ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

domingo, 15 de março de 2026

O MEDALHÃO DE NÍSIA FLORESTA: MEMÓRIA, ARTE E HISTÓRIA DE UMA EFÍGIE BRASILEIRA...

Reprodução do livro História de Nísia Floresta, 1941, de Adauto da Câmara, ed. Pongetti, RJ

Entre os diversos objetos históricos associados à memória de Nísia Floresta Brasileira Augusta, poucos possuem valor simbólico tão expressivo quanto o chamado Medalhão de Nísia Floresta, também conhecido como Efígie de Nísia Floresta. Trata-se de uma peça artística em bronze que, ao longo do tempo, tornou-se um importante testemunho material da trajetória de uma das mais notáveis intelectuais brasileiras do século XIX. A história desse medalhão reúne episódios que atravessam continentes, monumentos públicos, desaparecimentos misteriosos e redescobertas inesperadas, compondo um capítulo singular da memória cultural do Rio Grande do Norte.

Medalhão que se encontra no IHGRN

A origem do medalhão remonta ao ano de 1851, quando foi produzido em Paris, cidade que desempenhou papel fundamental na vida intelectual de Nísia Floresta durante sua permanência na Europa. Ela era viva quando essa peça foi confeccionada. Naquele período, a escritora brasileira vivia entre centros culturais europeus, participando de círculos intelectuais e dedicando-se à produção literária e pedagógica. A efígie foi confeccionada em bronze e apresenta o retrato da autora em relevo, acompanhado de sua assinatura gravada, recurso que confere à peça não apenas valor artístico, mas também caráter documental.

Nísia Floresta Brasileira Augusta

A escolha da capital francesa para a confecção do medalhão revela muito sobre o ambiente cultural frequentado pela escritora. Durante sua longa permanência na Europa, Nísia Floresta manteve contato com correntes de pensamento que defendiam a educação feminina, o progresso social e a reforma moral da sociedade. A presença de sua imagem em um objeto artístico produzido naquele contexto reforça a projeção internacional que ela alcançou ainda em vida.


Décadas depois de sua morte, ocorrida em 1885, o medalhão passaria a desempenhar papel central em uma homenagem pública erguida na cidade de Natal. No dia 19 de março de 1911, foi inaugurado um monumento dedicado à escritora na Praça Augusto Severo, no antigo bairro da Ribeira, um dos espaços urbanos mais importantes da capital potiguar. A estrutura monumental consistia em uma estela de granito ornamentada com elementos decorativos em bronze. No centro da composição estava fixado o medalhão com o retrato da escritora, funcionando como núcleo simbólico da homenagem.


O monumento trazia ainda elementos iconográficos associados à tradição clássica das homenagens públicas, como uma palma em bronze e as datas de nascimento e morte da escritora. A obra representava não apenas uma homenagem individual, mas também um gesto cultural de reconhecimento à contribuição intelectual de Nísia Floresta para a história brasileira. A iniciativa de erguer o monumento esteve ligada ao ambiente cultural potiguar do início do século XX, período em que intelectuais locais procuravam valorizar figuras históricas do estado.


Entre os nomes envolvidos nesse movimento de valorização cultural estava o educador e intelectual Henrique Castriciano, que se destacou como um dos grandes promotores da memória de Nísia Floresta. A concepção artística do monumento contou com a participação do escultor francês Edmond Badoche e do artista paraense Corbiniano da Silva Villaça, responsáveis pela realização da peça escultórica e pela composição visual da efígie. Ambos sempre trabalharam em sintonia, inclusive são autores da escultura de José Izídio Martins, ícone da advocacia pernambucana, localizada nos jardins da Faculdade de Direito de Recife. Corbiniano também é autor da escultura de Pedro Velho, exposta em 1929 na Praça Cívica, centro de Natal.

O artista paraense Corbiniano Vilaça, pintado por Portinari. em 1929.

A presença de artistas estrangeiros e brasileiros no projeto demonstra o caráter cosmopolita da homenagem. Ao mesmo tempo em que o monumento celebrava uma escritora potiguar, ele dialogava com tradições artísticas europeias muito presentes nas esculturas públicas do início do século XX no Brasil.


Com o passar das décadas, entretanto, o monumento sofreu progressivo abandono e degradação. Como ocorreu com diversos elementos do patrimônio histórico brasileiro, a falta de manutenção e de políticas de preservação contribuiu para o desaparecimento gradual da estrutura original. Na madrugada do dia 25 de outubro de 1949, 38 anos após a sua inauguração, a estela de granito foi destruída, restando apenas o medalhão em bronze que havia sido fixado na parte central da obra.


A partir desse momento inicia-se um dos episódios mais curiosos da história do objeto. Durante anos o medalhão permaneceu desaparecido, e seu paradeiro tornou-se incerto. O fato gerou especulações e dúvidas sobre o destino da peça que outrora havia ocupado posição de destaque em um monumento público da cidade.

A história torna-se ainda mais intrigante quando surge um registro fotográfico datado de 1954, realizado no Rio de Janeiro, no qual aparece um medalhão idêntico ao da homenagem natalense. A fotografia foi produzida durante cerimônias relacionadas à chegada dos restos mortais de Nísia Floresta ao Brasil, evento que mobilizou instituições culturais e associações regionais na capital federal da época.


Nesse registro histórico, o medalhão aparece exposto sobre uma mesa durante solenidades realizadas no Centro Norte-Rio-Grandense. A presença da peça nesse contexto levanta uma questão que ainda desperta interesse entre pesquisadores: tratava-se do mesmo medalhão que havia sido instalado no monumento da Praça Augusto Severo ou existiria uma segunda efígie produzida para fins comemorativos?

A ausência de documentação definitiva sobre o assunto mantém aberta essa possibilidade histórica. A hipótese de duas peças semelhantes amplia o caráter enigmático da trajetória do objeto, transformando-o em tema recorrente entre estudiosos da memória de Nísia Floresta.

Após um longo período de desaparecimento, o medalhão foi encontrado de maneira inesperada em um ferro-velho. O episódio revela o grau de negligência que frequentemente atinge bens culturais quando não há mecanismos de proteção institucional adequados. Felizmente, a peça foi reconhecida e resgatada antes de sofrer danos irreversíveis.

Depois de recuperado, o medalhão foi encaminhado para o acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, instituição responsável pela preservação de documentos, objetos e registros relacionados à história potiguar. No instituto, durante a presidência do Dr. Ormuz Barbalho Simonetti - coincidentemente filho do deputado Arnaldo Barbalho Simonetti, autor da lei que mudou o nome de Papary para Nísia Floresta em 1948 - a peça passou por procedimentos de limpeza, foi polida, sendo posteriormente incorporada às coleções históricas da entidade. Vale registra que o IHGRN também possui um livro original escrito por Nísia Floresta: "Itinerário de Uma Viagem à Alemanha", de 1857. Vi essa obra em 1996, quando o dr. Enélio Petrovich me mostrou juto à funcionária Lúcia (Um verdadeiro tesouro).

Atualmente, o medalhão constitui uma das peças mais significativas do acervo dedicado à memória de Nísia Floresta. Sua preservação permite que visitantes e pesquisadores tenham contato direto com um objeto que atravessou diferentes momentos da história cultural brasileira. Mais do que uma simples peça artística, a efígie representa um símbolo da trajetória intelectual de uma mulher que se destacou como pioneira na defesa da educação feminina e na crítica às desigualdades sociais. Ao longo do século XIX, Nísia Floresta produziu obras que questionavam as estruturas sociais de seu tempo e defendiam a ampliação dos direitos das mulheres.

Seu livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens, publicado em 1832, tornou-se um marco na história das ideias no Brasil, sendo frequentemente considerado uma das primeiras manifestações do pensamento feminista no país. A presença de sua imagem em um medalhão comemorativo reforça o reconhecimento que sua obra passou a receber nas décadas posteriores à sua morte.

A história do medalhão também revela aspectos importantes da construção da memória pública. Monumentos, esculturas e efígies funcionam como instrumentos simbólicos por meio dos quais sociedades homenageiam personagens considerados representativos de determinados valores culturais e históricos.

Nesse sentido, o medalhão de Nísia Floresta constitui um elo entre diferentes gerações. Produzido no século XIX, incorporado a um monumento no início do século XX, perdido e reencontrado décadas depois, ele continua a representar a permanência do legado intelectual da escritora.

A trajetória dessa peça demonstra que a memória histórica não é estática. Ela depende de ações contínuas de preservação, pesquisa e divulgação. A recuperação do medalhão e sua guarda em instituição cultural garantem que esse testemunho material continue a integrar o patrimônio histórico do Rio Grande do Norte.

Há três anos, um norte-rio-grandense de Currais Novos, cujo nome não me recordo no momento, publicou um vídeo no Tik Tok exibindo um medalhão idêntico ao que foi instalado em 1911 na Praça Augusto Severo. A peça também era datada de 1851, assinada pelo escultor francês e também trazia a assinatura de Nísia Floresta. Ele alegou ter encontrado num antiquário no Rio de Janeiro. TENHO CERTEZA ABSOLUTA QUE ESSA PEÇA FOI ROUBADA DO CENTRO NORTE-RIO-GRANDENSE que tem uma sede no Rio de Janeiro. Foi o mesmo caso do ferro velho. A diferença é que o medalhão foi parar num antiquário. Imediatamente entrei em contato com a pessoa e expus a história da peça, propondo que ele a entregasse ao município de Nísia Floresta ou ao IHGRN, mas ele nunca me respondeu. A única certeza que tenho é que no Rio Grande do Norte existem duas peças dessa, ambas originais.

Assim, a efígie de Nísia Floresta - em meio a esse torvelinho histórico - permanece como um símbolo duradouro de reconhecimento à importância de uma mulher que dedicou sua vida à educação, à literatura e à defesa da justiça social. Mais do que um objeto artístico, o medalhão representa a materialização de uma memória que atravessa o tempo e reafirma o lugar de Nísia Floresta entre as grandes figuras da história intelectual brasileira.

Referências

Blog Nísia Floresta por Luís Carlos Freire – diversos textos e pesquisas sobre o medalhão e a memória histórica da escritora.

FREIRE, Luís Carlos. Estudos e artigos sobre a iconografia e a memória cultural de Nísia Floresta.

Acervo e registros do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Registros históricos sobre o monumento de Nísia Floresta inaugurado em 1911 na Praça Augusto Severo, Natal.

Documentação histórica referente às homenagens realizadas em 1954 durante a chegada dos restos mortais de Nísia Floresta ao Brasil.

sábado, 14 de março de 2026

O BAOBÁ DE NÍSIA FLORESTA E UM LOGRADOURO EM TRANSFORMAÇÃO...


Um aparte...

As fotografias acima e abaixo são as mesmas. A diferença é que a de cima recebeu uma limpeza através de recursos de inteligência artificial. Observe que a de baixo traz um reflexo sobre o baobá e manchas do tempo. Acho interessante - como curiosidade - os recursos da IA aplicados à fotografia histórica. Eles permitem recuperar detalhes que o desgaste do papel, da luz e da umidade foram apagando ao longo das décadas. Entretanto, confesso que, no que se refere à colorização, minha posição é mais cautelosa.

Por mais que algumas imagens colorizadas fiquem até palatáveis aos olhos contemporâneos, elas não são exatamente as mesmas fotografias. Acho-as amanteigadas. Estranhas. A que foi melhorada digitalmente não é verdadeira no sentido histórico pleno, pois não há como provar que as cores aplicadas correspondem fielmente às cores que existiam naquele instante do passado. Se fosse possível garantir que a colorização reproduzisse ipsis litteris as cores originais, talvez a aceitação fosse maior. No entanto, muitos dispositivos de inteligência artificial acabam modificando diversos pontos da imagem, acrescentando tonalidades, texturas e contrastes que jamais existiram. Trata-se, portanto, de uma interpretação tecnológica da imagem, não do documento em si.

Nesse sentido, a intervenção pode ser vista como uma espécie de tradução visual do passado, útil, interessante, mas inevitavelmente subjetiva. Ao alterar elementos da fotografia, mesmo que de forma sutil, corre-se o risco de produzir uma narrativa estética que interfere na autenticidade histórica do registro. Por essa razão, optei apenas pela limpeza da imagem, preservando sua natureza documental. Ao final, postei também a versão colorizada por IA, mas confesso que prefiro a fotografia em preto e branco. Observe, por exemplo, que as folhagens do baobá aparecem com a mesma tonalidade do gramado e das demais vegetações, uma uniformidade cromática improvável na natureza, revelando uma falsidade impressionante.

O preto e branco, nesse caso, preserva algo que vai além da estética: preserva o silêncio do tempo, permitindo que a fotografia permaneça como testemunha e não como reinterpretação.


Mas vamos ao que interessa...

Fotografia antiga é um documento precioso que, nas mãos de pessoas atenciosas - que cruzam informações prévias, sejam obtidas oralmente, pela tradição local, ou em livros e registros escritos - pode revelar dados importantes no futuro. Muitas vezes, um detalhe aparentemente banal se transforma em pista para compreender a evolução urbana, social ou cultural de uma cidade.

Nesta fotografia, por exemplo - registrada nos anos 80, portanto há quase cinquenta anos - encontramos diversas informações interessantes. Tomando o homem como parâmetro de escala, constatamos que o diâmetro do baobá, circundado por uma mureta de alvenaria, já era bastante volumoso e não muito diferente do que se observa hoje, em pleno ano de 2026. Isso nos leva a refletir sobre a longevidade dessa árvore extraordinária. Enquanto gerações humanas se sucedem rapidamente, o baobá permanece quase imperturbável, atravessando décadas como um marco vivo da paisagem urbana. E que ele não se avolumou muito, comparado ao tempo em que foi plantado.

O registro também deixa visível o prédio da prefeitura municipal, diante do qual uma mulher caminha em direção ao baobá. Atrás do edifício não se vê qualquer construção, o que indica um momento anterior à expansão urbana que viria nas décadas seguintes. O homem ao lado da árvore, a julgar pela roupa, parece ser um visitante que contempla a exótica espécie. A mulher, aparentemente bem vestida, talvez o acompanhe. São pequenos gestos congelados na fotografia que hoje nos convidam a imaginar histórias que o registro não revela completamente.

No extremo esquerdo observa-se uma residência murada, separada por uma rua que faz divisa com os muros da antiga Casa das Freiras, por onde passam duas meninas aparentemente uniformizadas com vestimenta escolar. A presença delas sugere a rotina cotidiana da cidade: escola, deslocamentos a pé, vida comunitária em escala humana, algo muito característico das cidades interioranas daquele período.

Também se vê um terreno baldio no formato de um triângulo escaleno, ainda sem qualquer construção. Ao lado, há uma calçada muito alta pertencente a um prédio público que não aparece integralmente na fotografia. Esses vazios urbanos são particularmente reveladores: muitas vezes, eles indicam áreas que posteriormente seriam ocupadas por edificações ou transformadas pelo crescimento da cidade.

Outro detalhe importante é a presença dos postes para fios de alta tensão, indicando que a infraestrutura elétrica já estava consolidada naquele momento. O baobá aparece carregado de frutos, o que também pode sugerir a época do ano em que a fotografia foi feita. As ruas já estavam calçadas com paralelepípedos, o que revela que o registro foi feito durante a administração do prefeito George Ney Ferreira, gestor que iniciou o calçamento da cidade , uma obra que marcou profundamente a modernização urbana local. Esse tipo de detalhe, aparentemente simples, ajuda a situar a fotografia dentro de um contexto administrativo e histórico mais amplo.

Constatamos ainda que não havia sido construído o setor de comércio logo após o baobá, como vemos hoje. Esse elemento praticamente nos ajuda a estabelecer uma data aproximada para o registro. À esquerda do homem observamos um gramado dividido por meio-fio. Ali estava a praça da cidade, que se estendia até o baobá, ainda de forma modesta. Não sei afirmar com certeza se naquele momento ela já se chamava Praça Coronel José de Araújo, mas registro a dúvida para eventual complementação futura.

Posteriormente, ainda durante a administração do prefeito George Ney Ferreira, essa praça foi cortada ao meio: construiu-se a rodoviária na parte superior e transformou-se o espaço inferior, que antes pertencia à praça, em uma rua ampla para veículos. Essa transformação urbana mostra como as cidades se reorganizam ao longo do tempo, muitas vezes sacrificando espaços de convivência para atender às demandas da mobilidade e do crescimento.

A fotografia seguinte é da mesma década e praticamente da mesma época, servindo como parâmetro para compreendermos melhor a cidade. Provavelmente há entre elas uma diferença de apenas um ou dois anos.

O que muda é o ângulo, que permite observar os casarios típicos das décadas de 1920, 1930 e 1940, construções que, além de abrigar famílias e histórias, compunham a identidade arquitetônica da cidade. A rua já se encontra calçada e nota-se o plantio recente de árvores, possivelmente parte de um projeto de arborização urbana.

O gramado aparece ressequido, indicando que a fotografia foi feita durante o verão. O baobá, no entanto, praticamente não difere em tamanho. Esse fato reforça a ideia de que estamos diante de um ser vivo cuja escala temporal é muito diferente da humana. Quatro pessoas aparecem registradas na cena. Assim como na primeira imagem, são presenças discretas, quase anônimas, mas que acabam conferindo vida à fotografia. Afinal, toda cidade é feita não apenas de ruas, prédios e árvores, mas principalmente das pessoas que a habitam e transitam por seus espaços.

Por fim, vemos um close da placa de bronze maciço, onde se lê:

“Essa árvore de nome Baobá foi plantada em 1877 pelo Snr. Manoel de Moura Júnior.

Nísia Floresta, 10-02-1949.

Gisaldo Cabral de Moura.”

A placa permanece no local até hoje, intacta — um pequeno monumento que liga três tempos distintos: o momento do plantio da árvore no século XIX, o momento da homenagem em 1949 e o nosso presente. Talvez esse seja o maior valor dessas fotografias antigas: elas nos lembram que a cidade não é apenas um espaço geográfico, mas uma acumulação de tempos, onde cada geração deixa marcas visíveis ou invisíveis. E, entre todas essas marcas, o velho baobá continua ali — silencioso, testemunhando a passagem da história.



sexta-feira, 13 de março de 2026

Portas, janelas, portões e grades da Natal do século XX...

 

OBSERVAÇÃO: A maioria dos registros aqui postados são de imóveis da Ribeira. Os que não forem, estão identificados com seus respectivos bairros, afinal, Clarinha passeia demais. E sem coleira nem guia...

Quase todos os dias depois das cinco da tarde, saio para passear com Maria Clara. Ela é uma cachorrinha Poodle de quatro anos, pequena, curiosa e muito observadora. Nosso destino quase sempre é o mesmo: caminhar pelas ruas antigas da Ribeira. Esses passeios já viraram um hábito. Assim que o sol começa a baixar e o calor diminui um pouco, pegamos o caminho das ruas tranquilas do bairro. Maria Clara vai andando devagar, farejando aqui e ali, mas sempre parece muito interessada nas casas antigas.


Tenho a impressão de que ela também gosta de história. Maria Clara tem um olhar especial para certos detalhes dos velhos prédios: portas, janelas, portões e grades de ferro. Sempre que encontramos algum desses elementos mais interessantes, ela para, olha e parece me lembrar do que devo fazer.

- Vamos fotografar. E eu fotografo.

Cidade Alta

Às vezes ela mesma quer aparecer na foto, parada ao lado de uma porta antiga ou encostada em um portão de ferro trabalhado. Já tenho uma pequena coleção dessas imagens. As fotografias mostram portas e janelas que certamente atravessaram muitas décadas. Algumas devem ser da primeira década do século XX, outras parecem ter sido feitas entre os anos 20 e 40, quando a Ribeira era um dos bairros mais importantes da cidade.


Há grades muito simples, com desenhos discretos, e outras extremamente sofisticadas, cheias de curvas e ornamentos delicados. Algumas trazem letras isoladas no ferro, iniciais que provavelmente revelavam o nome dos antigos proprietários ou de alguma empresa que funcionava ali.


O que mais me chama atenção é a qualidade do material. É um ferro que se percebe pesado, forte, daquele que já não se fabrica mais. Muitas dessas peças continuam praticamente intactas, apesar do tempo. Quando vejo certas portas enormes, fico imaginando o peso que devem ter. Penso em quantas mãos trabalharam para produzi-las e instalá-las ali, há mais de cem anos.


Essas ornamentações de ferro também carregam outra história interessante em seus primórdios. Muitos desses desenhos foram inspirados em técnicas trazidas da África por artesãos e ferreiros que dominavam o trabalho com o metal. Os arabescos, as formas repetidas e os desenhos geométricos revelam muito da cultura africana presente na arquitetura daquele período. É bonito perceber como diferentes culturas ficaram registradas nesses detalhes.


Mas nem tudo nesses passeios é encantamento. Muitas vezes sinto uma certa tristeza ao olhar alguns daqueles prédios. Apesar de encontra alguns muito bem zelados, muitos são verdadeiros poemas arquitetônicos de tanta beleza e singularidade. Sobrados elegantes, fachadas bem trabalhadas, portas imensas, janelas altas. E, no entanto, estão fechados há décadas. Os donos parecem apenas manter os imóveis ali, como quem guarda algo, mas sem realmente cuidar. Não restauram, não ocupam, não devolvem vida àquelas construções.


E o mais impressionante é que muitos desses prédios continuam muito sólidos. São amplos, bem construídos e em bom estado estrutural. Alguns sobrados poderiam facilmente abrigar secretarias municipais ou estaduais se fossem restaurados com cuidado.


Às vezes fico imaginando como seria se alguns serviços públicos funcionassem ali. Uma Central do Cidadão. Uma delegacia. Uma agência dos Correios. Um cartório. Uma agência bancária. Se a Ribeira oferecesse serviços importantes, certamente haveria mais circulação de pessoas. E quando as pessoas passam a frequentar um lugar, o comércio aparece naturalmente. Surgem lanchonetes, pequenas lojas, vendedores ambulantes, movimento nas calçadas.


Talvez essa seja uma das formas de fazer o bairro renascer, junto com outras políticas públicas, como redução de impostos e incentivo à moradia popular. Alguma coisa já começa a aparecer por ali. Já encontramos uma galeria incrível de obras de arte, um hospital para animais domésticos e uma farmácia veterinária. Pequenos sinais de que o bairro ainda tem vida.


Enquanto isso, Maria Clara continua seu passeio atento entre portas e janelas antigas. Eu sigo fotografando. Porque, no fundo, não sabemos o que vai acontecer com muitos daqueles prédios. Não sabemos se um dia serão restaurados ou se acabarão ruindo com o tempo. Pelo menos ficam os registros para inspirar pessoas que gostam dessas belezas e podem, se quiserem, fazer um portão ou porta baseados nessas obras, afinal os ornamentos são inspiradores. Portas que se abriram milhares de vezes ao longo das décadas.

Cidade Alta

Portas que acolheram pessoas, famílias e comerciantes. Janelas que se abriam para ver o movimento das ruas. Janelas de onde se podia olhar o rio Potengi, observar os passantes ou simplesmente sentir o vento da tarde. Talvez por isso esses passeios sejam tão agradáveis. Enquanto caminhamos pela Ribeira - eu e Maria Clara - vamos guardando, em fotografias e na memória, um pouco da história silenciosa dessas portas e janelas que já viram tanta vida passar.

OBSERVAÇÃO: A maioria dos registros aqui postados são de imóveis da Ribeira. Os que não forem, estão identificados com seus respectivos bairros, afinal, Clarinha passeia demais. E sem coleira nem guia...

Cidade Alta

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Tirol

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Ribeira

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Ribeira

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idade Alta

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