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sábado, 5 de setembro de 2026
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
PADRE AMARO THEOT CASTOR BRASIL: UM SACERDOTE NORTE-RIO-GRANDENSE NA GUERRA DO PARAGUAI
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| Acervo: Igreja Matriz de São João Batista, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro |
Entre os
norte-rio-grandenses que participaram da Guerra do Paraguai, a trajetória do
Padre Amaro Theot Castor Brasil apresenta uma singularidade que merece atenção
especial. Sua participação no conflito não se explica apenas pela mobilização
militar que alcançou diferentes regiões do Império, nem pode ser compreendida
da mesma maneira que a trajetória dos demais homens de sua família que seguiram
para a guerra. Amaro era sacerdote, formado no Seminário de Olinda e ordenado
em 16 de junho de 1862 por Dom João da Purificação Marques Perdigão, bispo de
Pernambuco. Quando a Guerra do Paraguai começou, portanto, sua vida já estava
orientada para o exercício do ministério religioso. Ainda assim, em 1865, tomou
a decisão de alistar-se e acompanhar as tropas brasileiras como capelão
militar. Essa circunstância confere à sua história uma dimensão particular,
pois ele não abandonou a condição sacerdotal para assumir simplesmente a de
combatente: levou consigo a própria vocação religiosa para dentro de uma
campanha militar que se prolongaria por aproximadamente cinco anos. O material
que estudei até o momento situa seu nascimento em 1838 na antiga Campo Grande,
na região correspondente ao atual município de Paraú, identificando-o como
filho de Jeronymo José Correia Peixoto e Joana Baptista Martins da Silva.
Antes de nos aprofundarmos, julgo oportuno um esclarecimento sobre o nome do padre Amaro. Embora ele possuísse o sobrenome do pai, Peixoto, ele adotou Amaro Theot Castor Brasil como uma escolha de caráter eclesiástico e patriótico. Essa informação consta no diário de seu irmão, Manoel Martins Correia e Castro - Alferes da 2ª Companhia - o qual teve a feliz iniciativa de registrar o que viveu na Guerra do Paraguai e obviamente informações sobre os irmãos que junto com ele estavam ali, O termo "Theot" é uma abreviação erudita e devocional para Theotókos (Mãe de Deus, em grego), e "Castor" fazia alusão à sua postura firme de protetor, enquanto o "Brasil" foi assumido como sobrenome patriótico em face da Guerra do Paraguai. A documentação histórica nem sempre registra uma mesma pessoa de maneira uniforme. No século XIX, era relativamente comum que indivíduos passassem a ser conhecidos e até a assinar seus escritos, cartas e documentos por nomes diferentes daqueles recebidos no batismo. Isso podia ocorrer por diversas razões: uso de apelidos familiares que acabavam se tornando nomes públicos; abreviações ou modificações do nome de batismo; homenagem a pessoas, lugares ou ideias; afirmação de identidade pessoal ou literária; convenções sociais; ou, especialmente entre escritores e jornalistas, a adoção deliberada de pseudônimos. Em alguns casos, o nome escolhido tornou-se tão conhecido que praticamente substituiu o nome de batismo na memória histórica.
O Brasil
do século XIX oferece exemplos bastante expressivos desse costume. Nísia
Floresta Brasileira Augusta, nascida Dionísia Gonçalves Pinto, é talvez um dos
casos mais próximos da realidade potiguar: adotou o nome pelo qual se tornou
célebre e passou a assinar sua produção intelectual dessa maneira. Outro
exemplo é Qorpo-Santo, nome pelo qual ficou conhecido o escritor e dramaturgo
gaúcho José Joaquim de Campos Leão. Também Sousândrade, poeta maranhense do
século XIX, tornou-se conhecido por esse nome, derivado de seu nome de
nascimento, Joaquim de Sousa Andrade. O próprio filho de Nísia Floresta,
Joaquim Pinto Lisboa, assinava Joaquim Pinto Brasil. Esses casos ajudam a
demonstrar que, para o pesquisador, não se deve pressupor que a forma pela qual
uma pessoa ficou conhecida corresponda necessariamente ao nome que consta em
seu registro de batismo. Todos os documentos eclesiais assinados pelo Padre
Amaro Theot Castor Brasil passaram a ser assim assinados após a Guerra do Paraguai.
Essa prática era particularmente significativa no ambiente literário e jornalístico. O anonimato e os pseudônimos foram amplamente utilizados pela imprensa brasileira oitocentista, inclusive por autores hoje conhecidos por seus nomes civis. Por isso, quando aparecem em documentos históricos nomes diferentes para uma mesma pessoa, é necessário investigar se estamos diante de indivíduos distintos, de uma variação ortográfica, de um apelido incorporado à vida pública ou de um nome deliberadamente escolhido pelo próprio indivíduo. No caso de Padre Amaro Theot Castor Brasil, essa observação é especialmente pertinente. O fato de determinada fonte utilizar apenas “Amaro”, outra registrar “Padre Amaro Theot” e outra apresentar o nome mais completo não significa, por si só, que se trate de pessoas diferentes. A identificação deve ser estabelecida pela combinação de outros elementos – filiação, local de nascimento, atividade sacerdotal, datas, cargos exercidos e acontecimentos biográficos –, e não exclusivamente pela forma do nome. É justamente esse cuidado que permite ao pesquisador acompanhar uma pessoa através de documentos produzidos em épocas e circunstâncias diferentes, preservando a distinção entre o nome de batismo, o nome pelo qual era conhecido e eventual nome adotado para assinar ou se apresentar publicamente.
Independentemente
dessa divergência, sua origem familiar é bastante clara: Amaro pertencia a uma
família estabelecida na região de Campo Grande e ligada à história daquela
localidade, especialmente à Fazenda Espírito Santo, propriedade de seu pai,
Jeronymo José Correia Peixoto, meu tio-tetravô, irmão do meu tetravô Manoel
Thomaz Peixoto, pai do meu trisavô José Thomaz de Magalhães Fontoura, pai da
minha bisavó Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto, mãe do meu avô Abel
Gomes Peixoto, pai de Maria José Freire, minha mãe. O padre Amaro Theot era meu
primo em primeiro grau, três gerações afastado, pois era primo-irmão do meu
trisavô, José Thomaz de Magalhães Fontoura.
O
contexto familiar é indispensável para compreender a decisão de Padre Amaro,
embora não devamos reduzir sua trajetória à história dos parentes que o
acompanharam. Seus irmãos Manoel Martins Correia e Castro, Antônio Martins
Correia e José Lucas Barbosa também participaram da Guerra do Paraguai, e com
eles seguiu o primo Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto. Foram cinco
Peixotos participantes da Guerra do Paraguai. Philippe Guerra registrou
posteriormente que Padre Amaro “seguiu de Campo Grande com mais dois irmãos e
dois parentes para o Paraguay”, acrescentando que os cinco fizeram a campanha
como Voluntários da Pátria e regressaram como oficiais. A documentação
memorialística relativa ao grupo identifica os quatro parentes que acompanharam
Amaro e preserva inclusive os nomes pelos quais alguns deles ficaram conhecidos
na tradição local: Capitão Manuelzinho, Alferes Toinho, Tenente Zumba e Major
Cornélio. Não é necessário, contudo, aprofundar aqui as biografias desses
homens, pois cada uma delas constitui uma história própria. O que interessa,
neste estudo, é perceber que Amaro partiu inserido em uma circunstância
familiar muito específica. Ele não era um sacerdote que, isoladamente, decidiu
conhecer a guerra; estava inserido em um grupo de irmãos e parentes que se
dirigia para o conflito e no qual ele desempenharia uma função inteiramente diferente.
A própria
composição desse grupo suscita uma questão que considero particularmente
significativa como pesquisador e parente desses cinco homens: seria possível
que a decisão de Amaro tivesse também uma motivação familiar, além das razões
patrióticas e religiosas que naturalmente podem ser associadas à sua escolha?
Não existe, nas fontes reunidas, uma declaração do próprio sacerdote que
permita afirmar isso como fato, e seria metodologicamente incorreto apresentar
uma hipótese como se fosse uma informação documental. Entretanto, não me parece
descabido considerar que a presença de três irmãos e de um primo entre os
homens destinados à guerra possa ter pesado em sua decisão. Um sacerdote que
acompanhasse aqueles parentes poderia exercer uma função que nenhum outro
membro do grupo desempenharia da mesma maneira: prestar-lhes assistência
religiosa, acompanhá-los nos momentos de enfermidade e perigo e, se necessário,
administrar os sacramentos aos que estivessem feridos ou próximos da morte.
Não
consigo deixar de considerar essa possibilidade, ainda que a trate apenas como
hipótese. A guerra envolvia uma possibilidade concreta de morte, e Amaro, por
sua formação e por sua função sacerdotal, certamente conhecia o significado
espiritual que poderia assumir sua presença junto aos soldados. Não sabemos se
ele pensou especificamente nos irmãos e no primo quando decidiu partir, mas a
circunstância familiar torna essa interpretação plausível e confere à sua
partida uma dimensão humana que as fontes militares, naturalmente mais
preocupadas com postos, datas e operações, não conseguem registrar.
A
formação religiosa de Amaro ajuda a compreender ainda melhor o contraste
existente entre sua vida anterior e a experiência que decidiu enfrentar.
Estudou no Seminário de Olinda e foi ordenado sacerdote em 16 de junho de 1862,
três anos antes de partir para a guerra. Segundo Monsenhor Severino Bezerra, em
Os Levitas do Senhor, quando começou o conflito Amaro tinha 27 anos e decidiu
alistar-se para seguir ao campo de batalha juntamente com seus irmãos Manoel
Martins Correia e Castro, Antônio Martins Correia e José Lucas Barbosa. O mesmo
autor informa que o sacerdote saiu de Natal em 9 de junho de 1865 e somente
retornou ao Brasil em maio de 1870. Durante esse período, sua vida esteve
ligada ao Exército e às condições extremamente difíceis da campanha. O fato de
ser capelão não significa que estivesse distante dos acontecimentos militares.
O capelão acompanhava as tropas, prestava assistência religiosa aos soldados e
podia estar próximo das áreas onde os combates ocorriam. No caso de Amaro, a
documentação demonstra que sua participação foi efetiva. Adauto Miranda Raposo
da Câmara, em O Rio Grande do Norte na Guerra do Paraguai, identifica-o como
capelão-alferes da 1ª Companhia do Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande
do Norte. Essa informação é particularmente importante porque coloca o
sacerdote dentro da estrutura militar do contingente potiguar e confirma que
sua presença na campanha não pertence apenas à tradição familiar ou à memória
construída posteriormente.
Um dos
episódios mais expressivos de sua trajetória ocorreu no combate de
Potrero-Oveja, em 28 de outubro de 1867. A Ordem do Dia nº 152, expedida no
Quartel-General em Tuiuti em 9 de novembro daquele ano, registra expressamente
a presença de “o Sr. Capellão Alferes padre Amaro Theot Castor Brasil”.
Trata-se de uma fonte contemporânea aos acontecimentos, produzida no contexto
do próprio comando militar brasileiro, e por isso possui importância especial
para a reconstrução de sua biografia. Monsenhor Severino Bezerra informa que o
Marechal Marquês de Caxias citou Amaro na Ordem do Dia de 9 de novembro de
1867, elogiando seu comportamento durante o combate. A presença do nome do
sacerdote nesse documento permite perceber que sua atuação não ficou restrita à
rotina religiosa dos acampamentos. Ele estava inserido em uma campanha militar
e teve seu comportamento reconhecido pelo comando. O próprio perfil traçado por
Severino Bezerra reforça essa impressão, pois o autor descreve Amaro como
inteligente, generoso, compreensivo e grande pregador sacro, mas também como
homem de temperamento forte, valente e destemido. Registra ainda que era
excelente cavaleiro e grande atirador com diferentes armas. Esse retrato é
importante porque afasta duas interpretações igualmente simplificadoras: a de
que Amaro teria sido apenas um padre que acompanhou os soldados sem participar
efetivamente da realidade da guerra e, no extremo oposto, a de que teria
deixado de ser sacerdote para transformar-se simplesmente em militar. Sua
trajetória foi justamente marcada pela coexistência dessas duas dimensões.
A
participação de Padre Amaro na Guerra do Paraguai precisa, portanto, ser
observada dentro da própria natureza do sacerdócio exercido em uma campanha
militar. Em um conflito marcado por combates, doenças, mortes e longos
deslocamentos, a presença de um capelão assumia uma importância que
ultrapassava a celebração regular dos ofícios religiosos. O sacerdote podia
ouvir confissões, celebrar missas, administrar sacramentos, acompanhar os
feridos e oferecer conforto espiritual aos homens submetidos a circunstâncias
extremas. Quando esse sacerdote tinha, entre os militares que acompanhava, três
irmãos e um primo, a dimensão dessa missão se torna ainda mais significativa,
embora não possamos afirmar documentalmente que esse tenha sido o motivo
determinante de sua decisão. É precisamente nesse ponto que a figura de Amaro
se distancia dos demais integrantes de sua família. Amaro foi como sacerdote
integrado à organização militar. Essa condição permite imaginar que, além de
cumprir aquilo que considerava seu dever para com a Pátria e com a Igreja,
pudesse sentir uma responsabilidade particular para com aqueles que partiam de
sua própria casa e de sua própria comunidade. Como pesquisador e parente,
considero difícil olhar para essa circunstância sem formular essa pergunta.
Afinal, se seus irmãos e seu primo fossem feridos, quem estaria preparado para
lhes prestar a assistência espiritual que um sacerdote poderia oferecer? Se um
deles estivesse morrendo, quem poderia administrar-lhe os últimos sacramentos?
Não há resposta documental para essas perguntas, mas elas ajudam a compreender
a dimensão humana da decisão de Amaro sem que seja necessário transformá-la em certeza
histórica.
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| Nova Friburgo, Rio de Janeiro, primeira paróquia onde o padre Amaro atual após retornar da Guerra do Paraguai. |
O retorno ao Brasil, em maio de 1870, não significou o encerramento da história militar de Amaro nem, muito menos, o fim de sua vida sacerdotal. Ao contrário, terminada a guerra, ele retomou o exercício do ministério religioso e construiu uma longa trajetória pastoral. As informações sobre sua passagem por Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, entretanto, merecem uma precisão maior do que aquela apresentada anteriormente.
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| Jornal A SEMANA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, ano 5, n. 246, p. 1, 7 set. 1879. Acervo: Hemeroteca Digital |
Essa documentação precisa ser considerada ao lado da informação de Monsenhor Severino Bezerra, que situa Padre Amaro como vigário de Nova Friburgo em 1874. Há, portanto, uma pequena questão cronológica ainda a ser esclarecida pelas fontes primárias: não sabemos, com segurança, se houve uma primeira passagem pela cidade em 1874 e posterior retorno, ou se as fontes estão registrando períodos distintos de uma mesma atuação. O que já pode ser afirmado com segurança, porém, é sua ligação com a Paróquia de São João Batista de Nova Friburgo, comprovada documentalmente em 1879 e 1881.
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| Jornal O Apóstolo, Rio de Janeiro, ano 16, n. 100, p. 3, 4 set. 1881. Acervo: Hemeroteca Digital |
Há ainda outro dado
significativo: a história da Euterpe Friburguense registra que, em 13 de junho
de 1884, foi inaugurada a Capela de Santo Antônio, em Nova Friburgo, “sendo
Vigário da Paróquia o Padre Amaro Theot Castor Brasil”. Esse conjunto de
informações reforça a importância de Nova Friburgo em sua trajetória sacerdotal
e permite identificar com maior precisão o espaço religioso em que exerceu seu
ministério.
OBS. A aparente contradição cronológica sobre a permanência do Padre Amaro em Nova Friburgo antes de 1879 encontra esclarecimento no acervo biográfico do Centro de Pesquisa e Documentação Cultural de Juizados Especiais e Legislação do Estado (CEPEJUL), vinculado à Fundação José Augusto (FJA). Os registros oficiais revelam que, imediatamente após o término da Guerra do Paraguai, o sacerdote não regressou ao Nordeste, assumindo o vicariato encomendado da Paróquia de São João Batista de Nova Friburgo já no ano de 1870, onde permaneceu fixo até 1874. Essa evidência documental concilia a cronologia com as notas de Monsenhor Severino Bezerra e demonstra que os provimentos subsequentes de 1879 e 1881, localizados na imprensa oitocentista fluminense, não assinalavam sua estreia na região, mas sim uma segunda provisão e o aguardado retorno de um pastor que já havia conquistado a estima daquela comunidade.
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| Ceará-Mirim |
Em data ainda não precisamente esclarecida, ele retornou para o Rio Grande do Norte e se tornou coadjutor em Ceará-Mirim; posteriormente, exerceu o vicariato de Caicó entre 1885 e 1894, esteve ligado à freguesia de Triunfo em 1895 e também atuou em Jucurutu. Sua passagem por Caicó foi suficientemente prolongada para que seu nome permanecesse incorporado à história religiosa daquela comunidade. A continuidade de sua vida sacerdotal depois da guerra é fundamental para compreender sua biografia, porque demonstra que o conflito foi um capítulo extraordinário, mas não uma ruptura definitiva com sua vocação. O homem que havia acompanhado soldados no Paraguai voltou a desempenhar funções pastorais e continuou sendo reconhecido principalmente como sacerdote. Essa permanência da identidade religiosa é uma das características mais interessantes de sua trajetória e mostra que a experiência militar foi incorporada à sua vida, e não utilizada para substituí-la.
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| Caicó |
A
personalidade de Amaro também emerge de maneira muito particular nos relatos de
Monsenhor Severino Bezerra. O autor não o apresenta como uma figura idealizada,
mas como um homem dotado de qualidades e defeitos, generoso e compreensivo, mas
também franco, impetuoso e, por vezes, excessivamente direto. Uma pequena
história preservada por Severino Bezerra ilustra esse aspecto. Em determinada
ocasião, o padre João Alípio da Cunha teria cobrado de Amaro os emolumentos
relativos a batizados realizados em sua paróquia, e o sacerdote respondeu por
escrito com palavras de extrema franqueza, iniciando a correspondência desta
forma: “Ao padre João Alípio da Cunha, vigário de Macaíba por infelicidade do
povo e imprevidência do Bispo.” A passagem ajuda a compreender o temperamento
atribuído a Amaro e demonstra que a mesma personalidade vigorosa que aparece
associada à sua coragem na guerra também se manifestava em sua vida cotidiana.
Severino Bezerra registra ainda que o sacerdote recebeu do Imperador D. Pedro
II a condecoração da Ordem de Cristo, da Ordem da Rosa e a Medalha de Mérito
Militar da Campanha do Paraguai, reconhecimento que demonstra a importância
atribuída à sua atuação. Assim, a memória de Amaro reúne duas dimensões
aparentemente distintas, mas que nele coexistiram: a do sacerdote dedicado à
pregação e ao ministério e a do homem que havia demonstrado coragem e
habilidade no ambiente militar.
A ligação
de Amaro com sua terra e com a religiosidade familiar também aparece depois da
guerra. Segundo o material reunido, sua mãe, Joana Batista Martins da Silva,
teria feito uma promessa de que, se seus quatro filhos regressassem vivos da
Guerra do Paraguai, seria construída uma capela em agradecimento. A tradição
familiar, portanto, conservou a guerra não apenas como um episódio militar, mas
como uma experiência vivida com apreensão no interior da própria família. Todos
os homens regressaram vivos, e essa circunstância teria sido associada à
promessa religiosa feita pela mãe. Mais tarde, o próprio Amaro participou
diretamente de outra iniciativa religiosa relacionada à região de sua família.
Sua tia Raulina, descrita como muito devota do Espírito Santo, teria
incentivado a doação de terras para o patrimônio do padroeiro. Em 1898, Amaro
escreveu de próprio punho um documento doando terras e incentivando que nelas
fosse construída uma capela dedicada ao Divino Espírito Santo. Ele não chegou a
acompanhar a construção, pois posteriormente foi transferido para a Amazônia,
mas deixou uma imagem de madeira representando o Divino Espírito Santo. Anos
depois, em 1912, Luiz Gondim celebrou a primeira capela em honra do padroeiro.
Esses episódios são importantes porque revelam que a religiosidade de Amaro não
ficou restrita ao exercício formal de suas funções paroquiais; ele também
participou de iniciativas ligadas à formação religiosa e comunitária da região
de origem de sua família.
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| Maués, Manaus. |
No início
do século XX, Amaro deixou o Rio Grande do Norte e seguiu para o Amazonas. A
narrativa de Severino Bezerra informa que, em 1901, ele foi transferido para o
Amazonas, assumindo a paróquia de Maués. Sua vida, que havia começado no
interior do Rio Grande do Norte e passado pelo Seminário de Olinda, pelas
paróquias nordestinas e pelos campos de batalha do Paraguai, terminaria muito longe
de sua terra natal. Padre Amaro morreu em Manaus em 22 de agosto de 1906, aos
68 anos segundo a fonte, depois de 44 anos de sacerdócio. O jornal Voz
Potiguar, de Currais Novos, em 2 de setembro de 1906, registrou sua morte e o
chamou de “nosso coestaduano”, lembrando que havia sido vigário de Caicó. Mesmo
distante, portanto, continuava sendo lembrado como sacerdote potiguar. Sua
morte encerrou uma vida que havia atravessado diferentes espaços geográficos e
históricos, mas deixou uma trajetória particularmente rica para quem procura
compreender as relações entre religiosidade, família e participação militar no
Rio Grande do Norte do século XIX.
Ao
reconstruir a vida de Padre Amaro Theot Castor Brasil, torna-se possível
perceber que sua participação na Guerra do Paraguai não deve ser tratada como
uma simples curiosidade biográfica. Ele não foi apenas um padre que,
excepcionalmente, esteve em uma guerra. Foi um sacerdote formado em uma das
principais instituições religiosas do Nordeste, ordenado poucos anos antes do
início do conflito, que se apresentou voluntariamente para acompanhar o
Exército brasileiro e que permaneceu na campanha durante aproximadamente cinco
anos. Foi capelão-alferes do Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande do
Norte, esteve no combate de Potrero-Oveja, teve seu comportamento mencionado
pelo comando de Caxias e recebeu posteriormente distinções militares. Ao mesmo
tempo, permaneceu ligado à sua família, partiu acompanhado de três irmãos e de
um primo e, terminada a guerra, retomou sua atividade religiosa, exercendo
funções em diferentes paróquias e comunidades. A documentação disponível
permite afirmar tudo isso com segurança. O que permanece no campo da
interpretação é a razão íntima que o levou a partir, e é justamente aí que a condição
familiar ganha interesse especial.
Particularmente,
considero impossível não olhar para a decisão de Amaro também sob o ponto de
vista da família. É provável que o patriotismo tenha sido suficiente para
explicar sua escolha; é provável que sua vocação religiosa o tenha levado a
compreender a guerra como uma oportunidade de prestar assistência espiritual
aos soldados; e também é provável que a presença de seus três irmãos e de seu
primo tenha exercido alguma influência sobre sua decisão. Essas hipóteses não
são excludentes. Um homem pode ter sentido simultaneamente o dever para com a
Pátria, a responsabilidade própria de sua condição sacerdotal e o desejo de
acompanhar pessoas de sua própria família. O que torna a história de Amaro tão
instigante é justamente o fato de que as fontes documentam sua decisão e suas
ações, mas não registram claramente o conteúdo de seus pensamentos quando
deixou Natal em junho de 1865. Sabemos que partiu; sabemos que foi capelão;
sabemos que esteve próximo dos combates; sabemos que foi reconhecido por
Caxias; sabemos que voltou vivo com os irmãos e o primo. O que não sabemos é o
que se passou dentro dele quando tomou aquela decisão. É nesse espaço deixado
pelas fontes que a pesquisa histórica pode formular perguntas, desde que
preserve a diferença entre hipótese e evidência.
A trajetória de Padre Amaro é, por isso, especialmente significativa para a história do Rio Grande do Norte. Ela aproxima dois universos que raramente aparecem reunidos em uma mesma biografia: a história religiosa e a história militar. Sua vida começou no ambiente de uma família estabelecida em Campo Grande, passou pela formação sacerdotal em Olinda, atravessou a experiência da Guerra do Paraguai e voltou posteriormente às paróquias e comunidades religiosas. Ao lado dele estavam três irmãos e um primo, circunstância que dá à sua partida uma dimensão familiar particular. O registro de Philippe Guerra preservou o episódio; Adauto Câmara situou-o na estrutura militar; Severino Bezerra reconstruiu sua personalidade e sua vida sacerdotal; Yapery Tupiassu de Brito Guerra manteve seu nome na memória dos homens de Campo Grande; e a documentação militar de 1867 confirmou sua presença durante a campanha. São diferentes testemunhos de uma mesma trajetória, e sua leitura conjunta permite recuperar um personagem que durante muito tempo poderia permanecer reduzido a uma simples nota entre os potiguares que foram ao Paraguai.
No final,
talvez a melhor maneira de compreender Padre Amaro seja reconhecê-lo em toda a
complexidade que as fontes permitem reconstruir. Ele foi sacerdote antes da
guerra, capelão durante a campanha e sacerdote novamente depois dela; pertenceu
a uma família que enviou cinco homens ao conflito e esteve entre eles como o
único que levava consigo uma missão religiosa; participou de uma campanha
militar sem abandonar a identidade sacerdotal que havia construído no Seminário
de Olinda; enfrentou as dificuldades da guerra, esteve em Potrero-Oveja e
recebeu reconhecimento por sua atuação; retornou ao Brasil e dedicou ainda
muitos anos ao ministério religioso.
Para mim, como parente, permanece particularmente significativa a circunstância de que Padre Amaro tenha decidido acompanhar seus irmãos e seu primo. Não posso afirmar que tenha partido pensando especificamente em protegê-los espiritualmente, nem que essa tenha sido a principal razão de sua decisão, porque as fontes não dizem isso. Posso, contudo, reconhecer que essa possibilidade oferece uma chave humana para compreender um gesto que, à primeira vista, parece estranho: um homem que havia escolhido a vida sacerdotal deixando sua atividade paroquial para enfrentar uma guerra distante e brutal. Talvez tenha ido por patriotismo, talvez por vocação, talvez pela família, ou talvez por uma combinação dessas razões. O certo é que partiu, permaneceu anos na campanha e voltou para continuar sendo padre. É justamente essa combinação entre fé, família e guerra que faz de Padre Amaro Theot Castor Brasil uma figura singular da história potiguar do século XIX.
A SEMANA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, ano 5, n. 246, p. 1, 7 set. 1879.
BEZERRA, Severino. Os Levitas do Senhor. Natal: Fundação José Augusto, 1985.
CÂMARA, Adauto Miranda Raposo da. O Rio Grande do Norte na Guerra do Paraguai. Natal: Tipografia Galhardo, 1951.
EXPEDIENTE DO BISPADO. O Apóstolo, Rio de Janeiro, ano 16, n. 100, p. 3, 4 set. 1881.
GUERRA, Philippe. História Militar do Rio Grande do Norte. Natal, 1920.
GUERRA, Yapery Tupiassu de Brito. Obra de caráter histórico-memorialístico sobre os norte-rio-grandenses participantes da Guerra do Paraguai.
BRASIL. Exército Brasileiro. Ordem do Dia nº 152. Quartel-General em Tuiuti, 9 nov. 1867.
HISTÓRIA. Sociedade Musical Beneficente
Euterpe Friburguense, Nova Friburgo. Disponível em: https://fassis.wixsite.com/euterpe/historia.
Acesso em: 4 set. 2026.
VOZ POTIGUAR. Currais Novos, 2 set. 1906. Nota sobre o falecimento do Padre Amaro Theot Castor Brasil
NOTAS COMPLEMENTARES
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| https://fassis.wixsite.com/euterpe/historia. |
domingo, 30 de agosto de 2026
O CASAMENTO DO MEU TIO-BISAVÔ, ALFERES JOSÉ THOMAZ DE MAGALHÃES FONTOURA E DONA AMÉLIA MARTINS PEREIRA EM 1893...
Entre os documentos que me ajudaram a
reconstruir a história da família, alguns têm um valor especial, como esse, cuja transcrição paleográfica se fiz há pouco mais de um mês. Afirmo isso porque um material desse porte permite esclarecer relações que, à primeira vista, poderiam passar despercebidas e revelam inúmeras informações preciosas, como veremos. Nesse caso, analiso a certidão de casamento, registrada no Rio de Janeiro em 30 de julho
de 1893. O documento registra o casamento do meu tio-bisavô Alferes José Thomaz de
Magalhães Fontoura, então com 38 anos de idade, natural do Estado
do Rio Grande do Norte, militar e residente no Rio de Janeiro. O registro
declara expressamente que ele era “filho legítimo de José Thomaz de
Magalhães Fontoura e Maria Joconda Belmiro”, meus trisavós.
A informação é preciosa porque, à
primeira vista, o nome do noivo poderia levar a uma identificação equivocada.
O José Thomaz de Magalhães Fontoura (1868–1945), que aparece neste
assento de 1893, não é o mesmo José Thomaz de Magalhães Fontoura
(1829–1913). O que ocorre, nesse caso, é um filho que tem o mesmo nome do
pai. Ambos são José Thomaz de Magalhães Fontoura.
José Thomaz de Magalhães Fontoura
(1829–1913) era casado com Maria Jucunda Belmiro (1835–...),
bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã de Antônia
Clara Freire do Revoredo, mãe de Nísia Floresta. Entre os filhos desse
casal estava Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950),
minha bisavó, que se casou com Abel Gomes Peixoto. Dessa união
nasceu José Gomes Peixoto (1889–1958), que, por sua vez, foi pai de
minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932).
Capitão José Thomaz de Magalhães
Fontoura e Maria Jucunda Belmiro, meus trisavós, são pais de:
· Maria Clara de Magalhães Fontoura
(minha bisavó)
· Josefa Cecilia Fontoura Peixoto
· João Romão de Magalhães Fontoura
· José Thomaz de Magalhães
Fontoura
· Romualdo Fontoura Pereira
· Claudina Alexandrina Fontoura Castro
· João Gualberto Fontoura
· Maria Senhorinha Fontoura
· Atanásio de Magalhães Fontoura
· Ana Amélia Fontoura Cordeiro
· Francisco Thomaz de Magalhães
Fontoura
· Candido de Magalhaes Fontoura
José Thomaz de Magalhães Fontoura
(1829–1913) e Maria Jucunda Belmiro tiveram, segundo o levantamento genealógico
familiar, doze filhos, entre eles, minha bisavó Maria Clara de Magalhães Peixoto
Fontoura e meu tio-avô Alferes José Thomaz de Magalhães
Fontoura, que se casou no Rio de Janeiro, em 1893. É justamente aí que está
o significado genealógico da certidão de casamento que veremos abaixo. Maria
Clara e José Thomaz eram irmãos e, portanto, ambos trinetos de Francisca Clara
Freire do Revoredo, irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo,
mãe de Nísia Floresta. Como Maria Clara integra a linha direta da minha
ascendência, José Thomaz era meu tio-bisavô. Na direção inversa,
eu, Luís Carlos Freire, sou sobrinho-bisneto de José Thomaz de
Magalhães Fontoura e tetraneto de Francisca Clara Freire do Revoredo.
A certidão de 1893 vem, assim,
acrescentar uma importante evidência documental à reconstrução familiar,
contribuindo especialmente para distinguir os dois José Thomaz de
Magalhães Fontoura, pai e filho, que viveram em gerações sucessivas e receberam
o mesmo nome. O documento também chama atenção por identificar o noivo
como “Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura”, isto é, por
registrar sua condição militar. Esse detalhe é particularmente significativo,
pois permite confrontar a informação com outros registros históricos e ajuda a
individualizar o personagem dentro de uma família na qual o nome José
Thomaz de Magalhães Fontoura se repete entre gerações. Assim, esta
certidão de casamento, além de registrar a união de José Thomaz de
Magalhães Fontoura e Amélia Martins Pereira, realizada no Rio de Janeiro
em 30 de julho de 1893, revela uma informação genealógica de grande
importância: o noivo era filho de José Thomaz de Magalhães Fontoura e
Maria Jucunda Belmiro e, consequentemente, irmão de Maria Clara de Magalhães
Fontoura Peixoto.
Cabem neste texto três importantes
informações – duas delas localizadas na própria certidão de casamento – outra
que integra as informações passadas de pais para filhos no seio da nossa
família. Tais informações soam como curiosidade se analisadas aos olhos das
leis atuais. Vejamos: o noivo, José Thomaz de Magalhães Fontoura,
tinha 38 anos de idade, enquanto Amélia Martins Pereira tinha
16 anos. Havia uma diferença de 22 anos. Agora vejamos essa outra informação.
Minha bisavó Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto – irmã
de José Thomaz de Magalhães Fontoura – tinha 12 anos de idade
quando se casou – em 1873 – com o meu bisavô José Abel Peixoto,
tendo o mesmo 28 anos de idade, numa diferença de 16 anos. Em outras palavras:
o irmão se casaria com uma adolescente e veria no futuro sua irmã –
pré-adolescente – se casar com um homem também mais velho. Por mais que isso
soe esquisito nos dias atuais e seja inadmissível – perante a lei – era muito
comum naqueles tempos.
A outra informação diz respeito ao fato
de José Thomaz de Magalhães Fontoura ter se casado no Rio de
Janeiro, sendo do Rio Grande do Norte, mas convém aqui uma observação que
também corre no seio dos próprios antepassados. Ele era trineto de Francisca
Clara Freire do Revoredo e sabe-se que muitos da família migraram para
o Rio de Janeiro, onde deixaram descendência. Julgo também necessário – já que
citei o caso do casamento precoce de minha bisavó – aos 12 anos – Abel
Gomes Peixoto, seu marido, foi oficialmente nomeado Alferes da Guarda Nacional
em 16 de outubro de 1905, por decreto do Poder Executivo, cuja publicação
ocorreu no Diário Oficial de 24 de outubro de 1905.
Mais do que um simples registro de
casamento, portanto, esta certidão ajuda a resolver um problema recorrente nas
pesquisas genealógicas. O primeiro fato é distinguir pessoas de gerações
diferentes que têm o mesmo nome e que, se chegarem aos olhos de alguém que não
tem muito conhecimento da genealogia da família, podem gerar muita confusão.
Neste caso, o documento de 1893 nos permite separar o José Thomaz de Magalhães
Fontoura pai de seu filho homônimo e, ao mesmo tempo, acrescentar mais uma peça
à reconstrução da história da família. Outro detalhe bastante interessante se
refere ao fato de pessoas que, em documentos diferentes, tiveram seus nomes
escritos nas mais variadas formas e que, da mesma forma, se manipulados por
quem desconhece a genealogia da família, podem gerar muitos equívocos. Cito,
inclusive, o caso de Maria Jucunda Belmiro (minha trisavó), a
qual já li em documentos e manuscritos da própria família como as seguintes
versões: Maria Gioconda de Belmiro, Maria Gioconda Belmiro, Maria
Joconda Belmiro Peixoto, Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, Maria Grillo e
Maria Zulmira Fontoura. Observem a confusão... Mas isso era muito comum
no passado. Hoje isso não mais ocorre.
Enfim, o estudo de certidões de
casamento, óbito, nascimento, os inventários e demais documentos oficiais
funcionam como solo que esconde tesouros necessitados de conhecimento
genealógico, paleológico e, por que não, arqueológico...
Eis a certidão...
1170 - RIO DE JANEIRO - REGISTRO DE CASAMENTOS 1893
(TRANSCRIÇÃO PALEOGRÁFICA FEITA POR LUÍS CARLOS FREIRE)
Aos trinta dias do mês de julho de mil oitocentos e
noventa e três nesta
capital a sala da Casa da Ladeira do Senado número nove, aonde foi
vindo o doutor José Ovídio Marcondes , ahí pretor desta ..............
Pretoria, chamado para auxiliar os trabalhos da Pretoria comigo escrivão de seu
cargo ahi presentes às quatro horas da tarde os nubentes e as testemunhas
abaixo assignados pelos devidos ...... Pretos foram feitas aos nubentes as
perguntas na forma da lei aos quaes elles responderão satisfatoriamente, e para
declarar todas as formalidades legaes foram realisadas em matrimonio Alferes
José Thomaz de Magalhães Fontoura, natural do estado do Rio
Grande do Norte, de trinta e oito annos de idade, militar, morador a na
Casa acima, filho legitimo de José Thomaz de Magalhães Fontoura e Maria
Joconda Belmiro, com a Dona Amelia Martins Pereira, natural
desta capital, solteira, moradora na mesma Casa, de dezesseis annos de idade,
filha legitima de Francisco Martins Pereira e Roza
Herculana de Sarmento, sendo o nubente solteiro e o casamento pelo regime
communhão e de tudo para constar lavrei o presente termo depois que o Juiz
desta Pretoria ......................... Casados e depois de tudo assignão
com o Juiz e as testemunhas Francisco Martins Pereira, natural de
Portugal, casado, negociante, morador à rua Frei Caneca número cento e
vinte e seis e assignão também as pessoas presentes ao Acto de
Celebração do Casamento. Eu, Manoel Joaquim da Silva
......................
José Orélio Marcondes Romeiro
José Thomaz de Magalhães Fontoura
Amélia Martins Pereira
Francisco Martins Pereira
Gregorio Francisco Martins
Roza Emilia Martins
Cecilia Candida Ribeiro
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
A BARRA DE ESTEVÃO RIBEIRO NOS TEMPOS DA VELHA PAPARY...
Mas o que realmente teria acontecido?
Segundo a tradição, Estevão Ribeiro morava em Piripiri,
na região que hoje pertence ao município de Macaíba. Certo dia, teria ido a
Natal procurar o governador da Capitania para apresentar uma reclamação. Em vez
de receber atenção, teria sido tratado com violência e desprezo. Humilhado,
deixou a residência do Governo decidido a se vingar. A partir daquele momento,
teria começado a preparar cuidadosamente o crime. Conta-se que, ao sair da casa
do governador, Estevão Ribeiro caminhou em direção à Igreja Matriz de Natal,
contando os passos. Chegou a cem. Depois, procurou uma espingarda capaz de
atingir um alvo naquela distância com precisão. De posse da arma, voltou a
Natal. À noite, escondeu-se entre o mato, diante da residência do governador, e
ficou à espera. Quando a escuridão já havia tomado conta da cidade, o
governador saiu de casa. Estevão Ribeiro então disparou. O homem foi atingido
gravemente e morreu alguns dias depois. Imediatamente após o atentado, Estevão
Ribeiro fugiu. Primeiro teria retornado a Piripiri e, posteriormente, seguido
para Papary. Ali comprou uma propriedade que, com o passar do tempo, acabou
associada ao seu nome. Segundo a tradição, nunca foi preso ou levado à Justiça.
O governador era uma figura profundamente impopular e, por isso, sua morte
teria contribuído para que Estevão Ribeiro não fosse incomodado pela Justiça. A
própria arma do crime teria sobrevivido durante mais de cem anos. Passando de
mão em mão, era guardada e mostrada discretamente como uma espécie de relíquia
familiar.
Mas quanto dessa história seria realmente verdade?
A pesquisa histórica permite identificar um acontecimento
que parece estar na origem da lenda. A vítima teria sido Luiz Ferreira Freire,
capitão-mor e governador da Capitania do Rio Grande do Norte. Na noite de 22 de
fevereiro de 1722, um domingo, ele foi atingido por disparos. Gravemente
ferido, morreu seis dias depois, em 28 de fevereiro. Ferreira Freire era uma
autoridade de temperamento agressivo e havia criado muitos desafetos em Natal.
Sua administração foi marcada por conflitos e pela crescente impopularidade.
Por trás de sua morte, entretanto, parece existir uma história ainda mais
complicada. Ele era casado, mas sua esposa permanecia em Lisboa. Em Natal,
apaixonou-se por uma jovem, filha do tenente-coronel Mateus Rodrigues de Sá,
homem de posses, proprietário de sítios, fazendas, casas e rebanhos. O
relacionamento provocou o afastamento de boa parte da sociedade local. Ferreira
Freire ficou praticamente sem pessoas dispostas a servi-lo. Em determinado
momento, decidiu resolver o problema à força. Mandou buscar uma escravizada
pertencente a Manuel de Melo de Albuquerque, vereador do Senado da Câmara de
Natal. O vereador protestou junto ao Ouvidor Geral, que determinou que a mulher
fosse devolvida ao seu legítimo proprietário. Ferreira Freire reagiu com
violência e ameaçou qualquer oficial de Justiça que tentasse cumprir a ordem. O
conflito aumentou. Uma nova determinação foi enviada do Recife para que a
escravizada fosse apreendida e devolvida ao seu dono. A ordem foi cumprida, mas
o governador não aceitou a decisão. Armado e acompanhado por soldados, Ferreira
Freire cercou a residência do vereador, retomou a escravizada e ainda mandou
prender o próprio Manuel de Melo de Albuquerque, que foi levado para a
Fortaleza.
A atitude provocou forte reação do Senado da Câmara. O
órgão protestou junto ao governador de Pernambuco, que determinou a libertação
imediata do vereador, sem sequer consultar Ferreira Freire. Tudo isso aconteceu
entre novembro e dezembro de 1721. No início de 1722, a situação envolvendo a
jovem filha de Mateus Rodrigues de Sá tornou-se ainda mais grave. A família
exigiu que Ferreira Freire assumisse uma posição definitiva. Ele havia negado
que fosse casado e prometera reparar a situação, segundo os costumes da época.
Quando Mateus Rodrigues de Sá foi cobrar-lhe uma solução, porém, recebeu uma
resposta brutal. Ferreira Freire recusou-se a levar a jovem ao altar e expulsou
o pai de sua presença de maneira humilhante. O episódio deixou a família
profundamente ofendida. Há ainda um detalhe importante: Manuel de Melo de
Albuquerque, o vereador que havia entrado em conflito com Ferreira Freire por
causa da escravizada, era parente próximo dos Rodrigues de Sá. Assim, os
conflitos que cercavam o governador acabaram se cruzando. Décadas mais tarde, o
escritor Gonçalves Dias, durante suas pesquisas em documentos antigos do Rio
Grande do Norte, registrou uma tradição relacionada a esse episódio. Segundo o
relato que encontrou, o pai da jovem teria procurado o capitão-mor para
reclamar das ofensas sofridas e pedir a restituição da filha. Teria sido
novamente humilhado e ameaçado pelo governador.
Ao deixar o palácio, abatido pela injustiça, encontrou os
filhos no caminho. Eles teriam testemunhado seu sofrimento e prometido
vingança. Pouco tempo depois, Ferreira Freire foi assassinado. Gonçalves Dias
acrescentou ainda uma informação particularmente curiosa: a arma utilizada no
crime, segundo a tradição, teria permanecido durante muitos anos entre os
membros daquela família que viviam em Piripiri. É nesse ponto que a história de
Estevão Ribeiro se aproxima da memória registrada pelos moradores. A
documentação histórica registra que o governador Luiz Ferreira Freire foi
assassinado em 1722. A tradição oral, por sua vez, conservou a história de um
homem chamado Estevão Ribeiro, que teria cometido o crime e depois desaparecido
em direção a Papary. Não há, porém, prova documental suficiente para afirmar
que Estevão Ribeiro tenha sido efetivamente o assassino de Ferreira Freire. Também
não parece haver evidência de que ele fosse membro da família Rodrigues de Sá.
Uma possibilidade, seguindo a interpretação de Luís da Câmara Cascudo, é que
tenha sido um homem ligado àquela família por relações de trabalho, dependência
ou confiança. Poderia ter sido um foreiro, agregado ou simplesmente alguém que
gozasse da confiança dos Rodrigues de Sá e tivesse assumido a missão de vingar
as humilhações sofridas.
Com o passar dos anos, a história ganhou novas camadas. O
acontecimento real foi sendo transformado pela memória popular em narrativa. O
nome da vítima desapareceu, os detalhes se modificaram e a figura de Estevão
Ribeiro passou a ocupar o centro da história. Assim nasceu, ou pelo menos assim
pode ter sobrevivido, a lenda de Estevão Ribeiro. Mais do que a história de um
homem, ela é também a história de uma memória. Uma memória que atravessou
séculos sem documentos, preservada pela palavra dos moradores, até que a
pesquisa histórica encontrasse, nos antigos registros da Capitania, o acontecimento
que talvez tenha dado origem à tradição. Entre a realidade documentada e aquilo
que o povo contou durante gerações, permanece a figura de Estevão Ribeiro,
associada às antigas referências à região de Barra. E, como acontece com tantas
lendas antigas, talvez nunca saibamos exatamente onde termina a história e
começa a imaginação popular. Mas é justamente nessa fronteira entre o fato e a
memória que a lenda sobrevive.
UM ESCLARECIMENTO SOBRE A BARRA DE
ESTEVÃO RIBEIRO
É importante fazer aqui um esclarecimento, pois a antiga
denominação Barra de Estevão Ribeiro pode facilmente causar confusão com a
atual Barra de Tabatinga. Os nomes das localidades do litoral de Papary, atual
Nísia Floresta, sofreram diversas alterações ao longo do tempo, e os documentos
antigos nem sempre utilizavam a mesma nomenclatura que conhecemos hoje. A
antiga Barra de Estevão Ribeiro corresponde à atual Barreta. Ao longo do tempo,
aquele trecho do litoral recebeu outras denominações. Um documento cartográfico
de 1847 é particularmente esclarecedor. Trata-se de uma planta intitulada
“Barras de Estevão Ribeiro, hoje da Santa Cruz, Nova de Camoropim, Rio do mesmo
nome e lagoa Papary”, levantada pelo capitão-tenente Felippe José Ferreira. O
próprio título do documento demonstra que, em 1847, “Barras de Estevão Ribeiro”
era uma denominação anterior, enquanto Santa Cruz e Nova de Camoropim apareciam
como denominações então utilizadas. O documento também relaciona essas barras
ao rio do mesmo nome e à lagoa Papary.
A confusão aumenta porque Estevão Ribeiro também aparece associado a outros pontos da região, especialmente nas referências antigas à área de Tabatinga. Isso, entretanto, não significa que Barra de Estevão Ribeiro e Barra de Tabatinga fossem necessariamente a mesma localidade. São denominações que precisam ser examinadas dentro do contexto de cada documento e de cada época. Assim, para compreender a lenda aqui narrada, é fundamental ter em mente que a Barra de Estevão Ribeiro mencionada nas fontes antigas deve ser relacionada à atual Barreta. A planta de 1847 é uma evidência particularmente importante dessa história dos nomes, pois registra uma denominação anterior - “Barras de Estevão Ribeiro” - e, ao mesmo tempo, as denominações então vigentes de Santa Cruz e Nova de Camoropim. A mudança dos nomes é um exemplo de como a paisagem histórica de Papary foi sendo renomeada ao longo dos séculos, deixando nos documentos diferentes vestígios de uma mesma localidade. É justamente essa variedade de denominações que, hoje, pode levar o pesquisador ou o leitor a confundir lugares que, em determinado período, possuíam nomes completamente diferentes dos atuais. E vale lembrar que outros lugares em Papary tiveram mudanças curiosas de nomes...




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