ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

domingo, 30 de agosto de 2026

O CASAMENTO DO MEU TIO-BISAVÔ, ALFERES JOSÉ THOMAZ DE MAGALHÃES FONTOURA E DONA AMÉLIA MARTINS PEREIRA EM 1893...


O CASAMENTO QUE DESATOU UM NÓ GENEALÓGICO.

Entre os documentos que me ajudaram a reconstruir a história da família, alguns têm um valor especial, como esse, cuja transcrição paleográfica se fiz há pouco mais de um mês. Afirmo isso porque um material desse porte permite esclarecer relações que, à primeira vista, poderiam passar despercebidas e revelam inúmeras informações preciosas, como veremos. Nesse caso, analiso a certidão de casamento, registrada no Rio de Janeiro em 30 de julho de 1893. O documento registra o casamento do meu tio-bisavô Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura, então com 38 anos de idade, natural do Estado do Rio Grande do Norte, militar e residente no Rio de Janeiro. O registro declara expressamente que ele era “filho legítimo de José Thomaz de Magalhães Fontoura e Maria Joconda Belmiro”, meus trisavós.

A informação é preciosa porque, à primeira vista, o nome do noivo poderia levar a uma identificação equivocada. O José Thomaz de Magalhães Fontoura (1868–1945), que aparece neste assento de 1893, não é o mesmo José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913). O que ocorre, nesse caso, é um filho que tem o mesmo nome do pai. Ambos são José Thomaz de Magalhães Fontoura.

José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913) era casado com Maria Jucunda Belmiro (1835–...), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo, mãe de Nísia Floresta. Entre os filhos desse casal estava Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950), minha bisavó, que se casou com Abel Gomes Peixoto. Dessa união nasceu José Gomes Peixoto (1889–1958), que, por sua vez, foi pai de minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932).

Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura e Maria Jucunda Belmiro, meus trisavós, são pais de:

· Maria Clara de Magalhães Fontoura (minha bisavó)

· Josefa Cecilia Fontoura Peixoto

· João Romão de Magalhães Fontoura

· José Thomaz de Magalhães Fontoura

· Romualdo Fontoura Pereira

· Claudina Alexandrina Fontoura Castro

· João Gualberto Fontoura

· Maria Senhorinha Fontoura

· Atanásio de Magalhães Fontoura

· Ana Amélia Fontoura Cordeiro

· Francisco Thomaz de Magalhães Fontoura

· Candido de Magalhaes Fontoura

José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913) e Maria Jucunda Belmiro tiveram, segundo o levantamento genealógico familiar, doze filhos, entre eles, minha bisavó Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura e meu tio-avô Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura, que se casou no Rio de Janeiro, em 1893. É justamente aí que está o significado genealógico da certidão de casamento que veremos abaixo. Maria Clara e José Thomaz eram irmãos e, portanto, ambos trinetos de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo, mãe de Nísia Floresta. Como Maria Clara integra a linha direta da minha ascendência, José Thomaz era meu tio-bisavô. Na direção inversa, eu, Luís Carlos Freire, sou sobrinho-bisneto de José Thomaz de Magalhães Fontoura e tetraneto de Francisca Clara Freire do Revoredo.

A certidão de 1893 vem, assim, acrescentar uma importante evidência documental à reconstrução familiar, contribuindo especialmente para distinguir os dois José Thomaz de Magalhães Fontoura, pai e filho, que viveram em gerações sucessivas e receberam o mesmo nome. O documento também chama atenção por identificar o noivo como “Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura”, isto é, por registrar sua condição militar. Esse detalhe é particularmente significativo, pois permite confrontar a informação com outros registros históricos e ajuda a individualizar o personagem dentro de uma família na qual o nome José Thomaz de Magalhães Fontoura se repete entre gerações. Assim, esta certidão de casamento, além de registrar a união de José Thomaz de Magalhães Fontoura e Amélia Martins Pereira, realizada no Rio de Janeiro em 30 de julho de 1893, revela uma informação genealógica de grande importância: o noivo era filho de José Thomaz de Magalhães Fontoura e Maria Jucunda Belmiro e, consequentemente, irmão de Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto.

Cabem neste texto três importantes informações – duas delas localizadas na própria certidão de casamento – outra que integra as informações passadas de pais para filhos no seio da nossa família. Tais informações soam como curiosidade se analisadas aos olhos das leis atuais. Vejamos: o noivo, José Thomaz de Magalhães Fontoura, tinha 38 anos de idade, enquanto Amélia Martins Pereira tinha 16 anos. Havia uma diferença de 22 anos. Agora vejamos essa outra informação. Minha bisavó Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto – irmã de José Thomaz de Magalhães Fontoura – tinha 12 anos de idade quando se casou – em 1873 – com o meu bisavô José Abel Peixoto, tendo o mesmo 28 anos de idade, numa diferença de 16 anos. Em outras palavras: o irmão se casaria com uma adolescente e veria no futuro sua irmã – pré-adolescente – se casar com um homem também mais velho. Por mais que isso soe esquisito nos dias atuais e seja inadmissível – perante a lei – era muito comum naqueles tempos.

A outra informação diz respeito ao fato de José Thomaz de Magalhães Fontoura ter se casado no Rio de Janeiro, sendo do Rio Grande do Norte, mas convém aqui uma observação que também corre no seio dos próprios antepassados. Ele era trineto de Francisca Clara Freire do Revoredo e sabe-se que muitos da família migraram para o Rio de Janeiro, onde deixaram descendência. Julgo também necessário – já que citei o caso do casamento precoce de minha bisavó – aos 12 anos – Abel Gomes Peixoto, seu marido, foi oficialmente nomeado Alferes da Guarda Nacional em 16 de outubro de 1905, por decreto do Poder Executivo, cuja publicação ocorreu no Diário Oficial de 24 de outubro de 1905.

Mais do que um simples registro de casamento, portanto, esta certidão ajuda a resolver um problema recorrente nas pesquisas genealógicas. O primeiro fato é distinguir pessoas de gerações diferentes que têm o mesmo nome e que, se chegarem aos olhos de alguém que não tem muito conhecimento da genealogia da família, podem gerar muita confusão. Neste caso, o documento de 1893 nos permite separar o José Thomaz de Magalhães Fontoura pai de seu filho homônimo e, ao mesmo tempo, acrescentar mais uma peça à reconstrução da história da família. Outro detalhe bastante interessante se refere ao fato de pessoas que, em documentos diferentes, tiveram seus nomes escritos nas mais variadas formas e que, da mesma forma, se manipulados por quem desconhece a genealogia da família, podem gerar muitos equívocos. Cito, inclusive, o caso de Maria Jucunda Belmiro (minha trisavó), a qual já li em documentos e manuscritos da própria família como as seguintes versões: Maria Gioconda de Belmiro, Maria Gioconda Belmiro, Maria Joconda Belmiro Peixoto, Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, Maria Grillo e Maria Zulmira Fontoura. Observem a confusão... Mas isso era muito comum no passado. Hoje isso não mais ocorre.

Enfim, o estudo de certidões de casamento, óbito, nascimento, os inventários e demais documentos oficiais funcionam como solo que esconde tesouros necessitados de conhecimento genealógico, paleológico e, por que não, arqueológico...

Eis a certidão...

1170 - RIO DE JANEIRO - REGISTRO DE CASAMENTOS 1893 (TRANSCRIÇÃO PALEOGRÁFICA FEITA POR LUÍS CARLOS FREIRE)

Aos trinta dias do mês de julho de mil oitocentos e noventa e três nesta capital a  sala da Casa da Ladeira do Senado número nove, aonde foi vindo o doutor José Ovídio Marcondes , ahí pretor desta .............. Pretoria, chamado para auxiliar os trabalhos da Pretoria comigo escrivão de seu cargo ahi presentes às quatro horas da tarde os nubentes e as testemunhas abaixo assignados pelos devidos ...... Pretos foram feitas aos nubentes as perguntas na forma da lei aos quaes elles responderão satisfatoriamente, e para declarar todas as formalidades legaes foram realisadas em matrimonio Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura, natural do estado do Rio Grande do Norte, de trinta e oito annos de idade, militar, morador a na Casa acima, filho legitimo de José Thomaz de Magalhães Fontoura e Maria Joconda Belmiro, com a Dona Amelia Martins Pereira, natural desta capital, solteira, moradora na mesma Casa, de dezesseis annos de idade, filha legitima de Francisco Martins Pereira e Roza Herculana de Sarmento, sendo o nubente solteiro e o casamento pelo regime communhão e de tudo para constar lavrei o presente termo depois que o Juiz desta Pretoria ......................... Casados e depois de tudo assignão com o Juiz e as testemunhas Francisco Martins Pereira, natural de Portugal, casado, negociante, morador à rua Frei Caneca número cento e vinte e seis e assignão também as pessoas presentes ao Acto de Celebração do Casamento. Eu, Manoel Joaquim da Silva ......................

José Orélio Marcondes Romeiro

José Thomaz de Magalhães Fontoura

Amélia Martins Pereira

Francisco Martins Pereira

Gregorio Francisco Martins

Roza Emilia Martins

Cecilia Candida Ribeiro

 

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A BARRA DE ESTEVÃO RIBEIRO NOS TEMPOS DA VELHA PAPARY...


Senado Federal


Na antiga Papary, atual Nísia Floresta, existe uma povoação conhecida como Barra, ou Barra de Tabatinga. Entenda por "Barra" uma abertura ou passagem de água que comunica um rio, lagoa ou estuário com o mar, geralmente através da faixa arenosa do litoral. Em referências históricas, aparece também a denominação Barra de Estevão Ribeiro. A localidade está situada a pouco mais de três léguas a leste da antiga cidade. A origem desse nome sempre despertou curiosidade. Não há, na tradição local, nenhuma lembrança de que Estevão Ribeiro tenha sido o primeiro proprietário da região, fundador do povoado ou grande senhor de terras. Ao contrário. A memória dos antigos moradores guardou seu nome por uma razão muito diferente: uma história de violência, vingança e morte que atravessou gerações. Os velhos moradores, verdadeiros guardiões da memória oral, já não sabiam dizer quem havia sido a vítima, nem conheciam todos os detalhes do acontecimento. Mas havia uma certeza transmitida de geração em geração: Estevão Ribeiro teria sido o homem que matou, de maneira calculada, uma autoridade do Rio Grande do Norte.

Mas o que realmente teria acontecido?


Segundo a tradição, Estevão Ribeiro morava em Piripiri, na região que hoje pertence ao município de Macaíba. Certo dia, teria ido a Natal procurar o governador da Capitania para apresentar uma reclamação. Em vez de receber atenção, teria sido tratado com violência e desprezo. Humilhado, deixou a residência do Governo decidido a se vingar. A partir daquele momento, teria começado a preparar cuidadosamente o crime. Conta-se que, ao sair da casa do governador, Estevão Ribeiro caminhou em direção à Igreja Matriz de Natal, contando os passos. Chegou a cem. Depois, procurou uma espingarda capaz de atingir um alvo naquela distância com precisão. De posse da arma, voltou a Natal. À noite, escondeu-se entre o mato, diante da residência do governador, e ficou à espera. Quando a escuridão já havia tomado conta da cidade, o governador saiu de casa. Estevão Ribeiro então disparou. O homem foi atingido gravemente e morreu alguns dias depois. Imediatamente após o atentado, Estevão Ribeiro fugiu. Primeiro teria retornado a Piripiri e, posteriormente, seguido para Papary. Ali comprou uma propriedade que, com o passar do tempo, acabou associada ao seu nome. Segundo a tradição, nunca foi preso ou levado à Justiça. O governador era uma figura profundamente impopular e, por isso, sua morte teria contribuído para que Estevão Ribeiro não fosse incomodado pela Justiça. A própria arma do crime teria sobrevivido durante mais de cem anos. Passando de mão em mão, era guardada e mostrada discretamente como uma espécie de relíquia familiar.

 

Mas quanto dessa história seria realmente verdade? 

 

A pesquisa histórica permite identificar um acontecimento que parece estar na origem da lenda. A vítima teria sido Luiz Ferreira Freire, capitão-mor e governador da Capitania do Rio Grande do Norte. Na noite de 22 de fevereiro de 1722, um domingo, ele foi atingido por disparos. Gravemente ferido, morreu seis dias depois, em 28 de fevereiro. Ferreira Freire era uma autoridade de temperamento agressivo e havia criado muitos desafetos em Natal. Sua administração foi marcada por conflitos e pela crescente impopularidade. Por trás de sua morte, entretanto, parece existir uma história ainda mais complicada. Ele era casado, mas sua esposa permanecia em Lisboa. Em Natal, apaixonou-se por uma jovem, filha do tenente-coronel Mateus Rodrigues de Sá, homem de posses, proprietário de sítios, fazendas, casas e rebanhos. O relacionamento provocou o afastamento de boa parte da sociedade local. Ferreira Freire ficou praticamente sem pessoas dispostas a servi-lo. Em determinado momento, decidiu resolver o problema à força. Mandou buscar uma escravizada pertencente a Manuel de Melo de Albuquerque, vereador do Senado da Câmara de Natal. O vereador protestou junto ao Ouvidor Geral, que determinou que a mulher fosse devolvida ao seu legítimo proprietário. Ferreira Freire reagiu com violência e ameaçou qualquer oficial de Justiça que tentasse cumprir a ordem. O conflito aumentou. Uma nova determinação foi enviada do Recife para que a escravizada fosse apreendida e devolvida ao seu dono. A ordem foi cumprida, mas o governador não aceitou a decisão. Armado e acompanhado por soldados, Ferreira Freire cercou a residência do vereador, retomou a escravizada e ainda mandou prender o próprio Manuel de Melo de Albuquerque, que foi levado para a Fortaleza.



A atitude provocou forte reação do Senado da Câmara. O órgão protestou junto ao governador de Pernambuco, que determinou a libertação imediata do vereador, sem sequer consultar Ferreira Freire. Tudo isso aconteceu entre novembro e dezembro de 1721. No início de 1722, a situação envolvendo a jovem filha de Mateus Rodrigues de Sá tornou-se ainda mais grave. A família exigiu que Ferreira Freire assumisse uma posição definitiva. Ele havia negado que fosse casado e prometera reparar a situação, segundo os costumes da época. Quando Mateus Rodrigues de Sá foi cobrar-lhe uma solução, porém, recebeu uma resposta brutal. Ferreira Freire recusou-se a levar a jovem ao altar e expulsou o pai de sua presença de maneira humilhante. O episódio deixou a família profundamente ofendida. Há ainda um detalhe importante: Manuel de Melo de Albuquerque, o vereador que havia entrado em conflito com Ferreira Freire por causa da escravizada, era parente próximo dos Rodrigues de Sá. Assim, os conflitos que cercavam o governador acabaram se cruzando. Décadas mais tarde, o escritor Gonçalves Dias, durante suas pesquisas em documentos antigos do Rio Grande do Norte, registrou uma tradição relacionada a esse episódio. Segundo o relato que encontrou, o pai da jovem teria procurado o capitão-mor para reclamar das ofensas sofridas e pedir a restituição da filha. Teria sido novamente humilhado e ameaçado pelo governador.

 

Ao deixar o palácio, abatido pela injustiça, encontrou os filhos no caminho. Eles teriam testemunhado seu sofrimento e prometido vingança. Pouco tempo depois, Ferreira Freire foi assassinado. Gonçalves Dias acrescentou ainda uma informação particularmente curiosa: a arma utilizada no crime, segundo a tradição, teria permanecido durante muitos anos entre os membros daquela família que viviam em Piripiri. É nesse ponto que a história de Estevão Ribeiro se aproxima da memória registrada pelos moradores. A documentação histórica registra que o governador Luiz Ferreira Freire foi assassinado em 1722. A tradição oral, por sua vez, conservou a história de um homem chamado Estevão Ribeiro, que teria cometido o crime e depois desaparecido em direção a Papary. Não há, porém, prova documental suficiente para afirmar que Estevão Ribeiro tenha sido efetivamente o assassino de Ferreira Freire. Também não parece haver evidência de que ele fosse membro da família Rodrigues de Sá. Uma possibilidade, seguindo a interpretação de Luís da Câmara Cascudo, é que tenha sido um homem ligado àquela família por relações de trabalho, dependência ou confiança. Poderia ter sido um foreiro, agregado ou simplesmente alguém que gozasse da confiança dos Rodrigues de Sá e tivesse assumido a missão de vingar as humilhações sofridas.

 

Com o passar dos anos, a história ganhou novas camadas. O acontecimento real foi sendo transformado pela memória popular em narrativa. O nome da vítima desapareceu, os detalhes se modificaram e a figura de Estevão Ribeiro passou a ocupar o centro da história. Assim nasceu, ou pelo menos assim pode ter sobrevivido, a lenda de Estevão Ribeiro. Mais do que a história de um homem, ela é também a história de uma memória. Uma memória que atravessou séculos sem documentos, preservada pela palavra dos moradores, até que a pesquisa histórica encontrasse, nos antigos registros da Capitania, o acontecimento que talvez tenha dado origem à tradição. Entre a realidade documentada e aquilo que o povo contou durante gerações, permanece a figura de Estevão Ribeiro, associada às antigas referências à região de Barra. E, como acontece com tantas lendas antigas, talvez nunca saibamos exatamente onde termina a história e começa a imaginação popular. Mas é justamente nessa fronteira entre o fato e a memória que a lenda sobrevive.

 

UM ESCLARECIMENTO SOBRE A BARRA DE ESTEVÃO RIBEIRO

 

                                                                                                                        Senado Federal


É importante fazer aqui um esclarecimento, pois a antiga denominação Barra de Estevão Ribeiro pode facilmente causar confusão com a atual Barra de Tabatinga. Os nomes das localidades do litoral de Papary, atual Nísia Floresta, sofreram diversas alterações ao longo do tempo, e os documentos antigos nem sempre utilizavam a mesma nomenclatura que conhecemos hoje. A antiga Barra de Estevão Ribeiro corresponde à atual Barreta. Ao longo do tempo, aquele trecho do litoral recebeu outras denominações. Um documento cartográfico de 1847 é particularmente esclarecedor. Trata-se de uma planta intitulada “Barras de Estevão Ribeiro, hoje da Santa Cruz, Nova de Camoropim, Rio do mesmo nome e lagoa Papary”, levantada pelo capitão-tenente Felippe José Ferreira. O próprio título do documento demonstra que, em 1847, “Barras de Estevão Ribeiro” era uma denominação anterior, enquanto Santa Cruz e Nova de Camoropim apareciam como denominações então utilizadas. O documento também relaciona essas barras ao rio do mesmo nome e à lagoa Papary.

 

A confusão aumenta porque Estevão Ribeiro também aparece associado a outros pontos da região, especialmente nas referências antigas à área de Tabatinga. Isso, entretanto, não significa que Barra de Estevão Ribeiro e Barra de Tabatinga fossem necessariamente a mesma localidade. São denominações que precisam ser examinadas dentro do contexto de cada documento e de cada época. Assim, para compreender a lenda aqui narrada, é fundamental ter em mente que a Barra de Estevão Ribeiro mencionada nas fontes antigas deve ser relacionada à atual Barreta. A planta de 1847 é uma evidência particularmente importante dessa história dos nomes, pois registra uma denominação anterior - “Barras de Estevão Ribeiro” - e, ao mesmo tempo, as denominações então vigentes de Santa Cruz e Nova de Camoropim. A mudança dos nomes é um exemplo de como a paisagem histórica de Papary foi sendo renomeada ao longo dos séculos, deixando nos documentos diferentes vestígios de uma mesma localidade. É justamente essa variedade de denominações que, hoje, pode levar o pesquisador ou o leitor a confundir lugares que, em determinado período, possuíam nomes completamente diferentes dos atuais. E vale lembrar que outros lugares em Papary tiveram mudanças curiosas de nomes...

terça-feira, 25 de agosto de 2026

NOVE PAÍSES DENTRO DO NORDESTE...

Vou logo dizendo: esse título é mais uma brincadeira, mas com fundamento. Tenho visto, eventualmente, pessoas de outros estados brasileiros, algumas que estão por aqui a passeio e outras que vieram morar na região, produzindo vídeos “sobre o Nordeste”. Coloco a expressão entre aspas porque existe uma questão que, embora pareça óbvia, às vezes é esquecida: o Nordeste é uma região gigantesca, formada por nove estados, e não um pequeno territ´rio culturalmente uniforme. Embora o Nordeste seja a terceira maior região do Brasil, ele reúne nove estados, enquanto o Centro-Oeste reúne quatro unidades federativas e o Norte, sete. Falar “sobre o Nordeste” como se estivéssemos falando de um único lugar, com uma única maneira de falar, comer, cantar, dançar, viver e interpretar o mundo, é uma generalização que não corresponde à realidade. Quem nasceu ou vive há muitos anos em algum estado nordestino sabe que existem diferenças enormes entre um estado e outro. Essas diferenças aparecem na música, na literatura, na gastronomia, no folclore, nas danças, nos sotaques, nas expressões populares, na arquitetura, nos costumes, nas frutas, na vegetação e em inúmeras outras manifestações da vida cotidiana. O Nordeste é uma região, mas dentro dela existem muitos Nordestes. Se entre uma cidade e outra existem peculiaridades - quase dialetos - imagine nove estados.

Basta observar alguns exemplos em várias elementos das culturas do Nordeste. O frevo é uma manifestação cultural profundamente associada a Pernambuco, enquanto o bumba-meu-boi possui no Maranhão características e tradições muito particulares. A Bahia construiu uma identidade cultural própria, marcada por uma história singular e por manifestações musicais, religiosas e gastronômicas que não podem simplesmente ser tomadas como representativas de todo o Nordeste. O Ceará tem suas próprias expressões, costumes e formas de falar; Pernambuco também; Paraíba também; Alagoas, Sergipe, Piauí e Rio Grande do Norte igualmente. Mesmo estados vizinhos, separados às vezes por poucos quilômetros, podem apresentar diferenças surpreendentes. Na gastronomia, por exemplo, um mesmo alimento pode receber nomes diferentes conforme o lugar. Macaxeira, mandioca e aipim são palavras utilizadas em diferentes regiões brasileiras para designar a mesma raiz. O cuscuz aparece em praticamente toda a região, mas pode assumir preparações e acompanhamentos bastante distintos. A própria carne de sol, tão associada ao Nordeste, possui modos diferentes de preparo e apresentação. Isso mostra que proximidade geográfica não significa uniformidade cultural.

E talvez seja justamente a linguagem o campo em que essas diferenças mais facilmente provocam situações curiosas. Às vezes, uma pessoa chega a determinado estado, escuta uma palavra que nunca havia ouvido, acha aquela expressão engraçada, curiosa ou estranha e imediatamente produz um vídeo para contar aos seus seguidores “como os nordestinos falam”. O problema está justamente nessa generalização. Uma pessoa que chega ao Rio Grande do Norte não está descobrindo “como o Nordeste fala”. Está descobrindo como determinadas pessoas, em determinado lugar, utilizam a língua. Uma palavra absolutamente comum no Rio Grande do Norte pode ser desconhecida na Paraíba, embora os dois estados sejam vizinhos. Uma expressão utilizada normalmente em Pernambuco pode não fazer parte do vocabulário cotidiano de um cearense. Uma palavra comum na Bahia pode causar estranhamento em alguém do Maranhão. Isso é absolutamente normal. É assim que funcionam as línguas: elas variam conforme a região, a história, o grupo social e as circunstâncias em que são utilizadas.


Posso dar um exemplo pessoal. Embora toda a minha ancestralidade seja norte-rio-grandense, nasci no Mato Grosso do Sul, cheguei ao Rio Grande do Norte aos 24 anos de idade e foi aqui que encontrei diferenças enormes em relação a coisas que eu considerava absolutamente naturais em outros lugares. Uma delas está justamente no vocabulário. Em outro lugar onde vivi, era comum dizer que determinada criança era “atentada”, quando se queria dizer que era inquieta, travessa, incômoda, difícil de controlar. No Rio Grande do Norte, encontrei uma forma diferente de expressar praticamente a mesma ideia: “Aquele menino de fulana é muito caningado”. Aqui, “canigado” pode perfeitamente ser utilizado para caracterizar uma criança inquieta, travessa, que incomoda ou não para quieta. Para quem chegou de outro lugar, isso pode causar estranheza. Mas o que existe aí não é erro. Existe diferença regional.


E essa diferença é justamente uma das coisas mais fascinantes de uma língua. É perfeitamente normal que alguém escute uma palavra pela primeira vez e pense que ela é engraçada. É normal achar curioso um determinado modo de falar. É normal estranhar um sotaque ou descobrir que uma palavra possui um significado diferente daquele que conhecíamos. O que não é razoável é transformar o nosso desconhecimento em uma espécie de tribunal linguístico. Se eu nunca ouvi uma palavra, isso significa apenas que eu nunca ouvi aquela palavra. Não significa que ela esteja errada. Se uma expressão não é usada no meu estado, isso significa apenas que ela não faz parte da minha variedade linguística. Não significa que ninguém possa utilizá-la legitimamente em outro lugar.


Essa questão é muito bem discutida pelo linguista Marcos Bagno em seu livro Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. A obra é particularmente importante para compreender que a língua não é uma estrutura rígida, uniforme e utilizada da mesma maneira por todos os brasileiros. Existem diferentes variedades linguísticas, influenciadas pela região, pela história, pelo grupo social, pela situação de comunicação e por diversos outros fatores. Há, naturalmente, uma norma-padrão utilizada em determinados contextos formais, sobretudo na escrita, mas isso não significa que todas as demais formas de expressão sejam simplesmente “erradas”. Uma coisa é discutir adequação linguística em determinado contexto. Outra, completamente diferente, é tratar uma variedade regional como defeituosa apenas porque não corresponde àquela com a qual estamos acostumados.


Particularmente, considero impressionante a riqueza da linguagem no Rio Grande do Norte. Um exemplo que sempre me chamou atenção é a palavra “peia”, que possui cincco diferentes sentidos e usos no vocabulário regional. Dependendo do contexto, a palavra pode estar relacionada a uma surra, a um instrumento utilizado para bater ou castigar, a elementos empregados para prender ou controlar animais, peça para subir em coqueiros e a forma pejrativa de se referir ao órgão sexual masculino, ou seja são usos tradicionais registrados no vocabulário regional. Essa multiplicidade de significados é muito interessante porque mostra como uma palavra pode adquirir diferentes sentidos ao longo da história de uma comunidade. Em vez de simplesmente achar a palavra estranha, poderíamos perguntar de onde veio, como se desenvolveu, em quais situações é utilizada e por que adquiriu determinados significados. Isso é cultura. Isso é patrimônio linguístico. Isso é história preservada na fala cotidiana.


Por isso, quando alguém chega a um estado nordestino e encontra uma palavra que nunca ouviu, a atitude mais interessante não seria dizer que “os nordestinos falam assim”, porque essa afirmação já parte de uma generalização equivocada. Muito menos seria afirmar que a palavra está errada. Seria muito mais interessante dizer: “Descobri uma expressão que eu não conhecia e aqui no Rio Grande do Norte ela é utilizada dessa maneira”. Parece uma diferença pequena, mas muda completamente o sentido daquilo que está sendo apresentado. Na primeira situação, uma experiência particular é transformada em regra geral. Na segunda, uma descoberta cultural é apresentada como aquilo que realmente é: uma característica de determinado lugar. Fica muito mais bonito e civilizado publicar um vídeo nesses conformes. NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: A LINGUAGEM NO RIO GRANDE DO NORTE


É preciso também entender que o Brasil é bonito justamente porque não é uniforme. Seria muito triste se todos os estados tivessem o mesmo sotaque, as mesmas comidas, as mesmas festas, as mesmas músicas, as mesmas expressões e os mesmos costumes. Uma das maiores riquezas brasileiras está justamente na possibilidade de viajar para outro estado e perceber que existem outras maneiras de falar, cozinhar, celebrar, construir, cantar e contar histórias. É isso que nos atrai e dá sentido ao ato de viajar e conhecer o novo, o diferente, o exótico, enfim. Podemos até imaginar, de maneira metafórica, cada estado como uma espécie de pequeno país dentro de um país maior. Todos pertencem ao Brasil, compartilham uma história nacional e inúmeros elementos culturais mas cada um desenvolveu características próprias. E isso é especialmente evidente no Nordeste.


Por essa razão, considero que quem produz conteúdo sobre uma região que não é a sua deveria ter um pouco mais de cuidado. Não custa pesquisar antes de afirmar alguma coisa. Não custa conversar com uma pessoa que nasceu e cresceu naquele lugar. Não custa perguntar a alguém mais velho da comunidade se determinada expressão é realmente utilizada e em quais situações. Não custa consultar um dicionário regional, um estudo linguístico, uma obra acadêmica ou um pesquisador. Às vezes, uma conversa de poucos minutos é suficiente para transformar aquilo que poderia ser um vídeo equivocado ou até desagradável em um conteúdo realmente interessante sobre cultura brasileira. Isso pode expor o youtuber ao ridículo ou gerar hostilidades, pois nem todos aceitam na boa.


E isso não vale apenas para palavras. Vale para tudo. Vale para a comida, para a música, para a dança, para a arquitetura, para as festas populares, para os costumes, para as manifestações religiosas, para as frutas, para as formas de tratamento e para tantas outras características que fazem uma comunidade ser diferente de outra. A pessoa pode perfeitamente achar uma comida estranha, uma dança curiosa, um costume engraçado ou uma palavra inusitada. Isso faz parte da experiência de conhecer um lugar diferente. O problema começa quando o estranhamento se transforma em condenação. Há uma diferença enorme entre dizer “eu não conhecia isso” e dizer “isso está errado” ou expor para zombar ou riducularizar.


Talvez uma das maiores demonstrações de cultura seja justamente reconhecer aquilo que não conhecemos. Não precisamos gostar de tudo o que encontramos. Não precisamos incorporar todos os costumes. Não precisamos utilizar todas as palavras. Não precisamos achar bonito tudo aquilo que vemos. Mas precisamos ter humildade para compreender que o nosso modo de fazer as coisas não é necessariamente o único modo possível. Se para mim uma determinada palavra não funciona, isso não significa que ela não funcione para outra comunidade. Se para mim determinado costume parece estranho, isso não significa que ele não tenha um enorme valor afetivo e histórico para quem o pratica. Se eu não utilizo determinada expressão, isso não me transforma em autoridade para determinar que ninguém deveria utilizá-la.


Há, inclusive, algo de contraditório quando alguém viaja para conhecer uma cultura diferente e, ao encontrar algo que não conhece, decide imediatamente que aquilo está errado. Afinal, viajar deveria ampliar nossas referências, não reduzir o mundo àquilo que já conhecemos. O desconhecido deveria despertar curiosidade. A diferença deveria provocar perguntas. O estranho deveria ser uma oportunidade de aprender. Quando transformamos tudo aquilo que não corresponde à nossa experiência em erro, acabamos perdendo justamente a melhor parte da viagem: a descoberta.


A facilidade de publicar qualquer coisa nas redes sociais também criou uma situação curiosa: muitas vezes, uma descoberta feita em poucas horas é apresentada como se fosse conhecimento sobre uma cultura inteira. A pessoa ouve uma expressão, registra aquilo com surpresa e, em seguida, transforma sua impressão em uma espécie de conclusão. É aí que a curiosidade, que poderia resultar em um conteúdo interessante, acaba perdendo a oportunidade de se transformar em conhecimento. Antes de explicar ao mundo aquilo que acabou de descobrir, talvez fosse mais prudente ouvir quem vive naquele lugar, perguntar a quem nasceu ali, investigar a origem da expressão e perceber se aquilo que parece estranho para um visitante é, na verdade, absolutamente natural para a comunidade. A internet pode ser um excelente instrumento para divulgar a riqueza cultural de um povo, mas também pode ampliar rapidamente um equívoco. E quando esse equívoco vem acompanhado de deboche ou de uma suposta correção da maneira como os outros falam, quem acaba se revelando não é a cultura visitada, mas a falta de conhecimento de quem decidiu julgá-la.


No fim das contas, talvez uma das melhores maneiras de conhecer o Brasil seja exatamente perceber essas diferenças. Viajar pelo país é descobrir que o português continua sendo português, mas que os brasileiros encontraram incontáveis maneiras de falar, nomear as coisas e expressar sentimentos. É descobrir que uma mesma comida pode ter nomes diferentes, que uma mesma palavra pode possuir significados diferentes, que uma mesma festa pode assumir características próprias em cada lugar e que estados vizinhos podem conservar identidades culturais surpreendentemente distintas. Por isso, estranhar é normal. Achar curioso é normal. Até achar engraçada uma palavra que nunca ouvimos pode ser normal, desde que exista respeito. O que não deveria ser normal é transformar o desconhecimento em superioridade e a diferença em erro. Quem se dispõe a falar publicamente sobre a cultura de outro lugar precisa pesquisar, ouvir, conversar e, principalmente, respeitar. Porque diferença não é defeito. Diferença é patrimônio.


E talvez seja justamente isso que torne o Brasil tão extraordinário: somos um só país, mas não precisamos ser todos iguais. O Nordeste é um excelente exemplo disso. São nove estados, inúmeras histórias, muitos sotaques, milhares de palavras, sabores, ritmos, costumes e maneiras de interpretar a vida. Não existe um único Nordeste. Existem muitos Nordestes, e cada um deles merece ser conhecido sem preconceito e tratado com respeito. No final, há uma frase simples que resume tudo: se para mim não funciona, pode funcionar perfeitamente para outro. E, quando falamos de língua, cultura e identidade, essa diferença não precisa ser corrigida. Precisa ser compreendida, afinal, se são nove países, como diabos vou saber qual idioma fala cada um? (Então preciso conhecê-los antes de sentenciá-los). OBS. Todos são muito bem vindos ao Nordeste, principalmente as pessoas civilizadas...


domingo, 23 de agosto de 2026

O QUE CÂMARA CASCUDO NOS DIZ QUANDO MORREM OS GUARDIÕES DA MEMÓRIA...

 


Os "velhos" de S. José de Mipibu foram morrendo, morrendo, e com eles as reminiscências de tradições locais. Velho de hoje não tem memória e não gosta de recordar tempo passado, para que ninguém pense que ele é demasiado antigo. Outrora havia orgulho em fazer-se viver a vida dos dias idos, mas presentemente sente-se o pudor, respeito, timidez, acanhamento, em recordar o que desapareceu. A impressão é que o julgam contemporâneo aos fatos pretéritos. Como se toda a gente fosse coeva ao que sabe ter acontecido.
​Luís da Câmara Cascudo

 

​Um negociante do velho Mossoró, estória contada pelo Manuel Borges, ao perguntarem sobre o descobrimento do Brasil, respondeu, rápido, como afastando parentesco na quarta dimensão:
– Não é do meu tempo!... ​(A REPÚBLICA - 24/09/1959)


Quando morrem os guardiões da memória

Há, nessas palavras de Câmara Cascudo, escritas em uma de suas Actas Diurnas, uma inquietação que permanece profundamente atual: a percepção de que uma comunidade pode perder muito mais do que pessoas quando seus velhos desaparecem. Com eles podem desaparecer histórias, lendas, costumes, maneiras de falar, acontecimentos, nomes de lugares, personagens esquecidos, antigas relações de parentesco e, sobretudo, uma determinada maneira de compreender o mundo. Já contei inúmeras vezes sobre as pesquisas que fiz em Nísia Floresta, ocasião que conversei com inúmeros idosos, pois na lógica da existência, são eles que partem primeiro, portanto suas memórias precisam ser colhidas.

Cascudo percebeu isso com extraordinária lucidez. Nela, ele se refere ao município de São José de Mipibu/RN, mas, na verdade, pensava em todos os lugares. O que está em jogo não é simplesmente a velhice, mas a memória. O velho, naquele universo de que ele fala, não era apenas alguém que havia vivido muitos anos. Era, muitas vezes, uma espécie de arquivo vivo da comunidade. Sua memória guardava aquilo que os livros não registravam e que os documentos oficiais frequentemente ignoravam. Quando esse homem ou essa mulher morria, levava consigo uma parte de um passado que talvez jamais pudesse ser recuperada.

Há, porém, uma observação ainda mais delicada no pensamento de Cascudo: o velho de seu tempo já começava a sentir certo constrangimento em falar do passado. Havia uma espécie de pudor em admitir a idade, em recordar costumes antigos, em contar aquilo que testemunhara. Como se lembrar fosse denunciar a própria velhice. Como se recordar fosse confessar que se pertence a outro tempo. E aqui está uma das grandes ironias apontadas por Cascudo. A sociedade que deveria ouvir os mais velhos, justamente porque eles carregam experiências que ninguém mais possui, começa a tratá-los como se fossem inadequados ao presente. O passado passa a ser visto como coisa ultrapassada, e a memória, em vez de patrimônio, transforma-se em motivo de acanhamento.

Isso é particularmente grave quando pensamos nas pequenas cidades e comunidades, onde a história muitas vezes sobrevive muito mais na palavra do que no papel. Em lugares como São José de Mipibu, cada velho poderia ser portador de uma parcela da história coletiva. Um engenho que desapareceu, uma festa que deixou de existir, uma antiga família, um caminho, uma expressão popular, uma história de assombração, um acontecimento político, uma tradição religiosa ou simplesmente uma maneira de viver que já não encontra lugar no presente.

Tudo isso pode morrer silenciosamente. Por isso, a advertência de Cascudo não deve ser lida apenas como uma lembrança de seu tempo. Ela é também um chamado à responsabilidade. Antes que o último narrador desapareça, é preciso perguntar, ouvir e registrar. É preciso compreender que a memória oral não é uma memória menor. Ela é uma das formas pelas quais uma sociedade reconhece a si mesma. Talvez seja justamente por isso que a frase de Cascudo sobre os velhos de São José de Mipibu adquira, hoje, uma força ainda maior. Ele não estava apenas lamentando a morte de algumas pessoas. Estava percebendo o desaparecimento de um mundo.

E mundos inteiros podem desaparecer sem fazer barulho. Às vezes, desaparecem quando a última pessoa que sabia contar determinada história fecha os olhos. Não há funeral para a memória perdida. Não existe lápide para aquilo que ninguém mais poderá contar. O que se perdeu simplesmente deixa de ser conhecido. É por isso que ouvir os velhos é também uma forma de salvar o passado. E talvez seja esse um dos maiores ensinamentos de Câmara Cascudo: antes que a memória se transforme em silêncio, é preciso dar-lhe ouvidos.


sábado, 22 de agosto de 2026

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RUA JOÃO PESSOA E O CAOS DE UMA OBRA DESNECESSÁRIA E QUE NÃO TERMINA...

Quem passa atualmente pela Rua João Pessoa, no coração da Cidade Alta, em Natal, tem dificuldade de compreender como uma obra que deveria representar a revitalização de um dos mais importantes espaços históricos da cidade conseguiu transformar-se em um verdadeiro transtorno para a população. INICIADA EM MAIO DE 2023 PELA PREFEITURA MUNICIPAL DE NATAL.

A INTERVENÇÃO JÁ ULTRAPASSA TRÊS ANOS DE RECOMEÇOS E RECOMEÇOS, paralisações, retomadas e novas promessas de conclusão. Nesse intervalo, comerciantes tiveram seus negócios prejudicados, pedestres passaram a disputar espaços improvisados com veículos, motocicletas e materiais de construção, e a circulação tornou-se um exercício permanente de risco. Não são poucos os relatos de pessoas que se machucaram diante das condições precárias de passagem.

Agora, mais uma vez - APROXIMANDO-SE AS ELEIÇÕES -, a obra foi anunciada como reiniciada, com a promessa de que finalmente será concluída até dezembro. É inevitável, diante de tantas interrupções e recomeços, perguntar se estamos diante de um verdadeiro projeto de urbanização pensado para a população ou de mais uma obra que acabou incorporada ao calendário político das administrações, MAS COM GRAVES EQUÍVOCOS.


NATAL JÁ É POBRE DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO, AGORA VÃO TAPAR A VISÃO DE DUAS PEÇAS ARQUITETÔNICAS, TENDO UMA DELAS, MAIS DE 100 ANOS...

E há ainda uma contradição que considero particularmente grave: a revitalização de um espaço histórico deveria valorizar e revelar a arquitetura existente, jamais escondê-la. No entanto, justamente diante dos antigos prédios e de suas fachadas, ergue-se uma gigantesca estrutura metálica - inclusive de péssima qualidade - MATERIAL DE QUINTA CATEGORIA -, destinada a cobrir a rua. A ironia é evidente: aquilo que deveria devolver visibilidade ao patrimônio pode acabar obscurecendo-o. Nas extremidades de ambas as esquinas, há dois imóveis, tendo um deles mais de 100 anos.

Mesmo que a estrutura fosse arquitetonicamente bela, ainda seria legítimo questionar a necessidade de criar um teto sobre uma rua histórica, tapando a visão das edificações que deveriam ser protagonistas da paisagem urbana. É difícil compreender como arquitetos, engenheiros, gestores públicos e os próprios órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio não têm visão diferenciada de descortinar os frontões, ao invés de cobri-los, mas aceitaram uma solução que, na minha visão, agride a lógica de valorização do conjunto histórico.

QUERO, INCLUSIVE, APROVEITAR E SUGERIR AOS VEREADORES DE NATAL QUE DELIBEREM UM PROJETO QUE RETIRE TODAS AS MARQUISES E ELEMENTOS QUE TAPAM OS FRONTÕES DE TODO O CENTRO HISTÓRICO, FAZENDO VALER O QUE SOBROU EM TERMOS DOS ADORNOS ORIGINAIS DAS PAREDES. AINDA SOBROU ALGUMA COISA. ERA PARA SE ARRANCAR TODAS AS MARQUISES. JÁ IMAGINOU VER APENAS AS PAREDES COM OS NOMES ESCRITOS NA PRÓPRIA PAREDE COMO ANTIGAMENTE? VAMOS RESSUSCITAR ATÉ MESMO O QUE CHAMAM DE "OS ABRIDORES DE LETRAS", JÁ MEIO EM EXTINÇÃO PELO FENÔMENO DOS BANNERS...

Revitalizar não deveria significar esconder. Restaurar a vida de uma rua histórica não deveria significar encobrir sua própria história. O que Natal precisa é de uma intervenção que respeite o cidadão, facilite sua circulação, fortaleça o comércio e, sobretudo, permita que seus prédios históricos sejam vistos, admirados e reconhecidos como parte viva da memória da cidade. Onde estão os profissionais de visão diferenciada?

HÉLIO SEREJO: UM MONUMENTO À CULTURA POPULAR SUL-MATO-GROSSENSE...

 

Por mais que estejamos longe do berço onde nascemos, por mais que vivamos onde a cultura popular é bela e rica, a nossa essência bate como um coração quando falamos de cultura popular, de memória e das coisas que dão sentido à nossa identidade. Por isso, como sul-mato-grossense, não poderia deixar passar este mês de agosto sem reverenciar um intelectual que realizou um verdadeiro prodígio: produzir uma gigantesca obra literária capaz de traduzir, com fidelidade, riqueza e abundância, a alma do povo sul-mato-grossense. Falo de HÉLIO SEREJO, escritor, jornalista, poeta, memorialista e folclorista, um dos maiores intérpretes da gente e da terra de Mato Grosso do Sul.

Nascido em Nioaque, em 1º de junho de 1912, Hélio Serejo viveu profundamente ligado ao universo dos ervais, da fronteira e da vida sertaneja. Desde muito cedo conheceu a dureza do trabalho e os homens que faziam daquele território um espaço de sobrevivência, esperança, coragem e convivência. Essa experiência não ficou apenas em sua memória: transformou-se em literatura. O menino que conheceu os caminhos, os ranchos, os ervais e as gentes de sua terra tornou-se, mais tarde, um extraordinário contador da história cotidiana de uma região.


É difícil falar de Hélio Serejo sem experimentar uma espécie de encantamento diante da dimensão de sua produção. São mais de sessenta obras atribuídas à sua trajetória, abrangendo contos, crônicas, poemas, romances, memórias, estudos de costumes, lendas e registros da vida regional. Em 2008, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul reuniu sua produção em nove volumes de Obras Completas, numa publicação monumental que permitiu perceber, de maneira ainda mais clara, a extensão e a unidade de seu legado.

E há algo particularmente extraordinário em sua escrita: o Folclore parece caminhar por dentro de toda a sua obra. Ele não precisa necessariamente anunciar que está escrevendo sobre cultura popular para que ela apareça. O Folclore surge naturalmente, como surge a conversa de um homem do campo, como surge o cheiro da erva-mate, como surge uma história contada no galpão ou uma lembrança evocada à beira do caminho. Está nos costumes, nas crenças, nas comidas, nas festas, nos modos de falar, nos medos, nas superstições, nas lendas, nas relações de trabalho e nas maneiras de compreender a vida.

É simplesmente impressionante perceber como essa presença atravessa livros de naturezas diferentes sem descaracterizá-los. Em Carreteiro de Minha Terra, Ronda Sertaneja, Rincão dos Xucros, Prosa Rude, Canto Caboclo, Vida de Erval, Pelas Orilhas da Fronteira, Palanques da Terra Nativa, Caraí e tantos outros títulos, a cultura popular aparece como uma espécie de fio invisível que costura a produção de Serejo.


Em algumas obras, esse compromisso com a cultura popular se torna ainda mais explícito. É o caso de Lendas da Erva-Mate e Lendas do Estado de Mato Gross do Sul, títulos que revelam o pesquisador atento às narrativas que habitavam o imaginário de sua gente. Em Abusões de Mato Grosso e de Outras Terras (escrito antes da divisão do estado do MT), mergulha no universo das crenças e dos assombros. Em Modismo do Sul de Mato Grosso, registra modos de falar e particularidades linguísticas. Em Vida de Erval e No Mundo Bruto da Erva-Mate, aproxima-nos do universo social e humano dos ervais, tão decisivo para a formação histórica e cultural da região.

Mas talvez uma das maiores grandezas de Hélio Serejo esteja justamente em não separar artificialmente literatura e vida. Ele compreendeu que a cultura de um povo não mora apenas nos grandes acontecimentos históricos. Ela mora também no pequeno gesto, na palavra aparentemente simples, no apelido, na superstição, no prato de comida, na conversa, na festa, no medo, na valentia, na maneira de cumprimentar um amigo e na história contada muitas vezes até adquirir a dimensão de lenda.

Por isso sua obra é, ao mesmo tempo, literatura e documento de uma época. Pesquisadores reconhecem nela um extraordinário patrimônio de memória, capaz de registrar costumes, trabalho ervateiro, alimentação, mitos, lendas, medicina natural, festas e modos de viver da região fronteiriça. E tudo isso é realizado com uma linguagem muito particular, marcada pelo encontro entre o português, o espanhol e o guarani, numa expressão literária que procura reproduzir a riqueza linguística daquela fronteira.

Há, portanto, em Hélio Serejo, um profundo respeito pelo homem simples. Ele não olha para o povo de longe. Ele escreve de dentro, com intimidade. Conhece suas dores, suas alegrias, suas crenças e contradições. Conhece a aspereza da vida nos ervais e a beleza das paisagens. Conhece o silêncio dos caminhos e a força das palavras. E, sobretudo, compreende que aquele homem que muitas vezes não aparece nos livros oficiais também é construtor da História.

Talvez por isso seja tão difícil encontrar uma definição que dê conta de sua importância. Chamá-lo apenas de escritor seria pouco. Dizer que foi apenas folclorista também seria insuficiente. Hélio Serejo foi um guardião da memória sul-mato-grossense. Foi um homem que percebeu, antes que muita coisa desaparecesse, que a cultura popular precisava ser registrada. Sua escrita funciona como uma grande casa onde ficaram abrigadas vozes que poderiam ter sido levadas pelo tempo.

Sua trajetória também é marcada por reconhecimento institucional. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e de outras instituições ligadas à cultura e ao folclore, inclusive organizações de outros países. Sua produção alcançou uma dimensão que ultrapassou as fronteiras regionais, embora tenha permanecido profundamente enraizada no chão de onde veio.

Hélio Serejo morreu em Campo Grande, em 8 de outubro de 2007, aos 95 anos. Mas há homens que não morrem inteiramente porque continuam vivendo naquilo que deixaram. Serejo permanece nas palavras que escreveu, nas histórias que registrou, nos personagens que criou, nos costumes que preservou e, sobretudo, na possibilidade que nos oferece de reencontrarmos uma parte de nós mesmos quando abrimos seus livros. No dia de hoje o meu coração viaja para longe...