 |
| Luís Carlos Freire (Todas as imagens aqui postadas são do acervo da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta). |
SE NÍSIA FLORESTA ESTIVESSE ENTRE NÓS, ESTARIA AO LADO DOS QUE LUTAM POR JUSTIÇA, IGUALDADE E DIGNIDADE
Hoje, a convite do professor Jorge Januário de Carvalho, estive no município de Nísia Floresta para participar do Tributo a Nísia Floresta, no município que leva o nome dessa extraordinária educadora potiguar. Houve uma caminhada do centro da cidade até o Conjunto Histórico onde se encontra o seu túmulo e monumento em sua homenagem. Ao ser anunciado pelo mestre de cerimônia para discursar sobre a vida e a obra de Nísia, expliquei que quebraria o protocolo para fazer algo que considerava mais necessário naquele momento: refletir sobre a atualidade de seu pensamento e sobre o Brasil que estamos construindo. O sol estava escaldante, por isso, prometi não me estender muito. Mas aproveitei justamente a intensidade daquele sol para estabelecer uma relação com a mulher que nos reunia naquela ocasião. Disse aos presentes que aquele sol forte era, de certa forma, o mesmo sol que representava Nísia Floresta: um sol que incomodava, que não permitia a indiferença, que nos obrigava a perceber sua presença,. Afinal, Nísia também incomodava. Incomodava uma sociedade que não aceitava facilmente uma mulher pensando, escrevendo, questionando e defendendo direitos em uma época em que às mulheres eram impostas tantas limitações. Eu estava na terra de N´sia, diante de educadores e estudantes que conhecem sua história. Não precisava, portanto, apenas relembrar sua biografia, mas provocar uma reflexão política e social: se Nísia Floresta estivesse entre nós, hoje, quais seriam suas inquietações? De que lado estaria diante das injustiças, das desigualdades e dos retrocessos que ainda marcam a sociedade brasileira? Tenho plena convicção de que estaria ao lado dos que lutam por justiça, igualdade e dignidade, porque sua trajetória intelectual e sua defesa da educação e da emancipação feminina revelam o compromisso com uma sociedade mais esclarecida, livre e civilizada.
Se estivesse no Brasil de hoje, Nísia certamente se preocuparia com a persistência da pobreza, com a concentração de oportunidades e com a ausência de condições dignas de vida para milhões de brasileiros. Defenderia políticas públicas capazes de enfrentar as desigualdades sociais, pois não se constrói uma nação verdadeiramente desenvolvida quando uma parcela da população desfruta de privilégios enquanto outra luta diariamente para sobreviver. Estaria ao lado das minorias, dos pobres, dos excluídos e de todos aqueles cujos direitos ainda não são plenamente reconhecidos. Defenderia a educação pública de qualidade como instrumento de emancipação, a valorização da cultura brasileira como expressão de nossa identidade e o respeito à diversidade como fundamento de uma sociedade democrática. Também se colocaria ao lado dos que sofrem intolerância religiosa, defenderia o direito de professar livremente qualquer crença e, sem dúvida, reconheceria a dignidade das religiões de matrizes africanas, como o Candomblé e a Umbanda, inclusive visitando seus terreiros e conversando com seus pais e mães de santo. Da mesma forma, compreenderia que as pessoas LGBTQIA+ têm direito à cidadania, ao respeito e à proteção contra a violência ea discriminação. Uma nação que se pretende civilizada não pode escolher quem merece dignidade: ela deve garanti-la a todos.
 |
| Drª Françoise Dominique Valéry, professora aposentada da UFRN, ex-cônsul honorária da França em Natal. |
Mas acredito que uma das maiores preocupações de Nísia seria a situação das mulheres brasileiras. Ultimamente, temos assistido a sucessivos ataques às mulheres, à desqualificação de suas capacidades, à tentativa de limitar sua autonomia e à circulação de discursos que naturalizam o desrespeito, alimentam a MISOGINIA e contribuem para um ambiente de hostilidade contra elas. O problema se torna ainda mais grave quando manifestações dessa natureza partem de pessoas que ocupam posições de autoridade ou exercem influência pública, pois suas palavras podem legitimar preconceitos, estimular comportamentos discriminat´rios e enfraquecer o compromisso coletivo com a igualdade. Quem exerce uma função pública tem responsabilidade especial na defesa dos direitos fundamentais e no combate à violência, não na reprodução de estereótipos que historicamente inferiorizaram as mulheres. E não podemos ignorar a dimensão mais cruel dessa realidade: o FEMINICÍDIO, expressão extrema de uma violência que, em muitos casos, é precedida por ameaças, humilhações, controle, agressões e pela crença absurda de que uma mulher pode ser tratada como propriedade de alguém. Em pleno século XXI é inadmissível que mulheres sejam assassinadas por serem mulheres, que tenham suas vidas interrompidas pela violência de gênero e que a sociedade ainda precise reivindicar o direito básico de viver sem medo. Nísia Floresta, que defendeu a emancipação feminina em uma época profundamente marcada pela subordinação das mulheres, certamente não se calaria diante desse cenário. Estaria denunciando a misoginia, exigindo políticas de prevenção e proteção, cobrando responsabilidade das instituições e defendendo a educação como parte indispensável do enfrentamento à violência.
Ressaltei que Nísia foi uma filósofa no sentido pleno da palavra e uma mulher de pensamento avançado para seu tempo. Há quase dois séculos, já questionava estruturas sociais que restringiam a participação feminina e defendia uma sociedade na qual a mulher pudesse desenvolver suas capacidades intelectuais e exercer seus direitos. Foi, sim, feminista, e compreender a dimensão política de seu feminismo é reconhecer que ela não desejava apenas uma sociedade melhor para as mulheres, mas um país mais justo para todos. A igualdade entre homens e mulheres não diminui ninguém; ao contrário, fortalece a sociedade, amplia as possibilidades de desenvolvimento humano e torna a democracia mais verdadeira. Uma nação não pode proclamar liberdade enquanto tolera a opressão de parte de sua população, nem falar em civilização quando a violência, o preconceito e a discriminação continuam presentes nas relações sociais. Por isso, durante minha fala, dirigi uma mensagem especial aos educadores presentes, sugerindo que o respeito às meninas fosse trabalhado e reforçado desde os primeiros anos escolares. Embora as escolas já desenvolvam atividades relacionadas à Ética e à Cidadania, precisamos tratar essa questão com a seriedade que ela exige. O menino que aprende, desde a infância, que as meninas têm os mesmos direitos, que não são inferiores e que ninguém tem poder sobre o corpo, a vontade ou a liberdade de outra pessoa terá melhores condições de se tornar um adulto consciente de suas responsabilidades. Não basta ensinar conteúdos: é necessário formar cidadãos capazes de rejeitar a violência, questionar o preconceito e compreender que masculinidade não significa domínio, agressividade ou imposição. Todos temos mães, irmãs, tias, avós e outras mulheres que amamos, mas o respeito não pode depender do vínculo familiar ou afetivo. As mulheres devem ser respeitadas simplesmente porque são pessoas e possuem direitos. É na infância que podemos começar a desconstruir a misoginia e a formar gerações que não aceitem o feminicídio, não tolerem a violência e não confundam autoridade com opressão.
Naquele momento, olhando para as crianças e os jovens presentes, procurei deixar uma mensagem que ultrapassasse os limites daquela homenagem. Disse-lhes que, embora o sol estivesse escaldante e eu tivesse prometido não me estender, não poderia deixar de fazer um pedido: que cada criança, que cada jovem ali presente procurasse ser como aquele sol e, ao mesmo tempo, como Nísia Floresta. Que incomodasse! Que não tivesse medo de incomodar! Expliquei que o sol incomoda porque sua luz é intensa, porque seu calor se faz sentir, porque ninguém consegue fingir que ele não está ali. Nísia também incomodou porque não aceitou passivamente as limitações impostas às mulheres, porque ousou pensar diferente, porque questionou os costumes de seu tempo e porque defendeu ideias que contrariavam interesses e preconceitos profundamente enraizados. Disse àqueles meninos e meninas que não tivessem medo de fazer perguntas, de contestar injustiças, de denunciar preconceitos e de defender aquilo que considerassem correto. Que incomodassem quando presenciassem uma injustiça, quando alguém fosse humilhado, quando uma menina fosse desrespeitada, quando uma pessoa sofresse discriminação por sua religião, sua condição social ou sua orientação sexual. Que incomodassem quando percebessem que o silêncio estava favorecendo o erro e que a omissão estava protegendo a injustiça. Afinal, somente incomodando, muitas vezes, conseguimos provocar reações, despertar consciências, romper resistências e abrir caminhos para as transformações de que a sociedade necessita. Não me referia, evidentemente, a incomodar por capricho ou desrespeito, mas a ter coragem para questionar aquilo que não é justo, para enfrentar ideias preconceituosas e para não aceitar como natural o que fere a dignidade humana. A história nos mostra que muitas mudanças importantes começaram justamente quando alguém se recusou a permanecer em silêncio. Nísia foi uma dessas pessoas. Por isso, pedi às crianças e aos jovens que procurassem carregar consigo essa disposição de iluminar, questionar e transformar, mesmo quando suas ideias provocassem desconforto. Que fossem, cada um a seu modo, pequenos sóis na sociedade, capazes de iluminar os espaços de escuridão e de incomodar aqueles que preferem que nada mude.
Por fim, procurei mostrar que a educação para o respeito, a igualdade e a cidadania não pode ser uma tarefa isolada da escola: deve constituir um compromisso das famílias, das instituições, dos meios de comunicação e, sobretudo, das autoridades públicas, cujas atitudes e palavras precisam estar à altura da responsabilidade que exercem. A passagem do tempo não diminuiu a importância de Nísia Floresta; pelo contrário, tornou ainda mais evidente a necessidade de recuperar seu pensamento e trazê-lo para o centro dos debates sobre o Brasil contemporâneo. Ela permanece como referência e inspiração porque sonhou com uma nação evoluída, sem desigualdades injustificáveis, na qual a dignidade humana não fosse privilégio de determinadas classes, mas um direito efetivo de todos. Refletir sobre Nísia Floresta é assumir que homenageá-la não significa apenas celebrar sua memória, mas dar continuidade às causas pelas quais ela pensou, escreveu e lutou. Seu legado nos convoca a defender a educação, combater a misoginia, enfrentar o feminicídio, rejeitar o preconceito e exigir das autoridades compromisso com a justiça, a ética e a civilidade. Se Nísia estivesse entre nós, não estaria indiferente às injustiças nem se refugiaria no silêncio diante dos ataques aos direitos humanos. Estaria, certamente, ao lado daqueles que trabalham para transformar a realidade e construir um Brasil em que a liberdade não seja privilégio, a igualdade não seja apenas promessa e a dignidade seja, verdadeiramente, um direito de todos. E talvez, diante daquele sol escaldante que nos acompanhou durante a homenagem, ela nos lembrasse que algumas presenças incomodam justamente porque iluminam aquilo que muitos prefeririam manter escondido. Que cada criança, cada jovem e cada educador leve consigo essa lição: sejamos como o sol; sejamos como Nísia Floresta. Tenhamos a coragem de incomodar sempre que o incômodo for necessário para que a justiça prevaleça, para que o respeito se imponha e para que um Brasil melhor deixe de ser apenas um sonho e se transforme em realidade.












