NÍSIA FLORESTA: PRIMEIRA ABOLICIONISTA DO BRASIL
ANTES DE LER É BOM SABER...
quarta-feira, 13 de maio de 2026
COMO SE DEU O ABOLICIONISMO EM NÍSIA FLORESTA?
13 DE MAIO - DIA DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO. .. NÍSIA FLORESTA E PRINCESA ISABEL – O QUE HÁ EM COMUM ENTRE AMBAS...
HOJE É DIA DE LEMBRAR, PEDIR PERDÃO E LUTAR CONTRA ESSA PÁGINA VERGONHOSA DA NOSSA HISTÓRIA...
PRINCESA ISABEL EM UMA DE SUAS ÚLTIMAS FOTOGRAFIAS...
Isabel de Bragança (1846-1921) exilada no Castelo d’Eu, França, em seu último ano de vida, 1921. Ela morreu em 14 de Novembro de 1921, há 101anos.
13 DE MAIO - DIA DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO...
Foi por conveniência mesmo, mas foi um passo importante! E saber que a "desconhecida" NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA - vinte e nove anos antes da princesa Isabel -, lutava contra a escravidão, se confirma a ideia de que a sociedade civil deve se organizar sempre. O caminho é esse. Só esse,, pois ela é a grande provocadora de transformações. Nísia foi pássaro ferido, solitário, mas foi capinando o seu caminho... abrindo veredas que se tornaram estradas e hoje são avenidas... pense!
domingo, 10 de maio de 2026
LENDA DA LAGOA PAPARY E UMA MENSAGEM DEIXADA POR ELA...
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| Fotografia de Newton Bruno, publicada em: G1 - Projeto fotográfico 'Papari' mostra realidade de ribeirinhos no RN - notícias em Rio Grande do Norte |
LENDA DA LAGOA PAPARY (Autoria desconhecida no momento)
MENSAGEM (L.C.F.)
Eu, Lagoa Papary - outrora chamada Paraguaçu - brasileira, natural destas terras antigas do Rio Grande do Norte, casada simbolicamente com os nativos que durante séculos viveram às minhas margens, domiciliada entre o Porto, Morrinhos, Tororomba, Oitizeiro, Georgino Avelino, Currais e Genipapeiro, dirijo-me respeitosamente a você, nisiaflorestense, para pedir socorro.
Antes, porém, permita-me falar da minha origem.
Você sabia que meu nome original era Paraguaçu? Na língua tupi, significa “Mar Imenso”. Nem é difícil entender o motivo. Já fui muito maior do que sou hoje. Minhas águas avançavam por extensões hoje inimagináveis, abraçando caminhos, rios, mangues e várzeas que o tempo, o abandono e a ação humana lentamente mutilaram.
Sou filha da Lagoa do Bonfim, antigamente chamada “Puxi”, nome indígena posteriormente rejeitado pelos missionários capuchinhos. Nasci no seio de uma imensa família de lagoas e espelhos d’água. Tenho muitas irmãs: Papeba, Papebinha, Ferreira Grande, Ferreirinha, Urubu, Escura, Lagoa Seca, Carcará, Arituba, Cavalos, Pium, Amarela, Ilhota, Lodo, Sítio, Dourada, Alcaçuz, Tacho, Jabuti, Hiola, Redonda, Redondinha, Carnaúba, Teixeira, Anjos, Custódia dos Negros e Peixe, embora algumas delas sejam apenas irmãs adotivas do mesmo sistema hídrico que alimenta estas terras.
Tenho ainda inúmeros primos em forma de rios, riachos e veios d’água espalhados pelo centro da cidade, pelo Porto, Ilha, Boacica, Pirangi, Alcaçuz, Pium, Cururu e Hortigranjeira. De certa forma, estou presente em quase todo o município.
Sobre minha idade, prefiro manter o mistério. Mas deixo uma pista: eu já existia muito antes da chegada dos primeiros indígenas a estas terras. Muito antes dos portugueses, antes das estradas, antes dos engenhos, antes das cercas e dos viveiros. Vi o tempo nascer sobre estas margens.
Fiz a alegria de incontáveis gerações indígenas que habitavam minhas matas ciliares. Vi homens e mulheres pescando, navegando em canoas, banhando-se em minhas águas cristalinas e vivendo em profunda harmonia com a natureza. Das minhas entranhas saíam peixes gigantescos, alguns pesando quase trinta quilos. Fui berço abundante de goiamuns, camarões, pitus, siris, caranguejos-sá e de uma vasta e rica microfauna aquática.
Sou a lendária Lagoa Papary - antiga Paraguaçu - grande reservatório das águas do Trairi, receptáculo das enxurradas vindas do inverno sertanejo. Pequenos riachos descem dos tabuleiros arenosos e, ao longo dos séculos, alimentaram esta imensidão de águas interligadas a rios e lagoas que seguem em direção ao mar pelo velho Cururu.
Desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, meu nome passou a figurar em mapas, documentos e relatos históricos. Já aparecia na cartografia de Marcgrave, em meados da década de 1640. E antes mesmo disso, já era conhecida em Portugal. Em 1810, o célebre viajante inglês Henry Koster visitou-me quando minhas águas ainda alcançavam o Porto.
Em seu livro Viagem ao Nordeste do Brasil, ele descreveu o encanto de ver pescadores chegando em canoas abarrotadas de peixes, comparando minha fartura ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra. Fui cantada em versos por autores anônimos, evocada em antigas lendas indígenas e mencionada por inúmeros viajantes europeus em documentos hoje raríssimos.
Sempre fui vista como misteriosa, bela e acolhedora. Foi nesse contexto que surgiu a célebre lenda de Jaci e Guaracy, uma narrativa profundamente romântica, provavelmente escrita sob influência do Indianismo do século XIX, quando a imaginação literária brasileira transformava indígenas em personagens míticos e heroicos.
A lenda dizia que Jaci, bela índia tapuia, apaixonara-se pelo guerreiro Guaracy. Mas o destino cruel transformou o amor em tragédia. Certo dia, ouvindo a voz de sua amada ecoar sobre as águas, Guaracy mergulhou em mim e jamais retornou à superfície. Desde então, muitos afirmam existir um mistério profundo entre a lagoa e o mar.
E quantas memórias guardo…
Vi passar silenciosamente Jacob Rabbi e seus homens logo após a Chacina de Cunhaú, rumo à Barra de Tabatinga para novos massacres. Era uma noite de lua cheia. As sombras daqueles assassinos tocaram meus juncos enquanto seguiam pelas antigas veredas destas terras.
Também testemunhei homens brancos de olhos claros devastando as matas ciliares em busca do precioso pau-brasil. Recordo-me de dias em que dezenas de navios franceses deixavam esta região carregados da madeira vermelha arrancada das florestas.
Apesar de tudo, minhas águas permaneceram limpas durante séculos. A própria fauna aquática realizava naturalmente minha limpeza. Eu era ora doce, ora salgada, ora salobra, abraçada pelas águas da Caiçara, que me envolvia completamente em determinados períodos.
Aliás, você sabe o que significa “caiçara”?
A palavra vem do tupi-guarani: “caa” significa mato ou madeira; “içara”, armadilha ou cerca. Originalmente, designava cercas feitas pelos indígenas com galhos e varas. Mais tarde, passou a identificar os povos litorâneos formados da mistura entre indígenas, portugueses e africanos, populações profundamente ligadas à pesca, à agricultura e aos ciclos naturais.
Hoje quase ninguém se lembra disso.
Minhas margens já foram povoadas por galinhas-d’água, marrecos, tetéus, xexéus, sabiás, gaviões, concrizes e inúmeras outras aves. Saciei a sede de tatus, cotias, raposas, jacarés, timbus, preás e guaxinins. Isto aqui parecia um pequeno Pantanal potiguar.
Durante décadas, especialmente na tradicional Festa dos Pescadores, em setembro, minhas águas ofereciam centenas de quilos de peixes e camarões. O Porto se enchia de barracas, forrós, celebrações e alegria. As casas eram simples, cobertas de palha, mas havia fartura e dignidade. Existia até o antigo “dízimo do peixe”.
Então vieram as mudanças.
Durante séculos recebi águas vindas do sertão. Mas essas águas começaram a trazer também toneladas de barro decorrentes do desmatamento. Aos poucos fui sendo assoreada. Em 1974 ocorreu a inesquecível “Cheia de 74”. A força das águas rompeu a BR-101 nas proximidades de São José de Mipibu, despejando sobre mim enormes quantidades de sedimentos.
Pouco depois, rompeu-se também a barragem de Georgino Avelino. Toneladas de barro e entulho invadiram meu leito. Nunca mais fui a mesma.
Áreas antes tomadas por água hoje estão cobertas por aninga, pasta e aguapé. Meu fundo acumula sedimentos trazidos de rios e cidades cujas margens foram destruídas. Em um dos meus pontos mais profundos surgiu um gigantesco banco de areia, semelhante a uma ilha.
Minha flora e fauna aquáticas entraram em colapso. Plânctons desapareceram. Peixes e crustáceos diminuíram drasticamente. O manguezal - minha verdadeira muralha de proteção - foi devastado ao longo dos anos para construção de casas, lenha e, mais recentemente, pela expansão dos viveiros.
Eu acreditava que a destruição diminuiria com o avanço da alvenaria. Enganei-me.
Hoje minhas margens se transformam lentamente num descampado. Produtos químicos são despejados sobre mim. Um líquido estranho mata tudo que encontra pela frente. Pequenos peixes sobem mortos à superfície. O mau cheiro já lembra rios urbanos completamente degradados.
E o mais grave: estou situada sobre os aquíferos Aluvião e Barreiras, uma das mais importantes reservas hídricas do Rio Grande do Norte. Minha morte não representará apenas o desaparecimento de uma lagoa. Representará um desastre ambiental de enormes proporções.
Confesso minha tristeza.
Escuto lamentos de pescadores, ambientalistas e moradores antigos, mas quase ninguém age. Onde estão as autoridades? Onde estão os estudantes, pesquisadores, ecologistas, gestores públicos e amantes da natureza?
Lembro aos que possuem memória curta: fui eu quem matou a fome de seus antepassados quando tudo era mais difícil. Muito antes dos programas sociais e da modernidade, fui fonte de sobrevivência para inúmeras famílias humildes que viviam em casas de taipa e palha.
Fui eu quem encheu os cestos de peixes, pitus e caranguejos levados pelos seus avós para dentro de casa. Vi mulheres sentadas nos batentes limpando o pescado enquanto o fogão de lenha aquecia inhame, macaxeira, fruta-pão, batata assada e café recém-passado.
À noite, havia fartura. Havia união. Havia dignidade.
Foi de mim que nasceu também a tradição gastronômica que transformou Nísia Floresta na célebre “Terra do Camarão”. Pequenas barracas de palha às margens das estradas evoluíram para restaurantes populares conhecidos pelo camarão no alho e óleo, no molho e no vatapá.
Todos os dias, antes do amanhecer, pescadores partiam rumo a Natal vendendo camarões, peixes, siris e goiamuns pelas ruas da capital.
E havia ainda os domingos felizes…
Famílias inteiras chegavam cedo para banhar-se em minhas águas e passear de canoa. As árvores ao redor serviam de parque de diversão. Passavam o dia inteiro entre sombras frescas, água de pote e liguento.
Eles eram felizes - e não sabiam.
NÍSIA FLORESTA E O SAGRADO OFÍCIO DA MATERNIDADE...
Foi justamente
pensando nisso que me lembrei de Nísia Floresta
Brasileira Augusta, uma mulher cuja grandeza intelectual jamais
conseguiu apagar nela aquilo que talvez tenha sido sua marca mais profunda: o
sentimento maternal.
Poucas mulheres da
história brasileira souberam amar com tamanha intensidade os seus familiares
como Nísia Floresta. Em suas obras, em suas cartas, em seus escritos
memorialísticos e até mesmo em suas observações sobre o mundo, percebe-se
constantemente um coração povoado de saudades, afetos e preocupações
familiares. A figura de sua mãe, Antônia Clara
Freire do Revoredo (Goianinha: 1780 - Rio de Janeiro: 1855), aparece em
sua trajetória como verdadeiro porto sentimental. Nísia jamais esqueceu as
referências maternas recebidas na infância. Dona Antônia Freire não era
alfabetizada, mas o que lhe faltava em instrução formal sobrava-lhe em
sabedoria prática, amor e proteção à filha. Foi ela quem transmitiu à futura
educadora noções essenciais de humanidade, sensibilidade e firmeza moral.
Mesmo vivendo
longos anos na Europa, distante do Brasil e dos familiares, Nísia carregava
consigo a memória amorosa da mãe, frequentemente evocada em seus escritos de
maneira delicada, respeitosa e profundamente emocionada. O mesmo ocorria em
relação ao pai, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa,
assassinado tragicamente em 1828, quando Nísia tinha apenas dezoito anos de
idade e sua mãe quarenta e oito. A dor dessa perda atravessou toda a sua
existência. Ela jamais conseguiu apagar da alma o trauma da violência que
arrancou tão cedo a presença paterna do convívio familiar.
A maneira como Nísia
se referia ao pai - homem culto e profundamente empenhado na educação da filha
- revelava não apenas admiração, mas verdadeira reverência afetiva. Em suas
recordações, Dionísio surgia como homem digno, honrado, amoroso e culto, cuja
ausência marcou para sempre a estrutura emocional da família. Talvez exatamente
por haver conhecido tão cedo a dor da perda, Nísia tenha desenvolvido um
sentimento maternal ainda mais intenso e protetor. Isso se percebe claramente
em sua relação com o irmão caçula, Joaquim Pinto
Brasil (Papari: 1819 – Rio de Janeiro: 1875), nascido Joaquim Pinto
Lisboa e que posteriormente adotaria o sobrenome Brasil. Após o assassinato do
pai, Joaquim era apenas uma criança de nove anos de idade. Nísia praticamente
assumiu para si uma postura de segunda mãe e ela mesma declararia isso mais
tarde. Sentia-se responsável pelo menino órfão, como se precisasse dobrar o
amor familiar para compensar a ausência brutal do pai.
Depositou nele cuidado, zelo, orientação e
expectativas. Talvez por isso tenha sido tão profunda a decepção que sentiu
posteriormente quando ele, aos dezesseis anos de idade, decidiu por um
casamento precoce e inesperado. Não era simples frustração entre irmãos: era a
dor de alguém que havia amado maternalmente, preocupando-se sinceramente com o
futuro do irmão e da família.
Mais tarde, em
Opúsculo Humanitário, publicado em 1853, Nísia mencionaria que Joaquim Pinto Brasil
era “pai de sete filhos”. Contudo, anos depois, em Fragments d’un Ouvrage
Inédit: Notes Biographiques, lançado em 1878, ela esclareceria que o irmão
tivera, na verdade, onze filhos, referindo-se anteriormente apenas aos que
estavam vivos. Joaquim tornar-se-ia figura respeitada na Corte, destacando-se
como advogado, professor, filósofo e homem público, chegando inclusive a ocupar
a pasta provincial da Agricultura, Comércio e Obras Públicas no Rio de Janeiro.
A própria estrutura
familiar de Nísia revela uma história marcada por perdas, recomeços e afetos
profundos. Ela era filha do segundo casamento de Antônia Clara Freire do
Revoredo, que enviuvou muito jovem do português Antonio
Rodrigues Fernandes. Desse primeiro matrimônio nasceu Maria Isabel do Sacramento. Posteriormente,
Antônia casou-se com Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, união da qual nasceram
Maria Clara, Joaquim Pinto Brasil e Nísia Floresta. Maria Clara era chamada
carinhosamente por Nísia de “Chixi”, apelido familiar que revela a intimidade afetiva
existente entre as irmãs.
A própria vida
conjugal de Nísia foi marcada por episódios difíceis. Casou-se ainda
adolescente, aos treze anos de idade, com Manoel
Alexandre Seabra de Melo, união que durou menos de um ano.
Posteriormente, estabeleceu relação com Manuel
Augusto de Faria Rocha, homem que se tornaria grande companheiro, mas
que fatalmente morreria pouco tempo depois, em 1833, deixando Augusto Américo
recé-m nascido.
É especialmente na
relação com os filhos que o espírito maternal de Nísia Floresta alcança sua
dimensão mais comovente. Ela foi mãe de Lívia
Augusta de Faria Rocha (Recife: 1830 - França: 1912) e Augusto Américo de Faria Rocha (Porto Alegre:
1833 - Rio de Janeiro: 1889), aos quais dedicou amor incondicional. Em meio às
dificuldades da vida, às perseguições intelectuais, às viagens constantes e aos
desafios de uma mulher muito à frente de seu tempo, Nísia jamais abandonou o
sentimento de proteção e responsabilidade para com os filhos. Sua maternidade
não era apenas biológica; era profundamente moral, intelectual e espiritual.
Uma das maiores provas
disso encontra-se em sua célebre obra Conselhos à Minha Filha, escrita
especialmente para Lívia Augusta por ocasião de seus doze anos de idade e
publicada em 1842. Trata-se talvez de um dos mais belos testemunhos de amor
maternal da literatura brasileira. O filho Augusto Américo lhe deu muitos
netos, prolongando a descendência familiar. Lívia Augusta, porém, encerrou a
existência em si mesma. Ficou viúva muito jovem, não teve filhos e jamais
voltou a casar.
Naquele pequeno
livro, Nísia não oferece apenas recomendações domésticas a uma filha
adolescente, a “Cerinha”, apelidada assim pelo irmão Joaquim, como
carinhosamente Nísia também a chamava. Ela entrega verdadeiro mapa ético para a
vida. Cada conselho parece escrito sob a típica preocupação materna. Há ali o
desejo sincero de preparar L´via para um mundo duro, desigual e frequentemente
cruel com as mulheres. N´sia desejava que a filha caminhasse pela estrada da
dignidade, da justiça, da honestidade, do respeito ao próximo e da educação
intelectual. Para ela, educar uma filha era formar uma consciência.
Existe algo
profundamente simbólico nesse gesto. Enquanto muitas jovens da época recebiam
vestidos, joias ou adornos sociais ao atingirem determinada idade, Nísia
resolveu presentear a filha com um livro de orientações morais e humanas. Era
como se dissesse silenciosamente que nenhum luxo, nenhuma joia ou riqueza
material teria valor superior à construção do caráter.
O espírito maternal
de Nísia também se manifestava em sua visão humanitária diante das dores do
mundo. Em sua obra O Brasil, ela relata, horrorizada, a realidade encontrada em
determinadas áreas rurais da França, onde crianças eram entregues a amas de leite
e cuidadoras improvisadas. O cenário descrito por ela é profundamente doloroso.
Nísia ficou chocada com a sujeira das casas, com a precariedade dos ambientes e
com o abandono ao qual muitas crianças eram submetidas.
Relata situações de
extrema negligência, nas quais mães biológicas - desnaturadas pelo egoísmo e
pela futilidade social - praticamente esqueciam os próprios filhos naquelas
propriedades miseráveis. O episódio mais terrível narrado por ela envolve uma
criança devorada por um porco diante do absoluto descaso em que vivia.
A indignação de
Nísia diante daquela realidade revela muito sobre sua concepção de maternidade.
Ela entendia que maternidade é instransferível. Para ela, o cuidado com a
infância era algo sagrado. A maternidade não poderia coexistir com abandono,
negligência ou indiferença. Seu horror não era apenas social; era profundamente
humano e maternal. Ela sofria ao perceber crianças privadas de carinho,
proteção e dignidade.
Essa mesma
sensibilidade aparece em diversas outras passagens de sua obra. Nísia sempre
demonstrou especial preocupação com a educação das meninas, com a formação
moral da juventude e com a construção de uma sociedade mais humana. Sua defesa
da educação feminina não nascia apenas de um ideal político ou intelectual.
Nascida também de uma percepção maternal do mundo, ela acreditava que mulheres
instruídas poderiam formar filhos melhores, famílias mais conscientes e uma
sociedade menos brutal. Talvez por isso sua escrita possua delicadeza que
atravessa o tempo. Mesmo quando combatia injustiças sociais, preconceitos ou
estruturas patriarcais, havia em suas palavras dimensão afetiva muito forte.
Era a voz de uma mulher que compreendia o sofrimento humano não apenas pela
razão, mas também pelo coração.
Hoje, enquanto tantas mães abraçam seus filhos,
recordo que Nísia Floresta Brasileira Augusta
permanece como forte expressão do sentimento maternal. Não apenas por ter
gerado filhos, mas porque transformou a maternidade em elevada forma de amor ao
próximo, proteção familiar e responsabilidade humana.
Hoje, lá nas terras
pantaneiras, para onde ela migrou minha mãe aguarda ligação telefônica de três
filhos que moram longe: uma filha no Oeste Paulista, outra na Mooca, em São
Paulo, e eu aqui, na terra onde ela e meu pai nasceram. Aguarda também o
telefonema de um neto que vive na Rússia e outro que mora na Irlanda. E nessa
espera - digo espera porque as mães estão sempre esperando ouvir filhos e netos
- compreendo ainda mais o valor dessas mulheres que sustentam silenciosamente a
memória das famílias.
Mulheres como
Antônia Clara. Mulheres como Nísia Floresta. Mulheres que envelhecem carregando
no coração o nome de cada filho, de cada neto, de cada ausência e de cada
saudade. Talvez seja exatamente isso a maternidade: um amor que jamais termina.
Um amor que atravessa oceanos, décadas e até mesmo a morte. Um amor como aquele
que Nísia Floresta guardou eternamente por sua mãe, por seu pai, por seus
filhos e por seus irmãos. Um amor tão grande que ainda hoje, mais de um século
após sua morte, continua emocionando aqueles que aprendem a conhecê-la.
E desse modo, saúdo minha mãe, e desse modo, saúdo Nísia Floresta e todas as mães do nosso querido Brasil!
sábado, 9 de maio de 2026
domingo, 3 de maio de 2026
O QUE ESTÁ ESCRITO NAS PLACAS AFIXADAS NO MONUMENTO EM HOMENAGEM A NÍSIA FLORESTA?
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| Placa frontal, afixada no monumento em homenagem a Nísia Floresta. O polimento revelou marcas de pedradas, como se vê. |
No último dia 24 de abril de 2026, ao participar do II Movimento Pró Memória Nísia Floresta (cujos detalhes do evento estão neste mesmo blog), ocasião em que ocorreu bela solenidade e descerramento da placa alusiva à restauração do monumento em homenagem a Nísia Floresta Brasileira Augusta , erigido originalmente em 1909, e do mausoléu onde repousam seus restos mortais, tive a oportunidade de realizar um registro que considero de especial relevância documental e afetiva. Naquela ocasião, fotografei atentamente as quatro placas originais afixadas no monumento desde a sua inauguração, peças que guardam inscrições históricas de grande valor para a memória da intelectual potiguar.
Essas placas haviam sido recentemente removidas para um processo de polimento e conservação, o que lhes conferiu, naquele momento, uma nitidez visual rara, permitindo a leitura clara e precisa de seus dizeres, algo que, em condições habituais, é dificultado pela ação do tempo, que lhes imprime uma tonalidade mais escurecida. O recente polimento trouxe à tona uma informação curiosa, que me remete a um relato ouvido de um rapaz no início da década de 1990: ao passarem pelo monumento com amigos, costumavam lançar pedras contra a placa, numa espécie de desafio lúdico, em que vencia quem acertasse o alvo, algo facilmente percebido pelo som do impacto. Tal prática ajuda a explicar por que justamente a placa frontal apresenta marcas tão evidentes de apedrejamento. O episódio, aliás, ainda sugere outras interpretações, cuja leitura deixo à livre imaginação do internauta. Consciente de que esse efeito de clareamento é apenas transitório e que, em breve, as placas retomariam sua aparência mais opaca, senti a necessidade de registrar fotograficamente esse instante privilegiado.
Assim, movido não apenas pelo interesse pessoal, mas também pelo compromisso com a preservação e difusão da memória histórica, realizei essas fotografias com o propósito de, posteriormente, transcrever fielmente o conteúdo nelas inscrito, garantindo que tais informações permaneçam acessíveis e legíveis para outros estudiosos, pesquisadores e admiradores da obra e da trajetória de Nísia Floresta.
Felizmente, todas as placas originais permanecem preservadas, permitindo ao visitante contemporâneo não apenas contemplar a estrutura física, mas também mergulhar nas narrativas simbólicas e históricas que ali se inscrevem. Trata-se, portanto, de um dos mais importantes marcos da memória cultural do Rio Grande do Norte, reunindo história, arte, literatura e identidade em um único espaço.
Com relação ao monumento, houve um cuidado poético nas inscrições, a começar pela placa que diz "Neste ninho até agora ignorado...", revelando ser desconhecido até então o local de nascimento de Nísia Floresta. Vale a pena conhecê-las. Uma delas está escrita em francês e tive o cuidado de traduzir mais abaixo. Em suas faces há as seguintes inscriçóes:
A LESTE: Deste ninho, até agora ignorado, levantou voo altaneiro a notável norte-rio-grandense a quem a mocidade rende esta homenagem.
A OESTE: - “Votre touchante composition est irrévocablement placée dans la tiroir sacré qui ne contient que la correspondance exceptionelle. Respect e sympathie. AUGUSTE COMTE”. Carta de 29 de agosto de 1857. Tradução: “Sua comovente composição será irrevogavelmente arquivada na gaveta sagrada reservada apenas para correspondências excepcionais. Respeito e condolências. AUGUSTE COMTE”.
AO NORTE - NÍSIA FLORESTA. 1809-1909. 12 de Outubro. Papari.
AO SUL: - O Congresso Literário, reunido em setembro de 1909, sob os auspícios do exmº dr. Alberto Maranhão, seu presidente de honra e Governador do Estado, resolveu erigir este monumento.
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