Entre os documentos que me ajudaram a
reconstruir a história da família, alguns têm um valor especial, como esse, cuja transcrição paleográfica se fiz há pouco mais de um mês. Afirmo isso porque um material desse porte permite esclarecer relações que, à primeira vista, poderiam passar despercebidas e revelam inúmeras informações preciosas, como veremos. Nesse caso, analiso a certidão de casamento, registrada no Rio de Janeiro em 30 de julho
de 1893. O documento registra o casamento do meu tio-bisavô Alferes José Thomaz de
Magalhães Fontoura, então com 38 anos de idade, natural do Estado
do Rio Grande do Norte, militar e residente no Rio de Janeiro. O registro
declara expressamente que ele era “filho legítimo de José Thomaz de
Magalhães Fontoura e Maria Joconda Belmiro”, meus trisavós.
A informação é preciosa porque, à
primeira vista, o nome do noivo poderia levar a uma identificação equivocada.
O José Thomaz de Magalhães Fontoura (1868–1945), que aparece neste
assento de 1893, não é o mesmo José Thomaz de Magalhães Fontoura
(1829–1913). O que ocorre, nesse caso, é um filho que tem o mesmo nome do
pai. Ambos são José Thomaz de Magalhães Fontoura.
José Thomaz de Magalhães Fontoura
(1829–1913) era casado com Maria Jucunda Belmiro (1835–...),
bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã de Antônia
Clara Freire do Revoredo, mãe de Nísia Floresta. Entre os filhos desse
casal estava Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950),
minha bisavó, que se casou com Abel Gomes Peixoto. Dessa união
nasceu José Gomes Peixoto (1889–1958), que, por sua vez, foi pai de
minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932).
Capitão José Thomaz de Magalhães
Fontoura e Maria Jucunda Belmiro, meus trisavós, são pais de:
· Maria Clara de Magalhães Fontoura
(minha bisavó)
· Josefa Cecilia Fontoura Peixoto
· João Romão de Magalhães Fontoura
· José Thomaz de Magalhães
Fontoura
· Romualdo Fontoura Pereira
· Claudina Alexandrina Fontoura Castro
· João Gualberto Fontoura
· Maria Senhorinha Fontoura
· Atanásio de Magalhães Fontoura
· Ana Amélia Fontoura Cordeiro
· Francisco Thomaz de Magalhães
Fontoura
· Candido de Magalhaes Fontoura
José Thomaz de Magalhães Fontoura
(1829–1913) e Maria Jucunda Belmiro tiveram, segundo o levantamento genealógico
familiar, doze filhos, entre eles, minha bisavó Maria Clara de Magalhães Peixoto
Fontoura e meu tio-avô Alferes José Thomaz de Magalhães
Fontoura, que se casou no Rio de Janeiro, em 1893. É justamente aí que está
o significado genealógico da certidão de casamento que veremos abaixo. Maria
Clara e José Thomaz eram irmãos e, portanto, ambos trinetos de Francisca Clara
Freire do Revoredo, irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo,
mãe de Nísia Floresta. Como Maria Clara integra a linha direta da minha
ascendência, José Thomaz era meu tio-bisavô. Na direção inversa,
eu, Luís Carlos Freire, sou sobrinho-bisneto de José Thomaz de
Magalhães Fontoura e tetraneto de Francisca Clara Freire do Revoredo.
A certidão de 1893 vem, assim,
acrescentar uma importante evidência documental à reconstrução familiar,
contribuindo especialmente para distinguir os dois José Thomaz de
Magalhães Fontoura, pai e filho, que viveram em gerações sucessivas e receberam
o mesmo nome. O documento também chama atenção por identificar o noivo
como “Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura”, isto é, por
registrar sua condição militar. Esse detalhe é particularmente significativo,
pois permite confrontar a informação com outros registros históricos e ajuda a
individualizar o personagem dentro de uma família na qual o nome José
Thomaz de Magalhães Fontoura se repete entre gerações. Assim, esta
certidão de casamento, além de registrar a união de José Thomaz de
Magalhães Fontoura e Amélia Martins Pereira, realizada no Rio de Janeiro
em 30 de julho de 1893, revela uma informação genealógica de grande
importância: o noivo era filho de José Thomaz de Magalhães Fontoura e
Maria Jucunda Belmiro e, consequentemente, irmão de Maria Clara de Magalhães
Fontoura Peixoto.
Cabem neste texto três importantes
informações – duas delas localizadas na própria certidão de casamento – outra
que integra as informações passadas de pais para filhos no seio da nossa
família. Tais informações soam como curiosidade se analisadas aos olhos das
leis atuais. Vejamos: o noivo, José Thomaz de Magalhães Fontoura,
tinha 38 anos de idade, enquanto Amélia Martins Pereira tinha
16 anos. Havia uma diferença de 22 anos. Agora vejamos essa outra informação.
Minha bisavó Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto – irmã
de José Thomaz de Magalhães Fontoura – tinha 12 anos de idade
quando se casou – em 1873 – com o meu bisavô José Abel Peixoto,
tendo o mesmo 28 anos de idade, numa diferença de 16 anos. Em outras palavras:
o irmão se casaria com uma adolescente e veria no futuro sua irmã –
pré-adolescente – se casar com um homem também mais velho. Por mais que isso
soe esquisito nos dias atuais e seja inadmissível – perante a lei – era muito
comum naqueles tempos.
A outra informação diz respeito ao fato
de José Thomaz de Magalhães Fontoura ter se casado no Rio de
Janeiro, sendo do Rio Grande do Norte, mas convém aqui uma observação que
também corre no seio dos próprios antepassados. Ele era trineto de Francisca
Clara Freire do Revoredo e sabe-se que muitos da família migraram para
o Rio de Janeiro, onde deixaram descendência. Julgo também necessário – já que
citei o caso do casamento precoce de minha bisavó – aos 12 anos – Abel
Gomes Peixoto, seu marido, foi oficialmente nomeado Alferes da Guarda Nacional
em 16 de outubro de 1905, por decreto do Poder Executivo, cuja publicação
ocorreu no Diário Oficial de 24 de outubro de 1905.
Mais do que um simples registro de
casamento, portanto, esta certidão ajuda a resolver um problema recorrente nas
pesquisas genealógicas. O primeiro fato é distinguir pessoas de gerações
diferentes que têm o mesmo nome e que, se chegarem aos olhos de alguém que não
tem muito conhecimento da genealogia da família, podem gerar muita confusão.
Neste caso, o documento de 1893 nos permite separar o José Thomaz de Magalhães
Fontoura pai de seu filho homônimo e, ao mesmo tempo, acrescentar mais uma peça
à reconstrução da história da família. Outro detalhe bastante interessante se
refere ao fato de pessoas que, em documentos diferentes, tiveram seus nomes
escritos nas mais variadas formas e que, da mesma forma, se manipulados por
quem desconhece a genealogia da família, podem gerar muitos equívocos. Cito,
inclusive, o caso de Maria Jucunda Belmiro (minha trisavó), a
qual já li em documentos e manuscritos da própria família como as seguintes
versões: Maria Gioconda de Belmiro, Maria Gioconda Belmiro, Maria
Joconda Belmiro Peixoto, Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, Maria Grillo e
Maria Zulmira Fontoura. Observem a confusão... Mas isso era muito comum
no passado. Hoje isso não mais ocorre.
Enfim, o estudo de certidões de
casamento, óbito, nascimento, os inventários e demais documentos oficiais
funcionam como solo que esconde tesouros necessitados de conhecimento
genealógico, paleológico e, por que não, arqueológico...
Eis a certidão...
1170 - RIO DE JANEIRO - REGISTRO DE CASAMENTOS 1893
(TRANSCRIÇÃO PALEOGRÁFICA FEITA POR LUÍS CARLOS FREIRE)
Aos trinta dias do mês de julho de mil oitocentos e
noventa e três nesta
capital a sala da Casa da Ladeira do Senado número nove, aonde foi
vindo o doutor José Ovídio Marcondes , ahí pretor desta ..............
Pretoria, chamado para auxiliar os trabalhos da Pretoria comigo escrivão de seu
cargo ahi presentes às quatro horas da tarde os nubentes e as testemunhas
abaixo assignados pelos devidos ...... Pretos foram feitas aos nubentes as
perguntas na forma da lei aos quaes elles responderão satisfatoriamente, e para
declarar todas as formalidades legaes foram realisadas em matrimonio Alferes
José Thomaz de Magalhães Fontoura, natural do estado do Rio
Grande do Norte, de trinta e oito annos de idade, militar, morador a na
Casa acima, filho legitimo de José Thomaz de Magalhães Fontoura e Maria
Joconda Belmiro, com a Dona Amelia Martins Pereira, natural
desta capital, solteira, moradora na mesma Casa, de dezesseis annos de idade,
filha legitima de Francisco Martins Pereira e Roza
Herculana de Sarmento, sendo o nubente solteiro e o casamento pelo regime
communhão e de tudo para constar lavrei o presente termo depois que o Juiz
desta Pretoria ......................... Casados e depois de tudo assignão
com o Juiz e as testemunhas Francisco Martins Pereira, natural de
Portugal, casado, negociante, morador à rua Frei Caneca número cento e
vinte e seis e assignão também as pessoas presentes ao Acto de
Celebração do Casamento. Eu, Manoel Joaquim da Silva
......................
José Orélio Marcondes Romeiro
José Thomaz de Magalhães Fontoura
Amélia Martins Pereira
Francisco Martins Pereira
Gregorio Francisco Martins
Roza Emilia Martins
Cecilia Candida Ribeiro



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