ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

PADRE AMARO THEOT CASTOR BRASIL: UM SACERDOTE NORTE-RIO-GRANDENSE NA GUERRA DO PARAGUAI

Acervo: Igreja Matriz de São João Batista, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro

Entre os norte-rio-grandenses que participaram da Guerra do Paraguai, a trajetória do Padre Amaro Theot Castor Brasil apresenta uma singularidade que merece atenção especial. Sua participação no conflito não se explica apenas pela mobilização militar que alcançou diferentes regiões do Império, nem pode ser compreendida da mesma maneira que a trajetória dos demais homens de sua família que seguiram para a guerra. Amaro era sacerdote, formado no Seminário de Olinda e ordenado em 16 de junho de 1862 por Dom João da Purificação Marques Perdigão, bispo de Pernambuco. Quando a Guerra do Paraguai começou, portanto, sua vida já estava orientada para o exercício do ministério religioso. Ainda assim, em 1865, tomou a decisão de alistar-se e acompanhar as tropas brasileiras como capelão militar. Essa circunstância confere à sua história uma dimensão particular, pois ele não abandonou a condição sacerdotal para assumir simplesmente a de combatente: levou consigo a própria vocação religiosa para dentro de uma campanha militar que se prolongaria por aproximadamente cinco anos. O material que estudei até o momento situa seu nascimento em 1838 na antiga Campo Grande, na região correspondente ao atual município de Paraú, identificando-o como filho de Jeronymo José Correia Peixoto e Joana Baptista Martins da Silva.

Antes de nos aprofundarmos, julgo oportuno um esclarecimento sobre o nome do padre Amaro. Embora ele possuísse o sobrenome do pai, Peixoto, ele adotou Amaro Theot Castor Brasil como uma escolha de caráter eclesiástico e patriótico. Essa informação consta no diário de seu irmão, Manoel Martins Correia e Castro - Alferes da 2ª Companhia - o qual teve a feliz iniciativa de registrar o que viveu na Guerra do Paraguai e obviamente informações sobre os irmãos que junto com ele estavam ali, O termo "Theot" é uma abreviação erudita e devocional para Theotókos (Mãe de Deus, em grego), e "Castor" fazia alusão à sua postura firme de protetor, enquanto o "Brasil" foi assumido como sobrenome patriótico em face da Guerra do Paraguai. A documentação histórica nem sempre registra uma mesma pessoa de maneira uniforme. No século XIX, era relativamente comum que indivíduos passassem a ser conhecidos e até a assinar seus escritos, cartas e documentos por nomes diferentes daqueles recebidos no batismo. Isso podia ocorrer por diversas razões: uso de apelidos familiares que acabavam se tornando nomes públicos; abreviações ou modificações do nome de batismo; homenagem a pessoas, lugares ou ideias; afirmação de identidade pessoal ou literária; convenções sociais; ou, especialmente entre escritores e jornalistas, a adoção deliberada de pseudônimos. Em alguns casos, o nome escolhido tornou-se tão conhecido que praticamente substituiu o nome de batismo na memória histórica.

O Brasil do século XIX oferece exemplos bastante expressivos desse costume. Nísia Floresta Brasileira Augusta, nascida Dionísia Gonçalves Pinto, é talvez um dos casos mais próximos da realidade potiguar: adotou o nome pelo qual se tornou célebre e passou a assinar sua produção intelectual dessa maneira. Outro exemplo é Qorpo-Santo, nome pelo qual ficou conhecido o escritor e dramaturgo gaúcho José Joaquim de Campos Leão. Também Sousândrade, poeta maranhense do século XIX, tornou-se conhecido por esse nome, derivado de seu nome de nascimento, Joaquim de Sousa Andrade. O próprio filho de Nísia Floresta, Joaquim Pinto Lisboa, assinava Joaquim Pinto Brasil. Esses casos ajudam a demonstrar que, para o pesquisador, não se deve pressupor que a forma pela qual uma pessoa ficou conhecida corresponda necessariamente ao nome que consta em seu registro de batismo. Todos os documentos eclesiais assinados pelo Padre Amaro Theot Castor Brasil passaram a ser assim assinados após a Guerra do Paraguai.

Essa prática era particularmente significativa no ambiente literário e jornalístico. O anonimato e os pseudônimos foram amplamente utilizados pela imprensa brasileira oitocentista, inclusive por autores hoje conhecidos por seus nomes civis. Por isso, quando aparecem em documentos históricos nomes diferentes para uma mesma pessoa, é necessário investigar se estamos diante de indivíduos distintos, de uma variação ortográfica, de um apelido incorporado à vida pública ou de um nome deliberadamente escolhido pelo próprio indivíduo. No caso de Padre Amaro Theot Castor Brasil, essa observação é especialmente pertinente. O fato de determinada fonte utilizar apenas “Amaro”, outra registrar “Padre Amaro Theot” e outra apresentar o nome mais completo não significa, por si só, que se trate de pessoas diferentes. A identificação deve ser estabelecida pela combinação de outros elementos – filiação, local de nascimento, atividade sacerdotal, datas, cargos exercidos e acontecimentos biográficos –, e não exclusivamente pela forma do nome. É justamente esse cuidado que permite ao pesquisador acompanhar uma pessoa através de documentos produzidos em épocas e circunstâncias diferentes, preservando a distinção entre o nome de batismo, o nome pelo qual era conhecido e eventual nome adotado para assinar ou se apresentar publicamente.

Independentemente dessa divergência, sua origem familiar é bastante clara: Amaro pertencia a uma família estabelecida na região de Campo Grande e ligada à história daquela localidade, especialmente à Fazenda Espírito Santo, propriedade de seu pai, Jeronymo José Correia Peixoto, meu tio-tetravô, irmão do meu tetravô Manoel Thomaz Peixoto, pai do meu trisavô José Thomaz de Magalhães Fontoura, pai da minha bisavó Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto, mãe do meu avô Abel Gomes Peixoto, pai de Maria José Freire, minha mãe. O padre Amaro Theot era meu primo em primeiro grau, três gerações afastado, pois era primo-irmão do meu trisavô, José Thomaz de Magalhães Fontoura.

O contexto familiar é indispensável para compreender a decisão de Padre Amaro, embora não devamos reduzir sua trajetória à história dos parentes que o acompanharam. Seus irmãos Manoel Martins Correia e Castro, Antônio Martins Correia e José Lucas Barbosa também participaram da Guerra do Paraguai, e com eles seguiu o primo Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto. Foram cinco Peixotos participantes da Guerra do Paraguai. Philippe Guerra registrou posteriormente que Padre Amaro “seguiu de Campo Grande com mais dois irmãos e dois parentes para o Paraguay”, acrescentando que os cinco fizeram a campanha como Voluntários da Pátria e regressaram como oficiais. A documentação memorialística relativa ao grupo identifica os quatro parentes que acompanharam Amaro e preserva inclusive os nomes pelos quais alguns deles ficaram conhecidos na tradição local: Capitão Manuelzinho, Alferes Toinho, Tenente Zumba e Major Cornélio. Não é necessário, contudo, aprofundar aqui as biografias desses homens, pois cada uma delas constitui uma história própria. O que interessa, neste estudo, é perceber que Amaro partiu inserido em uma circunstância familiar muito específica. Ele não era um sacerdote que, isoladamente, decidiu conhecer a guerra; estava inserido em um grupo de irmãos e parentes que se dirigia para o conflito e no qual ele desempenharia uma função inteiramente diferente.

A própria composição desse grupo suscita uma questão que considero particularmente significativa como pesquisador e parente desses cinco homens: seria possível que a decisão de Amaro tivesse também uma motivação familiar, além das razões patrióticas e religiosas que naturalmente podem ser associadas à sua escolha? Não existe, nas fontes reunidas, uma declaração do próprio sacerdote que permita afirmar isso como fato, e seria metodologicamente incorreto apresentar uma hipótese como se fosse uma informação documental. Entretanto, não me parece descabido considerar que a presença de três irmãos e de um primo entre os homens destinados à guerra possa ter pesado em sua decisão. Um sacerdote que acompanhasse aqueles parentes poderia exercer uma função que nenhum outro membro do grupo desempenharia da mesma maneira: prestar-lhes assistência religiosa, acompanhá-los nos momentos de enfermidade e perigo e, se necessário, administrar os sacramentos aos que estivessem feridos ou próximos da morte.

Não consigo deixar de considerar essa possibilidade, ainda que a trate apenas como hipótese. A guerra envolvia uma possibilidade concreta de morte, e Amaro, por sua formação e por sua função sacerdotal, certamente conhecia o significado espiritual que poderia assumir sua presença junto aos soldados. Não sabemos se ele pensou especificamente nos irmãos e no primo quando decidiu partir, mas a circunstância familiar torna essa interpretação plausível e confere à sua partida uma dimensão humana que as fontes militares, naturalmente mais preocupadas com postos, datas e operações, não conseguem registrar.

A formação religiosa de Amaro ajuda a compreender ainda melhor o contraste existente entre sua vida anterior e a experiência que decidiu enfrentar. Estudou no Seminário de Olinda e foi ordenado sacerdote em 16 de junho de 1862, três anos antes de partir para a guerra. Segundo Monsenhor Severino Bezerra, em Os Levitas do Senhor, quando começou o conflito Amaro tinha 27 anos e decidiu alistar-se para seguir ao campo de batalha juntamente com seus irmãos Manoel Martins Correia e Castro, Antônio Martins Correia e José Lucas Barbosa. O mesmo autor informa que o sacerdote saiu de Natal em 9 de junho de 1865 e somente retornou ao Brasil em maio de 1870. Durante esse período, sua vida esteve ligada ao Exército e às condições extremamente difíceis da campanha. O fato de ser capelão não significa que estivesse distante dos acontecimentos militares. O capelão acompanhava as tropas, prestava assistência religiosa aos soldados e podia estar próximo das áreas onde os combates ocorriam. No caso de Amaro, a documentação demonstra que sua participação foi efetiva. Adauto Miranda Raposo da Câmara, em O Rio Grande do Norte na Guerra do Paraguai, identifica-o como capelão-alferes da 1ª Companhia do Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande do Norte. Essa informação é particularmente importante porque coloca o sacerdote dentro da estrutura militar do contingente potiguar e confirma que sua presença na campanha não pertence apenas à tradição familiar ou à memória construída posteriormente.

Um dos episódios mais expressivos de sua trajetória ocorreu no combate de Potrero-Oveja, em 28 de outubro de 1867. A Ordem do Dia nº 152, expedida no Quartel-General em Tuiuti em 9 de novembro daquele ano, registra expressamente a presença de “o Sr. Capellão Alferes padre Amaro Theot Castor Brasil”. Trata-se de uma fonte contemporânea aos acontecimentos, produzida no contexto do próprio comando militar brasileiro, e por isso possui importância especial para a reconstrução de sua biografia. Monsenhor Severino Bezerra informa que o Marechal Marquês de Caxias citou Amaro na Ordem do Dia de 9 de novembro de 1867, elogiando seu comportamento durante o combate. A presença do nome do sacerdote nesse documento permite perceber que sua atuação não ficou restrita à rotina religiosa dos acampamentos. Ele estava inserido em uma campanha militar e teve seu comportamento reconhecido pelo comando. O próprio perfil traçado por Severino Bezerra reforça essa impressão, pois o autor descreve Amaro como inteligente, generoso, compreensivo e grande pregador sacro, mas também como homem de temperamento forte, valente e destemido. Registra ainda que era excelente cavaleiro e grande atirador com diferentes armas. Esse retrato é importante porque afasta duas interpretações igualmente simplificadoras: a de que Amaro teria sido apenas um padre que acompanhou os soldados sem participar efetivamente da realidade da guerra e, no extremo oposto, a de que teria deixado de ser sacerdote para transformar-se simplesmente em militar. Sua trajetória foi justamente marcada pela coexistência dessas duas dimensões.

A participação de Padre Amaro na Guerra do Paraguai precisa, portanto, ser observada dentro da própria natureza do sacerdócio exercido em uma campanha militar. Em um conflito marcado por combates, doenças, mortes e longos deslocamentos, a presença de um capelão assumia uma importância que ultrapassava a celebração regular dos ofícios religiosos. O sacerdote podia ouvir confissões, celebrar missas, administrar sacramentos, acompanhar os feridos e oferecer conforto espiritual aos homens submetidos a circunstâncias extremas. Quando esse sacerdote tinha, entre os militares que acompanhava, três irmãos e um primo, a dimensão dessa missão se torna ainda mais significativa, embora não possamos afirmar documentalmente que esse tenha sido o motivo determinante de sua decisão. É precisamente nesse ponto que a figura de Amaro se distancia dos demais integrantes de sua família. Amaro foi como sacerdote integrado à organização militar. Essa condição permite imaginar que, além de cumprir aquilo que considerava seu dever para com a Pátria e com a Igreja, pudesse sentir uma responsabilidade particular para com aqueles que partiam de sua própria casa e de sua própria comunidade. Como pesquisador e parente, considero difícil olhar para essa circunstância sem formular essa pergunta. Afinal, se seus irmãos e seu primo fossem feridos, quem estaria preparado para lhes prestar a assistência espiritual que um sacerdote poderia oferecer? Se um deles estivesse morrendo, quem poderia administrar-lhe os últimos sacramentos? Não há resposta documental para essas perguntas, mas elas ajudam a compreender a dimensão humana da decisão de Amaro sem que seja necessário transformá-la em certeza histórica.

Nova Friburgo, Rio de Janeiro, primeira paróquia onde o padre Amaro atual após retornar da Guerra do Paraguai.

O retorno ao Brasil, em maio de 1870, não significou o encerramento da história militar de Amaro nem, muito menos, o fim de sua vida sacerdotal. Ao contrário, terminada a guerra, ele retomou o exercício do ministério religioso e construiu uma longa trajetória pastoral. As informações sobre sua passagem por Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, entretanto, merecem uma precisão maior do que aquela apresentada anteriormente. 

Jornal A SEMANA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, ano 5, n. 246, p. 1, 7 set. 1879. Acervo: Hemeroteca Digital

A documentação localizada registra que, em 1879, Padre Amaro foi provido vigário encomendado da freguesia de São João Batista de Nova Friburgo, e uma nova provisão, em 1881, confirma sua permanência nessa função. A sede dessa freguesia era a Igreja Matriz de São João Batista, templo inaugurado em 8 de dezembro de 1869 e que corresponde à atual Catedral de São João Batista de Nova Friburgo, Rio de Janeiro. Uma fotografia histórica de 1870, pertencente ao acervo da Catedral, permite visualizar o templo poucos meses após sua inauguração, oferecendo uma imagem particularmente significativa da igreja que fazia parte da paisagem religiosa de Nova Friburgo no período em que Padre Amaro exerceu ali seu ministério.

Igreja Matriz de São João Batista, em Nova Friburgo. Foi nesta igreja, então sede da Paróquia de São João Batista, que Padre Amaro Theot Castor Brasil exerceu seu ministério como vigário de Nova Friburgo. A imagem permite visualizar o templo que fazia parte da paisagem religiosa da cidade durante sua passagem pelo município (Acervo: Catedral de Nova Friburgo, RJ)

Essa documentação precisa ser considerada ao lado da informação de Monsenhor Severino Bezerra, que situa Padre Amaro como vigário de Nova Friburgo em 1874. Há, portanto, uma pequena questão cronológica ainda a ser esclarecida pelas fontes primárias: não sabemos, com segurança, se houve uma primeira passagem pela cidade em 1874 e posterior retorno, ou se as fontes estão registrando períodos distintos de uma mesma atuação. O que já pode ser afirmado com segurança, porém, é sua ligação com a Paróquia de São João Batista de Nova Friburgo, comprovada documentalmente em 1879 e 1881. 

Jornal O Apóstolo, Rio de Janeiro, ano 16, n. 100, p. 3, 4 set. 1881. Acervo: Hemeroteca Digital

Há ainda outro dado significativo: a história da Euterpe Friburguense registra que, em 13 de junho de 1884, foi inaugurada a Capela de Santo Antônio, em Nova Friburgo, “sendo Vigário da Paróquia o Padre Amaro Theot Castor Brasil”. Esse conjunto de informações reforça a importância de Nova Friburgo em sua trajetória sacerdotal e permite identificar com maior precisão o espaço religioso em que exerceu seu ministério.

OBS. A aparente contradição cronológica sobre a permanência do Padre Amaro em Nova Friburgo antes de 1879 encontra esclarecimento no acervo biográfico do Centro de Pesquisa e Documentação Cultural de Juizados Especiais e Legislação do Estado (CEPEJUL), vinculado à Fundação José Augusto (FJA). Os registros oficiais revelam que, imediatamente após o término da Guerra do Paraguai, o sacerdote não regressou ao Nordeste, assumindo o vicariato encomendado da Paróquia de São João Batista de Nova Friburgo já no ano de 1870, onde permaneceu fixo até 1874. Essa evidência documental concilia a cronologia com as notas de Monsenhor Severino Bezerra e demonstra que os provimentos subsequentes de 1879 e 1881, localizados na imprensa oitocentista fluminense, não assinalavam sua estreia na região, mas sim uma segunda provisão e o aguardado retorno de um pastor que já havia conquistado a estima daquela comunidade.

Ceará-Mirim

Em data ainda não precisamente esclarecida, ele retornou para o Rio Grande do Norte e se tornou coadjutor em Ceará-Mirim; posteriormente, exerceu o vicariato de Caicó entre 1885 e 1894, esteve ligado à freguesia de Triunfo em 1895 e também atuou em Jucurutu. Sua passagem por Caicó foi suficientemente prolongada para que seu nome permanecesse incorporado à história religiosa daquela comunidade. A continuidade de sua vida sacerdotal depois da guerra é fundamental para compreender sua biografia, porque demonstra que o conflito foi um capítulo extraordinário, mas não uma ruptura definitiva com sua vocação. O homem que havia acompanhado soldados no Paraguai voltou a desempenhar funções pastorais e continuou sendo reconhecido principalmente como sacerdote. Essa permanência da identidade religiosa é uma das características mais interessantes de sua trajetória e mostra que a experiência militar foi incorporada à sua vida, e não utilizada para substituí-la.

Caicó

A personalidade de Amaro também emerge de maneira muito particular nos relatos de Monsenhor Severino Bezerra. O autor não o apresenta como uma figura idealizada, mas como um homem dotado de qualidades e defeitos, generoso e compreensivo, mas também franco, impetuoso e, por vezes, excessivamente direto. Uma pequena história preservada por Severino Bezerra ilustra esse aspecto. Em determinada ocasião, o padre João Alípio da Cunha teria cobrado de Amaro os emolumentos relativos a batizados realizados em sua paróquia, e o sacerdote respondeu por escrito com palavras de extrema franqueza, iniciando a correspondência desta forma: “Ao padre João Alípio da Cunha, vigário de Macaíba por infelicidade do povo e imprevidência do Bispo.” A passagem ajuda a compreender o temperamento atribuído a Amaro e demonstra que a mesma personalidade vigorosa que aparece associada à sua coragem na guerra também se manifestava em sua vida cotidiana. Severino Bezerra registra ainda que o sacerdote recebeu do Imperador D. Pedro II a condecoração da Ordem de Cristo, da Ordem da Rosa e a Medalha de Mérito Militar da Campanha do Paraguai, reconhecimento que demonstra a importância atribuída à sua atuação. Assim, a memória de Amaro reúne duas dimensões aparentemente distintas, mas que nele coexistiram: a do sacerdote dedicado à pregação e ao ministério e a do homem que havia demonstrado coragem e habilidade no ambiente militar.

A ligação de Amaro com sua terra e com a religiosidade familiar também aparece depois da guerra. Segundo o material reunido, sua mãe, Joana Batista Martins da Silva, teria feito uma promessa de que, se seus quatro filhos regressassem vivos da Guerra do Paraguai, seria construída uma capela em agradecimento. A tradição familiar, portanto, conservou a guerra não apenas como um episódio militar, mas como uma experiência vivida com apreensão no interior da própria família. Todos os homens regressaram vivos, e essa circunstância teria sido associada à promessa religiosa feita pela mãe. Mais tarde, o próprio Amaro participou diretamente de outra iniciativa religiosa relacionada à região de sua família. Sua tia Raulina, descrita como muito devota do Espírito Santo, teria incentivado a doação de terras para o patrimônio do padroeiro. Em 1898, Amaro escreveu de próprio punho um documento doando terras e incentivando que nelas fosse construída uma capela dedicada ao Divino Espírito Santo. Ele não chegou a acompanhar a construção, pois posteriormente foi transferido para a Amazônia, mas deixou uma imagem de madeira representando o Divino Espírito Santo. Anos depois, em 1912, Luiz Gondim celebrou a primeira capela em honra do padroeiro. Esses episódios são importantes porque revelam que a religiosidade de Amaro não ficou restrita ao exercício formal de suas funções paroquiais; ele também participou de iniciativas ligadas à formação religiosa e comunitária da região de origem de sua família.

Maués, Manaus.

No início do século XX, Amaro deixou o Rio Grande do Norte e seguiu para o Amazonas. A narrativa de Severino Bezerra informa que, em 1901, ele foi transferido para o Amazonas, assumindo a paróquia de Maués. Sua vida, que havia começado no interior do Rio Grande do Norte e passado pelo Seminário de Olinda, pelas paróquias nordestinas e pelos campos de batalha do Paraguai, terminaria muito longe de sua terra natal. Padre Amaro morreu em Manaus em 22 de agosto de 1906, aos 68 anos segundo a fonte, depois de 44 anos de sacerdócio. O jornal Voz Potiguar, de Currais Novos, em 2 de setembro de 1906, registrou sua morte e o chamou de “nosso coestaduano”, lembrando que havia sido vigário de Caicó. Mesmo distante, portanto, continuava sendo lembrado como sacerdote potiguar. Sua morte encerrou uma vida que havia atravessado diferentes espaços geográficos e históricos, mas deixou uma trajetória particularmente rica para quem procura compreender as relações entre religiosidade, família e participação militar no Rio Grande do Norte do século XIX.

Ao reconstruir a vida de Padre Amaro Theot Castor Brasil, torna-se possível perceber que sua participação na Guerra do Paraguai não deve ser tratada como uma simples curiosidade biográfica. Ele não foi apenas um padre que, excepcionalmente, esteve em uma guerra. Foi um sacerdote formado em uma das principais instituições religiosas do Nordeste, ordenado poucos anos antes do início do conflito, que se apresentou voluntariamente para acompanhar o Exército brasileiro e que permaneceu na campanha durante aproximadamente cinco anos. Foi capelão-alferes do Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande do Norte, esteve no combate de Potrero-Oveja, teve seu comportamento mencionado pelo comando de Caxias e recebeu posteriormente distinções militares. Ao mesmo tempo, permaneceu ligado à sua família, partiu acompanhado de três irmãos e de um primo e, terminada a guerra, retomou sua atividade religiosa, exercendo funções em diferentes paróquias e comunidades. A documentação disponível permite afirmar tudo isso com segurança. O que permanece no campo da interpretação é a razão íntima que o levou a partir, e é justamente aí que a condição familiar ganha interesse especial.

Particularmente, considero impossível não olhar para a decisão de Amaro também sob o ponto de vista da família. É provável que o patriotismo tenha sido suficiente para explicar sua escolha; é provável que sua vocação religiosa o tenha levado a compreender a guerra como uma oportunidade de prestar assistência espiritual aos soldados; e também é provável que a presença de seus três irmãos e de seu primo tenha exercido alguma influência sobre sua decisão. Essas hipóteses não são excludentes. Um homem pode ter sentido simultaneamente o dever para com a Pátria, a responsabilidade própria de sua condição sacerdotal e o desejo de acompanhar pessoas de sua própria família. O que torna a história de Amaro tão instigante é justamente o fato de que as fontes documentam sua decisão e suas ações, mas não registram claramente o conteúdo de seus pensamentos quando deixou Natal em junho de 1865. Sabemos que partiu; sabemos que foi capelão; sabemos que esteve próximo dos combates; sabemos que foi reconhecido por Caxias; sabemos que voltou vivo com os irmãos e o primo. O que não sabemos é o que se passou dentro dele quando tomou aquela decisão. É nesse espaço deixado pelas fontes que a pesquisa histórica pode formular perguntas, desde que preserve a diferença entre hipótese e evidência.

A trajetória de Padre Amaro é, por isso, especialmente significativa para a história do Rio Grande do Norte. Ela aproxima dois universos que raramente aparecem reunidos em uma mesma biografia: a história religiosa e a história militar. Sua vida começou no ambiente de uma família estabelecida em Campo Grande, passou pela formação sacerdotal em Olinda, atravessou a experiência da Guerra do Paraguai e voltou posteriormente às paróquias e comunidades religiosas. Ao lado dele estavam três irmãos e um primo, circunstância que dá à sua partida uma dimensão familiar particular. O registro de Philippe Guerra preservou o episódio; Adauto Câmara situou-o na estrutura militar; Severino Bezerra reconstruiu sua personalidade e sua vida sacerdotal; Yapery Tupiassu de Brito Guerra manteve seu nome na memória dos homens de Campo Grande; e a documentação militar de 1867 confirmou sua presença durante a campanha. São diferentes testemunhos de uma mesma trajetória, e sua leitura conjunta permite recuperar um personagem que durante muito tempo poderia permanecer reduzido a uma simples nota entre os potiguares que foram ao Paraguai.

No final, talvez a melhor maneira de compreender Padre Amaro seja reconhecê-lo em toda a complexidade que as fontes permitem reconstruir. Ele foi sacerdote antes da guerra, capelão durante a campanha e sacerdote novamente depois dela; pertenceu a uma família que enviou cinco homens ao conflito e esteve entre eles como o único que levava consigo uma missão religiosa; participou de uma campanha militar sem abandonar a identidade sacerdotal que havia construído no Seminário de Olinda; enfrentou as dificuldades da guerra, esteve em Potrero-Oveja e recebeu reconhecimento por sua atuação; retornou ao Brasil e dedicou ainda muitos anos ao ministério religioso.

Para mim, como parente, permanece particularmente significativa a circunstância de que Padre Amaro tenha decidido acompanhar seus irmãos e seu primo. Não posso afirmar que tenha partido pensando especificamente em protegê-los espiritualmente, nem que essa tenha sido a principal razão de sua decisão, porque as fontes não dizem isso. Posso, contudo, reconhecer que essa possibilidade oferece uma chave humana para compreender um gesto que, à primeira vista, parece estranho: um homem que havia escolhido a vida sacerdotal deixando sua atividade paroquial para enfrentar uma guerra distante e brutal. Talvez tenha ido por patriotismo, talvez por vocação, talvez pela família, ou talvez por uma combinação dessas razões. O certo é que partiu, permaneceu anos na campanha e voltou para continuar sendo padre. É justamente essa combinação entre fé, família e guerra que faz de Padre Amaro Theot Castor Brasil uma figura singular da história potiguar do século XIX. 

REFERENCIAS

A SEMANA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, ano 5, n. 246, p. 1, 7 set. 1879.

BEZERRA, Severino. Os Levitas do Senhor. Natal: Fundação José Augusto, 1985.

CÂMARA, Adauto Miranda Raposo da. O Rio Grande do Norte na Guerra do Paraguai. Natal: Tipografia Galhardo, 1951.

EXPEDIENTE DO BISPADO. O Apóstolo, Rio de Janeiro, ano 16, n. 100, p. 3, 4 set. 1881.

GUERRA, Philippe. História Militar do Rio Grande do Norte. Natal, 1920.

GUERRA, Yapery Tupiassu de Brito. Obra de caráter histórico-memorialístico sobre os norte-rio-grandenses participantes da Guerra do Paraguai.

BRASIL. Exército Brasileiro. Ordem do Dia nº 152. Quartel-General em Tuiuti, 9 nov. 1867.

HISTÓRIA. Sociedade Musical Beneficente Euterpe Friburguense, Nova Friburgo. Disponível em: https://fassis.wixsite.com/euterpe/historia. Acesso em: 4 set. 2026. 

VOZ POTIGUAR. Currais Novos, 2 set. 1906. Nota sobre o falecimento do Padre Amaro Theot Castor Brasil

NOTAS COMPLEMENTARES



https://fassis.wixsite.com/euterpe/historia.


domingo, 30 de agosto de 2026

O CASAMENTO DO MEU TIO-BISAVÔ, ALFERES JOSÉ THOMAZ DE MAGALHÃES FONTOURA E DONA AMÉLIA MARTINS PEREIRA EM 1893...


O CASAMENTO QUE DESATOU UM NÓ GENEALÓGICO.

Entre os documentos que me ajudaram a reconstruir a história da família, alguns têm um valor especial, como esse, cuja transcrição paleográfica se fiz há pouco mais de um mês. Afirmo isso porque um material desse porte permite esclarecer relações que, à primeira vista, poderiam passar despercebidas e revelam inúmeras informações preciosas, como veremos. Nesse caso, analiso a certidão de casamento, registrada no Rio de Janeiro em 30 de julho de 1893. O documento registra o casamento do meu tio-bisavô Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura, então com 38 anos de idade, natural do Estado do Rio Grande do Norte, militar e residente no Rio de Janeiro. O registro declara expressamente que ele era “filho legítimo de José Thomaz de Magalhães Fontoura e Maria Joconda Belmiro”, meus trisavós.

A informação é preciosa porque, à primeira vista, o nome do noivo poderia levar a uma identificação equivocada. O José Thomaz de Magalhães Fontoura (1868–1945), que aparece neste assento de 1893, não é o mesmo José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913). O que ocorre, nesse caso, é um filho que tem o mesmo nome do pai. Ambos são José Thomaz de Magalhães Fontoura.

José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913) era casado com Maria Jucunda Belmiro (1835–...), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo, mãe de Nísia Floresta. Entre os filhos desse casal estava Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950), minha bisavó, que se casou com Abel Gomes Peixoto. Dessa união nasceu José Gomes Peixoto (1889–1958), que, por sua vez, foi pai de minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932).

Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura e Maria Jucunda Belmiro, meus trisavós, são pais de:

· Maria Clara de Magalhães Fontoura (minha bisavó)

· Josefa Cecilia Fontoura Peixoto

· João Romão de Magalhães Fontoura

· José Thomaz de Magalhães Fontoura

· Romualdo Fontoura Pereira

· Claudina Alexandrina Fontoura Castro

· João Gualberto Fontoura

· Maria Senhorinha Fontoura

· Atanásio de Magalhães Fontoura

· Ana Amélia Fontoura Cordeiro

· Francisco Thomaz de Magalhães Fontoura

· Candido de Magalhaes Fontoura

José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913) e Maria Jucunda Belmiro tiveram, segundo o levantamento genealógico familiar, doze filhos, entre eles, minha bisavó Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura e meu tio-avô Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura, que se casou no Rio de Janeiro, em 1893. É justamente aí que está o significado genealógico da certidão de casamento que veremos abaixo. Maria Clara e José Thomaz eram irmãos e, portanto, ambos trinetos de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo, mãe de Nísia Floresta. Como Maria Clara integra a linha direta da minha ascendência, José Thomaz era meu tio-bisavô. Na direção inversa, eu, Luís Carlos Freire, sou sobrinho-bisneto de José Thomaz de Magalhães Fontoura e tetraneto de Francisca Clara Freire do Revoredo.

A certidão de 1893 vem, assim, acrescentar uma importante evidência documental à reconstrução familiar, contribuindo especialmente para distinguir os dois José Thomaz de Magalhães Fontoura, pai e filho, que viveram em gerações sucessivas e receberam o mesmo nome. O documento também chama atenção por identificar o noivo como “Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura”, isto é, por registrar sua condição militar. Esse detalhe é particularmente significativo, pois permite confrontar a informação com outros registros históricos e ajuda a individualizar o personagem dentro de uma família na qual o nome José Thomaz de Magalhães Fontoura se repete entre gerações. Assim, esta certidão de casamento, além de registrar a união de José Thomaz de Magalhães Fontoura e Amélia Martins Pereira, realizada no Rio de Janeiro em 30 de julho de 1893, revela uma informação genealógica de grande importância: o noivo era filho de José Thomaz de Magalhães Fontoura e Maria Jucunda Belmiro e, consequentemente, irmão de Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto.

Cabem neste texto três importantes informações – duas delas localizadas na própria certidão de casamento – outra que integra as informações passadas de pais para filhos no seio da nossa família. Tais informações soam como curiosidade se analisadas aos olhos das leis atuais. Vejamos: o noivo, José Thomaz de Magalhães Fontoura, tinha 38 anos de idade, enquanto Amélia Martins Pereira tinha 16 anos. Havia uma diferença de 22 anos. Agora vejamos essa outra informação. Minha bisavó Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto – irmã de José Thomaz de Magalhães Fontoura – tinha 12 anos de idade quando se casou – em 1873 – com o meu bisavô José Abel Peixoto, tendo o mesmo 28 anos de idade, numa diferença de 16 anos. Em outras palavras: o irmão se casaria com uma adolescente e veria no futuro sua irmã – pré-adolescente – se casar com um homem também mais velho. Por mais que isso soe esquisito nos dias atuais e seja inadmissível – perante a lei – era muito comum naqueles tempos.

A outra informação diz respeito ao fato de José Thomaz de Magalhães Fontoura ter se casado no Rio de Janeiro, sendo do Rio Grande do Norte, mas convém aqui uma observação que também corre no seio dos próprios antepassados. Ele era trineto de Francisca Clara Freire do Revoredo e sabe-se que muitos da família migraram para o Rio de Janeiro, onde deixaram descendência. Julgo também necessário – já que citei o caso do casamento precoce de minha bisavó – aos 12 anos – Abel Gomes Peixoto, seu marido, foi oficialmente nomeado Alferes da Guarda Nacional em 16 de outubro de 1905, por decreto do Poder Executivo, cuja publicação ocorreu no Diário Oficial de 24 de outubro de 1905.

Mais do que um simples registro de casamento, portanto, esta certidão ajuda a resolver um problema recorrente nas pesquisas genealógicas. O primeiro fato é distinguir pessoas de gerações diferentes que têm o mesmo nome e que, se chegarem aos olhos de alguém que não tem muito conhecimento da genealogia da família, podem gerar muita confusão. Neste caso, o documento de 1893 nos permite separar o José Thomaz de Magalhães Fontoura pai de seu filho homônimo e, ao mesmo tempo, acrescentar mais uma peça à reconstrução da história da família. Outro detalhe bastante interessante se refere ao fato de pessoas que, em documentos diferentes, tiveram seus nomes escritos nas mais variadas formas e que, da mesma forma, se manipulados por quem desconhece a genealogia da família, podem gerar muitos equívocos. Cito, inclusive, o caso de Maria Jucunda Belmiro (minha trisavó), a qual já li em documentos e manuscritos da própria família como as seguintes versões: Maria Gioconda de Belmiro, Maria Gioconda Belmiro, Maria Joconda Belmiro Peixoto, Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, Maria Grillo e Maria Zulmira Fontoura. Observem a confusão... Mas isso era muito comum no passado. Hoje isso não mais ocorre.

Enfim, o estudo de certidões de casamento, óbito, nascimento, os inventários e demais documentos oficiais funcionam como solo que esconde tesouros necessitados de conhecimento genealógico, paleológico e, por que não, arqueológico...

Eis a certidão...

1170 - RIO DE JANEIRO - REGISTRO DE CASAMENTOS 1893 (TRANSCRIÇÃO PALEOGRÁFICA FEITA POR LUÍS CARLOS FREIRE)

Aos trinta dias do mês de julho de mil oitocentos e noventa e três nesta capital a  sala da Casa da Ladeira do Senado número nove, aonde foi vindo o doutor José Ovídio Marcondes , ahí pretor desta .............. Pretoria, chamado para auxiliar os trabalhos da Pretoria comigo escrivão de seu cargo ahi presentes às quatro horas da tarde os nubentes e as testemunhas abaixo assignados pelos devidos ...... Pretos foram feitas aos nubentes as perguntas na forma da lei aos quaes elles responderão satisfatoriamente, e para declarar todas as formalidades legaes foram realisadas em matrimonio Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura, natural do estado do Rio Grande do Norte, de trinta e oito annos de idade, militar, morador a na Casa acima, filho legitimo de José Thomaz de Magalhães Fontoura e Maria Joconda Belmiro, com a Dona Amelia Martins Pereira, natural desta capital, solteira, moradora na mesma Casa, de dezesseis annos de idade, filha legitima de Francisco Martins Pereira e Roza Herculana de Sarmento, sendo o nubente solteiro e o casamento pelo regime communhão e de tudo para constar lavrei o presente termo depois que o Juiz desta Pretoria ......................... Casados e depois de tudo assignão com o Juiz e as testemunhas Francisco Martins Pereira, natural de Portugal, casado, negociante, morador à rua Frei Caneca número cento e vinte e seis e assignão também as pessoas presentes ao Acto de Celebração do Casamento. Eu, Manoel Joaquim da Silva ......................

José Orélio Marcondes Romeiro

José Thomaz de Magalhães Fontoura

Amélia Martins Pereira

Francisco Martins Pereira

Gregorio Francisco Martins

Roza Emilia Martins

Cecilia Candida Ribeiro

 

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A BARRA DE ESTEVÃO RIBEIRO NOS TEMPOS DA VELHA PAPARY...


Senado Federal


Na antiga Papary, atual Nísia Floresta, existe uma povoação conhecida como Barra, ou Barra de Tabatinga. Entenda por "Barra" uma abertura ou passagem de água que comunica um rio, lagoa ou estuário com o mar, geralmente através da faixa arenosa do litoral. Em referências históricas, aparece também a denominação Barra de Estevão Ribeiro. A localidade está situada a pouco mais de três léguas a leste da antiga cidade. A origem desse nome sempre despertou curiosidade. Não há, na tradição local, nenhuma lembrança de que Estevão Ribeiro tenha sido o primeiro proprietário da região, fundador do povoado ou grande senhor de terras. Ao contrário. A memória dos antigos moradores guardou seu nome por uma razão muito diferente: uma história de violência, vingança e morte que atravessou gerações. Os velhos moradores, verdadeiros guardiões da memória oral, já não sabiam dizer quem havia sido a vítima, nem conheciam todos os detalhes do acontecimento. Mas havia uma certeza transmitida de geração em geração: Estevão Ribeiro teria sido o homem que matou, de maneira calculada, uma autoridade do Rio Grande do Norte.

Mas o que realmente teria acontecido?


Segundo a tradição, Estevão Ribeiro morava em Piripiri, na região que hoje pertence ao município de Macaíba. Certo dia, teria ido a Natal procurar o governador da Capitania para apresentar uma reclamação. Em vez de receber atenção, teria sido tratado com violência e desprezo. Humilhado, deixou a residência do Governo decidido a se vingar. A partir daquele momento, teria começado a preparar cuidadosamente o crime. Conta-se que, ao sair da casa do governador, Estevão Ribeiro caminhou em direção à Igreja Matriz de Natal, contando os passos. Chegou a cem. Depois, procurou uma espingarda capaz de atingir um alvo naquela distância com precisão. De posse da arma, voltou a Natal. À noite, escondeu-se entre o mato, diante da residência do governador, e ficou à espera. Quando a escuridão já havia tomado conta da cidade, o governador saiu de casa. Estevão Ribeiro então disparou. O homem foi atingido gravemente e morreu alguns dias depois. Imediatamente após o atentado, Estevão Ribeiro fugiu. Primeiro teria retornado a Piripiri e, posteriormente, seguido para Papary. Ali comprou uma propriedade que, com o passar do tempo, acabou associada ao seu nome. Segundo a tradição, nunca foi preso ou levado à Justiça. O governador era uma figura profundamente impopular e, por isso, sua morte teria contribuído para que Estevão Ribeiro não fosse incomodado pela Justiça. A própria arma do crime teria sobrevivido durante mais de cem anos. Passando de mão em mão, era guardada e mostrada discretamente como uma espécie de relíquia familiar.

 

Mas quanto dessa história seria realmente verdade? 

 

A pesquisa histórica permite identificar um acontecimento que parece estar na origem da lenda. A vítima teria sido Luiz Ferreira Freire, capitão-mor e governador da Capitania do Rio Grande do Norte. Na noite de 22 de fevereiro de 1722, um domingo, ele foi atingido por disparos. Gravemente ferido, morreu seis dias depois, em 28 de fevereiro. Ferreira Freire era uma autoridade de temperamento agressivo e havia criado muitos desafetos em Natal. Sua administração foi marcada por conflitos e pela crescente impopularidade. Por trás de sua morte, entretanto, parece existir uma história ainda mais complicada. Ele era casado, mas sua esposa permanecia em Lisboa. Em Natal, apaixonou-se por uma jovem, filha do tenente-coronel Mateus Rodrigues de Sá, homem de posses, proprietário de sítios, fazendas, casas e rebanhos. O relacionamento provocou o afastamento de boa parte da sociedade local. Ferreira Freire ficou praticamente sem pessoas dispostas a servi-lo. Em determinado momento, decidiu resolver o problema à força. Mandou buscar uma escravizada pertencente a Manuel de Melo de Albuquerque, vereador do Senado da Câmara de Natal. O vereador protestou junto ao Ouvidor Geral, que determinou que a mulher fosse devolvida ao seu legítimo proprietário. Ferreira Freire reagiu com violência e ameaçou qualquer oficial de Justiça que tentasse cumprir a ordem. O conflito aumentou. Uma nova determinação foi enviada do Recife para que a escravizada fosse apreendida e devolvida ao seu dono. A ordem foi cumprida, mas o governador não aceitou a decisão. Armado e acompanhado por soldados, Ferreira Freire cercou a residência do vereador, retomou a escravizada e ainda mandou prender o próprio Manuel de Melo de Albuquerque, que foi levado para a Fortaleza.



A atitude provocou forte reação do Senado da Câmara. O órgão protestou junto ao governador de Pernambuco, que determinou a libertação imediata do vereador, sem sequer consultar Ferreira Freire. Tudo isso aconteceu entre novembro e dezembro de 1721. No início de 1722, a situação envolvendo a jovem filha de Mateus Rodrigues de Sá tornou-se ainda mais grave. A família exigiu que Ferreira Freire assumisse uma posição definitiva. Ele havia negado que fosse casado e prometera reparar a situação, segundo os costumes da época. Quando Mateus Rodrigues de Sá foi cobrar-lhe uma solução, porém, recebeu uma resposta brutal. Ferreira Freire recusou-se a levar a jovem ao altar e expulsou o pai de sua presença de maneira humilhante. O episódio deixou a família profundamente ofendida. Há ainda um detalhe importante: Manuel de Melo de Albuquerque, o vereador que havia entrado em conflito com Ferreira Freire por causa da escravizada, era parente próximo dos Rodrigues de Sá. Assim, os conflitos que cercavam o governador acabaram se cruzando. Décadas mais tarde, o escritor Gonçalves Dias, durante suas pesquisas em documentos antigos do Rio Grande do Norte, registrou uma tradição relacionada a esse episódio. Segundo o relato que encontrou, o pai da jovem teria procurado o capitão-mor para reclamar das ofensas sofridas e pedir a restituição da filha. Teria sido novamente humilhado e ameaçado pelo governador.

 

Ao deixar o palácio, abatido pela injustiça, encontrou os filhos no caminho. Eles teriam testemunhado seu sofrimento e prometido vingança. Pouco tempo depois, Ferreira Freire foi assassinado. Gonçalves Dias acrescentou ainda uma informação particularmente curiosa: a arma utilizada no crime, segundo a tradição, teria permanecido durante muitos anos entre os membros daquela família que viviam em Piripiri. É nesse ponto que a história de Estevão Ribeiro se aproxima da memória registrada pelos moradores. A documentação histórica registra que o governador Luiz Ferreira Freire foi assassinado em 1722. A tradição oral, por sua vez, conservou a história de um homem chamado Estevão Ribeiro, que teria cometido o crime e depois desaparecido em direção a Papary. Não há, porém, prova documental suficiente para afirmar que Estevão Ribeiro tenha sido efetivamente o assassino de Ferreira Freire. Também não parece haver evidência de que ele fosse membro da família Rodrigues de Sá. Uma possibilidade, seguindo a interpretação de Luís da Câmara Cascudo, é que tenha sido um homem ligado àquela família por relações de trabalho, dependência ou confiança. Poderia ter sido um foreiro, agregado ou simplesmente alguém que gozasse da confiança dos Rodrigues de Sá e tivesse assumido a missão de vingar as humilhações sofridas.

 

Com o passar dos anos, a história ganhou novas camadas. O acontecimento real foi sendo transformado pela memória popular em narrativa. O nome da vítima desapareceu, os detalhes se modificaram e a figura de Estevão Ribeiro passou a ocupar o centro da história. Assim nasceu, ou pelo menos assim pode ter sobrevivido, a lenda de Estevão Ribeiro. Mais do que a história de um homem, ela é também a história de uma memória. Uma memória que atravessou séculos sem documentos, preservada pela palavra dos moradores, até que a pesquisa histórica encontrasse, nos antigos registros da Capitania, o acontecimento que talvez tenha dado origem à tradição. Entre a realidade documentada e aquilo que o povo contou durante gerações, permanece a figura de Estevão Ribeiro, associada às antigas referências à região de Barra. E, como acontece com tantas lendas antigas, talvez nunca saibamos exatamente onde termina a história e começa a imaginação popular. Mas é justamente nessa fronteira entre o fato e a memória que a lenda sobrevive.

 

UM ESCLARECIMENTO SOBRE A BARRA DE ESTEVÃO RIBEIRO

 

                                                                                                                        Senado Federal


É importante fazer aqui um esclarecimento, pois a antiga denominação Barra de Estevão Ribeiro pode facilmente causar confusão com a atual Barra de Tabatinga. Os nomes das localidades do litoral de Papary, atual Nísia Floresta, sofreram diversas alterações ao longo do tempo, e os documentos antigos nem sempre utilizavam a mesma nomenclatura que conhecemos hoje. A antiga Barra de Estevão Ribeiro corresponde à atual Barreta. Ao longo do tempo, aquele trecho do litoral recebeu outras denominações. Um documento cartográfico de 1847 é particularmente esclarecedor. Trata-se de uma planta intitulada “Barras de Estevão Ribeiro, hoje da Santa Cruz, Nova de Camoropim, Rio do mesmo nome e lagoa Papary”, levantada pelo capitão-tenente Felippe José Ferreira. O próprio título do documento demonstra que, em 1847, “Barras de Estevão Ribeiro” era uma denominação anterior, enquanto Santa Cruz e Nova de Camoropim apareciam como denominações então utilizadas. O documento também relaciona essas barras ao rio do mesmo nome e à lagoa Papary.

 

A confusão aumenta porque Estevão Ribeiro também aparece associado a outros pontos da região, especialmente nas referências antigas à área de Tabatinga. Isso, entretanto, não significa que Barra de Estevão Ribeiro e Barra de Tabatinga fossem necessariamente a mesma localidade. São denominações que precisam ser examinadas dentro do contexto de cada documento e de cada época. Assim, para compreender a lenda aqui narrada, é fundamental ter em mente que a Barra de Estevão Ribeiro mencionada nas fontes antigas deve ser relacionada à atual Barreta. A planta de 1847 é uma evidência particularmente importante dessa história dos nomes, pois registra uma denominação anterior - “Barras de Estevão Ribeiro” - e, ao mesmo tempo, as denominações então vigentes de Santa Cruz e Nova de Camoropim. A mudança dos nomes é um exemplo de como a paisagem histórica de Papary foi sendo renomeada ao longo dos séculos, deixando nos documentos diferentes vestígios de uma mesma localidade. É justamente essa variedade de denominações que, hoje, pode levar o pesquisador ou o leitor a confundir lugares que, em determinado período, possuíam nomes completamente diferentes dos atuais. E vale lembrar que outros lugares em Papary tiveram mudanças curiosas de nomes...