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ANTES DE LER É BOM SABER...
sexta-feira, 24 de abril de 2026
quinta-feira, 16 de abril de 2026
A MENINA DO VESTIDO ROXO: QUANDO OS DESPOJOS DE NÍSIA FLORESTA CHEGARAM À SUA TERRA NATAL...
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| Lúcia Elisa do Nascimento, "A Menina do Vestido Roxo"... |
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| Livro "A Menina do Vestido Roxo" |
terça-feira, 24 de março de 2026
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA LITERATURA... CAMÕES E MACHADO CHORAM...
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| Dom Quixote é difícil? Como ler sem se perder (ou desistir) |
Agora imagine você lendo o autor ou autora que chorou lágrimas de sangue para produzir um clássico que que viverá eternamente grudado na humanidade, que seus hexanetos o estarão lendo... que o futuro infinito o estará lendo...
Manoel de Barros declarou que “escrever sangra”. Ele quis dizer que é delicioso escrever, mas sangra, pois é trabalho minucioso, pesado, medido, pincelado, aparado, rasgado, jogado no lixo, recuperado, editado, e, nesse mister, o cérebro sua, cansa, e o medo de ser condenado, incompreendido e crucificado orbita... Isso é sangrar, pois também é sofrível... Um sofrível que nos possui como possessão,, pois não conseguimos livramento.
Escrever leva tempo, conhecimento, pesquisa, formação, leitura, estudo, desafios, noites de sono, entraves... A obra para, estaciona, fica esquecida, é retomada, é relida, é aparada, mexida, remexida e publicada. Um livro saído do cérebro de um escritor é um filho que até mesmo o pai sentiu a gestação, pois o viu nascer, engatinhar, andar e ser convidado a estar sob os olhos das crianças e dos adultos. É o filho que ouviu nossos puxões de orelha e sentiu a nossa palavra de aprovação.
Todo livro carrega histórias de bastidores inimagináveis. O computador que pifou. O texto que sumiu. O reencontro, a reescrita. As anotações dos insights madrugadores. A visita ao local de inspiração. O carro que quebrou. A xícara de café que virou sobre as anotações. O copo de água gelada que caiu nos teclados... O dinheiro que faltou na hora de pagar a xerox (pois livro tem que ser lido e corrigido a grafite, no papel)...
A escrita verdadeira, assim como a pintura verdadeira, como a música verdadeira, precisa ser reconhecida pelo leitor: “isso é de fulano”... “isso é de siclano”. Igual ver uma tela de van Gogh, Doryan Gray... É como RG.
Escrever é feito de todas as sensações. Uma simples poesia, uma prosa poética, pode ter uma história de meses ou até anos, pois é inconcebível a obra que não perpassou pelas veias, pelo coração, pelos neurônios... é inconcebível a escrita que não veio dos dedentros humanos... que não foi julgada pela nossa coragem, pelo nosso medo, que não perpassou por nossa sentença... que não foi lida por um amigo íntimo antes de perpassar pelas bobinas das máquinas...
Eu acredito no homem, na palavra que não brotou em segundos, gerada por condicionamento maquinal, oriunda dos submundos da inverdade e da frieza, mas que foi gerada como uma jaca, embu, graviola, melancia, macaxeira... a palavra que foi gerada como filho, que perpassou por dor, suor, lágrimas, alegria, êxtase, paz, felicidade plena... A palavra que tem impressão digital...
domingo, 15 de março de 2026
O MEDALHÃO DE NÍSIA FLORESTA: MEMÓRIA, ARTE E HISTÓRIA DE UMA EFÍGIE BRASILEIRA...
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| Reprodução do livro História de Nísia Floresta, 1941, de Adauto da Câmara, ed. Pongetti, RJ |
Entre os diversos objetos históricos associados à memória de Nísia Floresta Brasileira Augusta, poucos possuem valor simbólico tão expressivo quanto o chamado Medalhão de Nísia Floresta, também conhecido como Efígie de Nísia Floresta. Trata-se de uma peça artística em bronze que, ao longo do tempo, tornou-se um importante testemunho material da trajetória de uma das mais notáveis intelectuais brasileiras do século XIX. A história desse medalhão reúne episódios que atravessam continentes, monumentos públicos, desaparecimentos misteriosos e redescobertas inesperadas, compondo um capítulo singular da memória cultural do Rio Grande do Norte.
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| Medalhão que se encontra no IHGRN |
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| Nísia Floresta Brasileira Augusta |
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| O artista paraense Corbiniano Vilaça, pintado por Portinari. em 1929. |
A presença de artistas estrangeiros e brasileiros no projeto demonstra o caráter cosmopolita da homenagem. Ao mesmo tempo em que o monumento celebrava uma escritora potiguar, ele dialogava com tradições artísticas europeias muito presentes nas esculturas públicas do início do século XX no Brasil.
A história torna-se ainda mais intrigante quando surge um registro fotográfico datado de 1954, realizado no Centro Norte-Rio-Grandense no Rio de Janeiro, no qual aparece um medalhão idêntico ao da homenagem natalense. A fotografia foi produzida durante cerimônias relacionadas à chegada dos restos mortais de Nísia Floresta ao Brasil, ocorridas em setembro, evento que mobilizou instituições culturais e associações regionais na capital federal da época.
A ausência de documentação definitiva sobre o assunto mantém aberta essa possibilidade histórica. A hipótese de duas peças semelhantes amplia o caráter enigmático da trajetória do objeto, transformando-o numa curiosidade que trag comigo.
Após um longo período de desaparecimento, o medalhão foi encontrado de maneira inesperada em um ferro-velho de Natal. O episódio revela o grau de negligência que frequentemente atinge bens culturais quando não há mecanismos de proteção institucional adequados. Felizmente, a peça foi reconhecida e resgatada antes de sofrer danos irreversíveis.
Depois de recuperado, o medalhão foi encaminhado para o acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, instituição responsável pela preservação de documentos, objetos e registros relacionados à história potiguar. No instituto, durante a presidência do Dr. Ormuz Barbalho Simonetti - coincidentemente filho do deputado Arnaldo Barbalho Simonetti, autor da lei que mudou o nome de Papary para Nísia Floresta em 1948 - a peça passou por procedimentos de limpeza, foi polida, sendo posteriormente incorporada às coleções históricas da entidade. Vale registra que o IHGRN também possui um livro original escrito por Nísia Floresta: "Itinerário de Uma Viagem à Alemanha", de 1857. Vi essa obra em 1996, quando o dr. Enélio Petrovich abriu uma gavetinha na chave e me mostrou juto à funcionária Lúcia (Um verdadeiro tesouro).
Atualmente, o medalhão constitui uma das peças mais significativas do acervo dedicado à memória de Nísia Floresta. Sua preservação permite que visitantes e pesquisadores tenham contato direto com um objeto que atravessou diferentes momentos da história cultural brasileira. Mais do que uma simples peça artística, a efígie representa um símbolo da trajetória intelectual de uma mulher que se destacou como pioneira na defesa da educação feminina e na crítica às desigualdades sociais. Ao longo do século XIX, Nísia Floresta produziu obras que questionavam as estruturas sociais de seu tempo e defendiam a ampliação dos direitos das mulheres e postulava um país verdadeiramente evoluído, tendo se preocupado com a escravidão, o sistema republicano, o indígena e outras questões.
Seu livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens, publicado em 1832, tornou-se um marco na história das ideias no Brasil, sendo frequentemente considerado uma das primeiras manifestações do pensamento feminista no país. A presença de sua imagem em um medalhão comemorativo reforça o reconhecimento que sua obra passou a receber nas décadas posteriores à sua morte.
A história do medalhão também revela aspectos importantes da construção da memória pública. Monumentos, esculturas e efígies funcionam como instrumentos simbólicos por meio dos quais sociedades homenageiam personagens considerados representativos de determinados valores culturais e históricos.
Nesse sentido, o medalhão de Nísia Floresta constitui um elo entre diferentes gerações. Produzido no século XIX, incorporado a um monumento no início do século XX, perdido e reencontrado décadas depois, ele continua a representar a permanência do legado intelectual da escritora.
A trajetória dessa peça demonstra que a memória histórica não é estática. Ela depende de ações contínuas de preservação, pesquisa e divulgação. A recuperação do medalhão e sua guarda em instituição cultural garantem que esse testemunho material continue a integrar o patrimônio histórico do Rio Grande do Norte.
Há três anos, um norte-rio-grandense de Currais Novos, cujo nome não me recordo no momento, publicou um vídeo no Tik Tok exibindo um medalhão idêntico ao que foi instalado em 1911 na Praça Augusto Severo. A peça também era datada de 1851, assinada pelo escultor francês e também trazia a assinatura de Nísia Floresta. Ele alegou ter encontrado num antiquário no Rio de Janeiro. TENHO CERTEZA ABSOLUTA QUE ESSA PEÇA FOI ROUBADA DO CENTRO NORTE-RIO-GRANDENSE E VENDIDA A PREÇO DE BANANA A ALGUM ANTIQUÁRIO cuja sede fica no Rio de Janeiro. Foi o mesmo caso do ferro velho. A diferença é que o medalhão foi parar num antiquário. Imediatamente entrei em contato com a pessoa e expus a história da peça, propondo que ele a entregasse ao município de Nísia Floresta ou ao IHGRN, mas ele nunca me respondeu. A única certeza que tenho é que no Rio Grande do Norte existem duas peças dessa, ambas originais.
Assim, a efígie de Nísia Floresta - em meio a esse torvelinho histórico - permanece como um símbolo duradouro de reconhecimento à importância de uma mulher que dedicou sua vida à educação, à literatura e à defesa da justiça social. Mais do que um objeto artístico, o medalhão representa a materialização de uma memória que atravessa o tempo e reafirma o lugar de Nísia Floresta entre as grandes figuras da história intelectual brasileira.
Referências
Blog Nísia Floresta por Luís Carlos Freire – diversos textos e pesquisas sobre o medalhão e a memória histórica da escritora.
FREIRE, Luís Carlos. Estudos e artigos sobre a iconografia e a memória cultural de Nísia Floresta.
Acervo e registros do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
Registros históricos sobre o monumento de Nísia Floresta inaugurado em 1911 na Praça Augusto Severo, Natal.
Documentação histórica referente às homenagens realizadas em 1954 durante a chegada dos restos mortais de Nísia Floresta ao Brasil.
sábado, 14 de março de 2026
O BAOBÁ DE NÍSIA FLORESTA E UM LOGRADOURO EM TRANSFORMAÇÃO...
Um aparte...
As fotografias acima e abaixo são as mesmas. A diferença é que a de cima recebeu uma limpeza através de recursos de inteligência artificial. Observe que a de baixo traz um reflexo sobre o baobá e manchas do tempo. Acho interessante - como curiosidade - os recursos da IA aplicados à fotografia histórica. Eles permitem recuperar detalhes que o desgaste do papel, da luz e da umidade foram apagando ao longo das décadas. Entretanto, confesso que, no que se refere à colorização, minha posição é mais cautelosa.
Por mais que algumas imagens colorizadas fiquem até palatáveis aos olhos contemporâneos, elas não são exatamente as mesmas fotografias. Acho-as amanteigadas. Estranhas. A que foi melhorada digitalmente não é verdadeira no sentido histórico pleno, pois não há como provar que as cores aplicadas correspondem fielmente às cores que existiam naquele instante do passado. Se fosse possível garantir que a colorização reproduzisse ipsis litteris as cores originais, talvez a aceitação fosse maior. No entanto, muitos dispositivos de inteligência artificial acabam modificando diversos pontos da imagem, acrescentando tonalidades, texturas e contrastes que jamais existiram. Trata-se, portanto, de uma interpretação tecnológica da imagem, não do documento em si.
Nesse sentido, a intervenção pode ser vista como uma espécie de tradução visual do passado, útil, interessante, mas inevitavelmente subjetiva. Ao alterar elementos da fotografia, mesmo que de forma sutil, corre-se o risco de produzir uma narrativa estética que interfere na autenticidade histórica do registro. Por essa razão, optei apenas pela limpeza da imagem, preservando sua natureza documental. Ao final, postei também a versão colorizada por IA, mas confesso que prefiro a fotografia em preto e branco. Observe, por exemplo, que as folhagens do baobá aparecem com a mesma tonalidade do gramado e das demais vegetações, uma uniformidade cromática improvável na natureza, revelando uma falsidade impressionante.
O preto e branco, nesse caso, preserva algo que vai além da estética: preserva o silêncio do tempo, permitindo que a fotografia permaneça como testemunha e não como reinterpretação.
Fotografia antiga é um documento precioso que, nas mãos de pessoas atenciosas - que cruzam informações prévias, sejam obtidas oralmente, pela tradição local, ou em livros e registros escritos - pode revelar dados importantes no futuro. Muitas vezes, um detalhe aparentemente banal se transforma em pista para compreender a evolução urbana, social ou cultural de uma cidade.
Nesta fotografia, por exemplo - registrada nos anos 80, portanto há quase cinquenta anos - encontramos diversas informações interessantes. Tomando o homem como parâmetro de escala, constatamos que o diâmetro do baobá, circundado por uma mureta de alvenaria, já era bastante volumoso e não muito diferente do que se observa hoje, em pleno ano de 2026. Isso nos leva a refletir sobre a longevidade dessa árvore extraordinária. Enquanto gerações humanas se sucedem rapidamente, o baobá permanece quase imperturbável, atravessando décadas como um marco vivo da paisagem urbana. E que ele não se avolumou muito, comparado ao tempo em que foi plantado.
O registro também deixa visível o prédio da prefeitura municipal, diante do qual uma mulher caminha em direção ao baobá. Atrás do edifício não se vê qualquer construção, o que indica um momento anterior à expansão urbana que viria nas décadas seguintes. O homem ao lado da árvore, a julgar pela roupa, parece ser um visitante que contempla a exótica espécie. A mulher, aparentemente bem vestida, talvez o acompanhe. São pequenos gestos congelados na fotografia que hoje nos convidam a imaginar histórias que o registro não revela completamente.
No extremo esquerdo observa-se uma residência murada, separada por uma rua que faz divisa com os muros da antiga Casa das Freiras, por onde passam duas meninas aparentemente uniformizadas com vestimenta escolar. A presença delas sugere a rotina cotidiana da cidade: escola, deslocamentos a pé, vida comunitária em escala humana, algo muito característico das cidades interioranas daquele período.
Também se vê um terreno baldio no formato de um triângulo escaleno, ainda sem qualquer construção. Ao lado, há uma calçada muito alta pertencente a um prédio público que não aparece integralmente na fotografia. Esses vazios urbanos são particularmente reveladores: muitas vezes, eles indicam áreas que posteriormente seriam ocupadas por edificações ou transformadas pelo crescimento da cidade.
Outro detalhe importante é a presença dos postes para fios de alta tensão, indicando que a infraestrutura elétrica já estava consolidada naquele momento. O baobá aparece carregado de frutos, o que também pode sugerir a época do ano em que a fotografia foi feita. As ruas já estavam calçadas com paralelepípedos, o que revela que o registro foi feito durante a administração do prefeito George Ney Ferreira, gestor que iniciou o calçamento da cidade , uma obra que marcou profundamente a modernização urbana local. Esse tipo de detalhe, aparentemente simples, ajuda a situar a fotografia dentro de um contexto administrativo e histórico mais amplo.
Constatamos ainda que não havia sido construído o setor de comércio logo após o baobá, como vemos hoje. Esse elemento praticamente nos ajuda a estabelecer uma data aproximada para o registro. À esquerda do homem observamos um gramado dividido por meio-fio. Ali estava a praça da cidade, que se estendia até o baobá, ainda de forma modesta. Não sei afirmar com certeza se naquele momento ela já se chamava Praça Coronel José de Araújo, mas registro a dúvida para eventual complementação futura.
Posteriormente, ainda durante a administração do prefeito George Ney Ferreira, essa praça foi cortada ao meio: construiu-se a rodoviária na parte superior e transformou-se o espaço inferior, que antes pertencia à praça, em uma rua ampla para veículos. Essa transformação urbana mostra como as cidades se reorganizam ao longo do tempo, muitas vezes sacrificando espaços de convivência para atender às demandas da mobilidade e do crescimento.
A fotografia seguinte é da mesma década e praticamente da mesma época, servindo como parâmetro para compreendermos melhor a cidade. Provavelmente há entre elas uma diferença de apenas um ou dois anos.
O que muda é o ângulo, que permite observar os casarios típicos das décadas de 1920, 1930 e 1940, construções que, além de abrigar famílias e histórias, compunham a identidade arquitetônica da cidade. A rua já se encontra calçada e nota-se o plantio recente de árvores, possivelmente parte de um projeto de arborização urbana.
O gramado aparece ressequido, indicando que a fotografia foi feita durante o verão. O baobá, no entanto, praticamente não difere em tamanho. Esse fato reforça a ideia de que estamos diante de um ser vivo cuja escala temporal é muito diferente da humana. Quatro pessoas aparecem registradas na cena. Assim como na primeira imagem, são presenças discretas, quase anônimas, mas que acabam conferindo vida à fotografia. Afinal, toda cidade é feita não apenas de ruas, prédios e árvores, mas principalmente das pessoas que a habitam e transitam por seus espaços.
Por fim, vemos um close da placa de bronze maciço, onde se lê:
“Essa árvore de nome Baobá foi plantada em 1877 pelo Snr. Manoel de Moura Júnior.
Nísia Floresta, 10-02-1949.
Gisaldo Cabral de Moura.”
A placa permanece no local até hoje, intacta — um pequeno monumento que liga três tempos distintos: o momento do plantio da árvore no século XIX, o momento da homenagem em 1949 e o nosso presente. Talvez esse seja o maior valor dessas fotografias antigas: elas nos lembram que a cidade não é apenas um espaço geográfico, mas uma acumulação de tempos, onde cada geração deixa marcas visíveis ou invisíveis. E, entre todas essas marcas, o velho baobá continua ali — silencioso, testemunhando a passagem da história.
sexta-feira, 13 de março de 2026
Portas, janelas, portões e grades da Natal do século XX...
OBSERVAÇÃO: A maioria dos registros aqui postados são de imóveis da Ribeira. Os que não forem, estão identificados com seus respectivos bairros, afinal, Clarinha passeia demais. E sem coleira nem guia...
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Tenho a impressão de que ela também gosta de história. Maria Clara tem um olhar especial para certos detalhes dos velhos prédios: portas, janelas, portões e grades de ferro. Sempre que encontramos algum desses elementos mais interessantes, ela para, olha e parece me lembrar do que devo fazer.
- Vamos fotografar. E eu fotografo.
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Às vezes ela mesma quer aparecer na foto, parada ao lado de uma porta antiga ou encostada em um portão de ferro trabalhado. Já tenho uma pequena coleção dessas imagens. As fotografias mostram portas e janelas que certamente atravessaram muitas décadas. Algumas devem ser da primeira década do século XX, outras parecem ter sido feitas entre os anos 20 e 40, quando a Ribeira era um dos bairros mais importantes da cidade.
Há grades muito simples, com desenhos discretos, e outras extremamente sofisticadas, cheias de curvas e ornamentos delicados. Algumas trazem letras isoladas no ferro, iniciais que provavelmente revelavam o nome dos antigos proprietários ou de alguma empresa que funcionava ali.
O que mais me chama atenção é a qualidade do material. É um ferro que se percebe pesado, forte, daquele que já não se fabrica mais. Muitas dessas peças continuam praticamente intactas, apesar do tempo. Quando vejo certas portas enormes, fico imaginando o peso que devem ter. Penso em quantas mãos trabalharam para produzi-las e instalá-las ali, há mais de cem anos.
Essas ornamentações de ferro também carregam outra história interessante em seus primórdios. Muitos desses desenhos foram inspirados em técnicas trazidas da África por artesãos e ferreiros que dominavam o trabalho com o metal. Os arabescos, as formas repetidas e os desenhos geométricos revelam muito da cultura africana presente na arquitetura daquele período. É bonito perceber como diferentes culturas ficaram registradas nesses detalhes.
Mas nem tudo nesses passeios é encantamento. Muitas vezes sinto uma certa tristeza ao olhar alguns daqueles prédios. Apesar de encontra alguns muito bem zelados, muitos são verdadeiros poemas arquitetônicos de tanta beleza e singularidade. Sobrados elegantes, fachadas bem trabalhadas, portas imensas, janelas altas. E, no entanto, estão fechados há décadas. Os donos parecem apenas manter os imóveis ali, como quem guarda algo, mas sem realmente cuidar. Não restauram, não ocupam, não devolvem vida àquelas construções.
E o mais impressionante é que muitos desses prédios continuam muito sólidos. São amplos, bem construídos e em bom estado estrutural. Alguns sobrados poderiam facilmente abrigar secretarias municipais ou estaduais se fossem restaurados com cuidado.
Às vezes fico imaginando como seria se alguns serviços públicos funcionassem ali. Uma Central do Cidadão. Uma delegacia. Uma agência dos Correios. Um cartório. Uma agência bancária. Se a Ribeira oferecesse serviços importantes, certamente haveria mais circulação de pessoas. E quando as pessoas passam a frequentar um lugar, o comércio aparece naturalmente. Surgem lanchonetes, pequenas lojas, vendedores ambulantes, movimento nas calçadas.
Talvez essa seja uma das formas de fazer o bairro renascer, junto com outras políticas públicas, como redução de impostos e incentivo à moradia popular. Alguma coisa já começa a aparecer por ali. Já encontramos uma galeria incrível de obras de arte, um hospital para animais domésticos e uma farmácia veterinária. Pequenos sinais de que o bairro ainda tem vida.
Enquanto isso, Maria Clara continua seu passeio atento entre portas e janelas antigas. Eu sigo fotografando. Porque, no fundo, não sabemos o que vai acontecer com muitos daqueles prédios. Não sabemos se um dia serão restaurados ou se acabarão ruindo com o tempo. Pelo menos ficam os registros para inspirar pessoas que gostam dessas belezas e podem, se quiserem, fazer um portão ou porta baseados nessas obras, afinal os ornamentos são inspiradores. Portas que se abriram milhares de vezes ao longo das décadas.
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Portas que acolheram pessoas, famílias e comerciantes. Janelas que se abriam para ver o movimento das ruas. Janelas de onde se podia olhar o rio Potengi, observar os passantes ou simplesmente sentir o vento da tarde. Talvez por isso esses passeios sejam tão agradáveis. Enquanto caminhamos pela Ribeira - eu e Maria Clara - vamos guardando, em fotografias e na memória, um pouco da história silenciosa dessas portas e janelas que já viram tanta vida passar.
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