ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 23 de maio de 2026

ISMAEL DUMANG: UMA PÉROLA EM PARNAMIRIM...

 

O cantor, compositor, poeta e cordelista potiguar Ismael Dumang constrói sua trajetória artística a partir de experiências profundamente ligadas à memória afetiva, à cultura popular nordestina e às sonoridades interioranas do Rio Grande do Norte. Natural do município de São José de Mipibu, filho de Raimundo Nonato de Araújo e Emygdia Alves de Araújo, nasceu no dia 5 de novembro de 1960, na localidade rural conhecida como Sítio Quebra Fuzil, espaço marcado pelas paisagens de engenhos, pelas tradições orais e pela musicalidade popular que mais tarde se tornaria matéria-prima de sua obra artística. Ainda criança, foi levado para o centro da cidade, sendo criado na Rua Coronel Antônio Basílio por sua mãe adotiva, figura fundamental em sua formação humana e emocional.

Durante boa parte da infância, Ismael não compreendia plenamente sua condição de filho adotivo. Cresceu acreditando ser filho único, embora convivesse naturalmente com Eunice, menina frequentadora da mesma igreja e reconhecida socialmente como sua irmã. Somente mais tarde, em um delicado processo de descobertas familiares, passou a compreender sua verdadeira origem. A revelação ocorreu após a visita de uma mulher apresentada como sua tia, despertando questionamentos que culminaram numa conversa definitiva com sua mãe. Assim, soube que havia sido adotado ainda com apenas dezoito dias de vida. Descobriu também que seu pai biológico falecera poucos meses após seu nascimento e que Eunice era realmente sua irmã consanguínea. Posteriormente, integrou-se afetivamente aos demais irmãos - Moacir, João Batista, Tânia e Sônia - assumindo com maturidade e sensibilidade esse reencontro familiar.

Sua infância foi marcada por brincadeiras típicas do interior nordestino, como pião e biloca (bola de gude), mas sobretudo pela presença intensa da música. O rádio exerceu papel decisivo em sua formação cultural. As transmissões da Rádio Rural de Natal, os alto-falantes espalhados pelas ruas de Mipibu, nos parques e as tradicionais radiolas do interior criaram em sua imaginação um universo sonoro vasto e emocionalmente poderoso. Essas experiências deixaram marcas profundas em sua estética musical. O próprio artista reconhece que grande parte de sua sensibilidade nasce da escuta cotidiana dos hinos evangélicos da Harpa Cristã, das canções sertanejas e românticas transmitidas pelo rádio e das músicas populares ouvidas nas casas vizinhas.

Entre as primeiras referências musicais que despertaram seu desejo de cantar estavam canções associadas a Sérgio Reis e Roberto Carlos. Mais tarde, já adolescente, passou a mergulhar em universos musicais mais sofisticados da música popular brasileira, aproximando-se de nomes como Alceu Valença, Belchior e Fagner. Essas influências seriam determinantes para consolidar sua vocação artística e ampliar sua compreensão da canção como instrumento poético, político e existencial.

A religiosidade também exerce forte influência em sua formação estética. Durante parte de sua vida foi frequentador da Assembleia de Deus e cantava regularmente os hinos tradicionais da igreja, absorvendo a dramaticidade melódica, a intensidade emocional e a força narrativa presentes nas composições sacras. Paralelamente, mantinha contato com atividades musicais ligadas ao catolicismo popular, algo relativamente delicado em tempos de maiores tensões religiosas. Essa convivência plural acabou enriquecendo ainda mais sua percepção artística, fazendo surgir um compositor capaz de unir espiritualidade, memória popular e lirismo cotidiano.

Nos anos 1980, iniciou suas primeiras experiências mais concretas como compositor. Ainda muito jovem, começou a participar de eventos populares e apresentações locais, recebendo no carnaval de sua cidade natal o primeiro cachê da carreira musical. O fato possui forte dimensão simbólica: o artista surgia exatamente no ambiente das festas populares nordestinas, espaço onde música, povo e tradição convivem organicamente.

Em 1983, após o falecimento de sua mãe adotiva, mudou-se para Parnamirim, cidade onde passaria a desenvolver de maneira mais intensa sua vida artística. Na “Terra de Manoel Machado”, integrou a banda Natureza, atuando como baixista em apresentações por diversas localidades do interior potiguar. A experiência foi essencial para ampliar seu domínio musical e consolidar sua presença de palco. Após o encerramento das atividades do grupo, aprofundou seus estudos musicais, dedicando-se ao cavaquinho, à flauta doce e, sobretudo, à composição autoral.

Seu processo criativo ganhou enorme consistência quando passou a estudar a literatura de cordel e as estruturas poéticas dos repentistas nordestinos. Ismael mergulhou no universo das sextilhas, do martelo agalopado e das formas métricas tradicionais da poesia oral sertaneja. Esse aprendizado lhe proporcionou refinamento técnico no uso da rima, do ritmo e da musicalidade interna dos versos. Diferentemente de muitos compositores intuitivos, Ismael desenvolveu uma escrita estruturada, consciente da engenharia poética da canção popular.

Tal característica é perceptível em suas composições, frequentemente construídas numa relação simultânea entre letra e melodia. Em sua obra, palavra e som parecem nascer juntos, como se o verso já carregasse em si a cadência musical. Essa organicidade é um dos traços mais admiráveis de sua produção artística. Há em suas músicas uma fluidez narrativa que remete tanto à tradição dos cantadores nordestinos quanto à sofisticação lírica da MPB setentista.

Seu estilo musical apresenta forte diálogo com a tradição da música nordestina, mas sem limitar-se a fórmulas regionais convencionais. Ismael Dumang parece construir uma ponte entre o cancioneiro popular do interior e a densidade poética da moderna música brasileira. Em alguns momentos, suas canções evocam a dramaticidade existencial de Belchior; em outros, aproximam-se da inventividade melódica de Alceu Valença ou da sensibilidade sertaneja de Fagner. Também são perceptíveis influências do romantismo popular e até de elementos do rock clássico, referências assimiladas ao longo de sua trajetória artística.

Contudo, mesmo diante dessas aproximações, Ismael preserva identidade própria. Suas composições são primorosas. Cada palavra é depurada e encaixada com acuidade. É rigoroso na escolha da frase certa. Sua obra possui forte sentimento telúrico, marcado pela memória dos engenhos, das ruas de Mipibu, das radiolas, das igrejas e das paisagens humanas do interior potiguar. Poucos artistas conseguem transformar lembranças pessoais em experiências universais com tamanha delicadeza. Em suas letras, há sempre uma dimensão afetiva muito intensa, frequentemente atravessada por temas como pertencimento, saudade, infância, fé, resistência cultural e reencontro consigo mesmo.

Sua discografia inclui trabalhos importantes, como o álbum Estação do Sonho, lançado em meados da década de 1990, considerado um marco relevante em sua trajetória artística. Outro destaque fundamental é Terra de Engenhos, obra dedicada à sua cidade natal e considerada uma verdadeira homenagem musical às raízes culturais de São José de Mipibu. Nesse trabalho, Ismael transforma memória em poesia sonora, reafirmando seu compromisso com a valorização da identidade nordestina.

Além da música, também se consolida como autor de cordéis e agente cultural. Sua atuação ultrapassa o palco e alcança iniciativas voltadas à formação artística, ao incentivo de novos talentos e à valorização da cultura popular potiguar. Participou de projetos relevantes promovidos pela Fundação Parnamirim de Cultura, inclusive é autor de grande parte da trilha sonora de uma das versões do espetáculo Asas da História, escrito por Makários Maia, inclusive participou de várias apresentações virtuais durante o período da pandemia. Também está presente em importantes eventos da música autoral do Rio Grande do Norte, como mostras realizadas no Teatro Alberto Maranhão, espaço tradicional da cultura potiguar.

Sua presença nesses eventos reafirma o reconhecimento conquistado ao longo das décadas dentro da cena cultural do estado. Frequentemente descrito como um veterano da música autoral potiguar, Ismael Dumang é admirado não apenas pela qualidade técnica de suas composições, mas pela autenticidade de sua arte. Sua música jamais soa artificial ou produzida para seguir modismos. Ao contrário: nasce da experiência humana, da escuta sensível do cotidiano e da profunda conexão com suas origens. Em uma época marcada pela pressa estética, pela produção descartável e pela padronização musical imposta pelas tendências comerciais, Ismael mantém-se fiel à essência de sua criação artística. Nunca demonstra preocupação em adaptar sua obra às conveniências passageiras do mercado ou às fórmulas sonoras momentaneamente em evidência. Sua preocupação sempre esteve - e permanece - voltada para a construção de uma obra sólida, verdadeira e artisticamente refinada, capaz de atravessar o tempo sem perder autenticidade.

Como compositor, Ismael demonstra rara habilidade em construir letras carregadas de imagens poéticas e reflexões existenciais sem perder a simplicidade comunicativa característica da canção popular nordestina. Existe em sua escrita uma honestidade emocional que aproxima imediatamente o ouvinte. Suas músicas não parecem buscar apenas entretenimento; elas convidam à contemplação, à memória e ao sentimento. Há em sua produção um evidente compromisso com a permanência estética da obra artística. Cada composição parece cuidadosamente trabalhada não apenas para o presente, mas para constituir um legado cultural e poético duradouro. Sua arte recusa superficialidades. Em vez de ceder ao imediatismo das tendências efêmeras, Ismael investe na profundidade da palavra, na força melódica e na elaboração sensível das emoções humanas.

Também merece destaque sua contribuição no campo educacional e cultural. Atua em projetos e festivais estudantis de música ligados à formação de novos intérpretes e compositores, aproximando estudantes da música brasileira de qualidade e valorizando autores relevantes da cultura popular. Essa atuação evidencia o compromisso de Ismael não apenas com a produção artística, mas também com a formação de novas gerações de ouvintes e músicos.

Sua trajetória revela um artista profundamente comprometido com a cultura popular brasileira e, sobretudo, com a preservação das memórias afetivas do Nordeste. Em tempos marcados pela velocidade e pelo consumo efêmero, Ismael Dumang representa uma espécie de resistência poética. Sua obra valoriza a palavra, a melodia, o sentimento e a identidade cultural como patrimônios indispensáveis. Sua singularidade artística reside justamente nessa capacidade de permanecer coerente consigo mesmo, preservando sua identidade estética mesmo diante das constantes transformações do cenário musical contemporâneo. Ismael pertence à rara linhagem de artistas que compreendem a música não apenas como produto de consumo, mas como expressão humana, patrimônio simbólico e instrumento de permanência cultural.

Ao longo dos anos, consolida-se como uma das vozes mais sensíveis e autênticas da música potiguar contemporânea. Cantor, compositor, cordelista e poeta, Ismael Dumang transforma sua própria história de vida em matéria artística, criando uma obra profundamente humana, emocionalmente verdadeira e culturalmente relevante. Sua música permanece viva exatamente porque nasce daquilo que há de mais permanente no ser humano: a memória, a emoção, o pertencimento e a necessidade de transformar a vida em poesia. Mais do que acompanhar tendências, Ismael Dumang constrói um caminho próprio - singular, coerente e artisticamente sofisticado - e, desse modo, segue somando à cultura potiguar e nordestina um legado marcado pela autenticidade, pela beleza poética e pelo profundo respeito à arte de compor.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

NÍSIA FLORESTA: A PRIMEIRA MULHER ABOLICIONISTA DO BRASIL...

 


Há certas injustiças históricas que o tempo insiste em perpetuar. Uma delas talvez seja o silêncio que ainda paira sobre o nome de Nísia Floresta Brasileira Augusta quando o assunto é o movimento abolicionista brasileiro. O Brasil aprendeu, corretamente, a reverenciar nomes como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Luiz Gama, André Rebouças e tantos outros gigantes da luta contra a escravidão. Contudo, muito antes de boa parte desses homens levantarem publicamente suas vozes contra o cativeiro, uma mulher nascida na antiga Papary, atual Nísia Floresta, já escrevia com coragem incomum contra a brutalidade da escravidão e contra a desumanização do povo negro.

Talvez por ter sido mulher. Talvez por ter vivido num século profundamente patriarcal. Talvez porque sua luta principal tenha ficado historicamente associada à emancipação feminina. O fato é que a dimensão abolicionista de Nísia Floresta ainda permanece insuficientemente reconhecida pela historiografia brasileira. E isso precisa ser dito com clareza: Nísia Floresta foi, sim, uma das primeiras intelectuais brasileiras a defender publicamente posições antiescravistas, podendo legitimamente ser considerada a primeira mulher abolicionista do Brasil.

Sua postura diante da escravidão aparece de maneira mais explícita em Opúsculo Humanitário, publicado em 1853. A obra, tradicionalmente lembrada por defender a educação feminina, vai muito além disso. Nela, Nísia constrói uma profunda reflexão moral sobre a sociedade brasileira, denunciando não apenas a opressão das mulheres, mas tamb´m a violência praticada contra escravizados e amas de leite negras dentro das famílias brasileiras.

Num dos trechos mais contundentes da obra, Nísia condena o comportamento das elites brasileiras diante das amas de leite escravizadas, denunciando aquilo que chamou de “revoltante ingratidão”. A expressão tornou-se histórica porque revela algo raríssimo para a época: empatia pública e explícita para com mulheres negras submetidas ao regime escravista. Em pleno século XIX, quando grande parte da elite naturalizava a escravidão como elemento estrutural da sociedade, Nísia oussava enxergar humanidade naqueles que o sistema insistia em transformar em mercadoria.

Mas sua visão antiescravista não surgiu apenas em Opúsculo Humanitário. O pensamento de Nísia passeia em várias de suas obras. Eela defendia a abolição da escravidão e os direitos indígenas, articulando essas pautas a uma crítica ampla do colonialismo e da desigualdade social.

Na importante obra A lágrima de um caeté, por exemplo, publicado em 1849, a autora já demonstrava profunda sensibilidade diante dos povos marginalizados e violentados pela colonização brasileira. Embora a obra esteja centrada na figura indígena, constatamos nela um discurso humanitário que também dialoga diretamente com a condição dos negros escravizados. Nísia compreendia que o Brasil imperial havia sido construído sobre estruturas violentas de exclusão social e racial.

Seu pensamento possuía uma dimensão revolucionária para o período. Enquanto boa parte da intelectualidade brasileira ainda aceitava a escravidão como elemento “natural” da economia, Nísia associava civilização, progresso moral e educação à superação da barbárie social. Em Opúsculo Humanitário, ela afirma que o grau de civilização de um país podia ser medido pela forma como tratava suas mulheres e seus grupos socialmente oprimidos. Tal formulação, ainda hoje moderna, colocava-a frontalmente contra a lógica escravista do Império.

É importante compreender a coragem disso. Estamos falando de uma mulher escrevendo no Brasil da primeira metade do século XIX. Um país onde mulheres quase não tinham espaço intelectual. Um país onde negros eram vendidos em praças públicas, inclusive, em se tratando da velha Papary, eram comercializados num frontoso oitizeiro próximo à Estação Papary. Um país em que defender escravizados significava desafiar interesses econômicos profundos. E, ainda assim, Nísia escreveu, publicou, criticou, denunciou...

Não há como não enxergá-la como precursora das ideias abolicionistas no Brasil. A pesquisadora Charlotte Hammond Matthews (do Reino Unido, Escócia) registra que diversos pesquisadores atribuíram a Nísia “o título incontestável de precursora da propaganda das ideias e doutrinas abolicionistas”. Não há como dissociá-la desse realidade.

Existe algo profundamente simbólico nisso tudo. A antiga Papary, terra onde aconteceu a primeira insurreição de escravizados no Rio Grande do Norte - encabeçada pelo escravizado Miguel Rei -  terra marcada pela presença da escravidão colonial, pelo trabalho de negros escravizados em suas lavouras, pescarias, serviços domésticos e festas do Rosário, acabaria tornando-se nacionalmente conhecida justamente pelo nome de uma mulher que ousou defender liberdade, dignidade e emancipação humana.

Talvez a História ainda esteja em dívida com Nísia Floresta Brasileira Augusta. Porque mais do que pioneira do feminismo brasileiro, mais do que educadora visionária, mais do que escritora de extraordinária coragem intelectual, a filósofa Nísia também foi uma voz profundamente humanitária contra a escravidão. E talvez tenha sido exatamente isso que tornou sua escrita tão perigosa para seu tempo, e tão necessária para o nosso.

ISMAEL DUMANG: “A MÚSICA QUE FAÇO NASCE DA MEMÓRIA E DO SENTIMENTO”

 

Cantor, compositor, poeta e cordelista, Ismael Dumang é um dos nomes mais autênticos da música autoral potiguar. Nascido em São José de Mipibu no dia 5 de novembro de 1960, filho de Raimundo Nonato de Araújo e Emygdia Alves de Araújo, radicado em Parnamirim desde 1983, cidade onde consolidou grande parte de sua trajetória artística e cultural, o artista construiu uma obra marcada pela poesia, pela valorização das raízes nordestinas e pela recusa em transformar sua arte em produto descartável.

Ao longo de mais de quatro décadas vivendo na “Terra de Manoel Machado”, Ismael Dumang tornou-se também uma referência cultural parnamirinense, mantendo viva uma produção musical profundamente ligada à memória, à sensibilidade poética e à identidade nordestina. Em conversa ao BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, ele fala sobre infância, memória, religiosidade, literatura de cordel, influências musicais e o compromisso de produzir uma obra que permaneça viva no tempo. Ismael nunca perdeu seu vínculo com São José de Mipibu e Nísia Floresta, terras que ouviram o choro de seu nascimento e ouviram seus primeiros acordes...


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Ismael, sua trajetória artística nasce muito ligada à memória e às origens. Que lembranças da infância em São José de Mipibu ainda permanecem mais fortes em você?


ISMAEL DUMANG: Permanecem muitas coisas. A rua, os engenhos, as brincadeiras de infância, as radiolas, os parques, o som das músicas chegando pelas janelas das casas… Tudo isso ficou muito vivo dentro de mim. Eu costumo dizer que minha música nasce justamente desse universo de lembranças. A infância no interior deixa marcas profundas. O rádio teve uma importância enorme na minha formação. Eu ouvia de tudo: hinos religiosos, música sertaneja, Roberto Carlos, canções românticas. Aquilo foi formando minha sensibilidade sem que eu percebesse.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Sua história de vida também é marcada pela descoberta da adoção. De alguma forma, isso influenciou sua arte?


ISMAEL DUMANG: Influenciou muito. Quando a gente descobre certas coisas sobre a própria origem, passa a olhar para a vida de outra maneira. Acho que isso aprofundou em mim uma necessidade maior de pertencimento, de entender as raízes, de compreender os afetos. Minha música fala muito sobre memória, identidade, reencontro, saudade… Talvez venha justamente daí. A arte, muitas vezes, acaba sendo uma maneira de organizar emoções.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Você costuma citar influências muito diversas, que vão desde os hinos da igreja até Belchior e Alceu Valença. Como essas referências convivem dentro da sua música?


ISMAEL DUMANG: Convivem naturalmente. A música que escutei na infância nunca saiu de mim. Os hinos da igreja têm uma dramaticidade muito forte, uma intensidade emocional muito grande. Depois vieram Belchior, Fagner, Alceu Valença, que me mostraram uma música mais poética, mais elaborada. Mas tudo isso foi se somando. Nunca tive preocupação em seguir uma linha fechada. Minha música é resultado das experiências que vivi e das sonoridades que me tocaram ao longo da vida.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Em suas composições existe uma preocupação muito forte com a palavra. Isso vem da convivência com o cordel e a poesia popular?


ISMAEL DUMANG: Sem dúvida. Quando comecei a estudar mais profundamente a literatura de cordel e as estruturas dos repentistas, passei a compreender melhor o peso da métrica, da rima, do ritmo interno dos versos. O cordel ensina disciplina poética. Ensina que a palavra precisa soar bem, carregar musicalidade. Tenho muito cuidado com isso. Gosto de lapidar a letra, procurar a frase certa, encontrar o encaixe exato entre palavra e melodia.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Há quem diga que suas músicas possuem um sentimento muito telúrico, muito ligado à terra e às raízes nordestinas. Você concorda?


ISMAEL DUMANG: Concordo. Acho que não conseguiria fugir disso, porque faz parte de quem sou. Os engenhos, as ruas de Mipibu, as igrejas, as paisagens humanas do interior… tudo isso habita minha memória afetiva. Mesmo quando a música fala de sentimentos universais, existe sempre esse chão nordestino sustentando a composição. É algo natural.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Você é frequentemente apontado como um artista que nunca cede aos modismos. Em tempos de músicas produzidas rapidamente para consumo imediato, como você enxerga isso?


ISMAEL DUMANG: : Eu respeito todos os estilos e todas as formas de fazer música, mas nunca consegui criar pensando em tendência ou mercado. Minha preocupação sempre foi fazer algo verdadeiro. Acho que a arte precisa ter permanência. Não gosto da ideia de música descartável. Gosto de compor algo que continue fazendo sentido daqui a muitos anos. Talvez isso torne o caminho mais difícil, mas também mais honesto comigo mesmo.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Sua música parece buscar mais do que entretenimento. Existe uma intenção consciente de provocar reflexão?


ISMAEL DUMANG: Sim. A música pode emocionar, provocar lembranças, despertar reflexões. Não penso na canção apenas como distração. Gosto quando uma letra toca alguém profundamente, quando desperta memória ou sentimento. Acho que a arte tem essa capacidade de permanecer dentro das pessoas.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: O álbum Terra de Engenhos é considerado por muitos uma homenagem afetiva à sua cidade natal. Qual o significado desse trabalho para você?


ISMAEL DUMANG: É um trabalho muito especial porque reúne exatamente esse universo afetivo que me acompanha desde menino. Falar de São José de Mipibu é falar das minhas origens, das pessoas que fizeram parte da minha história, das paisagens que me formaram emocionalmente. Foi uma maneira de transformar memória em música.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: E como você vê a cena musical potiguar atualmente?


ISMAEL DUMANG: Vejo muitos artistas talentosos produzindo coisas interessantes. O Rio Grande do Norte sempre teve uma riqueza cultural enorme. O problema, muitas vezes, é a falta de espaço e incentivo. Mas existe uma geração muito boa surgindo, fazendo música autoral, valorizando identidade cultural. Isso é importante.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Além da carreira artística, você também participa de projetos culturais e educacionais. Qual a importância desse trabalho?


ISMAEL DUMANG: Acho fundamental. A cultura precisa circular, alcançar os jovens, formar novos ouvintes e novos artistas. Quando participo de festivais estudantis ou projetos culturais, sinto que estou contribuindo para manter viva essa corrente da música e da poesia. A arte transforma pessoas.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Depois de tantos anos de trajetória, o que ainda move Ismael Dumangue?


ISMAEL DUMANG: A emoção de criar. Enquanto eu tiver algo para dizer através da música, continuo compondo. A arte ainda me emociona profundamente. E talvez seja justamente isso que mantém tudo vivo: a capacidade de transformar experiências humanas em canção.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Para encerrar: como você gostaria que sua obra fosse lembrada no futuro?


ISMAEL DUMANG: Gostaria que fosse lembrada como uma obra sincera. Uma música feita com verdade, respeito à poesia e amor pela cultura nordestina. Se minhas canções conseguirem permanecer na memória afetiva das pessoas, já me sinto realizado.

BIBLIOTECA VIRTUAL CONTANDO HISTÓRIAS DE NÍSIA FLORESTA...

 


Hoje, às 09h00, o município de Nísia Floresta viveu um momento que merece ser guardado na memória coletiva de seu povo. Não se tratou apenas de uma reunião administrativa, nem simplesmente do lançamento de mais um projeto cultural. O que aconteceu foi algo maior: um encontro entre a História, a Educação e o compromisso com o futuro das novas gerações.


Nasceu oficialmente a BIBLIOTECA VIRTUAL CONTANDO HISTÓRIAS, uma iniciativa da mais alta relevância cultural e pedagógica, idealizada por Jusciê Correa e abraçada pelo cineasta Nilson Eloy  e o webdsigner Jadelson Sales, três nomes que compreenderam, com sensibilidade e visão histórica, a necessidade urgente de aproximar as crianças e a juventude de suas raízes, de sua memória e de sua identidade. Porque é nessa fase que formamos o sentimento de pertencimento do cidadão.

Por meio de pequenos vídeos de até dez minutos, produzidos com linguagem didática e acessível, diversos pesquisadores, estudiosos, professores e pessoas ligadas à preservação da memória histórica - e que estavam presentes - irão compartilhar conhecimentos sobre fatos, personagens, tradições e acontecimentos ligados ao município de Nísia Floresta e à cultura potiguar. O material ficará disponível gratuitamente na internet, especialmente voltado às escolas, democratizando o acesso ao conhecimento e permitindo que estudantes, professores e toda a população possam aprender e revisitar a própria história.

Vivemos tempos em que a memória muitas vezes corre o risco do esquecimento. Por isso, iniciativas dessa natureza assumem um papel quase missionário. Uma cidade que preserva sua história fortalece sua identidade. Um povo que conhece suas raízes aprende também a defender sua cultura, seu patrimônio e sua dignidade.

O encontro contou com a presença do prefeito Gustavo Santos, que abraçou o projeto com entusiasmo e sensibilidade administrativa, compreendendo imediatamente a grandeza cultural e educacional da proposta. Merece, portanto, os mais sinceros aplausos por apoiar uma iniciativa que certamente deixará frutos permanentes para o município.

Estiveram presentes também a vice-prefeita, Maxsa Valéria Mesquita, o presidente da Câmara Municipal, Luiz Henrique de Castro Ferreira, o secretário de Educação Gustavo Fernandes dos Santos, demais secretários municipais, funcionários da Secretaria de Cultura, convidados, todos unidos pelo mesmo sentimento de valorização da memória e do conhecimento.

A verdade é que Nísia Floresta recebeu hoje um grande presente. Um presente que não se mede em cifras, mas em consciência cultural, em formação cidadã e em valorização da inteligência coletiva de seu povo. Num município que carrega o nome da pioneira educadora Nísia Floresta Brasileira Augusta, nada poderia ser mais simbólico do que investir justamente em Educação, História e Cultura. É como se o espírito da grande escritora potiguar continuasse soprando inspiração sobre sua terra natal, lembrando-nos de que educar também é libertar.

Parabéns ao prefeito Gustavo Santos pelo apoio decisivo ao projeto. Parabéns a Jusciê Correa, Nilson Eloy e Jadelson Sales pela brilhante iniciativa. Parabéns a todos os envolvidos. E parabéns, sobretudo, ao povo de Nísia Floresta, que passará a contar com mais um importante instrumento de preservação de sua memória histórica e cultural. Que venham os vídeos...

quinta-feira, 21 de maio de 2026

MIGUEL REI E A INSURREIÇÃO DOS ESCRAVISADOS EM PAPARY - MUNICÍPIO DE NÍSIA FLORESTA COMO PIONEIRO DA LUTA CONTRA A ESCRAVIDÃO

 


Aproveitando o mês de maio, período dedicado às reflexões sobre a Abolição da Escravidão no Brasil, retorno a velhas anotações feitas ainda em 1992, quando iniciei um estudo de História Oral no município de Nísia Floresta, antiga Vila Imperial de Papary.

Papary carrega dois marcos profundamente simbólicos e fortes ligados à luta contra a opressão. O primeiro deles é a filósofa Nísia Floresta Brasileira Augusta, pioneira do pensamento feminista no Brasil e uma das primeiras vozes femininas a se posicionar publicamente contra a escravidão, dentre outros assuntos. O segundo marco, quase apagado pela história oficial, é a figura extraordinária de Miguel Rei - talvez uma das primeiras vozes negras potiguares a insurgir-se publicamente contra o sistema escravista, justamente entre as décadas de 1860 e 1870, nas terras de Papary.

Sempre que mergulho nessas memórias, percebo o quanto o silêncio histórico recaiu sobre os negros da antiga Papary e sobre os movimentos de resistência escrava no Rio Grande do Norte. Quando comecei minhas pesquisas, ainda no início da década de 1990, o tema praticamente não era discutido. Falava-se muito pouco sobre os negros potiguares, seus sofrimentos, suas formas de resistência e suas manifestações culturais. E da mesma forma acontecia com os povos indígenas.

Os antigos historiadores do Rio Grande do Norte - mesmo os maiores - quase não se aprofundaram sobre o assunto. Luís da Câmara Cascudo, por exemplo, dedicou linhas preciosas, porém breves, ao tema. O mesmo ocorreu com Tavares de Lyra, Nestor dos Santos Lima e Ferreira Nobre. A história provincial preferiu exaltar governadores, coronéis, bacharéis e proprietários de engenho. Os negros quase sempre ficaram reduzidos ao silêncio. Os próprios relatórios governamentais são parcos em informações nesse sentido.

Entretanto, foi justamente na oralidade – praticamente como uma arqueologia – que encontrei fragmentos sobreviventes dessa memória e que, anos depois, consistiriam num precioso achado, quando ampliei a colcha de retalhos.

Nas antigas conversas realizadas com moradores idosos de Papary, ouvi repetidas referências às festas do Rosário dos Pretos, aos “reis negros”, aos batuques, às danças e às coroações realizadas todo dia 6 de janeiro na antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Eventualmente surgia, quase como personagem lendário, o nome de Miguel Rei. Diziam que era um negro bonito, alto, falador, de presença forte, excelente dançarino e profundamente respeitado pelos negros da região. Mas poucos conseguiam explicar quem realmente havia sido aquele homem.

Quem melhor o descreveu foi dona Estelita de Oliveira, bisneta do Coronel Alexandre de Oliveira, chamado Cavaleiro da Rosa. Em suas narrativas, Miguel não aparecia apenas como personagem das festas negras do Rosário, mas como alguém que ousou enfrentar a escravidão em Papary. Outra narrativa semelhante ouvi, em 1993, de uma senhora da família Cupiro, moradora do Porto, antigo povoado de Nísia Floresta. Infelizmente, hoje não recordo o nome daquela senhora, embora ele permaneça anotado em meus antigos cadernos de História Oral.

Com o passar do tempo, percebi que aquelas memórias populares encontravam eco em registros históricos dispersos.

Em 1994, ao revisitar obras de Câmara Cascudo, encontrei referências preciosíssimas que ajudaram a reconstruir parte daquilo que eu ouvira oralmente. Foi uma experiência incrível, pois aquelas pessoas que narraram fragmentos daquele episódio – mesmo que não soubessem – talvez descendessem dos próprios partícipes daquela história. Cascudo não narra os detalhes ricos preservados pelo povo, mas confirma episódios fundamentais da resistência negra no litoral sul potiguar.

No século XIX, o Rio Grande do Norte vivia relativo crescimento da mão de obra escravizada, especialmente em razão da expansão açucareira nos vales de Ceará-Mirim, São José de Mipibu, Goianinha, Canguaretama e São Gonçalo.

Natal possuía poucos escravos em comparação às zonas rurais, já que a capital não mantinha uma economia agrícola de grande escala. Câmara Cascudo registra números significativos: Natal possuía 822 escravizados em 1873; 339 em 1881; 321 em 1882; 246 em 1884; e apenas 152 em 1887.  Ainda assim, o Rio Grande do Norte nunca apresentou concentração escravista comparável à de Pernambuco ou Bahia. Muitos escravizados vinham de Pernambuco e até do Maranhão, e não diretamente da África. Porém, com o fortalecimento dos engenhos entre as décadas de 1850 e 1860, cresceu também o inconformismo negro.

Sabemos muito pouco sobre as insurreições escravas no Rio Grande do Norte porque os relatórios provinciais quase não registravam esses acontecimentos. A documentação é escassa. Muitas histórias desapareceram sob o peso do preconceito, do abandono documental e da negligência das elites provinciais. Mesmo assim, alguns fragmentos sobreviveram. Assim como essas sobras memoriais ao estilo do que publiquei anteriormente sobre a Festa de Nossa Senhora do Rosário.

Nestor dos Santos Lima, por exemplo, registrou uma importante insurreição em Goianinha. Nela, os escravizados Bonifácio, Estevão, Leandro e Eduvirgens, pertencentes ao Engenho Bom Jardim, organizaram um movimento revolucionário envolvendo negros de diversas propriedades, incluindo os engenhos Bosque e Ilha Grande.

Chegaram a formar uma espécie de governo simbólico, tendo Bonifácio como “presidente da Câmara Municipal”. Pretendiam marchar até Natal reivindicando direitos.

Mas, como em tantas histórias de conspiração, surgiu um delator. O movimento foi denunciado pelo escravizado Félix, pertencente a Manoel Laurentino Freire de Alustau Navarro - professor de Isabel Gondim - e violentamente reprimido na Mata de Baldum. Bonifácio conseguiu fugir e, segundo relatos, refugiou-se em Goiana, Pernambuco, cidade historicamente importante no cenário intelectual nordestino e por onde também passou Nísia Floresta.

Ao aprofundar minhas pesquisas, compreendi que Miguel Rei não pode ser entendido apenas como líder de uma conspiração escrava. Sua figura também está profundamente ligada às antigas Festas do Rosário dos Pretos, manifestações religiosas e culturais existentes em diversas regiões do Rio Grande do Norte. Em cidades como Caicó, São Gonçalo do Amarante, Goianinha, Canguaretama e na própria Papary, existiram irmandades negras ligadas a Nossa Senhora do Rosário. Essas irmandades funcionavam não apenas como espaços religiosos, mas como núcleos de sociabilidade, proteção, identidade cultural e resistência simbólica da população negra.

Os relatos orais colhidos junto às antigas famílias de Papary descrevem festas profundamente marcantes. Segundo dona Estelita e antigos membros da família Cupiro, no dia 6 de janeiro os negros tomavam conta das ruas da vila. Havia batuques, tambores, danças, coroações, roupas coloridas e cortejos que atravessavam o casario antigo em direção à Matriz de Nossa Senhora do Ó.

Os negros possuíam lugar reservado numa das naves laterais da igreja. Era ali que permaneciam durante os atos religiosos ligados ao Rosário. Mesmo dentro de uma sociedade rigidamente escravista, a Festa do Rosário criava um raro espaço de visibilidade para os negros da vila.

Naquele ambiente surgiam os chamados “reis” e “rainhas” do Rosário. Miguel era um deles. E talvez o mais lembrado de todos. Os depoimentos antigos que obtive com pessoas idosas de Nísia Floresta, depois de cruzados com as informações do mestre Cascudo (único que registrou o fato), o descrevem como um “rei negro” de grande carisma, respeitado entre os escravizados dos engenhos de Papary, Arez e São José de Mipibu. Dançava, discursava, organizava os festejos e exercia liderança natural sobre os demais negros.

A Festa do Rosário dos Pretos possuía forte dimensão simbólica. Enquanto os senhores observavam os festejos como simples folclore religioso, os negros construíam ali redes de solidariedade, identidade coletiva e memória ancestral. Talvez tenha sido justamente nesse ambiente que Miguel Rei consolidou sua liderança.

Sua companheira de reinado era Amélia Rainha, escravizada do delegado Tomás José de Moura. Décadas atrás encontrei seu registro de óbito: faleceu em Papary no dia 14 de fevereiro de 1915, aos 96 anos de idade. Amélia sobreviveu à escravidão. Sobreviveu ao Império. Sobreviveu à República nascente. E, de certa maneira, sobreviveu também ao silêncio da própria história. Após a prisão de Miguel Rei, o reinado negro teria passado para Luís, escravizado do Dr. Francisco de Souza Ribeiro Dantas. Segundo antigos registros e memórias orais, ele teria sido o último rei das festas do Rosário em Papary.

MIGUEL REI E A INSURGÊNCIA NEGRA EM PAPARY

Entretanto, o episódio mais impressionante envolvendo Miguel Rei não se restringe à religiosidade popular. Miguel, escravizado do coronel Antônio Basílio Ribeiro Dantas, proprietário do Engenho Sapé, conseguiu articular um movimento envolvendo mais de cem negros oriundos de Papary, São José de Mipibu, Arez e Goianinha.

O grupo possuía até mesmo um quartel-general improvisado na Mata da Mangabeira, em Arez. Muitas vezes imagino aquelas noites silenciosas nas matas do litoral sul potiguar. Homens negros fugidos dos engenhos reunidos clandestinamente, planejando liberdade, discutindo estratégias e sonhando romper as correntes do sistema escravista.

Muito antes de algumas localidades potiguares iniciarem oficialmente processos de libertação dos escravizados - como ocorreu em 1883 em alguns municípios do estado - Miguel Rei já se levantava contra a escravidão décadas antes, em Papary, enfrentando diretamente o poder dos senhores de engenho. Isso transforma sua trajetória numa das mais pioneiras manifestações abolicionistas e insurgentes do Rio Grande do Norte.

Mas a conspiração acabou traída. Mais uma vez, o escravizado Félix, pertencente a Manoel Laurentino Freire de Alustau Navarro, revelou o plano ao seu senhor, que imediatamente comunicou tudo ao delegado Tomás José de Moura. A repressão foi rápida. Miguel acabou preso antes do levante definitivo. Sem liderança, surpreendidos e desarmados, os demais revoltosos dispersaram-se rapidamente pela mata.

A história oficial quase apagou completamente esse episódio. Mas talvez seja justamente aí que reside sua maior grandeza. Miguel Rei não foi apenas um escravizado rebelde. Foi símbolo de resistência política, liderança cultural e força espiritual entre os negros do litoral sul potiguar. Representou homens e mulheres que ousaram sonhar liberdade numa sociedade construída sobre violência, racismo e exploração humana.

Por tudo isso, penso sinceramente que Miguel Rei merece um monumento em Nísia Floresta. Não apenas como homenagem individual, mas como reconhecimento histórico a um dos mais antigos e pioneiros movimentos de insurgência negra contra a escravidão no Rio Grande do Norte. Erguer um monumento a Miguel Rei significaria realizar uma reparação histórica não apenas à sua memória, mas também aos descendentes dos homens e mulheres negros que sofreram sob o regime escravista nas terras da antiga Papary.

Seria também uma maneira de devolver dignidade histórica a personagens que durante décadas permaneceram invisíveis nos livros oficiais. Mais do que isso: a valorização dessa memória colocaria Nísia Floresta num patamar ainda maior dentro da história potiguar e brasileira. O município, já reconhecido nacionalmente pelo nome de Nísia Floresta Brasileira Augusta, passaria também a ser lembrado como território pioneiro das lutas negras contra a escravidão.

Isso agregaria valor histórico, cultural, educacional e turístico ao município. A história de Miguel Rei precisa chegar às escolas. Precisa estar nos livros didáticos municipais. Precisa ser debatida nas salas de aula, nas universidades, nos seminários culturais e nas comemorações cívicas. Precisa ser lembrada todos os anos. Porque os povos que preservam a memória de seus lutadores preservam também sua própria identidade.

Recordo-me ainda de um depoimento profundamente marcante dado por minha prima idosa, Mirtes Peixoto Maranhão, filha de Luzia Peixoto Maranhão, esposa de Roque Maranhão, antigo intendente de Papary. Em uma de nossas conversas, ela relatou que, na antiga estrada entre Nísia Floresta e São José de Mipibu, próximo à velha Estação Papary, existia um enorme pé de Oiti, árvore hoje praticamente desaparecida da memória local. Sob sua sombra realizavam-se negociações e comércio de escravizados.

O relato de dona Mirtes sempre me impressionou profundamente porque dava concretude humana e geográfica àquilo que durante tanto tempo permaneceu apenas nos livros frios da historiografia. Ela dizia que seus avós contavam histórias de homens, mulheres e crianças negras vendidos naquele trecho silencioso da estrada antiga. Sempre que penso naquele lugar, imagino quantas lágrimas, quantos gritos sufocados e quantas vidas partidas ficaram enterradas sob as raízes daquele velho Oiti, testemunha muda de um dos períodos mais dolorosos da hist´ria de Papary.

E talvez por ali tenha passado, acorrentado ou já insurgente, o próprio Miguel Rei. Hoje, quando o Brasil relembra oficialmente a Abolição da Escravatura, penso que Papary - atual Nísia Floresta - possui razões muito particulares para revisitar esse passado. Ali nasceu Nísia Floresta Brasileira Augusta, a primeira mulher abolicionista do Brasil. Ali também ecoou a voz insurgente de Miguel Rei. Uma voz negra, pioneira, que ousou sonhar liberdade quando quase ninguém tinha coragem sequer de pronunciar essa palavra.

REFERÊNCIAS:

CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura; Serviço de Documentação, 1955.

CASCUDO, Luís da Câmara. Made in Africa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

FREIRE, Luís Carlos. Textos, crônicas históricas e registros de História Oral sobre Miguel Rei, Papary, festas do Rosário dos Pretos e resistência negra no litoral sul do Rio Grande do Norte. Disponível em: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE. Acesso em: 13 maio 2026.

LIMA, Nestor dos Santos. Municípios do Rio Grande do Norte: Arez. Natal: Tipografia d’A República, s.d.

LYRA, Tavares de. História do Rio Grande do Norte. Natal: EDUFRN, 1987.

FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, Nísia. Opúsculo Humanitário. Rio de Janeiro: Typographia de M. A. Silva Lima, 1853.

FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, Nísia. A lágrima de um Caeté. Rio de Janeiro: Typographia de L. A. F. de Menezes, 1849.

COSTA, Emilia Viotti da. Da senzala à colônia. 5. ed. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.

REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Depoimentos orais de ESTELITA DE OLIVEIRA; integrantes da família CUPIRO; MIRTES PEIXOTO MARANHÃO, colhidos em pesquisas de História Oral realizadas no município de Nísia Floresta entre as décadas de 1990 e 2000.

A EXTINTA FESTA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS EM PAPARY (NÍSIA FLORESTA)...

Imagem criada por inteligência artificial, sem preocupação com originalidade espacial, mas apenas com as figuras humanas. 

Como sempre registro, em 1992, em Nísia Floresta passei a desenvolver um contínuo trabalho de História Oral, recolhendo memórias espalhadas entre pescadores, trabalhadores rurais, antigos moradores do Porto, descendentes de famílias negras e pessoas simples que, sem perceber, carregavam consigo preciosos fragmentos da história cultural, religiosa e social daquela terra. 

Ao longo dessas décadas ouvi demoradamente a senhora Estelita Oliveira, neta do Cel. Alexandre de Oliveira, o famoso Cavaleiro da Rosa; ela residia no centro, quase de frente à rodoviária. Era benzedeira. Recolhi narrativas da tradicional família Cupiro, da comunidade do Porto; conversei inúmeras vezes com a senhora cujo nome não me foi possível ler, tendo em vista o desgaste do grafite num velho livro de atas de 33 anos. Conversávamos, ora na casa dela, em Tororomba, ora na Escola Municipal Yayá Paiva, onde as narrações emendavam-se umas às outras; ouvi longamente o senhor Manoel Salvador, homem profundamente ligado à cultura popular de Nísia Floresta, ouvi a Sra. Joaninha (Joana do Nascimento Cruz, cunhada da sra. Raimunda, da dupla Pirão Bem Mole) dentre outras pessoas pretas, todas tendo os seus ancestrais nascidos em Nísia Floresta.

Manoel Salvador era uma dessas figuras que parecem sair diretamente das páginas do antigo folclore nordestino. Católico fervoroso. Não era necessariamente preto, mas dizia ser descendente de pretos e indígenas antigos da região, brincante de festejos populares, mestre de Pastoril, Lapinha, Boi de Reis e quadrilhas juninas, possuía uma voz potente, grave e marcante. Era alto, expansivo, sorridente, dono de uma alegria contagiante e de tiradas espirituosas que faziam todos ao redor rir. Quantas vezes conversamos longamente em sua casa e na calçada da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, cúmplice e testemunha dos mais espetaculares contares saídos da mente brilhante desse senhor.

Quando começava a falar das antigas festas do Rosário, seus olhos pareciam voltar para um tempo distante. Certa vez, sentado na calçada da Matriz, recordando as histórias que ouvira de sua avó, disse-me:

- “Luís Carlos, aquilo era festa de fazer a terra tremer. Diziam que quando os tambores começavam ninguém ficava parado. É lógico que era fora da igreja, depois da celebração, não sabe, tinha pare que ficava puto, mas contam que alguns gostavam de negros e deixavam eles quietos...”

Noutra ocasião comentou:

- “Minha avó contava que o Rosário dos Pretos era a festa mais bonita de Papari. Era negro vestido de rei, rainha, bandeira colorida, pau furado, fogueira e o povo rezando misturado com dança... o diabo a quatro, linda... Você chegou a ver os comício de Jorge Ney? Tinha tambores de quiçuqui com cabumba (cachaça) lá do Timbó... o povo bebia de cair. Eu só me lembro desses comícios de George quando ouvia falar da festa do Rosário, mas na bagunceira mesmo, era de respeito, não estou falando de gente beba... Luís Carlos eu queria ter sido daquela ápoca... era muito bonito...”

Essas narrativas populares, recolhidas ao longo de tantos anos, revelam um universo profundamente rico e praticamente esquecido pela memória oficial do Rio Grande do Norte. Em Nísia Floresta nada sabem, apenas breves informações de que os pretos tinha sua nave reservada na Matriz. Analisando em termos norte-rio-grandense, reconheço que as festas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos constituíram uma das maiores expressões da religiosidade afro-católica potiguar.  n eram apenas festas religiosas. Eram espaços de resistência cultural, preservação africana, solidariedade comunitária, afirmação identitária e sobrevivência simbólica dos negros escravizados e seus descendentes dentro de uma sociedade construída sob a violência da escravidão. Quantos iam para o tronco no dia seguinte, por ter feito algo que o coronel não gostou? Nísia Floresta era um lugarejos emoldurado de engenhos.

As antigas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos surgiram justamente porque os negros eram frequentemente impedidos de participar plenamente das irmandades controladas pelas elites brancas. Criaram então suas próprias confrarias religiosas, dedicadas especialmente a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. Dentro dessas irmandades havia auxílio mútuo, organização social; ajuda para enterros, proteção espiritual, acolhimento comunitário, preservação das heranças africanas. Certa vez, num momento informal em que estavam diversos folcloristas em Natal, após uma reunião da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, ouvimos a presidente de honra, Anna Maria Cascudo Barreto contando que por inúmeras vezes, altas horas da noite, ou no nascer do dia, Câmara Cascudo era acordado por pretos, desesperados, pedindo que ele fosse até a delegacia, soltar diversos brincantes de alguma manifestação folclórica que tinham sido presos. Um Bambelô, um Coco, Um Zambê era considerado “arruaça”. E lá ia Cascudo conversar com o delegado que, muitas vezes a contragosto, mas por respeito ao sábio doutor, acedia. Já imaginou isso?

Quando aluno de Artes, na UFRN, estudei amplamente e cheguei a assistir os festejos dessa festa em Caicó, onde sempre existiram, assim como em Acari, Jardim do Seridó, Currais Novos, Parelhas, Serra Negra do Norte, Natal e também em Papary, onde foi extinta, embora não sei precisar a data, mas com certeza durou muito tempo, a considerar que, se era forte no período da escravidão, imaginem após a abolição. Mas não há registros específicos nem na Matriz de Nossa senhora do Ó, nem na Arquidiocese de Natal. Mas com certeza essas festas deixaram marcas profundas.

A partir do conjunto de narrações que me foram feitas pelas pessoas acima mencionadas, soube que os preparativos começavam muitos dias antes da abertura oficial da festa. A igreja era cuidadosamente limpa. Caiavam-se paredes eventualmente. Ornamentavam-se altares com flores, velas, toalhas bordadas e fitas coloridas. Restauravam-se coroas, estandartes, bastões e lanternas utilizados nos cortejos. As mulheres passavam dias preparando comidas: canjicas, pamonhas, milho assado, aluá, gengibirra, bolos e doces diversos.

Em depoimento recolhido em Tororomba a narradora mencionou o aluá, uma bebida que os escravos preparavam na Festa de Nossa Senhora do Rosário, conforme contavam seus avós: “o aluá era uma bebida doce, feita nuns aguidar, nuns potes grandes de barro. O povo fazia com casca de abacaxi, açúcar e às vezes botava gengibre. Ficava fermentando e depois serviam bem friinho, naquele tempo não tinha essas geladeira. Na festa do Rosário tinha muito. O povo saía da procissão cansado, depois das farra toda, das danças, e ia beber aluá nas barracas. Já a gengibra (gengibirra) era mais fortezinha de gosto, ardia por causa do gengibre. O povo dizia que esquentava os bofe e dava alegria pra aguentar a festa até de madrugada...”

 Ainda sobre o mesmo assunto, numa montagem da colcha de retalho da cultura popular local, numa conversa na calçada da Matriz, indaguei sobre tal assunto o senhor Manoel Salvador, mestre de Pastoril, Lapinha e Boi de Reis. Segundo ele “Essa festa da escravaiada era festa grande demais... Depois da celebração tinha barraca de tudo quanto era comida, mas o que o povo procurava mesmo era aluá e gengibrina (gengibirra) por causa do álcool. O aluá ficava nos potes cobertos com pano. Era doce e refrescava a pessoa depois do batuque. Já a gengibirra era diferente... tinha gengibre forte, fazia até o nariz da gente arder. Minha avó dizia que negro velho gostava de tomar   gengibrina (gengibirra) escutando caixa e tambor na noite do Rosário. E o povo bebia rindo, conversando, dançando, enquanto a festa seguia pela madrugada inteira... pense num povo pra dançar, Luís Carlos, é, assim meus avós diziam...”

Nesses depoimentos observei que a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos pode ter virado o milênio e resistido até as primeiras décadas do século XX, pois muitas informações estavam claras nas mentes de algumas pessoas. Obviamente que essa “reconstituição” que faço é parte de vários depoimentos, são fragmentos que me foram contados – ou catados aqui e ali – permitindo-me entender a beleza dessa festa cat´olica. tendo em vista que nem  Inclusive não consigo entender a sua extinção.

Em termos da organização da festa, os homens preparavam mastros, ensaiavam os toques das caixas, afinavam tambores e preparavam os pífanos. O centro da vila mudava completamente. Famílias inteiras vinham dos engenhos, sítios e localidades vizinhas a pé apenas para assistir à Festa do Rosário. Mas nem todos. A maioria dos senhores de terras não viam com bons olhos. As casas eram enfeitadas com toalhas nas janelas e pequenas bandeiras coloridas.

Dona Estelita Oliveira relatou:

- “Vovó contava que quando o Rosário chegava, parecia que Papary acordava diferente. Ainda antes do amanhecer começava a alvorada... O povo despertava ao som dos sinos, dos foguetes, dos tambores, das bandas de música, dospífanos... Os negros saiam pelas ruas daqui do centro dizendo que a festa já estava começando... os tambores podiam ser ouvidos de muito longe.”.

Sr. Manoel Salvador relatou:

“As novenas eram o coração da festa. Todas as noites rezavam o terço. Cantavam ladainhas em latim. O padre fazia o sermão dele e depois realizava a bênção do Santíssimo Sacramento. A igreja ficava iluminada por velas e o lampadário, aqueles tocheiros todos acesos... devia ser lindo, né!”.

Dona Joaninha, de Tororomba, relatou que:

- “As mulheres vestiam roupas especiais, feitas de um tecido chamado baeta, era assim que eu ouvi de vovô. Também usavam muito o algodão cru e roupas de sacaria. Os homens iam de paletó. Muitos pagavam promessas à santa. Depois das novenas tinha o leilão. Era parecido como faziam até pouco tempo quando a festa da padroeira Nossa Senhora do Ó era mais animada... Nesses leilões tinha de tudo: galinhas, carneiros, bolos, doces, ponche, garrafas de bebida alcoolica, coisas que eram ofertadas pra santa, prendas doadas pelas famílias.

Sr. Manoel Salvador relatou:

“Esses leilões era para garantir a irmandade do Rosário dos Pretos e ajudar nos festejos do outro ano. A missa do Rosário era bem solene. Durante anos ela foi celebrada em latim. A irmandade entrava em procissão, depois vinham os estandartes... tinha incenso, coro religioso (trepado naquela parte alta da igreja) banda musical e toque dos sinos durante a elevação da hóstia. Eram quatro sinos, Luís Carlos. A celebração era parecida com hoje. Os irmãos do Rosário ocupavam lugar especial dentro da igreja. Mas só nessa festa. Eles ficavam nessa banda de cá (ele narrou isso de costas para a Matriz). E nessa festa existiam cargos, era de muito respeito e parecia que era verdade mesmo. Tinha o rei, a rainha, o juiz, a juíza, o tesoureiro, oescrivão, os capitães, os porta-estandarte... O rei e a rainha do Rosário era respeitado como qualquer rei desses países aí que tem rei..”

Pois bem, é justamente nesse contexto que emerge uma das figuras mais extraordinárias da história negra de Papary: o escravizado Miguel Rei. As narrativas preservadas entre os antigos moradores associam Miguel Rei às antigas festas do Rosário dos Pretos, embora sr. Manoel Salvador não o mencionou. Ouvi seu nome no Porto e em Tororomba. Era um homem preto, alto, corpulento e de grande liderança, profundamente respeitado entre os escravizados da região, Miguel aparecia nos cortejos acompanhado de sua companheira festiva, a Rainha Amélia. Ambos integravam aquela simbólica corte negra – nos moldes típicos de quando vemos, por exemplo, a família real britânica, pois, segundo os relatos, eles usavam vestes reais, com manto, coroa e tudo mais – e que tanto impressionava a população da época.

Mas - num aparte - Miguel Rei foi muito mais do que personagem dos festejos religiosos. Ele protagonizou um dos primeiros e mais importantes levantes contra a escravidão no Rio Grande do Norte no período entre 1860 a 1870, tendo Papary como cenário desse acontecimento histórico ainda pouco estudado pela historiografia potiguar (Já contei essa história em alguns textos mais antigos neste mesmo blog).

Num mundo sustentado pela violência escravista, Miguel ousou insurgir-se contra a ordem dominante. Seu gesto tornou-se um dos primeiros grandes gritos de resistência negra em terras potiguares. Por isso, defendo que Miguel Rei deve ser lembrado não apenas como figura lendária das festas do Rosário, mas como personagem histórica fundamental da luta negra no Rio Grande do Norte, digno de um monumento na cidade.

Mas, continuando sobre a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos pretos, as coroações do rei e da rainha constituíam um dos momentos mais emocionantes da festa (o que não difere do presente). Tanto dona Luci quanto o Sr.Manoel Salvador relataram que os reis utilizavam coroas, capas, bastões, espadas ornamentadas, faixas coloridas. As rainhas usavam mantos, flores, véus, joias simbólicas.

E, afinal, por que reis e rainhas num universo de pretos? A pergunta parece racismo estrutural, mas não. A história apagou fatos precisosos - embora dolorosos - da História. Embora não me recordo o nome no momento, mas, dentre outros episódios interessantes, passados em terras potiguares, há um muito curioso em Macaíba, onde houve uma princesa africana trazida do continente africano, roubada como objeto, juntamente com outros pretos comuns. Essa realeza ainda era, de certo modo, fresca na mente dos escravizados, os quais expressavam sua cultura nesse evento. Tudo aquilo representava a memória dos antigos reinos africanos do Congo e Angola e simbolizava dignidade negra dentro de uma sociedade escravista profundamente desigual. Certamente isso era visto na velha Papary com grande indiferença. Se hoje alguns se surpreendem quando se sabe que alguns escravizados vindos para o Brasil pertenciam às famílias reais de seus lugares, imagine àquela época. Mas obviamente que nem todos desconheciam e desconhecem isso.

Quando fazemos um voo imaginário nessa região compreendo principalmente Nísia Floresta, São José de Mipibu, Goianinha, Canguaretama, Santo Antônio do Salto da Onça, Lagoa Salgada, Ceará Mirim, principalmente - e constatamos arcaicas expressões folclóricas como as danças Bambelô, Coco, Zambê, Pau Furado e outras (todas de raízes africanas) - entendemos porque ainda resistem essas danças ainda com muitas características. Recordo-me quando, em 2005, eu e meu primo Amauri Freire, também Folclorista, quando fundamos com outras pessoas a Fundação Cajupiranga, encontramos um tesouro chamado Mestre Paraguai. Desde os 5 anos de idade ele animou o Bambelô de São José de Mipibu e Nísia Floresta com seus pais que também organizavam essa brincadeira. Mestre Paraguai, hoje falecido, era preto tisnado. Sentado a seu lado, acompanhado de um pau furado que tinha mais de 50 anos, mantido consigo, ele cantava suas loas, praticamente escandia as sílabas para que eu entendesse bem seus versos típicos do bambelô e os copiasse. E assim salvamos esse tesouro da extinção. Até hoje é vivo na mesma instituição em São José de Mipibu.

Enfim, quanto a festa, encerrada a parte litúrgica começavam os batuques e danças. E aqui as narrativas populares tornam-se especialmente ricas. Falava-se justamente do bambelô, dos cocos, dos batuques em roda, das palmas ritmadas, dos cantos responsoriais, das danças de cortejo. Os tambores comandavam tudo. O batuque não era mero entretenimento. Era oração corporal. Era memória africana. Era resistência cultural. Era orgulho para que os opressores os vissem como reis, como autoridades tanto quanto eles. Os participantes formavam rodas. Havia sapateados, improvisos corporais, dança circular e movimentos ritmados.

O coco aparecia frequentemente após as procissões e durante os encontros noturnos. Possuía sapateado forte, cantos improvisado, palmas ritmadas e grande participação coletiva. Inclusive de não escravizados que entravam no contagiante ritmo. Já o bambelô preservava fortes elementos africanos de musicalidade e corporalidade. Em algumas regiões do Seridó destacava-se também o espontão, dança ritual marcada por bastões e movimentos coreográficos. As procissões eram grandiosas, compostas pelas irmandades, por crianças vestidas de anjos, músicos, devotos pagando promessas, reis e rainhas do Rosário, carregadores do andor.

A imagem de Nossa Senhora do Ros´rio - e de São Benedito - desciam de seus nichos e percorriam lentamente as ruas da vila sob intensa emoção popular. Muitas casas acendiam velas nas janelas. Outras montavam pequenos altares diante das portas. A procissão era animada por fogos, rezas, cânticos, choros, bandas tocando canções religiosas. Em certos momentos os negros dançavam durante a própria procissão, conforme me contou a esposa do Sr. Cupiro. Terminada a parte religiosa começava a grande festa popular.

A Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos acontecia em outubro; era regada a comes e bebes típicos, inclusive algumas peculiaridades como a gengibirra e o aluá, mas obviamente que havia muita semelhança com o presente em termos de assados e iguarias e doces comuns. Inclusive um hábito muito antigo e que ainda alcancei – e que não vejo mais - eram pontos de venda de pitomba e cana de açúcar fincada em pequenas estacas de bambu ou gravetos. As bandas elegravam a parte social com dobrados, valsas, polcas, emboladas e cocos. Com certeza havia outras facetas da festa, como brincadeiras, foguetórios, por exemplo, mas não ouvi de ninguém tal informação.

Manoel Salvador certa vez comentou comigo:

— “Seu Luís, o povo dizia que naquela festa tinha reza e tinha alegria. O Rosário dos Pretos era sofrimento virando canto.”

Os padres observavam aquelas manifestações com sentimentos variados. Creio. Muitos apoiavam as irmandades negras e reconheciam sua importância espiritual e social entre escravizados e libertos. Outros demonstravam desconforto diante dos batuques e danças consideradas excessivamente profanas ou “barulhentas”, assim como narrei o episódio que ouvi de Anna Cascudo. Entretanto, alguns sacerdotes que exerceram o sacerdócio em Papary destacaram-se por posições humanitárias e, em certos casos, abolicionistas.

Entre eles figuram padres mencionados nas pesquisas reunidas no meu texto “Os Sacerdotes de Papari”, publicado no blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, onde faço referências a religiosos que, em determinados momentos, intercederam em favor de escravos perseguidos, acolheram negros e demonstraram sensibilidade diante da brutalidade da escravidão.

Temos também o Padre João Maria Cavalcanti de Brito, uma das figuras mais extraordinárias do clero potiguar oitocentista. Sua atuação profundamente comprometida com a causa abolicionista. Ele não apenas discursava contra a escravidão. Sua ação ultrapassava os limites do púlpito. Ele ajudou escravos a fugirem das senzalas, utilizou sermões para conscientizar a população sobre a necessidade de respeito aos negros libertos e chegou a exigir das autoridades o cumprimento efetivo da Lei Áurea. Seu pensamento possuía rara sensibilidade social para a época. Defendia publicamente que os negros deveriam ser tratados como cidadãos livres e iguais aos brancos. Criticava antigos escravocratas que se recusavam a aceitar a liberdade dos ex-escravizados e utilizava jornais e homilias para denunciar injustiças sociais. Além disso, Padre João Maria fundou escola para crianças pobres, socorreu doentes e desenvolveu amplo trabalho assistencial junto às populações mais humildes. Sua figura adquire relevância ainda maior quando imaginamos aquele sacerdote convivendo com o universo das antigas festas do Rosário dos Pretos, onde fé católica e permanências africanas se encontravam sob os sons dos tambores e das caixas.

A história norte-rio-grandense destaca, por exemplo, o Padre Francisco de Brito Guerra - figura de grande importância intelectual e política do Rio Grande do Norte - e outros sacerdotes ligados à antiga freguesia de Papary, alguns dos quais conviveram diretamente com o ambiente social das antigas festas do Rosário dos Pretos. Não é difícil imaginar certos padres observando, da porta da igreja, aquela impressionante mistura de catolicismo barroco, devoção popular e permanências africanas. E aqui é impossível não recordar a maior intelectual nascida naquela terra: Nísia Floresta Brasileira Augusta. Muito antes da abolição oficial da escravidão, ela já denunciava desigualdades sociais e defendia princípios profundamente humanitários. Primeira mulher abolicionista do Brasil, autora de quinze livros, produziu obras fundamentais como Opúsculo Humanitário e A Lágrima de um Caeté, textos de avançadíssimo pensamento social e político para o século XIX.

Outro nome profundamente importante foi o de Dom José Pereira da Silva Barros, bispo explicitamente identificado nas pesquisas como abolicionista. Durante sua atuação pastoral no Rio Grande do Norte, Dom José realizou discursos públicos contra a escravidão, defendeu a emancipação dos negros e afirmou que a Abolição constituiria “o maior presente que o Brasil poderia dar a Deus e ao Papa”. Em uma cerimônia histórica libertou solenemente vinte e dois escravos, gesto de enorme repercussão moral numa sociedade ainda escravista. Sua visita a Papary, em 1882, causou grande impacto entre a população local. Dom José integrava aquele setor progressista do clero brasileiro que compreendia a incompatibilidade entre cristianismo autêntico e escravidão humana. As pesquisas mencionam ainda outros sacerdotes ligados ao movimento abolicionista potiguar.

O Padre Pedro Soares de Freitas aparece associado às articulações emancipatórias em Carnaúba. O Padre Amaro Teoth Castor Brasil surge vinculado aos movimentos libertários em Caicó. O Padre Antônio Germano Bezerra é citado no contexto abolicionista do Açu. O Padre Estevão José Dantas aparece relacionado às campanhas emancipatórias em Macaíba. Já o Cônego Gregório Ferreira Lustoza surge associado às ações abolicionistas em São José de Mipibu, enquanto o Vigário Pedro Raposo da Câmara aparece ligado às campanhas libertárias em Ceará-Mirim. Todos esses nomes revelam algo extremamente significativo: uma parcela importante do clero potiguar não permaneceu indiferente à tragédia da escravidão. Alguns acolheram negros perseguidos. Outros intercederam em favor de escravizados. Muitos utilizaram sermões, jornais e homilias como instrumentos de denúncia moral contra o cativeiro. Todo esse contexto ajuda a compreender melhor o universo das antigas Festas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Papary.

Era justamente essa fusão entre fé católica, memória africana e resistência negra que tornava as festas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos tão grandiosas em Papary. Hoje, infelizmente, restam poucas marcas materiais daqueles festejos. Certamente os santos pretos que resistem nos nichos da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó e nada mais. Não fosse a História Oral, jamais teria sido possível estampar esse cenário visual, portanto louvo as pessoas aqui mencionadas e tantas outras, cujos meus grafites tão manchados não me permitem mais ler seus nomes.

Restaram fragmentos, ruínas silenciosas e as vozes dos mais velhos. Mas quando escutamos atentamente as narrativas de Manoel Salvador, dona Estelita Oliveira, da família Cupiro e da senhora Joaninha e os demais, cujos nomes estão inelegíveis, ainda parece possível ouvir, ao longe, os tambores do Rosário ecoando pelas antigas ruas de Papary.

REFERÊNCIAS

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

CASCUDO, Luís da Câmara. Made in Africa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

FREIRE, Luís Carlos. “Miguel Rei: o primeiro escravizado a gritar contra a escravidão em Nísia Floresta”. Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, Nísia Floresta/RN.

FREIRE, Luís Carlos. “Os Sacerdotes de Papari”. Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, Nísia Floresta/RN.

FREIRE, Luís Carlos. “Vila Imperial de Papary - A visita do bispo Dom José - 1882”. Blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, Nísia Floresta/RN.

MOURA, Clóvis. Os Quilombos e a Rebelião Negra. São Paulo: Brasiliense, 1981.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA. Opúsculo Humanitário. Rio de Janeiro: Typographia de F. de Paula Brito, 1853.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA. A Lágrima de um Caeté. Rio de Janeiro: Typographia de L. A. F. de Menezes, 1849.

Registros orais pertinentes à Festado Rosário dos Pretos, recolhidos pelo autor junto à senhora Estelita Oliveira, família Cupiro, senhora Joaninha e senhor Manoel Salvador, povoado do Porto/Tororomba, Nísia Floresta/RN, entre 1992 a 1994.