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| Fotografia de Newton Bruno, publicada em: G1 - Projeto fotográfico 'Papari' mostra realidade de ribeirinhos no RN - notícias em Rio Grande do Norte |
LENDA DA LAGOA PAPARY (Autoria desconhecida no momento)
MENSAGEM (L.C.F.)
Eu, Lagoa Papary - outrora chamada Paraguaçu - brasileira, natural destas terras antigas do Rio Grande do Norte, casada simbolicamente com os nativos que durante séculos viveram às minhas margens, domiciliada entre o Porto, Morrinhos, Tororomba, Oitizeiro, Georgino Avelino, Currais e Genipapeiro, dirijo-me respeitosamente a você, nisiaflorestense, para pedir socorro.
Antes, porém, permita-me falar da minha origem.
Você sabia que meu nome original era Paraguaçu? Na língua tupi, significa “Mar Imenso”. Nem é difícil entender o motivo. Já fui muito maior do que sou hoje. Minhas águas avançavam por extensões hoje inimagináveis, abraçando caminhos, rios, mangues e várzeas que o tempo, o abandono e a ação humana lentamente mutilaram.
Sou filha da Lagoa do Bonfim, antigamente chamada “Puxi”, nome indígena posteriormente rejeitado pelos missionários capuchinhos. Nasci no seio de uma imensa família de lagoas e espelhos d’água. Tenho muitas irmãs: Papeba, Papebinha, Ferreira Grande, Ferreirinha, Urubu, Escura, Lagoa Seca, Carcará, Arituba, Cavalos, Pium, Amarela, Ilhota, Lodo, Sítio, Dourada, Alcaçuz, Tacho, Jabuti, Hiola, Redonda, Redondinha, Carnaúba, Teixeira, Anjos, Custódia dos Negros e Peixe, embora algumas delas sejam apenas irmãs adotivas do mesmo sistema hídrico que alimenta estas terras.
Tenho ainda inúmeros primos em forma de rios, riachos e veios d’água espalhados pelo centro da cidade, pelo Porto, Ilha, Boacica, Pirangi, Alcaçuz, Pium, Cururu e Hortigranjeira. De certa forma, estou presente em quase todo o município.
Sobre minha idade, prefiro manter o mistério. Mas deixo uma pista: eu já existia muito antes da chegada dos primeiros indígenas a estas terras. Muito antes dos portugueses, antes das estradas, antes dos engenhos, antes das cercas e dos viveiros. Vi o tempo nascer sobre estas margens.
Fiz a alegria de incontáveis gerações indígenas que habitavam minhas matas ciliares. Vi homens e mulheres pescando, navegando em canoas, banhando-se em minhas águas cristalinas e vivendo em profunda harmonia com a natureza. Das minhas entranhas saíam peixes gigantescos, alguns pesando quase trinta quilos. Fui berço abundante de goiamuns, camarões, pitus, siris, caranguejos-sá e de uma vasta e rica microfauna aquática.
Sou a lendária Lagoa Papary - antiga Paraguaçu - grande reservatório das águas do Trairi, receptáculo das enxurradas vindas do inverno sertanejo. Pequenos riachos descem dos tabuleiros arenosos e, ao longo dos séculos, alimentaram esta imensidão de águas interligadas a rios e lagoas que seguem em direção ao mar pelo velho Cururu.
Desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, meu nome passou a figurar em mapas, documentos e relatos históricos. Já aparecia na cartografia de Marcgrave, em meados da década de 1640. E antes mesmo disso, já era conhecida em Portugal. Em 1810, o célebre viajante inglês Henry Koster visitou-me quando minhas águas ainda alcançavam o Porto.
Em seu livro Viagem ao Nordeste do Brasil, ele descreveu o encanto de ver pescadores chegando em canoas abarrotadas de peixes, comparando minha fartura ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra. Fui cantada em versos por autores anônimos, evocada em antigas lendas indígenas e mencionada por inúmeros viajantes europeus em documentos hoje raríssimos.
Sempre fui vista como misteriosa, bela e acolhedora. Foi nesse contexto que surgiu a célebre lenda de Jaci e Guaracy, uma narrativa profundamente romântica, provavelmente escrita sob influência do Indianismo do século XIX, quando a imaginação literária brasileira transformava indígenas em personagens míticos e heroicos.
A lenda dizia que Jaci, bela índia tapuia, apaixonara-se pelo guerreiro Guaracy. Mas o destino cruel transformou o amor em tragédia. Certo dia, ouvindo a voz de sua amada ecoar sobre as águas, Guaracy mergulhou em mim e jamais retornou à superfície. Desde então, muitos afirmam existir um mistério profundo entre a lagoa e o mar.
E quantas memórias guardo…
Vi passar silenciosamente Jacob Rabbi e seus homens logo após a Chacina de Cunhaú, rumo à Barra de Tabatinga para novos massacres. Era uma noite de lua cheia. As sombras daqueles assassinos tocaram meus juncos enquanto seguiam pelas antigas veredas destas terras.
Também testemunhei homens brancos de olhos claros devastando as matas ciliares em busca do precioso pau-brasil. Recordo-me de dias em que dezenas de navios franceses deixavam esta região carregados da madeira vermelha arrancada das florestas.
Apesar de tudo, minhas águas permaneceram limpas durante séculos. A própria fauna aquática realizava naturalmente minha limpeza. Eu era ora doce, ora salgada, ora salobra, abraçada pelas águas da Caiçara, que me envolvia completamente em determinados períodos.
Aliás, você sabe o que significa “caiçara”?
A palavra vem do tupi-guarani: “caa” significa mato ou madeira; “içara”, armadilha ou cerca. Originalmente, designava cercas feitas pelos indígenas com galhos e varas. Mais tarde, passou a identificar os povos litorâneos formados da mistura entre indígenas, portugueses e africanos, populações profundamente ligadas à pesca, à agricultura e aos ciclos naturais.
Hoje quase ninguém se lembra disso.
Minhas margens já foram povoadas por galinhas-d’água, marrecos, tetéus, xexéus, sabiás, gaviões, concrizes e inúmeras outras aves. Saciei a sede de tatus, cotias, raposas, jacarés, timbus, preás e guaxinins. Isto aqui parecia um pequeno Pantanal potiguar.
Durante décadas, especialmente na tradicional Festa dos Pescadores, em setembro, minhas águas ofereciam centenas de quilos de peixes e camarões. O Porto se enchia de barracas, forrós, celebrações e alegria. As casas eram simples, cobertas de palha, mas havia fartura e dignidade. Existia até o antigo “dízimo do peixe”.
Então vieram as mudanças.
Durante séculos recebi águas vindas do sertão. Mas essas águas começaram a trazer também toneladas de barro decorrentes do desmatamento. Aos poucos fui sendo assoreada. Em 1974 ocorreu a inesquecível “Cheia de 74”. A força das águas rompeu a BR-101 nas proximidades de São José de Mipibu, despejando sobre mim enormes quantidades de sedimentos.
Pouco depois, rompeu-se também a barragem de Georgino Avelino. Toneladas de barro e entulho invadiram meu leito. Nunca mais fui a mesma.
Áreas antes tomadas por água hoje estão cobertas por aninga, pasta e aguapé. Meu fundo acumula sedimentos trazidos de rios e cidades cujas margens foram destruídas. Em um dos meus pontos mais profundos surgiu um gigantesco banco de areia, semelhante a uma ilha.
Minha flora e fauna aquáticas entraram em colapso. Plânctons desapareceram. Peixes e crustáceos diminuíram drasticamente. O manguezal - minha verdadeira muralha de proteção - foi devastado ao longo dos anos para construção de casas, lenha e, mais recentemente, pela expansão dos viveiros.
Eu acreditava que a destruição diminuiria com o avanço da alvenaria. Enganei-me.
Hoje minhas margens se transformam lentamente num descampado. Produtos químicos são despejados sobre mim. Um líquido estranho mata tudo que encontra pela frente. Pequenos peixes sobem mortos à superfície. O mau cheiro já lembra rios urbanos completamente degradados.
E o mais grave: estou situada sobre os aquíferos Aluvião e Barreiras, uma das mais importantes reservas hídricas do Rio Grande do Norte. Minha morte não representará apenas o desaparecimento de uma lagoa. Representará um desastre ambiental de enormes proporções.
Confesso minha tristeza.
Escuto lamentos de pescadores, ambientalistas e moradores antigos, mas quase ninguém age. Onde estão as autoridades? Onde estão os estudantes, pesquisadores, ecologistas, gestores públicos e amantes da natureza?
Lembro aos que possuem memória curta: fui eu quem matou a fome de seus antepassados quando tudo era mais difícil. Muito antes dos programas sociais e da modernidade, fui fonte de sobrevivência para inúmeras famílias humildes que viviam em casas de taipa e palha.
Fui eu quem encheu os cestos de peixes, pitus e caranguejos levados pelos seus avós para dentro de casa. Vi mulheres sentadas nos batentes limpando o pescado enquanto o fogão de lenha aquecia inhame, macaxeira, fruta-pão, batata assada e café recém-passado.
À noite, havia fartura. Havia união. Havia dignidade.
Foi de mim que nasceu também a tradição gastronômica que transformou Nísia Floresta na célebre “Terra do Camarão”. Pequenas barracas de palha às margens das estradas evoluíram para restaurantes populares conhecidos pelo camarão no alho e óleo, no molho e no vatapá.
Todos os dias, antes do amanhecer, pescadores partiam rumo a Natal vendendo camarões, peixes, siris e goiamuns pelas ruas da capital.
E havia ainda os domingos felizes…
Famílias inteiras chegavam cedo para banhar-se em minhas águas e passear de canoa. As árvores ao redor serviam de parque de diversão. Passavam o dia inteiro entre sombras frescas, água de pote e liguento.
Eles eram felizes - e não sabiam.


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