ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

domingo, 10 de maio de 2026

LENDA DA LAGOA PAPARY E UMA MENSAGEM DEIXADA POR ELA...

Fotografia de Newton Bruno, publicada em: G1 - Projeto fotográfico 'Papari' mostra realidade de ribeirinhos no RN - notícias em Rio Grande do Norte

LENDA DA LAGOA PAPARY (Autoria desconhecida no momento)

Contava-se em Papari
A lenda de uma sereia;
Era a história de Jaci,
Jovem tapuia da aldeia.

Jaci formosa e catita,
Filha do chefe Aribó
Era a índia mais bonita
Do Vale do Capió.

Amava com amor ardente
Guaracy jovem guerreiro,
Cujo peito igualmente
Nasceu um afeto primeiro

Sozinho na solidão
Guaracy vagava a toa,
Ora ao redor da Caiçara,
Ora ao redor da lagoa.

Certa vez quando pescava
Tentando esquecer as mágoas,
Ouviu que perto cantava
A voz de Jaci nas águas.

A delirar, Guaracy.
Na lagoa mergulhou
Seguiu a voz de Jaci
E a tona não mais voltou.

Hoje esta lenda triste
Quem se dispõe a cantar
Vê quanto mistério existe
Entre a lagoa e o mar.

VÍDEOS ABAIXO (CLIQUE E ASSISTA):





MENSAGEM (L.C.F.)

Eu, Lagoa Papary - outrora chamada Paraguaçu - brasileira, natural destas terras antigas do Rio Grande do Norte, casada simbolicamente com os nativos que durante séculos viveram às minhas margens, domiciliada entre o Porto, Morrinhos, Tororomba, Oitizeiro, Georgino Avelino, Currais e Genipapeiro, dirijo-me respeitosamente a você, nisiaflorestense, para pedir socorro.

Antes, porém, permita-me falar da minha origem.

Você sabia que meu nome original era Paraguaçu? Na língua tupi, significa “Mar Imenso”. Nem é difícil entender o motivo. Já fui muito maior do que sou hoje. Minhas águas avançavam por extensões hoje inimagináveis, abraçando caminhos, rios, mangues e várzeas que o tempo, o abandono e a ação humana lentamente mutilaram.

Sou filha da Lagoa do Bonfim, antigamente chamada “Puxi”, nome indígena posteriormente rejeitado pelos missionários capuchinhos. Nasci no seio de uma imensa família de lagoas e espelhos d’água. Tenho muitas irmãs: Papeba, Papebinha, Ferreira Grande, Ferreirinha, Urubu, Escura, Lagoa Seca, Carcará, Arituba, Cavalos, Pium, Amarela, Ilhota, Lodo, Sítio, Dourada, Alcaçuz, Tacho, Jabuti, Hiola, Redonda, Redondinha, Carnaúba, Teixeira, Anjos, Custódia dos Negros e Peixe, embora algumas delas sejam apenas irmãs adotivas do mesmo sistema hídrico que alimenta estas terras.

Tenho ainda inúmeros primos em forma de rios, riachos e veios d’água espalhados pelo centro da cidade, pelo Porto, Ilha, Boacica, Pirangi, Alcaçuz, Pium, Cururu e Hortigranjeira. De certa forma, estou presente em quase todo o município.

Sobre minha idade, prefiro manter o mistério. Mas deixo uma pista: eu já existia muito antes da chegada dos primeiros indígenas a estas terras. Muito antes dos portugueses, antes das estradas, antes dos engenhos, antes das cercas e dos viveiros. Vi o tempo nascer sobre estas margens.

Fiz a alegria de incontáveis gerações indígenas que habitavam minhas matas ciliares. Vi homens e mulheres pescando, navegando em canoas, banhando-se em minhas águas cristalinas e vivendo em profunda harmonia com a natureza. Das minhas entranhas saíam peixes gigantescos, alguns pesando quase trinta quilos. Fui berço abundante de goiamuns, camarões, pitus, siris, caranguejos-sá e de uma vasta e rica microfauna aquática.

Sou a lendária Lagoa Papary - antiga Paraguaçu - grande reservatório das águas do Trairi, receptáculo das enxurradas vindas do inverno sertanejo. Pequenos riachos descem dos tabuleiros arenosos e, ao longo dos séculos, alimentaram esta imensidão de águas interligadas a rios e lagoas que seguem em direção ao mar pelo velho Cururu.

Desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, meu nome passou a figurar em mapas, documentos e relatos históricos. Já aparecia na cartografia de Marcgrave, em meados da década de 1640. E antes mesmo disso, já era conhecida em Portugal. Em 1810, o célebre viajante inglês Henry Koster visitou-me quando minhas águas ainda alcançavam o Porto.

Em seu livro Viagem ao Nordeste do Brasil, ele descreveu o encanto de ver pescadores chegando em canoas abarrotadas de peixes, comparando minha fartura ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra. Fui cantada em versos por autores anônimos, evocada em antigas lendas indígenas e mencionada por inúmeros viajantes europeus em documentos hoje raríssimos.

Sempre fui vista como misteriosa, bela e acolhedora. Foi nesse contexto que surgiu a célebre lenda de Jaci e Guaracy, uma narrativa profundamente romântica, provavelmente escrita sob influência do Indianismo do século XIX, quando a imaginação literária brasileira transformava indígenas em personagens míticos e heroicos.

A lenda dizia que Jaci, bela índia tapuia, apaixonara-se pelo guerreiro Guaracy. Mas o destino cruel transformou o amor em tragédia. Certo dia, ouvindo a voz de sua amada ecoar sobre as águas, Guaracy mergulhou em mim e jamais retornou à superfície. Desde então, muitos afirmam existir um mistério profundo entre a lagoa e o mar.

E quantas memórias guardo…

Vi passar silenciosamente Jacob Rabbi e seus homens logo após a Chacina de Cunhaú, rumo à Barra de Tabatinga para novos massacres. Era uma noite de lua cheia. As sombras daqueles assassinos tocaram meus juncos enquanto seguiam pelas antigas veredas destas terras.

Também testemunhei homens brancos de olhos claros devastando as matas ciliares em busca do precioso pau-brasil. Recordo-me de dias em que dezenas de navios franceses deixavam esta região carregados da madeira vermelha arrancada das florestas.

Apesar de tudo, minhas águas permaneceram limpas durante séculos. A própria fauna aquática realizava naturalmente minha limpeza. Eu era ora doce, ora salgada, ora salobra, abraçada pelas águas da Caiçara, que me envolvia completamente em determinados períodos.

Aliás, você sabe o que significa “caiçara”?

A palavra vem do tupi-guarani: “caa” significa mato ou madeira; “içara”, armadilha ou cerca. Originalmente, designava cercas feitas pelos indígenas com galhos e varas. Mais tarde, passou a identificar os povos litorâneos formados da mistura entre indígenas, portugueses e africanos, populações profundamente ligadas à pesca, à agricultura e aos ciclos naturais.

Hoje quase ninguém se lembra disso.

Minhas margens já foram povoadas por galinhas-d’água, marrecos, tetéus, xexéus, sabiás, gaviões, concrizes e inúmeras outras aves. Saciei a sede de tatus, cotias, raposas, jacarés, timbus, preás e guaxinins. Isto aqui parecia um pequeno Pantanal potiguar.

Durante décadas, especialmente na tradicional Festa dos Pescadores, em setembro, minhas águas ofereciam centenas de quilos de peixes e camarões. O Porto se enchia de barracas, forrós, celebrações e alegria. As casas eram simples, cobertas de palha, mas havia fartura e dignidade. Existia até o antigo “dízimo do peixe”.

Então vieram as mudanças.

Durante séculos recebi águas vindas do sertão. Mas essas águas começaram a trazer também toneladas de barro decorrentes do desmatamento. Aos poucos fui sendo assoreada. Em 1974 ocorreu a inesquecível “Cheia de 74”. A força das águas rompeu a BR-101 nas proximidades de São José de Mipibu, despejando sobre mim enormes quantidades de sedimentos.

Pouco depois, rompeu-se também a barragem de Georgino Avelino. Toneladas de barro e entulho invadiram meu leito. Nunca mais fui a mesma.

Áreas antes tomadas por água hoje estão cobertas por aninga, pasta e aguapé. Meu fundo acumula sedimentos trazidos de rios e cidades cujas margens foram destruídas. Em um dos meus pontos mais profundos surgiu um gigantesco banco de areia, semelhante a uma ilha.

Minha flora e fauna aquáticas entraram em colapso. Plânctons desapareceram. Peixes e crustáceos diminuíram drasticamente. O manguezal - minha verdadeira muralha de proteção - foi devastado ao longo dos anos para construção de casas, lenha e, mais recentemente, pela expansão dos viveiros.

Eu acreditava que a destruição diminuiria com o avanço da alvenaria. Enganei-me.

Hoje minhas margens se transformam lentamente num descampado. Produtos químicos são despejados sobre mim. Um líquido estranho mata tudo que encontra pela frente. Pequenos peixes sobem mortos à superfície. O mau cheiro já lembra rios urbanos completamente degradados.

E o mais grave: estou situada sobre os aquíferos Aluvião e Barreiras, uma das mais importantes reservas hídricas do Rio Grande do Norte. Minha morte não representará apenas o desaparecimento de uma lagoa. Representará um desastre ambiental de enormes proporções.

Confesso minha tristeza.

Escuto lamentos de pescadores, ambientalistas e moradores antigos, mas quase ninguém age. Onde estão as autoridades? Onde estão os estudantes, pesquisadores, ecologistas, gestores públicos e amantes da natureza?

Lembro aos que possuem memória curta: fui eu quem matou a fome de seus antepassados quando tudo era mais difícil. Muito antes dos programas sociais e da modernidade, fui fonte de sobrevivência para inúmeras famílias humildes que viviam em casas de taipa e palha.

Fui eu quem encheu os cestos de peixes, pitus e caranguejos levados pelos seus avós para dentro de casa. Vi mulheres sentadas nos batentes limpando o pescado enquanto o fogão de lenha aquecia inhame, macaxeira, fruta-pão, batata assada e café recém-passado.

À noite, havia fartura. Havia união. Havia dignidade.

Foi de mim que nasceu também a tradição gastronômica que transformou Nísia Floresta na célebre “Terra do Camarão”. Pequenas barracas de palha às margens das estradas evoluíram para restaurantes populares conhecidos pelo camarão no alho e óleo, no molho e no vatapá.

Todos os dias, antes do amanhecer, pescadores partiam rumo a Natal vendendo camarões, peixes, siris e goiamuns pelas ruas da capital.

E havia ainda os domingos felizes…

Famílias inteiras chegavam cedo para banhar-se em minhas águas e passear de canoa. As árvores ao redor serviam de parque de diversão. Passavam o dia inteiro entre sombras frescas, água de pote e liguento.

Eles eram felizes - e não sabiam.

NÍSIA FLORESTA E O SAGRADO OFÍCIO DA MATERNIDADE...




Hoje bem cedo liguei para minha irmã R., lá pelas bandas do Mato Grosso do Sul, onde reside minha mãe e irmãos. Desejei-lhe feliz Dia das Mães e pedi que hoje à tarde, quando os filhos estivessem todos na casa da minha mãe, ela ligasse para mim para conversarmos juntos. Com certeza será uma grande alegria. Minha mãe está com 94 anos de idade. Nessas datas, inevitavelmente, a memória figura como estrada e nos transporta ao passado, revivendo lembranças inesquecíveis ao lado de nossas mães, sobretudo no tempo em que éramos crianças e adolescentes, quando a maternidade de nossas genitoras nos abraçava de maneira especial, calorosa e quase sagrada.

Foi justamente pensando nisso que me lembrei de Nísia Floresta Brasileira Augusta, uma mulher cuja grandeza intelectual jamais conseguiu apagar nela aquilo que talvez tenha sido sua marca mais profunda: o sentimento maternal.

Poucas mulheres da história brasileira souberam amar com tamanha intensidade os seus familiares como Nísia Floresta. Em suas obras, em suas cartas, em seus escritos memorialísticos e até mesmo em suas observações sobre o mundo, percebe-se constantemente um coração povoado de saudades, afetos e preocupações familiares. A figura de sua mãe, Antônia Clara Freire do Revoredo (Goianinha: 1780 - Rio de Janeiro: 1855), aparece em sua trajetória como verdadeiro porto sentimental. Nísia jamais esqueceu as referências maternas recebidas na infância. Dona Antônia Freire não era alfabetizada, mas o que lhe faltava em instrução formal sobrava-lhe em sabedoria prática, amor e proteção à filha. Foi ela quem transmitiu à futura educadora noções essenciais de humanidade, sensibilidade e firmeza moral.

Mesmo vivendo longos anos na Europa, distante do Brasil e dos familiares, Nísia carregava consigo a memória amorosa da mãe, frequentemente evocada em seus escritos de maneira delicada, respeitosa e profundamente emocionada. O mesmo ocorria em relação ao pai, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, assassinado tragicamente em 1828, quando Nísia tinha apenas dezoito anos de idade e sua mãe quarenta e oito. A dor dessa perda atravessou toda a sua existência. Ela jamais conseguiu apagar da alma o trauma da violência que arrancou tão cedo a presença paterna do convívio familiar.

A maneira como Nísia se referia ao pai - homem culto e profundamente empenhado na educação da filha - revelava não apenas admiração, mas verdadeira reverência afetiva. Em suas recordações, Dionísio surgia como homem digno, honrado, amoroso e culto, cuja ausência marcou para sempre a estrutura emocional da família. Talvez exatamente por haver conhecido tão cedo a dor da perda, Nísia tenha desenvolvido um sentimento maternal ainda mais intenso e protetor. Isso se percebe claramente em sua relação com o irmão caçula, Joaquim Pinto Brasil (Papari: 1819 – Rio de Janeiro: 1875), nascido Joaquim Pinto Lisboa e que posteriormente adotaria o sobrenome Brasil. Após o assassinato do pai, Joaquim era apenas uma criança de nove anos de idade. Nísia praticamente assumiu para si uma postura de segunda mãe e ela mesma declararia isso mais tarde. Sentia-se responsável pelo menino órfão, como se precisasse dobrar o amor familiar para compensar a ausência brutal do pai.

Depositou nele cuidado, zelo, orientação e expectativas. Talvez por isso tenha sido tão profunda a decepção que sentiu posteriormente quando ele, aos dezesseis anos de idade, decidiu por um casamento precoce e inesperado. Não era simples frustração entre irmãos: era a dor de alguém que havia amado maternalmente, preocupando-se sinceramente com o futuro do irmão e da família.

Mais tarde, em Opúsculo Humanitário, publicado em 1853, Nísia mencionaria que Joaquim Pinto Brasil era “pai de sete filhos”. Contudo, anos depois, em Fragments d’un Ouvrage Inédit: Notes Biographiques, lançado em 1878, ela esclareceria que o irmão tivera, na verdade, onze filhos, referindo-se anteriormente apenas aos que estavam vivos. Joaquim tornar-se-ia figura respeitada na Corte, destacando-se como advogado, professor, filósofo e homem público, chegando inclusive a ocupar a pasta provincial da Agricultura, Comércio e Obras Públicas no Rio de Janeiro.

A própria estrutura familiar de Nísia revela uma história marcada por perdas, recomeços e afetos profundos. Ela era filha do segundo casamento de Antônia Clara Freire do Revoredo, que enviuvou muito jovem do português Antonio Rodrigues Fernandes. Desse primeiro matrimônio nasceu Maria Isabel do Sacramento. Posteriormente, Antônia casou-se com Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, união da qual nasceram Maria Clara, Joaquim Pinto Brasil e Nísia Floresta. Maria Clara era chamada carinhosamente por Nísia de “Chixi”, apelido familiar que revela a intimidade afetiva existente entre as irmãs.

A própria vida conjugal de Nísia foi marcada por episódios difíceis. Casou-se ainda adolescente, aos treze anos de idade, com Manoel Alexandre Seabra de Melo, união que durou menos de um ano. Posteriormente, estabeleceu relação com Manuel Augusto de Faria Rocha, homem que se tornaria grande companheiro, mas que fatalmente morreria pouco tempo depois, em 1833, deixando Augusto Américo recé-m nascido.

É especialmente na relação com os filhos que o espírito maternal de Nísia Floresta alcança sua dimensão mais comovente. Ela foi mãe de Lívia Augusta de Faria Rocha (Recife: 1830 - França: 1912) e Augusto Américo de Faria Rocha (Porto Alegre: 1833 - Rio de Janeiro: 1889), aos quais dedicou amor incondicional. Em meio às dificuldades da vida, às perseguições intelectuais, às viagens constantes e aos desafios de uma mulher muito à frente de seu tempo, Nísia jamais abandonou o sentimento de proteção e responsabilidade para com os filhos. Sua maternidade não era apenas biológica; era profundamente moral, intelectual e espiritual.

Uma das maiores provas disso encontra-se em sua célebre obra Conselhos à Minha Filha, escrita especialmente para Lívia Augusta por ocasião de seus doze anos de idade e publicada em 1842. Trata-se talvez de um dos mais belos testemunhos de amor maternal da literatura brasileira. O filho Augusto Américo lhe deu muitos netos, prolongando a descendência familiar. Lívia Augusta, porém, encerrou a existência em si mesma. Ficou viúva muito jovem, não teve filhos e jamais voltou a casar.

Naquele pequeno livro, Nísia não oferece apenas recomendações domésticas a uma filha adolescente, a “Cerinha”, apelidada assim pelo irmão Joaquim, como carinhosamente Nísia também a chamava. Ela entrega verdadeiro mapa ético para a vida. Cada conselho parece escrito sob a típica preocupação materna. Há ali o desejo sincero de preparar L´via para um mundo duro, desigual e frequentemente cruel com as mulheres. N´sia desejava que a filha caminhasse pela estrada da dignidade, da justiça, da honestidade, do respeito ao próximo e da educação intelectual. Para ela, educar uma filha era formar uma consciência.

Existe algo profundamente simbólico nesse gesto. Enquanto muitas jovens da época recebiam vestidos, joias ou adornos sociais ao atingirem determinada idade, Nísia resolveu presentear a filha com um livro de orientações morais e humanas. Era como se dissesse silenciosamente que nenhum luxo, nenhuma joia ou riqueza material teria valor superior à construção do caráter.

O espírito maternal de Nísia também se manifestava em sua visão humanitária diante das dores do mundo. Em sua obra O Brasil, ela relata, horrorizada, a realidade encontrada em determinadas áreas rurais da França, onde crianças eram entregues a amas de leite e cuidadoras improvisadas. O cenário descrito por ela é profundamente doloroso. Nísia ficou chocada com a sujeira das casas, com a precariedade dos ambientes e com o abandono ao qual muitas crianças eram submetidas.

Relata situações de extrema negligência, nas quais mães biológicas - desnaturadas pelo egoísmo e pela futilidade social - praticamente esqueciam os próprios filhos naquelas propriedades miseráveis. O episódio mais terrível narrado por ela envolve uma criança devorada por um porco diante do absoluto descaso em que vivia.

A indignação de Nísia diante daquela realidade revela muito sobre sua concepção de maternidade. Ela entendia que maternidade é instransferível. Para ela, o cuidado com a infância era algo sagrado. A maternidade não poderia coexistir com abandono, negligência ou indiferença. Seu horror não era apenas social; era profundamente humano e maternal. Ela sofria ao perceber crianças privadas de carinho, proteção e dignidade.

Essa mesma sensibilidade aparece em diversas outras passagens de sua obra. Nísia sempre demonstrou especial preocupação com a educação das meninas, com a formação moral da juventude e com a construção de uma sociedade mais humana. Sua defesa da educação feminina não nascia apenas de um ideal político ou intelectual. Nascida também de uma percepção maternal do mundo, ela acreditava que mulheres instruídas poderiam formar filhos melhores, famílias mais conscientes e uma sociedade menos brutal. Talvez por isso sua escrita possua delicadeza que atravessa o tempo. Mesmo quando combatia injustiças sociais, preconceitos ou estruturas patriarcais, havia em suas palavras dimensão afetiva muito forte. Era a voz de uma mulher que compreendia o sofrimento humano não apenas pela razão, mas também pelo coração.

Hoje, enquanto tantas mães abraçam seus filhos, recordo que Nísia Floresta Brasileira Augusta permanece como forte expressão do sentimento maternal. Não apenas por ter gerado filhos, mas porque transformou a maternidade em elevada forma de amor ao próximo, proteção familiar e responsabilidade humana.

Hoje, lá nas terras pantaneiras, para onde ela migrou minha mãe aguarda ligação telefônica de três filhos que moram longe: uma filha no Oeste Paulista, outra na Mooca, em São Paulo, e eu aqui, na terra onde ela e meu pai nasceram. Aguarda também o telefonema de um neto que vive na Rússia e outro que mora na Irlanda. E nessa espera - digo espera porque as mães estão sempre esperando ouvir filhos e netos - compreendo ainda mais o valor dessas mulheres que sustentam silenciosamente a memória das famílias.

Mulheres como Antônia Clara. Mulheres como Nísia Floresta. Mulheres que envelhecem carregando no coração o nome de cada filho, de cada neto, de cada ausência e de cada saudade. Talvez seja exatamente isso a maternidade: um amor que jamais termina. Um amor que atravessa oceanos, décadas e até mesmo a morte. Um amor como aquele que Nísia Floresta guardou eternamente por sua mãe, por seu pai, por seus filhos e por seus irmãos. Um amor tão grande que ainda hoje, mais de um século após sua morte, continua emocionando aqueles que aprendem a conhecê-la.

E desse modo, saúdo minha mãe, e desse modo, saúdo Nísia Floresta e todas as mães do nosso querido Brasil!

domingo, 3 de maio de 2026

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O QUE ESTÁ ESCRITO NAS PLACAS AFIXADAS NO MONUMENTO EM HOMENAGEM A NÍSIA FLORESTA?

Placa frontal, afixada no monumento em homenagem a Nísia Floresta. O polimento revelou marcas de pedradas, como se vê.

No último dia 24 de abril de 2026, ao participar do II Movimento Pró Memória Nísia Floresta (cujos detalhes do evento estão neste mesmo blog), ocasião em que ocorreu bela solenidade e descerramento da placa alusiva à restauração do monumento em homenagem a Nísia Floresta Brasileira Augusta , erigido originalmente em 1909, e do mausoléu onde repousam seus restos mortais, tive a oportunidade de realizar um registro que considero de especial relevância documental e afetiva. Naquela ocasião, fotografei atentamente as quatro placas originais afixadas no monumento desde a sua inauguração, peças que guardam inscrições históricas de grande valor para a memória da intelectual potiguar.

Essas placas haviam sido recentemente removidas para um processo de polimento e conservação, o que lhes conferiu, naquele momento, uma nitidez visual rara, permitindo a leitura clara e precisa de seus dizeres, algo que, em condições habituais, é dificultado pela ação do tempo, que lhes imprime uma tonalidade mais escurecida. O recente polimento trouxe à tona uma informação curiosa, que me remete a um relato ouvido de um rapaz no início da década de 1990: ao passarem pelo monumento com amigos, costumavam lançar pedras contra a placa, numa espécie de desafio lúdico, em que vencia quem acertasse o alvo, algo facilmente percebido pelo som do impacto. Tal prática ajuda a explicar por que justamente a placa frontal apresenta marcas tão evidentes de apedrejamento. O episódio, aliás, ainda sugere outras interpretações, cuja leitura deixo à livre imaginação do internauta. Consciente de que esse efeito de clareamento é apenas transitório e que, em breve, as placas retomariam sua aparência mais opaca, senti a necessidade de registrar fotograficamente esse instante privilegiado.

Assim, movido não apenas pelo interesse pessoal, mas também pelo compromisso com a preservação e difusão da memória histórica, realizei essas fotografias com o propósito de, posteriormente, transcrever fielmente o conteúdo nelas inscrito, garantindo que tais informações permaneçam acessíveis e legíveis para outros estudiosos, pesquisadores e admiradores da obra e da trajetória de Nísia Floresta.

Felizmente, todas as placas originais permanecem preservadas, permitindo ao visitante contemporâneo não apenas contemplar a estrutura física, mas também mergulhar nas narrativas simbólicas e históricas que ali se inscrevem. Trata-se, portanto, de um dos mais importantes marcos da memória cultural do Rio Grande do Norte, reunindo história, arte, literatura e identidade em um único espaço.

Com relação ao monumento, houve um cuidado poético nas inscrições, a começar pela placa que diz "Neste ninho até agora ignorado...", revelando ser desconhecido até então o local de nascimento de Nísia Floresta. Vale a pena conhecê-las. Uma delas está escrita em francês e tive o cuidado de traduzir mais abaixo. Em suas faces há as seguintes inscriçóes:

A LESTE: Deste ninho, até agora ignorado, levantou voo altaneiro a notável norte-rio-grandense a quem a mocidade rende esta homenagem.

A OESTE: - “Votre touchante composition est irrévocablement placée dans la tiroir sacré qui ne contient que la correspondance exceptionelle. Respect e sympathie. AUGUSTE COMTE”. Carta de 29 de agosto de 1857. Tradução: “Sua comovente composição será irrevogavelmente arquivada na gaveta sagrada reservada apenas para correspondências excepcionais. Respeito e condolências. AUGUSTE COMTE”.

AO NORTE - NÍSIA FLORESTA. 1809-1909. 12 de Outubro. Papari.

AO SUL: - O Congresso Literário, reunido em setembro de 1909, sob os auspícios do exmº dr. Alberto Maranhão, seu presidente de honra e Governador do Estado, resolveu erigir este monumento.

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NÍSIA, CASTRICIANO E ADAUTO...

 



Ao longo das minhas pesquisas sobre Nísia Floresta, intensificadas a partir do final da década de 1980, sempre me deparei com uma questão fundamental: quem teria dado a maior contribuição para o resgate histórico dessa notável intelectual: o mossoroense Adauto Miranda Raposo da Câmara ou o macaibense Henrique Castriciano de Souza? A resposta, ao longo do tempo, revelou-se menos competitiva e mais complementar. Ambos, figuras exponenciais da cultura norte-rio-grandense, foram responsáveis por um verdadeiro trabalho de arqueologia intelectual. Sem suas iniciativas pioneiras, as lacunas sobre a vida e a obra de Nísia seriam hoje abissais.

Nísia Floresta Brasileira Augusta

Se muitos vieram depois, é inegável que o que esses dois pesquisadores desenterraram foi, de fato, “ouro em pó”. Em um período em que o acesso à documentação era escasso, disperso e muitas vezes inacessível, a dedicação de ambos se tornou decisiva para a consolidação da memória historiográfica de Nísia Floresta. Eles operaram, por assim dizer, na fronteira entre o esquecimento e a permanência.

Henrique Castriciano

A contribuição desses intelectuais é tão valiosa que se torna difícil compreender a dimensão de Nísia Floresta sem o devido conhecimento do que escreveram. Durante décadas, suas pesquisas foram praticamente as únicas referências consistentes sobre a autora. Ambos - verdadeiros patrimônios culturais - deixaram uma trajetória marcada por atuações plurais, sobretudo no campo da educação, onde suas ações ecoam até os dias atuais.

Henrique Castriciano, por exemplo, destacou-se como educador visionário e reformador social. Sua criação da Escola Doméstica de Natal, em 1914, inspirada na experiência europeia, especialmente na École Ménagère de Friburgo, na Suíça, foi um marco na educação feminina no Brasil. Tal iniciativa dialogava diretamente com o pensamento de Nísia Floresta, que já no século XIX defendia a educação da mulher como instrumento de emancipação social.

Adauto da Câmara

Sócio-fundador da Academia Norte-Riograndense de Letras, Adauto da Câmara exerceu cargos de grande relevância, sendo constantemente convidado por governadores que reconheciam sua erudição e competência. Conforme destaca Cônego Jorge O’Grady de Paiva, Adauto foi “bacharel, professor, jornalista, deputado, acadêmico, historiador, genealogista, conferencista e ensaísta”, tendo prestado serviços de grande relevância ao seu estado (PAIVA, 1959).

Durante a década de 1930, em decorrência das instabilidades políticas da Revolução de 1930, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde adquiriu o Colégio Metropolitano, no Méier, então em estado de falência. Sob sua direção, a instituição foi reestruturada e tornou-se referência educacional, demonstrando sua habilidade não apenas intelectual, mas também administrativa.

O interesse de Adauto da Câmara por Nísia Floresta manifestou-se precocemente e perdurou por toda a sua vida. Um episódio curioso, relatado em conversa com Zélia Mariz, revela o grau de dedicação do pesquisador: sua esposa, Wânia Zaremba, dizia sentir ciúmes da própria Nísia Floresta, tamanha era a imersão do marido em seus estudos. Esse tipo de “paixão intelectual” não é raro entre pesquisadores profundamente envolvidos com seus objetos de estudo.

A transmissão do legado: de Lívia a Henrique, de Henrique a Adauto

Um dos episódios mais significativos dessa história envolve Lívia Augusta de Faria Rocha, filha da escritora. Já em idade avançada, L´via compreendeu o valor histórico do acervo de sua mãe e, temendo sua perda, decidiu confiá-lo a Henrique Castriciano. Esse gesto foi decisivo. Fotografias, documentos e relatos pessoais foram preservados graças a essa transferência.

Henrique, por sua vez, ao adoecer, repassou grande parte desse material a Adauto da Câmara. Assim se construiu uma cadeia de transmissão de memória: Lívia/Henrique/Adauto/pesquisadores contemporâneos. Trata-se de um dos mais belos exemplos de continuidade intelectual no Brasil.

Henrique também manteve correspondência com familiares de Nísia, incluindo Augusto Américo de Faria Rochaa, ampliando ainda mais o alcance de suas investigações.

A experiência europeia e suas lacunas

Em 1909, Henrique viajou à Suíça para conhecer a École Ménagère, experiência que inspiraria a criação da Escola Doméstica. Nesse contexto, teve acesso indireto ao universo europeu em que Nísia viveu seus últimos anos, especialmente em cidades como Paris e Cannes. É inevitável refletir sobre o quanto poderia ter sido preservado caso houvesse, à época, maior consciência patrimonial: móveis, manuscritos e objetos pessoais poderiam ter sido trasladados ao Brasil.

O contato epistolar entre Henrique e Lívia foi um divisor de águas. Mesmo com idade avançada, Lívia forneceu informações preciosas e inéditas. Parte desse material veio a público apenas em 1954, por ocasião do traslado dos restos mortais de Nísia Floresta - evento de grande relevância simbólica para o Rio Grande do Norte.

Os mistérios do acervo desaparecido

Apesar da riqueza documental reunida, muitos desses materiais permanecem desaparecidos. As cartas trocadas entre Henrique e os familiares de Nísia nunca foram integralmente publicadas. Esse silêncio documental constitui uma das maiores lacunas da historiografia potiguar. Outro episódio intrigante foi a oportunidade perdida pelo governo do estado de adquirir os bens de Nísia em Cannes após a morte de Lívia, em 1912. A ausência de ação nesse momento resultou na dispersão de um acervo de valor incalculável.

O testemunho de Raimundo Soares de Brito

O pesquisador Raimundo Soares de Brito sintetiza com precisão o papel de Henrique Castriciano: “Nísia foi a paixão intelectual de Castriciano” (1984, p.30). Essa paixão, no entanto, não resultou em uma biografia publicada por ele, mas sim na transferência do projeto a Adauto da Câmara.

A construção da obra clássica

O livro História de Nísia Floresta (1941), de Adauto da Câmara, permanece como um marco. Mesmo com algumas imprecisões posteriormente corrigidas por Constância Lima Duarte, trata-se de uma obra fundamental. Sua importância reside não apenas nos dados apresentados, mas na interpretação crítica e na profundidade analítica.

Adauto também revisou suas próprias opiniões ao longo do tempo, especialmente sobre A lágrima de um Caeté, reconhecendo posteriormente o valor da obra no contexto do romantismo brasileiro.

Correspondências e relações intelectuais

As cartas trocadas entre Adauto e Henrique revelam uma relação marcada por respeito, admiração e colaboração. Em uma dessas correspondências, Henrique reconhece o valor do trabalho de Adauto, ao mesmo tempo em que demonstra sua própria limitação física para continuar o projeto.

Essas trocas epistolares são documentos preciosos para compreender não apenas a construção da obra, mas o espírito de cooperação entre intelectuais da época.

O traslado dos restos mortais

Em 1954, dois anos após a morte de Adauto, ocorreu o traslado dos restos mortais de Nísia Floresta para o Brasil. A iniciativa contou com o apoio de figuras como João Café Filho e Luís Lopes Varela, além da atuação do Centro Norte-Riograndense do Rio de Janeiro, presidido por Marciano Freire. O cortejo em Natal foi grandioso, envolvendo autoridades, instituições e a população, simbolizando o reconhecimento tardio de uma das maiores intelectuais brasileiras.

Considerações finais

A história de Nísia Floresta é, em grande medida, a história de seus intérpretes. Sem Henrique Castriciano e Adauto da Câmara, muito do que hoje sabemos estaria perdido. Ainda assim, permanecem lacunas — inevitáveis em qualquer reconstrução histórica.

O encontro entre Henrique e Lívia Augusta foi decisivo, mas limitado pelo tempo. Como ocorre com muitos pesquisadores, nem tudo pôde ser registrado. E talvez seja essa incompletude que mantém viva a chama da pesquisa. A junção dos esforços de Henrique e Adauto constitui um legado inestimável. Cabe às gerações futuras continuar essa investigação, conscientes de que a memória é sempre uma construção coletiva e contínua.

LUÍS CARLOS FREIRE – 2012 (texto ampliado)

Referências 

BRITO, Raimundo Soares de. Uma viagem pelo arquivo epistolar de Adauto da Câmara. Coleção Mossoroense, vol. CLXIX. Mossoró: FJA, 1981.
______. Estudos de História Potiguar. Mossoró: ESAM, 1984.
CÂMARA, Adauto da. A lágrima de um Caeté. Revista das Academias de Letras. Rio de Janeiro, 1938.
______. Nísia Floresta. Federação das Academias de Letras. Rio de Janeiro, 1940.
______. História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Ed. Pongetti, 1941.
______. Henrique Castriciano. Revista da Academia Norte-Riograndense de Letras, 1959.
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: EDUFRN, 1995.
GOFF, Jacques Le. História e Memória. Campinas: UNICAMP, 1994.
LAMARTINE, Juvenal. Adauto da Câmara. Coletânea da Academia Norte-Riograndense de Letras, 1954.
PAIVA, Jorge O’Grady de. Discurso na Federação das Academias de Letras do Brasil, 1959.
FREIRE, Luís Carlos. Textos e pesquisas diversas sobre Nísia Floresta constantes neste mesmo blog.
MARIZ, Zélia. Opúsculo sobre Nísia Floresta.
Documentos do Instituto Histórico e Geográfico do RN.
Acervo da Academia Norte-Riograndense de Letras.

Notas de rodapé

  • Orlando Dantas
  • Joaquim Pinto Brasil: nascido em 1819, faleceu em 1874
  • Augusto Américo faleceu aos 60 anos

sábado, 2 de maio de 2026

HILTON ACIOLY: O HOMEM QUE ESCREVEU O "LULA, LÁ"...

Hilton Acioly: Fotografia de Carolina Garcia/IG.

Você já ouviu falar em Hilton Acioly? Trata-se do autor do célebre jingle “Lula, lá”. Curiosamente, em Nísia Floresta - sua terra natal - ainda é pouco conhecido, embora seja, no meio musical, um artista consagrado, respeitado e reconhecido entre os mais destacados nomes da música brasileira. Integrante de um seleto universo de criadores notáveis, Hilton Acioly conta atualmente com 87 anos de idade. Como costumo dizer, o fato de não ser amplamente conhecido em sua cidade de origem não diminui sua projeção no eixo Rio–São Paulo, onde tradicionalmente se concentram e se consagram os grandes artistas do país.

Mas engana-se quem imagina que suas raízes tenham se dissipado com o tempo. Longe disso: a família de Hilton Acioly permanece presente em Nísia Floresta, representada por nomes como os professores Cláudio Acioly, Ricardo Acioly e Joilma Acioly, que mantêm vivo o vínculo com essa terra.

A trajetória de Hilton Acioly revela a formação de um artista singular, cuja obra transita entre a música popular, a experimentação estética e a comunicação de massa. Nascido em 4 de outubro de 1939, no povoado de Cururu, em Nísia Floresta (RN), cresceu cercado por uma paisagem natural que estimulava a imaginação. Ainda na infância, começou a transformar ideias em versos e melodias, demonstrando uma inclinação precoce para a criação musical, característica que, mais tarde, se consolidaria como sua maior virtude: a capacidade de sintetizar emoções complexas em formas simples e memoráveis.

Desde muito jovem, revelou inquietação e desejo de expandir horizontes. Ainda adolescente, passou a se deslocar com frequência até Natal, onde buscava contato com outros músicos. Foi nesse ambiente que conheceu Marconi Campos e Behring Leiros, com quem fundou, em 1954, o Trio Marayá. O grupo rapidamente conquistou espaço, tornando-se presença constante em rádios, palcos e programas de televisão, especialmente no eixo Rio-São Paulo.

No Trio Marayá, Hilton destacou-se como músico versátil, arranjador e compositor. A intensa vivência artística proporcionou-lhe domínio sobre o gosto popular e sobre os mecanismos de comunicação de massa, elementos decisivos para sua atuação futura. O grupo alcançou reconhecimento nacional e internacional, participando de festivais, gravando discos e convivendo com grandes nomes da música brasileira, como Geraldo Vandré, com quem Hilton viria a estabelecer parcerias em composições de cunho mais engajado.

A experiência acumulada nas décadas de 1950 e 1960 foi essencial para moldar sua compreensão estética: música não era apenas expressão artística, mas também linguagem capaz de mobilizar multidões. Com o endurecimento do regime militar, sobretudo após o AI-5, os espaços tradicionais da música foram sendo reduzidos, e muitos artistas migraram para novas formas de atuação. Foi nesse contexto que Hilton Acioly passou a investir na criação de jingles e trilhas sonoras, área em que alcançaria consagração.

O ponto culminante dessa trajetória ocorreu em 1989, quando recebeu o desafio de compor uma música para a campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. A tarefa era complexa: transformar a imagem de um líder sindical - até então identificado como “metalúrgico do ABC” - em um símbolo nacional de esperança. Com base apenas no slogan “Lula lá”, Hilton iniciou o processo criativo.

Inicialmente, apresentou uma versão que, embora bem recebida, não o satisfez plenamente. Percebendo que faltava um elemento essencial, decidiu refazer a composição. Foi então que, inspirado pela ideia de um “Brasil criança” e pelo clima de expectativa vivido naquele momento histórico, construiu a versão definitiva do jingle. O resultado foi uma obra de extraordinária força comunicativa: simples, envolvente e profundamente emocional.

A canção “Lula lá” ultrapassou os limites da propaganda política. Tornou-se um verdadeiro hino popular, acompanhando a trajetória do candidato por mais de uma década, até sua eleição em 2002. Sua eficácia residia justamente naquilo que define um grande jingle: repetição marcante, mensagem direta e forte identificação coletiva. Hilton conseguiu, com poucos versos, conferir ao candidato uma dimensão simbólica, aproximando-o de figuras consagradas da cultura brasileira, como Pixinguinha, Ari Barroso e Tom Jobim.

O impacto da música foi imediato. Artistas consagrados como Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil engajaram-se na campanha, e o jingle passou a ecoar em todo o país. Mesmo com a derrota eleitoral naquele ano, a composição permaneceu viva na memória coletiva, sendo reutilizada e reinterpretada em campanhas posteriores.

Curiosamente, Hilton Acioly sempre defendeu uma abordagem estética para os jingles, rejeitando fórmulas puramente mecânicas. Para ele, a repetição de números ou slogans vazios empobrece a comunicação. Em sua visão, o jingle deve preservar qualidade musical e força poética, funcionando como uma ponte entre arte e mensagem. Essa concepção explica por que “Lula lá” não menciona diretamente o partido político: a referência simbólica - a “estrela” - já era suficiente para estabelecer a identidade.

Além desse marco, Hilton produziu diversas composições e trabalhou intensamente na área publicitária, consolidando-se como uma das principais referências brasileiras em jingles. Paralelamente, atuou como professor e manteve atividade criativa constante, demonstrando longevidade artística. Sua formação acadêmica em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) também contribuiu para ampliar sua visão de mundo, refletindo-se na sensibilidade de suas obras.

Apesar de sua relevância, Hilton Acioly permanece relativamente pouco conhecido em sua terra natal, o que evidencia um paradoxo: um criador de impacto nacional, responsável por uma das músicas mais emblemáticas da política brasileira, mas que manteve ao longo da vida uma postura discreta, distante da autopromoção.

Em síntese, sua trajetória revela um artista que soube evoluir com o tempo sem perder a essência. Da infância em Cururu aos palcos internacionais, e destes ao universo da comunicação de massa, Hilton Acioly transformou a música em instrumento de conexão coletiva. Ao dominar a arte de dizer muito com pouco, elevou o jingle a um patamar de relevância cultural, deixando uma marca profunda e duradoura na história da música e da comunicação no Brasil. Veja, a seguir, o mais famoso e eterno jingle feito para a campanha de Lula...

LULA, LÁ (1989), POR HILTON ACIOLY

Passa o tempo e tanta gente a trabalhar
De repente, essa clareza pra votar
Quem sempre foi sincero em confiar
Sem medo de ser feliz, quero ver chegar


Lula lá, brilha uma estrela
Lula lá, cresce a esperança
Lula lá, o Brasil criança
Na alegria de se abraçar

Lula lá, com sinceridade
Lula lá, com toda a certeza pra você
Meu primeiro voto
Pra fazer brilhar nossa estrela

Lula lá, é a gente junto
Lula lá, valeu a espera
Lula lá, meu primeiro voto
Pra fazer brilhar nossa estrela 


Clique abaixo e assista ao vídeo original do lançamento do jingle em 1989:


Lula-lá Campanha 1989

quarta-feira, 29 de abril de 2026

NÍSIA FLORESTA: ANOTAÇÕES, BASTIDORES E MEMÓRIAS HISTÓRICAS...

Nísia Floresta Brasileira Augusta

 

Nísia Floresta Brasileira Augusta, nascida Dionísia Gonçalves Pinto em 12 de outubro de 1810, na então povoação de Papari (atual Nísia Floresta), permanece como uma das figuras mais complexas e multifacetadas da história cultural brasileira. Sua vida, profundamente entrelaçada com o Brasil e a Europa, revela não apenas uma escritora, mas uma mulher que atravessou fronteiras sociais, intelectuais e geogr´ficas em pleno século XIX.

Nilo Pereira escreveu que, no Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, do qual fazia parte, Gilberto Freyre destacou a necessidade urgente de publicação das cartas de Nísia, guardadas na Casa de Auguste Comte, em Paris. Trata-se de um acervo de enorme valor, ainda hoje insuficientemente explorado, que pode revelar aspectos diretos do pensamento da autora, suas relações intelectuais na Europa e possíveis diálogos com o positivismo nascente. A ausência de uma edição crítica dessas correspondências constitui uma das maiores lacunas nos estudos nisianos, frequentemente apontada por pesquisadores dedicados à sua obra.

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Por ocasião da chegada dos despojos de Nísia ao Recife, enfrentando entraves burocráticos, Nilo Pereira, então ligado ao Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, recorreu diretamente ao presidente Café Filho, potiguar como a escritora. A resposta foi imediata: autorizou-se a liberação do corpo e determinou-se seu transporte oficial por uma corveta da Marinha de Guerra até Natal. Esse gesto evidencia o caráter político e simbólico do retorno, transformando o traslado em um verdadeiro ato de Estado.

No Recife, o corpo foi recebido com solenidade e intensa curiosidade pública. Sob a influência intelectual de Gilberto Freyre, o Instituto Joaquim Nabuco prestou-lhe homenagem, incluindo seu retrato na galeria de vultos nacionais, um reconhecimento tardio, mas significativo, da dimensão de sua obra.

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A lei que autorizou a repatriação foi de autoria do senador Luís Lopes Varela, inserindo o episódio no campo das políticas de memória. Em Natal, a recepção contou com autoridades dos três poderes, além de forte participação estudantil, com destaque para a Escola Doméstica, instituição fundada sob inspiração de Henrique Castriciano, que via em Nísia uma precursora da educação feminina no Brasil.

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Durante a permanência da urna na capital, a professora Chicuta Nolasco Fernandes organizou uma guarda de honra composta por alunas, num gesto pedagógico e simbólico que reafirmava o papel da mulher na construção da memória histórica.

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O mausoléu onde Nísia repousa desde 1955 foi erguido por iniciativa de Manuel Rodrigues de Melo, presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Figura marcada por disciplina e obstinação, Melo assumiu a tarefa como missão pessoal, consolidando fisicamente a presença de Nísia no território potiguar.

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A transformação de Papari em Nísia Floresta decorreu de projeto do deputado Arnaldo Barbalho Simonetti, com apoio de Creso Bezerra de Melo. Essa mudança ultrapassa o aspecto administrativo, representando a incorporação da escritora à identidade geográfica e cultural do estado.

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O relato de Nilo Pereira sobre a abertura do ataúde permanece um dos episódios mais impressionantes da historiografia brasileira. Ao lado de Paulo Pinheiro de Viveiros e com auxílio de Nestor Lima, abriu-se o caixão duplo - um de zinco e outro de ébano. A descrição do corpo, ainda conservado, com longos cabelos e fisionomia visível, provocou forte impacto emocional. O ambiente, carregado de silêncio e curiosidade, assumiu contornos quase literários, evocando atmosferas sombrias que nos remetem a O Corvo.

O episódio também evidencia a dimensão simbólica atribuída ao corpo de Nísia: não apenas restos mortais, mas um relicário histórico que despertava fascínio coletivo.

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Nilo Pereira observou que Nísia jamais foi uma cristã submissa às determinações papais. Posicionou-se contra a infalibilidade pontifícia, o poder temporal da Igreja e o Syllabus de Pio IX. Essa postura revela uma religiosidade crítica, afinada com correntes liberais e com o pensamento moderno europeu, que ela conheceu de perto durante sua permanência no continente.

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O contexto político do Rio Grande do Norte, destacado por Juvenal Lamartine de Faria, que instituiu o voto feminino em 1927, encontra raízes culturais no pensamento de Nísia, que já defendia, no século XIX, a educação da mulher como base de sua emancipação social e pol´tica.

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A formação familiar de Nísia revela uma origem inserida na elite agrária. Seu pai, Dionísio Gonçalves Pinto, homem culto e de espírito independente, recusou a vida comercial para dedicar-se ao campo e à formação intelectual da filha. Educou-a diretamente, proporcionando-lhe acesso a línguas, literatura e filosofia, algo raríssimo para mulheres da época.

Sua mãe, Antônia Clara Freire, descendia da influente família Freire do Revorêdo, proprietária de vastas terras na região de Papary e Goianinha. O sítio Floresta, que daria nome à escritora, integrava esse patrimônio, com registros documentais que remontam a petições de posse do início do século XIX.

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O ambiente familiar incluía ainda figuras como Diogo Freire do Revorêdo, bisavô materno, atuante em Vila Flor no século XVIII, e Bento Freire do Revorêdo, grande proprietário de terras no vale do Rio Jacu, cuja influência política e econômica marcou a região. Essa base aristocrática contrasta com a postura crítica de Nísia em relação ao patriarcalismo.

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Nísia casou-se aos 14 anos com Manuel Alexandre Seabra de Melo, união breve e logo desfeita. Posteriormente, estabeleceu relação com Manuel Augusto de Faria Rocha, bacharel em Direito formado em Olinda em 1832, ambiente intelectual onde circulavam ideias liberais e reformistas.

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Sua trajetória internacional é notável: em 1849, partiu para Paris com os filhos, permanecendo até 1852. Retornou ao Brasil, mas voltou à Europa em 1856, vivendo cerca de 16 anos entre França, Alemanha e outros centros culturais. Em 1872, regressou ao Brasil por breve período e, em 1875, retornou definitivamente à França, onde viveu até sua morte em 1885, na cidade de Rouen.

Durante esse período, publicou obras em francês, manteve relações com intelectuais europeus, como George Duvernoy, e consolidou uma carreira transnacional incomum para uma mulher brasileira do século XIX.

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Sua filha, Lívia Augusta Gade, permaneceu na Europa, casando-se na Alemanha e enviuvando poucos meses depois, sem retornar ao Brasil, o que contribuiu para o distanciamento físico da família em relação ao país de origem.

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Henrique Castriciano teve papel decisivo na redescoberta de Nísia. Viajou à Europa, reuniu documentos junto à filha da escritora, adquiriu fotografias e obras, e reconheceu precocemente o valor literário e histórico de sua produção, incentivando estudos posteriores.

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Gilberto Freyre destacou que mulheres como Nísia eram exceções em uma sociedade patriarcal rígida, onde até as elites femininas tinham acesso limitado à educação formal. Sua existência intelectual causava estranhamento e admiração.

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Quando Nísia faleceu, em 1885, seu filho dirigia o Colégio Augusto, no Engenho Novo, no Rio de Janeiro, instituição respeitada que teve entre seus alunos Washington Luís.

Já em vida, Nísia alcançou reconhecimento internacional: em 1872, o jornal “O Novo Mundo”, de Nova York, publicou sua fotografia e dados biográficos, algo raríssimo para brasileiros naquele período.

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Oliveira Lima afirmou que Nísia foi a mais notável mulher de letras do Brasil, destacando sua amplitude intelectual e elegância estilística.

Dioclécio Dantas Duarte observou que foi necessário quase um século para que sua importância fosse plenamente reconhecida, evidenciando o atraso histórico no reconhecimento de mulheres intelectuais.

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A trajetória de Nísia Floresta revela, assim, uma figura que ultrapassa classificações simples: filha da elite agrária, educada de forma excepcional, escritora precoce, viajante internacional, crítica da religião institucional, defensora da educação feminina e símbolo tardio da memória nacional. Sua vida continua a ser desvelada por meio de documentos, relatos e pesquisas que, pouco a pouco, ampliam a compreensão de sua verdadeira dimensão histórica.

OBS. As informações acima são parte de anotações antigas, mas que só as digitei em 2004 e ora as publico como curiosidade, embora creio que quase todas essas informmações estão dispostas em vários textos publicados neste mesmo blog.Para não correr o risco de perder algo que ainda não publiquei, ei-las todas...