ANTES DE LER É BOM SABER...
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
O QUE TINHA NAS LATAS DE CONSERVA DA "ACADÊMICOS DE NITEROI"?
domingo, 15 de fevereiro de 2026
UM FEMINICÍDIO DIFERENTE: DEIXAR UMA VIVA-MORTA...
No último dia ... – como se não bastasse o quanto o caso do “Orelha” abalou o país – o Brasil chocou-se com o episódio passado em Itumbiara, interior de Goiás, quando Thales Machado, homem comum, sem qualquer problema, secretário de governo e genro do prefeito – durante uma viagem da esposa para São Paulo – atirou nos dois filhos e depois se matou. O menino de 13 anos morreu na hora e o outro, de oito anos, internado em estado grave, morreu no dia seguinte. Ele deixou uma carta, “justificando” o crime como sendo motivado pela "traição" da mulher.
Para mim, o autor desse crime se chama machismo, o pensamento equivocado de que a mulher é um objeto de posse do homem, e uma vez casada, deve conviver com o marido até a morte, mesmo que a relação conjugal esteja falida.
Thales Machado, segundo depoimentos, era um homem de conduta ilibada, excelente esposo, excelente pai, excelente marido, excelente profissional e amava a família. Um homem querido por todos. E sobre a mulher, todos têm a mesma impressão. Não há o que se falar dela, exceto após a novidade da possível traição. Digo “possível” porque, de acordo com o que li, ela não vivia maritalmente com ele há meses, tendo lhe comunicado que pretendia se separar, por não nutrir mais amor algum por ele. E considerando esse detalhe, a traição se torna diferente de uma traição em que o homem ou a mulher vivem debaixo do mesmo teto sem ter conhecimento de que um ou outro nutre o desejo secreto de se separar.
Mas o que me chocou tanto quanto esse crime horroroso foi a exposição que as redes sociais fizeram dessa mulher. A grande maioria fê-la uma criminosa, ignorando que o crime – hediondo – foi do marido tomado pelo machismo. Ela foi execrada durante o enterro do filho e, mesmo despedaçada, precisou se se retirar às pressas do cemitério como se não tivesse sentimentos.
Antes de cometer o crime abominável, o homem era um exemplo de pessoa, mas quando ele mata dois inocentes, no auge da vida, com futuros brilhantes pela frente – e de maneira covarde (publicando vídeos amorosos um dia antes, visitando os filhos na escola, falando de amor) – ele se revela um monstro. Um monstro que a sociedade construiu e segue construindo desenfreadamente ao formar homens machistas, que se acham donos de mulheres. E o que agrava a situação é o fato de o assassino usar os filhos para vingar-se, ciente de que a ex-mulher seria uma viva-morta para sempre. Ele selou o seu futuro com uma sentença maquiavélica. Matou-se, mas deixou uma viva-morta.
O machismo é autor de tragédias deploráveis ao longo dos séculos, a exemplo do famoso caso de Ana de Assis, esposa de Euclides da Cunha, numa tragédia oriunda de traição conjugal que chocou São Paulo. Só depois de décadas que o Brasil tomou conhecimento e virou minissérie.
O caso de Thales Machado foi um feminicídio diferente. Ele quis levar o que de mais precioso existe para uma mãe: os filhos. E a "sereja do bolo" foi ter se matado para garantir que a sociedade sentenciasse a esposa como monstro. Ele quis deixar uma viva-morta, pois jamais essa mulher será feliz. É dor que nunca acaba. O que é isso senão feminicídio? O que é isso senão machismo? Era uma família linda, tanto o casal, quanto os filhos, mas não existia o principal da parte da esposa, ela o comunicou sobre a separação, mas ele não aceitou. Quantos homens deixam de amar suas esposas? Muitos. E raramente se sabe de casos de ‘masculinicídios’. Todos os valores que Thales possuía foram por água abaixo pelo fato de tais valores não terem sufocado o machismo que se formatou ao longo da sua vida, fruto de uma cultura equivocada na qual apenas o homem tem sentimento e razão. E assim ele se tornou um assassino e monstro. Para a esposa, ele era tudo de bom, menos marido. Então seu coração se abriu para outro, mesmo que talvez não fosse a pessoa certa, mas a fragilidade do momento lhe incorreu ao ato.
Faltou a Thales a maturidade de entender a situação da mulher. E se tivesse sido com ele? Com certeza teria deixado a casa há muito tempo e já teria até filhos com a outra, pois o machismo protege a imagem masculina. E ninguém jamais saberia que esse casal existiu. A sociedade educa homens e mulheres a entender que o homem pode tudo, por tal razão é comum – pasmem – que até mesmo mulheres sejam machistas. Na verdade ninguém tem culpa, pois é cultural. É a forma como educam as crianças.
No fundo, Thales, apesar de encerrar sua vida como um monstro, também foi vítima. Vítima do machismo encrustrado nos meninos desde criança. É exatamente isso que deve ser mudado. Entendo que as escolas devem trabalhar a questão do machismo, educando as crianças sobre o necessário respeito à mulher, ensinando que homens e mulheres tem livre arbítrio, devem respeitar um ao outro sobre suas decisões e gostos, e que a mulher não é um objeto com dono. As famílias - em primeiro lugar - devem ensinar o mesmo, afinal, a educação de berço é muito poderosa.
A historiografia traz as mais bizarras histórias sobre a redução da mulher a mera vida doméstica, um objeto, um ser que deve estar escondido da vista de outros homens, submissa, amedrontada, humilhada, torturada psico e fisicamente, apedrejada, traída e morta quando for o caso. Isso veio nas caravelas portuguesas, herança dos mouros. Era dito à mulher que se ela se separasse seria tida por todos como p.u.t.a. Então o medo era maior. Assim, mesmo sem amor, elas morriam ao lado de maridos que as traiam debaixo do nariz com escravas, meretrizes e quem quisesse, e com aprovação da sociedade. À mulher cabia apenas assistir em silêncio. Muita coisa mudou atualmente, exceto o pensamento machista de ‘mulher como propriedade privada’, sem direito de decidir o que é melhor para si. O jovem Thales herdou essa educação moura. Mesmo tendo uma vida pela frente e com a possibilidade de ser feliz num novo relacionamento, escolheu ser machista. Infelizmente.
Os meninos são “educados” desde pequenos a trair, serem desleais para suas namoradas e esposas. É como se tudo fosse permitido ao homem. Isso é muito perigoso porque a linha que separa o machismo da violência e do feminicídio é muito tênue. Essa “educação” equivocada é normalizada, e quando a mulher não quer mais ser objeto, ou simplesmente deixa de sentir amor pelo cônjuge, corre o risco de ver o ex-marido macular sua imagem aos amigos próximos, ou morta, ou - no caso dessa situação do Thales - ser "causadora" de uma tragédia. Seu machismo foi tão doentio que ele parece ter pensado: "vou destruir tudo, inclusive ela". É como só ele pudesse decidir até mesmo a tragédia, jamais a mulher.
Não sou a pessoa certa para opinar, pois não sou psicólogo, psicanalista etc. Mas escrevo como pai, esposo e marido. Escrevo como quem tem família, e esse fato também me abalou. Escrevo como quem já leu muitas obras literárias em que o feminicídio é normalizado. Escrevo como quem, desde criança, vê mulheres execradas, apedrejadas em todo o Brasil e sempre se compadeceu. Muito triste essa história e, infelizmente, não será a última enquanto não educarem as crianças contra a chaga do machismo.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
MORRE O PROFESSOR SEVERINO VICENTE - MONUMENTO HUMANO DO RIO GRANDE DO NORTE...
Não acreditei quando vi aquele monumento num caixão. Quanta sabedoria viraria cinza! Uma biblioteca foi sepultada hoje. É certo que Severino não é gigante apenas por isso, afinal foi excelente amigo, querido por todos, excelente pai, esposo e avô. Um homem de caráter. Pessoa admirável. Sua filha fez uma linda homenagem.
Estive na Casa de Velório e Cremação São José, onde houve a celebração da missa de encomendação seguida de uma homenagem feita por um grupo folclórico, cujos atores dançaram lhe reverenciaram junto ao ataúde. Logo após se deu a cemimônia de cremação.
Homenagem Póstuma a Severino Vicente (1948–2026)
Com profunda tristeza, a cultura popular potiguar e brasileira despede-se do professor, historiador, escritor e folclorista Severino Vicente, falecido em 11 de fevereiro de 2026, aos 77 anos, após longa e corajosa batalha contra o câncer. Sua partida representa uma perda imensurável para o estudo, a preservação e a valorização do folclore no Rio Grande do Norte e no Brasil.
Nascido em 1948, na Fazenda Lajinha, município de Pedro Avelino (RN), mudou-se ainda jovem para Natal, onde construiu sua trajetória acadêmica e cultural. Foi esposo dedicado de Zeneide Maria de Seixas Vicente e pai de Bartira Seixas Vicente, Jagoanhara Seixas Vicente e Juliane Seixas Vicente. Homem de família e de convicções firmes, soube conciliar a vida pessoal com uma atuação pública marcada pelo compromisso inabalável com a cultura popular.
Severino Vicente dedicou sua existência à pesquisa, à difusão e à defesa das tradições nordestinas. Sua trajetória intelectual confunde-se com a própria história da valorização do folclore potiguar nas últimas décadas. Mais do que estudioso, foi articulador, incentivador e presença ativa nos movimentos culturais que buscavam assegurar reconhecimento e dignidade às manifestações do povo.
Dotado de vasta erudição e sensibilidade humana, exerceu papel de grande relevância institucional ao presidir a Comissão Nacional de Folclore, instância fundamental na articulação dos estudos e das políticas voltadas às manifestações culturais populares em âmbito nacional. Também presidiu a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, entidade histórica dedicada à salvaguarda, pesquisa e promoção do patrimônio imaterial do estado. Nessas funções, consolidou-se como uma das maiores referências nos estudos do folclore do Rio Grande do Norte, sendo respeitado por pesquisadores, mestres da cultura tradicional e instituições culturais em todo o país.
Autor de três livros, investigou com profundidade as raízes históricas, simbólicas e sociais das manifestações culturais nordestinas. Sua obra examinou, inclusive, as influências europeias reinterpretadas no contexto regional, demonstrando como o povo potiguar recriou e ressignificou heranças culturais ao longo dos séculos. Para Severino, o folclore jamais foi mero espetáculo ou peça de museu: era memória viva, identidade coletiva e patrimônio dinâmico, que precisava ser compreendido, respeitado e transmitido às novas gerações.
Deixa esposa, filhos, netos e bisnetos, que hoje guardam não apenas a saudade, mas o orgulho de uma trajetória íntegra e exemplar. À família unem-se incontáveis amigos, colegas e discípulos que nele encontraram um mestre generoso, sempre disposto a compartilhar saberes, orientar pesquisas e estimular vocações.
Sua morte representa um prejuízo incalculável à cultura popular norte-rio-grandense. Perdemos um guardião da memória, um intelectual comprometido com as raízes do povo, um articulador incansável de políticas culturais e um defensor firme das tradições populares. Em tempos em que o patrimônio imaterial enfrenta desafios decorrentes da massificação cultural e do esquecimento das tradições locais, sua ausência deixa uma lacuna difícil de preencher.
Permito-me acrescentar, neste momento de despedida, meu testemunho pessoal. Foram 29 anos de amizade, convivência e admiração. Compartilhamos inúmeros eventos folclóricos pelo Rio Grande do Norte, seminários, encontros, debates, cursos, festivais e celebrações da cultura popular, ao lado de outros abnegados folcloristas potiguares. Caminhamos juntos na defesa das tradições do nosso estado, aprendendo e ensinando mutuamente. Sua presença distinguia-se pela firmeza intelectual, elegância no trato, espírito conciliador e amor incondicional ao folclore.
Seu exemplo, contudo, também nos convoca à reflexão. Não vejo surgir, na mesma proporção em que partem, homens e mulheres dedicados ao folclore norte-rio-grandense com o mesmo grau de abnegação e compromisso. Após nosso maior mestre, Luís da Câmara Cascudo (1986), despedimo-nos de Veríssimo de Melo (1996), Deífilo Gurgel (2012) e, agora, de Severino Vicente - verdadeiros monumentos humanos da cultura potiguar. Essa realidade impõe um debate urgente.
As instituições culturais precisam eleger como prioridade o fomento e a valorização do folclore em todas as suas expressões: nas brincadeiras populares, nas artes plásticas, no teatro, na música, na literatura oral e nas celebrações tradicionais. As escolas, por sua vez, devem inserir de forma sistemática o estudo e a vivência do folclore norte-rio-grandense em seus projetos pedagógicos, garantindo que crianças e jovens reconheçam, respeitem e se orgulhem de suas raízes. Só assim asseguraremos a continuidade de nossa herança cultural.
Hoje, despeço-me não apenas de um grande pesquisador, mas de um amigo leal, inspirador e coerente com seus ideais. Seu legado permanece vivo nas páginas que escreveu, nas instituições que fortaleceu e, sobretudo, nas manifestações culturais que ajudou a preservar. Severino Vicente parte, mas sua obra continua iluminando o caminho daqueles que compreendem que a cultura popular é a alma de um povo.
Honrou a memória de Câmara Cascudo, honrou o Rio Grande do Norte e honrou, acima de tudo, o seu povo.
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