ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A FRONTEIRA ENTRE HISTÓRIA, HIPÓTESE E PSEUDO-HISTÓRIA NA OBRA "PROTO-HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO NORTE" DE TARCÍSIO MEDEIROS.

QUANDO A ERUDIÇÃO SE APROXIMA DA LENDA

Quem pesquisa a História do Rio Grande do Norte por intermédio de livros inevitavelmente começa por Rocha Pombo, passa por Tavares de Lyra e Câmara Cascudo e, a partir deles, percorre uma expressiva tradição historiográfica, que inclui nomes como Hélio Galvão e Olavo de Medeiros Filho, chegando, posteriormente, a autores das últimas décadas e da produção historiográfica contemporânea. Há alguns anos, li Proto-História do Rio Grande do Norte, publicado em 1985 pela Presença Edições, em coedição com a Fundação José Augusto, de autoria de Tarcísio de Medeiros, intelectual norte-rio-grandense, autor de livros de natureza da História. Sua obra integra uma tradição de estudos que ajudou a construir e a interpretar a memória histórica do estado. É um livro que todo pesquisador deve ter. Livro de pesquisa, de consulta. Há autores que atribuem as inscrições da Pedra do Ingá, na Paraíba – situada na zona rural do município de Ingá, à margem da PB – aos fenícios e, pasmem, até mesmo a seres de outros planetas. O sítio arqueológico, oficialmente denominado Itacoatiaras do Rio Ingá, é um dos mais importantes registros de arte rupestre do Brasil e encontra-se protegido pelo IPHAN desde 1944. Há pouco mais de dois meses, estudando os capítulos intitulados “Sinais de antigas civilizações – período da lenda e do mito” e “No Rio Grande do Norte”, às páginas 113 a 129, entrei em contato com um amigo arqueólogo para saber sua visão. Afinal, por mais que consideremos pouco provável essa estadia de fenícios no Brasil, queremos ouvir quem é fundamentado no assunto. Obviamente, descartei a possibilidade extraterrestre. Cirurgicamente e sem rodeios, ele disse que são inscrições de povos indígenas e que, infelizmente, alguns pesquisadores têm dificuldade em reconhecer a competência desses povos para tal evento, acabando por defender até mesmo teses fantásticas. Nessa ocasião, ao pesquisar o assunto, deparei-me com o cruzamento de informações sobre as inscrições da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, cuja autoria fenícia é defendida pelos mesmos pesquisadores que a atribuem à Pedra do Ingá. Um exemplo é justamente a leitura atenta das páginas apresentadas de Proto-história do Rio Grande do Norte, que nos conduz a uma questão que ultrapassa o conteúdo específico do livro. Ela toca um problema permanente da produção intelectual: o que acontece quando um autor dotado de erudição, prest´gio e autoridade cultural apresenta ao leitor hipóteses extremamente especulativas sem submetê-las, com o mesmo rigor, ao confronto sistemático comas pesquisas especializadas que já apontavam em outra direção? A questão não consiste em condenar a imaginação histórica, nem em afirmar que toda hipótese extraordinária seja necessariamente falsa. A história e a arqueologia avançam justamente porque alguém formula perguntas que antes não haviam sido formuladas.. O problema começa quando a distância entre possibilidade, hipótese, tradição, lenda e fato comprovado deixa de ser suficientemente demarcada. Nesse momento, a narrativa pode adquirir aparência de ciência sem possuir o mesmo grau de demonstração que caracteriza uma investigação científica. É exatamente essa fronteira que se torna particularmente sensível nas páginas examinadas.


É importante, entretanto, fazer uma ressalva antes de qualquer crítica. Não seria correto transformar Tarcísio Medeiros, por causa dessas páginas, simplesmente em um autor de pseudo-história. Pelo contrário, ele é autor consagrado e respeitado em todo o RN. O próprio livro registra dúvidas e controvérsias. Ao tratar da chamada inscrição da Pedra da Gávea, por exemplo, Medeiros informa que a descoberta de Bernardo da Silva Ramos era "ainda hoje discutida e tida como falsa". Também utiliza expressões como "parece", "possivelmente", "dizem que" e "há quem afirme". Isso demonstra que o autor tinha consciência de que estava entrando em terreno controverso. O problema está menos na existência dessas ressalvas e mais na arquitetura geral da exposição. Depois de apresentar hipóteses extraordinárias, Medeiros as incorpora a uma longa sequência narrativa na qual fenícios, cartagineses, vikings, São Tomé, Atlântida e supostas civilizações antigas aparecem relacionados às terras americanas. O leitor que não possua conhecimento especializado pode facilmente perder a distinção entre aquilo que é documentação histórica, aquilo que é interpretação antiga, aquilo que é hipótese minoritária e aquilo que a arqueologia efetivamente demonstrou.


Esse ponto é particularmente significativo porque, já na época da publicação, algumas das afirmações apresentadas como possibilidades mereciam um confronto muito mais explícito com especialistas. O exemplo mais eloquente é a chamada Inscrição da Paraíba. Medeiros apresenta a posição de Cyrus H. Gordon, professor de Brandeis e reconhecido especialista em línguas semíticas, que defendia a autenticidade do texto e o interpretava como uma inscrição cananeia ou fenícia. A autoridade acadêmica de Gordon era real e não deve ser diminuída. Ele foi um importante especialista em línguas semíticas, Ugarítico e estudos do antigo Oriente Próximo. Justamente por isso, seu posicionamento tinha peso. Mas esse é o ponto fundamental: autoridade individual não transforma automaticamente uma interpretação em consenso científico. No mesmo ano de 1968, a revista Orientalia publicou, no mesmo fascículo, trabalhos de Johannes Friedrich sobre a falsidade da inscrição, de Cyrus Gordon defendendo o texto e de Frank Moore Cross Jr., da Universidade Harvard, intitulado explicitamente "The Phoenician Inscription from Brazil. A Nineteenth-Century Forgery". Ou seja, quando o livro de Medeiros foi publicado em 1985, havia uma controvérsia acadêmica altamente especializada que poderia ter sido apresentada ao leitor de forma muito mais equilibrada, mostrando não apenas a tradução de Gordon, mas também os argumentos epigráficos que levaram outros especialistas a rejeitá-la.Certamente ele não teve contato com essa obra.


O episódio da Paraíba é, aliás, um excelente exemplo de como funciona a diferença entre erudição e demonstração científica. Gordon era realmente um grande especialista, mas a conclusão que ele defendia nesse caso específico não prevaleceu. Frank Moore Cross, também uma autoridade internacional em epigrafia semítica, examinou a inscrição e publicou uma análise considerando-a uma falsificação do século XIX. A existência de um especialista respeitável de um lado não elimina a necessidade de avaliar os argumentos do outro. O leitor precisa saber quais são as evidências materiais, qual é a procedência do objeto, quais são suas características paleográficas, linguísticas e arqueológicas e se existe contexto independente que confirme sua antiguidade. Quando o objeto desaparece, quando sua procedência não pode ser estabelecida e quando a análise linguística apresenta problemas, a tradução de uma suposta inscrição deixa de constituir prova suficiente da presença de uma civilização antiga. É precisamente essa exigência de convergência de evidências que separa uma hipótese interessante de uma conclusão histórica.


A mesma questão aparece na narrativa da Pedra da Gávea. Medeiros reproduz a interpretação segundo a qual os sulcos da montanha seriam uma inscrição fenícia e apresenta a famosa leitura atribuída a Bernardo Ramos, segundo a qual ali estaria registrado o nome de Tiro, da Fenícia, e de Badezir, filho de Jethbaal. Bernardo Ramos merece ser levado a sério como personagem da história intelectual brasileira. Sua obra foi extraordinariamente extensa e procurou interpretar milhares de inscrições e sinais rupestres como vestígios de antigas civilizações mediterrâneas. Estudos historiográficos posteriores, entretanto, mostram que seu projeto partia de uma hipótese muito ampla de presença fenícia e grega na América e procurava interpretar diferentes registros rupestres a partir desse modelo. Isso é importante porque o problema não está na quantidade de trabalho realizada por Ramos, mas no sentido em que as evidências foram interpretadas. A arqueologia contemporânea trabalha de maneira diferente. Uma marca semelhante a uma letra não é automaticamente uma inscrição. Antes é necessário demonstrar que a marca é antrópica, isto é, produzida intencionalmente por seres humanos. Depois é preciso estabelecer que se trata realmente de escrita, e não de uma coincidência formal produzida por fraturas, erosão, veios minerais ou outras características da rocha. Finalmente, se a escrita for identificada, é necessário estabelecer sua cronologia, seu sistema gráfico, sua origem e seu contexto cultural. A ausência de um contexto arqueológico associado é especialmente importante. Uma inscrição isolada, sem artefatos, estruturas, depósitos, materiais datáveis ou outros vestígios culturalmente coerentes, não possui a mesma força de um conjunto arqueológico contextualizado.


O caso das chamadas "Sete Cidades" do Piauí é ainda mais instrutivo. Medeiros reproduz extensamente as interpretações de Ludwig Schwennhagen, Renato Castelo Branco e Jacques de Mahieu. Schwennhagen é apresentado como alguém que imaginava no local um grande centro político e religioso fenício, associado a povos tupis e a uma espécie de império colonial antigo. Jacques de Mahieu, por sua vez, reinterpretava os mesmos elementos como vestígios relacionados aos vikings. Assim, uma mesma paisagem rochosa passa, dependendo do autor, de monumento fenício a fortaleza viking. Esse fato, por si só, deveria despertar uma pergunta metodológica decisiva: se o mesmo vestígio pode ser interpretado como fenício, tupi ou viking conforme a teoria adotada previamente, onde está a evidência independente capaz de decidir entre essas hipóteses? A arqueologia realizada posteriormente em Sete Cidades oferece uma resposta muito diferente. O IPHAN caracteriza o parque como importante cenário arqueológico, com dezenas de sítios pré-coloniais cadastrados, mas também destaca que as formações rochosas resultam de processos erosivos de enorme antiguidade. Pesquisas arqueológicas identificaram pinturas rupestres associadas a grupos humanos pré-coloniais, e estudos especializados vêm documentando essas manifestações segundo métodos arqueológicos, arqueométricos e de conservação. Um trabalho publicado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte caracteriza Sete Cidades como monumento geológico associado a sítios de arte rupestre, enquanto pesquisas recentes continuam registrando e analisando os grafismos. Não há, nesse quadro científico, reconhecimento de uma cidade fenícia petrificada ou de uma fortaleza viking.


É justamente aqui que a obra de Gabriela Martin assume importância especial para o debate. Sua Pré-História do Nordeste do Brasil dedica atenção específica à história da arqueologia nordestina e ao que chama de "arqueologia pré-científica", incluindo o mito das Sete Cidades e a antiga tendência de interpretar monumentos e registros rupestres brasileiros à luz de supostas civilizações do Velho Mundo. A importância de Gabriela Martin não está apenas em rejeitar determinadas interpretações, mas em substituir conjecturas genéricas por investigação de campo, estratigrafia, cultura material, cronologia, contexto arqueológico e comparação controlada. No caso do Rio Grande do Norte, suas pesquisas contribuíram decisivamente para o estudo da área arqueológica do Seridó e de sua arte rupestre. O contraste fica ainda mais expressivo quando se observa o próprio Rio Grande do Norte. A arqueologia potiguar contemporânea não precisa recorrer a fenícios, gregos, egípcios ou vikings para demonstrar a antiguidade e a riqueza cultural do território. O IPHAN registra numerosos sítios arqueológicos no estado, com predominância de sítios de superfície no litoral e grande quantidade de arte rupestre no interior. Pesquisas desenvolvidas no Seridó identificaram diferentes conjuntos de vestígios, enquanto estudos sobre grupos caçadores-coletores apresentam datações radiocarbônicas de ocupações que chegam a milhares de anos. O Museu Câmara Cascudo da UFRN conserva um acervo arqueológico de enorme dimensão, constituído por instrumentos líticos, cerâmicas pré-coloniais, ossos humanos, urnas funerárias e outros materiais, resultado de décadas de pesquisas científicas.


Essa transformação metodológica é talvez a maior resposta contemporânea às narrativas presentes no livro de 1985. Entre os estudiosos fundamentais para compreender a arqueologia brasileira e nordestina estão Gabriela Martin, Niède Guidon, André Prous, Pedro Paulo Funari, Valdeci dos Santos Júnior, entre muitos outros pesquisadores que trabalharam com arqueologia, arte rupestre, cultura material, bioarqueologia e metodologia. No Rio Grande do Norte, pesquisas atuais continuam empregando escavações, levantamento de sítios, datações diretas e indiretas, análise de materiais e estudos de conservação. Em 2026, inclusive, o Museu Câmara Cascudo recebeu programação científica com André Prous e pesquisadores potiguares dedicada às gravuras rupestres no Brasil e no RN, demonstrando que o assunto continua sendo tratado dentro de uma arqueologia acadêmica especializada e metodologicamente controlada. O episódio de São Tomé demonstra outro mecanismo de transformação da tradição em “prova”. Tarcísio de Medeiros reúne relatos de Hans Staden, Jean de Léry, padre Antônio Vieira, Sérgio Buarque de Holanda e Frei Jaboatão sobre pegadas, marcas rupestres e a tradição de Sumé ou São Tomé. Em Natal, essa tradição localizava uma dessas supostas pegadas nas margens do rio Potengi, na região da Ribeira, um dos bairros mais antigos de Natal, mais precisamente em um rochedo situado na margem direita do rio, em área que corresponde atualmente ao terreno do Colégio Salesiano. Ali, numa enorme pedra, se via nitidamente a pegada de Sumé. Esses relatos são fontes históricas legítimas para estudar a formação do imaginário colonial brasileiro. O problema surge quando a tradição religiosa passa a ser utilizada como evidência direta de que o apóstolo efetivamente percorreu o continente. A arqueologia contemporânea tem estudado justamente esse processo. Thiago Leandro Vieira Cavalcante demonstrou como marcas rupestres existentes foram progressivamente ressignificadas pela tradição de São Tomé, transformando vestígios materiais em sinais atribuídos a uma personagem religiosa. A existência das marcas é uma coisa; a interpretação cultural que posteriormente lhes foi atribuída é outra.


O Triângulo das Bermudas e a mítica ilha de Atlântida habitam o mesmo território no imaginário popular, alimentados por teorias que tentam conectar o mistério geográfico ao mito histórico. A cultura de massa consagrou a ideia de que o Triângulo das Bermudas é um lugar amaldiçoado ou magnético, onde navios são subitamente sugados pelas águas e aviões caem sem deixar vestígios. Na ficção e nas pseudociências, essa suposta força destrutiva é frequentemente justificada como o eco tecnológico de uma civilização perdida, sugerindo que antigos cristais de energia submersos ainda estariam ativos no fundo do oceano. A Atlântida, contudo, exige distinção semelhante. Platão é uma fonte histórica extraordinariamente importante para o estudo da filosofia e do pensamento grego, mas a existência textual de Atlântida não equivale à demonstração arqueológica de sua existência como império histórico. A pesquisa contemporânea continua discutindo o significado do relato platônico e possíveis inspirações ambientais ou históricas, mas a literatura especializada não reconhece uma civilização atlante localizada a oeste de Gibraltar como fato arqueológico estabelecido. Portanto, quando a narrativa de Platão é colocada lado a lado com fenícios, cartagineses, vikings e supostos contatos com o Brasil, cria-se uma cadeia narrativa muito mais sólida literariamente do que arqueologicamente. Enquanto o folclore moderno desenha o Caribe como um sorvedouro de embarcações e aeronaves, a ciência e a historiografia preferem tratar tanto os naufrágios quanto os textos antigos sob a luz do rigor factual, separando o poder da literatura das realidades da história.


Há, contudo, uma distinção que torna o problema ainda mais interessante. A possibilidade de viagens transoceânicas anteriores a Colombo não é, em si, uma fantasia. A arqueologia demonstrou inequivocamente que navegadores nórdicos chegaram à América do Norte. O sítio de L'Anse aux Meadows, localizado no extremo norte da ilha de Terra Nova (Newfoundland), na província de Terra Nova e Labrador, Canadá, é reconhecido como assentamento nórdico, e estudos publicados na Nature estabeleceram, por meio de datação associada a um evento cósmico registrado nos anéis das árvores, atividade nórdica no ano de 1021. Isso mostra justamente como uma hipótese extraordinária pode deixar de ser hipótese quando aparecem evidências materiais independentes, datáveis e contextualizadas. Ao mesmo tempo, a mesma pesquisa registra que L'Anse aux Meadows é o único sítio nórdico confirmado nas Américas. Não existe equivalente arqueológico reconhecido que demonstre presença viking no Brasil. O capítulo de Medeiros sobre o Rio Grande do Norte contém ainda uma observação que merece ser preservada, mas corretamente interpretada. Ele chama atenção para os ventos, as correntes marítimas, o Cabo de São Roque, Fernando de Noronha, as Rocas e a posição geográfica do Nordeste brasileiro como elementos importantes para a navegação no Atlântico Sul. Nesse ponto, existe uma base geográfica real. Estudos oceanográficos modernos confirmam que a Corrente Sul-Equatorial se desloca para oeste e alcança a costa brasileira, bifurcando-se na região do Cabo de São Roque. O erro metodológico estaria em transformar essa possibilidade geográfica em prova de que determinada civilização efetivamente realizou determinada viagem. Uma corrente marítima pode tornar uma travessia possível; não pode, sozinha, demonstrar que alguém a realizou.


É nesse ponto que a expressão "pseudo-história" precisa ser utilizada com cuidado. Ela não deveria significar simplesmente "história errada" ou "história antiga". Uma obra pode conter erros não intencionalmente, pode conter hipóteses posteriormente abandonadas ou interpretações hoje superadas sem ser, por isso, inteiramente pseudo-histórica. A crítica contemporânea à pseudoarqueologia concentra-se sobretudo na maneira de produzir conhecimento: utilizar semelhanças isoladas como prova de contato, retirar objetos de seu contexto, selecionar apenas as evidências favor´veis à hipótese, transformar tradição oral ou mito em relato factual e, sobretudo, começar pela conclusão e procurar posteriormente elementos que a confirmem. Diria que isso se parece com os atuais fake News que abundam na internet e recebem credibilidade de pessoas aparentemente esclarecidas. Estudos metodológicos sobre pseudoarqueologia chamam atenção justamente para a importância docontexto, da datação da comparação das hipóteses concorrentes e da verificabilidade dos dados. O caso de Jacques de Mahieu torna esse problema particularmente claro. Medeiros o apresenta como pesquisador que interpretava Sete Cidades como obra viking. A historiografia recente sobre de Mahieu, porém, mostra que suas teorias arqueológicas são hoje estudadas como um exemplo de pseudoarqueologia e de hiper-difusionismo. Pesquisas acadêmicas recentes analisam como suas interpretações atribuíam aos europeus, especialmente aos vikings, papel civilizador sobre sociedades americanas. Isso não significa que sua obra não possua interesse histórico. Ao contrário, ela é valiosa para estudar como determinadas ideias sobre o passado foram construídas, divulgadas e utilizadas. O objeto de estudo muda: de evidência sobre o passado remoto, a obra passa a ser evidência sobre a maneira como determinados intelectuais imaginaram o passado.


E talvez seja exatamente essa a grande lição proporcionada pela leitura de Proto-história do Rio Grande do Norte. O livro é valioso não somente pelo que afirma, mas também pelo retrato intelectual de uma época que ele oferece. Nele convivem história, geografia, arqueologia, tradição religiosa, relatos de viajantes, epigrafia, oceanografia, mitologia e teorias difusionistas. Há curiosidade genuína, erudição, desejo de ampliar os horizontes da história regional e uma tentativa de colocar o Rio Grande do Norte dentro de uma história atlântica muito mais antiga. Mas justamente por isso o livro também demonstra o perigo da autoridade intelectual quando a forma narrativa é mais convincente do que a força das provas. Quando um intelectual respeitado apresenta uma hipótese ao público, o leitor tende naturalmente a emprestar credibilidade à afirmação. Se essa hipótese é acompanhada por nomes de universidades, professores, línguas antigas, traduções de inscrições, datas, mapas, referências a historiadores clássicos e descrições geográficas, a aparência de cientificidade aumenta consideravelmente. Entretanto, todos esses elementos podem produzir apenas uma aparência de demonstração se não forem submetidos ao confronto com evidências independentes. Uma narrativa erudita não é necessariamente uma narrativa comprovada.


Por isso, o verdadeiro rigor intelectual não exige que o pesquisador abandone hipóteses ousadas. Exige que ele as apresenta exatamente como são. Se uma inscrição é contestada, devem ser expostos os argumentos de quem a considera autêntica e os argumentos de quem a considera falsa. Se uma formação rochosa é interpretada como monumento humano, devem ser apresentados os estudos geológicos e arqueológicos que investigam sua origem. Se uma viagem transatlântica é considerada possível, deve-se separar a possibilidade náutica da demonstração histórica. Se uma tradição religiosa registra a passagem de uma personagem, deve-se distinguir a tradição como fenômeno cultural da comprovação material do acontecimento. Quando essa distinção não é feita com clareza, surge aquele "fio de desconfiança" a que a própria leitura conduz. Não porque todo intelectual esteja deliberadamente enganando seu público, nem porque uma hipótese minoritária seja necessariamente falsa, mas porque o leitor percebe que as evidências favoráveis receberam espaço narrativo muito maior do que as objeções capazes de enfraquecê-las. A verdadeira ciência não se caracteriza por eliminar o mistério. Caracteriza-se por saber exatamente onde termina aquilo que podemos afirmar e onde começa aquilo que apenas podemos imaginar.


Hoje, quase quarenta anos depois da publicação de Tarcísio Medeiros, a situação é particularmente esclarecedora. A arqueologia brasileira dispõe de universidades, laboratórios, datações, arqueometria, estudos de DNA antigo, análise de materiais, geologia, antropologia, conservação, sistemas de informação geográfica e extensos bancos de dados arqueológicos. O Rio Grande do Norte possui uma história pré-colonial extraordinariamente rica que pode ser investigada sem recorrer a civilizações desaparecidas do Mediterrâneo. A existência de milhares de anos de ocupação humana no Nordeste – a começar pelos povos indígenas – é muito mais interessante, cientificamente, do que a necessidade de atribuí-la a fenícios ou vikings. E essa talvez seja a ironia mais profunda: ao procurar no Velho Mundo os responsáveis pelos vestígios antigos do Brasil, certas interpretações acabaram diminuindo, involuntariamente, a capacidade histórica dos próprios povos indígenas que produziram esses vestígios, como bem ponderou meu amigo arqueólogo. A atualidade, portanto, não precisa destruir o livro de Tarcísio Medeiros. Pode lê-lo de maneira mais proveitosa. Ele pode ser entendido como documento de uma etapa da historiografia potiguar, como testemunho da persistência de antigas teorias difusionistas e como registro de uma época em que fronteiras entre história, tradição, arqueologia e imaginação ainda eram frequentemente mais porosas. Mas, quando suas afirmações são confrontadas com a arqueologia desenvolvida posteriormente, o leitor precisa recolocar cada uma delas em seu devido lugar. Fenícios no Brasil, inscrição da Paraíba, Pedra da Gávea, Sete Cidades como centro fenício ou viking, São Tomé como personagem historicamente comprovada no continente e Atlântida como civilização histórica não pertencem hoje ao mesmo nível das evidências arqueológicas que demonstram a ocupação indígena milenar do Nordeste ou a presença nórdica em Terra Nova.


O maior ensinamento talvez resida justamente nessa fronteira. O intelectual não abdica de sua respeitabilidade ao admitir o caráter provisório de uma hipótese; pelo contrário, é nessa honestidade metodológica que sua autoridade verdadeiramente se consolida. A ciência não impõe ao pesquisador o fardo da infalibilidade. Exige-lhe, antes, a transparência de demonstrar como se chegou a determinada afirmação: quais evidências sustentam a conclusão, quais dados a contradizem e, fundamentalmente, onde termina o conhecimento empírico e onde começa o território fascinante da conjectura. Da mesma forma, ao lidar com a história oral e com narrativas ainda carentes de validação científica estrita, o rigor intelectual impõe que a abundância de indícios e pistas seja convertida em vetor de investigação arqueológica ou historiográfica, tida como um ponto de partida legítimo para a busca da verdade.


REFERÊNCIAS

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CAVALCANTE, Luís Carlos Duarte. "Parque Nacional de Sete Cidades, Piauí, Brasil: biodiversidade, arqueologia e conservação de arte rupestre". Mneme - Revista de Humanidades, v. 14, n. 32, 2014.

CAVALCANTE, Thiago Leandro Vieira. "As pegadas de São Tomé: ressignificações de sítios rupestres". Revista de Arqueologia, v. 21, n. 2, 2008, p. 121-137. Disponível em: repositório/pdf. Acesso em: 12 jul. 2026.

CROSS, Frank Moore Jr. "The Phoenician Inscription from Brazil. A Nineteenth-Century Forgery". Orientalia, v. 37, 1968, p. 437-460. Tradução de Fídias A. C. M. P. Freire. Disponível em: repositório/pdf. Acesso em: 10 jul. 2026.

FRIEDRICH, Johannes. "Die Unechtheit der phönizischen Inschrift aus Parahyba". Orientalia, v. 37, 1968, p. 421-424. Tradução de Fídias A. C. M. P. Freire. Disponível em: repositório/pdf. Acesso em: 17 jul. 2026.

GORDON, Cyrus H. "The Canaanite Text from Brazil". Orientalia, v. 37, 1968, p. 425-436. Tradução de Fídias A. C. M. P. Freire. Disponível em: repositório/pdf. Acesso em: 20 jul. 2026.

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Patrimônio arqueológico do Piauí e do Rio Grande do Norte. Disponível em: repositório/pdf. Acesso em: 11 jul. 2026.

KUITEMS, Margot et al. Evidence for European presence in the Americas in AD 1021. Nature, v. 601, n. 7893, p. 388-391, 2022. Tradução de Fídias A. C. M. P. Freire. Disponível em: doi.org. Acesso em: 10 jul. 2026.

LANGER, Johnni. "Vikings ou tupinivikings? A tese dos nórdicos no Brasil pré-cabralino". Brasiliana: Journal for Brazilian Studies, v. 14, n. 1, 2025. Tradução de Fídias A. C. M. P. Freire. Disponível em: repositório/pdf. Acesso em: 19 jul. 2026.

MAILHE, Alejandra. "Un americanismo imaginario: pseudoarqueología y extrema direita en Argentina a fines del siglo XX". Trabajos y Comunicaciones, 2026. Tradução de Fídias A. C. M. P. Freire. Disponível em: repositório/pdf. Acesso em: 10 jul. 2026.

MARTIN, Gabriela. "Arte rupestre e registro arqueológico no Nordeste do Brasil". Clio Arqueológica, n. 9, 1993.

MARTIN, Gabriela. Pré-História do Nordeste do Brasil. Recife: Editora Universitária da UFPE, 1996.

MEDEIROS, Tarcísio. Proto-história do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Presença Edições; Natal: Fundação José Augusto, 1985.

SANTOS JÚNIOR, Valdeci dos. "As ocupações humanas primitivas: as datações diretas e indiretas da arte rupestre no Rio Grande do Norte". Revista Tarairiú, v. 1, n. 22, 2023.

SILVA, Guilherme Dias da. Traços da Antiguidade na selva: uma leitura das Inscripções e Tradições da América Prehistórica de Bernardo Ramos. ANPUH. Disponível em: repositório/pdf. Acesso em: 26 ago. 2026.

UNESCO. L’Anse aux Meadows National Historic Site. Paris: Unesco World Heritage Centre, Disponível em: unesco.org. Acesso em: 10 jul. 2026.

sábado, 12 de setembro de 2026

MARIA CLARA, CASADA AOS 12 ANOS: A MULHER QUE PRECISOU EXISTIR EM UMA MENINA...


MARIA CLARA DE MAGALHÃES FONTOURA PEIXOTO, MINHA BISAVÓ

 

MARIA CLARA DE MAGALHÃES FONTOURA PEIXOTO, MINHA BISAVÓ

 

Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (irmã de Antonia Clara Freire do Revoredo, mãe de Nísia Floresta Brasileira Augusta), nasceu em Goianinha, no Rio Grande do Norte, e morreu em 1950, em Natal. Foi minha bisavó materna, mãe de José Gomes Peixoto (1889 – 1958), meu avô materno, e avó de minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932). Sua história se insere em uma antiga trama familiar que passa pelos Freire do Revoredo, pelos Ferreira da Silva, pelos Grillo, pelos Peixoto, pelos Magalhães Fontoura e pelos Belmiro, entre outros ramos que se entrelaçaram no Rio Grande do Norte ao longo do século XIX. Sua vida atravessou quase noventa anos e, por isso mesmo, acompanhou uma transformaçâo extraordinária do Brasil: nasceu ainda no Império de Pedro II, em uma sociedade escravista, viveu a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, atravessou as primeiras décadas republicanas e chegou a um país que, quando morreu, em 1950, já era muito diferente daquele que conhecera na infância. Mas é por outro acontecimento, ocorrido quando ela tinha apenas doze anos, que sua história permanece particularmente viva na memória da família: em 1873, Maria Clara casou-se com Abel Gomes Peixoto (1845–1946), que tinha então 28 anos. Ela contava doze; ele, 28. Dezesseis anos os separavam em idade e, sobretudo, em experiência de vida. Para nós, hoje, a distância parece enorme. Uma menina de doze anos é inequivocamente uma criança ou, no máximo, uma pré-adolescente. No Brasil do século XIX, entretanto, as fronteiras entre infância, adolescência e idade adulta eram percebidas de maneira muito diferente, e o casamento precoce de meninas, embora não fosse uma experiência universal, fazia parte das possibilidades socialmente admitidas em determinados meios. O casamento era uma das instituições fundamentais da organização familiar, e a vida das mulheres estava profundamente condicionada pela família, pelo marido e pelo espaço doméstico. Isso ajuda a compreender o acontecimento, mas não o torna menos impressionante para quem, quase um século e meio depois, procura imaginar aquela menina diante da própria vida matrimonial.

 

Existe, entretanto, uma lembrança familiar que torna a história de Maria Clara mais complexa e, ao mesmo tempo, mais humana. Uma prima mais velha do que eu contou-me que Maria Clara, embora tivesse se casado praticamente na infância, não teria ido diretamente para a casa e para os poderes do marido. Segundo essa lembrança, ela teria permanecido inicialmente na casa de uma familiar, onde ficou até tomar mais corpo, isto é, até alcançar maior desenvolvimento físico e maturidade. Não sabemos precisar quanto tempo durou essa permanência, nem podemos afirmar documentalmente a idade exata que ela passou a viver plenamente a vida conjugal, mas não deve ter se demorado tanto quanto comparamos muitos casos semelhantes desse período. Ainda assim, a lembrança merece ser conservada, porque oferece uma perspectiva que nenhum registro de casamento poderia oferecer. Ela sugere que, mesmo dentro das pr´ticas daquele tempo, alguém próximo à família poderia ter reconhecido que uma menina de doze anos ainda era pequena demais para assumir imediatamente a vida de esposa. Há, além disso, uma curiosa impressão que permanece nas fotografias de Maria Clara já idosa: ela aparece como uma mulher miúda, de pequena compleição, enquanto Abel Gomes Peixoto (1845–1946) é um homem grande e fisicamente imponente. Evidentemente, não seria possível concluir, a partir de retratos da velhice, exatamente como era o corpo de Maria Clara ao se casar. Mas a imagem da mulher pequena, associada à lembrança de que, ainda menina, teria permanecido na casa de uma familiar até “tomar mais corpo”, permite uma reflexão que talvez seja mais importante do que qualquer certeza documental. Por trás da mulher que posteriormente conhecemos nas fotografias, existiu uma menina. E é essa menina que precisamos tentar enxergar quando lemos que, em 1873, ela se casou com um homem de 28 anos.

 

O casamento, portanto, não deve ser compreendido apenas como uma data – 1873 – nem como uma informação isolada sobre a vida de duas pessoas. Ele precisa ser colocado dentro do mundo em que Maria Clara nasceu. O Brasil daquele ano era uma monarquia, ainda profundamente rural, hierarquizada e escravista. A sociedade era organizada em torno de relações familiares, patrimoniais e de autoridade que hoje nos são estranhas, e as possibilidades de autonomia das mulheres eram muito menores do que aquelas que, gradualmente, seriam conquistadas nas décadas seguintes. O casamento podia significar a passagem quase imediata da tutela paterna para a autoridade do marido. Por isso, a lembrança de que Maria Clara não teria sido entregue imediatamente à casa do esposo, caso corresponda de fato ao que aconteceu, ganha um significado especial. Talvez tenha havido uma transição entre a menina e a mulher; talvez a família tenha entendido que, apesar do casamento celebrado, ela ainda precisava permanecer sob a proteção de uma mulher mais velha. Não temos como saber exatamente o que ocorreu. Mas a própria existência dessa lembrança familiar revela que a idade de Maria Clara era percebida como algo extraordinariamente precoce, mesmo dentro daquele contexto. E talvez seja justamente nesse ponto que a memória familiar consiga aproximar-se de uma verdade humana que os documentos, sozinhos, não registram.

 

Maria Clara e Abel tiveram uma família numerosa. Entre os filhos que chegaram à idade adulta ou ficaram registrados na memória familiar estão Maria Emília Gomes Peixoto (nascida em 1877), Enéas Gomes Peixoto (1887–1950), Joaquim Gomes Peixoto (nascido em 1888), Maria Amélia Gomes Peixoto (nascida em 1888), José Gomes Peixoto (1889–1958), Pedro Abel Peixoto (1895–1974) e Beliza Gomes Peixoto, cuja data de nascimento e morte não tenho estabelecida. José Gomes Peixoto (1889–1958), meu avô materno, foi o filho de Maria Clara através do qual sua história chegou diretamente à minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932). A existência dessa família numerosa acrescenta outra dimensão à imagem daquela menina de doze anos: a menina do casamento tornou-se mãe e, depois, avó, deixando atrás de si uma descendência que atravessaria o século XX. A história familiar conserva ainda a presença de Rosa Gomes Peixoto, filha de Abel com uma mulher escravizada que havia sido alforriada, fruto de uma relação de adultério. Rosa não deve ser confundida com os filhos de Maria Clara, mas sua existência também pertence à história daquele mesmo núcleo familiar e revela, de maneira particularmente dolorosa, como as relações pessoais estavam atravessadas pela escravidão e pelas profundas desigualdades sociais do Brasil oitocentista. Maria Clara, portanto, viveu dentro de uma sociedade em que casamento, família, propriedade, escravidão e autoridade estavam intimamente ligados. A história de sua casa não pode ser separada completamente da história do mundo social que a cercava.

 

É nesse contexto que a figura de Nísia Floresta aparece como um contraponto particularmente expressivo. Nísia Floresta Brasileira Augusta, nome literário de Dionísia Gonçalves Pinto (12 de outubro de 1810–24 de abril de 1885), era parente de Maria Clara por meio da família Freire do Revoredo: Antônia Clara Freire do Revoredo (1780–1855), mãe de Nísia, era irmã de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), antepassada de Maria Clara. Por essa linha, Maria Clara e Nísia pertenciam ao mesmo universo familiar, embora em diferentes gerações. A linhagem de Maria Clara passava ainda por Anna Francisca Ferreira da Silva (1793–?), filha de Francisca Clara, e por Manoel Joaquim Grillo (1790–?),com quem Anna Francisca se casou, chegando a Maria Jucunda Belmiro (1835–?), mãe de Maria Clara. O pai de Maria Clara foi o Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), filho de Manoel Thomaz Peixoto (1798–1869) e Claudina Maria Manuela de Castro (falecida em 1869). Assim, a história de Maria Clara reúne, em poucas gerações, famílias como Freire do Revoredo, Ferreira da Silva, Grillo, Peixoto, Castro, Belmiro e Magalhães Fontoura.

 

E existe entre as histórias de Maria Clara e Nísia uma coincidência que chama a atenção: Nísia também se casou muito jovem. Em 1823, aos treze anos, apaixonou-se por Manuel Alexandre Seabra de Melo, proprietário de terras, e quis casar-se com ele, recebendo o apoio dos pais. Isso pode hoje parecer estranho, mas seus pais tinham uma mentalidade diferente da que predominava em seu meio e não se opuseram à escolha da filha. O casamento, entretanto, não durou sequer um ano. Quando Nísia retornou à casa dos pais, eles a acolheram normalmente, ao contrário da sociedade, que a censurou e a apedrejou moralmente. Mais tarde, em 1828, passou a viver com Manuel Augusto de Faria Rocha, então estudante de Direito, com quem teve dois filhos: Lívia Augusta de Faria Rocha, nascida em 1830, e Augusto Américo de Faria Rocha, nascido em 1833. Manuel Augusto morreu em 1833, aos 25 anos, deixando Nísia viúva e com os dois filhos pequenos. Sua vida tomou então um rumo excepcional para uma mulher do século XIX: tornou-se escritora, educadora e uma das mais importantes vozes brasileiras em defesa da educação feminina e da ampliação do lugar das mulheres na sociedade. Maria Clara e Nísia, portanto, tiveram uma experiência inicial semelhante – ambas se casaram ainda meninas –, mas suas vidas tomaram caminhos completamente diferentes. Uma tornou-se uma personagem pública da história intelectual brasileira; a outra permaneceu principalmente dentro da esfera familiar. Essa diferença não diminui Maria Clara. Ao contrário, ajuda a perceber que a história das mulheres do século XIX não pode ser contada apenas através das que escreveram livros ou participaram da vida pública. A grande maioria viveu no silêncio das casas, criou filhos, manteve famílias e deixou sua marca de uma forma que só muito mais tarde poderia ser percebida.

 

A casa onde Maria Clara nasceu acrescenta uma dimensão material a essa lembrança. A Fazenda Bigle, situada na região em que hoje se encontra o município de Lagoa de Pedras, conserva a casa associada à família e à infância de Maria Clara. Eu não sabia da existência dessa casa, nunca havia estado no local e tampouco imaginava que ela guardasse uma memória tão expressiva de nossa família. A descoberta foi, para mim, semelhante a uma descoberta arqueológica: de repente, aquilo que eu conhecia apenas por nomes e histórias dispersas parecia ganhar um lugar concreto, uma casa, paredes e um espaço físico onde viveram os meus antepassados. Embora eu soubesse desses membros da nossa família, a descoberta sobre essa casa é recente. Um primo, Valdo Fontoura, hoje com 83 anos, que mantém a fazenda, contou-me que a casa guarda uma enorme galeria de fotografias de nossos antepassados. Essa galeria tem, para mim, um significado especial, pois, sem dúvida, é como se as paredes dessa casa tivessem congelado o tempo. As paredes da antiga casa conservaram uma parte da família que os documentos oficiais não conseguiram transmitir e que eu jamais imaginara encontrar. Rostos, gerações, expressões, roupas e corpos tornam visível aquilo que, de outro modo, seria apenas uma sucessão de nomes e datas.

A tradição familiar atribui a construção da casa ao Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto (16 de setembro de 1841–18 de novembro de 1945), irmão do Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), pai de Maria Clara; portanto, tio dela. A tradição também associa a construção ou consolidação da casa ao retorno do Major da Guerra do Paraguai. É significativo que o livro Os Trocos de Goianinha, de Ormuz Barbalho Simonetti, registre Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, também conhecida como Maria Jucunda Belmiro (1835–?), mãe de Maria Clara, como “Mãe do Bigle”, enquanto José Thomaz de Magalhães Fontoura, meu trisavô, era conhecido como “Papai Velho”. Esses apelidos, preservados na memória escrita da região, dizem muito sobre a importância que ambos tiveram na vida daquela comunidade e sobre a permanência da Fazenda Bigle na mem´ria de Goianinha.

Os Troncos de Goianinha, 2008.

A própria paisagem administrativa da região mudou várias vezes depois que Maria Clara nasceu, embora a terra, naturalmente, tenha permanecido no mesmo lugar. Na época de Maria Clara, a área pertencia a Goianinha. Com a criação do município de Santo Antônio, pelo Decreto nº 32, de 5 de julho de 1890, parte da região passou a integrar o novo município, desmembrado de Goianinha. No ano seguinte, porém, Santo Antônio foi extinto pelo Decreto nº 102, de 31 de março de 1891, e seu território voltou a ser anexado a Goianinha. A autonomia municipal foi restaurada em 8 de janeiro de 1892, pelo Decreto nº 6. Mais tarde, Santo Antônio passou a chamar-se Padre Miguelinho em 1943, recuperando o nome Santo Antônio em 1948. Finalmente, em 10 de maio de 1962, pela Lei Estadual nº 2.779, Lagoa de Pedras foi desmembrada de Santo Antônio e tornou-se município. Assim, a região da Fazenda Bigle, que no tempo de Maria Clara pertencia a Goianinha, passou pela circunscrição de Santo Antônio – com aquela breve reintegração a Goianinha entre 1891 e 1892 – e hoje integra o município de Lagoa de Pedras. Essa sucessão de nomes e limites municipais é, de certa forma, uma lembrança de que as fronteiras administrativas mudam muito mais rapidamente do que a memória das famílias e a permanência das casas.

Há, porém, uma lembrança ainda mais forte associada à Fazenda Bigle, porque ela nos obriga a olhar para a história de Maria Clara não apenas como a história de uma família, mas como parte da história da escravidão no Brasil. Valdo Fontoura contou-me que José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), pai de Maria Clara, quando residia na Fazenda Bigle, possuía dezenove pessoas escravizadas. Uma delas, ao morrer, teve uma capela erguida no local em sua homenagem. Essa pequena construção, até hoje preservada, representa uma das mais fortes materializações da memória daquele período, inclusive um de seus cuidadores é Toni Fontoura (irmão de Naldo Fontoura), padre na Bahia e que todo ano vem para organizar festejos no local. José Thomaz morreu em 1913, vinte e cinco anos depois da Abolição da Escravatura. Essa distância temporal é importante: ele pertenceu a uma geração que viveu diretamente a escravidão e, depois, passou ainda um quarto de século em uma sociedade formalmente livre. A morte de José Thomaz em 1913 mostra, de maneira muito concreta, que a memória da escravidão não está tão distante no tempo quanto às vezes imaginamos. Pessoas que possuíam escravizados chegaram a conviver por décadas com filhos, netos e bisnetos daqueles que haviam sido escravizados. A história de Maria Clara, portanto, estásituada exatamente nessa zona de transição entre dois Brasis: o Brasil escravista de sua infância e o Brasil pós-abolição de sua velhice.

A tradição familiar conta que Francisca Clara Freire do Revoredo, bisavó de Maria Jucunda Belmiro, possuía muitos escravizados. Desse modo, diante da informação transmitida por Valdo Fontoura sobre a existência de dezenove pessoas escravizadas na Fazenda Bigle durante o período em que José Thomaz de Magalhães Fontoura ali residiu, percebe-se que ele e Maria Jucunda representaram a última geração da família a manter escravizados naquela propriedade, onde viveu sua filha Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto, trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo.

É impossível não pensar que Maria Clara cresceu dentro desse mundo. Quando se casou, em 1873, a escravidão ainda era uma realidade legal no país e permaneceria assim por mais quinze anos. Quando seu pai, José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), morreu, em 1913, a escravidão já havia sido abolida havia 25 anos. Quando Maria Clara morreu, em 1950, haviam se passado 62 anos desde a Lei Áurea. Sua própria vida, portanto, cobre praticamente a passagem entre esses dois mundos. Ela nasceu em uma sociedade na qual pessoas podiam ser legalmente propriedade de outras pessoas e morreu em uma sociedade que já considerava a escravidão uma instituição pertencente ao passado. Mas esse passado não estava distante: estava nas fotografias, nas casas, nas histórias contadas pelos mais velhos, nos nomes das pessoas, nos lugares onde haviam vivido e morrido e, sobretudo, na própria memória familiar.

Também é significativo que todos os antepassados de Maria Clara, segundo a memória da família, estejam sepultados em Goianinha, inclusive sua avó, Francisca Clara Freire do Revoredo, enquanto ela própria repousa no Cemitério do Alecrim, em Natal. Existe aí uma espécie de deslocamento silencioso: os que vieram antes dela permaneceram ligados à terra de origem, enquanto Maria Clara, já pertencente a outra geração e a outro momento histórico, terminou seus dias em Natal. Goianinha guarda, assim, as raízes mais antigas de sua fam´lia; Natal guarda o lugar onde sua longa vida chegou ao fim. Entre esses dois pontos está a existência de uma mulher que nasceu numa fazenda, casou-se aos doze anos, teve uma família numerosa e viveu o suficiente para assistir à transformação quase completa do mundo em que havia nascido. Talvez seja esse o aspecto mais impressionante de sua história.

 

Ontem, dia 11 de setembro de 2026, conversando – por telefone – com minha mãe, ela disse que sua avó Maria Clara era muito reservada e polida. Só conversava o necessário, por isso alguns netos não se aproximavam muito dela. Quando pensamos em Maria Clara, é fácil deixar que a informação “casou-se aos doze anos” se transforme apenas em uma curiosidade familiar. Mas, quando procuramos imaginar a menina por trás dessa informação, tudo muda. Ela tinha doze anos quando se casou com um homem de 28. Talvez tenha permanecido inicialmente sob os cuidados de uma familiar; talvez tenha esperado até uns 14 anos para assumir efetivamente a vida conjugal. Não sabemos. Sabemos, porém, que aquela menina cresceu, tornou-se mulher, teve filhos e viveu até os 89 anos, que seu filho José nasceu em 1889, no mesmo ano em que o Brasil se tornou uma República, que seu pai morreu em 1913, quando a Abolição já pertencia a uma geração anterior. Sabemos que ela própria morreu em 1950, quando o país já havia passado por mudanças políticas, sociais e culturais que seriam inimagináveis para a menina de 1873. E sabemos que, por meio de seus filhos e netos, sua vida continuou.

 

É nesse sentido que a história de Maria Clara talvez possa ser compreendida como a história de uma mulher comum que viveu um tempo extraordinário. Ela não foi uma escritora como Nísia Floresta, não deixou uma obra intelectual conhecida, não ocupou um lugar de destaque na vida pública. Sua existência foi principalmente doméstica e familiar. Mas justamente por isso ela nos permite olhar para o século XIX de um ângulo diferente. Nísia nos mostra a mulher que rompeu com as expectativas de seu tempo e transformou a própria experiência em palavra pública. Maria Clara nos mostra a mulher que permaneceu dentro das estruturas de seu tempo e cuja história chegou até nós através das gerações, das fotografias, das casas e das lembranças contadas pelos mais velhos. Uma escreveu para o mundo; a outra permaneceu na memória de uma família. Mas as duas, pertencentes ao mesmo grande universo familiar e separadas por apenas algumas décadas, carregam em suas vidas uma mesma marca: a entrada precoce no casamento.

 

Talvez seja por isso que a lembrança de Maria Clara aos doze anos permaneça tão perturbadora e tão necessária. Não se trata de julgar uma mulher que viveu em outro século pelos critérios do presente, nem de transformar em normal aquilo que hoje reconhecemos como uma infância interrompida. Trata-se de tentar compreender. E compreender, neste caso, significa olhar para aquela menina dentro de sua época, sem esquecer aquilo que sabemos hoje sobre a infância e sobre a desigualdade entre homens e mulheres. Significa reconhecer que o casamento de 1873 foi possível porque existia uma sociedade que o admitia, mas também significa perceber, através da memória de que ela teria permanecido inicialmente na casa de uma familiar, que a própria família talvez tivesse consciência de sua pouca idade e de sua fragilidade. Entre o documento e a lembrança existe uma zona que não podemos preencher com certezas. É justamente ali que nasce a reflexão.

 

Maria Clara morreu em 1950 e foi sepultada no Cemitério do Alecrim. Seus antepassados, que durante gerações permaneceram ligados a Goianinha, ficaram para trás, sob a terra onde aquela história familiar começou. A Fazenda Bigle continua como um lugar de memória, e a casa conserva, nas fotografias reunidas, os rostos de muitas das pessoas que vieram antes de nós. Talvez seja esse o melhor modo de recordar Maria Clara: não apenas como a mulher que se casou aos doze anos, mas como a menina que existiu antes daquele casamento e como a mulher que, depois dele, atravessou quase todo um século de história brasileira. Entre a menina de 1873 e a senhora de 1950 há uma vida inteira, uma vida que começou em Goianinha, passou pela Fazenda Bigle, pelo casamento com Abel Gomes Peixoto, pela maternidade e pela família, atravessou o fim da escravidão e do Império, acompanhou o nascimento da República e terminou em Natal. E é justamente porque hoje podemos olhar para trás, com a distância de várias gerações, que aquela menina de doze anos pode finalmente ser vista não apenas como um nome em uma família, mas como uma pessoa situada no seu tempo, com todas as circunstâncias, limitações, afetos e mistérios que a sua longa vida deixou para nós. E existe entre as histórias de Maria Clara e Nísia um contraste que sintetiza as tensões do próprio século XIX. Enquanto Nísia rompeu com as amarras de seu tempo, usou a voz literária para questionar a opressão patriarcal e defendeu o direito das mulheres à educação e à autonomia, Maria Clara viveu a realidade concreta e silenciosa dessas mesmas amarras, casando-se na infância e cumprindo o destino tradicional da maternidade e do espaço doméstico. Ainda assim, as duas trajetórias não se anulam; completam-se. Nísia Floresta escreveu sobre os direitos que Maria Clara, em sua miúda complexidade, buscou tatear quando a família decidiu que ela precisava 'tomar corpo' antes de ser inteiramente esposa. Olhar para ambas é compreender que a história das mulheres no Rio Grande do Norte fez-se tanto pelo grito público da intelectualidade quanto pela resistência silenciosa e íntima das meninas que, feito Maria Clara, guardaram sua própria humanidade em um mundo de homens grandes.

OBS. Qualquer diz desses, vou à Fazenda Bigle para registrá-la. Inclusive Naldo me disse que eles também guardam alguns bens pessoais que pertenceram ao Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto.

 

REFERÊNCIAS

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO GRANDE DO NORTE. História legislativa dos municípios do Rio Grande do Norte. Natal: Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Norte.

CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOA DE PEDRAS. História de Lagoa de Pedras. Lagoa de Pedras, RN: Câmara Municipal.

CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOA DE PEDRAS. História do município. Lagoa de Pedras, RN: Câmara Municipal, 2026. Disponível em: https://camaradelagoadepedras.rn.gov.br. Acesso em: 12 ago. 2026.

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: Editora Universitária/UFRN, 1995.

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. São Paulo: Cortez, 1989.

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO. Nísia Floresta. Recife: Fundação Joaquim Nabuco.

FREIRE, Luís Carlos. O casamento do meu tio-bisavô, Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura e Dona Amélia Martins Pereira em 1893... Nísia Floresta por Luís Carlos Freire, 2026. Disponível em:

https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2026/08/o-casamento-do-meu-tio-bisavo-alferes.html. Acesso em: 12 set. 2026.

 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Histórico do município de Santo Antônio, Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: IBGE, 2026. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 12 set. 2026.

 

PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTO ANTÔNIO (RN). Histórico do município. Santo Antônio, RN: Prefeitura Municipal.

 

REGISTROS, fotografias e documentos familiares relativos a Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950), Abel Gomes Peixoto (1845–1946), José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), à Fazenda Bigle e aos seus descendentes. Acervo particular da família Fontoura Peixoto.

SIMONETTI, Ormuz Barbalho. Os trocos de Goianinha. Natal, RN: Offset Gráfica, 2008. 604 p.

TRADIÇÃO ORAL e depoimentos de familiares relativos à Fazenda Bigle, especialmente informações transmitidas por Valdo Fontoura. Acervo memorialístico familiar.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ACTA NOTURNA - SANTA CRUZ DA BICA: CEM ANOS DE UM ALERTA DESCONHECIDO...

Essa fotografia mostra uma perspectiva muito interessante do Baldo e da Cidade Alta. O elemento metálico em formato de torre ao centro é uma das estruturas da antiga Empresa d’Água Natal, de Bigois & Leinhardt, exatamente o marco histórico citado por Nestor Lima no texto anterior para explicar quando a Cruz foi movida de sua posição original de descida para o pedestal definitivo. 

O QUE NESTOR LIMA DIRIA HOJE?

Há um clássico que sempre gosto de assentá-lo ao presente estilo de texto. É uma frase do grande mestre Câmara Cascudo "Natal não consagra nem desconsagra ninguém". Genial como era, com certeza essa frase retratava bem a realidade de sua época, mas não combina mais com a atualidade, pois esse marco de excepcional significado hist´rico é um dos monumentos desconsagrados da velha Natal. O local não tem recebido o devido olhar urbanístico, nem turístico nem histórico e eventualmente é vandalizado. A outra Santa Cruz - que demarcada o perímetro da Urbes da época -, nas proximidades da Assembleia Legislativa foi derrubada sabe-se lá quando e nem mesmo um minúsculo registro existe no local. E assim, esquecidos, invisíveis, desconsagrados seguem alguns elementos históricos de Natal. Exemplo recente, dentre tantos, é casa que pertenceu a Romualdo Galvão, posta abaixo pelo - pasmem - SESC. E isso não é novidade.

Vez por outra, a história abre uma fresta para a dúvida: foi assim mesmo? Nestor Lima já fazia esse movimento em 1926, ao questionar qual seria, de fato, o “Rio Grande” que deu nome ao nosso Estado. Um ano depois, voltaria seu olhar para outro vestígio quase esquecido da fundação de Natal: a Santa Cruz da Bica, que ele considerava uma das mais preciosas relíquias do passado colonial potiguar. Sempre que passo pelos limites da Cidade Alta e olho para a encosta sul, nas proximidades do Baldo, não consigo deixar de pensar no quanto de nossa história permanece diante dos nossos olhos sem que a reconheçamos. 

A Santa Cruz da Bica, muitas vezes encoberta pela paisagem urbana e pela pressa cotidiana, resiste como uma espécie de testemunha silenciosa dos primeiros tempos de Natal. O mais inquietante, porém, é perceber que há quase um século Nestor Lima já advertia que a razão de ser daquele monumento estava praticamente perdida na memória dos natalenses. Se isso já o preocupava em 1927, o que dizer de nós, quase cem anos depois? Para compreender sua importância, é preciso voltar aos primeiros anos da ocupação portuguesa. Depois da construção do Forte dos Reis Magos, em 1598, e das lutas que marcaram a conquista do território, a paz com os potiguaras abriu caminho para a formação da povoação. 

Atual estado da Santa Cruz da Bica

Frei Vicente do Salvador registrou que, feitas as pazes, “se começou a fazer uma povoação no Rio Grande, uma légua do forte”. Outros historiadores, entre eles Vicente de Lemos e Rocha Pombo, referem-se à existência de um “sítio da cidade”, cujo perímetro teria sido demarcado por Jerônimo de Albuquerque. É justamente aí que começa a hipótese de Nestor Lima. Se a povoação havia sido oficialmente planejada e seu sítio delimitado, seria razoável supor que a demarcação tivesse deixado algum vestígio material. O problema é que, segundo ele, a tradição e os documentos não conservavam notícia clara desses marcos. Entretanto, havia dois antigos cruzeiros posicionados nas extremidades da área elevada onde Natal começava a se constituir: um ao norte, a antiga Cruz do Norte, desaparecida posteriormente, e outro ao sul, a Santa Cruz da Bica, que sobreviveu, embora profundamente modificada. Para Lima, essa localização não seria uma simples coincidência. Os dois cruzeiros formariam uma espécie de eixo norte-sul, correspondendo ao antigo alinhamento do terreno em que se estabeleceu a cidade. A Cruz do Norte teria existido aproximadamente onde hoje se encontra a Assembleia Legislativa, enquanto a Santa Cruz da Bica permanecia na encosta sul, nas proximidades do antigo rio da Passagem, ou Baldo. A hipótese é que esses dois sinais religiosos fossem, na realidade, marcos da delimitação primitiva do “sítio da cidade” de Natal. 

Eventualmente a Cruz da Bica sofre vandalismo. 

Há, nessa interpretação, algo especialmente fascinante: a possibilidade de que um objeto aparentemente religioso e popular tenha desempenhado também uma função territorial. A cruz não seria apenas símbolo da fé dos colonizadores. Poderia representar posse, domínio, conquista e demarcação. Nestor Lima lembrava que era prática dos portugueses e castelhanos assinalar, com cruzes, territórios conquistados e acontecimentos considerados memoráveis. A Santa Cruz da Bica, portanto, poderia ser muito mais antiga e significativa do que a tradição popular deixou registrado. O próprio nome “Bica” acrescenta outra camada à memória do lugar. A cruz esteve associada à área de águas e ao antigo curso do rio da Passagem, posteriormente afetado pelas intervenções urbanas e pelos serviços de abastecimento de água. 

Segundo Lima, a cruz teria sido deslocada para o pedestal atual quando da construção das instalações da antiga Empresa d’Água Natal, de Bigois & Leinhardt. Assim, até mesmo sua localização atual seria resultado de transformações posteriores. É preciso, naturalmente, tratar a interpretação de Nestor Lima como hipótese histórica, e não como uma certeza documental definitivamente comprovada. Ele próprio reconhecia isso ao afirmar que esperava que os estudiosos das velhas crônicas pudessem oferecer outra explicação. Mas terminava com uma frase de enorme força: enquanto não lhe provassem o contrário, considerava a Santa Cruz da Bica “a mais preciosa relíquia do nosso passado colonial”. 

Talvez seja essa a maior atualidade de seu texto. Independentemente de conseguirmos provar integralmente que a cruz foi um dos marcos utilizados por Jerônimo de Albuquerque, ela permanece como um testemunho material de uma Natal que já não existe. E é justamente por isso que deveria ser vista não apenas como objeto de devoção, mas como patrimônio histórico, urbano e afetivo da cidade. O que restou do nosso início? Restou uma cruz. Restou uma encosta. Restaram nomes de ruas, rios, ladeiras e lugares que atravessaram quatro séculos. Restaram, sobretudo, fragmentos de uma história que corremos o risco de perder não porque tenha desaparecido, mas porque deixamos de enxergá-la. Talvez a Santa Cruz da Bica nos faça uma pergunta incômoda: quantos outros marcos da fundação de Natal ainda estão diante de nós, esperando apenas que alguém volte a perguntar o que significam?

REFERENCIA BIBLIGRÁFICA:

LIMA, Nestor. Preciosa relíquia colonial. A Santa Cruz da Bica é um dos Marcos da Fundação de Natal. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Natal, v. XXIII-XXIV, p. 105-111, 1926-1927.

FOTOGRAFIA ANTIGA, ACIMA: Manoel Dantas, extraída do blog Tok de História.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ACTA NOTURNA - QUAL É O "RIO GRANDE” DO NORTE?

Rio Potengi cortando Natal, capital do Rio Grande do Norte.

Uma questão aparentemente simples e um capítulo esquecido da história potiguar

Essa prática de questionar fatos histórico é antiga. De tempos em tempos, a história abre uma fresta para a dúvida: foi assim mesmo? Nestor Lima já questionava, em 1926, portanto há 1 século, qual seria, de fato, o “Rio Grande” que deu nome ao Rio Grande do Norte; hoje, outra questão provoca a historiografia potiguar e brasileira: teria o Brasil sido “descoberto” pelo Rio Grande do Norte, antes da chegada oficial de Cabral? Bem, isso é só outro detalhe. O assunto aqui é outro...

Há nomes que parecem tão naturais que deixamos de perguntar de onde vieram. “Rio Grande do Norte” é um deles. O nome – belo por sinal – é repetido desde a infância por quem nasce neste solo, nos livros escolares, nos mapas, nos documentos oficiais e nas conversas cotidianas, sem imaginar que por trás dessas três palavras existe uma questão histórica que, há exatamente um século, provocou uma interessante controvérsia entre estudiosos norte-rio-grandenses. Há 100 anos Nestor dos Santos Lima questionou que rio era esse. Em 1926 ele perguntou “Qual é o Rio ‘Grande’ do Norte?” e hoje, sabendo de outro rio caudaloso que serpenteia o solo potiguar a pergunta permanece surpreendentemente provocadora. Afinal, se o Estado recebeu seu nome de um rio chamado “Rio Grande”, qual rio era esse? O Potengi, como tradicionalmente aprendemos? Ou o Açu, como sustentou, com argumentos que merecem ser revisitados, o historiador, professor e intelectual assuense?

Antes de refletirmos sobre o assunto, julgo interessante uma explicação sobre o “Norte”, do Rio Grande do Norte. A denominação Rio Grande do Norte tem origem hist´rica. Inicialmente, a capitania era chamada simplesmente de Rio Grande, em referência ao rio que, segundo a interpretação tradicional, corresponde ao atual Potengi. Posteriormente, para diferenciá-la de outra região denominada Rio Grande, situada ao sul e que viria a formar o Rio Grande do Sul, acrescentou-se a expressão “do Norte”. Assim, embora o Estado pertença geograficamente à Região Nordeste, seu nome preserva uma distinção histórica entre dois antigos “Rios Grandes”: o do Norte e o do Sul.

Retomando a reflexão sobre qual o Rio Grande, se o Açu ou Potengi, a questão não é apenas uma curiosidade toponímica. Ela nos conduz a um problema maior: como os lugares recebem seus nomes, como esses nomes sobrevivem ao tempo e como determinadas interpretações históricas acabam transformando-se em verdades aparentemente incontestáveis. Nestor Lima escreveu seu artigo em 1926, quando a explicação corrente afirmava que o Rio Grande do Norte recebera esse nome por causa do rio Potengi, que banha Natal. A Revista Escolar, de Fortaleza, havia reafirmado essa interpretação. Lima, entretanto, considerava-a equivocada e se propôs a contestá-la. O artigo foi publicado na Revista Escolar, em maarço daquele ano, e posteriormente reproduzido em 1927 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Rio Açu, também chamado de Rio Piranha-Açu.

O primeiro aspecto que chama a atenção é a segurança com que Lima apresenta sua discordância. Ele não trata o assunto como mera hipótese curiosa. Para ele, havia ocorrido um “equívoco” que atravessara anos e autores e que precisava ser corrigido. Sua investigação partia de uma pergunta aparentemente elementar, mas profundamente histórica: qual era, afinal, o rio chamado pelos portugueses de “Rio Grande”? O Potengi ou o Açu? A argumentação de Nestor Lima organiza-se em três frentes: a linguística, a geográfica e a histórica. Seu primeiro argumento está na própria palavra Açu. Segundo ele, a expressão indígena permitiria interpretar o nome como “rio grande”. Já Potengi possuiria outro significado, relacionado aos camarões ou ao fumo, e, portanto, não poderia ser compreendido como “rio grande”. Hoje, a discussão etimológica exige algumas cautelas. A tradição linguística associada a Potengi relaciona o termo ao universo tupi e ao significado de “rio dos camarões”; trabalhos sobre a história do rio confirmam que a denominação ind´gena sobreviveu em registros coloniais sob formas como “Potigi” ou “Potengi”.

Mas o que torna o texto de Lima particularmente interessante não é apenas saber se sua etimologia estava correta em todos os detalhes. É perceber que ele utilizava a linguagem como uma chave para reinterpretar a própria história territorial do Estado. Se Açu significava “rio grande”, e se esse era também o maior rio da região, parecia-lhe lógico concluir que aquele deveria ser o rio que dera nome à capitania. É justamente nesse ponto que surge uma segunda dimensão de sua argumentação: a geografia. Para Lima, não fazia sentido atribuir a um curso d'água de importância relativamente menor a designação que teria dado nome a todo um território . O Açu aparecia, em sua interpretação, como o grande eixo hidrográfico do Rio Grande do Norte. Sua bacia alcançaria extensas áreas do interior, receberia diversos afluentes e estaria associada a uma das regiões agrícolas mais importantes da antiga capitania. O Potengi, por sua vez, era apresentado por Lima de maneira deliberadamente provocativa: um rio de importância local, relacionado à área de Natal e, em sua interpretação geográfica de então, tributário do Jundiaí.

Essa oposição entre o rio da capital e o rio dos sertões talvez seja uma das dimensões mais sugestivas do texto. Nestor Lima nasceu em Assú e dedicou grande parte de sua produção intelectual à história, à geografia e às territorialidades do interior norte-rio-grandense. Estudos recentes sobre sua obra destacam precisamente seu interesse pelos sertões, pelo Seridó e pela região do Assú. Assim, não seria exagero enxergar no artigo também uma tentativa de deslocar o centro da narrativa histórica do Estado. A história do Rio Grande do Norte não deveria, para ele, ser pensada exclusivamente a partir de Natal e do litoral. O Açu, os sertões e suas ribeiras também constituíam elementos fundamentais da identidade potiguar.

O terceiro argumento é talvez o mais fascinante. Nestor Lima recorre à documentação e aos relatos dos primeiros navegadores europeus para tentar localizar o “Rio Grande” dos primeiros tempos da colonização. Ele menciona Alonso de Hojeda, Américo Vespúcio, Juan de la Cosa e Gabriel Soares, procurando demonstrar que a descrição de um grande rio que desembocava no oceano por vários braços corresponderia à foz do Açu. A hipótese ganha ainda mais força, em seu raciocínio, quando relacionada à distribuição das terras da capitania. Lima afirma que as cinquenta léguas concedidas por D. João III a João de Barros alcançariam justamente a região da foz do Açu. Aqui é importante destacar que a própria documentação colonial permite compreender que a delimitação das capitanias é mais complexa do que muitas narrativas escolares fazem parecer. A documentação relativa à doação de terras a João de Barros e à formação da Capitania do Rio Grande é objeto de estudos específicos. A carta de doação hoje conhecida indica uma divisão territorial que relaciona as terras de João de Barros à região entre a Baía da Traição e o Açu. Isso significa que o argumento de Nestor Lima não pode simplesmente ser descartado como uma excentricidade de um historiador local. Ele estava dialogando com problemas reais da cartografia, da documentação colonial e da definição dos limites territoriais. Entretanto, uma questão permanece: a localização de um rio descrito como “grande” pelos navegadores significa necessariamente que o nome da capitania tenha sido derivado daquele rio? É justamente aí que a interpretação tradicional apresenta sua força.

A historiografia que se consolidou posteriormente manteve o Potengi como o rio associado ao nome da Capitania do Rio Grande. A documentação e os estudos históricos registram que, no final do século XVI, a expedição portuguesa que empreendeu a conquista efetiva da região alcançou a barra do atual Potengi. Em 25 de dezembro de 1597, a expedição comandada por Manuel de Mascarenhas Homem chegou à foz do rio, e ali começou o processo que conduziria à construção da Fortaleza da Barra do Rio Grande, posteriormente conhecida como Fortaleza dos Reis Magos. É significativo que a fortificação tenha sido chamada Fortaleza da Barra do Rio Grande. O nome “Rio Grande” estava, portanto, associado àquele estuário, isto é, ao espaço onde posteriormente se desenvolveria Natal.

Estudos contemporâneos sobre o Rio Grande do Norte também registram a utilização da denominação “Rio Grande” para a capitania e observam que, somente posteriormente, a expressão “do Norte” se consolidou como forma de distingui-la do Rio Grande do Sul. Nesse sentido, a explicação tradicional não depende exclusivamente da etimologia de “Potengi”. Ela se apoia sobretudo na documentação histórica do período colonial, na associação entre o estuário e a denominação “Rio Grande” e na permanência dessa designação para a capitania. O que aconteceu, então, com a tese de Nestor Lima? Ela não desapareceu completamente. Seu artigo permanece como um documento valioso da própria história da historiografia potiguar. Um trabalho acadêmico recente sobre Nestor Lima identifica expressamente “Qual é o Rio Grande do Norte?” como um texto em que o autor questiona se o “Rio Grande” correspondia ao Açu ou ao Potengi. E talvez seja justamente aí que esteja a maior importância desse episódio.

Mais importante do que decidir é compreender a pergunta. Hoje, provavelmente, não precisamos escolher entre Nestor Lima e a historiografia consolidada como se estivéssemos diante de uma disputa que só pode produzir um vencedor. O mais produtivo é compreender por que essa pergunta surgiu e o que ela revela sobre a construção da memória histórica do Rio Grande do Norte. O nome de um Estado parece uma coisa objetiva. Mas nomes são construções históricas. Eles resultam de encontros entre povos, línguas, mapas, interesses políticos, interpretações geográficas e decisões administrativas. O caso potiguar é especialmente rico porque envolve dois rios com enorme importância histórica: o Potengi, profundamente associado a Natal e à conquista portuguesa do litoral; e o Açu, eixo fundamental da ocupação e da história dos sertões.

Talvez o grande mérito de Nestor Lima tenha sido justamente nos obrigar a olhar para esse segundo rio. Quando dizemos “Rio Grande do Norte”, quase automaticamente pensamos em Natal, no Forte dos Reis Magos e no Potengi. Raramente pensamos no vale do Açu, em suas várzeas, em sua bacia hidrográfica ou em seu papel na interiorização da ocupação colonial. A pergunta de Nestor Lima, portanto, continua viva não necessariamente porque sua conclusão tenha prevalecido – ela não prevaleceu na historiografia dominante –, mas porque nos ensina a desconfiar das respostas que parecem óbvias demais.

Enfim, qual é o Rio “Grande” do Norte? Historicamente, a interpretação hoje predominante associa o nome ao Rio Grande identificado com o Potengi. Mas a controvérsia levantada por Nestor Lima demonstra que a história da denominação não é tão simples quanto a fórmula encontrada nos livros escolares. E há uma ironia particularmente bonita nisso tudo: o rio que hoje chamamos Potengi carrega um nome indígena que sobreviveu à colonização, enquanto o nome português “Rio Grande” desapareceu do curso d'água, mas permaneceu vivo no nome de um Estado inteiro. Assim, talvez a pergunta de Nestor Lima deva ser lida menos como uma tentativa de substituir definitivamente um rio por outro e mais como um convite à reflexão sobre quem nomeia os lugares, quem escreve sua história e quais memórias acabam permanecendo enquanto outras são esquecidas. Um século depois, recuperar essa polêmica é também recuperar uma parte pouco conhecida da intelectualidade norte-rio-grandense. É devolver visibilidade a um debate que envolveu geografia, linguística, cartografia, memória e identidade regional. E talvez seja essa a verdadeira riqueza do texto de Nestor Lima: ele nos lembra que, por trás de um nome aparentemente banal – Rio Grande do Norte – existe uma história de disputas, interpretações e esquecimentos.

Observação Importante: a tese de Nestor Lima deve ser apresentada hoje como uma interpretação historiográfica de 1926, e não como consenso atual. A documentação histórica consolidada associa o “Rio Grande” da capitania ao rio que corresponde ao atual Potengi, especialmente no contexto da conquista portuguesa de 1597-1598. Isso, porém, não diminui o valor do texto de Lima: ao contr´rio, torna a polêmica ainda mais interessante, porque revela como a própria historiografia potiguar discutiu – e continua discutindo – a formação de sua identidade territorial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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