ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

domingo, 12 de julho de 2026

POR QUE NÃO CONHECEMOS AS PRATAS DA CASA?

Imagem criada por Inteligência Artificial. É apenas uma arte. Os autores - todos consagrados - são reais, mas as obras deste cartaz são de fantasia, inspiradas no texto.

Nos últimos dias, fiquei surpreso ao ver diversas postagens nas redes sociais e em jornais digitais potiguares informando que o prefeito de Natal, Paulinho Freire, havia vetado o projeto de lei do vereador Daniel Valença que determinava a obrigatoriedade de as livrarias da capital reservarem espaço em suas vitrines para obras de autores potiguares. A notícia me chamou a atenção porque o projeto é importante, e independente disso, já havia sido aprovado pela Câmara Municipal. Ou seja, depois de passar pela discussão legislativa e receber o aval dos vereadores, a proposta acabou sendo barrada pelo Executivo. Mais do que discutir o mérito do veto, isso me levou a pensar sobre uma questão que, há muito tempo, considero central: por que conhecemos tão pouco os artistas da nossa própria terra?

Essa reflexão não nasceu agora. Há poucos meses, conversava com uma pessoa ligada às oficinas de música de Parnamirim O assunto era o desconhecimento que muitas crianças e adolescentes têm em relação aos músicos parnamirinenses. Ouvi atentamente e, ao final da conversa, expus uma opinião que continuo considerando a única saída possível para mudar esse cenário: criar estratégias inteligentes e sensatas para aproximar crianças e jovens dos artistas e agentes de cultura locais.

O que falta é pertencimento. É preciso que a criança cresça conhecendo quem produz arte na cidade onde ela vive. Crianças e jovens precisam saber quem escreve, quem pinta, quem canta, quem dança, quem pesquisa, quem faz teatro, quem promove a cultura popular na sua cidade. O interesse dificilmente surge pelo acaso. Primeiro vem o contato; depois, a familiaridade; por fim, o gosto. Ninguém aprende a admirar aquilo que nunca lhe foi apresentado. Sempre entendi que devemos valorizar os artistas locais: músicos, atores, pintores e dançarinos, da mesma forma que os escritores, os mestres e os brincantes das mais diversas manifestações da cultura popular. Porém, num país em que a arte ainda é tratada, muitas vezes, como um luxo - ou até como algo supérfluo, ressalvadas as exceções - não chega a ser estranho que o pr´prio povo desconheça muitas de suas pratas da casa.

Em 2017, escrevi o espetáculo Câmara Cascudo e o Tapete Mágico, apresentado no Cine-Teatro Municipal Vereador Paulo Barbosa da Silva. Durante os ensaios, vivi uma experiência que nunca esqueci: descobri que muitos alunos das oficinas de arte não tinham a menor ideia de quem havia sido Luís da Câmara Cascudo. Isso me impressionou. Estamos falando de um dos maiores intelectuais brasileiros, pesquisador do folclore, historiador, antropólogo, etnógrafo, jornalista eprofessor. Um homem que dedicou a vida a estudar a cultura popular e cuja obra continua sendo referência para quem deseja compreender a identidade cultural do Brasil.

Se isso acontece com Câmara Cascudo, imagine o que ocorre com músicos, escritores, atores, artistas plásticos e tantos outros fazedores de cultura que estão mimetizados entre nós. Esse episódio apenas reforçou uma convicção que já carregava: não basta produzir arte. É preciso criar oportunidades para que as pessoas a conheçam. O reconhecimento quase sempre nasce da convivência. E a convivência depende de aproximação.

Foi justamente por isso que as notícias sobre o veto despertaram minha atenção. Muito além da discussão jurídica ou política, elas reacenderam uma pergunta que considero essencial: o que estamos fazendo, de forma concreta, para que o povo potiguar conheça aqueles que constroem diariamente a cultura do Rio Grande do Norte?

Essa pergunta me acompanha há anos e, confesso, torna-se ainda mais inquietante toda vez que vejo alguém lendo um livro físico ou jornal impresso em um espaço público. Hoje isso é raro. Quase todos estão com os olhos voltados para a tela do celular, deslizando os dedos rapidamente. Mas, quando encontro alguém com um livro nas mãos, tenho o hábito - talvez um defeito, talvez uma curiosidade incurável - de tentar descobrir qual obra está sendo lida. Quando não consigo identificar a capa, pergunto ao leitor. A conversa quase sempre começa pelo livro e, naturalmente, envereda pelos autores.

Nessas ocasiões, costumo mencionar escritores de Parnamirim e de Natal. É um exercício simples, mas revelador. E a constatação, infelizmente, quase nunca muda: a maioria das pessoas desconhece os autores da própria terra. Conhecem J. K. Rowling, J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin, Dan Brown, Colleen Hoover, John Green. Entre os brasileiros, citam de Clarice Lispector, Carlos Drummond, Carolina Maria de Jesus e tantos outros, todos merecidamente reconhecidos. Mas, quando a conversa chega aos escritores potiguares contemporâneos, instala-se um silêncio que diz muito mais do que qualquer resposta. E eu sempre digo: "Você precisa ler Ana Cláudia Trigueiro, José Acaci, Angélica Vitalino, José de Castro, Gilvânia Machado, Flauzineide Moura, Francisco Martins, Gilvânia Machado,Jânia Souza... E em outros momentos, no devido contexto, questiono se a pessoa conhece Ismael Dumang, Caio Padilha, a Cia. Gira Dança, o bailarino Rodolfo Santos, bailarina Vitória Bal, a artista plástica e escritora Ana Catarina Fernandes, enfim...

Não vejo o desconhecimento sobre as pratas da casa como culpa do adulto. Como alguém poderá se interessar por um escritor que nunca lhe foi apresentado? O próprio habitat, por excelência, nos apresenta Clarice Lispector, Machado de Assis,  J. K. Rowling e outros. No Instagran e Facebook topamos com eventos nacionais e internacionais sobre Guimarães Rosa, Machado de Assim, Mary del Priori, Clarice Lispector - frases, provérbios, pensamentos deles -, portanto nos familiarizamos por excelência. Mas e com os locais? Você já topou com Ana Cláudia Trigueiro, Ana Catarina, Francisco Martins, Ismael Dimang, Acaci, Rodolfo Santos???

É por isso que sigo acreditando que o caminho mais eficiente passa pela infância.

A criança da escola pública e privada precisa conviver com a cultura produzida no lugar onde vive. Precisa ouvir, na escola, a música dos compositores da sua cidade. Precisa encontrar, na biblioteca, os livros dos escritores que caminham pelas mesmas ruas que ela percorre. Precisa conhecer os artistas plásticos, os grupos de teatro, os mestres da cultura popular, os fotógrafos, os cordelistas, os escultores... Não para desprezar a produção de outros estados ou países, mas para compreender que a cultura também acontece perto dela. Começa ao lado dela. O gosto nasce do conhecimento. Antes de admirar, é preciso conhecer. Antes de valorizar, é preciso conviver.

É justamente por isso que acredito que as escolas têm um papel decisivo nesse processo. Refiro-me desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental. Não imagino uma disciplina específica para isso, mas uma política pública permanente. Defendo, inclusive, que os municípios criem leis orientando as redes de ensino a desenvolver ações contínuas de valorização dos artistas locais, para que escritores, músicos, atores, artistas plásticos, mestres da cultura popular e tantos outros passem a fazer parte do cotidiano escolar. Não se trata de criar uma obrigação burocrática, mas de estabelecer uma diretriz capaz de garantir que esse trabalho continue existindo, independentemente de quem esteja ocupando os cargos de gestão. A cultura não pode depender apenas da boa vontade de um diretor, de um professor ou de um secretário de educação; ela precisa estar amparada por políticas públicas permanentes.

Se cada professor trabalhar, ao longo do ano, algumas obras de escritores da cidade; se apresentar músicas compostas por artistas locais; se utilizar pinturas, poemas, fotografias e textos produzidos por quem vive na região; se transformar esse material em leitura, exposição, apresentação cultural, gincana, sarau ou festival, pouco a pouco esses nomes deixarão de ser estranhos. Eles passarão a fazer parte da memória afetiva dos alunos.

Depois desse primeiro contato, o passo seguinte acontece quase naturalmente: aproximar os artistas das escolas. Imagine um escritor visitando uma turma que já leu seus livros. Imagine um compositor sendo recebido por estudantes cantando suas músicas porque aprenderam suas canções durante as aulas. Imagine um artista plástico encontrando crianças que reproduziram releituras de suas obras em sala de aula. Não há homenagem maior para quem dedica a vida à arte do que perceber que ela encontrou abrigo na imaginação de uma nova geração. Esse encontro transforma todos os envolvidos.

O aluno percebe que o artista não é uma figura distante, inacessível, restrita aos livros didáticos ou aos documentários da televisão. Descobre que ele mora na mesma cidade, frequenta os mesmos espaços e enfrenta os mesmos desafios de qualquer cidadão. O artista, por sua vez, encontra o público que sempre desejou alcançar. É assim que se constrói pertencimento.

Foi exatamente por isso que a notícia sobre o veto me fez voltar a essa reflexão. Ainda que se discutam os aspectos jurídicos da proposta ou as razões que levaram o Executivo a rejeitá-la, continuo convencido de que a ideia que motivou o projeto merece ser debatida com serenidade. Dar visibilidade aos autores potiguares não significa retirar espaço de escritores consagrados nem interferir na liberdade de escolha dos leitores. Significa apenas reconhecer que uma livraria instalada em Natal ou em Parnamirim pode, legitimamente, apresentar ao público aqueles que escrevem sobre esta terra, preservam sua memória e ajudam a construir sua identidade. Afinal, aquilo que não é visto dificilmente será lembrado. E aquilo que não é lembrado corre sempre o risco de desaparecer do imaginário coletivo.

Quanto mais penso sobre isso, mais me convenço de que não existe solução isolada. Não será uma única lei, um único projeto ou uma única instituição que mudará esse cenário. A lei que propõe dar visibilidade aos autores potiguares nas vitrines das livrarias é importante, porque amplia o encontro entre o escritor e o leitor. Mas ela pode caminhar ao lado de outras iniciativas igualmente transformadoras, entre elas uma legislação que incentive as escolas a desenvolver, de forma permanente, ações voltadas ao conhecimento das pratas da casa. Uma lei aproxima os autores do público nas livrarias; a outra os aproxima das crianças, justamente na fase da vida em que o pertencimento começa a ser construído. Não vejo como problema, por exemplo, que as secretarias municipais e estaduais de educação comprem uma parte das obras dos autores regionais e encontre formas de disponibilizá-las aos públicos específicos. Isso pode perpassar por lei sem problema algum, pois é nobre. 

A valorização da cultura local depende de um esforço conjunto, contínuo e, sobretudo, de uma mudança de mentalidade. As escolas têm um papel fundamental, mas não estão sozinhas. As bibliotecas, as universidades, os institutos federais, as fundações culturais, o Sistema S, as academias de letras, as secretarias de cultura, as câmaras municipais, os meios de comunicação e até a iniciativa privada podem contribuir para aproximar a população dos artistas da terra. Cada instituição pode fazer a sua parte. Não se trata de criar privilégios, mas de corrigir uma invisibilidade histórica.

Quando uma biblioteca organiza um espaço dedicado aos escritores locais, quando uma escola convida um músico da cidade para conversar e cantar com seus alunos, quando uma livraria destaca autores potiguares em sua vitrine, quando um festival reserva espaço para artistas da região, todos estão colaborando para a mesma causa: permitir que a população conheça aquilo que ela própria produz. É curioso perceber que admiramos com facilidade aquilo que vem de longe, mas, muitas vezes, ignoramos o talento que está ao nosso lado. Não há problema algum em ler autores estrangeiros ou prestigiar artistas de outros estados. Eu mesmo faço isso constantemente. A cultura não deve conhecer fronteiras. O problema surge quando essa abertura para o mundo não é acompanhada pelo conhecimento das nossas próprias raízes.

Ninguém precisa escolher entre um escritor potiguar e um escritor francês, entre um compositor natalense e um músico inglês. Uma coisa não exclui a outra. Pelo contrário: quanto maior for nosso repertório, mais rica será nossa experiência como leitores, ouvintes e espectadores. O que me parece injusto é que tantos artistas norte-rio-grandenses permaneçam desconhecidos justamente porque nunca lhes foi dada a oportunidade de serem vistos.Volto, então, à conversa que tive em Parnamirim. Naquele dia, saí convencido de que o pertencimento não nasce espontaneamente. Ele é construído. A criança aprende a gostar daquilo que lhe é apresentado com naturalidade. É assim com a leitura, com a música, com o teatro, com as artes visuais e com tantas outras manifestações culturais.

Se um aluno passa toda a sua vida escolar sem ouvir uma única música composta por um artista da sua cidade, sem ler um livro de um escritor potiguar, sem visitar uma exposição de um pintor norte-rio-grandense ou sem conhecer um mestre da cultura popular, dificilmente chegará à vida adulta valorizando aquilo que nunca fez parte da sua formação. Por outro lado, quando esse contato acontece desde cedo, tudo muda. Os nomes deixam de ser estranhos. As obras passam a ser familiares. A curiosidade aparece naturalmente. E o que antes parecia distante transforma-se em motivo de orgulho. É exatamente esse orgulho que chamo de pertencimento.

Talvez seja por isso que as notícias sobre o veto tenham provocado em mim muito mais reflexão do que indignação. Independentemente das posições políticas ou das interpretações jurídicas sobre o projeto, continuo acreditando que ele trouxe para o centro do debate uma questão que não pode ser ignorada: como fazer com que os potiguares conheçam melhor os seus próprios escritores? Essa pergunta continua sem uma resposta definitiva, mas uma certeza eu carrego comigo há muito tempo. O reconhecimento vem depois do conhecimento. Ninguém valoriza aquilo que desconhece.

Se desejamos uma sociedade que prestigie seus artistas, precisamos apresentá-los às crianças. Precisamos colocá-los nas escolas, nas bibliotecas, nos teatros, nas feiras literárias, nas galerias, nos festivais, nos meios de comunicação, na rua, e, por que não, também nas vitrines das livrarias. Porque uma vitrine não vende apenas livros. Ela desperta curiosidade. E, às vezes, basta um livro visto na hora certa para que um leitor descubra um autor que caminhava pela mesma cidade sem jamais ter sido percebido. No fim das contas, é disso que estamos falando. Não apenas de livros. Nem apenas de escritores. Estamos falando da forma como um povo escolhe cuidar da própria memória. E um povo que conhece seus artistas conhece melhor a si mesmo.

sábado, 4 de julho de 2026

RETRATOS DE PAPARY EM 1930 – PERCORRENDO AS TRILHAS DE UM DICIONÁRIO ESQUECIDO...

Obs. Imagem criada por Inteligência Articial, apenas inspirada no estudo abaixo.

Há livros que cumprem apenas a finalidade para a qual foram escritos. Outros, entretanto, parecem desafiar o tempo. Permanecem décadas adormecidos nas estantes de bibliotecas ou nas coleções particulares, aguardando apenas que um leitor curioso lhes devolva a voz. Foi exatamente essa sensação que experimentei quando, há alguns anos, tive acesso ao Diccionário Histórico e Geographico do Rio Grande do Norte - Volume I (A-E), de autoria de Antonio Soares, publicado pela Imprensa Official, em Natal, no ano de 1930.

Trata-se de uma obra singular, apresentada ao Congresso Econômico do Rio Grande do Norte, realizado na capital potiguar em janeiro daquele mesmo ano, durante as comemorações do segundo aniversário da administração do então presidente do Estado, Juvenal Lamartine. Embora concebido como um projeto muito mais amplo, abrangendo vários volumes destinados a registrar localidades, acidentes geográficos, personagens históricos e inúmeros outros aspectos da vida potiguar, o empreendimento jamais ultrapassou seu primeiro tomo, dedicado às letras A até E. As razões desse interrompimento não são conhecidas. É uma pena. Se o projeto tivesse sido concluído, provavelmente possuir´amos hoje um importante repositório histórico e geogr´fico já produzidos sobre o Estado, reunindo informações de enorme valor para pesquisadores, professores, estudantes e todos aqueles que cultivam interesse pela memória potiguar.

Em 1997, quando consultei esse volume, fiz diversas anotações a lápis nos meus cadernos. Passados quase trinta anos, ao reencontrá-las, percebi que aquelas pequenas notas continuavam despertando a mesma curiosidade de outrora. Resolvi, então, revisitá-las, confrontando-as novamente com o texto original e transcrevendo os verbetes relativos ao antigo município de Papary - hoje Nísia Floresta.

É importante recordar que, em 1930, quando Antonio Soares publicou sua obra, o município ainda conservava oficialmente o nome de Papary. A alteração para Nísia Floresta somente ocorreria dezoito anos depois, em 1948, numa justa homenagem à mais ilustre filha daquela terra. Assim, todas as referências presentes no dicionário utilizam naturalmente a antiga denominação. O leitor encontrará, nas linhas que seguem, numerosas transcrições literais do texto de Antonio Soares. Fiz questão de preservar a grafia original, respeitando não apenas a ortografia vigente naépoca, mas também a própria feição documental da obra. Afinal, documentos históricos não transmitem apenas informações: também revelam a maneira como uma sociedade escrevia, nomeava lugares, descrevia paisagens e compreendia o mundo ao seu redor. À primeira vista, pode parecer tratar-se apenas de um inventário de rios,lagoas, povoados, acidentes geográficos e figuras notáveis. Contudo, basta um olhar mais atento para perceber que o dicionário oferece muito mais do que isso. Cada verbete funciona como uma pequena janela aberta para uma Papary de quase um século atrás, revelando aspectos da hidrografia, da ocupação do território, da economia, das comunicações, da religiosidade popular e da própria formação histórica do município.

Há ainda um detalhe que chama particularmente a atenção. Antonio Soares não se limita a indicar a localização dos lugares. Em muitos casos, registra informações sobre a população das localidades, comenta a piscosidade das lagoas, descreve características da paisagem, apresenta etimologias indígenas e, não raramente, incorpora tradições orais que, sem esse registro, talvez tivessem desaparecido para sempre. É precisamente esse conjunto de observações que transforma o livro numa fonte documental de extraordinária importância.

Percorrer suas páginas é como acompanhar um mapa vivo de uma época em que as distâncias eram medidas muito mais pelas estradas de barro do que pelos modernos sistemas de georreferenciamento; quando determinadas lagoas jamais secavam, os rios ainda obedeciam aos seus cursos naturais e pequenas povoações possuíam importância administrativa muito superior àquela que hoje lhes atribuímos. Curiosamente, muitos dos lugares mencionados continuam existindo, embora profundamente transformados. Outros conservaram apenas o nome. Alguns praticamente desapareceram da memória coletiva. Há também aqueles cuja grafia mudou, acompanhando as sucessivas reformas ortográficas, enquanto outros permaneceram quase inalterados, desafiando o tempo como discretos marcos da permanência histórica.

Foi justamente essa possibilidade de comparar a Papary de Antonio Soares com a Nísia Floresta contemporânea que me motivou a reunir estas notas. Não se trata de um estudo exaustivo, mas de um convite ao leitor para caminhar por antigas veredas documentais e perceber que a História, muitas vezes, encontra-se escondida em obras aparentemente modestas, esquecidas pelo grande público, mas extraordinariamente generosas para quem delas se aproxima com curiosidade.

UMA GEOGRAFIA VIVA, ONDE AS ÁGUAS CONTAM A HISTÓRIA

A primeira informação que despertou minha atenção foi a respeito de um personagem hoje praticamente esquecido, embora tenha sido presidente da província do Rio Grande do Norte (governador) em duas oportunidades. Não se trata do conhecido Dr. Antônio José de Melo e Souza, o célebre Policarpo Feitosa, frequentemente lembrado quando se fala de figuras ilustres de Papary, mas do coronel Antonio Galdino da CunhaAntonio Soares registra:

“Antonio Galdino da Cunha – Coronel da antiga Guarda Nacional, natural do município de Papary e proprietário no município de Goianinha, onde residia. Nomeado vice-presidente da província por Carta Imperial de 4 de fevereiro de 1852, teve ocasião de assumir o governo do Rio Grande do Norte por duas vezes: a primeira, durante vinte e quatro horas, de 16 para 17 de maio de 1861; a segunda, de 26 de maio de 1863 a 27 de junho do mesmo ano, quando entregou a administração ao presidente Olintho Meyra. Faleceu em Goianinha, a 6 de agosto de 1883.”

Também encontrei informação em outras fontes de que que o coronel Antonio Galdino da Cunha, era natural de Goianinha, figura que merece ser lembrada antes mesmo de nomes muito mais conhecidos da historiografia potiguar. Era irmão do padre João Jerônimo da Cunha, nascido a 12 de julho de 1813, provavelmente nascido em Papary.

Esse pequeno verbete, aparentemente singelo, lembra-nos como a história oficial costuma selecionar alguns nomes enquanto deixa tantos outros à margem da memória coletiva. Quantos nisiaflorestenses sabem hoje que um filho da antiga Papary chegou a governar a Província do Rio Grande do Norte ainda no período imperial? São precisamente essas pequenas descobertas que justificam o valor permanente de obras como a de Antonio Soares. É algo a se investigar...

Mas é sobretudo quando trata da geografia que o dicionário revela sua verdadeira riqueza. A leitura dos verbetes permite perceber que Papary era, essencialmente, um território moldado pela água. Lagoas, rios, riachos, enseadas e várzeas aparecem sucessivamente, compondo um mosaico hidrográfico impressionante. Não por acaso, muitas dessas águas continuam desempenhando papel fundamental no abastecimento e na identidade paisagística do município. Antonio Soares menciona, por exemplo, a “Lagoa do Arroz”, topônimo hoje pouco lembrado, embora certamente conhecido pelos moradores mais antigos. Da mesma forma, registra um monte denominado “Banana”, descrito simplesmente como “elevação à margem da lagoa Papary”. É facilmente localizável quando se passa na estrada.

São referências aparentemente discretas, mas que demonstram como o relevo também participava da construção da identidade local. Em muitas ocasiões, pequenos acidentes geográficos acabavam fornecendo nomes às propriedades, aos caminhos e até às famílias que ali se estabeleciam. Outro registro curioso refere-se à antiga “Barra de Estevão Ribeiro”, descrita da seguinte forma:

“Povoado, também conhecido pelo nome de Barra, no município de Papary. É situado aproximadamente vinte quilômetros para leste da sede municipal e tem uma população de cerca de cento e cinquenta habitantes.”

Hoje, quando percorremos a região, talvez não imaginemos que esse pequeno núcleo populacional merecesse destaque num dicionário estadual. Entretanto, o simples fato de Antonio Soares registrá-lo demonstra sua importância regional no início do século XX. Aliás, um aspecto chama continuamente a atenção ao longo da obra: a preocupação do autor em registrar o número aproximado de habitantes de cada povoação. Esses dados, embora estimativos, transformam-se atualmente em preciosa fonte para estudos demográficos, permitindo reconstruir a distribuição populacional de Papary antes mesmo da expansão urbana ocorrida nas décadas posteriores. As lagoas aparecem quase como personagens. A “Boa Água”, por exemplo, recebe uma descrição objetiva:

“Localizada no tabuleiro do mesmo nome, nove quilômetros a nordeste da vila de Papary. Não é piscosa e conserva água ainda mesmo no rigor do estio.”

Poucas linhas bastam para revelar muito. Quando Antonio Soares afirma que determinada lagoa “não seca no verão”, fornece ao pesquisador moderno uma informação ambiental extremamente valiosa. Trata-se de um testemunho sobre o comportamento hídrico da região há quase um século. Em tempos de intensas transformações ambientais, alterações climáticas e ocupação crescente do território, observações dessa natureza passam a possuir um significado que talvez o próprio autor jamais imaginasse. Mas nenhuma descrição supera, em beleza, aquela dedicada à “Lagoa do Bonfim.” Escreve Antonio Soares:

“Bonfim – Lagoa no município de Papary. É um bello e pittoresco lago, de águas crystalinas, visitado frequentemente pelos moradores dos logares visinhos e até mesmo por excursionistas que ahi encontram excellente banho.”

 É impossível ler essas palavras sem imaginar a paisagem descrita pelo autor. Muito antes da preocupação contemporânea com turismo ecológico, Antonio Soares já registrava que excursionistas procuravam o Bonfim atraídos pela beleza natural do lugar. É uma informação simples, mas extremamente significativa, pois demonstra que aquela lagoa já era reconhecida como espaço de lazer e contemplação muito antes da popularização do turismo moderno. Todavia, o aspecto mais fascinante do verbete talvez esteja em sua observação linguística. Prossegue Antonio Soares:

“Teve outr'ora a denominação de Pochy, vocábulo indígena, parece que alteração de pochii: feio, mau, ruim, sujo; ou, antes, de hu-pochy: água suja – qualificativos que, entretanto, não se ajustam ao claro e formoso lago.”

Aqui encontramos um detalhe extremamente interessante. Ao tentar explicar a origem indígena do antigo nome da lagoa, Antonio Soares distancia-se de interpretações posteriormente consagradas por outros estudiosos. A grafia “Pochy”, ou “Hu-Pochy”, difere sensivelmente das formas registradas em outras obras ao longo do s´culo XX. Esse fato abre uma instigante possibilidade de investigação. Sabe-se que muitos dos significados indígenas utilizados pelos estudiosos potiguares chegaram até eles por intermédio do grande engenheiro, geógrafo e filólogo Teodoro Sampaio, profundo conhecedor das línguas tupi e autor de importantes estudos sobre a formação dos topônimos brasileiros. Já Luís da Câmara Cascudo, em diversas ocasiões, valeu-se dessas interpretações em seus próprios trabalhos.

Entretanto, Antonio Soares escreve depois de Cascudo e apresenta explicação distinta. Isso não significa necessariamente que um estivesse errado e outro certo. Ao contrário, revela como a etimologia indígena frequentemente comporta diferentes hipóteses interpretativas, especialmente quando se trabalha com vocábulos recolhidos da tradição oral ou registrados em épocas distintas. A quaestão aqui é como ambos escreveram os vocábulos. São exatamente essas pequenas divergências que tornam apaixonante a pesquisa histórica. Muitas vezes, uma única palavra é capaz de abrir caminhos para investigações inteiras. Prosseguindo pela obra, encontramos outro curioso registro referente à região de “Boacica”. Antonio Soares descreve uma estrada nas proximidades da confluência de dois pequenos ribeiros, onde ocorre um fenômeno que ainda hoje desperta curiosidade:

“No logar da confluência observa-se um facto curioso: ahi se distinguem perfeitamente as águas de um e outro dos ribeiros, porque, a qualquer hora, uma é tépida e a outra é fria.”

Confesso que, ao reler esse trecho, imaginei quantos moradores atuais conhecem essa singularidade. Seria ela ainda observável? Ou teria desaparecido em razão das modificações ambientais ocorridas ao longo das últimas décadas? São perguntas que apenas novas pesquisas de campo poderão responder. E talvez aí resida uma das maiores virtudes do velho dicionário de Antonio Soares: mais do que oferecer respostas, ele continuamente desperta novas perguntas. As curiosidades reunidas por Antonio Soares seguem encantando. Ao tratar da povoação de “Búzios”, por exemplo, registra:

“Povoação, à margem da enseada do mesmo nome, na costa do município de Papary. Tem uma população de 200 habitantes, pequeno porto do mar, e está situada vinte quilômetros ao norte da sede municipal. Chamam-na também Porto de Búzios. Antes da conquista o porto era frequentado por naus francesas, que ahi faziam carregamentos de páu-brasil.”

Poucas linhas bastam para nos transportar aos primórdios da ocupação do litoral potiguar. Muito antes da colonização portuguesa consolidar-se, embarcações francesas já frequentavam aquela costa, atraídas pela exploração do pau-brasil, estabelecendo relações comerciais com os povos indígenas. Não por acaso, a presença francesa deixou marcas profundas em diversos pontos do litoral nordestino, constituindo um dos capítulos mais interessantes da história colonial brasileira.

O verbete dedicado à “Cajarana” é breve, limitando-se a informar tratar-se de um sítio localizado na costa sul do Estado, marcando um dos limites entre Arês e Papary, também conhecido como “Ponta de Cajarana”. A simplicidade da descrição não diminui seu valor documental, pois evidencia como determinados acidentes geográficos serviam de referência para a delimitação administrativa dos municípios. Outro registro particularmente interessante refere-se ao “rio Cajupiranga”:

“Rio, nos limites do município de Natal com os de São José de Mipibu e Papary. O Cajupiranga entra na lagoa do Jiqui, recebe pela margem direita o seu afluente Pium e vai desembocar no oceano, entre as povoações de Pirangi de Baixo e Pirangi de Cima. Nas proximidades de sua foz, chamam-no também Pirangi.”

Essa observação permanece atual. Ainda hoje é comum encontrar moradores que identificam o Cajupiranga simplesmente como “rio Pirangi”, demonstrando como a tradição popular muitas vezes sobrevive às denominações oficiais. Antonio Soares acrescenta uma observação etimológica igualmente preciosa:

“Cajupiranga é palavra indígena; de aca-yu, caju, e piranga, vermelho: caju vermelho.”

É mais um exemplo da permanente presença da língua tupi na formação da paisagem potiguar. Rios, lagoas, serras, praias e povoados continuam guardando, em seus nomes, fragmentos da memória indígena que resistiram à passagem dos séculos. Outro verbete digno de nota refere-se ao então “Campo de Sant'Anna”, atualmente mais conhecido por muitos como “Cururu”. Antonio Soares informa:

“Povoação, vinte quilômetros ao sul da vila de Papary, a cujo território pertence. Tem população de cerca de setecentos habitantes e é também conhecida pela antiga denominação de Cururú. Subdelegacia de Polícia, creada em 1893. A capella de Campo de Sant'Anna é dedicada a São Sebastião.”

Talvez esse seja um dos dados que mais surpreendem. Uma população estimada em setecentos habitantes, no contexto das primeiras décadas do século XX, representava um núcleo relativamente importante para os padrões do interior potiguar. Mais significativo ainda é o registro da criação de uma Subdelegacia de Polícia em 1893. Esse simples detalhe revela que Campo de Sant'Anna exercia relevante função administrativa e possuía movimento suficiente para justificar a presença permanente da autoridade policial. Já andei escrevendo sobre Cururu neste blog e tenho a impressão de que, depois da Villa de Papary, Cururu fosse  aa maior em população.

São informações que dificilmente aparecem nas sínteses tradicionais da história regional. Também “Camurupim” comparece duas vezes na obra: como povoação e como rio. O autor registra que a localidade era igualmente conhecida por “Barra de Camurupim”, acrescentando que camurupim deriva do nome indígena de um peixe bastante conhecido, também chamado “camboropi”. Mais uma vez, percebe-se como a fauna serviu de inspiração para a formação dos topônimos litorâneos. Diante desse dado é possível entender que, tendo Camurupim referenciada como “povoado” àquela ocasião, hoje é o que chamamos de Praia de Camurupim, conforme se lê no site da administração municipal. Embora não deixa de ser uma povoação e uma praia, o IBGE usa a expressão técnica de “aglomerado rural ou povoado”.

Um dos verbetes mais ricos é, sem dúvida, o referente ao “Vale do Capió”. Antonio Soares descreve-o como um vale extenso e fértil, situado no baixo Trairi, iniciando-se acima de São José de Mipibu e prolongando-se até a lagoa Papary. Segundo ele, tratava-se de região extremamente favorável ao cultivo da cana-de-açúcar, concentrando diversos engenhos, entre eles Capió, Belém, São Luiz e Pavilhão. Chega mesmo a estimar uma produção anual de quarenta mil sacos de açúcar bruto em anos de inverno regular. Mais do que um dado agrícola, esse registro ajuda a compreender a importância econômica da região no contexto da agroindústria açucareira potiguar, cuja influência marcou profundamente a organização social, a ocupação do território e a formação de inúmeras famílias tradicionais.

As lagoas continuam surgindo sucessivamente: “Caracará”, descrita como pouco piscosa, mas permanente; “Carnahuba”, que enchia apenas em anos de bom inverno; e “Escura”, apontada como nascente do rio Boacica. Essas observações, aparentemente simples, constituem hoje um verdadeiro inventário ambiental do município há quase um século. Em tempos de crescente preocupação com a preservação dos recursos hídricos, documentos dessa natureza assumem valor ainda maior, permitindo comparações entre a paisagem descrita em 1930 e aquela que conhecemos atualmente. Outro aspecto curioso diz respeito às distâncias. Ao longo de praticamente todos os verbetes, Antonio Soares informa quantos quilômetros separavam cada povoação da sede da antiga vila de Papary.

Quando confrontamos essas medidas com os trajetos atuais, percebemos que nem sempre coincidem. Evidentemente, não se trata de erro do autor. O mais provável é que as antigas estradas seguissem percursos bastante diferentes dos atuais. Ao longo do século XX, a abertura de novas rodovias, o retificação de caminhos e a expansão urbana alteraram significativamente a forma de percorrer o território. É um detalhe que passa despercebido à primeira leitura, mas que oferece excelente material para estudos sobre a evolução da malha viária do município. Também chama atenção a constante preocupação do autor em registrar se determinada lagoa era ou não piscosa, se permanecia cheia durante o verão ou se secava em anos de estiagem. Hoje sabemos que tais informações representam muito mais do que simples curiosidades. Constituem um importante retrato das condições ambientais do início do século XX, podendo auxiliar pesquisadores interessados na evolução da hidrografia regional.

Ao final dessa breve incursão pelo Diccionário Histórico e Geographico do Rio Grande do Norte, fica uma certeza. Antonio Soares não escreveu apenas um repertório de verbetes. Sem talvez imaginar, legou um retrato extremamente fiel da antiga Papary, registrando rios, lagoas, povoados, caminhos, atividades econômicas, tradições, etimologias e aspectos ambientais que, em muitos casos, já desapareceram ou se transformaram profundamente. É justamente aí que reside a grandeza das fontes históricas. Elas não envelhecem. Envelhecemos nós, que frequentemente deixamos de consultá-las. Os documentos permanecem silenciosos nas estantes, aguardando apenas que alguém lhes devolva a palavra. E talvez seja essa a maior missão da pesquisa histórica: permitir que o passado continue conversando com o presente. Quem sabe, daqui a outros cem anos, algum pesquisador encontre este pequeno estudo, sorria diante de nossas observações e, como aconteceu comigo diante das páginas de Antonio Soares, descubra que a História nunca termina. Ela apenas muda de interlocutores.

Mas... a propósito dessas “novidades”, Na obra também conhecemos uma passagem instigante e, embora não diz respeito à Nísia Floresta, mas à Natal, somos informados sobre o “Morro do Estrondo”:

“Estrondo - Môrro, de grande elevação e situado ao S da cidade do Natal. A tradição afirma que eram ouvidos, outr’ora, das visinhanças d’esse morro, longos estrondos subterrâneos”.

Bem O que explicaria esses estrondos? O barulho decorreria de algo sobrenatural ou abalo geológico? Pequenos abalos sísmicos, relativamente comuns em algumas áreas do Nordeste? Simples amplificações naturais produzidas pelo relevo? Ou apenas mais uma das tantas tradições orais que povoam a imaginação popular? Já ouvi velhos nisiaflorestenses dizendo que as franjas das dunas das praias locais, tocadas pelo vento veloz, emitem “roncos”. Estaria explicado? Os moradores da Vila de Ponta Negra contam que o Morro do Estrondo é o nome do antigo “Morro do Careca”. Parece possível. Careca é um nome moderno, lembra uma cabeça careca. Mas nem sempre foi assim. Mas ouvi de um pescador da vila. Está revelado o local, mas o mistério do estrondo - ou ronco - continuam... Pois é, uma boa pesquisa hist´rica raramente termina quando se fecha um livro. Ao contrário, é justamente nesse momento que costuma começar.

Fiquei curioso.... mas o assunto aqui é Papary. Deixemos para Natal decifrar o estrondo, afinal. É assunto que deverá interessar a muitos...

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A HISTÓRIA, AS MÁSCARAS E O TEMPO

Capa do livro, que, inclusive, o adquiri

Em 1998, durante o lançamento do livro Ana Jansen, realizado no Centro de Convivência da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e que participei, a escritora maranhense Rita Ribeiro revelou um fato curioso e revelador: sua obra havia provocado profundo desconforto em determinadas autoridades e em algumas famílias tradicionais do Maranhão. O motivo era simples. O livro resultava de extensa pesquisa documental e, ao reconstruir a trajetória de Ana Jansen, a autora precisou contextualizar personagens, acontecimentos e relações de poder de sua época.

Foi justamente nesse paciente trabalho de investigação que surgiram as contradições. À medida que examinava manuscritos antigos, correspondências, registros oficiais e documentos esquecidos em arquivos, Rita Ribeiro percebeu que muitas das figuras celebradas pela historiografia tradicional não correspondiam à imagem gloriosa construída ao longo das gerações. Aquilo que os livros apresentavam como verdade incontestável nem sempre encontrava sustentação nas fontes prim´rias.

Esse fenômeno está longe de ser excepcional. Pelo contrário, constitui uma das grandes preocupações da historiografia contemporânea. Desde as transformações promovidas pela Escola dos Annales, sobretudo a partir dasreflexões de Marc Bloch e Lucien Febvre, os historiadores passaram a compreender que a História não é um relato pronto e acabado, mas uma construção permanente, sujeita a revisões, questionamentos e novas interpretações. Mais tarde, autores como Jacques Le Goff, Pierre Nora, Roger Chartier e Carlo Ginzburg aprofundaram esse olhar crítico, demonstrando que a memória coletiva frequentemente produz mitos, silencios e distorções que acabam incorporados ao discurso histórico.

Ao exercer sua paleografia, Rita Ribeiro literalmente espanava a poeira acumulada sobre documentos fechados durante décadas ou mesmo séculos. E, como se despertassem de um longo sono, personagens esquecidos e histórias incômodas emergiam dos papéis amarelados. O resultado era perturbador: indivíduos retratados como heróis apareciam envolvidos em práticas condenáveis; figuras reverenciadas revelavam facetas autoritárias; homens considerados modelos de virtude surgiam associados a episódios pouco edificantes.

Ironicamente, muitos desses personagens continuavam eternizados em nomes de ruas, praças, escolas, bibliotecas, edifícios públicos, monumentos e instituições. Alguns davam nome até mesmo a importantes órgãos do Estado. Entretanto, os documentos revelavam trajetórias muito mais complexas do que aquelas transmitidas pela tradição oficial.

Naturalmente, a divulgação dessas descobertas provocou reações. Conforme relatou a própria autora, houve tentativas de dificultar ou desacreditar seu trabalho. Afinal, determinadas famílias sabiam que seus antepassados, transformados em “figuras notáveis” pela narrativa tradicional, poderiam ter suas máscaras removidas diante das evidências documentais.

O episódio vivido por Rita Ribeiro ilustra um fenômeno recorrente na História do Brasil. Ao longo dos séculos, inúmeros acontecimentos foram romantizados, embelezados, simplificados ou deliberadamente modificados. Muitas vezes isso ocorreu para agradar grupos dominantes, fortalecer interesses políticos, legitimar famílias influentes ou construir versões convenientes do passado.

A historiografia tradicional, sobretudo aquela produzida durante o século XIX e boa parte do século XX, valorizava grandes homens, feitos heroicos e narrativas patrióticas. Já a Nova História passou a investigar também os esquecidos, os anônimos, os marginalizados e os silenciados pelos documentos oficiais. Em vez de perguntar apenas quem governou, passou a perguntar quem foi excluído. Em vez de estudar apenas os vencedores, voltou-se também para os vencidos.

Por essa razão, muitos fatos foram recuperados e muitas versões precisaram ser revistas. A História deixou de ser exclusivamente a narrativa dos poderosos para tornar-se, gradualmente, uma investigação sobre as múltiplas experiências humanas. Durante muito tempo, quem escrevia a História eram os grupos que detinham o poder político, econômico e cultural. O povo comum raramente tinha acesso à escrita, à publicação ou aos meios de preservação documental. Consequentemente, os registros oficiais frequentemente refletiam os interesses das elites. Isso não significa que tudo fosse mentira, mas que a verdade aparecia misturada a exageros, omissões, engrandecimentos e conveniências.

Por isso a pesquisa histórica exige permanente confronto entre fontes, documentos e testemunhos. Nenhum documento fala sozinho. Nenhuma versão deve ser aceita sem questionamento. Como ensinava Marc Bloch, o historiador deve agir como um investigador que interroga os vestígios do passado. Apesar de toda a engenhosidade empregada na construção de determinadas narrativas, seus arquitetos frequentemente esqueceram um elemento fundamental: o tempo. O tempo transforma arquivos privados em documentos públicos. O tempo abre coleções antes inacessíveis. O tempo permite que novas gerações façam perguntas diferentes daquelas formuladas por seus antecessores.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Durante anos li textos e ouvi relatos sobre um cidadão apresentado como o primeiro intendente de uma determinada vila que posteriormente se transformou em município. Segundo a tradição local, ele teria governado durante quase meio s´culo e exercido papel exemplar na administração pública. Entretanto, ao consultar documentos primários, constatei que a realidade era muito diferente. Não havia sido o primeiro intendente, não governara durante tanto tempo e sua atuaçãoo política estava longe da imagem benevolente transmitida pela memória coletiva. Pelo contrário, surgiam indícios de práticas autoritárias e perseguições contra adversários e até mesmo uso de cartucheras para receber possíveis adversários políticos.

O resultado foi previsível. Certo dia encontrei um neto desse personagem histórico, pessoa que sempre me tratara com cordialidade. A partir do momento em que divulguei as descobertas documentais, passei a ser tratado como um estranho. Tornei-me, aos olhos dele, um inimigo. Não por ter inventado algo, mas por ter revelado o que os documentos mostravam.

Vivemos atualmente um período em que diversos países revisitam seus passados. Monumentos são questionados, homenagens são reavaliadas e antigas narrativas são submetidas ao escrutínio público. Em alguns lugares, estátuas foram derrubadas ou destruídas. Particularmente, considero mais produtivo contextualizar do que apagar. Um monumento pode permanecer onde está, desde que acompanhado de informações históricas corretas. O problema não é lembrar. O problema é lembrar errado.

As novas gerações precisam conhecer tanto as grandezas quanto as misérias do passado. Uma sociedade madura não constrói sua identidade apenas sobre heróis; constrói também sobre o reconhecimento dos erros, das injustiças e das contradições. Entretanto, esse novo olhar sobre a Hist´ria exige honestidade intelectual. Nem toda desconstrução é legítima. Nem toda denúncia é verdadeira. A revisão histórica precisa apoiar-se em evidências sólidas, documentos confiáveis e métodos rigorosos. Foi exatamente isso que Rita Ribeiro fez. Seu objetivo não era atacar famílias ou destruir reputações gratuitamente. Seu compromisso era com os fatos.

A História é feita dessas nuances. Às vezes as manipulações são grosseiras; outras vezes são sutis. Um exemplo frequentemente citado refere-se à divulgação da morte de Tancredo Neves, anunciada oficialmente em 21 de abril de 1985, mesma data dedicada a Tiradentes. A coincidência produzia forte efeito simbólico, aproximando duas figuras de grande relevância nacional. Independentemente das circunstâncias específicas daquele episódio, ele demonstra como datas símbolos e narrativas podem adquirir significados políticos e emocionais que ultrapassam os fatos em si.

Por isso, considero uma perda de tempo quando descendentes de personagens históricos se revoltam contra pesquisas fundamentadas. Os documentos permanecem. As fotografias permanecem. Os registros permanecem. As gerações passam; as fontes continuam. Mais cedo ou mais tarde surgirão novos pesquisadores, novas perguntas e novas interpretações. E, como aconteceu com Rita Ribeiro, as máscaras eventualmente cairão. Não por perseguição, mas porque a História, quando praticada com rigor e honestidade, possui uma extraordinária capacidade de aproximar-se da verdade possível.

Talvez essa seja uma das maiores lições da Nova História: compreender que o passado não pertence aos poderosos, aos governantes ou aos herdeiros de sobrenomes ilustres. O passado pertence à sociedade. E, por isso mesmo, deve permanecer permanentemente aberto à investigação, ao debate e à revisão crítica. 30.4.2023.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

BIOGRAFIA DE ISMAEL DUMANG...

 


Cantor, compositor, poeta, cordelista e agente cultural, Ismael Dumang é reconhecido como um dos mais autênticos representantes da música autoral do Rio Grande do Norte. Nascido em 5 de novembro de 1960, no município de São José de Mipibu, filho de Raimundo Nonato de Araújo e Emygdia Alves de Araújo, teve suas origens ligadas ao Sítio Quebra Fuzil, ambiente marcado pela presença dos antigos engenhos, pelas tradições populares e pela forte identidade cultural do interior potiguar. Criado posteriormente no centro de São José de Mipibu por sua mãe adotiva, cresceu em meio às manifestações populares, às celebrações religiosas e à intensa musicalidade presente no cotidiano da cidade. 

1996

O rádio, os alto-falantes espalhados pelas ruas, as radiolas e as canções que ecoavam pelas casas foram decisivos em sua formação artística. Desde cedo, absorveu influências dos hinos da Harpa Cristã, da música sertaneja e romântica e de artistas como Roberto Carlos e Sérgio Reis. Mais tarde, aproximou-se da obra de compositores como Belchior, Fagner e Alceu Valença, referências fundamentais para a construção de sua identidade musical e de sua compreensão da canção como expressão poética e instrumento de reflexão humana.

A religiosidade exerceu papel importante em sua formação. Durante parte da juventude participou das atividades da Assembleia de Deus, experiência que contribuiu para desenvolver a sensibilidade melódica, a dramaticidade narrativa e a intensidade emocional presentes em sua obra. Nos primeiros anos da década de 1980 iniciou sua trajetória artística de maneira mais efetiva, participando de apresentações em eventos populares e festividades locais. Ainda jovem, recebeu seu primeiro cachê durante o carnaval de São José de Mipibu, episódio que simboliza o início de sua caminhada profissional na música.

1999

Em 1983, mudou-se para o município de Parnamirim, cidade onde consolidaria sua carreira artística e desenvolveria grande parte de sua atuação cultural. Na “Terra de Manoel Machado”, integrou a banda Natureza, atuando como baixista em apresentações realizadas em diversas cidades do Rio Grande do Norte. A experiência ampliou seus conhecimentos musicais e fortaleceu sua presença nos palcos. Posteriormente, aprofundou seus estudos de música, dedicando-se ao aprendizado do cavaquinho, da flauta doce e, sobretudo, da composição autoral, área na qual encontraria sua principal forma de expressão.

Um dos aspectos mais importantes de sua trajetória foi o aprofundamento nos estudos da literatura de cordel e das formas poéticas dos repentistas nordestinos. O domínio da métrica, da rima e da musicalidade dos versos tornou-se uma das marcas de sua produção artística. Suas composições apresentam forte elaboração literária sem perder a simplicidade comunicativa característica da canção popular nordestina. Em sua obra, letra e melodia surgem de forma integrada, revelando uma escrita musical refinada e profundamente ligada à tradição dos poetas populares. Sua produção estabelece uma ponte entre o cancioneiro nordestino e a moderna música popular brasileira, preservando identidade própria marcada pela valorização das raízes culturais, da memória afetiva e da autenticidade artística.

2003

Ao longo da carreira, Ismael Dumang consolidou-se como compositor de rara sensibilidade. Suas canções abordam temas como pertencimento, saudade, infância, fé, amor e identidade cultural, transformando experiências pessoais em mensagens universais. Em suas letras permanecem vivas as lembranças dos engenhos, das igrejas, das ruas de São José de Mipibu e das paisagens humanas do interior potiguar. Sua obra distingue-se pelo rigor na escolha das palavras, pela riqueza poética e pela profunda musicalidade dos versos.

A maturidade artística alcançada ao longo dos anos pode ser observada em sua vasta produção fonográfica. Em 1996 lançou o álbum Estação do Sonho, trabalho que marcou uma etapa importante de afirmação de sua linguagem autoral. Três anos depois, em 1999, apresentou Terra de Engenho, obra profundamente inspirada nas memórias da zona canavieira, nos engenhos e nas paisagens humanas do interior potiguar. Em 2003 lançou Astro de Quimera, ampliando o alcance poético de sua produção musical.

2004

No ano de 2004 veio a público o álbum Vivências, considerado um dos trabalhos mais representativos de sua trajetória. O próprio título sugere uma síntese de experiências humanas, afetivas e existenciais acumuladas ao longo da vida. O disco reúne as canções Vivências, Amo-te, A Ilusão da Vida, O Tempo da Canção, Fome, Frustrações, Pretensões, Poética, Queixumes, Prisioneiro, Tributo às Bicicletas, As Bem-Aventuranças, Saudade (instrumental) e Epílogo. O repertório oferece uma verdadeira janela para o universo criativo de Ismael Dumang, revelando reflexões sobre o amor, o tempo, os sonhos, as limitações humanas, as inquietações sociais e os dilemas da existência. Trata-se de um álbum em que o compositor expõe com maior clareza sua dimensão filosófica, sua sensibilidade poética e sua capacidade de transformar experiências cotidianas em arte.

2006

Dando continuidade à sua produção, lançou Palavras em 2006, reafirmando a importância da literatura e da poesia em seu processo criativo. Em 2008 apresentou Navegante, obra marcada pela simbologia das travessias humanas, dos encontros e dos caminhos percorridos ao longo da vida. No ano seguinte, em 2009, lançou Enigma das Estações, álbum que dialoga com as transformações do tempo, da natureza e da própria condição humana.

2008

Após um período dedicado a novas composições e projetos culturais, Ismael Dumang retornou à discografia com Cocada Sambótica, lançado em 2021, trabalho que evidencia sua permanente capacidade de renovação artística sem abrir mão de suas raízes culturais. Em 2023 apresentou Implacável Tempo, obra que aprofunda reflexões sobre a passagem dos anos, a memória, os afetos e a condição humana diante da inevitabilidade do tempo. Já em 2026 lançou Floresta Voraz, álbum que simboliza um novo momento de maturidade criativa, reafirmando a vitalidade de sua produção artística e sua permanente disposição para criar, renovar-se e dialogar com o público.

2009

Entre as composições associadas à sua produção artística destacam-se Terra de Engenhos, Lua de Céu-Sertão (Lua Mariana), O Canavial Invasor, Represa, Galope da Sabedoria, Sou, Barreta, O Preço de um Homem e O Velho Chico, obras que evidenciam sua forte ligação com a poesia, a memória nordestina e a valorização das experiências humanas.

2021

Além da carreira musical, desenvolveu importante atuação como cordelista, poeta e agente cultural. Participou de projetos promovidos pela Fundação Parnamirim de Cultura e contribuiu para iniciativas voltadas ao fortalecimento da produção artística local. Destaca-se sua participação no espetáculo Asas da História, de autoria de Makários Maia, para o qual compôs parte significativa da trilha sonora em uma de suas versões. Também participou de apresentações virtuais durante o período da pandemia e marcou presença em festivais, mostras de música autoral e eventos realizados em importantes espaços culturais do estado, incluindo o Teatro Alberto Maranhão.

2023

Mesmo após mais de quatro décadas de trajetória artística, Ismael Dumang permanece em plena atividade. Em 2024 participou de um especial musical ao lado do músico potiguar Almir Padilha, reafirmando sua presença constante na cena cultural do estado. Atualmente encontra-se em fase avançada de produção de um novo álbum autoral, projeto que deverá reunir composições inéditas e cuja previsão de lançamento está programada para o ano de 2027.

Floresta Voraz - 2026

Reconhecido pela coerência de sua obra e pela independência de sua criação artística, Ismael Dumang sempre manteve distância dos modismos passageiros e das imposições mercadológicas. Sua música caracteriza-se pela autenticidade, pela profundidade poética e pelo respeito às tradições culturais nordestinas. Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, consolidou-se como uma das vozes mais expressivas da música autoral do Rio Grande do Norte. Seu legado artístico, construído com sensibilidade, coerência e profundo respeito à cultura popular, contribui significativamente para o fortalecimento da identidade cultural de Parnamirim, de São José de Mipibu e de todo o estado do Rio Grande do Norte, tornando-o merecedor do reconhecimento público por sua relevante contribuição à música e à cultura potiguar.


domingo, 31 de maio de 2026

DA CAIXA DE PICOLÉS À LUTA SINDICAL: A TRAJETÓRIA DE JOSIVALDO NASCIMENTO E O COMPROMISSO COM A JUSTIÇA...

 

CHAPA 1

Conheci Josivaldo literalmente como nessa "fotografia" imaginária. E, por tudo o que ele é, por sua história honesta, justa, resiliente e exemplar, torço por ele. TORÇO PELA CHAPA 1. A história do professor Josivaldo Nascimento é daquelas que ajudam a compreender como a educação pode transformar vidas e como a persistência individual, quando associada ao compromisso coletivo, pode produzir importantes contribuições para uma comunidade inteira. Hoje pré-candidato à Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN, pela Chapa 1, Josivaldo apresenta uma trajetória construída a partir do trabalho precoce, da dedicação aos estudos, da atuação docente e de décadas de participação nas lutas sindicais em defesa da educação pública.

Nascido em 21 de setembro de 1978, na comunidade do Porto, no município de Nísia Floresta, Josivaldo é filho de Maria da Paz Nascimento, dona de casa e costureira, e de José Amador do Nascimento Neto, agricultor, pescador e feirante. Cresceu em uma família simples, formada por cinco filhos, em um ambiente marcado pelo trabalho e pelos valores da solidariedade familiar.
Desde cedo aprendeu que o esforço era parte da vida cotidiana. Ainda criança, aos nove anos de idade, passou a vender picolés pelas ruas da cidade, debaixo de sol ou chuva, para ajudar no orçamento doméstico. Aquela caixa de isopor carregada sob o sol do litoral sul potiguar tornou-se símbolo de uma fase importante de sua formação. Ao mesmo tempo em que trabalhava, mantinha firme o compromisso com os estudos. Na adolescência, passou a estudar à noite na Escola Municipal Yayá Paiva para conciliar educação e trabalho, demonstrando uma disciplina que o acompanharia por toda a vida. Nunca foi reprovado e sempre buscou fazer da escola um instrumento de crescimento pessoal.



Sua entrada no magistério ocorreu ainda muito jovem. Após prestar concurso público em 1996, foi convocado em 1997 para assumir uma vaga como professor da rede municipal, mesmo antes de concluir oficialmente o curso de Magistério, que finalizou em 1998. No dia 9 de março de 1997, deixava para trás a atividade de vendedor de picolés e iniciava sua carreira docente justamente na Escola Municipal Yayá Paiva, instituição que havia marcado sua própria trajetória como estudante.
Paralelamente ao exercício da profissão, continuou investindo em sua formação acadêmica. Em 1999 ingressou no curso de Matemática da Universidade Potiguar, concluindo a graduação em 2003. A partir de então, passou a atuar no Ensino Fundamental II, ampliando sua experiência na educação pública.
Entretanto, a história de Josivaldo não se limita à sala de aula. Sua consciência sindical começou a ser construída ainda como estudante. Em 1992, quando tinha apenas quatorze anos, testemunhou a primeira grande greve dos professores do município de Nísia Floresta. Naquele período, muitos profissionais recebiam salários inferiores ao mínimo legal e reivindicavam concurso público e plano de carreira. O movimento contou com o apoio dos Irmãos Maristas e marcou profundamente o jovem estudante, que passou a compreender a importância da organização coletiva e da luta por direitos.
A partir daquele momento, nasceu um interesse crescente pelo estudo das leis, da legislação educacional e dos mecanismos de defesa da categoria. Anos mais tarde, essa experiência transformaria sua vida.
Em 2006, diante da necessidade de reorganizar a representação sindical local, Josivaldo foi escolhido pela categoria para coordenar uma diretoria provisória responsável pela reconstrução do núcleo sindical de Nísia Floresta. Na época, a entidade encontrava-se praticamente desativada, sem sede própria, sem direção estruturada e com apenas quarenta associados.
O desafio era enorme. Entre abril e outubro daquele ano, percorreu todas as escolas do município realizando um trabalho de conscientização junto aos profissionais da educação. Muitas vezes utilizou recursos próprios para custear deslocamentos e visitas às unidades escolares. O resultado foi significativo: o número de filiados mais que dobrou, fortalecendo a representação da categoria.
Em dezembro de 2006, foi inaugurada a primeira sede sindical reorganizada, localizada na Travessa Padre José Hermínio. Embora modesta, aquela estrutura representava uma conquista histórica para os trabalhadores da educação do município. A partir dali, o sindicato ganhou visibilidade, ampliou sua atuação e consolidou sua presença junto aos professores das redes municipal e estadual.
Durante muitos anos, Josivaldo conciliou as atividades sindicais com a rotina de professor. Lecionava durante o dia e dedicava noites, finais de semana e horários de intervalo ao trabalho sindical. Entre reuniões, assembleias, elaboração de documentos e negociações com gestores públicos, construiu uma atuação marcada pela defesa dos direitos da categoria.
Um dos episódios mais importantes dessa trajetória ocorreu em 2015, durante a segunda greve dos professores do município. O movimento reivindicava o reajuste do Piso Nacional do Magistério e a realização de concurso público. Após intensas mobilizações e disputas judiciais, foi firmado um compromisso institucional que contribuiu para viabilizar o concurso realizado em 2016, ampliando o quadro efetivo da educação municipal.
Ao longo dos anos, sua atuação também ultrapassou as fronteiras do município. Participou de atividades promovidas pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), integrou debates relacionados ao combate ao racismo, esteve presente em encontros nacionais sobre educação e acompanhou discussões sobre políticas públicas voltadas para a valorização dos profissionais do ensino.
Essa experiência ajuda a compreender sua atual pré-candidatura à Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN. Para Josivaldo, a luta sindical não se restringe às questões salariais ou funcionais. Ela também envolve o combate às desigualdades, o enfrentamento ao preconceito e a defesa da dignidade humana. Em suas palavras, promover igualdade racial significa defender humanidade, justiça social e consciência histórica.
Sua trajetória pessoal parece dialogar diretamente com essa compreensão. Filho de trabalhadores, oriundo de uma comunidade popular, vendedor de picolés na infância, professor concursado, dirigente sindical e defensor da educação pública, Josivaldo construiu uma história marcada pela superação de obstáculos e pelo compromisso com causas coletivas.
Ao apresentar seu nome para compor a Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN, leva consigo não apenas décadas de atuação sindical, mas também a experiência de quem conhece, por vivência própria, os desafios enfrentados pelos trabalhadores da educação e pelas populações historicamente submetidas à exclusão social.
Mais do que uma candidatura, sua trajetória representa um percurso de dedicação à educação, à organização dos trabalhadores e à construção de uma sociedade mais justa. Da caixa de picolés carregada pelas ruas de Nísia Floresta aos espaços de representação sindical em âmbito estadual, a história de Josivaldo Nascimento demonstra como a educação, o trabalho e o compromisso coletivo podem caminhar lado a lado na formação de uma liderança construída ao longo do tempo e da experiência. Por essa história, por ser testemunha, me honra apresentar esse nome a quem porventura não o conheça...