ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

NÍSIA FLORESTA: O LEGADO INDÍGENA DOS MOPOBUS DE PAPARY NA SUA FORMAÇÃO INTELECTUAL...

Imagem gerada por IA a partir de uma fotografia original de Nísia Floresta


UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA

Dei uma parada em virtude da política, mas hoje consegui concluir e revisar esse texto. Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Hoje é o dia do nascimento dela, mas sigo escrevendo até o final do mês. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada. (Luís Carlos Freire, pentaneto de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã da mãe de Nísia Floresta).

NÍSIA FLORESTA: O LEGADO INDÍGENA DOS MOPOBUS DE PAPARY NA SUA FORMAÇÃO INTELECTUAL...

Quanto mais estudo a vida e a obra de Nísia Floresta Brasileira Augusta, mais me convenço de que uma das dimensões menos exploradas de sua formação intelectual encontra-se justamente no amplo universo indígena que a cercou desde o nascimento. Muito se tem escrito sobre a educadora, a feminista, a escritora, a viajante e a pensadora social. Entretanto, raramente se procura compreender que a menina Dionísia Gonçalves Pinto nasceu em uma região onde a presença dos povos originários não era uma abstração histórica, mas uma realidade viva, perceptível na paisagem, nos hábitos alimentares, na linguagem cotidiana, nos costumes populares, nos topônimos e até mesmo na fisionomia de grande parte da população. Compreender a antiga Papary – atual município de Nísia Floresta – é compreender também um território profundamente marcado pela presença indígena, uma presença tão antiga e tão entranhada na cultura local que muitas vezes se tornou invisível aos olhos daqueles que dela descendem.

Os estudos históricos sobre o litoral sul do Rio Grande do Norte são unânimes ao apontar que a região foi habitada por povos pertencentes ao grande tronco tupi, especialmente grupos identificados pelos cronistas coloniais como Potiguaras e seus diversos subgrupos. Antes da chegada dos europeus, extensas áreas compreendidas entre os atuais municípios de Nísia Floresta, São José de Mipibu, Arês, Goianinha e Canguaretama eram ocupadas por aldeias indígenas que mantinham intensa relação com as lagoas, rios, manguezais e tabuleiros costeiros. A própria historiografia registra que, muito antes da implantação dos engenhos e das fazendas coloniais, o território era cortado por roçados de milho, mandioca, macaxeira, feijão, batata-doce e outras culturas agrícolas cultivadas pelos povos originários. Como observou Tavares de Lyra (1921), os indígenas do litoral potiguar possuíam profundo conhecimento das terras e das águas, desenvolvendo sistemas de ocupação que permitiam a exploração equilibrada dos recursos naturais.



A marca dessa presença permanece gravada até hoje na própria geografia do município. O nome Papary, segundo Câmara Cascudo em sua obra clássica Nomes da Terra (1968), possui origem indígena e remete à abundância de um peixe conhecido pelos antigos habitantes da região. O fato é particularmente significativo porque demonstra que a identidade do lugar foi herdada diretamente dos povos originários. Não se trata apenas de um topônimo isolado. Na verdade, toda a geografia de Nísia Floresta parece constituir um verdadeiro dicionário indígena a céu aberto. Nomes como Pirangi, antiga Pirangipepe; Tabatinga; Timbó; Golandi; Tororomba; Jenipapeiro; Oitizeiro; Camurupim; Cururu; Pium; Arituba; Carcará; Puxi; Paraguaçu; Trairi; Araraí; Mipibu, Boacica e Baldum sobrevivem há séculos como testemunhos linguísticos da ocupação indígena. Muitos habitantes pronunciam diariamente essas palavras sem sequer imaginar que elas atravessaram gerações desde os tempos em que os primeiros habitantes da região dominavam aquelas paisagens.

Na realidade, quem nasceu e cresceu em Papary durante os séculos XVIII e XIX conviveu com uma herança indígena muito mais intensa do que geralmente se supõe. Os antigos aldeamentos estabelecidos pelos missionários Jeuítas não eliminaram completamente as populações originárias. Ao contrário, promoveram processos de miscigenação e intercâmbio cultural cujos efeitos ainda hoje podem ser percebidos. Os indígenas e seus descendentes estavam presentes nas feiras, nas roças, nos engenhos, nos caminhos que ligavam as povoações e nos serviços cotidianos da vida rural. Rocha Pombo (1922), ao analisar a formação histórica do Rio Grande do Norte, observa que a contribuição indígena não se limitou aos primeiros momentos da colonização, mas continuou influenciando profundamente a constituição étnica e cultural da população potiguar. Ferreira Nobre (1877), por sua vez, registrava a forte presença dos elementos indígenas na formação social da província, destacando a miscigenação que caracterizava amplas parcelas da população.

Foi nesse ambiente que nasceu e cresceu a menina Dionísia. A futura Nísia Floresta viveu em um mundo onde a cultura indígena fazia parte do cotidiano. Consumiam-se alimentos de origem indígena, utilizavam-se palavras indígenas para designar frutas, plantas, animais e acidentes geográficos. A mandioca, a tapioca, o beiju, a mangaba, o caju, o cajá, o jatobá, a goiaba, a cajarana e o ingá faziam parte da alimentação habitual. Mais do que isso: faziam parte de um universo simbólico herdado dos primeiros habitantes da terra. Muitas vezes, os chamados "brancos" sequer compreendiam a origem ou o significado dessas palavras, mas continuavam empregando-as porque assim haviam aprendido com as gerações anteriores. A cultura indígena permanecia viva mesmo quando seus portadores originais já haviam sido empurrados para as margens da sociedade colonial.

Em alguns estudos que publiquei no blog NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, procurei demonstrar que essa convivência certamente influenciou a formação intelectual da escritora. Não é difícil imaginar a pequena Dionísia observando o pai, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, trabalhando em pedra-sabão e esculpindo a famosa figura feminina indígena instalada na sacristia da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Aquela escultura, muitas vezes contemplada pela menina, possivelmente representava mais do que uma simples peça decorativa. Ela simbolizava a incorporação da presença indígena à própria identidade cultural de Papary. É razoável supor que imagens como essa tenham contribuído para moldar sua sensibilidade e sua percepção acerca da história brasileira. Preciso lembrar ao leitor que a informação deste parágrafo nos é passada por Isabel Gondim, numa carta em que ela denigre Nísia Floresta.

Tal influência torna-se particularmente evidente quando analisamos A Lágrima de um Caeté, publicada em 1849. A obra constitui um dos documentos mais originais da literatura brasileira oitocentista. Diferentemente da tradição romântica dominante, Nísia Floresta não apresenta o indígena como herói idealizado, destinado a representar uma nacionalidade nascente. Sua visão é muito mais complexa e dolorosa. Em determinado momento do poema, a autora pergunta: "Indígenas do Brasil! Que sois vós hoje? Selvagens? Não. Os vossos bens já não gozais. Civilizados? Também não". Trata-se de uma reflexão extraordinariamente avançada para sua época. Nísia identifica um fenômeno que somente muito mais tarde seria amplamente debatido pelos antropólogos: a situação dos povos indígenas submetidos a processos de perda territorial, destruição cultural e ruptura identitária.

A comparação com José de Alencar torna-se inevitável. Em obras como “O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”, Alencar constrói personagens indígenas heroicos, nobres, idealizados e fortemente influenciados pelos modelos literários europeus. Seu objetivo era criar mitos fundadores para a nacionalidade brasileira. Nísia Floresta segue caminho completamente diferente. O indígena de “A Lágrima de um Caeté” não é um herói triunfante. É um sobrevivente. Um homem que contempla a destruição de seu mundo. Um personagem consciente da perda de suas terras e da fragmentação de sua cultura. Talvez essa diferença decorra justamente da experiência concreta de quem nasceu e cresceu em uma região onde os descendentes indígenas continuavam presentes no cotidiano. Enquanto Alencar imaginava seus indígenas a partir da literatura e dos documentos históricos, Nísia provavelmente observava seus descendentes caminhando pelas estradas de Papary – a exemplo da “Estrada dos índios”, conforme escrevi neste blog em postagens antigas, frequentando as feiras, plantando roças no Vale do Capió e trabalhando nos campos. Por essa razão, sempre defendi que Nísia Floresta deve ser colocada no panteão dos grandes indianistas brasileiros, a exemplo do prório José de Alencar, Gonçalves Dias, Basílio da Gama, Gonçalves de Magalhães, Frei José de Santa Rita Durão e até mesmo a própria Maria Firmina dos reis que, embora mais conhecida por sua escrita abolicionista, também escreveu a obras indianista “Gupeva”. Entretanto, sua inclusão nesse seleto grupo precisa ser compreendida sob uma perspectiva singular e diferenciada. Nísia não produziu o indianismo romântico convencional consagrado pela literatura oitocentista. Não criou guerreiros invencíveis, nem princesas indígenas idealizadas, nem heróis destinados a simbolizar uma nacionalidade em construção. Sua contribuição foi muito mais profunda e, sob certos aspectos, incomparavelmente mais moderna. Ela enxergou o indígena real, submetido ao drama histórico da expropriação territorial, da desagregação cultural e da perda de identidade. Enquanto grande parte dos indianistas brasileiros procurava exaltar um indígena pertencente ao passado, Nísia dirigia seu olhar para os indígenas de seu próprio tempo, para os sobreviventes de uma tragédia histórica ainda em curso. Nesse sentido, sua visão aproxima-se muito mais das preocupações que posteriormente seriam desenvolvidas pela antropologia e pela etnologia brasileiras do que propriamente do indianismo literário tradicional. Se José de Alencar ajudou a construir o mito do indígena nacional, Nísia Floresta ajudou a revelar o drama humano do indígena histórico. Por isso, considero que sua obra merece ser estudada não apenas no contexto do feminismo, da educação ou da literatura romântica, mas também como uma das mais precoces e lúcidas manifestações de sensibilidade indigenista produzidas no Brasil do século XIX.

A história posterior dos povos indígenas brasileiros ajuda a compreender ainda mais a atualidade da visão de Nísia. Em 1910 foi criado o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), sob a liderança do Marechal Cândido Rondon. Embora tenha representado um avanço para a época, o órgão foi frequentemente criticado por trabalhar com o método absurdo – mas comum à época – que visava fazer com que os indígenas abandonassem gradualmente suas características próprias e passassem a adotar os valores, costumes, língua e modo de vida do grupo dominante, ou seja, dos chamados “homens brancos”.

Esse órgão também foi muito criticado por por inúmeras denúncias de abusos. Em 1967, o SPI foi substituído pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas - Funai, instituição que permanece responsável pela promoção e proteção dos direitos indígenas. Nas últimas décadas, especialmente após a Constituição Federal de 1988, o reconhecimento das identidades indígenas ganhou novo impulso. A própria Constituição, em seus artigos 231 e 232, reconheceu os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras tradicionalmente ocupadas. Mais recentemente, diversas normativas federais e portarias da Funai passaram a regulamentar procedimentos de identificação, reconhecimento e proteção territorial, fortalecendo políticas voltadas para a preservação das identidades indígenas e de seus patrimônios culturais.

Essas transformações ajudaram a despertar em muitos brasileiros o interesse por suas ancestralidades. Em regiões como o litoral sul potiguar, onde a miscigenação foi intensa, numerosas pessoas passaram a investigar suas origens familiares e a reconhecer vínculos antes ignorados ou mesmo ocultados. Um exemplo emblemático encontra-se na comunidade indígena do Catu, localizada entre os municípios de Goianinha e Canguaretama. Apesar das perdas linguísticas e culturais acumuladas ao longo dos séculos, a comunidade preserva elementos importantes de sua identidade histórica e constitui hoje uma das principais referências indígenas do Rio Grande do Norte.

Recordo-me, nesse contexto, de um episódio ocorrido em 1993, quando lecionava em uma escola de Nísia Floresta. Durante uma aula sobre a formação histórica e cultural do município, abordava justamente a forte presença indígena na constituição da população local. Em determinado momento, ao passar próximo a uma aluna residente em Tororomba, observei nela traços físicos que me pareciam associados aos antigos habitantes da região e, com naturalidade, comentei que suas características indígenas eram bastante evidentes. Sua reação, entretanto, foi imediata e inesperada: sentindo-se ofendida, protestou energicamente, afirmando que não tinha nada de indígena e que minha observação representava um desrespeito. O episódio tornou-se constrangedor, levando-me a explicar cuidadosamente minhas intenções e a pedir desculpas pelo desconforto causado. Com o passar do tempo, compreendi melhor o contexto cultural que poderia explicar aquela reação. Naquele período, a palavra “índio” ainda carregava forte conotação pejorativa em muitas regiões do Brasil, reflexo de uma discriminação histórica que contribuía para que muitas pessoas rejeitassem ou negassem qualquer vínculo com os povos originários. Eu próprio havia testemunhado fenômeno semelhante durante minha infância e adolescência no Mato Grosso do Sul, onde cresci observando a convivência entre a população regional e os Guarani-Kaiowá. Presenciei, com frequência, os preconceitos dirigidos a esses povos, inclusive o emprego depreciativo da expressão “bugre” por diferentes setores da sociedade.

Talvez essas experiências tenham contribuído para que eu desenvolvesse, desde cedo, profundo respeito pelos povos indígenas e reconhecesse sua importância na formação histórica e cultural do Brasil. Décadas depois, os dados do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) oferecem elementos para refletir sobre essa presença em Nísia Floresta: o município registrou 60 pessoas que se declararam indígenas, correspondendo a 0,19% da população residente. Embora esse número seja relativamente pequeno em comparação com o de outros municípios potiguares, ele evidencia a presença indígena no território. Em âmbito estadual, foram contabilizadas 11.725 pessoas indígenas, distribuídas por 121 municípios, enquanto, em 2010, haviam sido registradas 2.597. Essa ampliação, contudo, não pode ser atribuída exclusivamente ao crescimento demográfico, conforme ressalta o IBGE, pois também pode refletir mudanças metodológicas e nos processos de identificação e autodeclaração. É importante considerar, ainda, que os dados censitários se baseiam nos critérios de identificação adotados pelo Instituto e nas respostas dos próprios entrevistados, não abrangendo necessariamente todas as pessoas que reconhecem possuir ascendência indígena. Desse modo, o número registrado em Nísia Floresta deve ser compreendido à luz dos limites da classificação censitária e de um contexto histórico no qual o preconceito e a desvalorização dos povos originários podem ter influenciado, ao longo do tempo, a maneira como parte da população reconhece ou expressa sua identidade indígena.

Hoje, felizmente, o cenário começa a mudar. Embora persistam inúmeros desafios, observa-se crescente valorização das identidades indígenas e de suas contribuições históricas. Em Nísia Floresta, talvez ainda não existam grupos amplamente organizados que se autodeclarem indígenas ou descendentes diretos, mas é impossível ignorar a presença dessa ancestralidade na cultura, na linguagem, nos costumes e mesmo na fisionomia de grande parte da população. A história permanece inscrita nos rostos, nos sobrenomes, nos hábitos alimentares e nos nomes dos lugares. Ela continua viva, ainda que muitas vezes não seja reconhecida.

Ao final de tantos anos estudando Nísia Floresta, chego cada vez mais à convicção de que sua extraordinária sensibilidade social não surgiu por acaso. A menina Dionísia cresceu em uma terra moldada pela presença indígena. Cresceu ouvindo palavras indígenas, consumindo alimentos indígenas, contemplando paisagens batizadas pelos indígenas e convivendo com descendentes daqueles que primeiro habitaram a região. Talvez tenha sido justamente essa convivência silenciosa que lhe permitiu enxergar, décadas antes de muitos de seus contemporâneos, a tragédia histórica dos povos originários brasileiros. E talvez seja por isso que, ainda hoje, a leitura de A Lágrima de um Caeté continue a nos emocionar e a nos desafiar: porque nela encontramos não apenas uma escritora romântica, mas uma observadora lúcida de uma das maiores feridas da formação histórica do Brasil.

REFERÊNCIAS

ALENCAR, José de. Iracema. São Paulo: FTD, 2011.

ALENCAR, José de. O Guarani. Fortaleza: Edições UFC, 2006.

ALENCAR, José de. Ubirajara. São Paulo: Martin Claret, 2008.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

BRASIL. Lei nº 5.371, de 5 de dezembro de 1967. Autoriza a instituição da Fundação Nacional do Índio e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1967.

CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Serviço de Documentação, 1955.

CASCUDO, Luís da Câmara. Nomes da terra: história, geografia e toponímia do Rio Grande do Norte. Natal: Fundação José Augusto, 1968.

DURÃO, José de Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia. Organização e notas de Hernâni Cidade. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1980.

FLORESTA, Nísia. A lágrima de um Caeté. Atualização do texto, estudo crítico e notas de Constância Lima Duarte. Natal: Fundação José Augusto, 1997.

FREIRE, Luís Carlos. Carta aberta da Lagoa Papary aos nisiaflorestenses. Blog Nisiaflorestaporluiscarlosfreire, Nísia Floresta, 2012. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2012/11/carta-aberta-da-lagoa-papary-aos_24.html. Acesso em: 20 maio 2026.

FREIRE, Luís Carlos. Nísia Floresta, a carta de Isabel Gondim e outros textos malditos. Blog Nisiaflorestaporluiscarlosfreire, Nísia Floresta, 8 set. 2009. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2009/09/nisia-floresta-carta-de-isabel-gondim-e.html. Acesso em: 29 maio 2026.

FREIRE, Luís Carlos. Nísia Floresta: a primeira mulher filósofa do Brasil. Blog Nisiaflorestaporluiscarlosfreire, Nísia Floresta, 2025. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2025/10/nisia-floresta-primeira-mulher-filosofa.html. Acesso em: 29 maio 2026.

FREIRE, Luís Carlos. Nísia Floresta: a primeira indianista do Brasil também era indigenista. Blog Nisiaflorestaporluiscarlosfreire, Nísia Floresta, 2024. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2024/05/nisia-floresta-primeira-indianista-do.html. Acesso em: 25 maio 2026.

FREIRE, Luís Carlos. Topônimos de Nísia Floresta. Blog Nisiaflorestaporluiscarlosfreire, 2017. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2017/11/toponimos-de-nisia-floresta.html. Acesso em: 20 maio 2026.

FUNDAÇÃO NACIONAL DOS POVOS INDÍGENAS (FUNAI). Legislação indigenista brasileira. Brasília, DF: Funai, 2009.

G1 RN. Censo 2022: nove municípios concentram 80% da população indígena do RN. G1, 7 ago. 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/. Acesso em: 17 jun. 2026.

IBGE. Censo Demográfico 2022: indígenas: primeiros resultados do universo. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html. Acesso em: 17 jun. 2026.

LYRA, Augusto Tavares de. História do Rio Grande do Norte. 2. ed. Natal: Fundação José Augusto, 1982.

NOBRE, Manoel Ferreira. Breve notícia sobre a província do Rio Grande do Norte. 2. ed. Rio de Janeiro: Pongetti, 1971.

RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

RONDON, Cândido Mariano da Silva. Índios do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, Conselho Editorial, 2019. 3 v. (Edições do Senado Federal, v. 254A-254C).

VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História geral do Brasil: antes da sua separação e independência de Portugal. Brasília, DF: Senado Federal, Conselho Editorial, 2023. 5 v. (Coleção 200 Anos da Independência do Brasil).

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

COMO ERA A ALIMENTAÇÃO NA PAPARY DOS TEMPOS DE NÍSIA FLORESTA...

 

Imagem criada por IA, baseada no texto, sem compromisso com fidelidade.

UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA

Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Hoje é o dia do nascimento dela, mas sigo escrevendo até o final do mês. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada. (Luís Carlos Freire, pentaneto de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã da mãe de Nísia Floresta).

COMO ERA A ALIMENTAÇÃO NA PAPARY DOS TEMPOS DE NÍSIA FLORESTA...

O que me move a escrever estas linhas não é apenas o interesse pela história de Nísia Floresta Brasileira Augusta, mas também uma curiosidade pessoal. São aquelas interrogações que surgem durante a leitura, quando a imaginação nos leva para além das páginas e que, uma vez instaladas na mente do pesquisador, recusam-se a desaparecer. Afinal, a história não se faz apenas de grandes acontecimentos políticos, livros célebres ou personagens extraordinários. Ela também se revela nas pequenas experiências do cotidiano, nos hábitos domésticos, nas relações familiares e, de maneira muito especial, à mesa. Poucas coisas nos permitem compreender tanto sobre uma sociedade quanto aquilo que ela produz, prepara e consome para se alimentar.

Há uma passagem registrada pelo viajante inglês Henry Koster em seu célebre livro Travels in Brazil (Viagens ao Nordeste do Brasil). No final deste texto, trancrevo o que ele escreveu. Em 1810, quando percorria a Capitania do Rio Grande do Norte, Koster encontrou-se com o português Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, propriet´rio do Sítio Floresta e pai de Nísia Floresta Brasileira Augusta. A menina que se tornaria uma das maiores intelectuais da história do Brasil tinha pouco mais de um mês de idade, tendo nascido aos 12 de outubro daquele ano. A família vivia naquele pedacinho do céu, entre as lagoas, os engenhos, os coqueirais e as terras férteis da antiga Papary. O relato reproduzido por Adauto da Câmara revela um cenário extraordinariamente favorável à vida humana. Segundo Koster, Papary era “um vale estreito e profundo, do mais delicioso aspecto”, inteiramente cultivado e cercado por uma paisagem verdejante que contrastava com a secura observada em outras partes da capitania (KOSTER apud CÂMARA, 1941). A descrição não é apenas geográfica. Ela oferece pistas valiosas sobre a abundância agrícola e alimentar da região.

Koster foi convidado a pernoitar na localidade e acabou sendo recebido pelo próprio Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa. Em seu relato, informa que o futuro pai de Nísia era português e havia se casado com uma brasileira, Dona Antônia Clara Freire do Revoredo. Acrescenta ainda que ambos lhe pareceram “bastante prósperos” (KOSTER apud CÂMARA, 1941). O viajante participou de uma refeição na residência da família e observou um detalhe que o impressionou profundamente: Dona Antônia estava presente à mesa, conversando naturalmente com o visitante estrangeiro. O fato era incomum para os padrões sociaiss da época, uma vez que muitas mulheres permaneciam recolhidas durante as visitas masculinas. Inclusive antes dessa visita, ele havia estado com André de Albuquerque Maranhão, no engenho Cunhaú, onde ficou impressionado com a quantidade de comidas e doces que a família punha à mesa e, assim como nas demais províncias que visitou, constatou as mulheres recolhidas. Esse ambiente familiar com essas características incomuns – portanto modernas para a época – podem nos ajudar a compreender algumas das características que marcariam a futura educadora brasileira. Mas, para além das relações sociais, o episódio desperta outra questão igualmente fascinante: o que se comia naquela casa? Que alimentos foram servidos a Henry Koster naquela noite de 1810? Qual era a alimentação do povo de Papary àquela época?

A pergunta pode parecer secundária. Não é. A alimentação constitui uma das formas mais ricas de compreender uma sociedade. Ao investigar o que um povo come, descobrimos sua economia, seus hábitos, suas relações sociais, sua condição social, suas técnicas produtivas e até mesmo suas formas de pensar o mundo. Em muitos casos, uma refeição diz mais sobre uma época do que longos documentos oficiais. E é justamente por isso que a mesa da família de Nísia Floresta merece atenção.

Outra referência igualmente intrigante – referente à alimentação – encontra-se na própria obra da escritora. Em Trois ans en Italie, suivis d'un voyage en Grèce, ao recordar sua infância e a antiga prosperidade da propriedade familiar, Nísia registra uma lembrança de enorme valor histórico: “Lembro-me ainda que, na propriedade dos meus queridos pais, a próspera Floresta de antanho, arrasada pelo vendaval das revoluções pelos infortúnios da família, havia entre outras belas árvores, uma mangueira de imenso tamanho, a cuja sombra meu pai dispôs mesas para duzentos convivas, em uma festa que deu em 1 de outubro” (NÍSIA FLORESTA apud CÂMARA, 1941). A passagem é extraordinária. Alimentar duzentas pessoas na primeira metade do século XIX não era tarefa simples. Exigia recursos financeiros, disponibilidade de gêneros alimentícios, mão de obra para o preparo dos alimentos e uma logística doméstica considerável. À propósito, Koster escreve que aquela família demonstrava ser abastada. Uma festa desse porte, certamente com convidados de Goianinha e vizinhanças, onde residiam todos os tios e avós de Nísia nos parece admirável. Essa abundância que caracterizava a antiga Floresta nos conduz inevitavelmente a uma nova pergunta: o que foi servido àqueles duzentos convidados?

Para responder, ainda que parcialmente, a essa questão, é necessário reconstruir o universo alimentar da antiga Papary e obviamente as vizinhanças. Felizmente, contamos com a contribuição de estudiosos como Luís da Câmara Cascudo, cuja monumental História da Alimentação no Brasil permanece como uma das maiores referências sobre os hábitos alimentares brasileiros. Segundo Cascudo, a culinária nordestina do século XIX resultava do encontro entre tradições ind´genas, portuguesas e africanas. No caso de Papary, poucos ingredientes eram tão importantes quanto a mandioca. Muito antes de o pão tornar-se presença constante nas mesas brasileiras, era a farinha de mandioca que sustentava a população. Farinha seca, pirões, beijus, tapiocas, grudes, mingaus e inúmeros outros derivados apareciam diariamente nas refeições. Nenhum grande banquete da época poderia ser imaginado sem a presença abundante desses produtos. Também usei um estudo sobre a linguagem regional, feito por mim, onde documentei diversos alimentos típicos do município de Nísia Floresta.

Também não se pode esquecer a contribuição dos africanos escravizados e de seus descendentes, cuja presença era significativa nos engenhos, sítios e propriedades rurais da antiga Papary. Como demonstra Câmara Cascudo, muitos hábitos alimentares incorporados à culinária nordestina resultaram diretamente dos conhecimentos trazidos pelos povos africanos e recriados no Brasil. O aproveitamento integral dos alimentos, os modos de temperar carnes, peixes e legumes, bem como diversas técnicas de cozimento, receberam forte influência dessas populações. Nas cozinhas dos engenhos e das casas senhoriais, mulheres negras escravizadas exerciam papel fundamental no preparo das refeições cotidianas e festivas, tornando-se verdadeiras guardiãs e transmissoras de saberes culinários.

O feijão, em suas diversas variedades, ocupava lugar importante na alimentação popular. Preparado com carnes salgadas, toucinho ou apenas com temperos simples, constituía um alimento nutritivo e acessível. O consumo de inhame,jerimum, quiabo e outros vegetais amplamente difundidos entre as populações afrodescendentes também fazia parte do universo alimentar regional. Muitos desses ingredientes podiam ser cultivados nos roçados mantidos pelos próprios escravizados ou adquiridos nos pequenos circuitos de troca que existiam nas comunidades rurais.

Ao lado da mandioca encontrava-se outro elemento fundamental: o pescado. Nesse aspecto, o testemunho de Henry Koster é particularmente revelador. O viajante observou que Papary possuía uma vantagem singular: embora distante do mar, contava com uma lagoa de água salgada – também chamada de Papary –, onde a maré subia e descia regularmente, permitindo que os pescadores chegassem até a povoação em pequenas embarcações carregadas de peixe fresco. A cena descrita por Koster é memorável. Segundo ele, toda a população se reunia para receber os pescadores, numa movimentação que lhe recordava o famoso mercado de peixes de Billingsgate, em Londres. Não se trata apenas de uma observação curiosa. Ela demonstra que o pescado constituía um dos pilares da alimentação local.

Imagem criada por IA, baseada no texto, sem compromisso com fidelidade.

Hoje muitos conhecem a lagoa por sua beleza paisagística. Poucos imaginam que, no inicio do século XIX, ela representava também uma das mais importantes fontes de alimento da região. Tainhas, curimatãs, traíras e inúmeras outras espécies abasteciam diariamente as mesas locais. Mas a riqueza alimentar de Papary não se limitava aos peixes. Os diversos rios, lagoas, braços de maré, gamboas e manguezais da região eram extraordinariamente ricos em crustáceos e moluscos. Camarões de várias espécies podiam ser encontrados em abundância, incluindo o célebre pitu, outrora comum nos mananciais locais e hoje praticamente desaparecido. Caranguejos, siris, goiamuns, ostras, mexilhões, lulas, polvos e até ouriços-do-mar integravam os recursos alimentares disponíveis para as populações costeiras e lagunares do Rio Grande do Norte. É perfeitamente plausível supor que muitos desses ingredientes chegassem com frequência às mesas das famílias paparyenses.

A partir dessa abundância natural, podemos imaginar uma culinária rica e diversificada. Os peixes poderiam ser preparados assados, cozidos, ensopados ou transformados em peixadas. Os camarões certamente apareciam em caldos, guisados, refogados e frituras. A farinha de mandioca permitia a elaboração dos tradicionais pirões, elemento indispensável da culinária nordestina. Pirões de peixe, de camarão, de siri e até de carne figuravam entre os pratos mais comuns da época. Também não seria improvável a presença de caldos engrossados com farinha, moquecas simples, cozidos de mariscos e outras preparações que combinavam ingredientes locais com técnicas herdadas de indígenas, portugueses e africanos. Inclusive é muito comum até hoje os “liguentos” feitos com peixe, água, sal, cheiro verde, farinha, preparados às margens das águas, em panelas grandes - originalmente de barro - improvisadas sob trempes.

A influência africana manifestava-se igualmente nos temperos e acompanhamentos. Embora o azeite de dendê não tenha alcançado no Rio Grande do Norte a mesma importância que adquiriu na Bahia, diversos preparos de peixes, mariscos e carnes incorporavam modos de cozinhar herdados das populações africanas. Refogados enriquecidos com cebola, alho, pimentas e ervas, além do uso frequente de panelas de barro e longos cozimentos, constituíam práticas amplamente difundidas. A presença de angu, papa de farinha, mungunzás e outros preparos à base de milho e mandioca também revela permanências culturais associadas à experiência alimentar afro-brasileira.

Além dos recursos fornecidos pelas águas, havia a pecuária. A carne bovina, geralmente consumida sob a forma de carne salgada ou carne de sol, fazia parte da dieta regional. O gado constituía uma das principais riquezas econômicas do sertão norte-rio-grandense e abastecia constantemente as áreas litorâneas. O leite e seus derivados também estavam presentes no cotidiano das famílias mais favorecidas. Coalhadas, queijos artesanais, manteiga da terra e outros produtos lácteos apareciam regularmente nas refeições. As aves domésticas - galinhas, patos e perus - também poderiam integrar os cardápios festivos.

As frutas completavam esse cenário de abundância. Manga, banana, coco, mamão, goiaba, jaca e caju eram consumidos ao natural ou transformados em doces e compotas. A própria lembrança da grande mangueira mencionada por Nísia Floresta sugere a importância das frutas no ambiente familiar. Próximo dali funcionavam importantes engenhos de açúcar, responsáveis pela produção de rapaduras, melados e diversos doces. Bolos de mandioca, bolos de milho, filhoses, alfeninns, cocadas e doces cristalizados certamente figuravam entre as sobremesas das celebrações mais importantes.

Entre os doces e quitutes, também é possível reconhecer heranças africanas. Cocadas, alfenins, bolos enriquecidos com coco ralado, além de preparações à base de melado e rapadura, resultavam frequentemente do encontro entre ingredientes locais e conhecimentos culinários desenvolvidos pelas cozinheiras negras dos engenhos. O coco, abundante no litoral sul-rio-grandense, permitia a elaboração de inúmeras receitas que se consolidaram como marcas da doçaria regional. Muitas dessas preparações eram servidas tanto em festividades religiosas quanto em celebrações familiares, perpetuando tradições transmitidas de geração em geração.

Quando pensamos na infância de Nísia Floresta, é muito provável que esse tenha sido o universo gastronômico que a cercou. A menina que cresceu observando as águas da lagoa, os coqueirais, os canaviais e os engenhos certamente conheceu os sabores produzidos por aquela terra. Talvez tenha saboreado beijus preparados segundo antigas tradições indígenas. Talvez tenha acompanhado a chegada dos pescadores descrita por Koster. Talvez tenha provado pirões fumegantes preparados com peixes recém-pescados ou camarões retirados dos mananciais da região. Talvez tenha participado das grandes refeições familiares que reuniam parentes, amigos, viajantes e convidados sob a sombra das árvores do Sítio Floresta.

Não sabemos exatamente o que estava sobre a mesa naquele encontro entre Henry Koster, Dionísio Pinto Lisboa e Dona Antônia Clara Freire do Revoredo, nem o que esteve presente no perpiodo de 1810 a 1824, quando Nísia deixou definitivamente a província do Rio Grande do Norte.. Também não dispomos de um cardápio detalhado do almoço oferecido aos duzentos convivas recordado por Nísia Floresta. Entretanto, os testemunhos de Koster, as memórias da própria escritora, os estudos de Câmara Cascudo e o estudo que fiz a partir de 1992, permitem reconstruir, com razoável segurança, o universo alimentar da antiga Papary. E o quadro que emerge é o de uma terra generosa, onde a fertilidade dos campos, a riqueza das águas, a produção dos engenhos e o trabalho humano se combinavam para criar uma culinária marcada pela fartura e pela diversidade. E até hoje - embora que de maneira mais diluída, pois, em caráter de exemplo, o camarão pitu desapareceu - essa gastronomia nativa segue quase intacta.

Seria impossível compreender essa culinária sem reconhecer o papel desempenhado pelos homens e mulheres africanos escravizados que viveram e trabalharam na região. Foram eles que, ao lado dos indígenas e dos colonizadores portugueses, ajudaram a construir os hábitos alimentares que caracterizaram a antiga Papary. Nas cozinhas das casas-grandes, nos engenhos, nos sítios e nos espaços comunitários, produziram adaptações criativas, combinaram ingredientes de diferentes origens e legaram técnicas culinárias que sobreviveram ao longo dos séculos. Assim, a mesa da infância de Nísia Floresta não era apenas um espaço de abundância material, mas também um lugar de encontro entre culturas diversas, cuja síntese se expressava diariamente nos alimentos consumidos por sua família e por toda a população local.

Ao reconstruirmos os sabores da antiga Papary, aproximamo-nos não apenas dos hábitos alimentares de uma época, mas da própria experiência humana vivida por Nísia Floresta e sua família. Afinal, antes de se tornar uma intelectual admirada na Europa, antes de fundar escolas, escrever livros e defender diversas ideia pioneiras, Nísia foi uma menina potiguar criada entre as mesas, os aromas, os frutos, os peixes, os crustáceos, os doces e as tradições culinárias de uma pequena vila do Rio Grande do Norte. E talvez exista uma forma particularmente bela de compreender a história: sentar-se, ainda que imaginariamente, à mesa daqueles que a viveram.

Nísia Floresta Brasileira Augusta

Pois bem, no estudo A Linguagem no Rio Grande do Norte: Dicionário de Vocábulos e Expressões Regionais Vernaculares e Contemporâneas, escrito a partir de 1992, e que publiquei no blog em 10 de setembro de 2009, reúno alimentos, pratos regionais, iguarias, doces, ingredientes, bebidas e expressões relacionadas ao ato de comer e beber de Nísia Floresta. Iniciei a pesquisa em 1992. Fiz um breve apanhado para não me estender muito, mas certamente eram comuns no tempo de Nísia Floresta. Alguns ainda estão presentes na culinária local, outros, raramente são vistos, como o cuscuz de mandioca mole. Vejamos:

Arroz de leite - Prato típico da região, preparado com arroz não parboilizado, cozido no leite de coco e temperado a gosto. É servido com consistência semelhante à de um arroz papa.

Bolo preto - Iguaria feita com rapadura, farinha de trigo, cravo, canela, erva-doce e castanha de caju. Os ingredientes são misturados e levados ao forno para assar.

Bredo - Planta comestível que nasce espontaneamente no mato, uma espécie de hortaliça silvestre. Antigamente, era consumida em saladas ou refogada com peixe e camarão, especialmente durante a Semana Santa. Hoje, é raramente consumida.

Cabeça de galo - Pirão muito ralo, preparado com farinha de mandioca, pimenta-do-reino, ovo, coentro, sal, tomate, cebola e pimentão. Alimento recomendado para pessoas adoentadas ou fracas.

Canjica - Comida feita de milho moído ou ralado, leite de coco, leite de gado ou água. No passado, fazia-se uma bolsinha de pano com diversas ervas juntas (erva-doce, cravo, canela), fervia-se tudo numa panela até ficar um chá forte, quase preto, e, pouco antes da canjica dar o ponto, acrescentava-se e mexia bem.

Canjicão - Iguaria feita com farinha de milho, leite, açúcar, leite de coco e especiarias. É servida em ponto bem mais duro que a canjica.

Carne guisada: carnes vermelhas preparadas com urucum, sal e coentro.

Carumaru - Antigo prato típico da Semana Santa, preparado com bredo, leite de coco, sal, pimenta-do-reino, coentro, tomate, cebola e pimentão. Poucas pessoas comiam peixe naquela semana, pois o carumaru era o prato tradicional. A expressão encontra-se em desuso.

Cachorro - Mistura de feijão e farinha, espremida na mão até formar uma espécie de bolinho. Essa denominação é menos utilizada que “raposa” ou “macaco”, que é a mesma coisa.

Cocadinha - Pequeno doce cortado no formato de cocada ou de uma pequena rapadurinha. Por mais antagônico que pareça, uma cocadinha nem sempre é literalmente de coco puro. Pode ser cocadinha de goiaba, cocadinha de amendoim, cocadinha de maracujá etc.

Cozido - Prato preparado com pés, mãos ou pernas de gado, acompanhado de diversos legumes e batata-doce, temperado a gosto. O caldo costuma ser utilizado para fazer pirão.

Cuscuz de milho: bolo de milho feito no vapor com massa de milho, água e sal. Nos primórdios o milho usado na confecção desses pratos era colocado na água na noite anterior e pilado pela manhã. As cuscuzeiras eram feitas de barro ou de uma banda de cabaça com furinhos, cobertas com pano, postas sobre uma vasilha com água fervente.

Cuscuz de mandioca mole – bolo de milho feito no vapor com a massa da mandioca mole (da mesma forma acima). Iguaria muito rústica, raramente apreciada nos dias atuais.

Farofa d'água - Farofa preparada com farinha de mandioca, manteiga, sal, cebola roxa, água fervente e coentro. Misturam-se a água fervente, a manteiga, o coentro e o sal; depois, acrescenta-se a farinha aos poucos, até a mistura ficar levemente grudenta e com pequenos grumos.

Farofa de banana verde - Iguaria preparada com banana verde cozida e coco ralado, pilados até adquirirem consistência semelhante à de farinha. Depois, a mistura é peneirada e recebe sal.

Farofa de coco - Preparada com coco ralado, pilado com farinha de mandioca e sal a gosto. Alguns colocam ervas, coentro etc.

Fato - vísceras de boi, incluindo tripa, bofe, bucho e livro. São alimentos feitos de diversos modos a depender do gosto.

Faúla - Mistura de miúdos bovinos vendidos juntos na feira, podendo conter pedaços de úbere, tripa, bofe, bucho, sangue enrijecido e livro. Desses produtos se faz buchada, sarapatel. Também se consomem no feijão ou feitos como guisado. Também se prepara no feijão. A tripa é muito apreciada assada na brasa. O costume, segundo Cascudo, veio de Portugal.

Feijão verde: como o nome diz, o feijão é colhido antes de amadurecer, preparado com água, sal e coentro. É comum acrescentar maxixe e quiabo. Nos primórdios era consumido com as próprias mãos, sem talheres, amassados com farinha de mandioca (macaco, raposa).

Liguento - Pirão de peixe fresco, preparado às margens dos rios, geralmente de maneira improvisada, em panelões velhos ou até em latas. O tempero é o mesmo utilizado na culinária local. É uma prática comum na região, sobretudo entre pescadores que passam o dia na água.

Manipueira - Líquido que escorre quando a mandioca é prensada nas casas de farinha. Pessoas mais humildes acrescentavam açúcar e leite de coco a essa seiva, servindo a mistura como uma espécie de suco para as crianças.

Mingau de macaxeira: muitos bebês eram alimentados com mingau ralo, feito com a fécula da macaxeira, água ou leite.

Mingau de milho: o mesmo processo acima.

Munguzá: milho cozido com água e finalizado com leite de gado e leite de coco, açúcar, canela ou cravo. O Munguzá do Nordeste não leva amendoim, como o de SP e MG.

Mussu - Peixe de coloração preto-amarelada, semelhante a uma pequena cobra (Piramboia). Em Nísia Floresta, prepara-se “mussu no coco”, ao estilo camarão no coco.

Paçoca - Comida típica preparada com carne de sol pilada, ou triturada no liquidificador, misturada com farinha de mandioca, cebola, alho, sal e coentro. Registra também a paçoca doce, feita de amendoim moído com açúcar.

Pamonha: bolo de milho ralado, preparado dengro de bolsas feitas da palha co milho verde, engenhosamente montadas. Leva açúcar, leite de gado ou leite de coco.

Pecado maneiro: espécie de beiju muito fino, feito com massa de mandioca e sal assado na pedra.

Raposa - Mistura de feijão com farinha, espremida na mão até formar pequenos bolinhos. É também chamada de “cachorro”, “macaco” e “raposa”.

Quarenta - Iguaria preparada com farinha de milho cozida no leite ou na água, com açúcar e manteiga. Na versão salgada, acrescentam-se diferentes temperos. É servida fria, em tigelas ou travessas, e consumida em pedaços, como um bolo. Nos primórdios o milho usado na confecção desses pratos – assim como o cuscuz – era colocado na água na noite anterior e pilado pela manhã.

Raiva - Pequenos biscoitos feitos com goma, leite de coco, leite de gado e açúcar.

Xaxado - Sobras de carne compradas na feira, compostas por pedaços variados de diferentes carnes, vendidos juntos.

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Cabumba - Cachaça muito forte, não submetida aos processos de destilação, pinga grosseira.

Peixe e camarão: são preparados nas mais diversas formas, na água grande (só água e temperos) e no leite de coco. Alguns acrescentam legumes e ervas.

Frango, carneiro, bezerro, porco: preparados de diversas formas.

Feijão e farinha - Ingredientes fundamentais da preparação regional. O arroz não era tão comum à época.

CITAÇÃO DE HENRY KOSTER:

1)       “Marchamos pelas duas horas. Tinha o projeto de caminhar até o por do sol e parar, então, perto de alguma cabana. Mas um moço nos encontrou e nos fez algumas perguntas. Ele morava em Papari, aldeia situada a uma meia légua da estrada. Insistiu tão fortemente para que eu o seguisse e passasse a noite em sua casa, que eu fui. Papari é um vale estreito e profundo, do mais delicioso aspecto. Inteiramente cultivado, este ano, particularmente, as terras são de um grande rendimento, porque não houve chuvas, e as terras arenosas ficaram estéreis. Com efeito, ao passo que, em todas as partes da região, o terreno parecia seco e queimado, neste vale se encontra uma frescura verdejante. É um sítio agradável, e os habitantes parecem, pela sua jovialidade, estimar o preço de uma tal morada. Papari goza anda de outra vantagem: conquanto distante do mar, três ou quatro léguas, encontra-se aí um lago de água salgada, de sorte que os habitantes podem ter peixe à porta. A maré sobe e desce nessa lagoa, que nunca está seca, porque, mesmo que os regatos de água doce que desaguam nela, estancassem, conservaria sempre uma porção de água do mar. Os pescadores sobem até Papari em suas pequenas jangadas, que não mergulham mais de um pé na água. Papari está a cerca de uma légua de Cunhaú. O senhor Dionísio apresentou-me à sua mulher. Ele é português e desposou uma brasileira. Possuem um pequeno pedaço de terra no vale, e me parecem bastante prósperos. Papari pode ter trezentos habitantes. Soube, depois, que, no corre do ano, muitas pessoas vêm a Papari, em virtude da absoluta falta de víveres no lugar em que moram. Fui à borda do lago para ver a chegada dos pescadores. Todo o povo do vale estava reunido para os receber: Era Billingsgate (o mercado de Peixes em Londres),  em miniatura, exceto que a língua portuguesa não me permite praguejar. Jantamos à moda brasileira, em uma mesa de cerca de seis polegadas de altura, em torno da qual nos assentamos, ou por outra, nos deitamos, em esteiras. Não tínhamos garfos; e as facas, em número de duas ou três, eram unicamente destinadas a cortar os grandes pedaços: os dedos deviam fazer o resto. Demorei em Papari um dia inteiro, afim de que meus cavalos tomassem um pouco de repouso, e para que eu pudesse, por intermédio do senhor Dionísio, comprar outro para o pobre Julio, cujos pés tinham sofrido muito por uma longa marcha em areia muito seca”. (Nas viagens, vol. I, cap. V, Henry Koster).

 

CITAÇÃO DE NÍSIA FLORESTA:

1)      : “Lembro-me ainda que, na propriedade dos meus queridos pais, a próspera Floresta de antanho, arrasada pelo vendaval das revoluções pelos infortúneos da família, havia entre outras belas árvores, uma mangueira de imenso tamanho, a cuja sombra meu pai dispôs mesas para duzentos convivas, em uma festa que deu em 1 de outubro” - Data do nascimento de Nísia. (Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce, vol II, p. 347).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CÂMARA, Adauto da. História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Pongetti, 1941.

CASCUDO, Luís da Câmara. História da Alimentação no Brasil. 4. ed. São Paulo: Global, 2011.

FLORESTA, Nísia. Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce. Trad. Francisco das Chagas Pereira. Natal: EDUFRN, 1998.

FREIRE, Luís Carlos. A linguagem no Rio Grande do Norte: dicionário de vocábulos e expressões regionais vernaculares e contemporâneas. Nisiaflorestaporluiscarlosfreire, 10 set. 2009. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2009/09/fala-nisiaflorestense-dicionario-de_10.html. Acesso em: 10 mai. 2026.

GOMES. Maria Marluce. História da Gastronomia no Rio Grande do Norte. Natal: Editora Alternativa, 2004. 186 p.


quarta-feira, 14 de outubro de 2026

terça-feira, 13 de outubro de 2026

MINHAS REFLEXÕES NO TRIBUTO A NÍSIA FLORESTA...

Luís Carlos Freire (Todas as imagens aqui postadas são do acervo da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta).

SE NÍSIA FLORESTA ESTIVESSE ENTRE NÓS, ESTARIA AO LADO DOS QUE LUTAM POR JUSTIÇA, IGUALDADE E DIGNIDADE

Hoje, a convite do professor Jorge Januário de Carvalho, estive no município de Nísia Floresta para participar do Tributo a Nísia Floresta, no município que leva o nome dessa extraordinária educadora potiguar. Houve uma caminhada do centro da cidade até o Conjunto Histórico onde se encontra o seu túmulo e monumento em sua homenagem. Ao ser anunciado pelo mestre de cerimônia para discursar sobre a vida e a obra de Nísia, expliquei que quebraria o protocolo para fazer algo que considerava mais necessário naquele momento: refletir sobre a atualidade de seu pensamento e sobre o Brasil que estamos construindo. O sol estava escaldante, por isso, prometi não me estender muito. Mas aproveitei justamente a intensidade daquele sol para estabelecer uma relação com a mulher que nos reunia naquela ocasião. Disse aos presentes que aquele sol forte era, de certa forma, o mesmo sol que representava Nísia Floresta: um sol que incomodava, que não permitia a indiferença, que nos obrigava a perceber sua presença,. Afinal, Nísia também incomodava. Incomodava uma sociedade que não aceitava facilmente uma mulher pensando, escrevendo, questionando e defendendo direitos em uma época em que às mulheres eram impostas tantas limitações. Eu estava na terra de N´sia, diante de educadores e estudantes que conhecem sua história. Não precisava, portanto, apenas relembrar sua biografia, mas provocar uma reflexão política e social: se Nísia Floresta estivesse entre nós, hoje, quais seriam suas inquietações? De que lado estaria diante das injustiças, das desigualdades e dos retrocessos que ainda marcam a sociedade brasileira? Tenho plena convicção de que estaria ao lado dos que lutam por justiça, igualdade e dignidade, porque sua trajetória intelectual e sua defesa da educação e da emancipação feminina revelam o compromisso com uma sociedade mais esclarecida, livre e civilizada.


Se estivesse no Brasil de hoje, Nísia certamente se preocuparia com a persistência da pobreza, com a concentração de oportunidades e com a ausência de condições dignas de vida para milhões de brasileiros. Defenderia políticas públicas capazes de enfrentar as desigualdades sociais, pois não se constrói uma nação verdadeiramente desenvolvida quando uma parcela da população desfruta de privilégios enquanto outra luta diariamente para sobreviver. Estaria ao lado das minorias, dos pobres, dos excluídos e de todos aqueles cujos direitos ainda não são plenamente reconhecidos. Defenderia a educação pública de qualidade como instrumento de emancipação, a valorização da cultura brasileira como expressão de nossa identidade e o respeito à diversidade como fundamento de uma sociedade democrática. Também se colocaria ao lado dos que sofrem intolerância religiosa, defenderia o direito de professar livremente qualquer crença e, sem dúvida, reconheceria a dignidade das religiões de matrizes africanas, como o Candomblé e a Umbanda, inclusive visitando seus terreiros e conversando com seus pais e mães de santo. Da mesma forma, compreenderia que as pessoas LGBTQIA+ têm direito à cidadania, ao respeito e à proteção contra a violência ea discriminação. Uma nação que se pretende civilizada não pode escolher quem merece dignidade: ela deve garanti-la a todos.

Drª Françoise Dominique Valéry, professora aposentada da UFRN, ex-cônsul honorária da França em Natal.

Mas acredito que uma das maiores preocupações de Nísia seria a situação das mulheres brasileiras. Ultimamente, temos assistido a sucessivos ataques às mulheres, à desqualificação de suas capacidades, à tentativa de limitar sua autonomia e à circulação de discursos que naturalizam o desrespeito, alimentam a MISOGINIA e contribuem para um ambiente de hostilidade contra elas. O problema se torna ainda mais grave quando manifestações dessa natureza partem de pessoas que ocupam posições de autoridade ou exercem influência pública, pois suas palavras podem legitimar preconceitos, estimular comportamentos discriminat´rios e enfraquecer o compromisso coletivo com a igualdade. Quem exerce uma função pública tem responsabilidade especial na defesa dos direitos fundamentais e no combate à violência, não na reprodução de estereótipos que historicamente inferiorizaram as mulheres. E não podemos ignorar a dimensão mais cruel dessa realidade: o FEMINICÍDIO, expressão extrema de uma violência que, em muitos casos, é precedida por ameaças, humilhações, controle, agressões e pela crença absurda de que uma mulher pode ser tratada como propriedade de alguém. Em pleno século XXI é inadmissível que mulheres sejam assassinadas por serem mulheres, que tenham suas vidas interrompidas pela violência de gênero e que a sociedade ainda precise reivindicar o direito básico de viver sem medo. Nísia Floresta, que defendeu a emancipação feminina em uma época profundamente marcada pela subordinação das mulheres, certamente não se calaria diante desse cenário. Estaria denunciando a misoginia, exigindo políticas de prevenção e proteção, cobrando responsabilidade das instituições e defendendo a educação como parte indispensável do enfrentamento à violência.


Ressaltei que Nísia foi uma filósofa no sentido pleno da palavra e uma mulher de pensamento avançado para seu tempo. Há quase dois séculos, já questionava estruturas sociais que restringiam a participação feminina e defendia uma sociedade na qual a mulher pudesse desenvolver suas capacidades intelectuais e exercer seus direitos. Foi, sim, feminista, e compreender a dimensão política de seu feminismo é reconhecer que ela não desejava apenas uma sociedade melhor para as mulheres, mas um país mais justo para todos. A igualdade entre homens e mulheres não diminui ninguém; ao contrário, fortalece a sociedade, amplia as possibilidades de desenvolvimento humano e torna a democracia mais verdadeira. Uma nação não pode proclamar liberdade enquanto tolera a opressão de parte de sua população, nem falar em civilização quando a violência, o preconceito e a discriminação continuam presentes nas relações sociais. Por isso, durante minha fala, dirigi uma mensagem especial aos educadores presentes, sugerindo que o respeito às meninas fosse trabalhado e reforçado desde os primeiros anos escolares. Embora as escolas já desenvolvam atividades relacionadas à Ética e à Cidadania, precisamos tratar essa questão com a seriedade que ela exige. O menino que aprende, desde a infância, que as meninas têm os mesmos direitos, que não são inferiores e que ninguém tem poder sobre o corpo, a vontade ou a liberdade de outra pessoa terá melhores condições de se tornar um adulto consciente de suas responsabilidades. Não basta ensinar conteúdos: é necessário formar cidadãos capazes de rejeitar a violência, questionar o preconceito e compreender que masculinidade não significa domínio, agressividade ou imposição. Todos temos mães, irmãs, tias, avós e outras mulheres que amamos, mas o respeito não pode depender do vínculo familiar ou afetivo. As mulheres devem ser respeitadas simplesmente porque são pessoas e possuem direitos. É na infância que podemos começar a desconstruir a misoginia e a formar gerações que não aceitem o feminicídio, não tolerem a violência e não confundam autoridade com opressão.


Naquele momento, olhando para as crianças e os jovens presentes, procurei deixar uma mensagem que ultrapassasse os limites daquela homenagem. Disse-lhes que, embora o sol estivesse escaldante e eu tivesse prometido não me estender, não poderia deixar de fazer um pedido: que cada criança, que cada jovem ali presente procurasse ser como aquele sol e, ao mesmo tempo, como Nísia Floresta. Que incomodasse! Que não tivesse medo de incomodar! Expliquei que o sol incomoda porque sua luz é intensa, porque seu calor se faz sentir, porque ninguém consegue fingir que ele não está ali. Nísia também incomodou porque não aceitou passivamente as limitações impostas às mulheres, porque ousou pensar diferente, porque questionou os costumes de seu tempo e porque defendeu ideias que contrariavam interesses e preconceitos profundamente enraizados. Disse àqueles meninos e meninas que não tivessem medo de fazer perguntas, de contestar injustiças, de denunciar preconceitos e de defender aquilo que considerassem correto. Que incomodassem quando presenciassem uma injustiça, quando alguém fosse humilhado, quando uma menina fosse desrespeitada, quando uma pessoa sofresse discriminação por sua religião, sua condição social ou sua orientação sexual. Que incomodassem quando percebessem que o silêncio estava favorecendo o erro e que a omissão estava protegendo a injustiça. Afinal, somente incomodando, muitas vezes, conseguimos provocar reações, despertar consciências, romper resistências e abrir caminhos para as transformações de que a sociedade necessita. Não me referia, evidentemente, a incomodar por capricho ou desrespeito, mas a ter coragem para questionar aquilo que não é justo, para enfrentar ideias preconceituosas e para não aceitar como natural o que fere a dignidade humana. A história nos mostra que muitas mudanças importantes começaram justamente quando alguém se recusou a permanecer em silêncio. Nísia foi uma dessas pessoas. Por isso, pedi às crianças e aos jovens que procurassem carregar consigo essa disposição de iluminar, questionar e transformar, mesmo quando suas ideias provocassem desconforto. Que fossem, cada um a seu modo, pequenos sóis na sociedade, capazes de iluminar os espaços de escuridão e de incomodar aqueles que preferem que nada mude.


Por fim, procurei mostrar que a educação para o respeito, a igualdade e a cidadania não pode ser uma tarefa isolada da escola: deve constituir um compromisso das famílias, das instituições, dos meios de comunicação e, sobretudo, das autoridades públicas, cujas atitudes e palavras precisam estar à altura da responsabilidade que exercem. A passagem do tempo não diminuiu a importância de Nísia Floresta; pelo contrário, tornou ainda mais evidente a necessidade de recuperar seu pensamento e trazê-lo para o centro dos debates sobre o Brasil contemporâneo. Ela permanece como referência e inspiração porque sonhou com uma nação evoluída, sem desigualdades injustificáveis, na qual a dignidade humana não fosse privilégio de determinadas classes, mas um direito efetivo de todos. Refletir sobre Nísia Floresta é assumir que homenageá-la não significa apenas celebrar sua memória, mas dar continuidade às causas pelas quais ela pensou, escreveu e lutou. Seu legado nos convoca a defender a educação, combater a misoginia, enfrentar o feminicídio, rejeitar o preconceito e exigir das autoridades compromisso com a justiça, a ética e a civilidade. Se Nísia estivesse entre nós, não estaria indiferente às injustiças nem se refugiaria no silêncio diante dos ataques aos direitos humanos. Estaria, certamente, ao lado daqueles que trabalham para transformar a realidade e construir um Brasil em que a liberdade não seja privilégio, a igualdade não seja apenas promessa e a dignidade seja, verdadeiramente, um direito de todos. E talvez, diante daquele sol escaldante que nos acompanhou durante a homenagem, ela nos lembrasse que algumas presenças incomodam justamente porque iluminam aquilo que muitos prefeririam manter escondido. Que cada criança, cada jovem e cada educador leve consigo essa lição: sejamos como o sol; sejamos como Nísia Floresta. Tenhamos a coragem de incomodar sempre que o incômodo for necessário para que a justiça prevaleça, para que o respeito se imponha e para que um Brasil melhor deixe de ser apenas um sonho e se transforme em realidade.