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| Baobá de Nísia Floresta, ilustrando um material didático proposto pela SEMEC de Nísia Floresta em 2004 |
Ontem escrevi sobre o baobá de Nísia Floresta, detendo-me especialmente na questão de quem teria sido, de fato, o Moura responsável por plantá-lo. Para não transformar aquele texto em mais um dos longos escritos que costumo produzir, deixei para hoje uma outra dimensão dessa história: a lenda. E não se trata de qualquer lenda. Trata-se de uma narrativa que, além de atravessar gerações da antiga Papary, foi registrada por um dos maiores estudiosos da cultura popular brasileira, Luís da Câmara Cascudo. É justamente aí que a história começa a ficar ainda mais fascinante.
A partir de 1992, passei a desenvolver um trabalho de História Oral em Nísia Floresta. Fui atrás das memórias que ainda sobreviviam na voz dos mais antigos: histórias de família, costumes, acontecimentos, crenças, lugares, personagens, festas, tragédias e lendas. Priorizei, sobretudo, pessoas idosas. Assim, tive a oportunidade de conversar com homens e mulheres que ultrapassavam os 90 anos e também com pessoas centenárias. Era, de certa maneira, uma corrida contra o tempo, porque quando uma pessoa muito idosa morre, não desaparece apenas uma vida: muitas vezes desaparece uma biblioteca inteira. Foi nesse universo de memórias que encontrei também as narrativas sobre o baobá.
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| A lenda, conforme escrevi (Continua abaixo)... |
Em 2004, a Secretaria Municipal de Educação de Nísia Floresta, através da professora Ana Maria Barros de Carvalho, organizou um pequeno opúsculo destinado às escolas. O material reunia um dicionário da Língua Portuguesa e uma síntese de informações sobre o município. Pequeno em tamanho, mas grande em propósito, funcionava quase como um pequeno livro didático, reunindo conhecimentos que poderiam servir de referência às crianças e aos jovens do munic´pio, parte esta confiada a mim. Nesse material registrei a “Lenda do Baobá”, procurando reproduzi-la da maneira como a ouvi. Não pretendia, naquele momento, fazer uma reconstrução acadêmica da narrativa. Registrei aquilo que sobrevivia na memória coletiva. Havia, inclusive, limite de espaço para a publicação, razão pela qual selecionei as lendas clássicas. Hoje, porém, olhando para aquela narrativa com outros olhos, percebo que o baobá de Papary pode nos conduzir a uma reflexão muito maior.
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Numa de suas Actas Diurnas, Câmara Cascudo (1941), escreveu sobre o baobá de Papary de maneira extraordinariamente poética. Ao imaginar a reação de um botânico diante daquela árvore monumental, perdida na paisagem de uma pequena cidade nordestina, Cascudo descreve o estranhamento diante de uma espécie que não pertencia originalmente à flora brasileira. O baobá é uma árvore profundamente ligada ao continente africano, especialmente a Adansonia digitata, espécie cuja presença natural está associada às regiões tropicais e meridionais da África. E é justamente por isso que a presença de um baobá em Papary não pode ser vista apenas como uma curiosidade botânica. Ela é também uma pergunta histórica. Como uma árvore tão profundamente africana chegou até aqui? Não há como não perguntarmos isso. Inclusive foi a pergunta que fiz quando a conheci.
Cascudo oferece uma resposta baseada na tradição local. Segundo o relato por ele registrado, José de Araújo teria recebido uma semente e a entregue a Manuel José de Moura, que a teria plantado em Papary por volta de 1870. Mas Cascudo vai além. "(...) E como apareceu esse Baobá em Papari? José de Araújo, antigo chefe político de Papari, trouxe a metade de uma semente e presenteou-a a Manuel José de Moura. Este, mais ou menos ao redor de 1870, plantou-a na praça silenciosa. E o Baobá nasceu." (1941) Ele menciona a existência de outro baobá em Olheiros, próximo de Tororomba, e registra uma tradição segundo a qual aquela árvore teria se originado de uma semente trazida por um negro escravizado, clandestinamente desembarcado nas proximidades. E é nesse ponto que a narrativa deixa de ser apenas botânica. Ela passa a ser humana. Passa a ser africana. Passa a ser memória. Cascudo conclui seu texto com uma imagem de enorme força: o baobá de Papary como uma espécie de “pegada da África”. Talvez seja exatamente essa a expressão que devemos guardar.
A lenda que registrei no início da década de 90 diz que um africano teria trazido consigo uma semente do baobá. Pensemos, por um instante, na dimensão humana dessa imagem. Um homem arrancado de sua terra, separado de sua família, trazido para um continente desconhecido e transformado em mercadoria por um sistema econômico que reduzia seres humanos à condição de propriedade. E, no meio de tudo isso, carregando consigo uma semente. Uma coisa aparentemente pequena, quase insignificante, mas que continha uma árvore inteira. Uma árvore da sua terra. Uma árvore da sua memória. Uma árvore de seu povo e, superando todas essas condições: uma árvore sagrada, quase mágica.. Se a tradição estiver correta, aquele homem talvez não soubesse se voltaria algum dia à África. Talvez não soubesse sequer onde terminaria sua própria vida. Mas poderia ter levado consigo aquilo que lhe era possível transportar: uma semente da paisagem que havia deixado para trás. E essa semente teria encontrado chão em Papary. O que seria, então, essa árvore? Somente uma árvore? Ou uma espécie de monumento vivo à presença africana em Nísia Floresta?
Não devemos romantizar essa história. A antiga Papary estava inserida numa sociedade escravista. A documentação histórica demonstra a presença de pessoas escravizadas na região e revela episódios diretamente relacionados ao tráfico ilegal de africanos. Isso muda a maneira como devemos olhar para a velha Papary. Não estamos falando apenas de uma cidade onde existiram escravizados. Estamos falando de um território que participou das redes econômicas e humanas da escravidão e que também recebeu africanos trazidos ilegalmente para o Brasil. E aqui a narrativa do baobá ganha uma dimensão ainda mais perturbadora. Porque Cascudo fala de uma árvore, a documentação histórica nos fala de africanos e a memória oral nos fala de um homem que teria trazido consigo uma semente. Talvez sejam histórias diferentes. Talvez sejam a mesma história vista de ângulos diferentes. Talvez nunca consigamos provar completamente a ligação. Mas é justamente nessa fronteira entre documento, memória e tradição que nasce uma das histórias mais fascinantes de Nísia Floresta.
Há ainda outra questão que sempre me chamou a atenção durante minhas pesquisas de História Oral. Em Tororomba e no Porto existem famílias negras antigas, algumas delas de pele muito retinta, tão preta que brilha, cuja característica atravessou gerações e estão ali, intactos, como se tivessem chegado ontem de seus países africanos. Isso, evidentemente, não permite afirmar, apenas pela aparência física, uma descendência específica. A genealogia não pode ser construída somente pela cor da pele. Seria necessário recorrer a registros de batismo, casamento, óbito, inventários, cartas de alforria, documentos de propriedade, registros judiciais e outras fontes capazes de reconstruir essas linhagens. Mas a pergunta histórica permanece. Quem eram essas pessoas? De onde vieram seus antepassados? Quais histórias carregaram? Quantas gerações permaneceram naquele território? E, sobretudo, será que entre essas famílias existem descendentes daqueles africanos que chegaram à velha Papary durante o período escravista? Alguns deles são descendentes do escravo que plantou o baobá de Olheiros? Essa é uma pergunta que merece investigação. Não uma afirmação precipitada, mas uma investigação séria, paciente e documental. Porque a história de um povo não está apenas nos documentos oficiais. Ela também está nos sobrenomes, nos lugares, nos modos de falar, nas festas, nas crenças, nos silêncios e nas histórias que os mais velhos contavam quando os historiadores ainda não haviam chegado.
Há uma coincidência simbólica difícil de ignorar. O baobá é uma árvore associada à África. Papary foi uma sociedade escravista. É berço de grandes engenhos. Existem registros documentais da presença de africanos e descendentes de africanos em Papary. Existe uma tradição oral sobre um africano que teria trazido uma semente do baobá. Câmara Cascudo registrou essa tradição. O baobá de Olheiro morreu. E, no presente, o baobá do centro do município continua de pé. Assim, a árvore que um dia poderia ter sido apenas uma curiosidade exótica transformou-se numa espécie de árvore genealógica da própria paisagem. Uma semente. Depois uma árvore. Depois outras árvores. E, ao redor delas, histórias. É possível que a lenda tenha nascido de um fato real. É possível também que, com o passar das gerações, um acontecimento histórico tenha adquirido os contornos da mitologia. Mas isso não diminui sua importância. Pelo contrário. Às vezes, a lenda é aquilo que restou quando o documento desapareceu.
Gosto de imaginar aquela semente. Não como um simples objeto botânico, mas como uma pequena cápsula de memória. Ela poderia ter vindoda África. Poderia ter atravessado o Atlântico nas condições mais brutais da história humana. Poderia ter sido escondida, guardada ou simplesmente carregada. E, depois de tudo, encontrou terra em Papary. A África, que havia sido arrancada de um homem, teria voltado a nascer pelas suas mãos. Não seria mais apenas África. Seria África em Papary. África em Tororomba. África no Porto. A África no cenrro da cidade. África na memória de seus descendentes. África transformada em árvore. É por isso que, quando olhamos para o baobá de Nísia Floresta, talvez não devamos enxergar somente seu tronco gigantesco, suas raízes ou sua copa. Devemos tentar enxergar o que ele pode estar dizendo. Porque árvores também testemunham. E algumas testemunham durante séculos.
O baobá de Papary pode ser, portanto, muito mais do que uma árvore africana plantada em território potiguar. Pode ser uma memória viva de homens e mulheres africanos que passaram por esta terra, sofreram nesta terra, trabalharam nesta terra, constituíram famílias nesta terra e deixaram descendentes nesta terra. Câmara Cascudo viu naquele baobá a “pegada da África”. Talvez seja essa a melhor maneira de compreendê-lo: uma pegada que não desapareceu, uma pegada que criou raízes, uma pegada que cresceu, uma pegada que atravessou gerações e que, ainda hoje, permanece de pé.
Talvez a lenda não seja apenas uma história sobre uma árvore. Talvez seja a história de uma árvore que guardou, por mais de um século, aquilo que a história dos homens quase conseguiu apagar. E talvez seja justamente por isso que o baobá de Nísia Floresta mereça ser olhado não apenas como patrimônio natural, mas como um possível testemunho vivo da presença africana na velha Papary. No fim, talvez a pergunta mais bonita não seja sequer quem plantou o baobá. Talvez seja outra: quem foi o homem que um dia trouxe consigo uma semente da África e, sem saber, deixou plantada em Papary uma árvore que continuaria contando a sua história muito depois que ele próprio desaparecesse?


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