ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

domingo, 2 de agosto de 2026

MAJOR MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORDEIRO PEIXOTO: HERÓI DA GUERRA DO PARAGUAI - O FILHO DO RIO GRANDE DO NORTE QUE ATRAVESSOU A HISTÓRIA DO BRASIL

Brasilianafotografica.bn.gov.br (Biblioteca Nacional) Imagem natural, sem efeito de IA

CINCO HEROIS DA FAMÍLIA PEIXOTO NA GUERRA DO PARAGUAI

A trajetória do Major Manoel Cornélio Cordeiro Peixoto e a redescoberta de uma família de combatentes.

Desde criança, ouço familiares contando superficialmente sobre parentes – da parte Peixoto, da minha mãe –, que foram heróis na guerra do Brasil contra o Paraguai. Nascido na divisa do país de Solano Lopes, onde residi até os 25 anos, minha infância e adolescência foram embaladas pelas mais curiosas histórias narradas por gente antiga daquele rincão sul-mato-grossense, inclusive grande parte das terras do Mato Grosso do Sul pertenceram ao Paraguai, fato que justifica a presença considerável de paraguaios em todo o estado, assim como velhos cemitérios onde foram enterrados os “guaranis”, as músicas e os costumes alimentares desses povos, como a famosa chipa, por exemplo.

Tendo chegado à idade adulta e já residindo no Rio Grande do Norte, passei a procurar parentes que até então conheciam apenas de nome. Por onde quer que fosse, quase todos mencionavam o “Major Peixoto”, mas sem maiores detalhes. À medida que ampliava esse círculo de contatos, fui reunindo pequenas informações que passaram a funcionar como um verdadeiro fio de Ariadne, guiando-me pelos caminhos da memória familiar e da documentação histórica. Aos poucos, anotando cada indício e percorrendo inúmeras fontes – inclusive genealógicas, favorecido pelo precioso hábito de alguns familiares de registrar tudo o que podiam –, deparei-me com a primeira referência ao Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, seu verdadeiro nome. A partir daí, como um arqueólogo, passei a escavar vestígios, reunir fragmentos e reconstituir a trajetória daquela figura praticamente desconhecida. Este estudo tomou forma a partir da conjugação de fontes primárias e secundárias, entre elas manuscritos preservados pela família Peixoto, periódicos da época, documentação genealógica, acervos da Biblioteca Nacional, registros oficiais e bibliografia histórica. Sempre que possível, buscou-se confrontar a tradição familiar com a documentação contemporânea aos acontecimentos. 

Revista A Semana/1940

LINHA DO TEMPO DO MAJOR MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORDEIRO PEIXOTO

13 de dezembro de 1864 – Início da Guerra do Paraguai, o maior conflito armado da história da América do Sul.

16 de setembro de 1841 – Nasce Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, na Fazenda Beldroega, atual município de Campo Grande (RN).

Janeiro de 1865 – O Governo Imperial cria os Corpos de Voluntários da Pátria, iniciando a mobilização nacional para a guerra.

1865 – Manoel Cornélio alista-se para servir ao Exército Brasileiro e parte do Rio Grande do Norte rumo ao teatro de operações da Guerra do Paraguai.

1865–1870 – Participa da campanha militar brasileira, integrando a geração de combatentes que enfrentou o maior conflito internacional do século XIX na América do Sul.

1º de março de 1870 – Com a morte de Francisco Solano López, encerra-se a Guerra do Paraguai.

17 de agosto de 1870 – Casa-se com Ignácia da Rocha Cordeiro, em São José de Mipibu (RN), iniciando uma nova etapa de sua vida familiar.

Década de 1870 – Constitui numerosa família e retoma a vida civil após o conflito.

Final do século XIX – Recebe do Presidente Prudente de Morais a patente honorífica de Major, em reconhecimento aos serviços prestados durante a Guerra do Paraguai.

1901 – Lidera a migração de famílias nordestinas para o Pará e inicia a colonização agrícola que daria origem ao núcleo de Santo Antônio do Tauá, sendo reconhecido pela tradição histórica local como seu fundador.

26 de junho de 1910 – É fotografado em uniforme militar no Pará, registrando em dedicatória manuscrita sua condição de "Major Veterano da Guerra do Paraguai", um dos mais importantes documentos iconográficos de sua trajetória.

1924 – Falece sua esposa, Ignácia da Rocha Cordeiro, companheira de mais de cinquenta anos de vida em comum.

Novembro de 1940 – Já centenário, é homenageado em Belém pelo Presidente Getúlio Vargas, durante visita oficial ao Pará. O encontro é registrado pela Revista da Semana e preservado no acervo da Biblioteca Nacional.

18 de novembro de 1945 – Falece em Soure (PA), aos 105 anos de idade, figurando entre os últimos veteranos brasileiros da Guerra do Paraguai.

Legado – Sua memória permanece preservada na história de Santo Antônio do Tauá, em documentos familiares, na imprensa da época, no acervo da Biblioteca Nacional e nas homenagens que perpetuam seu nome como veterano da Guerra do Paraguai e pioneiro da colonização amazônica.

Essa história sempre me entusiasmou, e foi exatamente por isso que, após vários anos de pesquisas, passo a contá-la – em primeira mão – linhas abaixo...

Revista A Semana/1940

O CHAMADO DA PÁTRIA: O CAMINHO DOS NORTE-RIO-GRANDENSES ATÉ A GUERRA DO PARAGUAI  

Quando o Império do Brasil declarou guerra ao Paraguai, no final de 1864, poucas províncias imaginavam a dimensão que o conflito alcançaria. O Exército Imperial possuía efetivos reduzidos para enfrentar uma campanha prolongada no sul do continente, razão pela qual o governo de D. Pedro II (2.12.1825-5.12.1991) decidiu ampliar rapidamente suas forças. Em 7 de janeiro de 1865 foi criado o Corpo de Voluntários da Pátria, iniciativa destinada a despertar o sentimento patriótico dos brasileiros e reunir milhares de homens para a defesa do Império.

A imagem mais famosa e emblemática de Dom Pedro II no contexto da Guerra do Paraguai foi registrada em 1865, quando o monarca viajou pessoalmente até o Rio Grande do Sul para acompanhar o Cerco de Uruguaiana.

Naquele tempo, o Brasil era administrado de forma bastante diferente da atual. As províncias não possuíam governadores eleitos, mas sim presidentes nomeados diretamente pelo Imperador. Os municípios, por sua vez, não tinham prefeitos; a administração local cabia às Câmaras Municipais, presididas por um de seus vereadores. No Rio Grande do Norte, o esforço de guerra foi conduzido pelo presidente da Província, Olinto José Meira (7.7.1829-9.10.1901) que recebeu do Ministério da Guerra a missão de organizar o recrutamento, preparar os contingentes militares e cumprir as quotas de homens estabelecidas pelo governo central.


Natal era então uma pequena cidade portuária de pouco mais de dez mil habitantes, concentrada principalmente nos bairros da Cidade Alta e da Ribeira. Suas ruas eram estreitas, muitas ainda sem calçamento, a iluminação pública era limitada, e a economia provincial girava em torno da pecuária, da produção açucareira, do algodão e do comércio marítimo. Apesar das modestas dimensões, a capital tornou-se o principal centro de mobilização militar da província. Era ali que chegavam homens provenientes do Seridó, do Agreste, do Oeste e do litoral para atender ao chamado da guerra.

31º Batalhão de Infantaria em forma. Fotografia registrada pelo fotógrafo paraense Flávio de Barros, em 1897. Museu da República, RJ.

A organização desse esforço envolvia diversas autoridades. Além do presidente da Província, atuavam juízes de paz, delegados, chefes políticos locais, oficiais da Guarda Nacional e os comandantes do Corpo Policial da Província, instituição que pode ser considerada a antecessora da atual Polícia Militar do Rio Grande do Norte. Destacaram-se nesse esforço os irmãos Fócio Joaquim do Rêgo Barros e Joaquim José do Rêgo Barros, comandantes do Corpo Policial da Província. Além de coordenarem a segurança e auxiliarem na organização do recrutamento e dos contingentes militares em Natal, ambos participaram ativamente da formação do 28º Batalhão de Voluntários da Pátria e seguiram para a campanha, tornando-se veteranos da Guerra do Paraguai.

Fócio Joaquim do Rêgo Barros e Joaquim José do Rêgo Barros, comandantes do Corpo Policial da Província

"Os Voluntários da Pátria Fócio Joaquim do Rêgo Barros e seu irmão Joaquim José do Rêgo Barros, ambos Comandantes do Corpo Policial da Província do Rio Grande do Norte, veteranos da Guerra do Paraguai, 1865.
No Rio Grande do Norte , o recrutamento foi feito pelo Presidente da Provincia Olinto Meira, grande batalhador pelo voluntariado na qual conseguiu relacionar nominalmente 800 potiguares integrantes do 28o Batalhão de Voluntários da Pátria. Segundo alguns autores , a província correspondeu plenamente à convocação de Olinto Meira no início do conflito, em Resposta a Invasão do Mato Grosso e do Rio Grande do Sul.
Cerca de 500 dos Voluntários da Pátria do Rio Grande do Norte morreram no Paraguai. Fonte: Subsídios para o estudo da história do Rio Grande do Norte - Página 77. Sérgio Luiz Bezerra Trindade

Inicialmente, o governo apostou no voluntariado. O discurso oficial apelava ao patriotismo, à honra e à defesa da Pátria. Aos que aceitassem "assentar praça" eram prometidas vantagens consideráveis para a época: gratificação inicial, soldo superior ao da tropa regular, assistência às famílias, preferência em empregos públicos e, após o término da guerra, a possibilidade de receber terras em colônias agrícolas ou militares, além de outras recompensas previstas pela legislação imperial. Essas promessas foram amplamente divulgadas pelas autoridades provinciais, por proclamações públicas e pela imprensa.

Entretanto, o entusiasmo inicial mostrou-se insuficiente para suprir as necessidades do Exército. À medida que a guerra se prolongava e aumentavam as notícias sobre as dificuldades enfrentadas pelos soldados, o número de voluntários diminuiu sensivelmente. O governo passou então a recorrer ao recrutamento obrigatório, medida que despertava profundo receio entre as camadas populares. Delegados, juízes de paz e oficiais da Guarda Nacional receberam a incumbência de localizar homens aptos ao serviço militar, sobretudo aqueles considerados desocupados ou sem ocupação definida. Em diversas localidades, o recrutamento compulsório ficou conhecido como "a corda", expressão popular que fazia referência à condução coercitiva de recrutas até a capital.

Também escravizados participaram do esforço de guerra. Alguns foram enviados por seus proprietários mediante promessa de indenização ou de concessão de alforria pelo governo imperial, enquanto outros conquistaram a liberdade justamente em razão do serviço militar. Essa realidade evidencia que a mobilização para a guerra alcançou praticamente todos os segmentos da sociedade brasileira.

O processo de apresentação dos recrutas ocorria principalmente no Quartel do Corpo Policial e na sede da Presidência da Província. Ali eram realizados os primeiros registros, inspeções e preparativos para o embarque. Durante semanas, Natal viveu uma atmosfera incomum. Famílias chegavam do interior acompanhando filhos, irmãos ou maridos; comerciantes abasteciam os quartéis; autoridades promoviam solenidades patrióticas; bandas de música executavam dobrados militares; sacerdotes celebravam missas pedindo proteção aos combatentes, enquanto a população dividia-se entre o orgulho patriótico e a angústia da separação.

A partida dos contingentes tornou-se um dos acontecimentos mais marcantes da história oitocentista da cidade. Em 9 de junho de 1865, um dos primeiros grandes grupos de voluntários embarcou no porto da Ribeira, junto ao cais da Alfândega, seguindo inicialmente no vapor Jaguaribe. O embarque foi acompanhado por expressiva manifestação popular, discursos oficiais, bênçãos religiosas, música e emocionadas despedidas. Muitos familiares tinham plena consciência de que talvez nunca mais voltassem a rever aqueles jovens.

A historiografia potiguar registra esse episódio de maneira relativamente uniforme, embora apresente algumas divergências documentais. O historiador Adauto Miranda Raposo Câmara, em O Rio Grande do Norte na Guerra do Paraguai (1951), informa que o primeiro grande contingente era composto por cerca de 463 homens, distribuídos em quatro companhias, e atribui seu comando ao tenente-coronel da Guarda Nacional José da Costa Vilar. Luís da Câmara Cascudo também faz referência a esse oficial ao abordar a mobilização potiguar. Todavia, pesquisas documentais mais recentes ainda não localizaram documentação oficial suficiente para confirmar plenamente essa informação, motivo pelo qual ela deve ser compreendida como parte da tradição historiográfica construída pelos principais estudiosos do tema.

Depois do embarque, a longa viagem estava apenas começando. Os navios faziam escalas em portos importantes, especialmente Recife e a Corte, no Rio de Janeiro. Somente na capital do Império os soldados recebiam instrução militar mais completa, armamento padronizado - incluindo os modernos fuzis Minié -, novos uniformes e a organização definitiva das unidades que seguiriam para o sul. Dali partiam novamente para a região da Bacia do Prata, desembarcando em bases militares da Tríplice Aliança, de onde iniciavam as longas marchas rumo ao território paraguaio.

Para muitos norte-rio-grandenses, era a primeira vez que deixavam sua província. Agricultores, vaqueiros, pequenos comerciantes, artesãos e trabalhadores urbanos passaram a conviver com uma rígida disciplina militar, viagens de semanas pelo mar, marchas exaustivas, clima rigoroso e condições sanitárias extremamente precárias. A guerra revelou-se muito mais cruel do que imaginavam. Além dos combates, epidemias de cólera, varíola, malária e disenteria devastaram os acampamentos militares, provocando um número de mortes frequentemente superior ao das próprias batalhas.

Os estudos mais recentes indicam que aproximadamente 2.197 norte-rio-grandenses participaram da campanha ao longo dos cinco anos de guerra, embora os números variem entre os diferentes autores em razão dos critérios utilizados para contabilizar voluntários, guardas nacionais recrutas e substitutos. Independentemente das divergências estatísticas, há consenso de que o esforço militar representou enorme sacrifício para uma província de população reduzida e recursos limitados.

Quando a guerra terminou, em 1870, os sobreviventes regressaram a Natal em clima de celebração. O desembarque foi recebido por autoridades, bandas de música e numerosos familiares. Contudo, a vitória militar não apagava os sofrimentos vividos. Muitos retornavam debilitados fisicamente, marcados pelas lembranças dos combates e pela perda de companheiros. Outros encontravam suas famílias profundamente transformadas pelas dificuldades econômicas e pelos anos de separação.

Foi nesse contexto histórico que Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto deixou o Rio Grande do Norte para servir ao Império. Sua trajetória não constitui um episódio isolado, mas integra a experiência de uma geração de norte-rio-grandenses que respondeu ao chamado da Pátria em um dos momentos mais decisivos da história brasileira. Décadas depois, ao ser reconhecido como Major Veterano da Guerra do Paraguai, sua patente passou a simbolizar não apenas o mérito militar individual, mas também a memória coletiva daqueles homens que partiram do porto de Natal rumo ao desconhecido, levando consigo as esperanças de suas famílias e o compromisso de servir ao Brasil.

Nota histórica

A identificação do tenente-coronel da Guarda Nacional José da Costa Vilar como comandante do primeiro contingente de voluntários norte-rio-grandenses que embarcou para a Guerra do Paraguai, em 9 de junho de 1865, encontra-se na historiografia clássica potiguar, especialmente em Adauto Miranda Raposo Câmara, O Rio Grande do Norte na Guerra do Paraguai (Natal: Departamento de Imprensa, 1951), sendo também reproduzida por Luís da Câmara Cascudoem seus estudos sobre a história do Rio Grande do Norte e da cidade do Natal. Entretanto, até o presente momento, a documentação oficial do Império consultada - como relatórios ministeriais, relatórios dos presidentes da Província e registros militares disponíveis - não permite confirmar de forma inequívoca essa atribuição. Em razão disso, a presente obra registra a informação como integrante da tradição historiogr´fica potiguar, respeitando o testemunho dos autores clássicos, mas reconhecendo que a questão ainda demanda confirmação documental mais conclusiva.

OS PAIS DO MAJOR MANOEL PEIXOTO:

Manoel Thomaz Peixoto nasceu em 1798 e faleceu em 1869. Casou-se com Claudina Maria Manuela de Castro, que também faleceu em 1869. Embora a data e o local do casamento ainda não tenham sido localizados na documentação consultada, o casal constituiu uma numerosa família, cujos filhos aparecem registrados em diferentes fontes genealógicas e documentais do século XIX. São conhecidos os seguintes filhos do casal:

- Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), militar, cuja trajetória será abordada em tópico próprio.

- Joaquim, nascido em 1834, falecido em data ainda não determinada.

- Thomaz Lourenço Barboza Cordeiro (1839–?), integrante da família Barboza Cordeiro.

- Antônio, nascido em 1840, falecido em data desconhecida.

- Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto (1840–1945), destacado oficial da Guarda Nacional e personagem central deste estudo.

- Vicente Peixoto (1845–?), sobre o qual ainda são escassas as informações documentais.

- Francisco, nascido e falecido em 1849, provavelmente ainda na infância.

- Francisco, nascido em 1851, possivelmente recebeu o mesmo prenome em homenagem ao irmão falecido, prática comum nas famílias brasileiras do século XIX.

- Paulino Virgílio Barbosa Cordeiro (1853–?), cuja descendência e atuação ainda demandam investigação.

- Joaquina Petronilla Martins de Castro, única filha identificada entre os irmãos até o momento.

A composição da família revela características típicas das elites rurais e militares do interior nordestino oitocentista. Observa-se a recorrência dos sobrenomes Peixoto, Barboza Cordeiro, Martins de Castro e Magalhães Fontoura, evidenciando a estratégia de preservação dos vínculos familiares por meio da transmissão dos apelidos de linhagem. Da mesma forma, a repetição do prenome Francisco após o falecimento do primeiro filho com esse nome ilustra um costume bastante difundido no Brasil imperial.

Entre os descendentes, destaca-se especialmente o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, cuja carreira militar, atuação política e importância para a história regional justificam o aprofundamento realizado neste estudo. Também merece relevo o Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura, cuja longa vida (1829–1913) atravessou o Segundo Reinado e os primeiros anos da República, representando outro importante ramo da família.

ORIGENS

Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto nasceu na fazenda Beldroega, Campo Grande, Rio Grande do Norte, no dia 16 de setembro de 1841 e faleceu no dia 18 de novembro de 1945, em Souré, no Pará, veterano da Guerra do Paraguai, pioneiro da colonização paraense e um dos últimos remanescentes vivos em 1940, quando contava cem anos de idade e teve um célebre encontro com o presidente Getúlio Vargas. Sua longevidade permitiu-lhe atravessar dois regimes políticos – o Império e a República –, testemunhar profundas transformações nacionais e, já centenário, receber em Belém do Pará uma das maiores homenagens que um cidadão poderia desejar: o reconhecimento público da Presidência da República.

Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto era filho de Manoel Thomas Peixoto (1798–1869), um dos cinco filhos de Manoel Geril Peixoto e Francisca Maria da Conceição. Entre os irmãos de Manoel Thomas destaca-se Jeronymo José Correia Peixoto (2.2.1799–9.1.1871), tio paterno do Major, personagem de grande relevância na formação de um dos mais numerosos ramos da família Peixoto no Rio Grande do Norte.

Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto em trajes e paramentos oficiais usados durante a Guerra do Paraguai

Jeronymo José Correia Peixoto constituiu numerosa família com Joana Baptista Martins da Silva (1801–1895). Dessa união nasceram treze filhos conhecidos:

Josefa (1824–1910).

-  Maria Manuela de Castro Silva (1830–?), cuja descendência ainda necessita de investigação documental.

Francisco Félix Barbosa Cordeiro (1832–1911), representante do ramo Barbosa Cordeiro.

Luísa Maria Ribeiro (1832–?).

Padre Amaro Theot Castor Brasil (1833–1906), sacerdote cuja atuação eclesiástica lhe conferiu destaque na região.

Manoel Martins Correia e Castro (1836–1909), integrante de um dos principais ramos familiares da época.

João Jerônimo Martins da Silva (1839–?), sobre o qual ainda são escassas as informações disponíveis.

Alferes Antonio Martins Correia Peixoto (1841–1916), militar da Guarda Nacional, dando continuidade à tradição castrense da família.

Tenente José Lucas Barbosa (1843–1914), igualmente vinculado à carreira militar.

José Correia Peixoto (1843–?), provavelmente irmão gêmeo ou nascido no mesmo ano de José Lucas.

José (1848–?), possivelmente recebeu esse prenome em memória do irmão homônimo, conforme costume recorrente nas famílias brasileiras oitocentistas.

Benedito da Silva Peixoto (1866–1953). Nasceu em Campo Grande, RN, e faleceu no mesmo município no dia 31 de maio de 1953, o filho mais jovem conhecido do casal, cuja longa vida alcançou a metade do século XX. Casou-se com Joaquina Maria da Conceição, cuja data de nascimento ainda não foi localizada nas fontes consultadas, sabendo-se apenas que faleceu em data ainda desconhecida. Constituíram uma numerosa família, cuja descendência se espalhou por diferentes localidades do Rio Grande do Norte ao longo do século XX, contribuindo para a continuidade e expansão do sobrenome Peixoto. Até o momento, foram identificados os seguintes filhos:

- Manoel da Silva Peixoto (1890–?), falecido em data ainda não determinada.

- Joaquim da Silva Peixoto (1890–1985), possivelmente irmão gêmeo ou nascido no mesmo ano de Manoel.

- Maria Ramona Peixoto Xavier (1893–1974), cujo casamento levou à incorporação do sobrenome Xavier, ampliando as alianças familiares.

- Maria Egígdia Peixoto (1894–1981).

- Antonio Hilário Peixoto (1896–1986).

- Vicente da Silva Peixoto (1901–2003), cuja notável longevidade lhe permitiu atravessar três séculos cronológicos, testemunhando profundas transformações da sociedade brasileira.

- Benedito Peixoto Filho (1902–1999), que recebeu o prenome do pai, preservando uma tradição familiar recorrente.

- Amélia da Silva Jácome (1904–2006), cujo sobrenome evidencia sua posterior ligação com a tradicional família Jácome.

- Francisco de Paula Peixoto (1910–1978).

- Jardelina Peixoto da Silva (1911–1988).

- Maria Rocha da Conceição (1912–2003).

- Francisca de Paula Peixoto, cujas datas de nascimento e falecimento ainda permanecem desconhecidas.

A composição dessa numerosa descendência demonstra a continuidade da tradição familiar característica dos Correia Peixoto, marcada por famílias extensas e pela preservação dos sobrenomes de linhagem. Observa-se a permanência dos apelidos Peixoto, Silva e Conceição, bem como a incorporação de sobrenomes como Xavier e Jácome, refletindo novas alianças familiares estabelecidas nas primeiras décadas do século XX.

Alguns aspectos merecem destaque sob o ponto de vista genealógico. O nascimento de Manoel da Silva Peixoto e Joaquim da Silva Peixoto, ambos em 1890, pode indicar irmãos gêmeos ou simplesmente filhos nascidos no mesmo ano. Da mesma forma, a presença de Benedito Peixoto Filho revela a prática tradicional de perpetuar o prenome paterno entre os descendentes, costume amplamente observado nas famílias brasileiras do período.

Também chama atenção a extraordinária longevidade de alguns membros da família. Vicente da Silva Peixoto viveu aproximadamente 102 anos, enquanto sua irmã Amélia da Silva Jácome alcançou cerca de 102 anos, circunstância pouco comum para a época e que permitiu a ambos presenciarem importantes acontecimentos da história nacional, desde os últimos anos da Primeira República até o início do século XXI.

A descendência de Benedito da Silva Peixoto representa um dos ramos mais numerosos conhecidos entre os filhos de Jeronymo José Correia Peixoto, contribuindo decisivamente para a difusão da família Peixoto por outras regiões do Rio Grande do Norte. A permanência de seus descendentes ao longo de todo o século XX evidencia a continuidade de uma linhagem que preservou seus vínculos familiares e sua identidade histórica por diversas gerações.

Apesar do significativo conjunto de informações já identificado, permanecem lacunas documentais relativas ao casamento de Benedito da Silva Peixoto e Joaquina Maria da Conceição, às datas vitais de alguns filhos e às respectivas descendências. 

Pedro, falecido em data ainda não identificada.

Jeronymo José Correia Peixoto

Todos esses filhos de Jeronymo José Correia Peixoto eram primos em primeiro grau do Major Manoel Peixoto, por serem descendentes do mesmo casal ancestral, Manoel Geril Peixoto e Francisca Maria da Conceição. Integravam um mesmo tronco familiar estabelecido no interior do Rio Grande do Norte, do qual se originaram diversos militares, religiosos, administradores públicos e homens de projeção política, cuja atuação ultrapassou os limites da província e alcançou destaque em âmbito nacional no século XIX. Entre os cinco filhos de Manoel Geril Peixoto e Francisca Maria da Conceição, dois ramos destacaram-se de forma especial: o de Manoel Thomas Peixoto, do qual descendeu o Major Manoel Peixoto, e o de Jeronymo José Correia Peixoto, cujos numerosos descendentes constituíram os primos paternos do Major.

Ao abordar essa linhagem, permito-me registrar também minha própria vinculação familiar com ela. Manoel Thomaz Peixoto (1798–1869), irmão de Jeronymo José Correia Peixoto (1799–1871), é meu trisavô, circunstância que me torna descendente direto desse importante tronco da família Peixoto estabelecido no interior do Rio Grande do Norte. Pela linha materna, minha ascendência passa por meu trisavô, o Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), filho de Manoel Thomaz Peixoto e de Claudina Maria Manuela de Castro, casado com Maria Jucunda Belmiro (1836–?). Deste casal nasceu Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950), minha bisavó, casada com Abel Gomes Peixoto (1852–1946), avó materna de Maria José Peixoto Freire, minha mãe.

Dessa mesma ascendência provém o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto (1841–1945), irmão do Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura e personagem central deste estudo, de quem sou parente por descendência do mesmo tronco familiar. Igualmente pertencem a essa ampla linhagem os descendentes de Jeronymo José Correia Peixoto, entre os quais se destacam o Alferes Antonio Martins Correia Peixoto e o Tenente José Lucas Barbosa, oficiais que participaram da Guerra do Paraguai e cuja trajetória integra o conjunto de famílias que prestaram relevantes serviços militares ao Império do Brasil.

A linhagem materna também estabelece vínculos com outra tradicional família norte-rio-grandense. A ascendência de Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto, minha bisavó, remonta a Anna Francisca Ferreira da Silva (1793–1885), filha de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), casada com seu primo Félix Ferreira da Silva (1755–1814). Francisca Clara Freire do Revoredo era tia da educadora, escritora e patrona da educação feminina brasileira Nísia Floresta Brasileira Augusta, inserindo a família em um contexto mais amplo da formação intelectual, política e social do Rio Grande do Norte.

Essa referência não possui caráter meramente biográfico. Ao contrário, contribui para situar o lugar de onde parte esta pesquisa, construída a partir da convergência entre a documentação histórica, as fontes genealógicas e a memória familiar. Os vínculos aqui apresentados evidenciam o entrelaçamento de diferentes famílias - Peixoto, Magalhães Fontoura, Ferreira da Silva, Freire do Revoredo, Belmiro e Castro - que desempenharam papel relevante na formação histórica, militar e social do Rio Grande do Norte ao longo do século XIX, conferindo a este estudo uma dimensão simultaneamente científica e memorialística.

Ignácia da Rocha Cordeiro, esposa do Major Manoel Peixoto, falecida em 1924. 

O ALICERCE DA JORNADA: O MATRIMÔNIO COM IGNÁCIA DA ROCHA CORDEIRO E A RECONSTRUÇÃO DE UMA TRAJETÓRIA PÓS-GUERRA 

Após o término da Guerra do Paraguai, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto contraiu matrimônio com Ignácia da Rocha Cordeiro, em 17 de agosto de 1870, na então Vila de São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte. O casal constituiu numerosa família, sendo Ignácia companheira do Major ao longo de mais de cinco décadas de vida em comum. Ela faleceu em 1924, cerca de vinte anos antes do marido. Ao analisar a biografia do Major Manoel Cornélio, a historiografia militar e regional frequentemente converge seu foco para os campos de batalha da Guerra do Paraguai ou para a posterior fundação do município de Santo Antônio do Tauá, no Pará. Contudo, uma leitura aprofundada das fontes documentais revela que a verdadeira ancoragem para a reestruturação da vida do oficial - recém-egresso dos traumas do maior conflito armado da América do Sul, em março de 1870 - não se deu nas repartições do Exército, mas sim no âmbito privado, tendo como figura central sua esposa, Ignácia da Rocha Cordeiro. O exame detido sobre a trajetória de Dona Ignácia permite descortinar o papel fundamental das mulheres na retaguarda e na consolidação das elites familiares e municipais no Brasil da transição entre os séculos XIX e XX. São José de Mipibu destacava-se como um polo de opulência e efervescência impulsionado pelos engenhos de açúcar. Naquele exato período, a Província do Rio Grande do Norte encontrava-se sob a presidência do Dr. Jerônimo Cabral Raposo da Câmara, e o ambiente local aglutinava o alívio social decorrente do fim da guerra às intensas articulações políticas e econômicas das elites agrárias. A cerimônia nupcial, realizada na imponente Igreja Matriz de Santana e São Joaquim -- monumento arquitetônico que dominava a paisagem urbana da vila -, representou o marco inicial de uma união de mais de meio século. As bênçãos sagradas daquele matrimônio foram conduzidas sob a liderança espiritual do respeitado Padre Gregório Ferreira Lustosa, vigário colado que geria a paróquia naquela década. Diante daquele altar, sob o testemunho da sociedade mipibuense, Dona Ignácia assumia um papel que transcendia os limites do ambiente doméstico daépoca, convertendo-se no alicerce de estabilidade psicológica e social necessário para que o egresso da campanha militar pudesse redefinir seus horizontes civis. Ao longo desse duradouro ciclo de convivência, a resiliência de Dona Ignácia evidenciou-se também no apoio irrestrito à arrojada decisão de migrar rumo à Amazônia. Na complexa transição geográfica e cultural que culminaria na colonização e posterior fundação de Santo Antônio do Tauá por volta de 1901, a liderança velada e a capacidade de gestão familiar de Ignácia foram determinantes para a coesão do clã e para a adaptação em uma nova e vasta fronteira territorial.O falecimento de Dona Ignácia da Rocha Cordeiro, ocorrendo cerca de duas d´cadas antes do passamento de seu esposo, encerrou um longo ciclo de mútua cooperação e companheirismo. Longe de ser uma personagem secundária - mas ao lado, como uma mulher forte e altiva -, ela emerge como a força motriz e o esteio afetivo que viabilizou os feitos públicos do Major Manoel Cornélio, consolidando-se como figura indispensável na genealogia de desbravadores que articularam a história entre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Do casamento do Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto com Ignácia da Rocha Cordeiro nasceram os seguintes filhos: 

- Maria (nascida em 1872), 

- Francisca (1876), 

- Maria Barbosa Cordeiro (1880–1966), 

- Cordeiro Peixoto, Francisca Xavier Barbosa

- José Barbosa Cordeiro

- José Leocádio Barbosa Cordeiro

- Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto (mesmo nome do pai)

- Maria Amélia Fontoura e Maria Cornélio Barbosa Cordeiro.

Cenário real de São José de Mipibu nos tempos do Major Manoel Peixoto. (Fotografia do intelectual Mario de Andrade - 1929)

A FAMÍLIA PEIXOTO E A FORMAÇÃO DE PARAÚ

A presença da família Peixoto no agreste potiguar não se restringiu à tradição militar que a projetou durante a Guerra do Paraguai. Seus membros também exerceram papel relevante na ocupação do território, na formação das comunidades locais e na consolidação da vida religiosa da região onde mais tarde se desenvolveria o atual município de ParaÚ, no Rio Grande do Norte.

Segundo a história oficial do município, a antiga Fazenda Beldroega, um dos primeiros marcos do povoamento local, passou, ao longo do século XIX, a integrar o patrimônio de Jerônimo José Correia Peixoto, pai do Padre Amaro Theot Castor Brasil e tio do Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto. Foi nesse ambiente familiar que se formou uma geração de homens que se destacaria tanto na vida pública quanto no serviço prestado ao país.

Ao registrar a participação dos filhos de Jerônimo José Correia Peixoto na Guerra do Paraguai, a própria história oficial de Paraú destaca que combateram no conflito o Padre Amaro Theot Castor Brasil, os oficiais Manoel Martins Correia e Castro, Antônio Martins Correia Peixoto, José Lucas Barbosa e seu primo, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto. O reconhecimento desses nomes pela memória oficial do município reforça a expressiva contribuição desse núcleo familiar à campanha militar travada entre 1865 e 1870.

A influência da família estendeu-se igualmente ao campo religioso. De acordo com a tradição preservada em Paraú, Dona Joana Baptista Martins da Silva, esposa de Jerônimo José Correia Peixoto e mãe do Padre Amaro, fez a promessa de construir uma capela caso o filho retornasse com vida da Guerra do Paraguai. Embora o sacerdote tenha sobrevivido ao conflito, suas sucessivas transferências impediram a concretização desse projeto. Antes de deixar a região, entretanto, doou terras para o patrimônio religioso local e incentivou a construção de uma capela dedicada ao Divino Espírito Santo, chegando a formalizar essa doação em documento escrito de próprio punho, no ano de 1898.

Ainda segundo a tradição local, antes de seguir para o Amazonas, onde exerceria seu ministério, Padre Amaro deixou à comunidade uma imagem de madeira representando o Divino Espírito Santo. Poucos anos depois, o comerciante Luiz Gondim, estabelecido na antiga Fazenda Espírito Santo, assumiu a continuidade desse ideal, promovendo a construção da primeira capela dedicada ao padroeiro, inaugurada em 1912. O templo tornou-se o núcleo da vida religiosa da comunidade e deu origem à devoção que permanece até hoje como uma das principais manifestações culturais e religiosas do município.

Esses registros demonstram que a atuação da família Peixoto ultrapassou os campos de batalha. Enquanto alguns de seus membros se distinguiam na defesa da Pátria durante a Guerra do Paraguai, outros contribuíam decisivamente para a organização social, religiosa e comunitária do interior potiguar. A memória preservada em Paraú evidencia que o legado dessa família permaneceu associado não apenas ao serviço militar, mas também à formação das instituições e da identidade histórica da região.

CINCO PEIXOTO E UMA GUERRA

Relíquias de um conflito do século XIX: 15 raras fotografias da Guerra do Paraguai

A História do Brasil é construída não apenas pelos grandes estadistas que ocuparam os mais altos cargos da República ou pelas mais altas figuras cujos nomes figuram nos livros escolares. Ela também repousa sobre os ombros de homens cuja existência, embora menos conhecida do grande público, foi decisiva para a consolidação da nacionalidade brasileira. Muitos deles viveram longe dos centros de poder, serviram à Pátria com desprendimento e deixaram um legado que o tempo, por vezes, tratou de obscurecer. Felizmente, a pesquisa histórica e genealógica tem o mérito de devolver esses personagens ao lugar de honra que lhes pertence.
Fotografia de combatentes da Guerra do Paraguai. O terceiro sentado da esquerda para a direita, é o Coronel Joca Tavares e seus auxiliares imediatos, incluindo José Francisco Lacerda, mais conhecido como “Chico Diabo” (terceiro em pé, da esquerda para a direita), que matou o ditador paraguaio Solano Lopez. Imagem: Wikipedia, Domínio Público. In: Salles, Ricardo. Guerra do Paraguai: memórias & imagens. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2003. ISBN 85-333-0264-9 (p.180) Relíquias de um conflito do século XIX: 15 raras fotografias da Guerra do Paraguai

A distância temporal faz com que episódios de grande repercussão nacional, como a Guerra do Paraguai, sejam frequentemente lembrados de forma genérica pela memória coletiva e até mesmo pela historiografia, enquanto muitos daqueles que efetivamente combateram no teatro de operações acabam relegados ao esquecimento. Foi o que ocorreu com o Major Manoel Peixoto e outros quatro de seus familiares, heróis da Guerra do Paraguai, cuja lembrança foi sendo gradualmente apagada pelo tempo, sobrevivendo apenas entre alguns descendentes que preservaram as narrativas transmitidas pelos mais velhos ou tiveram o cuidado de registrá-las por escrito.
Oficiais brasileiros nos momentos finais da Guerra do Paraguai, entre eles está o Conde d´Eu (com a mão na cintura), 1870. Relíquias de um conflito do século XIX: 15 raras fotografias da Guerra do Paraguai

A tradição militar da família Peixoto manifestou-se de maneira particularmente expressiva durante a Guerra do Paraguai (1864–1870). O Major Manoel Peixoto não combateu isoladamente na guerra contra o Paraguai. Ao seu lado encontravam-se diversos parentes próximos, pertencentes ao ramo de seu tio paterno Jeronymo José Correia Peixoto (1799–1871), irmão de seu pai, Manoel Thomaz Peixoto (1798–1869). Assim, além de sobrinho de Jeronymo, o Major Cornélio combateu ao lado de seus primos em primeiro grau, formando um notável núcleo familiar que colocou vários de seus membros a serviço do Exército brasileiro durante um dos mais importantes conflitos da história nacional.

Padre Amaro Theot Castor Brasil, filho de  Jeronymo José Correia Peixoto

Entre esses primos que também estiveram no front, destacava-se o Padre Amaro Theot Castor Brasil (1833–1906), que, embora sacerdote, alistou-se voluntariamente para acompanhar as tropas brasileiras. Ordenado em Olinda, em 1862, ingressou na campanha militar três anos depois, juntamente com seus irmãos. Seu comportamento em combate revelou-se digno de especial reconhecimento, sobretudo na ação de Potrero-Oveja, em 1867, quando foi citado na Ordem do Dia nº 152, do Marquês de Caxias, recebendo honrosa condecoração por bravura. Encerrada a guerra, retomou sua missão religiosa, exercendo importantes vicariatos em Nova Friburgo, Ceará-Mirim, Caicó, Campo Grande e, posteriormente, em Maués, no Amazonas. Recebeu ainda as comendas das Ordens de Cristo e da Rosa, além do título de Capitão Honorário do Exército, falecendo em Manaus, em 1906. Curiosamente, adotou o sobrenome "Brasil", cuja origem permanece sem explicação documental, porém na família há também mulheres com o sobrenome adotado de “Brasileira”. Considerando o contexto da época, não se pode descartar que tenha se tratado de um pseudônimo inspirado pelo sentimento patriótico, prática relativamente comum entre intelectuais e homens públicos do século XIX.

 Capitão Manoel Martins Correia e Castro, , filho de  Jeronymo José Correia Peixoto

Também integrava esse grupo familiar o Capitão Manoel Martins Correia e Castro (1836–1909), filho de Jeronymo José Correia Peixoto e Joana Baptista Martins da Silva e, portanto, primo em primeiro grau do Major Cornélio. Casou-se com Maria Cândida Ribeiro e Castro, nascida em 1851 e falecida em 1903, união da qual descendem:

- Eufrásia Martins Correia Castro, nascida em 1871, falecida em data ainda não determinada.

- Libânia Martins Correia e Castro, nascida em 1878, igualmente sem data de falecimento confirmada.

- Francisco, nascido em 1883, falecido em data desconhecida.

- Francisco de Paula Correia e Castro (1890–1956), que perpetuou o ramo familiar ao longo da primeira metade do século XX.

- Cândido, cujos registros conhecidos ainda não permitem estabelecer suas datas de nascimento e falecimento.

- Eleocádia, sobre a qual permanecem escassas as informações documentais.

- Lauriano, também identificado apenas nominalmente nas fontes atualmente consultadas.

- Miguel, cuja trajetória ainda aguarda confirmação por meio de documentação complementar.

A composição da família evidencia a continuidade das alianças entre os sobrenomes Correia, Ribeiro e Castro, característica recorrente entre as famílias de maior projeção social do sertão e do agreste norte-rio-grandense durante o período imperial. A manutenção desses apelidos nos descendentes demonstra a preocupação em preservar a identidade das linhagens e os vínculos estabelecidos entre famílias aparentadas.

Observa-se, igualmente, a repetição do prenome Francisco entre dois filhos, um nascido em 1883 e outro em 1890. Tal circunstância sugere que o primeiro tenha falecido ainda na infância ou juventude, motivando a atribuição do mesmo nome ao irmão mais novo, prática amplamente difundida na cultura familiar brasileira dos séculos XVIII e XIX. Essa hipótese, entretanto, dependerá da localização dos respectivos registros paroquiais de batismo e óbito.

Alferes Antonio Martins Correia Peixoto, filho de  Jeronymo José Correia Peixoto
 

Ao seu lado serviu igualmente o Alferes Antonio Martins Correia Peixoto (1841–1916), nascido no mesmo ano que o Major Manoel Peixoto e igualmente seu primo em primeiro grau. Ambos pertenciam à mesma geração e participaram da guerra em defesa do Império, perpetuando a vocação castrense herdada de seus ascendentes.

Maria Cândida Ribeiro e Castro, esposa do Alferes Antonio Martins Correia Peixoto

Outro combatente foi o Tenente José Lucas Barbosa (1843–18.9.1914), igualmente filho de Jeronymo José Correia Peixoto e Joana Baptista Martins da Silva e, portanto, primo em primeiro grau do Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto. À primeira vista, a ausência dos sobrenomes "Correia Peixoto" e "Martins" poderia levar o leitor a supor tratar-se de pessoa pertencente a outro núcleo familiar. Entretanto, a documentação genealógica consultada não deixa dúvidas quanto à sua filiação, confirmando que José Lucas integrava o mesmo tronco familiar dos Peixoto. 

Tenente José Lucas Barbosa

O emprego do sobrenome "Barbosa", também presente no nome do Major Manoel Peixoto, revela a complexidade dos padrões de composição dos nomes no século XIX, quando a adoção, a supressão ou a substituição de sobrenomes seguia critérios que nem sempre correspondem aos modelos atuais. Mas não há qualquer dúvida documental de que ambos pertenciam à mesma família, sendo filhos e netos dos mesmos ramos genealógicos já apresentados, inclusive citados em documentos e em determinadas plataformas, tendo em vista alguma relação com determinados fatos no Rio Grande do Norte.

O Tenente José Lucas Barbosa, oficial da Guarda Nacional, casou-se com Maria Saldanha Veras (6.3.1868-19.3.1954) em Campo Grande, no Rio Grande do Norte, falecida em Mossoró, Rio Grande do Norte, onde provavelmente viveu seus últimos anos e consolidou a presença da família na região Oeste do estado. Embora ainda não tenha sido localizado o registro do casamento, a união entre José Lucas Barbosa e Maria Saldanha Veras fortaleceu os vínculos entre as famílias Barbosa, Veras e Saldanha, sobrenomes de reconhecida presença na história regional. Dessa união foram identificados, até o momento, dois filhos:

Silvestre Veras Barbosa (1910–1985), responsável pela continuidade conhecida desse ramo familiar ao longo do século XX.

Eugênia Veras Barbosa, nascida em 1912, cuja data de falecimento ainda não foi localizada na documentação atualmente disponível.

A descendência do casal foi relativamente reduzida quando comparada à de outros ramos da família Correia Peixoto. Chama atenção, entretanto, esse dado: José Lucas Barbosa nasceu em 1843, enquanto sua esposa nasceu vinte e cinco anos depois, em 1868, e os filhos vieram ao mundo apenas nas primeiras décadas do século XX, quando o pai contava aproximadamente 67 e 69 anos de idade, tendo falecido aos 71 anos, deixando um filho de quatro anos e uma de doi anos. Esse é um aparente caso de casamento entre uma pessoa idosa e outra jovem e que, por razões desconhecidas, os filhos nasceram no final da união matrimonial.

A escolha do sobrenome Veras Barbosa para ambos os filhos demonstra a preservação da tradição familiar de transmitir os apelidos maternos e paternos, prática característica das famílias de maior projeção social do Rio Grande do Norte durante os séculos XIX e XX. A permanência desses sobrenomes permite acompanhar a continuidade da linhagem e suas conexões com outros grupos familiares da região de Mossoró e do Médio Oeste potiguar. Embora a descendência conhecida seja numericamente pequena, o Tenente José Lucas Barbosa representa a continuidade da tradição militar iniciada por gerações anteriores da família Correia Peixoto, ao lado de oficiais como o Alferes Antonio Martins Correia Peixoto e o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto

Antiga mala para pertencente ao Tenente José Lucas Barbosa, oficial da Guarda Nacional. Encontra-se no Museu de Paraú, RN, dentre outros objetos que pertenceram aos cinco herois da Guerra do Paraguai

A presença simultânea do Major Manoel Peixoto e de seus quatro primos na Guerra do Paraguai constitui um fato de notável significado histórico. Poucas famílias potiguares tiveram tantos representantes participando do mesmo conflito, em diferentes postos e funções, militares e religiosas. Esse expressivo contingente familiar evidencia não apenas o forte espírito de serviço público cultivado pelos Peixoto, mas também sua efetiva contribuição para a defesa do Brasil durante um dos episódios mais marcantes da história do Segundo Reinado.
Nesse print do Museu de Paraú vê-se as fotografias, ao fundo, do lado esquerso, o Tenente José Lucas Barbosa, oficial da Guarda Nacional e, à direita, seu irmão Alferes Antonio Martins Correia Peixoto, filhos de  Jeronymo José Correia Peixoto, pioneiro do município. OBS. As pessoas da fotografia são turistas visitando o local. Não os conheço.
 
Reduzir a trajetória do Major Manoel Peixoto ao célebre encontro com Getúlio Vargas – como veremos mais detalhadamente adiante – seria fazer injustiça à dimensão de seu legado. Ele representava muito mais do que um veterano ilustre. Era a expressão de uma geração extraordinária de brasileiros que colocou o dever acima dos interesses pessoais e compreendeu, ainda muito jovem, que a integridade territorial do país exigia coragem, sacrifício e espírito patriótico.



Print de uma página de parentes de Belém, no Pará, que não desconheço, no qual se vê pessoas solicitando informações sobre o major Manoel Peixoto

Sob a perspectiva do século XXI, percebe-se que o Governo Federal reconheceu o valor simbólico de uma personalidade amplamente respeitada, conferindo-lhe destaque público como representante da memória dos veteranos da Guerra do Paraguai. Poucas famílias brasileiras conseguiram reunir, em uma única geração, tantos homens comprometidos com os destinos nacionais. Não se tratava apenas de uma família numerosa, mas de servidores da Pátria. Enquanto um dos filhos seguia a carreira eclesiástica, outros abraçavam as armas em um dos momentos mais delicados da história da América do Sul. Na segunda metade do século XIX, o continente mergulhou em um conflito sem precedentes, cuja violência marcou de forma definitiva o destino de quatro nações.

O RETORNO DOS CINCO COMBATENTES

A Guerra do Paraguai deixou marcas profundas em praticamente todas as famílias brasileiras que enviaram filhos para o campo de batalha. Milhares de soldados jamais regressaram, enquanto outros retornaram trazendo no corpo e na alma as cicatrizes do mais longo e sangrento conflito da história da América do Sul.

Benedito da Silva Peixoto, um dos filhos de  Jeronymo José Correia Peixoto

Nesse contexto, é difícil imaginar a alegria experimentada pela família de Jeronymo José Correia Peixoto ao receber de volta, com vida, seus quatro filhos e seu sobrinho. O Padre Amaro Theot Castor Brasil, o Capitão Manoel Martins Correia e Castro, o Alferes Antonio Martins Correia Peixoto, o Tenente José Lucas Barbosa e o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto sobreviveram à campanha e puderam retornar ao convívio de seus familiares após anos de incerteza e angústia.

Cada um deles regressava trazendo consigo experiências que poucos brasileiros conheceram. Haviam testemunhado batalhas, marchas, privações e perdas humanas em proporções até então desconhecidas pelo país. Voltavam diferentes daqueles jovens que haviam partido, carregando consigo o orgulho do dever cumprido e o reconhecimento pelos serviços prestados ao Brasil.

É razoável supor que o reencontro tenha sido marcado por intensa emoção. Em uma época em que as notícias chegavam lentamente e muitas famílias passavam meses, ou mesmo anos, sem qualquer informação segura sobre seus parentes, receber de volta cinco combatentes representava um acontecimento extraordinário. Imagine a felicidade de cada mãe e de cada pai em especial. Para aquela família, o fim da guerra significou não apenas a vitória do Império, mas também a preservação de um patrimônio muito mais valioso: a vida de seus filhos e de seu sobrinho.

O retorno desses cinco homens permitiu que suas experiências, seus valores e suas lembranças fossem transmitidos às gerações seguintes. Graças a eles, a memória da participação da família Peixoto na Guerra do Paraguai atravessou o tempo, chegando até os dias atuais como parte de um legado que merece ser conhecido e preservado.

A GUERRA DO PARAGUAI: O MAIOR CONFLITO DA AMÉRICA DO SUL

Entre 13 de dezembro de 1864 a 1º de março de 1870, Brasil, Argentina e Uruguai uniram-se na chamada Tríplice Aliança para enfrentar o governo de Francisco Solano López, presidente do Paraguai. O conflito, conhecido como Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança, tornou-se a maior guerra já travada em solo sul-americano. Muito além das disputas diplomáticas, estavam em jogo a estabilidade política da região, a livre navegação dos grandes rios da Bacia do Prata e a preservação da integridade territorial brasileira. O custo humano foi imenso.

Centenas de milhares de vidas foram perdidas. Cidades desapareceram. Famílias foram destruídas. O Paraguai sofreu uma devastação sem precedentes, perdendo grande parte de sua população masculina e vendo sua economia praticamente arruinada. Para o Brasil, embora vitoriosa, a guerra representou enorme esforço financeiro, militar e humano. Foi nesse cenário dramático que milhares de brasileiros atenderam ao chamado do Imperador Dom Pedro II, alistando-se nos célebres Voluntários da Pátria.

O Major Manoel Peixoto estava entre eles. Ainda muito jovem, deixou sua terra natal para enfrentar uma campanha militar extremamente dura. Marchas intermináveis, doenças tropicais, escassez de alimentos, combates corpo a corpo e condições climáticas severas faziam parte da rotina dos soldados brasileiros. A Guerra do Paraguai não era uma guerra de batalhas isoladas. Era uma longa sucessão de campanhas extenuantes, quando ele adoeceu durante as operações e foi determinado a regressar ao Rio de Janeiro para tratamento. Segundo as memórias preservadas por familiares, a patente de major foi-lhe conferida pelo Presidente da República Prudente de Morais, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados ao Exército Brasileiro. Combateu-se em Tuiuti, considerado o maior confronto campal da história da América do Sul; em Curupaiti, onde o Exército Aliado sofreu uma de suas maiores derrotas; em Humaitá, cuja fortaleza parecia inexpugnável; em Avaí, Lomas Valentinas e, finalmente, na campanha da Cordilheira, encerrada apenas com a morte de Solano López, em Cerro Corá, em março de 1870.

Sobreviver àquela guerra já constituía, por si só, uma façanha extraordinária. Chegar à velhice carregando na memória todas essas experiências transformava aqueles homens em verdadeiros arquivos vivos da História do Brasil. Foi exatamente isso que aconteceu com o major Manoel Peixoto. Ao regressar da campanha, trazia consigo muito mais do que condecorações ou experiência militar. Trazia a autoridade moral daqueles que haviam colocado a própria vida em risco para defender a soberania nacional. Décadas depois, quando a maioria absoluta de seus companheiros já havia desaparecido, ele permaneceria como um dos últimos testemunhos vivos daquela geração heroica.

A importância histórica de sua trajetória tornou-se ainda mais evidente graças à preservação das memórias familiares ao longo de sucessivas gerações. Em 2015, os primos gêmeos Emanoel Evangelista Peixoto e Aparício Apolinário Peixoto (30.10.1956), residentes no Rio de Janeiro – e com raízes em Parnamirim, Rio Grande do Norte –, reuniram e compartilharam preciosas informações provenientes do acervo da família. Esse conjunto documental remonta aos manuscritos originais elaborados por Manoel Bartolomeu Peixoto, que registrou as recordações transmitidas por sua mãe, Luzia Ciríaco Peixoto (16.3.1890-3.9.1961), carinhosamente conhecida como Lula.

Manoel Bartolomeu Peixoto

Manoel Bartolomeu Peixoto (24.8.2020-23.7.2025) transcreveu as narrativas que Luzia Ciríaco havia anteriormente escrito em seus próprios cadernos, preservando lembranças familiares relacionadas ao Major Manoel Peixoto e aos acontecimentos vividos por sua geração. Inclusive os gêmeos acima citados trazem no estudo que fizeram, uma parte original desses manuscritos. Posteriormente, o material foi passado para a guarda de nossa prima Maria Dolves Peixoto da Silva (1932-2022), que os conservou e lhes acrescentou novos registros. 


Ela também documentou as memórias transmitidas por seu pai, Pedro Abel Peixoto (1875-1974), meu tio-avô, bem como os relatos de Brás Lídio Peixoto (3.8.1925-12.5.2005), irmão de Manoel Bartolomeu Peixoto. Foi por intermédio dessa tradição documental familiar que chegaram até nós as informações sobre o adoecimento do Major Cornélio Peixoto durante a Guerra do Paraguai, seu retorno ao Rio de Janeiro e a concessão da patente de major pelo Presidente Prudente de Morais 4.10.1841-312.1902).

Pedro Abel Peixoto (1875-1974), meu tio-avô, pai de Maria Dolves da Silva

Essa cadeia de transmissão da memória familiar constitui um testemunho de extraordinário valor histórico. Ela demonstra que parte significativa das informações hoje conhecidas sobre o Major Manoel Peixoto não se deve apenas à tradição oral, mas também à existência de registros manuscritos produzidos por familiares que conviveram com pessoas diretamente ligadas ao veterano da Guerra do Paraguai. Esses documentos representam uma fonte primária de grande relevância para a reconstrução da história da família Peixoto e para a preservação da memória de um dos combatentes brasileiros que participaram do maior conflito armado da história da América do Sul.

MUITO ALÉM DA BATALHA – O MAJOR CORNÉLIO PEIXOTO E A FUNDAÇÃO DE SANTO ANTÔNIO DO TAUÁ, NO PARÁ

Encerrada sua trajetória militar e após prestar relevantes serviços ao Exército Brasileiro, o Major Manoel Peixoto regressou a um país profundamente transformado. Como milhares de outros veteranos da Guerra do Paraguai, assistiu ao retorno de homens marcados pelos horrores do conflito: muitos voltaram mutilados; outros encontraram suas famílias desfeitas; alguns jamais conseguiram readaptar-se à vida civil. O Brasil, por sua vez, atravessava profundas mudanças econômicas e sociais. A expansão das fronteiras agrícolas, o crescimento das províncias do Norte e a necessidade de ocupar vastos territórios impulsionavam intensos movimentos migratórios internos. A Amazônia vivia um período de extraordinária importância estratégica para o Império e, posteriormente, para a República. Era necessário povoar, produzir, consolidar fronteiras e fortalecer a presença brasileira em uma região de dimensões continentais.

Diante desse cenário, o Major Manoel Peixoto não buscou repouso. A experiência militar havia lhe conferido organização, capacidade de comando, espírito conciliador e profundo senso de responsabilidade.  Nesses moldes, ele iniciou uma nova e igualmente importante missão: contribuir para a ocupação, a colonização e o desenvolvimento da Amazônia paraense. Assim, seu nome ficou definitivamente eternizado à história de Santo Antônio do Tauá, município localizado na Região Metropolitana de Belém, cuja origem remonta ao trabalho de colonização por ele liderado no início do século XX.

A história desse empreendimento teve início em uma área que, anos antes, havia sido destinada pelo Governo do Pará ao estabelecimento de uma colônia de imigrantes espanhóis. O projeto, entretanto, não prosperou. Os colonos abandonaram a região, deixando apenas alguns barracões construídos para servi-lhes de abrigo. Em 1901, tomado por seu espírito de comando e almejando melhoria de vida para muitos nordestinos pobres ou que queriam fugir da seca, o Major Manoel Peixoto liderou a chegada maciça de diversas famílias nordestinas ao Pará. Dirigiu-se ao então governador Augusto Montenegro, solicitando a concessão das terras anteriormente destinadas aos colonos espanhóis. O pedido foi acolhido, permitindo a implantação de um novo projeto de colonização agrícola, desta vez conduzido por brasileiros.

Sob sua liderança, as famílias estabeleceram-se definitivamente na região, organizaram a produção agrícola e lançaram os alicerces de uma comunidade estável. O Major promoveu ainda a implantação de um engenho de açúcar, empreendimento que impulsionou a economia local, favoreceu o crescimento do núcleo populacional e estimulou a chegada de novos moradores. Sua experiência administrativa, aliada à capacidade de liderança adquirida ao longo da carreira militar, revelou-se decisiva para o êxito da colonização.

Foi nesse contexto que o Major Manoel Peixoto tornou-se o fundador do núcleo colonial e do povoado que culminou com o surgimento do atual município de Santo Antônio do Tauá. Ao organizar a migração das famílias nordestinas, obter a concessão das terras, estruturar a ocupação agrícola e fomentar o desenvolvimento econômico da região, lançou as bases demográficas, sociais e econômicas que possibilitaram o surgimento da futura cidade. Essa tradição histórica é preservada pelas fontes locais e pela própria memória oficial tauaense.

Embora o município de Santo Antônio do Tauá somente tenha sido oficialmente criado pela Lei Estadual nº 2.460, de 29 de dezembro de 1961, a tradição histórica paraense distingue claramente a fundação do povoado de sua emancipação político-administrativa. Por essa razão, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto é reconhecido como o fundador da localidade que, décadas mais tarde, seria elevada à categoria de município. Em reconhecimento à sua contribuição, seu nome permanece perpetuado em logradouros públicos e na Escola Municipal de Ensino Fundamental Major Cornélio Peixoto, homenagens que testemunham a gratidão da população tauaense por aquele que lançou seus alicerces.

Minha inesquecível prima Maria Dolves da Silva ao meu lado. Registro feito em sua casa, uma verdadeira galeria da história da família, inclusive seu marido José Soares foi ex-combatente durante a Segunda Guerra Mundial, tendo ido para o front na Itália. Maria Dolves foi um livro aberto. Anotava tudo, guardava tudo...

As informações relativas à atuação do Major Manoel Peixoto, na fundação de Santo Antônio do Tauá harmonizam-se com as memórias preservadas pela família Peixoto, especialmente os manuscritos produzidos por Manoel Bartolomeu Peixoto, em 1959, a partir dos cadernos de sua mãe, Luzia Ciríaco Peixoto (Lula). Esses registros foram posteriormente enriquecidos pelas anotações de Maria Dolves Peixoto da Silva, baseadas nas recordações transmitidas por seu pai, Pedro Abel Peixoto, e por Brás Lídio Peixoto, irmão de Manoel Bartolomeu Peixoto. Mais recentemente, esse valioso conjunto documental foi reunido e compartilhado pelos primos gêmeos Emanoel Evangelista Peixoto e Aparício Apolinário Peixoto, residentes no Rio de Janeiro, contribuindo para preservar importantes informações deste estudo.


Esses manuscritos familiares reforçam sua importância histórica não apenas como veterano da Guerra do Paraguai, mas também como pioneiro da colonização agrícola no Pará e fundador do núcleo populacional que deu origem ao atual município de Santo Antônio do Tauá. Constituem, assim, fontes primárias de grande relevância para a reconstrução da história da família Peixoto e para a compreensão da participação de seus membros na formação da Amazônia brasileira.

A trajetória do Major Manoel Peixoto revela, portanto, a extraordinária dimensão de sua vida pública. Depois de servir ao Brasil nos campos de batalha, dedicou-se à construção de uma nova comunidade na Amazônia, transformando-se em protagonista de um dos mais importantes processos de colonização do nordeste paraense. Seu legado ultrapassou a carreira militar e permanece vivo na história, na memória e na identidade de Santo Antônio do Tauá, onde sua obra continua a ser reconhecida pelas gerações que sucederam os primeiros colonizadores.

O destino, entretanto, ainda lhe reservaria uma das maiores honrarias de sua longa existência. Quase cem anos após seu nascimento, já transformado em um símbolo vivo da memória nacional, o velho combatente seria chamado novamente ao centro da História. Diante de milhares de pessoas reunidas em Belém do Pará, o Presidente da República, Getúlio Dornelles Vargas prestou reverência àquele homem que representava, por si só, uma ponte entre o Brasil Imperial de Dom Pedro II e o Brasil moderno do Estado Novo. Aquele cumprimento não era apenas um gesto protocolar. Era o reconhecimento de toda uma geração de brasileiros que escrevera, com coragem e sacrifício, algumas das páginas mais importantes da história nacional.

A GUERRA DO PARAGUAI, A FAMÍLIA DE COMBATENTES E O PIONEIRO NA AMAZÔNIA

A Guerra do Paraguai foi, sem dúvida, o maior teste de resistência enfrentado pelo Exército Brasileiro ao longo do século XIX. Durante quase seis anos, milhares de jovens deixaram seus lares para lutar em uma campanha marcada por marchas intermináveis, fome, epidemias, calor escaldante, inundações, combates sangrentos e enormes dificuldades logísticas. Para muitos, a guerra significou um caminho sem volta; para outros, representou uma experiência que moldaria para sempre o caráter e a visão de mundo.

Foi nesse cenário que o jovem Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto escreveu as primeiras páginas de sua história. Nascido em 1840, pertenceu a uma geração que viu o Brasil mobilizar praticamente todos os seus recursos humanos e materiais para enfrentar o conflito desencadeado pelo governo de Francisco Solano López (24.6.1827-1.3.1970). O Império convocava seus filhos para defender a integridade nacional, e milhares de brasileiros atenderam ao chamado. Entre eles estava Manoel Cornélio.

Infelizmente, como ocorreu com inúmeros veteranos da Guerra do Paraguai, os registros individuais da carreira militar do Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto não atravessaram o tempo de forma completa. A perda ou fragmentação dessa documentação, contudo, não diminui a relevância de sua trajetória. Há um fato histórico que permanece incontestável: Manoel Peixoto integrou a geração de brasileiros que combateu na Guerra do Paraguai, sobreviveu ao conflito e, décadas mais tarde, figurava entre os derradeiros remanescentes daquele episódio que marcou profundamente a história nacional. Quando recebeu a homenagem prestada pelo presidente Getúlio Vargas, sua presença representava muito mais do que a de um antigo combatente. Ele próprio havia se tornado um testemunho vivo da guerra, uma memória encarnada de um dos mais importantes acontecimentos da história militar do Brasil.

Quando chegou ao centenário de vida, o velho Major já não era apenas um ex-combatente. Era uma testemunha viva do Segundo Reinado, alguém que conhecera o Brasil governado por Dom Pedro II, acompanhara a Proclamação da República, assistira às profundas transformações políticas do início do século XX e, finalmente, presenciara o governo de Getúlio Vargas. Pouquíssimos brasileiros puderam atravessar períodos históricos tão distintos.

UMA FAMÍLIA A SERVIÇO DA PÁTRIA

Talvez um dos aspectos mais impressionantes da trajetória do Major Manoel Cornélio seja perceber que sua dedicação às armas não constituiu um caso isolado. Ela fazia parte da tradição familiar. A família Peixoto legou ao Brasil uma geração de homens públicos que se destacaram na vida militar, religiosa e administrativa. Ao lado de Manoel Cornélio figuravam: o Capitão Manoel Martins Correia e Castro (1836–1909), igualmente veterano da Guerra do Paraguai; o Alferes Antônio Martins Correia Peixoto (1841–1916); o Tenente José Lucas Barbosa (1843–1914); e o Padre Amaro Theot Castor Brasil (1833–1906), sacerdote respeitadíssimo que exerceu importante papel religioso e social no Rio Grande do Norte. Vale ressaltar que o padre Castor Brasil batizou Braz Lídio Peixoto, pai dos gêmeos citados acima.

Não era comum que tantos irmãos trilhassem carreiras voltadas ao serviço público. Enquanto alguns dedicavam a vida à defesa armada do território nacional, outro servia à Igreja, contribuindo para a formação espiritual de inúmeras comunidades. Essa conjugação de vocações revela muito sobre os valores cultivados por esses homens.

UM SÉCULO DE HISTÓRIA - QUANDO A REPÚBLICA REVERENCIOU UM HERÓI DO IMPÉRIO

À medida que os anos avançavam, Major Manoel Peixoto assistia ao desaparecimento gradual de seus antigos companheiros de armas. A Guerra do Paraguai transformava-se em lembrança distante. Os veteranos tornavam-se raríssimos. Quando o século XX alcançou sua quarta década, quase todos os soldados daquela campanha haviam desaparecido. Ele permanecia. Já idoso, era frequentemente lembrado como um símbolo vivo do patriotismo brasileiro. Não representava apenas uma pessoa. Representava uma geração inteira, milhares de brasileiros que haviam atravessado rios, pântanos e campos de batalha em defesa da integridade nacional; homens que haviam servido sob o comando de figuras lendárias como o Duque de Caxias e o Conde d'Eu (28.4.1842-22.8.1922), protagonistas da campanha militar que culminaria na vitória da Tríplice Aliança. Por isso, sua presença em solenidades públicas possuía enorme significado. Cada aparição do velho Major despertava respeito. Era como se a própria História estivesse presente.

Conde D'eu e sua esposa Princesa Isabel

Foi exatamente esse simbolismo que ganhou extraordinária dimensão durante a visita oficial do Presidente Getúlio Vargas ao Pará, em novembro de 1940. A viagem presidencial mobilizou multidões. Belém preparou-se para receber o Chefe da Nação com grandes manifestações populares, desfiles escolares, visitas a instituições cient´ficas, quartéis, órgãos públicos e homenagens promovidas por trabalhadores, comerciantes e autoridades civis e militares. Entretanto, em meio a toda aquela intensa programação, ocorreu um episódio que transcendeu a política.

Foi o encontro entre dois Brasis. De um lado, Getúlio Vargas, líder do Estado Novo e presidente da República. De outro, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, prestes a completar cem anos de idade, veterano da Guerra do Paraguai. Não era apenas um presidente cumprimentando um idoso. Era a República rendendo homenagem à memória do Império. Era o Brasil moderno reverenciando um homem que ajudara a construir sua própria história.

A importância daquele momento foi tão grande que a Revista da Semana, uma das publicações ilustradas mais prestigiadas do país, acompanhou detalhadamente toda a jornada presidencial ao Pará. Em duas edições, o periódico publicou extensa reportagem assinada pelo jornalista Adalberto Mendes, registrando fotografias, discursos, solenidades e os principais acontecimentos ocorridos durante a permanência do Presidente Getúlio Vargas em Belém. Entre esses registros encontra-se o encontro com o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, eternizado em fotografias e legendas que hoje constituem valiosas fontes primárias para a historiografia brasileira. É justamente essa documentação, preservada ao longo das décadas, que permite reconstruir com segurança aquele memorável episódio.

Não se tratava simplesmente de uma saudação protocolar. Naquele instante encontravam-se frente a frente dois períodos fundamentais da história nacional. De um lado estava o Presidente da República, líder máximo do Estado Novo, responsável por profundas reformas administrativas e pela modernização do Estado brasileiro. Do outro, um homem nascido ainda durante a Regência, que servira ao Império de Dom Pedro II, combatera na Guerra do Paraguai e sobrevivera para testemunhar praticamente um século da vida nacional. Era como se a própria História do Brasil estivesse condensada naquele breve diálogo.

Em novembro de 1940, Getúlio Vargas empreendeu uma extensa viagem oficial pelos estados do Norte do Brasil. A excursão possuía elevado significado político, administrativo e estratégico. O governo buscava aproximar o poder central da Amazônia, fortalecer a presença do Estado em regiões distantes, estimular a economia regional e demonstrar a importância que o Norte assumia no projeto nacional de integração. A Revista da Semana consiste numa valiosíssima fonte primária para o estudo daquele período. Logo ao abrir a reportagem, a revista apresentava ao leitor um grande mosaico fotográfico, acompanhado da seguinte legenda:

“A esquerda: o busto do Chefe da Nação, mandado erigir em Belem do Pará pela classe dos maritimos; á direita: o sr. Getulio Vargas em visita ao Museu Paraense Emilio Goeldi; em baixo, S. Ex. apreciando as cabriolas dos simios no Museu Goeldi.”

A acolhida ao Presidente foi calorosa. A revista reproduziu inclusive um cartão de homenagem oferecido ao chefe da Nação, contendo a expressiva inscrição:

“A Getulio Vargas [...] Amazonia agradecida.”

Durante vários dias, Getúlio Vargas percorreu instituições científicas, escolas, quartéis, repartições públicas, obras de infraestrutura, órgãos militares, estabelecimentos agrícolas e centros de pesquisa. No Museu Paraense Emílio Goeldi ocorreu um dos momentos mais simbólicos da visita. Conforme registrou a própria reportagem:

“A convite do dr. Carlos Estevam, director do Museu Goeldi, S. Ex. plantou no jardim botanico do mesmo Instituto um exemplar de Pau-Brasil, e ao faze-lo affirmou: 'Gosto de plantar, porque plantar é o destino do homem'. Nesse mesmo horto, o Chefe da Nação teve ensejo de vêr uma palmeira de jarina que sua estremecida filha, a sra. Alzira Vargas do Amaral Peixoto, plantara em 9 de Maio de 1938. S. Ex. rematou a visita ao Museu Goeldi percorrendo o curioso pavilhão de arte indigena.”

A frase pronunciada por Getúlio Vargas tornaria-se uma das passagens mais conhecidas daquela excursão presidencial. Em meio à intensa programação oficial, um personagem ocupava lugar de destaque entre as autoridades e os convidados presentes. Não era um governador. Não era um ministro. Não era um general da ativa. Era um velho combatente.

Convidado pelo Governo Federal para participar da solenidade e subir ao palanque oficial, o Major Manoel Peixoto representava uma geração que praticamente desaparecera da história brasileira: a dos veteranos da Guerra do Paraguai. Sua presença transcendia o protocolo. Ela simbolizava a continuidade da memória nacional, estabelecendo um elo entre o Brasil do Segundo Reinado, que enviara seus filhos aos campos de batalha, e o Brasil da Era Vargas.

“Ao alto: á esquerda, a entrega de um ramo de flôres ao Chefe da Nação por um alumno do Instituto Nazareth, que saudou S. Ex.; á direita, o sr. Getulio Vargas conversando, no palanque official, com o major Manoel Cornelio Barbosa Cordeiro Peixoto, velho veterano da Guerra do Paraguay que attingirá o centenario em Dezembro proximo. Á esquerda destas linhas: o sr. Getulio Vargas cumprimentando o alumno do Instituto N. S. de Nazareth que o saudou; sob as mesmas: o Chefe da Nação no grupo Escolar Dr. Freitas, quando era saudado pelo dr. Pernambuco Filho, secretario geral da Educação. No extremo inferior da pagina: á esquerda, o sr. Presidente da Republica assistindo no G. E. Dr. Freitas a uma demonstração de gymnastica rhythmica, e á direita S. Ex. percorrendo o mesmo Grupo Escolar, a cuja inauguração presidiu.”

Já centenário, apresentava-se trajando seu uniforme histórico, ostentando a postura altiva de quem havia servido à Pátria ainda durante o Império. A fotografia publicada pela Revista da Semana – hoje preservada no acervo da Biblioteca Nacional –, é extremamente eloquente. Nela, Getúlio Vargas aparece dirigindo-se ao velho Major durante a homenagem oficial. Não há qualquer sinal de um cumprimento meramente protocolar. Ao contrário. O Presidente posiciona-se diante do veterano, conversa com ele e lhe dedica atenção respeitosa, enquanto as demais autoridades permanecem discretamente ao redor, acompanhando aquele momento.

Naturalmente, a homenagem também integrava a narrativa cívica construída pelo governo Vargas, que valorizava figuras históricas capazes de representar a continuidade da nação brasileira. Isso, porém, não diminui seu significado. Ao contrário, evidencia o reconhecimento público prestado a um dos últimos sobreviventes da Guerra do Paraguai, cuja trajetória passou a simbolizar o sacrifício e a dedicação de toda uma geração de combatentes. A fotografia fala por si. Ela registra o encontro entre o Chefe da Nação e um veterano cuja vida atravessou o Império e a República, eternizando um momento em que o Estado brasileiro prestou homenagem à memória dos soldados que lutaram no maior conflito da história da América do Sul.

A importância daquele episódio ultrapassa o simples valor afetivo. Graças à cobertura dada, o encontro deixou de pertencer apenas à memória oral para transformar-se em documento histórico. A reportagem identifica o Major Cornélio Peixoto como veterano da Guerra do Paraguai e registra que o Presidente lhe dispensou especial deferência durante as solenidades oficiais.

Aquela imagem possui hoje enorme relevância historiográfica. Ela demonstra que o Governo Federal fazia questão de homenagear os remanescentes do maior conflito armado da história sul-americana. Mais do que isso, revela o respeito institucional dedicado à geração que lutara nos campos de batalha entre 1864 e 1870. Pouquíssimos veteranos ainda permaneciam vivos. O Major Manoel Cornélio era um deles. Talvez o único da região. Sua presença no palanque oficial simbolizava milhares de brasileiros anônimos que combateram sob a bandeira nacional e jamais retornaram para receber qualquer reconhecimento. Ao cumprimentá-lo, Getúlio Vargas prestava homenagem não apenas ao homem, mas a toda uma geração de soldados.

UM SÉCULO RESUMIDO EM UM ÚNICO HOMEM

Quando Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto nasceu, em 1841, o Brasil possuía pouco mais de dezoito anos de independência e vivia sob a Monarquia constitucional. As comunicações eram lentas. As estradas praticamente inexistiam. As viagens entre províncias podiam durar semanas. A escravidão ainda sustentava boa parte da economia nacional. O telégrafo era uma novidade, e a fotografia dava seus primeiros passos. Tratava-se de um país que ainda consolidava suas instituições políticas e buscava afirmar sua identidade como nação independente.

Foi nesse Brasil que o Major Manoel Peixoto iniciou sua trajetória. Ainda jovem, viveu sob o reinado de Dom Pedro II e integrou a geração de brasileiros que marchou para a Guerra do Paraguai. Depois do conflito, acompanhou a expansão das ferrovias, a intensificação da imigração europeia, o fortalecimento da campanha abolicionista e, em 1888, testemunhou a assinatura da Lei Áurea. No ano seguinte, presenciou a Proclamação da República, assistindo ao encerramento do regime monárquico sob o qual nascera.

Sua longa existência prosseguiu atravessando sucessivas transformações nacionais. Viveu as primeiras décadas da República, acompanhou as mudanças econômicas, sociais e políticas do país, presenciou a Revolução de 1930 e o advento do Estado Novo. Já centenário, recebeu o reconhecimento público do Presidente da República, tornando-se um dos últimos remanescentes vivos da geração que lutara na Guerra do Paraguai. Poucos brasileiros atravessaram tantos momentos decisivos da história nacional. Poucos homens puderam servir de ponte entre épocas tão distintas. Sua biografia confundia-se com a própria evolução do Brasil, abrangendo quase um século de profundas transformações políticas, militares, econômicas e sociais.

Por isso, o encontro registrado em Belém ultrapassa o significado de uma simples fotografia. Quando Getúlio Vargas lhe dirigiu a palavra durante a homenagem oficial, não conversava apenas com um veterano de guerra. Estava diante de um homem cuja memória alcançava quase um século de acontecimentos nacionais, alguém que vivera o Império, combatera pela Pátria, assistira ao nascimento da República e acompanhara a formação do Brasil moderno. Aquele instante simbolizava muito mais do que o reconhecimento de um único homem. Representava a continuidade da própria identidade brasileira, a gratidão de uma geração para com outra e o reconhecimento da Nação àqueles que, décadas antes, haviam colocado a própria vida em risco em defesa de sua soberania. Naquele momento, a geração de 1940 reverenciava a geração de 1865.

A história do Major Manoel Peixoto demonstra que o verdadeiro heroísmo não se mede pela fama, mas pela permanência do exemplo. Nesse aspecto, sua vida permanece como uma das mais belas páginas da história militar, familiar e regional do Brasil, constituindo um legado de patriotismo, coragem e dedicação que continua a inspirar as gerações posteriores.

A imprensa registrou visitas ao Museu Emílio Goeldi, ao Instituto Agronômico do Norte, ao Instituto de Patologia Experimental, à Comissão Demarcadora de Limites, à Basílica de Nazaré, aos quartéis do Exército, às instalações da Força Pública, aos serviços de abastecimento de água, às oficinas do Serviço de Navegação da Amazônia e Administração do Porto do Pará, além de escolas, associações comerciais e repartições públicas. Tudo foi cuidadosamente documentado pela Revista da Semana, cujo repórter Adalberto Mendes produziu uma das mais completas coberturas jornalísticas daquela viagem.

É provável que muitos dos presentes soubessem apenas que aquele senhor centenário havia combatido na Guerra do Paraguai. Mas sua história era muito maior. Major Manoel Peixoto representava uma geração inteira de brasileiros que acreditava no dever acima dos interesses individuais. Uma geração acostumada à disciplina. Ao sacrifício. À palavra empenhada. À honra. Sua longa existência fez dele uma referência moral para inúmeras pessoas. O respeito que inspirava não decorria apenas da idade. Decorria da vida que havia construído.

REVISTA DA SEMANA

A relevância histórica do encontro entre o Presidente Getúlio Vargas e o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto torna-se ainda maior quando se observa que esse momento foi registrado por uma das mais importantes publicações da imprensa brasileira da primeira metade do século XX. Não se trata de uma fotografia preservada apenas no âmbito familiar, nem de um retrato cuja origem dependa exclusivamente da tradição oral. O episódio foi documentado pela Revista da Semana, periódico de circulação nacional que, durante décadas, ocupou posição de destaque no jornalismo ilustrado brasileiro, conferindo ampla divulgação aos acontecimentos políticos, militares, sociais e culturais considerados mais relevantes do país.

Fundada em 1900, a Revista da Semana foi uma das pioneiras na utilização sistemática da fotografia como elemento central da narrativa jornalística. Em uma época em que os recursos audiovisuais ainda eram escassos e a televisão sequer existia, suas páginas aproximavam os leitores dos grandes acontecimentos nacionais por meio de imagens cuidadosamente selecionadas e reportagens ilustradas. Presidentes da República, ministros, governadores, líderes militares, intelectuais, artistas e personagens que marcaram a vida pública brasileira figuravam regularmente em suas edições, fazendo da revista uma verdadeira crônica visual de seu tempo. Durante mais de meio século, ela acompanhou as profundas transformações vividas pelo Brasil, registrando acontecimentos que hoje constituem parte fundamental da memória nacional.

É justamente nesse contexto que a fotografia do encontro entre Getúlio Vargas e o Major Manoel Peixoto adquire especial significado. Ao publicar a imagem, a Revista da Semana reconheceu que aquela solenidade possuía interesse público e valor histórico suficiente para integrar o registro jornalístico do país. A presença do velho veterano da Guerra do Paraguai ao lado do Chefe da Nação representava um momento de forte simbolismo: de um lado, um dos últimos sobreviventes da geração que lutara em defesa do Império; de outro, o presidente que conduzia o Brasil em uma nova etapa de sua história republicana. A fotografia materializava, em um único instante, o encontro entre diferentes épocas da formação nacional.

Sob a perspectiva da pesquisa histórica, esse registro possui importância ainda maior. Fotografias publicadas em periódicos contemporâneos aos fatos constituem fontes primárias, pois foram produzidas e divulgadas no contexto em que os acontecimentos ocorreram. Sua autenticidade não repousa apenas na imagem em si, mas também no fato de haver sido veiculada por um órgão de imprensa de reconhecida circulação e credibilidade. Para historiadores, genealogistas e pesquisadores da memória militar brasileira, isso significa que o episódio deixa de depender exclusivamente de relatos posteriores ou de recordações familiares, passando a contar com um testemunho documental produzido no próprio tempo dos acontecimentos.

Assim, a fotografia publicada pela Revista da Semana transcende o valor de uma simples lembrança. Ela transforma-se em um documento histórico de inegável relevância, capaz de confirmar a participação do Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto na solenidade oficial e o reconhecimento público que lhe foi prestado pelo Governo Federal. Mais do que registrar o encontro entre dois homens, a imagem preserva um instante em que a memória da Guerra do Paraguai foi incorporada ao discurso cívico da Nação, perpetuando para as gerações futuras a homenagem dirigida a um dos últimos representantes de uma geração que marcou profundamente a história do Brasil.

O DEVER DA MEMÓRIA

Há um antigo provérbio segundo o qual um homem só morre verdadeiramente quando seu nome deixa de ser lembrado. Sob essa perspectiva, preservar a trajetória do Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto representa muito mais do que uma homenagem familiar: constitui um dever para com a memória nacional. Os heróis não pertencem apenas às suas famílias, mas também ao país que ajudaram a construir. Cada nova geração que conhece sua história amplia a compreensão do passado brasileiro; cada documento recuperado fortalece nossa identidade; cada fotografia preservada impede que o esquecimento triunfe sobre a memória.

Assim como Getúlio Vargas, ao reverenciar o velho Major durante sua visita ao Pará, prestou uma homenagem pública à geração dos combatentes da Guerra do Paraguai, também nós, ao revisitarmos sua biografia, renovamos esse gesto de respeito. Afinal, homens como Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto Fontoura não envelhecem nas páginas da História: transformam-se em exemplo, e os verdadeiros exemplos atravessam os séculos.

Quando Getúlio Vargas desembarcou em Belém, em novembro de 1940, já haviam transcorrido setenta anos desde o término da Guerra do Paraguai. Quase todos os combatentes brasileiros haviam desaparecido, e o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto Fontoura figurava entre os raríssimos sobreviventes daquele conflito. Sua presença na solenidade transcendia a homenagem pessoal: representava a memória viva de uma geração que, ainda sob o Império de Dom Pedro II, sacrificara a juventude em defesa da soberania nacional. Ao reverenciá-lo, o governo prestava, simbolicamente, tributo a todos os brasileiros que lutaram na Guerra do Paraguai, fazendo do velho Major um elo entre o passado heroico e a memória histórica da Nação.

DOIS SILÊNCIOS CHAMADOS RESPEITO

Em 2009, presenciei uma cena que imediatamente me veio à lembrança ao conhecer o encontro entre o Major e o Presidente. Durante um evento público em Parnamirim (RN), quando diversas autoridades discursavam, uma multidão conversava ruidosamente até que o então ex-prefeito Agnelo Alves foi convidado a proferir seu discurso. Bastou sua presença para que o ambiente mergulhasse em um silêncio espontâneo e respeitoso. Desde então, sempre que reflito sobre a homenagem prestada por Getúlio Vargas ao Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto Fontoura, recordo-me desse instante.

Os documentos oficiais registraram o encontro, a fotografia eternizou o momento e a imprensa noticiou a homenagem. Entretanto, um aspecto desse episódio permaneceu preservado sobretudo na memória da família. Familiares narram que, quando Getúlio Vargas aproximou-se do Major Manoel Peixoto, o barulho da multidão deu lugar ao silêncio absoluto. Segundo essas recordações, as pessoas compreenderam, quase intuitivamente, que não presenciavam apenas o cumprimento de um cidadão, mas a homenagem prestada pela Nação a um dos últimos veteranos da Guerra do Paraguai.

Ainda conforme os relatos transmitidos entre as gerações da família, o velho Major recebeu as palavras do Presidente com a mesma postura que marcou toda a sua vida militar. Embora o peso dos anos já fosse evidente, manteve-se ereto, sereno e digno, ouvindo atentamente o reconhecimento que lhe era dirigido. Se a emoção lhe invadiu o espírito –  e tudo leva a crer que sim –, ela permaneceu contida pela disciplina do soldado. Depois de uma existência dedicada ao Brasil, recebia, já no ocaso da vida, uma homenagem pública que transcendia sua própria pessoa e alcançava todos aqueles que haviam combatido ao seu lado.

UM ENCONTRO ENTRE DOIS TEMPOS

É impossível saber exatamente o que passava pela mente do velho Major Manoel Peixoto naquele instante. Todos são unânimes em contar que naquela idade, ele era plenamente lúcido, altivo e de voz potente. Creio que, naquele momento, ele recordasse a juventude interrompida pela guerra, os companheiros que ficaram nos campos de batalha ou os irmãos que também serviram ao Brasil. Talvez, simplesmente, contemplasse em silêncio o longo caminho que a Providência lhe permitira percorrer. Um filme rolou em sua mem´ria em segundos. Quando partiu para a Guerra do Paraguai, ainda muito jovem, dificilmente poderia imaginar que viveria o suficiente para, cerca de sete décadas depois ouvir do próprio Presidente da República palavras de reconhecimento pelos serviços prestados à Pátria.

Por essa razão, aquele momento ultrapassou os limites de uma solenidade oficial. Não foi apenas o encontro entre Getúlio Vargas e um veterano da Guerra do Paraguai. Foi o encontro entre duas gerações, entre o Brasil Imperial e o Brasil Republicano, entre a memória daqueles que construíram a história nacional e um país que buscava reafirmar sua identidade. Na figura do Major Manoel Peixoto, homenageava-se simbolicamente toda uma geração de combatentes que havia defendido a soberania brasileira no maior conflito da história da América do Sul.

A fotografia preservou esse instante. A Revista da Semana levou-o às páginas da imprensa nacional. Contudo, foi a memória transmitida pelos familiares que lhe conferiu sua dimensão mais humana. Os documentos registram os fatos; as famílias preservam os sentimentos que os acompanharam. Talvez seja justamente por isso que esse encontro permaneceu vivo ao longo das gerações: porque não representou apenas uma cerimônia de Estado, mas um raro momento em que a gratidão nacional encontrou, frente a frente, um homem que havia dedicado a juventude ao serviço do Brasil. Mais de oitenta anos depois, essa imagem continua simbolizando o respeito da Nação por um de seus veteranos mais ilustres e pela geração que escreveu, com coragem e sacrifício, uma das páginas mais importantes da história brasileira.

O MAJOR E A EFÍGIE: A VIDA E O LEGADO DE MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORNÉLIO PEIXOTO 


No dia 26 de junho de 1940, prestes a completar cem anos de idade, em algum lugar do estado do Pará, um senhor de postura altiva e olhar sereno sentou-se diante de uma câmera fotográfica. Vestia o uniforme oficial do Exército Brasileiro, segurava com firmeza sua bengala ou espada e trazia no rosto as marcas do tempo e da história. Aquele homem era o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, um militar potiguar cuja trajetória atravessou o Brasil, ligando os campos de batalha do sul às florestas e rios do norte.

Ao receber a fotografia revelada, o Major tomou a caneta e, com elegante caligrafia, registrou no rodapé uma dedicatória carregada de afeto e modéstia. Escreveu à esposa e ao filho, Paulo, oferecendo-lhes o que chamou de sua “insignificante ephigie” (termo antigo e culto para designar o próprio retrato), como demonstração de profunda gratidão. Na assinatura, fez questão de registrar sua maior honra: “Major Veterano da G. do Paraguai”.

Para quem observa a imagem hoje, há um detalhe que chama a atenção dos olhos mais atentos: a farda que ele veste. Embora o Major tenha sido um legítimo veterano da Guerra do Paraguai (1864–1870), o uniforme exibido no retrato não corresponde ao que usou nos campos de batalha daquele conflito. Na juventude, combateu vestindo as pesadas casacas azul-escuras e calças brancas típicas do período imperial. Já na fotografia de 1940, aparece com a túnica verde-oliva de bolsos frontais, gravata e quepe rígido, padrão moderno adotado pelo Exército no início do século XX, durante a Primeira República.

Esse contraste não diminui em nada a autenticidade do registro. Pelo contrário, revela um costume bastante comum à época. Ao posar para a posteridade já na velhice, muitos veteranos faziam questão de vestir o fardamento oficial vigente, demonstrando que permaneciam ligados, respeitados e integrados à evolução da instituição militar que ajudaram a construir.

A fotografia do Major Manoel Cornélio é muito mais do que um simples retrato de família. Trata-se de um documento histórico precioso, capaz de unir duas eras do Brasil. Nela, vemos o jovem soldado que lutou pelo Império no século XIX transformado no velho Major que, com o mesmo espírito de missão, ajudou a construir comunidades e impulsionar o desenvolvimento dos interiores do norte do país no século XX. Sua “insignificante efígie” acabou se tornando o retrato eterno de um verdadeiro construtor da nação.

PALAVRAS FINAIS

Concluir este opúsculo desperta em mim um sentimento difícil de traduzir em poucas palavras. Há, antes de tudo, a satisfação de perceber que uma história que permaneceu, durante dezesseis anos, dispersa em lembranças familiares, documentos esquecidos e registros quase invisíveis, agora encontra um espaço onde pode ser conhecida e preservada. Talvez muitos dos fatos aqui reunidos sejam inéditos para a maior parte dos leitores. Se este trabalho despertar a curiosidade, incentivar novas pesquisas ou simplesmente contribuir para que essa parcela de nossa história não volte ao esquecimento, terá alcançado seu propósito.

Paulo Freire escreveu: “As culturas não são melhores nem piores; as expressões culturais não são melhores nem piores; são diferentes entre elas.” Inspirado nessa reflexão, faço um esclarecimento. Ao dedicar estas páginas à trajetória de meu parente, não pretendo sugerir qualquer superioridade familiar ou pessoal. O objetivo deste estudo é apenas preservar uma história singular, assim como tantas outras de homens e mulheres que, cada um à sua maneira, contribuíram para a construção do Brasil.

O valor de uma trajetória não reside na fama, na riqueza ou no poder, mas nos princípios que a orientam: o respeito ao próximo, a dedicação ao trabalho, a coragem diante das adversidades, a ética e o compromisso com aquilo que se considera justo. Se esta narrativa desperta interesse, é porque revela um percurso humano digno de ser conhecido, e não porque seja superior a qualquer outro.

A elaboração destas páginas assemelhou-se à montagem de um grande quebra-cabeça. Aos poucos, memórias familiares, documentos particulares, periódicos da época, registros do IBGE, informações das Prefeituras de Santo Antônio do Tauá e de Paraú, e imagens preservadas pela Biblioteca Nacional passaram a compor um conjunto coerente, permitindo reconstruir uma história que parecia fragmentada pelo tempo. Nem sempre foi fácil preencher as lacunas deixadas pelos anos, mas cada descoberta renovava a convicção de que a pesquisa histórica recompensa a persistência.

Este trabalho não pretende encerrar o assunto, mas servir como ponto de partida para novas investigações. Espero que inspire descendentes, pesquisadores e demais interessados a ampliar o conhecimento sobre o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto e sua família. Se, ao concluir a leitura, o leitor sentir que conheceu um pouco mais das pessoas, dos lugares e dos acontecimentos que marcaram essa trajetória, terei alcançado o maior objetivo que poderia desejar. Levo comigo a satisfação de saber que uma história que corria o risco de desaparecer no silêncio do tempo passa agora a integrar, ainda que modestamente, o patrimônio de nossa memória.

UM APARTE...

Ao concluir este estudo sobre a trajetória do Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto e demais parentes que participaram da Guerra do Paraguai, fortaleci a convicção de que é dever da sociedade norte-rio-grandense resgatar a memória daqueles que, em nome do Brasil, serviram com coragem e espírito de sacrifício. Parece-me não apenas legítimo, mas um imperativo de justiça histórica, pleitear junto à Câmara Municipal de Natal que seus nomes sejam perpetuados não apenas por meio de homenagens simbólicas, mas também na denominação de logradouros públicos. Com esse propósito, pretendo encaminhar à Câmara Municipal de Natal e à Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte as proposições e os trâmites necessários para que esses cinco brasileiros recebam, finalmente, o reconhecimento oficial do Estado em que nasceram, preservando-se, para as presentes e futuras gerações, a memória de seus relevantes serviços à Pátria.

UM PEDIDO AOS FAMILIARES

Ao longo desta pesquisa, compreendi que nenhuma história é construída por uma única pessoa. Ela é formada por lembranças, documentos, fotografias, relatos e, sobretudo, pelas pessoas que mantêm viva a memória de seus antepassados. O Major Manoel Peixoto deixou descendentes e familiares espalhados por diversas regiões do Brasil. Tenho conhecimento de parentes no Pará, no Rio Grande do Norte, no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Mato Grosso do Sul e, certamente, em muitos outros estados e fora do pais. É muito provável que existam ramos dessa família que ainda não se conheçam entre si, mas que compartilhem a mesma origem e um legado comum.

Por essa razão, faço um convite muito especial. Desejo que este opúsculo permaneça como uma obra viva, em constante construção. Pretendo organizar, nas próximas edições, uma galeria de fotografias dos descendentes e familiares do Major Manoel Peixoto, identificando cada imagem com os nomes, o grau de parentesco e, se possível, o local onde vivem. Assim, pouco a pouco, poderemos reconstruir, também em imagens, a árvore humana que nasceu desse tronco comum.

Aos familiares que ainda não conheço, deixo este apelo fraterno: se esta obra chegar às suas mãos, sintam-se convidados a fazer parte dela. Será uma alegria receber fotografias, pequenas histórias, documentos, cartas, certidões ou qualquer registro que ajude a enriquecer e preservar essa memória. Cada contribuição, por mais simples que pareça, representa uma peça importante desse grande mosaico familiar.

Mais do que reunir fotografias, o que desejo é aproximar pessoas, fortalecer laços e impedir que o tempo apague a história de uma família que, embora hoje esteja espalhada por tantos rincões do país, continua unida por suas raízes. Quem sabe este estudo não seja o elo que faltava para que parentes até então desconhecidos descubram uns aos outros? Afinal, separados pela geografia, permanecemos ligados por uma mesma herança, por uma mesma história e, simbolicamente, pelo sangue do Major Manoel Peixoto que continua a correr em nossas veias.


José Soares, esposo de Maria Dolves
Casal Dalva Peixoto Fontoura e Estelo Fontoura, ambos falecidos. São primos e também primos meus. Ela é irmã de Maria Dolves.

Maria José Peixoto Freire, mãe do autor deste estudo
 
Lula Peixoto