ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

CÂMARA CASCUDO: O ADVOGADO DO FOLCLORE...

Falar de Luís da Câmara Cascudo é sempre correr o risco de deixar algo importante de fora. Sua obra é tão vasta, tão múltipla e tão generosa em relação aos campos do conhecimento que qualquer tentativa de defini-lo parece, de algum modo, uma redução. Cascudo foi historiador, folclorista, etnógrafo, pesquisador da cultura popular, estudioso da música, do Direito, da alimentação, da religião, da linguagem, da literatura, dos costumes e de tantos outros assuntos que fizeram dele uma das inteligências mais fecundas que o Rio Grande do Norte ofereceu ao Brasil. Escreveu sobre a História do Rio Grande do Norte com a autoridade de quem conhecia documentos, personagens e acontecimentos; escreveu sobre música, sobre o cotidiano, sobre a vida social, sobre o Brasil e sobre aquilo que muitas vezes passava despercebido aos olhos dos homens que se julgavam mais cultos. Sua curiosidade parecia não conhecer fronteiras. Podia mergulhar num documento hist´rico, examinar uma lei, estudar uma palavra, investigar uma cantiga ou recolher uma história contada pela boca de um homem simples. E talvez seja justamente essa capacidade de transitar entre universos tão diferentes que explique parte de sua grandeza.

Mas há um Cascudo que, especialmente neste mês de agosto, merece ser lembrado com particular atenção: o Cascudo dedicado ao Folclore. Agosto, tradicionalmente associado às celebrações e reflexões em torno do folclore, oferece uma oportunidade para voltarmos os olhos para esse aspecto fundamental de sua obra. É extraordinariamente admirável que um homem capaz de escrever com tanta notoriedade sobre História, Direito, música, literatura e tantos outros campos do conhecimento tenha dedicado uma parcela tão expressiva de sua inteligência a uma área que, durante muito tempo, foi tratada com certo desprezo pelos setores mais eruditos da sociedade. Cascudo não enxergou o folclore como uma coleção de curiosidades ou como passatempo de gente simples. Compreendeu que, por trás de uma dança, de uma cantiga, de uma superstição, de um mito, de uma lenda ou de uma brincadeira, havia séculos de memória humana. Havia povos, encontros, crenças, medos, alegrias, sofrimentos, resistências e formas de compreender o mundo. E foi justamente essa percepção que fez dele um gigante dos estudos do folclore brasileiro.

O mais extraordinário é que Cascudo conseguiu mergulhar profundamente no universo dos mitos, das lendas, das histórias fantásticas, das assombrações e dos seres sobrenaturais sem permitir que o encantamento do folclore contaminasse o rigor com que tratava outros campos do conhecimento. O homem que estudava o mito sabia que mito era mito; o homem que recolhia uma lenda sabia que lenda era lenda; aquele que registrava uma história de assombração não precisava acreditar literalmente nela para compreender seu extraordinário valor cultural. Cascudo podia entrar no mundo do fantástico sem perder o caminho de volta à realidade. Se a fantasia tivesse invadido sua maneira de escrever História, se as lendas fossem tratadas como fatos documentais, seu legado certamente teria sido prejudicado. Mas não foi isso que aconteceu. Ele soube distinguir os territórios sem jamais isolá-los. Compreendeu que o fantástico, mesmo quando não corresponde à realidade factual, pode ser absolutamente verdadeiro enquanto expressão da imaginação, da memória e da experiência coletiva de um povo. Essa talvez seja uma das maiores lições de sua obra: não é preciso acreditar literalmente em uma lenda para reconhecer a verdade cultural que existe dentro dela.

Essa compreensão de Cascudo se torna ainda mais bonita quando lembramos não apenas o escritor, mas o homem que existia por trás dos livros. Há uma passagem que guardo com especial carinho, porque tive a oportunidade de ouvi-la de Ana Maria Cascudo Barreto, durante uma conferência no Ludovicus - Instituto Câmara Cascudo. Naquela ocasião, Ana Maria nos aproximou de um Cascudo que não aparece apenas nas bibliografias, nas fotografias ou nas lombadas dos livros, mas no cotidiano de sua relação com o povo. Ela contou que, em determinado período, manifestações da cultura popular realizadas por pessoas simples nas ruas, nas praças e nos quintais eram, muitas vezes, vistas por algumas pessoas e até por determinadas autoridades como arruaças. Brincadeiras como o bambelô, o zambê e outras manifestações marcadas pela percussão, pelo canto, pelo corpo e pela celebração eram incompreendidas por aqueles que não conseguiam enxergar ali uma expressão cultural. Para quem não conhecia aquela tradição, o som dos tambores podia parecer apenas barulho; a reunião de pessoas podia parecer desordem; a dança podia parecer perturbação da ordem pública. Para os brincantes, entretanto, aquilo não era arruaça. Era vida, tradição, memória. Era algo que traziam dentro da alma e que haviam recebido de seus antepassados.

E então acontecia uma situação que revela muito da grandeza humana de Cascudo. Em determinadas noites, quando essas pessoas eram levadas para a delegacia porque estavam brincando, alguém corria até sua casa. Às vezes era a esposa; às vezes uma filha, um avô, um parente ou alguém da comunidade. Chegavam aflitos, procurando socorro. Não procuravam apenas um intelectual famoso. Procuravam alguém que compreendesse - de forma muito especial - o que estava acontecendo. E Cascudo, segundo a narrativa que ouvi de Ana Maria, não fazia questão de esperar o dia seguinte. Se fosse noite ou madrugada, levantava-se e ia à delegacia. Muitos daqueles delegados eram seus amigos ou conhecidos. E então, diante da autoridade policial, dizia mais ou menos assim: “Meu amigo, solte essas criaturas. Elas não fazem mal a ninguém. Não são criminosos, apenas estão se divertindo. Isso é a cultura popular.” E o delegado, diante daquele pedido, mandava abrir a cela. Talvez com a cara fechada, talvez sem querer demonstrar muito entusiasmo para não “dar cabimento” aos brincantes, mas soltava. Aquela soltura, narrada por Ana Maria, me parece uma das imagens mais bonitas para compreender a verdadeira dimensão de Câmara Cascudo.

Ali estava o professor defendendo o folclore não como conceito abstrato, mas como direito de existir. O bambelô, o zambê, o batuque, a dança, a reunião de pessoas simples e a música produzida pelos tambores eram, para Cascudo, parte de uma herança cultural que precisava ser respeitada. Ele sabia que aquelas manifestações não tinham surgido do nada. Eram frutos de uma longa história brasileira, de encontros e permanências, de heranças africanas, indígenas e europeias, de adaptações feitas por homens e mulheres que transformaram suas experiências em canto, dança, ritmo, celebração e memória. O que alguns enxergavam como arruaça, Cascudo enxergava como documento vivo. O povo não precisava conhecer academicamente a palavra “folclore” para ser portador do folclore. E Cascudo compreendeu isso de maneira extraordinária.

É por isso que sua obra folclórica permanece tão grandiosa. Ele não ficou apenas sentado em sua biblioteca, recolhendo histórias para transformá-las em livros. Sabia que o folclore estava nas ruas, nos quintais, nas festas, nas vozes dos velhos, nos gestos das crianças, no corpo dos brincantes e no som dos tambores. O povo não era, para ele, apenas objeto de curiosidade. Era depositário de uma memória que os livros, muitas vezes, não conseguiam guardar. Sua biblioteca era enorme, mas sua fonte também era a rua. Seu arquivo estava nos livros, mas também estava na memória dos homens. É por isso que aquelas pessoas aflitas, que viam a sua cultura sendo interpretada como atentado à ordem pública, e por isso eram presas, corriam para se socorrer dele e, melhor, ele conhecia essas pessoas que para muitos eram invisíveis.

Neste mês dedicado ao folclore, falar de Câmara Cascudo é, portanto, muito mais do que lembrar o autor de Dicionário do Folclore Brasileiro. É lembrar o homem que percebeu que o folclore não era assunto menor. É lembrar aquele que levou para dentro das bibliotecas e dos círculos intelectuais aquilo que muitos consideravam apenas diversão de gente simples. É lembrar o intelectual que escreveu sobre mitos e lendas sem se tornar um fabulista; que estudou assombrações sem abandonar o rigor histórico; que registrou crenças sem transformar crença em documento factual; que entrou no território do fantástico sem permitir que o fantástico destruísse a fronteira entre imaginação e História. Talvez seja por isso que a imagem daquele Cascudo que ia à delegacia durante a noite seja tão poderosa. Ela resume uma vida inteira. O professor que defendia os brincantes não estava apenas pedindo um favor a um amigo delegado. Estava defendendo uma ideia. Estava dizendo que o povo tinha direito à sua própria cultura. Estava afirmando que aquelas pessoas não eram criminosas porque estavam tocando seus tambores e dançando suas tradições. Estava educando pessoas que ignoravam aquilo como cultura. E, quando o delegado abria a cela, alguma coisa maior também acontecia: a cultura popular saía da prisão.

Gosto de imaginar aquela cena como uma espécie de tribunal às avessas. De um lado, a autoridade formal da lei, representada pelo delegado. Do outro, a autoridade da cultura, representada por Câmara Cascudo. E, naquela noite, não era a força que vencia a força. Era o conhecimento que convencia o poder. Cascudo não precisava gritar. Bastava dizer, com a autoridade de quem havia dedicado a vida àquilo: “Meu amigo, solte essas criaturas.” E elas eram soltas. Talvez por isso aquela cena narrada por Ana Maria me pareça tão simbólica. O homem dos livros saía de sua biblioteca para defender aqueles que dificilmente teriam espaço nos livros. O intelectual consagrado colocava sua autoridade a serviço dos que não tinham autoridade alguma. Por isso, ao pensar em Câmara Cascudo neste mês de agosto, gosto de acrescentar à sua imensa bibliografia uma imagem que nenhum catálogo de livros consegue registrar: Cascudo diante de uma delegacia, à noite, pedindo a liberdade de brincantes do povo. Talvez essa seja uma das mais bonitas páginas de sua obra, justamente porque não foi escrita com tinta. Foi escrita com uma atitude. Foi escrita com humanidade. Foi escrita com a compreensão de que o folclore não vive apenas nos livros que falam dele, mas nas pessoas que o carregam. E então compreendemos que aquelas não eram apenas leis comuns. Eram outras leis. As leis da memória, da tradição, da cultura, daquilo que um povo recebe de seus antepassados e transmite aos que vêm depois. Leis do Folclore, isso sim. E, naquela pequena delegacia, diante de homens simples que apenas queriam continuar brincando, Câmara Cascudo parecia dizer que também havia uma autoridade acima da autoridade passageira dos homens: a autoridade da cultura que sobrevive ao tempo.

Foi esse Cascudo que Ana Maria Cascudo Barreto me fez enxergar naquela conferência no Ludovicus. Não apenas o homem dos livros e das escrivaninhas, mas o homem que abria espaço para aqueles que chegavam aflitos, vindos da rua, trazendo a notícia de que algum brincante havia sido preso. O homem que sabia reconhecer, por trás do som do tambor, aquilo que outros não conseguiam ouvir. E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois de sua morte, Câmara Cascudo continue tão vivo entre nós. Porque ele não estudou apenas o folclore. Ele compreendeu que, dentro do folclore, havia gente.

E quando um homem consegue enxergar gente onde outros enxergam apenas barulho, memória onde outros enxergam apenas brincadeira e cultura onde outros enxergam arruaça, então já não estamos diante apenas de um pesquisador. Estamos diante de alguém que compreendeu profundamente o seu povo. Esse foi Câmara Cascudo. E talvez essa seja uma das razões mais bonitas para que, neste mês de agosto, quando o Brasil volta os olhos para o folclore, nós também voltemos os nossos olhos para ele...


terça-feira, 18 de agosto de 2026

REVELAÇÕES DO DIÁRIO DE ANTONIO MARTINS CORREIA PEIXOTO: QUANDO A PESQUISA HISTÓRICA REENCONTRA A MEMÓRIA DA FAMÍLIA...

Fotografia dos ex-combatentes: sentado, meu tio-bisavô Manoel Martins Correia e Castro; de pé, meu tio-bisavô Antonio Martins Correia Peixoto. Fonte: Acervo do Museu Histórico Luiz Gondim, Paraú/RN (2026): Monografia de João Lucas de Oliveira Linhares 

CINCO PEIXOTOS NA GUERRA DO PARAGUAI

Este estudo é dedicado a João Lucas de Oliveira Linhares

Há descobertas que a pesquisa histórica nos proporciona e que ultrapassam, em muito, aquilo que inicialmente procurávamos. Algumas chegam quase por acaso, como se o passado, depois de permanecer silencioso durante décadas, resolvesse bater à porta do presente para surpreendê-lo. Foi exatamente isso que aconteceu comigo.Depois de escrever um estudo sobre o meu tio-bisavô, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, mipibuense, veterano da Guerra do Paraguai, logo publiquei neste mesmo blog, entendendo que, mesmo diante de algumas lacunas, o material precisava ser disponibilizado, tendo em vista que muitos parentes meus, principalmente os mais jovens, desconhecem essa história. De sua história eu só sabia a ponta do novelo contada por minha mãe, Maria José Peixoto. Eu havia procurado documentos, reconstituído sua trajetória militar, acompanhado os caminhos que o levaram ao conflito, percorrido os caminhos de Belém, no Pará, onde ele também residiu, e tentado devolver à sua biografia um pouco da dimensão que o tempo havia apagado, enfim puxei todo o novelo, ou melhor, quase todo, pois pesquisa quase não tem fim. O texto foi publicado no meu blog, e eu acreditava que, naquele momento, aquela etapa da pesquisa estava concluída.

Leia o estudo sobre o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto

Foi então que aconteceu uma dessas coincidências que parecem possuir uma lógica própria. Eu havia chegado apenas à metade do novelo. Após a publicação, descobri que João Lucas de Oliveira Linhares, jovem historiador formado pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, havia feito pesquisas sobre a participação dos norte-rio-grandenses na Guerra do Paraguai, e o objeto de estudo dele era exatamente Antonio Martins Correia Peixoto: O Diário do Alferes Antonio Martins Correia Peixoto e as Memórias sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870). O trabalho, apresentado em 2026, tem como fonte central o diário pessoal de Antônio Martins Correia Peixoto, documento de extraordinário valor histórico.

A surpresa foi enorme. Aquele Antônio Martins Correia Peixoto não era simplesmente mais um nome entre os potiguares que participaram da Guerra do Paraguai. Era meu tio-bisavô. E, mais do que isso, o pesquisador havia chegado a uma fonte que eu jamais imaginara encontrar: o diário pessoal desse meu antepassado, que pertence ao Museu de Paraú, Rio Grande do Norte. João Lucas teve ainda uma generosidade intelectual que merece ser registrada, inclusive seu gesto serve de lição a muitos historiadores que omitem informações. Depois de estabelecermos contato, ele me enviou sua monografia e outros materiais afins. E foi assim que a pesquisa deixou de ser apenas uma investigação sobre um personagem do passado e ganhou uma dimensão profundamente familiar. Eu estava diante de um documento escrito por alguém da minha própria família, um homem que havia atravessado os mares, participado de uma guerra distante e carregado consigo, para o resto da vida, as lembranças daquela experiência.

O trabalho de João Lucas é particularmente importante porque não se limita a contar a história da Guerra do Paraguai. Seu propósito é compreender como a experiência do conflito foi registrada, lembrada e reelaborada por Antônio Martins Correia Peixoto. O diário, portanto, não é tratado simplesmente como uma narrativa pronta e incontestável, mas como uma fonte histórica que precisa ser confrontada com documentos militares, registros eclesiásticos, fotografias, literatura memorialística e outras fontes, mas com um ponto nobre: é documento, é fato. Essa metodologia confere ao trabalho uma solidez que o torna muito mais do que uma biografia familiar. E foi justamente nesse mergulho que encontrei uma das passagens mais emocionantes de toda essa história.

Diário de Manoel Martins Correia Peixoto. Acervo: João Lucas de Oliveira Linhares

Antônio Martins não foi sozinho para a guerra. Em 1865, quando ainda era um jovem residente na Fazenda Beldroega, na então freguesia de Campo Grande, no Rio Grande do Norte, ele partiu como Voluntário da Pátria acompanhado de três irmãos: Padre Amaro Theot Castor Brasil, Manoel Martins Correia e Castro e José Lucas Barbosa. Os quatro irmãos integraram o contingente potiguar enviado para a Guerra do Paraguai. E, como pode ser visto no trabalho que cito acima, eram simplesmente cinco pessoas da minha família, a contar com o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Correia Peixoto.

Há outro detalhe precioso. A documentação militar foi pesquisada por um dos maiores intelectuais norte-rio-grandenses daquele período: Adauto Miranda Raposo da Câmara e ele confirma a presença dos quatro irmãos no Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande do Norte. Antônio Martins aparece como praça da 4ª Companhia; Amaro Theot Castor Brasil, como capelão-alferes da 1ª Companhia; Manoel Martins Correia e Castro, como alferes da 2ª Companhia; e José Lucas Barbosa, como praça da 4ª Companhia. São quatro irmãos de uma mesma casa, de uma mesma família, saindo juntos de sua terra para uma guerra que acontecia a milhares de quilômetros dali. E existe algo ainda mais poderoso: o próprio Antônio Martins deixou registrada essa despedida.

Diário de Manoel Martins Correia Peixoto. Acervo: João Lucas de Oliveira Linhares

Em um trecho de seu diário, reproduzido por Yapery Tupiassu de Brito Guerra em seu estudo sobre os norte-rio-grandenses que participaram do conflito, Antônio escreveu que partira voluntariamente com seus irmãos Padre Amaro Theot Castor Brasil, Manoel Corrêia e Castro e José Lucas Barbosa, além de seu primo Elias, Francisco José de Melo, Sabino e outros. A partida da casa paterna ocorreu em 13 de março de 1865. A mãe ficou banhada em lágrimas, mas, segundo a lembrança registrada pelo filho, recomendou-lhes que partissem tranquilos, pois suas orações os acompanhariam. Pediu ainda que, depois da vitória, retornassem ao lar sãos e salvos para que pudesse novamente abençoá-los.

É difícil ler essas palavras sem imaginar a cena. Uma casa na antiga freguesia de Campo Grande. Uma mãe vendo os filhos partirem. Um pai acompanhando-os até Natal e depois retornando, sem saber se os filhos retornariam também. Quatro irmãos deixando para trás a segurança da família e seguindo para uma guerra cujo teatro de operações lhes era absolutamente distante e desconhecido. Não era apenas uma partida militar. Era uma ruptura familiar. Em junho de 1865, eles seguiram para o Rio de Janeiro e, dali, para o Sul. Chegaram a Cachoeira, onde iniciaram efetivamente a campanha em 29 de agosto daquele ano. Antônio registrou que ali tiveram o chamado "batismo de fogo", antes de marcharem para Uruguaiana, onde encontraram uma situação em que os paraguaios acabaram se entregando.

Meu tio-bisavô Padre Amaro Theot Castor Brasil

Antônio Martins carregaria essas experiências durante toda a vida. Seu diário registra, segundo o estudo de João Lucas, participação em 23 combates, entre 13 de março de 1865 e 1º de abril de 1870. Mas aquele caderno não é apenas um diário militar. Nele aparecem também lembranças pessoais, informações genealógicas, registros relacionados à fazenda Beldroega, reflexões e lamentações familiares. É, portanto, um retrato muito mais amplo de um homem e de seu tempo.

Isso talvez seja o que mais me emociona nessa descoberta, pois esse cuidado em ter sempre em mãos um papel e um lápis me aproxima muito dele. São objetos que acompanham a minha vida. Talvez por isso eu compreenda ainda melhor o significado daquele caderno. Antônio não escreveu apenas para registrar acontecimentos. Escreveu para não deixar que determinadas coisas se perdessem. E, sem saber, acabou deixando para seus descendentes e para os historiadores uma porta aberta para um mundo que desapareceu. É aqui que a história dos quatro irmãos se encontra novamente com a história do meu tio-bisavô, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto.

Meu tio-bisavô Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto

O TCC de João Lucas recupera uma importante tradição memorialística potiguar: a comunicação de Yapery Tupiassu de Brito Guerra, publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, que procurou resgatar do esquecimento alguns dos norte-rio-grandenses que participaram da Guerra do Paraguai. Entre os personagens apresentados estão justamente Alferes Antonio Martins Corrêia, Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa e Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro, além de Joaquim Castriciano de Brito e Francisco Justiniano de Melo. Todos foram apresentados como naturais de Campo Grande.  É nesse ponto que a minha descoberta se torna ainda mais significativa.

Meu tio-bisavô José Lucas Barbosa

Eu havia começado a pesquisar UM parente que participou da Guerra do Paraguai e descobri, no caminho, uma verdadeira constelação familiar ligada àquele episódio da história brasileira. De um lado, os QUATRO irmãos: Antônio Martins, Amaro, Manoel Martins e José Lucas. De outro, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro, outro parente cuja trajetória militar também se ligou àquela guerra. Assim, CINCO homens da minha família passaram a ocupar, de maneira muito mais concreta, um lugar na história da Guerra do Paraguai. Não são mais apenas nomes encontrados em genealogias, registros militares ou livros antigos. São homens que tiveram rosto, voz, família, medo, esperança, coragem e destino. E, no caso de Antônio Martins, temos algo ainda mais raro: temos a sua própria escrita.

O diário que permaneceu durante tantos anos restrito à memória familiar ganhou, pelas mãos de João Lucas, uma nova existência histórica. O pesquisador registra que o documento possui 104 páginas e que havia sido digitalizado em 2006, depois que um descendente de Antônio Martins procurou o Departamento de História da UERN. A análise revelou que o manuscrito não trata apenas da guerra. Ele reúne também dados genealógicos, contabilidade da fazenda, reflexões filosóficas e lamentações familiares. É, portanto, um retrato muito mais amplo de um homem e de seu tempo.

A história não ficou confinada aos grandes generais, aos presidentes, aos ministros ou aos grandes acontecimentos registrados nos livros oficiais. Ela sobreviveu também nas mãos de homens comuns que escreveram, guardaram, lembraram e transmitiram suas experiências. O diário de Antônio Martins é exatamente isso: uma ponte entre o indivíduo e a História. João Lucas percebeu isso com rara sensibilidade. Seu trabalho não transforma simplesmente os personagens em estátuas de bronze. Ao contrário, procura compreender como a memória foi construída, como os antigos combatentes foram transformados em “heróis" e como a própria historiografia potiguar muitas vezes exaltou o patriotismo sem discutir suficientemente as violências e as contradições do recrutamento.

Essa postura torna a pesquisa ainda mais valiosa. Afinal, reconhecer a coragem de nossos antepassados não significa abandonar o olhar crítico do historiador. É possível admirar a trajetória de um homem e, ao mesmo tempo, compreender as circunstâncias históricas que o levaram à guerra. É possível honrar sua memória sem transformar a História em lenda. E talvez seja justamente essa a maior homenagem que podemos prestar a eles. Há, entretanto, um lugar onde essa memória parece ter encontrado uma casa.

Eu estava me preparando para ir ao município de Paraú, no Rio Grande do Norte, para conhecer o museu onde se encontra uma parte muito significativa da memória desses meus ancestrais. Ali, segundo as informações que chegaram até mim e o material que venho pesquisando, existe uma verdadeira reverência a esses homens. Fotografias, objetos pessoais, registros e outros elementos relacionados à família e aos combatentes compõem um acervo que permite ao visitante aproximar-se não apenas dos personagens, mas do universo humano que os cercou. Paraú guarda, com orgulho, a memória desses cinco homens ligados à Guerra do Paraguai. E isso possui um significado especial para mim. Não se trata apenas de um município que preserva a lembrança de antigos combatentes. Trata-se de um lugar onde a história da minha própria família permanece materializada em fotografias, objetos e documentos. É como se aquilo que encontrei primeiro em livros, depois no diário de Antônio Martins e, finalmente, nas fotografias, tivesse um lugar físico para existir.

Tenho especial interesse em conhecer esse acervo pessoalmente. Quero estar diante das fotografias, observar os objetos, perceber os vestígios materiais deixados por esses homens e, sobretudo, imaginar a trajetória que cada peça percorreu até chegar ali. Há algo diferente quando uma pessoa deixa de olhar uma reprodução na tela do computador e passa a contemplar o objeto original, aquele que pertenceu a alguém que viveu, amou, sofreu, escreveu e partiu para uma guerra.  E Paraú parece ter compreendido o valor dessa memória. Inclusive familiares meus residem nesse município, embora não os conheço e nem imaginava suas existências. É por isso que vou me organizar para visitar todo esse achado.

A cidade se orgulha de saber que possui entre seus referenciais históricos cinco homens ligados à Guerra do Paraguai, e essa consciência patrimonial merece ser valorizada. Porque preservar a memória não significa apenas guardar objetos antigos. Significa explicar às novas gerações por que aqueles objetos sobreviveram e o que eles têm a dizer sobre nós. Quando eu chegar a Paraú, portanto, não estarei apenas visitando um museu. Estarei, de certa maneira, indo ao encontro de cinco parentes.

Antônio Martins Correia Peixoto, Padre Amaro Theot Castor Brasil, Manoel Martins Correia e Castro, José Lucas Barbosa e Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro pertencem agora a uma memória familiar que ganhou novas dimensões. Quatro deles partiram juntos da casa paterna, acompanhados pelas lágrimas e pelas orações da mãe. Outro, o Major Manoel Cornélio, também carregou consigo o peso e a experiência daquela guerra que marcou profundamente a sua geração. Hoje, tantos anos depois, seus nomes voltam a se encontrar. E isso aconteceu porque um jovem historiador decidiu abrir um diário antigo e perguntar o que havia dentro dele.

Por isso, esta história é também uma história de gratidão. Gratidão a Antônio Martins, que escreveu. Gratidão aos familiares que conservaram. Gratidão aos pesquisadores que procuraram. Gratidão à Universidade que acolheu a pesquisa. Gratidão a todos aqueles que, de alguma maneira, compreenderam que esses homens mereciam ser lembrados. E, de maneira muito especial, gratidão a João Lucas de Oliveira Linhares, pela generosidade de compartilhar comigo um trabalho que, para qualquer pesquisador, já seria extraordinário, mas que para mim adquiriu um significado ainda maior. João Lucas não me entregou apenas a sua monografia. Entregou-me, de certa maneira, uma parte da minha própria história. E seu gesto de generosidade intelectual é exemplar.

Eu já havia produzido um estudo, como disse, obviamente uma produção mais acanhada, e não conhecia o TCC de João Lucas. Mas, ao abrir aquele estudo tão amplo e rico, encontrei um antepassado. Ao conhecer o diário, encontrei a voz de um homem que viveu a Guerra do Paraguai. Ao descobrir que ele partira acompanhado dos irmãos, encontrei outros três parentes. E, ao lado deles, reencontrei também o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro, cuja trajetória havia sido justamente o ponto de partida dessa nova investigação. É assim que a História às vezes acontece. Pensamos que estamos procurando um homem e descobrimos uma família inteira. Pensamos que estamos pesquisando o passado e descobrimos que, na verdade, o passado estava procurando por nós.

E talvez essa seja a maior beleza de tudo isso: depois de mais de um século e meio, cinco homens que um dia partiram para uma guerra distante voltaram a se encontrar nas páginas de um diário, nas fotografias de um museu, na memória de uma cidade e, agora, na memória de um descendente. Muito obrigado, João Lucas! Você abriu um diário. E, ao fazê-lo, abriu também uma porta. Do outro lado dela estavam cinco homens, uma família, uma guerra e uma história que ainda precisava ser contada... (Nos próximos dias escreverei sobre uma conferência que houve no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – há 35 anos – e que o conferencista revela que seu pai recebeu de Omar O’Grady, então prefeito de Natal, que propusesse nomes a serem dados a ruas, praças, avenidas da capital... ele propôs os nomes desses heróis)...


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

LENDA DO BAOBÁ DE NÍSIA FLORESTA: DECIFRA-ME OU TE DEVORO - QUANDO A LENDA PODE TER RAÍZES NA HISTÓRIA...

Baobá de Nísia Floresta, ilustrando um material didático proposto pela SEMEC de Nísia Floresta em 2004

Ontem escrevi sobre o baobá de Nísia Floresta, detendo-me especialmente na questão de quem teria sido, de fato, o Moura responsável por plantá-lo. Para não transformar aquele texto em mais um dos longos escritos que costumo produzir, deixei para hoje uma outra dimensão dessa história: a lenda. E não se trata de qualquer lenda. Trata-se de uma narrativa que, além de atravessar gerações da antiga Papary, foi registrada por um dos maiores estudiosos da cultura popular brasileira, Luís da Câmara Cascudo. É justamente aí que a história começa a ficar ainda mais fascinante.

A partir de 1992, passei a desenvolver um trabalho de História Oral em Nísia Floresta. Fui atrás das memórias que ainda sobreviviam na voz dos mais antigos: histórias de família, costumes, acontecimentos, crenças, lugares, personagens, festas, tragédias e lendas. Priorizei, sobretudo, pessoas idosas. Assim, tive a oportunidade de conversar com homens e mulheres que ultrapassavam os 90 anos e também com pessoas centenárias. Era, de certa maneira, uma corrida contra o tempo, porque quando uma pessoa muito idosa morre, não desaparece apenas uma vida: muitas vezes desaparece uma biblioteca inteira. Foi nesse universo de memórias que encontrei também as narrativas sobre o baobá.

A lenda, conforme escrevi (Continua abaixo)...

Em 2004, a Secretaria Municipal de Educação de Nísia Floresta, através da professora Ana Maria Barros de Carvalho, organizou um pequeno opúsculo destinado às escolas. O material reunia um dicionário da Língua Portuguesa e uma síntese de informações sobre o município. Pequeno em tamanho, mas grande em propósito, funcionava quase como um pequeno livro didático, reunindo conhecimentos que poderiam servir de referência às crianças e aos jovens do munic´pio, parte esta confiada a mim. Nesse material registrei a “Lenda do Baobá”, procurando reproduzi-la da maneira como a ouvi. Não pretendia, naquele momento, fazer uma reconstrução acadêmica da narrativa. Registrei aquilo que sobrevivia na memória coletiva. Havia, inclusive, limite de espaço para a publicação, razão pela qual selecionei as lendas clássicas. Hoje, porém, olhando para aquela narrativa com outros olhos, percebo que o baobá de Papary pode nos conduzir a uma reflexão muito maior.

Numa de suas Actas Diurnas, Câmara Cascudo (1941), escreveu sobre o baobá de Papary de maneira extraordinariamente poética. Ao imaginar a reação de um botânico diante daquela árvore monumental, perdida na paisagem de uma pequena cidade nordestina, Cascudo descreve o estranhamento diante de uma espécie que não pertencia originalmente à flora brasileira. O baobá é uma árvore profundamente ligada ao continente africano, especialmente a Adansonia digitata, espécie cuja presença natural está associada às regiões tropicais e meridionais da África. E é justamente por isso que a presença de um baobá em Papary não pode ser vista apenas como uma curiosidade botânica. Ela é também uma pergunta histórica. Como uma árvore tão profundamente africana chegou até aqui? Não há como não perguntarmos isso. Inclusive foi a pergunta que fiz quando a conheci.

Cascudo oferece uma resposta baseada na tradição local. Segundo o relato por ele registrado, José de Araújo teria recebido uma semente e a entregue a Manuel José de Moura, que a teria plantado em Papary por volta de 1870. Mas Cascudo vai além. "(...) E como apareceu esse Baobá em Papari? José de Araújo, antigo chefe político de Papari, trouxe a metade de uma semente e presenteou-a a Manuel José de Moura. Este, mais ou menos ao redor de 1870, plantou-a na praça silenciosa. E o Baobá nasceu." (1941) Ele menciona a existência de outro baobá em Olheiros, próximo de Tororomba, e registra uma tradição segundo a qual aquela árvore teria se originado de uma semente trazida por um negro escravizado, clandestinamente desembarcado nas proximidades. E é nesse ponto que a narrativa deixa de ser apenas botânica. Ela passa a ser humana. Passa a ser africana. Passa a ser memória. Cascudo conclui seu texto com uma imagem de enorme força: o baobá de Papary como uma espécie de “pegada da África”. Talvez seja exatamente essa a expressão que devemos guardar.

A lenda que registrei no início da década de 90 diz que um africano teria trazido consigo uma semente do baobá. Pensemos, por um instante, na dimensão humana dessa imagem. Um homem arrancado de sua terra, separado de sua família, trazido para um continente desconhecido e transformado em mercadoria por um sistema econômico que reduzia seres humanos à condição de propriedade. E, no meio de tudo isso, carregando consigo uma semente. Uma coisa aparentemente pequena, quase insignificante, mas que continha uma árvore inteira. Uma árvore da sua terra. Uma árvore da sua memória. Uma árvore de seu povo e, superando todas essas condições: uma árvore sagrada, quase mágica.. Se a tradição estiver correta, aquele homem talvez não soubesse se voltaria algum dia à África. Talvez não soubesse sequer onde terminaria sua própria vida. Mas poderia ter levado consigo aquilo que lhe era possível transportar: uma semente da paisagem que havia deixado para trás. E essa semente teria encontrado chão em Papary. O que seria, então, essa árvore? Somente uma árvore? Ou uma espécie de monumento vivo à presença africana em Nísia Floresta?

Não devemos romantizar essa história. A antiga Papary estava inserida numa sociedade escravista. A documentação histórica demonstra a presença de pessoas escravizadas na região e revela episódios diretamente relacionados ao tráfico ilegal de africanos. Isso muda a maneira como devemos olhar para a velha Papary. Não estamos falando apenas de uma cidade onde existiram escravizados. Estamos falando de um território que participou das redes econômicas e humanas da escravidão e que também recebeu africanos trazidos ilegalmente para o Brasil. E aqui a narrativa do baobá ganha uma dimensão ainda mais perturbadora. Porque Cascudo fala de uma árvore, a documentação histórica nos fala de africanos e a memória oral nos fala de um homem que teria trazido consigo uma semente. Talvez sejam histórias diferentes. Talvez sejam a mesma história vista de ângulos diferentes. Talvez nunca consigamos provar completamente a ligação. Mas é justamente nessa fronteira entre documento, memória e tradição que nasce uma das histórias mais fascinantes de Nísia Floresta.

Há ainda outra questão que sempre me chamou a atenção durante minhas pesquisas de História Oral. Em Tororomba e no Porto existem famílias negras antigas, algumas delas de pele muito retinta, tão preta que brilha, cuja característica atravessou gerações e estão ali, intactos, como se tivessem chegado ontem de seus países africanos. Isso, evidentemente, não permite afirmar, apenas pela aparência física, uma descendência específica. A genealogia não pode ser construída somente pela cor da pele. Seria necessário recorrer a registros de batismo, casamento, óbito, inventários, cartas de alforria, documentos de propriedade, registros judiciais e outras fontes capazes de reconstruir essas linhagens. Mas a pergunta histórica permanece. Quem eram essas pessoas? De onde vieram seus antepassados? Quais histórias carregaram? Quantas gerações permaneceram naquele território? E, sobretudo, será que entre essas famílias existem descendentes daqueles africanos que chegaram à velha Papary durante o período escravista? Alguns deles são descendentes do escravo que plantou o baobá de Olheiros? Essa é uma pergunta que merece investigação. Não uma afirmação precipitada, mas uma investigação séria, paciente e documental. Porque a história de um povo não está apenas nos documentos oficiais. Ela também está nos sobrenomes, nos lugares, nos modos de falar, nas festas, nas crenças, nos silêncios e nas histórias que os mais velhos contavam quando os historiadores ainda não haviam chegado.

Há uma coincidência simbólica difícil de ignorar. O baobá é uma árvore associada à África. Papary foi uma sociedade escravista. É berço de grandes engenhos. Existem registros documentais da presença de africanos e descendentes de africanos em Papary. Existe uma tradição oral sobre um africano que teria trazido uma semente do baobá. Câmara Cascudo registrou essa tradição. O baobá de Olheiro morreu. E, no presente, o baobá do centro do município continua de pé. Assim, a árvore que um dia poderia ter sido apenas uma curiosidade exótica transformou-se numa espécie de árvore genealógica da própria paisagem. Uma semente. Depois uma árvore. Depois outras árvores. E, ao redor delas, histórias. É possível que a lenda tenha nascido de um fato real. É possível também que, com o passar das gerações, um acontecimento histórico tenha adquirido os contornos da mitologia. Mas isso não diminui sua importância. Pelo contrário. Às vezes, a lenda é aquilo que restou quando o documento desapareceu.

Gosto de imaginar aquela semente. Não como um simples objeto botânico, mas como uma pequena cápsula de memória. Ela poderia ter vindoda África. Poderia ter atravessado o Atlântico nas condições mais brutais da história humana. Poderia ter sido escondida, guardada ou simplesmente carregada. E, depois de tudo, encontrou terra em Papary. A África, que havia sido arrancada de um homem, teria voltado a nascer pelas suas mãos. Não seria mais apenas África. Seria África em Papary. África em Tororomba. África no Porto. A África no cenrro da cidade. África na memória de seus descendentes. África transformada em árvore. É por isso que, quando olhamos para o baobá de Nísia Floresta, talvez não devamos enxergar somente seu tronco gigantesco, suas raízes ou sua copa. Devemos tentar enxergar o que ele pode estar dizendo. Porque árvores também testemunham. E algumas testemunham durante séculos.

O baobá de Papary pode ser, portanto, muito mais do que uma árvore africana plantada em território potiguar. Pode ser uma memória viva de homens e mulheres africanos que passaram por esta terra, sofreram nesta terra, trabalharam nesta terra, constituíram famílias nesta terra e deixaram descendentes nesta terra. Câmara Cascudo viu naquele baobá a “pegada da África”. Talvez seja essa a melhor maneira de compreendê-lo: uma pegada que não desapareceu, uma pegada que criou raízes, uma pegada que cresceu, uma pegada que atravessou gerações e que, ainda hoje, permanece de pé.

Talvez a lenda não seja apenas uma história sobre uma árvore. Talvez seja a história de uma árvore que guardou, por mais de um século, aquilo que a história dos homens quase conseguiu apagar. E talvez seja justamente por isso que o baobá de Nísia Floresta mereça ser olhado não apenas como patrimônio natural, mas como um possível testemunho vivo da presença africana na velha Papary. No fim, talvez a pergunta mais bonita não seja sequer quem plantou o baobá. Talvez seja outra: quem foi o homem que um dia trouxe consigo uma semente da África e, sem saber, deixou plantada em Papary uma árvore que continuaria contando a sua história muito depois que ele próprio desaparecesse?

sábado, 15 de agosto de 2026

O BAOBÁ DE PAPARY: UMA SEMENTE, DOIS MOURAS E UMA PERGUNTA ANTIGA...

Ontem, conversando com um historiador sobre o baobá de Nísia Floresta - assunto que já me ocupou em algumas ocasiões e que também já rendeu algumas linhas neste mesmo espaço - ele me perguntou pela fonte exata de uma informação que publiquei há algum tempo  NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: ACTA NOTURNA – O BAOBÁ DE OLHEIROS EM PAPARY – 29.8.2019) Eu disse que havia lido aquilo em Câmara Cascudo. Eu tenho essa mania, talvez herdada de minhas próprias leituras de Cascudo, que nunca citou suas fontes em suas "Actas Diurnas". Quando uma informação me alcança, escrevo num rompante. Leio muito, anoto pouco e, não raro, guardo na memória a essência do que li, mas deixo escapar o caminho exato que me levou até determinada informação. Diante da necessidade de entregar ao historiador a fonte que ele procurava fui reler meus próprios escritos. E, nesse exer´cio de voltar ao passado, acabei encontrando algo que estava muito mais perto do que eu imaginava. Mexi em velhos manuscritos. Alguns deles datados de 1994. São anotações antigas, feitas quando determinadas informações ainda eram apenas pistas soltas, nomes, parentescos, datas e referências que, à época, pareciam não guardar entre si nenhuma relação especial.

Foi então que percebi um dado curioso. Nós, que vivemos com os olhos voltados para a pesquisa, às vezes enxergamos como quem procura uma agulha no palheiro. O olhar fica tão concentrado no objeto da busca que podemos deixar passsar justamente aquilo que está diante de nós. Foi o que aconteceu comigo. Nos meus manuscritos antigos, embora eu nunca tivesse escrito sobre isso, aparece uma informação que agora me parece importante: Manoel de Moura Júnior, apontado como o plantador do baobá existente no centro de Nísia Floresta, era filho de Manoel José de Moura - nome que também aparece em documentos como Manoel Geraldo de Moura. E aqui começa uma história que talvez ainda esteja incompleta. Câmara Cascudo, na sua Acta Diurna dedicada ao baobá de Papary, conta que o José de Araújo, futuro presidente da Intendência de Papary e futuro Coronel, teria recebido uma cápsula do baobá de Olheiros e dado metade dela a Manuel José de Moura, que, por volta de 1870, teria “plantado-a na praça silenciosa”. A informação, vista isoladamente, parece simples. Mas, quando colocamos os nomes lado a lado, surge uma pergunta inevitável: Quem era esse Manuel José de Moura?

Se Manoel de Moura Júnior era filho de Manoel José de Moura - também registrado como Manoel Geraldo de Moura (conforme trago em manuscritos meus) - então é perfeitamente possível que o homem mencionado por Cascudo fosse o pai daquele que posteriormente ficou conhecido como o plantador do baobá do centro de Nísia Floresta. Não estou afirmando que a questão esteja definitivamente resolvida. Estou apenas colocando sobre a mesa uma possibilidade que, durante muitos anos, passou despercebida. Há ainda a conhecida placa existente junto à árvore. Ela registra: “Essa árvore por nome Baobá foi plantada em 1877 por Manoel de Moura Júnior. 10 de dezembro de 1949 - Gisaldo Cabral de Moura.” Temos, portanto, duas informações que parecem se tocar, mas que precisam ser examinadas com cuidado. De um lado, Cascudo fala em Manuel José de Moura, que teria plantado a cápsula “na praça silenciosa” por volta de 1870. De outro, a placa afirma que o baobá foi plantado, em 1877, por Manoel de Moura Júnior.

E existe ainda um detalhe que não pode ser desprezado. Em 1877, Manoel de Moura Júnior tinha aproximadamente 16 anos. Não seria impossível que um rapaz dessa idade plantasse uma árvore. Mas é razoável imaginar que uma semente de árvore de grande porte fosse inicialmente plantada em uma propriedade, onde pudesse receber cuidados, e somente depois fosse levada para o espaço público. Essa hipótese ganha alguma força quando lembramos que o baobá não é uma árvore qualquer. O baobá é conhecido por muitos povos como a árvore da vida. Em diferentes tradições africanas, suas raízes estão associadas aos ancestrais e às memórias da comunidade; o tronco representa as crianças e os jovens em crescimento; os galhos, o amadurecimento. Quando as folhas caem e retornam ao solo, alimentando as raízes, aparece a imagem de um ciclo que termina para começar novamente. É uma árvore profundamente ligada à ideia de continuidade. E talvez seja justamente essa característica que explique a força simbólica que ela adquiriu em diferentes lugares.

Predominante nas regiões semiáridas de Madagascar, o baobá pode ultrapassar cem anos e alcançar cerca de vinte metros de altura. Sua longevidade e sua dimensão física ajudam a compreender por que se tornou símbolo de grandiosidade e transcendência. Para algumas tradições africanas, não representa apenas o indivíduo, mas o “nós”. É uma árvore de ancestralidade. É uma árvore de memória. É uma árvore de passagem entre gerações. Suas raízes evocam aqueles que vieram antes; o tronco, aqueles que crescem; os galhos, aqueles que alcançam a maturidade. E suas folhas que retornam à terra lembram que a existência não termina simplesmente: há sempre uma continuidade, um novo ciclo. Não por acaso, o baobá também possui forte significado espiritual. Está associado a entidades das religiões africanas e a uma concepção na qual o natural pode dialogar com o sobrenatural. A árvore passa a representar, simbolicamente, o próprio ser humano em sua dimensão de corpo, alma e espírito. Talvez seja justamente por isso que a história de um baobá plantado há mais de um século seja mais do que uma simples história botânica. É uma história de pessoas, de nomes, de famílias, de memória e de transmissão.

Voltemos, então, aos Mouras. Nos meus antigos apontamentos, o pai de Manoel de Moura Júnior aparece como Manoel Geraldo de Moura. Em outras referências, aparece como Manoel José de Moura. Se for a mesma pessoa - e tudo indica que essa possibilidade merece investigação - teremos diante de nós uma linha que pode ajudar a esclarecer a origem do baobá do centro de Nísia Floresta. O Coronel José de Araújo teria recebido a cápsula do baobá de Olheiros. Uma parte dela teria sido entregue a Manuel José de Moura. Este, segundo Cascudo, teria plantado a semente por volta de 1870. Anos depois, em 1949, a placa atribui o plantio a Manoel de Moura Júnior. Seria pai e filho envolvidos no mesmo processo? Teria o pai iniciado o cultivo e o filho feito o plantio definitivo? Teria o pai permitido que o filho, então com dezesseis anos, levasse a árvore para o espaço que posteriormente se transformaria na praça? Ou estamos diante de duas informações que, embora pareçam relacionadas, dizem respeito a acontecimentos diferentes? Ainda não sei. E é justamente por não saber que considero necessário escrever. A História também se faz dessas perguntas.

Há outro detalhe que deve inquietar o leitor. Como Câmara Cascudo sabia dessa história? Ele nasceu em 1897. O episódio narrado por ele teria acontecido décadas antes. Mas a resposta talvez esteja justamente no ambiente em que Cascudo cresceu. Cascudo foi criado numa Natal em que a memória ainda circulava muito mais pela palavra, pela convivência e pelas relações pessoais. Seu pai, o Coronel Cascudo, recebia em sua residência figuras importantes da sociedade potiguar. Entre elas estava Pedro Velho de Albuquerque Maranhão,, além do próprio José de Araújo. Eram homens de uma mesma geração política e social. José de Araújo seria, posteriormente, uma figura importante na administração de Papary. Pedro Velho, por sua vez, assumiria papel central nos primeiros anos da República no Rio Grande do Norte. Assim, aquilo que para nós hoje parece uma informação perdida em algum documento poderia, para Cascudo, ter sido simplesmente uma história ouvida no ambiente familiar, transmitida por pessoas que haviam vivido ou conhecido os acontecimentos. Ou seja, a História Oral.

Cascudo não costumava apresentar suas fontes nas Actas Diurnas da maneira como hoje estamos acostumados a exigir numa pesquisa acadêmica. Ele escrevia. Registrava. Guardava. E, muitas vezes, lançava ao futuro a tarefa de confirmar aquilo que havia recolhido da tradição oral, dos documentos e das conversas. Talvez seja essa uma das razões pelas quais suas pequenas crônicas continuam abrindo portas. Uma frase de Cascudo pode permanecer silenciosa durante décadas até que alguém, em outro tempo, encontre um nome em um registro de nascimento, uma inscriçâo numa placa, uma anotação esquecida ou uma fotografia antiga. Foi o que aconteceu comigo. Eu procurava uma fonte. Encontrei uma dúvida. E a dúvida me levou a uma árvore.

O grande espaço onde hoje está a Praça Coronel José de Araújo, segundo antigas fotografias de Nísia Floresta, não apresentava originalmente a configuração urbana que conhecemos atualmente. Era uma área aberta, semelhante a um campo gramado, marcada pelo constante trânsito das pessoas. Isso também merece atenção. É difícil imaginar uma pequena semente de baobá sendo lançada diretamente no centro de um espaço público, exposta desde o início ao trânsito de pessoas e animais. Talvez a árvore tenha começado sua vida em outro lugar. Talvez tenha crescido sob os cuidados de uma família. Talvez tenha sido transferida quando já apresentava condições para enfrentar o espaço aberto. E talvez esse processo explique a aparente contradição entre o “por volta de 1870” de Cascudo e o “1877” registrado na placa. Mas tudo isso ainda é hipótese.

O que temos de concreto é que existe um baobá no coração de Nísia Floresta, árvore que atravessou gerações, mudanças políticas, transformações urbanas e o desaparecimento de muitas das pessoas que estiveram ligadas à sua origem. Temos a tradição do baobá de Olheiros. Temos a cápsula. Temos José de Araújo. Temos Manoel José de Moura. Temos Manoel Geraldo de Moura. Temos Manoel de Moura Júnior. Temos a data de 1877 gravada numa placa. E temos Câmara Cascudo registrando, décadas depois, uma história que não poderia ter presenciado pessoalmente, mas que certamente chegou até ele por algum caminho.

Talvez a árvore tenha sido plantada por pai e filho em momentos diferentes. Talvez tenha sido apenas o filho. Talvez Cascudo tenha registrado uma etapa anterior da história que a memória local posteriormente resumiu na figura de Manoel de Moura Júnior. Ou talvez exista ainda algum documento escondido em algum arquivo, esperando que alguém o encontre. É isso que torna a pesquisa histórica tão fascinante. Às vezes pensamos ter encontrado a resposta quando, na verdade, acabamos de encontrar a pergunta correta. E eu acredito que essa pergunta está agora colocada: quem, afinal, plantou o baobá de Papary? (Até porque há outras indagações em trânsito).

Vale ressaltar que Manoel de Moura Júnior é filho de Manoel José de Moura (ou Manoel Geraldo de Moura), que é filho de Tomás José de Moura que foi delegado de Papary, dono da famosa Rainha Amélia, a qual, juntamente com Miguel Rei, ambos escravizados, participavam ativamente dasa festa de Nossa senhora do Rosário do Pretos, sendo este pertencente a Manoel Laurentino de Alustau Navarro, professor de Isabel Gondim. Isabel não podia ter escrito sobre essa história do Baobá, ao invés de ter dado origem a uma carta que acabou revertendo negativamente sobre ela? Hoje, com certeza teríamos essa história nitidamente conhecida.

Enquanto não encontramos a resposta definitiva, continuemos pesquisando. Porque o baobá continua ali. Silencioso. Enraizado. Guardando no chão as suas memórias. E talvez, como ensinam as antigas simbologias africanas, suas raízes ainda estejam nos dizendo que nenhuma história termina realmente enquanto houver alguém disposto a escutá-la.

OUTROS TEXTO SOBRE BAOBÁS:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: O BAOBÁ DE NÍSIA FLORESTA E UM LOGRADOURO EM TRANSFORMAÇÃO...

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: É CHEGADA A HORA DE PLANTAR OUTRO BAOBÁ NA SÃO JOSÉ...

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: NATAL EM NÍSIA FLORESTA

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Angélica Timbó...

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: EXUPERY E O BAOBÁ

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Exupery nunca esteve no Rio Grande do Norte

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE




quinta-feira, 13 de agosto de 2026

UM INTERESSANTE TEXTO DE MANOEL RODRIGUES DE MELO...

 

Sobre a Biblioteca Virtual – Biblioteca Virtual – Prefeituera de Pendencias – RN

Deificação da criança:

Há duas fases do menino varziano absolutamente contraditórias. A primeira é a do bebê, do anjinho, mimosinho, cheirosinho, cabelinho louro, e tantosdiminutivos delicados e interessantes que é possível inventar e criar, tecendo, numa auréola de alegria esfusiante e comovedora, a vida irreal, embora muito humana, da criancinha, na idade infantil. Ao lado desses adjetivos, todos no grau diminutivo, vêm fatalmente as comparações; apropriadas ou não, pouco importa, mas vêm, de parecença com o Menino Jesus, com os Anjos Querubins, com todos os Anjos da Corte Celeste. Cultiva-se nesse período da vida do menino uma verdadeira deificação da criança, só não se botando ela no oratório familiar porque não é possível. Este é um dos traços mais fortes da nossa formação, formação que não sei se estou em erro, chamando-a de luso-brasileira, católica, nordestina. O certo é que esse apego extraordinário aos filhos, sobretudo na idade de um a cinco anos, quando a criança começa a pronunciar os primeiros monossílabos pá-pá, má-má, a dar os primeiros passos, a fazer as primeiras traquinagens, é muito nosso, brasileiro, nordestino, nortista, sulista, qualquer que seja a região do país. Entre nós, porém, do nordeste, parece que esse apego é ainda

O beijo:

O beijo, tão condenado pelos médicos e pediatras, e em verdade tão nocivo entre pessoas que sofrem de moléstias contagiosas, é na vida familiar nordestina uma das expressões mais puras e eloquentes do amor materno e paterno. Não só do amor materno e paterno, mas também de todas as criaturas. É um hábito que se generalizou entre nós, de tal maneira que ninguém, mulher ou moça, rapaz ou homem feito, velho ou moço, não pode ver uma criancinha daquelas a que o vulgo denominou de mimosa, bonitinha, sem deixar de pôr na sua mão - dependendo, em parte, da educação de cada um, - o beijo tradicional que representa a homenagem mais simples e delicada do adulto à criança.

Aliás, esse beijo assim generalizado deve ter a sua razão de ser. Todos nós fomos crianças, e como tais gostávamos e desejávamos que fôssemos beijados. Além disso o beijo representa também indiretamente uma homenagem significativa aos pais, a quem se deve finezas e às vezes favores sem conta. E apesar da grande ogerisa que se vai generalizando hoje em dia com relação ao beijo nas criancinhas, sente-se perfeitamente que uma das maneiras mais eficazes de se adquirir a amizade e a estima de um palmada, o chicote ou bacalhau, a corda, a sola, a ligeira, todos ligados à vida rural. A peia, o cipó, o talo de carnaúba, todos revivem a tradição milenária do açoite.

Isto sem falar nos subsidiários, como as pancadas na cabeça a cabo de faca, de garfo, colher de páu, mão de pilão, o diabo.

Esses processos de açoite constituem sobrevivência do regime feudal e patriarcal, entre nós, espoucando vez por outra nos momentos de raiva, de aperreio, de vexame e dificuldade, no seio dos lares nordestinos, onde a moderação, a paciência, a educação e tantos outros fatores de aprimoramento do espírito, da inteligência e do coração, ainda não foram suficientes para fazer desaparecer totalmente esses resíduos de formação feudal e pagã.

O menino nordestino, um escravo:

O menino nordestino do passado não passava por isso mesmo de um escravo, no sentido mais rigoroso do termo. Filho, neto, bisneto de escravocratas, vivendo num regime de absoluta compressão, de centralização excessiva, não só dos negros das senzalas, mas também da mulher e dos filhos, a sua inteligência, o seu espírito não eram propriedades suas, mas do Pai, das pessoas da família, que dispunham dele como bem entendessem. Prova disso foram as centenas ou milhares de fracassados na vida - Padres, Médicos, Bachareis, Comerciantes, que não tiveram liberdade de escolher livremente as suas profissões, sendo, pelo contrário, levados a elas por única e exclusiva vontade do Pai, da Mãe, dos parentes ricos e poderosos que alimentavam o egoísmo de ver o parente formado em medicina, direito ou ordenado padre.

CAVALO DE PÁU

Esta era, porém, vai lentamente passando, e hoje, se a vontade dos pais e dos parentes ainda vai prevalecendo nessas questões de escolha, é certo também que a grande maioria dos filhos procuram sempre temperar a vontade dos pais com as solicitações da sua inteligência, do seu coração e das suas tendências vocacionais.

Isto se dá nas cidades grandes e populosas, onde o nível mental, as condições de vida e de trabalho estão mais ou menos andando paralelas com o grau de instrução e educação das novas gerações brasileiras, quer do Norte, quer do Sul.

Já nas cidades pequenas, vivendo à beira do litoral ou se afundando nos sertões, a situação apresenta outros aspectos e feições, diferentes das grandes cidades industriais e cosmopolitas. Lá, a livre expansão da personalidade humana, interferindo o poder paterno somente naqueles pontos, de ordem estritamente familiar, educativa, moral, religiosa, política, que tenham por fim pôr o filho a salvo de qualquer cilada no seio da sociedade em que vive. Cá, não obstante se constatar o desbaratamento quase completo dos grandes laços morais e espirituais da antiga sociedade feudal e patriarcal, ainda há algumas constantes que determinam a solidez do edifício familiar, como sejam a Religião, o Pátrio-poder, ainda meio centralizado, o Tradicionalismo familiar resistindo heroicamente a todos os agentes de dissolução da família monogâmica, tradicionalmente católica, conservadora, numerosa e rica de elementos morais e espirituais.

Esta situação torna-se mais visível nas cidades, vilas e povoados do interior nordestino, porque nas zonas rurais propriamente ditas, nas fazendas, nos sítios, nas serras, nas várzeas, os habitantes desses recantos ainda vivem num regime cento por cento patriarcal, meio feudal, portanto, conservando todos os velhos hábitos e costumes recebidos dos bisavós, dos avós, dos pais e transmitidos sucessivamente às novas gerações nordestinas.

No estudo do povo, dos seus hábitos e costumes tradicionais, da sua alimentação, dos seus divertimentos, da sua indumentária, das suas faculdades intelectuais e psicológicas, nunca se deve partir da consideração de certas transformações mais ou menos violentas de trabalho e de transporte para chegar à conclusão de uma determinada atitude em face da vida e dos costumes que secularmente adotou.

Isto quer dizer que a simples permuta do carro de boi ou do comboio, por exemplo, pelo automóvel e pelo caminhão de nossos dias, não modificou totalmente a maneira de pensar e de agir do homem brasileiro, seja ele do Norte, do Centro ou do Sul, com relação a todos os problemas de sua vida.

Esses elementos de distribuição da riqueza condicionaram e possibilitaram novos meios de ação e de transporte, modificando neste sentido a psicologia rotineira do homem, abrindo-lhe novas perspectivas de trabalho e de ganho, mas longe estão de satisfazer todas as necessidades do homem.

Eis porque afirmamos que a despeito de todo o progresso da ciência, das artes, das industrias, do avião, do radio, da luz electrica, da bomba atômica, o homem dos sertões brasileiros continua o mesmo visto por Euclides da Cunha há cincoenta anos passados, possuindo, com pouca diferença, as mesmas superstições, os mesmos hábitos, os mesmos costumes, as mesmas usanças, a mesma mentalidade, porque apesar de tanto tempo e de experiências tão dolorosas no governo da República e dos Estados, ainda não deixamos de arranhar o litoral, como disse Frei Vicente do Salvador, há mais de trezentos anos.

É nesse sertão que nascem, se criam e ficam homens os meninos brasileiros de quase quinhentos anos, sem instrução, sem conforto, sem higiene, sem medicina, sem proteção, sem coisa alguma.

Voltando à Várzea do Açu, à velha Várzea de minha infância, quero ressuscitar do fundo da memória que o tempo traiçoeiramente pretende apagar, um pouco da vida, dos sonhos, das figuras, dos velhos companheiros, muitos, quem sabe? - reduzidos a cinza no seio da terra, outros vivendo por lá, cheios de filhos, mourejando na enxada, nos trabalhos das salinas, nos serviços da pequena cabotagem, nos trabalhos do carnaubal, outros, ainda, vivendo distantes, nos seringais da Amazônia, nos centros de Mato Grosso e de Goiás, nas ruas movimentadas do Rio de Janeiro, enquanto outros fazem a travessia do Atlântico, percorrendo terras estranhas, na profissão de embarcadiços. Manoel Rodrigues de Melo (Cavalo de Pau) OBS. Foi respeitada a forma da escrita de época. A publicação é de 1953.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O DIA QUE AS LENDAS FIZERAM UMA LENDÁRIA ELEIÇÃO...

 


Certa manhã, o Curupira reuniu os principais seres lendários das matas brasileiras para anunciar uma novidade que logo provocaria enorme movimentação entre árvores, rios e criaturas encantadas: haveria uma eleição para escolher o Presidente das Matas. A notícia espalhou-se rapidamente. A Caipora, protetora dos animais, apresentou suas ideias de preservação; o Boitata prometeu combater as queimadas; a Iara defendeu a proteção dos rios; o Mapinguari falou sobre a segurança das regiões mais afastadas; o Boto apareceu elegantemente vestido, prometendo promover festas e melhorar a convivência entre os moradores das águas e da floresta. O Saci - chegando de skate -, naturalmente, declaroou que sua principal proposta seria "não deixar a eleição ficar chata". Até a Cuca apareceu, embora tenha avisado que sua prioridade continuaria sendo colocar todo mundo para dormir cedo

Tudo parecia caminhar tranquilamente quando, de repente, surgiu no meio da mata um personagem que ninguém conhecia. Vestia uma capa estranha, carregava uma bandeira enorme e falava com uma segurança impressionante. Apresentou-se como Patriótikus e anunciou que também queria participar da eleição. O Curupira perguntou de onde ele vinha, mas Patriótikus respondeu que sua origem era "muito importante para ser explicada". Bastaram poucos dias para que todos descobrissem que ele tinha uma habilidade extraordinária para criar confusão. Começou afirmando que as urnas eletrônicas eram fraudulentas, embora não apresentasse prova alguma. Depois passou a dizer que os seres fant´sticos deveriam andar armados para "garantir a segurança da floresta". A Caipora quase perdeu a paciência.

- Segurança da floresta é proteger os animais, as árvores e os rios, não transformar a mata em campo de batalha.

Patriótikus, entretanto, não parava. Passou também a defender os caçadores que entravam na floresta aterrorizando os animais, alegando que eles tinham "liberdade para fazer o que quisessem". O Curupira ficou indignado.

- Liberdade para destruir a floresta não é liberdade. É abuso.

As discussões tomaram conta das redes sociais da mata. A Iara transmitia tudo ao vivo, o Boto comentava os acontecimentos com uma elegância que só ele conseguia manter e o Saci fazia memes tão rapidamente que alguns animais nem conseguiam terminar de ler antes de aparecer outro. Patriótikus brigava com todo mundo. Brigou com o Curupira, discutiu com a Caipora, acusou a Iara de manipular as redes sociais, chamou o Boitatá de incendiário porque ele defendia o combate às queimadas e chegou a afirmar que o Mapinguari não tinha autoridade para falar de segurança porque era "grande demais para compreender os pequenos problemas da floresta".

O pior, porém, ainda estava por vir. Durante uma investigação realizada pelos próprios seres encantados, começaram a aparecer histórias muito antigas sobre a vida política de Patriótikus. Descobriu-se que, durante anos, ele havia se apropriado de coisas que pertenciam aos outros, apresentado como suas ideias que não eram suas e cometido uma série de arbitrariedades para conseguir aquilo que queria. Havia histórias de objetos desaparecidos, decisões tomadas em benefício próprio e até de situações em que Patriótikus simplesmente dizia que determinada coisa era dele porque tinha decidido que deveria ser. Quando a Caipora perguntou como ele justificava tudo aquilo, ele respondeu:

- Se eu consegui, é porque eu merecia.

O Saci colocou as mãos na cabeça.

- Essa é a primeira vez que vejo alguém transformar confusão em programa de governo.

A situação chegou a tal ponto que os demais seres fantásticos decidiram que Patriótikus não poderia continuar agindo daquela maneira. A Caipora apresentou os relatos, o Curupira reuniu as testemunhas, a Iara mostrou os registros das redes sociais e o Boitatá iluminou a documentação que havia sido escondida durante anos. Até a Cuca apareceu para prestar depoimento, embora tenha reclamado que precisara interromper seu sono da tarde. Diante da quantidade de irregularidades, Patriótikus acabou preso. Quando foi levado pelos guardiões da mata, ainda tentou fazer um último discurso.

- Isto tudo é uma perseguição!

O Saci, sentado sobre um galho, respondeu:

- Não, Patriótikus. Perseguição é o que você fazia com os animais quando defendia os caçadores.

E desapareceu num redemoinho.

A eleição continuou, mas todos aprenderam uma grande lição. O Presidente das Matas não deveria ser aquele que gritasse mais alto, espalhasse mais desconfianças, que defendesse ditadores, que não acreditasse nas minorias ou prometesse resolver tudo na base da força. Deveria ser alguém capaz de respeitar os outros, proteger a floresta e compreender que poder não significa possuir tudo aquilo que se deseja. No fim, os seres encantados decidiram criar um Conselho das Matas, reunindo representantes de todas as criaturas. A Caipora ficou responsável pelos animais, o Curupira pelas árvores e caminhos, a Iara pelos rios, o Boitatá pelas queimadas, o Mapinguari pela proteção das regiões mais distantes e o Saci, para desespero de todos, ficou encarregado das comunicações.

Quanto a Patriótikus, dizem que continua tentando convencer os guardas de que a prisão foi uma fraude. Mas ninguém acredita. Nem a Cuca. E isso, convenhamos, é porque até a Cuca, que vive assombrando os outros, já percebeu que há certas assombrações que não vêm das lendas, mas das próprias atitudes de quem não sabe conviver com os demais e desacredita na democracia.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O FOLCLÓRICO PENTEADO DE NÍSIA FLORESTA...

 

Imagem feita por Inteligência Artificial, baseada no retrato, mas essa não é Nísia Floresta. É apenas uma brincadeira alusiva à reflexão do texto.

FOLCLORE TAMBÉM É HUMOR...

Imagine que você passe por este mundo e deixe apenas uma fotografia. Agora imagine que essa fotografia, fatalmente, seja aquela do dia em que você participou do “Dia do Cabelo Doido” da sua escola, ou aquela fotografia de Carnaval em que você aparece coberto de spray colorido, purpurina e sabe Deus mais o quê. Enfim, imagine que só exista essa fotografia sua. Você morre, passam-se décadas, você se torna uma pessoa famosa e aquela única fotografia começa a ser reproduzida, desenhada, pintada, esculpida e reinterpretada. De repente, sua infância, adolescência, mocidade, maturidade e velhice passam a ser representadas exatamente com aquele mesmo cabelo. É mais ou menos isso que acontece com Nísia Floresta.

Antes de adentrarmos nessa seara capilar, porém, faço uma ressalva: trago esta reflexão para a gente desopilar um pouco e rir da situação do que para transformar o penteado de Nísia numa questão de Estado. Afinal, agosto é mês do folclore e, se o folclore tamb´m é aquilo que fazemos, repetimos e transmitimos sem perceber, talvez já seja hora de reconhecer uma das mais persistentes tradições iconográficas do Rio Grande do Norte: o folclórico penteado de Nísia Floresta. 

Você já reparou? Num evento infantil, quando alguém representa Nísia Floresta, lá vem ela: cabelos com tantos cachos que mais parecem um espiral, uma mola de colchão, uma colmeia capilar ou uma sentinela especialmente treinada para espantar pernilongos. A Nísia Floresta adolescente só muda no corpo. Os cabelos foram transplantados. Quando saltamos para a Nísia Floresta já madura, lá estão novamente os cachos, firmes e vigorosos tais quais os da menina. E, como se não bastasse, mais adiante aparece a Nísia idosa, de cabelos grisalhos, mas, pasme, tão cacheada quanto durante toda a vida. É gostar de cachos demais!

E olha que as mulheres são muito vaidosas. Até mesmo as intelectuais, por mais ocupadas que estejam escrevendo livros, discutindo ideias, viajando pela Europa ou enfrentando os preconceitos de seu tempo, não costumam declinar de suas vaidades por menores que sejam. Por isso, permitam-me uma pergunta absolutamente impertinente: será que Nísia Floresta passou setenta e cinco anos usando exatamente o mesmo penteado? Setenta e cinco anos! No Brasil, na França, na Alemanha, na Grécia, na Itália, na Inglaterra, em Portugal e por onde mais tenha andado? Será que nunca olhou para uma vitrine parisiense e pensou: “Minha Nossa Senhora, preciso mudar esse cabelo”?

Paris era a capital da moda. E moda, naquela época, como hoje, não tinha compromisso algum com a eternidade. Mudavam-se vestidos, chapéus, luvas, acessórios, golas, mangas, saias e, evidentemente, os cabelos. Ora aparecia um coque. Ora cabelos presos de outra maneira. Ora cachos. Depois vinham outras ondulações, outros penteados e novas maneiras de arrumar a cabeça. Portanto, enquanto a Europa inteira trocava o cabelo, será que Nísia permanecia fiel aos seus cachos como quem permanece fiel ao casamento? Teria sido um penteado congelado no tempo? Um amor capilar até que a morte os separasse?

Então, o que teria feito Nísia Floresta resistir heroicamente durante toda a vida aos seus famosos cachos? Teria ela amado platonicamente aqueles cabelos? Teria feito um pacto de fidelidade com o pente? Teria dito à cabeleireira: “Pode fazer qualquer coisa, desde que tenha cachos”? Ou será que o problema não está em Nísia, mas em nós? Talvez os artistas e retratistas que vieram depois tenham encontrado uma imagem tão forte de Nísia que simplesmente não conseguiram imaginá-la de outra maneira. Uma vez consolidado o rosto, consolidou-se também o cabelo. E, a partir daí, começou uma espécie de moda retroativa. Pegamos um penteado que pode ter sido usado por Nísia em determinado momento de sua vida e o colocamos na cabeça da menina. Depois colocamos na cabeça da adolescente. Depois na cabeça da mulher adulta. Depois na cabeça da senhora. E pronto! Está criada a Nísia Floresta de penteado vitalício.

Deem uma olhada nos livros. Você verá a Princesa Isabel, a Imperatriz Tereza Cristina, Dona Leopoldina, a Marquesa de Santos e tantas outras mulheres com os mais variados penteados, mas Nísia Floresta, não. Engessaram o seu cabelho. É quase como se alguém tivesse decretado: daqui para a frente, esta mulher não muda mais de cabelo! A menina nasce cacheada, a adolescente permanece cacheada, a mulher amadurece cacheada e a senhora envelhece cacheada e morrerá cacheada. Só faltou alguém representar Nísia no leito de morte perguntando ao médico: “Doutor, ela está bem?” E o médico responder: “Ela está. Mas os cachos continuam firmes”.

Em 2024, quando escrevi um espetáculo de aproximadamente uma hora e quarenta minutos sobre Nísia Floresta, confesso que já estava traumatizado com aqueles horrorosos espirais. Sugeri à equipe técnica que priorizasse penteados diferentes justamente para romper com essa espécie de condenação capilar. Eu queria libertar Nísia dos cachos. Queria devolver-lhe o direito de mudar de cabelo. Afinal, se até nós, pessoas comuns, conseguimos ter uma fotografia com um cabelo na infância, outra na adolescência, outra na juventude e outra na velhice, por que Nísia, logo Nísia, teria de passar pela vida inteira com o mesmo penteado?

Porque, se a história de uma mulher é longa, sua cabeça também tem direito à história. É muito provável que Nísia tenha usado penteados com cachos. Afinal, o Brasil sempre esteve muito atento à moda francesa e os famosos cachos em anéis, aqueles cachos tubulares e bem definidos, realmente fizeram parte de determinados períodos da moda feminina. O problema não está, portanto, em representar Nísia com cachos. O problema é transformar os cachos em patrimônio permanente do couro cabeludo nisiano. É quase uma tombamento capilar. Ninguém mais pode mexer. Não se pinta, não se penteia, não se solta, não se prende. Está tombado pelo patrimônio histórico.

Nísia não nasceu necessariamente com aquele penteado. Nísia não morreu necessariamente com aquele penteado. E, entre uma coisa e outra, convenhamos, muita água passou por baixo da ponte. É bem possível que tenha mudado de penteado. Que tenha prendido os cabelos. Que tenha usado coque. Que tenha experimentado outras formas de arrumá-los. Que tenha acompanhado, como qualquer mulher de seu tempo, as transformações da moda. Afinal, uma mulher que atravessou décadas, países e transformações culturais provavelmente não passou a vida dizendo ao espelho: “Hoje vou fazer exatamente o mesmo cabelo de 1815”.

Mas nós fizemos algo curioso: congelamos Nísia. Não apenas no tempo, mas também no penteado. E isso é particularmente interessante quando pensamos que ela foi justamente uma mulher que não aceitou ficar parada no tempo. Nísia viajou, escreveu, rompeu convenções, discutiu educação, defendeu ideias que estavam muito à frente de seu tempo e transitou por diferentes ambientes culturais. Sua vida foi movimento. Seu cabelo, entretanto, parece ter recebido ordem de permanecer no mesmo lugar. Talvez seja esse o verdadeiro folclore da história. A imagem foi repetida tantas vezes que passou a parecer verdade absoluta. Crianças aprendem assim. Ilustrações reproduzem assim. Representações teatrais repetem assim. Desenhos copiam os desenhos anteriores. E, pouco a pouco, aquilo que era apenas uma representação artística transforma-se numa espécie de documento. E eis que Nísia, menina, adolescente, adulta e idosa, atravessa dois séculos com o mesmo penteado. Se isso não é folclore, já não sei mais o que é!

Mas há uma lição interessante escondida nessa brincadeira. Toda imagem histórica precisa ser interrogada. Não basta perguntar quem é a pessoa retratada. É preciso perguntar quando aquela imagem foi produzida, quem a produziu, em que época, com quais referências e sob quais padrões estéticos. Porque até o cabelo conta história. A moda muda. Os penteados mudam. As mulheres mudam. E Nísia Floresta, que passou a vida inteira enfrentando mudanças, certamente não merece que nós a condenemos a uma eterna prisão de cachos ao modo espiral.

E talvez seja justamente aí que esteja a graça. Nós, que tanto gostamos de falar de Nísia como mulher moderna, independente, viajante, escritora e intelectual, acabamos fazendo com sua cabeça exatamente o contrário: transformamos seu penteado numa espécie de peça de museu. A mulher pode viajar para a França, publicar livros, discutir educação, desafiar costumes e atravessar oceanos. O cabelo, não. O cabelo fica em Papary. Portanto, neste agosto, mês do folclore, proponho uma pequena revolução. Da próxima vez que alguém representar Nísia Floresta, não perguntem apenas: “Onde estão os cachos?” Perguntem também: “Em que ano estamos?” Se for Nísia menina, talvez um penteado. Se for adolescente, outro. Se for adulta, quem sabe um coque. Se for uma senhora, talvez cabelos mais naturais, presos ou simplesmente diferentes. E se aparecer uma Nísia idosa com exatamente o mesmo cabelo da menina, não se assustem. Talvez não seja Nísia. Talvez seja apenas o nosso folclórico penteado de Nísia Floresta.

E, pensando bem, talvez esteja na hora de deixar a nossa grande escritora finalmente mudar de cabelo. Ela merece. Depois de enfrentar preconceitos, atravessar países, escrever livros e desafiar convenções, acho que o mínimo que podemos fazer é permitir que ela escolha outro penteado. Afinal, Nísia já foi suficientemente revolucionária para mudar muita coisa no mundo. Só falta agora alguém revolucionar seus cabelos.