua figura pública, suas ideias pedagógicas e suas intervenções intelectuais. Ler Nísia diretamente era desmontar caricaturas.
Hoje, olhando retrospectivamente, impressiona perceber o contraste entre aquele tempo e o presente. A partir das décadas de 1980 e 1990, com o avanço da informática, da microfilmagem e posteriormente da internet, os materiais sobre Nísia Floresta começaram a tornar-se muito mais acessíveis. Obras raras passaram a ser localizadas com maior facilidade; periódicos antigos puderam ser digitalizados; pesquisadores passaram a dialogar internacionalmente. Foi nesse contexto que, já na década de 80, surgiram estudos fundamentais como os da pesquisadora norte-americana Peggy Sharpe Valadares, que relançou o livro Opúsculo Humanitário, escrito por Nísia Floresta em 1989, durante o I Movimento Pró-Memória em Nísia Floresta. Ela é autora do importante livro Nísia Floresta: Brazilian Feminist Pioneer, e, logo em seguida, os trabalhos decisivos de Constância Lima Duarte, responsável por uma verdadeira renovação dos estudos nisianos no Brasil. Contudo, é preciso reconhecer com justiça: durante décadas, História de Nísia Floresta, de Adauto da Câmara, permaneceu como a principal - e muitas vezes única - grande fonte sistematizada sobre a vida da escritora potiguar. Seu livro funcionou como ponte indispensável para gerações posteriores de pesquisadores.
Por isso, a leitura dessa "Nota Prévia" emociona profundamente os que se dedicam ao estudo de Nísia Floresta. Ela nos mostra que a historiografia também é feita de paixão, obstinação e acaso; de encontros improváveis em livrarias antigas; de cartas enviadas à França; de notícias esquecidas em colunas de jornais; de bibliotecas empoeiradas; de pessoas que compreenderam, antes dos demais, a grandeza de uma mulher extraordinária. Adauto da Câmara não escreveu apenas uma introdução: deixou um testemunho vivo sobre o esforço heroico de salvar Nísia Floresta do esquecimento histórico.
SEGUE, ABAIXO, A "NOTA PRÉVIA", IPSIS LITERIS...
"NOTA PRÉVIA
Em 1938, delegado da Academia Norte-RioGrandense de Letras junto à Federação das Academias de Letras do Brasil, fomos por esta designado para realizar uma conferência sobre uma figura mental da nossa terra. Escolhemos Nísia Floresta para tema desse estudo de vulgarização. Durante meses, frequentamos bibliotecas, arquivos, em busca de algo novo sobre a gloriosa escritora brasileira, nascida no Rio Grande do Norte. Sobre sua vida e atividade intelectual muito se havia escrito, é certo, através de lendas e equívocos, que os estudiosos iam repetindo sem maiores escrúpulos, concorrendo para que fossem perpetuando os disparates de que estava inçada a história desta mulher prodigiosa.
Lutamos com dificuldades sem conta para esclarecer pontos obscuros de sua existência, alguns dos quais continuam como dantes. Procedemos à leitura de quase todas as suas obras, pelo menos das que se encontram em nossas bibliotecas públicas: a Biblioteca Nacional, Instituto Histórico e Gabinete Português de Leitura. Verificamos quanto era ainda pouco apreciada, por desconhecida, a sua pujança espiritual. Mais uma vez podemos dar testemunho da inestimável colaboração dos velhos jornais para todo esforço de investigação do passado. Se não fora o subsídio do JORNAL DO COMMERCIO, do DIÁRIO DE PERNAMBUCO, d’O MERCANTIL, d’O LIBERAL e de outros consultados menos assiduamente, não teríamos podido imprimir a esta biografia o rumo novo da afirmação abonada pelo documento contemporâneo, estampados nos órgãos da imprensa. Nos “Comunicados” e “A Pedidos”, nos anúncios, nos convites de missa, nos recantos mais discretos de uma coluna, no obituario, na gazetilha, surge um filão opulento de informações, em que o pesquisador atilado mergulha e colhe o pormenor insignificante, que é, muitas vezes, a chave de enigmas que pareciam insolúveis.
Após tantas canseiras, a que nos entregávamos satisfeitos, pensando sempre em servir dignamente a nossa terra, pronunciamos a Conferência, no Clube Militar, e desvanecidamente reconhecemos que teve uma honrosa repercussão nos meios culturais do Rio de Janeiro. Publicada, em exertos, no JORNAL DO COMERCIO e no DIARIO DE NOTICIAS, recebemos muitos estímulos para que lhe déssemos maior amplitude, reunindo, em volume, a vasta e então ignorada documentação obtida. Tais votos nos vieram, entre outros, dos prezados confrades da Academia Potiguar, do dr. Henrique Castriciano, grande conhecedor da vida de Nisia Floresta, e do dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, que é um dos valores mais representativos da inteligência e da cultura da nossa querida província. Eis como temos agora o orgulho de colaborar na magistral Biblioteca de Historia Norte-Riograndense, que José Augusto está editando, com um êxito magnífico e digno de todos os encômios. Cada mês, um volume novo sobre homens e cousas potiguares. Nesta paciente e apaixonada tarefa, vai ele ajuntando os materiais para o futuro historiador do Rio Grande do Norte. Aqui trazemos a nossa pedrinha para esse monumento.
José Augusto não é um displicente admirador dos títulos literarios de Nisia. É um devoto militante, que que não perde ocasião de a estudar e de contribuir para divulgar os seus altos merecimentos. O episodio que vamos relatar, atesta os seus serviços à glória da conterrânea insigne. Em 1925, sendo ele governador do Rio Grande do Norte e estando no Rio, acompanhamo-lo em uma de suas habituais visitas às livrarias. Penetrando em uma que a esse tempo, existia na rua Chile, indagou se por ali não apareciam raridades bibliográficas, pois que se interessava pelas obras de Nísia Floresta.
Responderam-lhe que, no dia anterior, havia sido vendido, por 200$, um volume do ITINERAIRE d’um VOYAGE em ALLEMAGNE a um distinto oficial do Exército, o major Pedro Gomes. Tão viva foi a sua expressão de desgosto por lhe ter escapado a oportunidade da aquisição do precioso exemplar, que o livreiro se dispôs a fazer uma comunicação ao bibliófilo afortunado da véspera. Este, que em um gesto que ainda hoje José Augusto recorda com emoção, lhe ofertou o cimelho, que foi parar no lugar que ele lhe destinara: a biblioteca pública de Natal, mantida pelo Instituto Histórico local, onde se encontra, conforme nos informou, há pouco, o dr. Nestor Lima, seu benemérito presidente.
A Henrique Castriciano devemos valiosas informações, que generosamente nos ministrou. Podemos assegurar que o Brasil não esqueceu Nísia Floresta por obra e graça de Henrique, que tão fervorosamente lhe tem cultuado a memoria, procurando tornar conhecidos, por toda a parte, os seus talentos. Aproveitamos o ensejo para lhe reiterar o apelo que tantos outros lhe têm feito, no sentido de publicar o seu livro sobre Nisia Floresta, para o qual reuniu copiosa documentação, colhida em mananciais que só ele explorou. Esteve em contato com pessoas que conheceram Nisia; travou relações com sobrinhas residentes no Rio; correspondeu-se com a filha de Nisia; pesquisou, pessoalmente, na Europa, sobre esta grande vida. Ninguém melhor do que ele para traçar a biografia definitiva de Nisia Floresta: é o órgão mais autorizado, o estudioso mais bem informado, a ultima instancia neste assunto.
Agradecemos cordialmente a gentileza de quantos atenderam a solicitações nossas, ou espontaneamente trouxeram a sua achega a este ensaio, entre os quais os srs. Geonisio Curvelo de Mendonça, da Igreja Positivista do Brasil, e Aurelio Porto, diretor dos “Anais” do Itamarati.
No intuito de proporcionar a quem nunca leu Nisia Floresta uma impressão, embora superficial, de seu estilo, imaginação, cultura e tendências, inserimos alguns excertos de sua variada produção. Todas as traduções encontradas neste livro são nossas.
Rio de Janeiro, 1º de Março de 1941
ADAUTO Miranda Raposo da CÂMARA
(Da Academia Norte-Rigrandense de Letras. Do I.H. r Geográfico do Rio Grande do Norte. Da Ordem dos Advogados. Professor do GINASIO METROPOLITANO, do Rio de Janeiro). Biblioteca de Historia Norte-Rigrandense - V - História de Nísia Floresta. 1941. IRMÃOS PONGETTI editores. Rio de Janeiro"


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