ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

ENTREVISTA - Professor Josivaldo Nascimento fala sobre trajetória, sindicalismo, educação e candidatura à Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN. Educador nisiaflorestense relembra sua origem, atuação no magistério, reorganização do movimento sindical em Nísia Floresta e os desafios da luta por igualdade racial e valorização da educação pública


Nota: Ao tomar conhecimento da pré-candidatura do professor Josivaldo Nascimento - amigo de longas datas, pessoa que conheço desde a infância e por quem nutro profunda admiração e respeito - propus esta conversa com o objetivo de apresentar um pouco de sua trajetória e divulgar sua candidatura junto aos educadores e demais leitores. Mais do que discutir propostas, este bate-papo busca permitir que as pessoas conheçam melhor o ser humano, o educador e o militante sindical que existe por trás da função pública e da atuação política. Embora este blog não possua caráter estritamente jornalístico, acaba também exercendo esse papel. Afinal, desde sua criação, como está exposto em seu cabeçalho, trata-se de um espaço plural, aberto às múltiplas ideias, à memória, à cultura, à educação e aos debates de interesse coletivo.

Entrevista

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Para começarmos, conte-nos sobre sua origem, nascimento e família. 

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Sou Josivaldo Nascimento, nasci no dia 21 de setembro de 1978 e passei toda a minha infância, bem como a fase adulta, na comunidade do Porto. Sou filho de Maria da Paz Nascimento, dona de casa e costureira, e de José Amador do Nascimento Neto, agricultor, pescador e feirante. Tenho quatro irmãos, dentre eles uma irmã, e sou o segundo filho da família.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como foi sua infância em relação ao trabalho e à educação?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Desde muito cedo tive iniciativa para trabalhar e ajudar minha família, sem deixar os estudos de lado. Aos 9 anos de idade, passei a vender picolé nas ruas da cidade. Quando me tornei adolescente, comecei a estudar à noite na Escola Municipal Yayá Paiva para poder trabalhar durante o dia. Sempre fui muito dedicado aos estudos e nunca fui reprovado.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Quando começou sua trajetória no magistério?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Concluí o magistério em 1998. No entanto, ainda cursando o segundo ano, em 1997, fui convocado para assumir uma vaga como professor no Ensino Fundamental, devido ao concurso municipal que prestei em 1996. No dia 9 de março de 1997, deixei definitivamente a venda de picolés para me tornar professor da rede municipal, justamente na Escola Municipal Yayá Paiva, onde entrei aos 11 anos para cursar a antiga 5ª série.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Houve algum momento que despertou sua consciência sobre a luta da categoria?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Sim. Em 1992, ainda como aluno, presenciei a primeira greve do município de Nísia Floresta, promovida pelos professores celetistas, que protestavam por receberem salários muito abaixo do mínimo, além de reivindicarem concurso público e Plano de Carreira. Aquilo me despertou. Reivindiar direitos? Eu nunca tinha visto aquilo em Nísia Floresta. Foi um momento histórico. Fui às ruas junto com os professores. Coincidentemente, naquele momento estava sendo fundado o Núcleo de Nísia Floresta; hoje, ele é o SINTE-Nísia. Esse episódio foi uma semente que despertou em mim o desejo de conhecer as leis e lutar pelos direitos da minha classe.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como foi o apoio àquela greve?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

O movimento teve apoio dos Irmãos Maristas, que tinham uma casa de formação no município. Eles também lecionavam na Escola Municipal Yayá Paiva, e um dos destaques nesse protesto era o Irmão Nilton. Como a casa marista era ampla, eles cederam uma sala para organização do movimento, inclusive para a reunião que deliberou a greve e a fundação do Núcleo.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Quando surgiram os concursos públicos no município?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Até 1996, Nísia Floresta nunca havia realizado concurso público. Aquele foi o primeiro.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

E sua formação superior?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Em 1999, fiz vestibular para Matemática na Universidade Potiguar e concluí o curso em 2003. A partir disso, passei a atuar no Ensino Fundamental II, deixando o Fundamental I.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como começou sua atuação mais direta no sindicato?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Em 2006, com uma nova gestão municipal e o debate sobre a implantação do FUNDEB e do Piso Nacional Salarial do Magistério, percebemos a necessidade de fortalecer a representação docente. Já existia o Plano de Carreira, aprovado por volta de 1998, mas faltava o Piso Salarial. No dia 6 de abril de 2006, em assembleia no Centro Social Isabel Gondim, com presença de diretores do SINTERN, na pessoa do professor Miguel Salustiano de Lima, foi decidido que seria necessário criar uma diretoria provisória local. Assim, naquela assembleia, fui escolhido pela categoria e eleito coordenador-geral dessa comissão provisória, composta por 12 diretores.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Quem integrava essa comissão?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Posso citar nomes como a professora Adriana da Silva, a professora Gizelda Maria do Nascimento, o professor Ricardo Acioly da Silva, o professor Jário Correia do Nascimento, a professora Janilde Rodrigues da Silva, a professora Rosineide Marinho de Carvalho (in memoriam), além de Erineide do Nascimento, agente administrativa, entre outros.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Qual era o objetivo dessa diretoria provisória?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Reorganizar os professores, dialogar com a gestão municipal em relação às pautas da categoria, preparar um movimento grevista, se necessário, e reconstruir o sindicato original, que estava parado, sem direção, sem sede e com apenas quarenta sócios. Era necessário resgatar esse patrimônio histórico, que já possuía uma caminhada significativa. Inclusive, este ano completamos 33 anos de fundação, lutas e histórias.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como foi o processo de reorganização?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

De abril a outubro de 2006, percorri todas as escolas do município, muitas vezes pagando táxi com recursos próprios. Em algumas ocasiões, contei com ajuda pontual de professores. Fiz um trabalho pioneiro de conscientização, explicando o que é um sindicato e quais são seus direitos. Muitos professores eram resistentes. Conseguimos passar de 40 para mais de 100 sócios.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Quando surgiu a primeira sede?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Em dezembro de 2006, conseguimos abrir a primeira sede, alugada, na Travessa Padre José Hermínio, próxima à Escola Municipal Yayá Paiva. A casa era da professora Edna Trindade. Era pequena, com uma sala, banheiro, corredor, cozinha e um quarto, mas representou o início de um novo tempo.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como foi a estruturação dessa sede?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Com as contribuições, pagávamos aluguel e despesas básicas. Com apoio da direção estadual, adquirimos móveis e equipamentos como mesa, armário, computador, ventilador, geladeira e cadeiras. Fizemos uma inauguração simples em dezembro de 2006, com a presença dos professores das redes municipal e estadual e dos diretores do SINTERN, Miguel Salustiano e Fátima Cardoso, com corte simbólico de fita e registro fotográfico.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Qual foi o impacto desse momento?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Foi um divisor de águas. Professores passaram a se associar espontaneamente ao verem a atuação do sindicato. A entidade ganhou força, visibilidade e legitimidade, tanto no município quanto no estado.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como era sua rotina de trabalho nesse período?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Eu lecionava pela manhã e à tarde, utilizando o horário do almoço e a noite para o sindicato. Ficava até tarde elaborando documentos. Solicitei disponibilidade à Justiça, mas ela nunca foi concedida pelo município. Essa foi minha realidade entre 2007 e 2019.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Houve outras mobilizações importantes?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Em 2015, organizamos a segunda greve da categoria no município, que durou 31 dias. Reivindicávamos o reajuste do Piso Salarial e um novo concurso. A greve foi judicializada pelo gestor e reconhecida como regular pelo desembargador Cláudio Santos. Porém, conseguimos um Termo de Ajustamento de Conduta entre a prefeita Camila Ferreira e o Judiciário, garantindo o início do processo para realização do concurso naquele ano. Como a gestão não cumpriu o termo, em janeiro de 2016 entramos com uma ação judicial e, assim, o concurso foi realizado em junho daquele ano, mesmo sendo período eleitoral.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

O concurso foi realizado?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Inicialmente, não foi cumprido. No entanto, após decisão judicial favorável, o concurso ocorreu ainda em 2016, ano eleitoral. Com a mudança de gestão, o prefeito Daniel Marinho deu posse aos concursados.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como estava o sindicato nesse período?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Já estávamos em uma sede maior, também alugada. Ela pertencia à professora Fátima Ribeiro de Moura, e o número de sócios foi crescendo, especialmente com a chegada dos novos professores.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Sobre o Núcleo local, houve mudanças recentes?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Sim. O Núcleo Nísia Floresta passou por mudanças na diretoria. A última eleição ocorreu em abril de 2023, com permanência até abril de 2027. Já a eleição da diretoria estadual acontecerá no dia 9 de junho, com posse em seguida.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Qual sua situação atual em relação à docência?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Hoje estou cedido ao SINTERN, à disposição do sindicato.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Uma pergunta diferente, mas extremamente necessária. Durante muitos anos acompanhei sua atuação como coordenador do núcleo do SINTE-RN em Nísia Floresta. Testemunhei suas lutas, os enfrentamentos em defesa da categoria e também a hostilidade de algumas pessoas em relação ao seu trabalho. Agora, como pré-candidato à Diretoria de Igualdade Racial do sindicato, sua atuação ganha uma dimensão ainda mais sensível e necessária. Algumas pessoas dizem que você é “briguento”. O que representa ser “briguento” quando a luta passa também pelo combate ao racismo, pela igualdade racial e pela defesa da dignidade humana?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Toda pessoa que decide lutar por direitos acaba enfrentando resistências. A própria governadora, professora Fátima Bezerra, construiu sua trajetória enfrentando obstáculos, preconceitos e disputas duríssimas dentro da política e da educação. Se hoje sua história é reconhecida, é porque ela não se curvou diante das dificuldades. E o que dizer de Nísia Floresta, mulher que dá nome ao município onde nasci e que tanto me orgulha? Uma intelectual à frente do seu tempo, considerada por muitos estudiosos como uma das pioneiras na defesa da educação feminina e da liberdade humana no Brasil. Ela também precisou “brigar” durante toda a sua vida contra estruturas conservadoras, preconceitos e injustiças sociais. Por isso, prefiro substituir a palavra “briguento” por outra definição: alguém comprometido com a luta coletiva e com a defesa da dignidade das pessoas. Sempre procurei estudar as leis, compreender a Constituição Federal, os direitos dos trabalhadores da educação e os princípios que regem uma sociedade democrática. Quando autoridades se omitem, quando direitos são negados ou quando o preconceito tenta silenciar vozes, não podemos permanecer indiferentes. Na Diretoria de Igualdade Racial, essa luta ganha um significado ainda maior. Combater o racismo, defender o respeito às diferenças e promover igualdade de oportunidades não é promover divisão, como alguns tentam fazer parecer. É defender humanidade, justiça social e consciência histórica. Se levantar a voz contra a discriminação, exigir respeito e lutar para que todos sejam tratados com dignidade é ser “briguento”, então considero essa uma luta justa, necessária e impossível de ser abandonada. Assim, continuarei “briguento”.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Para finalizar, o que você tem a dizer aos professores em decorrência de sua candidatura?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Peço a confiança de cada professor que acompanha minha trajetória de luta e seriedade. Não faço esse pedido apenas pelo tempo de atuação, mas pela experiência, pelo voluntariado, pelas renúncias que fiz e também por me sentir capacitado e disponível. Lutar pela classe docente, para mim, é uma missão. Minha missão é fortalecer a categoria e defender uma educação pública valorizada e de qualidade. Faço meu trabalho com compromisso e amor, e gostaria de continuar lutando.

Muito obrigado!

Abaixo: Fotografias do acervo pessoal do Professor Josivaldo do Nascimento. Estão dispostas de forma aleatória. Os registros falam por si, tendo em vista que sua história se confunde com a história do Sinte-Nísia... 

POSSE E ABERTURA DA SEDE DO NÚCLEO NÍSIA FLORESTA-SINTE


POSSE E ABERTURA DA SEDE DO NÚCLEO NÍSIA FLORESTA-SINTE


ATO NA PREFEITURA
RECEBENDO HOMENAGEM DECORRENTE DOS 30 ANOS DO SINTERN - GOVERNADORA FÁTIMA E DEPUTADO FRANCISCO - ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RN.

VISITA ÀS ESCOLAS ESTADUAIS COM A DIREÇÃO DO JURÍDICO - ELIENE BANDEIRA



COLETIVO DE COMBATE AO RACISMO - CNTE - RECIFE/PE


GREVE 2015 - ESSE ATO DETERMINOU O ÚLTIMO CONCURSO DE 2016

FESTA DE FIM DE ANO DO SINTERN NO PRIMEIRO ANO NA DIREÇÃO ESTADUAL


DIRETORES DO NÚCLEO DE NÍSIA FLORESTA NO PERÍODO DO CONCURSO - 2016



REUNIÃO NO MEC COM A SECRETARIA NACIONAL - SECAD.


COM O EX-PRESIDENTE DA CNTE NO MEX

COM APOSENTADOS E APOSENTADAS, NA PRESENÇA DA GOVERNADORA, PROFESSORA FÁTIMA BEZERRA - DIA DOS APOSENTADOS.



FESTA DE ANIVERSÁRIO DO NÚCLEO E DIA DOS FUNCIONÁRIOS E PROFESSORES DE NÍSIA FLORESTA (PRAIA).


ATO DE RUA EM NATAL COM OS PROFESSORES NISIAFLORESTENSES - DEFESA DO PISO SALARIAL.


 


quarta-feira, 13 de maio de 2026

COMO SE DEU O ABOLICIONISMO EM NÍSIA FLORESTA?


NÍSIA FLORESTA: PRIMEIRA ABOLICIONISTA DO BRASIL


Imagine você nascer e ter quem faça tudo por você: comida à mesa, ajuda para banho, abanar penas para afastar o calor etc etc etc. Imagine você criança, vendo adultos dando ordens o dia inteiro aos escravos, por vezes os humilhando e torturando-os física e mentalmente. Nísia Floresta Brasileira Augusta nasceu nesse contexto. Ela não via essa estupidez no Sítio Floresta, afinal eles não eram proprietários de escravos, à exceção a Pepe, uma preta que a acompanhou durante o tempo que ela morou no Sítio Floresta. Embora Pepe é mencionada no corpo de sua obra, não se sabe detalhes sobre a mesma, exceto o grande afeto que Nísia Floresta sentia por ela.

Nísia Floresta Brasileira Augusta


Nísia não viu a truculência da escravidão no sítio onde morava, mas via a escravidão nos sucessivos engenhos da Vila Imperial de Papary, pois nasceu numa região nordestina permeada por incontáveis engenhos. Na Vila Imperial de Papary assistia ao comércio de escravos no velho pé de Oiti, onde acontecia a compra e venda de escravos, próximo ao Engenho São Roque.

É impossível não admitirmos que qualquer criança que visse isso acharia normal, pois estava descobrindo o mundo. Ela olharia a sua pele, depois a pele preta, e perceberia que a diferença explicava a servidão criada pelo sistema. Pois bem, Nísia Floresta nasceu nesse contexto. Agora imagine você começar a estranhar isso e expor sua insatisfação. Obviamente que você se tornaria uma alienígena, pois incomodaria a maioria.

Verdadeiramente, os escravos pretos não eram vistos como gente por quase todos, portanto não compreenderiam uma criança ou uma jovem pedindo clemência por eles e recriminando o tratamento truculento a eles dispensado. Era esse o tratamento dado aos burros de carga e aos bois arrastando toneladas sobre os carros de madeira que gemiam quilômetros a fio, carregando os partidos de cana. Em conseqüência, se não eram gente, mereciam o mesmo tratamento.

Até hoje, em pleno século XXI, vimos cavalos e jumentos apanhando de seus donos por não conseguirem carregar as carroças. Pois saibam que o mesmo aconteceu aos escravos. Muitos morreram de exaustão. Não conseguiam dar conta do peso ou do ofício exaustivo dos canaviais e outros serviços, então apanhavam para recuperar a força. Assim, morriam. Nísia Floresta, ainda muito jovem, percebendo isso, pedia tratamento mais humano aos pretos. Inicialmente ela não pedia a abolição da escravidão. Talvez nem imaginasse ser possível acabar com aquilo.

Depois ela faz reflexões sobre a situação deplorável como eles viviam nas senzalas e sugere que recebessem maiores cuidados, mas não pede a extinção da escravidão. Certa vez alguém publicou um texto no Diário de Natal no qual acusava Nísia Floresta de endossar a escravidão. O autor se serviu de um trecho isolado de uma de sua obras, na qual ela condena as mulheres brancas por darem seus bebês para serem amamentados pelas pretas sujas. De fato ler isso assusta.

Qualquer pessoa que lesse o trecho de maneira isolada, entenderia da mesma forma. Mas Nísia Floresta, na realidade condenava a imundície e situação de insalubridade na qual viviam as escravas. Ela proclamava que a amamentação era um ato de amor, portanto o gesto pertencia somente às mães biológicas, e não às escravas. Nísia Floresta, que sabia que as mães brancas faziam isso para conservar suas siluetas – ou seja, por vaidade e preguiça – não media esforços para condenar os gestos das senhoras donas de escravos.

Muito adiante, veríamos Nísia fazendo ataques fortíssimos às mães francesas, as quais mandavam seus filhos-bebês para serem cuidados por amas de leite, em situações deploráveis nos campos próximos a Paris. Ela presenciou "in loco" o fato, tendo registrado suas impressões. O abolicionismo em Nísia Floresta passeia ao longo de suas obras, pois ela foi uma escritora que pulverizava assuntos semelhantes em várias de seus livros. Mesmo que não estivesse escrevendo sobre a escravidão, ela entrava nessas águas e logo retomava o seu objeto de discussão principal. E no caudal disso tudo encontramos uma Nísia Floresta que amadureceu lentamente a sua condição de abolicionista. Aquilo que para ela – e para todos – era normal, se tornou hostil ao longo de suas últimas publicações. E não poderia ser diferente. Ela percebeu muito cedo a desumanidade da escravidão preta, portanto precisou se camuflar no bojo dos escravagistas, escrever numa visão que não assustava tanto, mas que significava o sutil plantel da semente abolicionista.

Lentamente ela assume sua condição anti-escravagista e seus escritos se tornam mais densos e com forte criticidade. Na própria obra “A Lágrima de Um Caeté”, que não era um livro sobre escravidão, ela encontra espaço para condená-la. E essa obra foi censurada pelo Império. Pois bem, discutir o tema ABOLICIONISMO em Nísia Floresta pede a contextualização dos fatos para o necessário entendimento. E isso dá muitas laudas e horas e horas de discussões. Como sempre, coloco-me ao seu dispor para discutirmos o assunto a qualquer momento e em qualquer espaço. L.C.F 1999

13 DE MAIO - DIA DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO. .. NÍSIA FLORESTA E PRINCESA ISABEL – O QUE HÁ EM COMUM ENTRE AMBAS...


Aproveitando a data de hoje lembrei que, muito anos antes de a Princesa Isabel nascer, precisamente 26 antes, Nísia Floresta era abolicionista. Antes dela ninguém escreveu nada condenando a escravidão. Nísia nasceu aos 12.10.1810 e faleceu aos 24.4.1885. Princesa Isabel nasceu aos 29.7.1846 e morreu aos 14.11.1921. Quando Princesa Isabel ainda nem era nascida, Nísia Floresta era autora de livros. Quando Isabel tinha três anos de idade, Nísia perguntava em uma de suas obras:
“... que uma raça não fez para sobre as outras ter revoltante primazia ilimitado poder?”...
Quando Isabel tinha 7 anos, Nísia colocava as autoridades brasileiras contra a parede e sentenciava:
“Senhores do Brasil, esse solo abençoado em que respirais, mostrai-vos dignos dele, fazendo desaparecer do meio de vós a maior vergonha dos povos cristãos! Vergonha que macula ainda os vossos altivos vizinhos do Norte, apesar dos admiráveis progressos do seu gênio empreendedor e dinâmico. Cessai uma horrível profanação da natureza humana: ela deve ter, cedo ou tarde, como resultado, terríveis represálias”...


Se desenrolarmos o novelo das referências abolicionistas feitas por Nísia Floresta em suas diversas obras, e as discutirmos aqui, este texto viraria tese. Servi-me dessas duas significativas falas para trazer à baila essa importante informação que alguns desconhecem.
O Movimento Abolicionista, no Brasil, foi crescer em 1870, ou seja, 21 anos depois de Nísia Floresta ter aventado seu ideário abolicionista em livros. Isso é fato. Está escrito! A abolição da escravatura no Brasil só aconteceria tardiamente, em 13 de maio de 1888, comprovando o conservadorismo das elites brasileiras. E não pensem que foi um ato de bondade.
A Lei Áurea foi conseqüência do envolvimento popular com a causa da abolição. O povo foi às ruas gritar sua voz. O imperador sentiu-se pressionado a finá-la. Os grandes latifundiários, fazendeiros e a elite dona de milhares de "peças" ficaram enlouquecidos... não teriam mais mão de obra grátis. Não teriam mais seus brinquedos sexuais... não teriam mais válvulas de escape para dar vazão aos seus atos psicopatas, como certa vez revelou Darwin, ao visitar o Brasil e ver uma senhora de engenho batendo numa criança para se divertir...
Entre 1870 até a deflagração da abolição tivemos abolicionistas como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco André Rebouças, Luís Gama, o poeta Castro Alves e outros. Sem contar os abolicionistas pretos. Mas Nísia Floresta veio na dianteira, abrindo caminho a facão e sofrendo todo tipo de preconceito e tabu. Não poderia ser diferente.
Ter sido precursora não a torna melhor que ninguém, até porque, nascida no meio da escravidão, ela foi construindo o seu comportamento abolicionista ais poucos, dando conta de que aquilo não podia ser normal nem se perpetuar. E para isso precisou ser cuidadosa trabalhando o assunto nos jornais e livros aos poucos, meio impregnada daquele habitat - porque não poderia ser diferente. Foi um abolicionismo construído. Nísia é a grande referência em toda a América Latina, inclusive fomos o último país da nossa América a decretar o “fim da escravidão”.
O seu pioneirismo também serve para reconhecermos que, além de suas ideias estarem a frente de seu tempo, havia muita audácia e coragem em sua pessoa. E o fato de se tratar de uma mulher, era como ter que matar um leão por dia. Primeiro que "mulher era para a cozinha e outras prendas domésticas", e jamais para o mundo das ideias.
O que chama a atenção nessa história é que a “bondade” da Princesa Isabel foi apenas um ato forçado e sem responsabilidade alguma perante milhares de "ex-escravos" soltos, sem eira e nem beira. A ABOLIÇÃO FOI A ALTERNATIVA PARA O GOVERNO SE LIVRAR DA REFORMA AGRÁRIA. Desse modo eles abriram os ferrolhos das senzalas e soltaram os ex-escravos como se abre uma cancela do curral... retiraram os grilhões e tiraram de cena o pastoreio dos capitães do mato.
É exatamente como - hoje - você abrir a portinha da gaiola e dar liberdade ao passarinho ali sequestrado há dez anos. Para onde ele vai? O que fará? Não sabe voar, não sabe ser predador, não conhece as árvores, os rios... não sabem nada... ASSIM FOI COM OS ESCRAVOS!
Aos pretos restou abandono. Abandonados, se viram obrigados a viver à míngua nas periferias e arrabaldes, marginalizados e discriminados. Então inauguraram as favelas. Não eram gente para muitos. A metade ficou nas cozinhas das madames, nos pastos dos senhores e em todos os serviços que branco não fazia. Assim aprenderam.
O que se pode esperar de pessoas marginalizadas? A discriminação e o desprezo são como açoite. Dói, gera revolta... E os reflexos são visíveis até hoje nas páginas policiais. Essa realidade não foi regra para todos, mas para muitos. Prova disso são as estatísticas de criminalidade.
Só pretos cometem crimes? Claro que não! Comete crimes quem é abandonado por sucessivos governos inconseqüentes, segregacionistas, que não oportunizam políticas públicas de dignidade para a sua nação, sem priorizar cor ou qualquer condição. Foi o caso deles!
Pois é, hoje é 13 de maio: dia em que Isabel Augusta Micaela Gabriela de Bragança e Bourbom aboliu a escravidão, mas num ato meramente de conveniências... ato politiqueiro como ocorre hoje, por exemplo, com algumas figuras públicas super conhecidas, que não gostam de pobre, de negros, de indígenas, de gays, mas como é ano político, a máscara do marketing os modificam como camaleões, e ficam temporariamente bem na fita, embora que PARA INGLÊS VER!
É exatamente por isso que aproveito o detalhe de estarmos falando de Nísia Floresta, - uma mulher, diga-se de passagem -, há mais de um século e meio, sozinha, gritando contra a escravidão e diversas injustiças, mesmo sabendo que poderia sofrer retaliações, e hoje - pasmem! - assistimos mulheres a favor de torturadores, misóginos, racistas homofóbicos todo comportamento não civilizado. O QUE ACONTECEU COM ESSAS MULHERES? E COM AS SILENCIOSAS?
Pois então, já estava mudando o assunto... como dizia, abolicionista mesmo - e precursora - foi Nísia Floresta. Leiam o currículo dela e depois leiam o currículo da princesa Isabel. O assunto é longo. Quis apenas deixar essa breve reflexão importante sobre a visão adiante do tempo de Nísia Floresta Brasileira Augusta. L.C.F. 1998.

HOJE É DIA DE LEMBRAR, PEDIR PERDÃO E LUTAR CONTRA ESSA PÁGINA VERGONHOSA DA NOSSA HISTÓRIA...


As imagens, por mais que choquem, não são maiores do que a crueldade política da escravidão. Por isso, quando você ver o racismo, condene, execre. Faça desse ato um ato político sem esperar pelo "lugar de fala". Esse "lugar de fala" é do homem. Aboliram a escravidão, mas os escravos negros continuaram da cozinha para o quintal. Não houve política pública. Surgiram as favelas... Tempos atrás, conversando com uma nisiaflorestense, ela me contou que nos anos 50, quando tinha 10 anos, se recorda de sua mãe e muitas pessoas de cor, empregadas domésticas em Papari, as quais eram tratadas como se fossem bichos. Não podiam se aproximar da sala. Entendem, agora, a razão das Cotas nas universidades?










PRINCESA ISABEL EM UMA DE SUAS ÚLTIMAS FOTOGRAFIAS...


Isabel de Bragança (1846-1921) exilada no Castelo d’Eu, França, em seu último ano de vida, 1921. Ela morreu em 14 de Novembro de 1921, há 101anos.

Fonte: História Oculta Photos

13 DE MAIO - DIA DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO...


Foi por conveniência mesmo, mas foi um passo importante! E saber que a "desconhecida" NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA - vinte e nove anos antes da princesa Isabel -, lutava contra a escravidão, se confirma a ideia de que a sociedade civil deve se organizar sempre. O caminho é esse. Só esse,, pois ela é a grande provocadora de transformações. Nísia foi pássaro ferido, solitário, mas foi capinando o seu caminho... abrindo veredas que se tornaram estradas e hoje são avenidas... pense!