ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 12 de setembro de 2026

MARIA CLARA, CASADA AOS 12 ANOS: A MULHER QUE PRECISOU EXISTIR EM UMA MENINA...


MARIA CLARA DE MAGALHÃES FONTOURA PEIXOTO, MINHA BISAVÓ

 

MARIA CLARA DE MAGALHÃES FONTOURA PEIXOTO, MINHA BISAVÓ

 

Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950) nasceu em Goianinha, no Rio Grande do Norte, e morreu em 1950, em Natal. Foi minha bisavó materna, mãe de José Gomes Peixoto (1889 – 1958), meu avô materno, e avó de minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932). Sua história se insere em uma antiga trama familiar que passa pelos Freire do Revoredo, pelos Ferreira da Silva, pelos Grillo, pelos Peixoto, pelos Magalhães Fontoura e pelos Belmiro, entre outros ramos que se entrelaçaram no Rio Grande do Norte ao longo do século XIX. Sua vida atravessou quase noventa anos e, por isso mesmo, acompanhou uma transformaçâo extraordinária do Brasil: nasceu ainda no Império de Pedro II, em uma sociedade escravista, viveu a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, atravessou as primeiras décadas republicanas e chegou a um país que, quando morreu, em 1950, já era muito diferente daquele que conhecera na infância. Mas é por outro acontecimento, ocorrido quando ela tinha apenas doze anos, que sua história permanece particularmente viva na memória da família: em 1873, Maria Clara casou-se com Abel Gomes Peixoto (1845–1946), que tinha então 28 anos. Ela contava doze; ele, 28. Dezesseis anos os separavam em idade e, sobretudo, em experiência de vida. Para nós, hoje, a distância parece enorme. Uma menina de doze anos é inequivocamente uma criança ou, no máximo, uma pré-adolescente. No Brasil do século XIX, entretanto, as fronteiras entre infância, adolescência e idade adulta eram percebidas de maneira muito diferente, e o casamento precoce de meninas, embora não fosse uma experiência universal, fazia parte das possibilidades socialmente admitidas em determinados meios. O casamento era uma das instituições fundamentais da organização familiar, e a vida das mulheres estava profundamente condicionada pela família, pelo marido e pelo espaço doméstico. Isso ajuda a compreender o acontecimento, mas não o torna menos impressionante para quem, quase um século e meio depois, procura imaginar aquela menina diante da própria vida matrimonial.

 

Existe, entretanto, uma lembrança familiar que torna a história de Maria Clara mais complexa e, ao mesmo tempo, mais humana. Uma prima mais velha do que eu contou-me que Maria Clara, embora tivesse se casado praticamente na infância, não teria ido diretamente para a casa e para os poderes do marido. Segundo essa lembrança, ela teria permanecido inicialmente na casa de uma familiar, onde ficou até tomar mais corpo, isto é, até alcançar maior desenvolvimento físico e maturidade. Não sabemos precisar quanto tempo durou essa permanência, nem podemos afirmar documentalmente a idade exata que ela passou a viver plenamente a vida conjugal, mas não deve ter se demorado tanto quanto comparamos muitos casos semelhantes desse período. Ainda assim, a lembrança merece ser conservada, porque oferece uma perspectiva que nenhum registro de casamento poderia oferecer. Ela sugere que, mesmo dentro das pr´ticas daquele tempo, alguém próximo à família poderia ter reconhecido que uma menina de doze anos ainda era pequena demais para assumir imediatamente a vida de esposa. Há, além disso, uma curiosa impressão que permanece nas fotografias de Maria Clara já idosa: ela aparece como uma mulher miúda, de pequena compleição, enquanto Abel Gomes Peixoto (1845–1946) é um homem grande e fisicamente imponente. Evidentemente, não seria possível concluir, a partir de retratos da velhice, exatamente como era o corpo de Maria Clara ao se casar. Mas a imagem da mulher pequena, associada à lembrança de que, ainda menina, teria permanecido na casa de uma familiar até “tomar mais corpo”, permite uma reflexão que talvez seja mais importante do que qualquer certeza documental. Por trás da mulher que posteriormente conhecemos nas fotografias, existiu uma menina. E é essa menina que precisamos tentar enxergar quando lemos que, em 1873, ela se casou com um homem de 28 anos.

 

O casamento, portanto, não deve ser compreendido apenas como uma data – 1873 – nem como uma informação isolada sobre a vida de duas pessoas. Ele precisa ser colocado dentro do mundo em que Maria Clara nasceu. O Brasil daquele ano era uma monarquia, ainda profundamente rural, hierarquizada e escravista. A sociedade era organizada em torno de relações familiares, patrimoniais e de autoridade que hoje nos são estranhas, e as possibilidades de autonomia das mulheres eram muito menores do que aquelas que, gradualmente, seriam conquistadas nas décadas seguintes. O casamento podia significar a passagem quase imediata da tutela paterna para a autoridade do marido. Por isso, a lembrança de que Maria Clara não teria sido entregue imediatamente à casa do esposo, caso corresponda de fato ao que aconteceu, ganha um significado especial. Talvez tenha havido uma transição entre a menina e a mulher; talvez a família tenha entendido que, apesar do casamento celebrado, ela ainda precisava permanecer sob a proteção de uma mulher mais velha. Não temos como saber exatamente o que ocorreu. Mas a própria existência dessa lembrança familiar revela que a idade de Maria Clara era percebida como algo extraordinariamente precoce, mesmo dentro daquele contexto. E talvez seja justamente nesse ponto que a memória familiar consiga aproximar-se de uma verdade humana que os documentos, sozinhos, não registram.

 

Maria Clara e Abel tiveram uma família numerosa. Entre os filhos que chegaram à idade adulta ou ficaram registrados na memória familiar estão Maria Emília Gomes Peixoto (nascida em 1877), Enéas Gomes Peixoto (1887–1950), Joaquim Gomes Peixoto (nascido em 1888), Maria Amélia Gomes Peixoto (nascida em 1888), José Gomes Peixoto (1889–1958), Pedro Abel Peixoto (1895–1974) e Beliza Gomes Peixoto, cuja data de nascimento e morte não tenho estabelecida. José Gomes Peixoto (1889–1958), meu avô materno, foi o filho de Maria Clara através do qual sua história chegou diretamente à minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932). A existência dessa família numerosa acrescenta outra dimensão à imagem daquela menina de doze anos: a menina do casamento tornou-se mãe e, depois, avó, deixando atrás de si uma descendência que atravessaria o século XX. A história familiar conserva ainda a presença de Rosa Gomes Peixoto, filha de Abel com uma mulher escravizada que havia sido alforriada, fruto de uma relação de adultério. Rosa não deve ser confundida com os filhos de Maria Clara, mas sua existência também pertence à história daquele mesmo núcleo familiar e revela, de maneira particularmente dolorosa, como as relações pessoais estavam atravessadas pela escravidão e pelas profundas desigualdades sociais do Brasil oitocentista. Maria Clara, portanto, viveu dentro de uma sociedade em que casamento, família, propriedade, escravidão e autoridade estavam intimamente ligados. A história de sua casa não pode ser separada completamente da história do mundo social que a cercava.

 

É nesse contexto que a figura de Nísia Floresta aparece como um contraponto particularmente expressivo. Nísia Floresta Brasileira Augusta, nome literário de Dionísia Gonçalves Pinto (12 de outubro de 1810–24 de abril de 1885), era parente de Maria Clara por meio da família Freire do Revoredo: Antônia Clara Freire do Revoredo (1780–1855), mãe de Nísia, era irmã de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), antepassada de Maria Clara. Por essa linha, Maria Clara e Nísia pertenciam ao mesmo universo familiar, embora em diferentes gerações. A linhagem de Maria Clara passava ainda por Anna Francisca Ferreira da Silva (1793–?), filha de Francisca Clara, e por Manoel Joaquim Grillo (1790–?),com quem Anna Francisca se casou, chegando a Maria Jucunda Belmiro (1835–?), mãe de Maria Clara. O pai de Maria Clara foi o Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), filho de Manoel Thomaz Peixoto (1798–1869) e Claudina Maria Manuela de Castro (falecida em 1869). Assim, a história de Maria Clara reúne, em poucas gerações, famílias como Freire do Revoredo, Ferreira da Silva, Grillo, Peixoto, Castro, Belmiro e Magalhães Fontoura.

 

E existe entre as histórias de Maria Clara e Nísia uma coincidência que chama a atenção: Nísia também se casou muito jovem. Em 1823, aos treze anos, apaixonou-se por Manuel Alexandre Seabra de Melo, proprietário de terras, e quis casar-se com ele, recebendo o apoio dos pais. Isso pode hoje parecer estranho, mas seus pais tinham uma mentalidade diferente da que predominava em seu meio e não se opuseram à escolha da filha. O casamento, entretanto, não durou sequer um ano. Quando Nísia retornou à casa dos pais, eles a acolheram normalmente, ao contrário da sociedade, que a censurou e a apedrejou moralmente. Mais tarde, em 1828, passou a viver com Manuel Augusto de Faria Rocha, então estudante de Direito, com quem teve dois filhos: Lívia Augusta de Faria Rocha, nascida em 1830, e Augusto Américo de Faria Rocha, nascido em 1833. Manuel Augusto morreu em 1833, aos 25 anos, deixando Nísia viúva e com os dois filhos pequenos. Sua vida tomou então um rumo excepcional para uma mulher do século XIX: tornou-se escritora, educadora e uma das mais importantes vozes brasileiras em defesa da educação feminina e da ampliação do lugar das mulheres na sociedade. Maria Clara e Nísia, portanto, tiveram uma experiência inicial semelhante – ambas se casaram ainda meninas –, mas suas vidas tomaram caminhos completamente diferentes. Uma tornou-se uma personagem pública da história intelectual brasileira; a outra permaneceu principalmente dentro da esfera familiar. Essa diferença não diminui Maria Clara. Ao contrário, ajuda a perceber que a história das mulheres do século XIX não pode ser contada apenas através das que escreveram livros ou participaram da vida pública. A grande maioria viveu no silêncio das casas, criou filhos, manteve famílias e deixou sua marca de uma forma que só muito mais tarde poderia ser percebida.

 

A casa onde Maria Clara nasceu acrescenta uma dimensão material a essa lembrança. A Fazenda Bigle, situada na região em que hoje se encontra o município de Lagoa de Pedras, conserva a casa associada à família e à infância de Maria Clara. Eu não sabia da existência dessa casa, nunca havia estado no local e tampouco imaginava que ela guardasse uma memória tão expressiva de nossa família. A descoberta foi, para mim, semelhante a uma descoberta arqueológica: de repente, aquilo que eu conhecia apenas por nomes e histórias dispersas parecia ganhar um lugar concreto, uma casa, paredes e um espaço físico onde viveram os meus antepassados. Embora eu soubesse desses membros da nossa família, a descoberta sobre essa casa é recente. Um primo, Valdo Fontoura, hoje com 83 anos, que mantém a fazenda, contou-me que a casa guarda uma enorme galeria de fotografias de nossos antepassados. Essa galeria tem, para mim, um significado especial, pois, sem dúvida, é como se as paredes dessa casa tivessem congelado o tempo. As paredes da antiga casa conservaram uma parte da família que os documentos oficiais não conseguiram transmitir e que eu jamais imaginara encontrar. Rostos, gerações, expressões, roupas e corpos tornam visível aquilo que, de outro modo, seria apenas uma sucessão de nomes e datas.

A tradição familiar atribui a construção da casa ao Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto (16 de setembro de 1841–18 de novembro de 1945), irmão do Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), pai de Maria Clara; portanto, tio dela. A tradição também associa a construção ou consolidação da casa ao retorno do Major da Guerra do Paraguai. É significativo que o livro Os Trocos de Goianinha, de Ormuz Barbalho Simonetti, registre Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, também conhecida como Maria Jucunda Belmiro (1835–?), mãe de Maria Clara, como “Mãe do Bigle”, enquanto José Thomaz de Magalhães Fontoura, meu trisavô, era conhecido como “Papai Velho”. Esses apelidos, preservados na memória escrita da região, dizem muito sobre a importância que ambos tiveram na vida daquela comunidade e sobre a permanência da Fazenda Bigle na mem´ria de Goianinha.

Os Troncos de Goianinha, 2008.

A própria paisagem administrativa da região mudou várias vezes depois que Maria Clara nasceu, embora a terra, naturalmente, tenha permanecido no mesmo lugar. Na época de Maria Clara, a área pertencia a Goianinha. Com a criação do município de Santo Antônio, pelo Decreto nº 32, de 5 de julho de 1890, parte da região passou a integrar o novo município, desmembrado de Goianinha. No ano seguinte, porém, Santo Antônio foi extinto pelo Decreto nº 102, de 31 de março de 1891, e seu território voltou a ser anexado a Goianinha. A autonomia municipal foi restaurada em 8 de janeiro de 1892, pelo Decreto nº 6. Mais tarde, Santo Antônio passou a chamar-se Padre Miguelinho em 1943, recuperando o nome Santo Antônio em 1948. Finalmente, em 10 de maio de 1962, pela Lei Estadual nº 2.779, Lagoa de Pedras foi desmembrada de Santo Antônio e tornou-se município. Assim, a região da Fazenda Bigle, que no tempo de Maria Clara pertencia a Goianinha, passou pela circunscrição de Santo Antônio – com aquela breve reintegração a Goianinha entre 1891 e 1892 – e hoje integra o município de Lagoa de Pedras. Essa sucessão de nomes e limites municipais é, de certa forma, uma lembrança de que as fronteiras administrativas mudam muito mais rapidamente do que a memória das famílias e a permanência das casas.

Há, porém, uma lembrança ainda mais forte associada à Fazenda Bigle, porque ela nos obriga a olhar para a história de Maria Clara não apenas como a história de uma família, mas como parte da história da escravidão no Brasil. Valdo Fontoura contou-me que José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), pai de Maria Clara, quando residia na Fazenda Bigle, possuía dezenove pessoas escravizadas. Uma delas, ao morrer, teve uma capela erguida no local em sua homenagem. Essa pequena construção, até hoje preservada, representa uma das mais fortes materializações da memória daquele período, inclusive um de seus cuidadores é Toni Fontoura (irmão de Naldo Fontoura), padre na Bahia e que todo ano vem para organizar festejos no local. José Thomaz morreu em 1913, vinte e cinco anos depois da Abolição da Escravatura. Essa distância temporal é importante: ele pertenceu a uma geração que viveu diretamente a escravidão e, depois, passou ainda um quarto de século em uma sociedade formalmente livre. A morte de José Thomaz em 1913 mostra, de maneira muito concreta, que a memória da escravidão não está tão distante no tempo quanto às vezes imaginamos. Pessoas que possuíam escravizados chegaram a conviver por décadas com filhos, netos e bisnetos daqueles que haviam sido escravizados. A história de Maria Clara, portanto, estásituada exatamente nessa zona de transição entre dois Brasis: o Brasil escravista de sua infância e o Brasil pós-abolição de sua velhice.

A tradição familiar conta que Francisca Clara Freire do Revoredo, bisavó de Maria Jucunda Belmiro, possuía muitos escravizados. Desse modo, diante da informação transmitida por Valdo Fontoura sobre a existência de dezenove pessoas escravizadas na Fazenda Bigle durante o período em que José Thomaz de Magalhães Fontoura ali residiu, percebe-se que ele e Maria Jucunda representaram a última geração da família a manter escravizados naquela propriedade, onde viveu sua filha Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto, trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo.

É impossível não pensar que Maria Clara cresceu dentro desse mundo. Quando se casou, em 1873, a escravidão ainda era uma realidade legal no país e permaneceria assim por mais quinze anos. Quando seu pai, José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), morreu, em 1913, a escravidão já havia sido abolida havia 25 anos. Quando Maria Clara morreu, em 1950, haviam se passado 62 anos desde a Lei Áurea. Sua própria vida, portanto, cobre praticamente a passagem entre esses dois mundos. Ela nasceu em uma sociedade na qual pessoas podiam ser legalmente propriedade de outras pessoas e morreu em uma sociedade que já considerava a escravidão uma instituição pertencente ao passado. Mas esse passado não estava distante: estava nas fotografias, nas casas, nas histórias contadas pelos mais velhos, nos nomes das pessoas, nos lugares onde haviam vivido e morrido e, sobretudo, na própria memória familiar.

Também é significativo que todos os antepassados de Maria Clara, segundo a memória da família, estejam sepultados em Goianinha, inclusive sua avó, Francisca Clara Freire do Revoredo, enquanto ela própria repousa no Cemitério do Alecrim, em Natal. Existe aí uma espécie de deslocamento silencioso: os que vieram antes dela permaneceram ligados à terra de origem, enquanto Maria Clara, já pertencente a outra geração e a outro momento histórico, terminou seus dias em Natal. Goianinha guarda, assim, as raízes mais antigas de sua fam´lia; Natal guarda o lugar onde sua longa vida chegou ao fim. Entre esses dois pontos está a existência de uma mulher que nasceu numa fazenda, casou-se aos doze anos, teve uma família numerosa e viveu o suficiente para assistir à transformação quase completa do mundo em que havia nascido. Talvez seja esse o aspecto mais impressionante de sua história.

 

Ontem, dia 11 de setembro de 2026, conversando – por telefone – com minha mãe, ela disse que sua avó Maria Clara era muito reservada e polida. Só conversava o necessário, por isso alguns netos não se aproximavam muito dela. Quando pensamos em Maria Clara, é fácil deixar que a informação “casou-se aos doze anos” se transforme apenas em uma curiosidade familiar. Mas, quando procuramos imaginar a menina por trás dessa informação, tudo muda. Ela tinha doze anos quando se casou com um homem de 28. Talvez tenha permanecido inicialmente sob os cuidados de uma familiar; talvez tenha esperado até uns 14 anos para assumir efetivamente a vida conjugal. Não sabemos. Sabemos, porém, que aquela menina cresceu, tornou-se mulher, teve filhos e viveu até os 89 anos, que seu filho José nasceu em 1889, no mesmo ano em que o Brasil se tornou uma República, que seu pai morreu em 1913, quando a Abolição já pertencia a uma geração anterior. Sabemos que ela própria morreu em 1950, quando o país já havia passado por mudanças políticas, sociais e culturais que seriam inimagináveis para a menina de 1873. E sabemos que, por meio de seus filhos e netos, sua vida continuou.

 

É nesse sentido que a história de Maria Clara talvez possa ser compreendida como a história de uma mulher comum que viveu um tempo extraordinário. Ela não foi uma escritora como Nísia Floresta, não deixou uma obra intelectual conhecida, não ocupou um lugar de destaque na vida pública. Sua existência foi principalmente doméstica e familiar. Mas justamente por isso ela nos permite olhar para o século XIX de um ângulo diferente. Nísia nos mostra a mulher que rompeu com as expectativas de seu tempo e transformou a própria experiência em palavra pública. Maria Clara nos mostra a mulher que permaneceu dentro das estruturas de seu tempo e cuja história chegou até nós através das gerações, das fotografias, das casas e das lembranças contadas pelos mais velhos. Uma escreveu para o mundo; a outra permaneceu na memória de uma família. Mas as duas, pertencentes ao mesmo grande universo familiar e separadas por apenas algumas décadas, carregam em suas vidas uma mesma marca: a entrada precoce no casamento.

 

Talvez seja por isso que a lembrança de Maria Clara aos doze anos permaneça tão perturbadora e tão necessária. Não se trata de julgar uma mulher que viveu em outro século pelos critérios do presente, nem de transformar em normal aquilo que hoje reconhecemos como uma infância interrompida. Trata-se de tentar compreender. E compreender, neste caso, significa olhar para aquela menina dentro de sua época, sem esquecer aquilo que sabemos hoje sobre a infância e sobre a desigualdade entre homens e mulheres. Significa reconhecer que o casamento de 1873 foi possível porque existia uma sociedade que o admitia, mas também significa perceber, através da memória de que ela teria permanecido inicialmente na casa de uma familiar, que a própria família talvez tivesse consciência de sua pouca idade e de sua fragilidade. Entre o documento e a lembrança existe uma zona que não podemos preencher com certezas. É justamente ali que nasce a reflexão.

 

Maria Clara morreu em 1950 e foi sepultada no Cemitério do Alecrim. Seus antepassados, que durante gerações permaneceram ligados a Goianinha, ficaram para trás, sob a terra onde aquela história familiar começou. A Fazenda Bigle continua como um lugar de memória, e a casa conserva, nas fotografias reunidas, os rostos de muitas das pessoas que vieram antes de nós. Talvez seja esse o melhor modo de recordar Maria Clara: não apenas como a mulher que se casou aos doze anos, mas como a menina que existiu antes daquele casamento e como a mulher que, depois dele, atravessou quase todo um século de história brasileira. Entre a menina de 1873 e a senhora de 1950 há uma vida inteira, uma vida que começou em Goianinha, passou pela Fazenda Bigle, pelo casamento com Abel Gomes Peixoto, pela maternidade e pela família, atravessou o fim da escravidão e do Império, acompanhou o nascimento da República e terminou em Natal. E é justamente porque hoje podemos olhar para trás, com a distância de várias gerações, que aquela menina de doze anos pode finalmente ser vista não apenas como um nome em uma família, mas como uma pessoa situada no seu tempo, com todas as circunstâncias, limitações, afetos e mistérios que a sua longa vida deixou para nós. E existe entre as histórias de Maria Clara e Nísia um contraste que sintetiza as tensões do próprio século XIX. Enquanto Nísia rompeu com as amarras de seu tempo, usou a voz literária para questionar a opressão patriarcal e defendeu o direito das mulheres à educação e à autonomia, Maria Clara viveu a realidade concreta e silenciosa dessas mesmas amarras, casando-se na infância e cumprindo o destino tradicional da maternidade e do espaço doméstico. Ainda assim, as duas trajetórias não se anulam; completam-se. Nísia Floresta escreveu sobre os direitos que Maria Clara, em sua miúda complexidade, buscou tatear quando a família decidiu que ela precisava 'tomar corpo' antes de ser inteiramente esposa. Olhar para ambas é compreender que a história das mulheres no Rio Grande do Norte fez-se tanto pelo grito público da intelectualidade quanto pela resistência silenciosa e íntima das meninas que, feito Maria Clara, guardaram sua própria humanidade em um mundo de homens grandes.

OBS. Qualquer diz desses, vou à Fazenda Bigle para registrá-la. Inclusive Naldo me disse que eles também guardam alguns bens pessoais que pertenceram ao Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto.

 

REFERÊNCIAS

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO GRANDE DO NORTE. História legislativa dos municípios do Rio Grande do Norte. Natal: Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Norte.

CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOA DE PEDRAS. História de Lagoa de Pedras. Lagoa de Pedras, RN: Câmara Municipal.

CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOA DE PEDRAS. História do município. Lagoa de Pedras, RN: Câmara Municipal, 2026. Disponível em: https://camaradelagoadepedras.rn.gov.br. Acesso em: 12 ago. 2026.

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: Editora Universitária/UFRN, 1995.

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. São Paulo: Cortez, 1989.

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO. Nísia Floresta. Recife: Fundação Joaquim Nabuco.

FREIRE, Luís Carlos. O casamento do meu tio-bisavô, Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura e Dona Amélia Martins Pereira em 1893... Nísia Floresta por Luís Carlos Freire, 2026. Disponível em:

https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2026/08/o-casamento-do-meu-tio-bisavo-alferes.html. Acesso em: 12 set. 2026.

 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Histórico do município de Santo Antônio, Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: IBGE, 2026. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 12 set. 2026.

 

PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTO ANTÔNIO (RN). Histórico do município. Santo Antônio, RN: Prefeitura Municipal.

 

REGISTROS, fotografias e documentos familiares relativos a Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950), Abel Gomes Peixoto (1845–1946), José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), à Fazenda Bigle e aos seus descendentes. Acervo particular da família Fontoura Peixoto.

SIMONETTI, Ormuz Barbalho. Os trocos de Goianinha. Natal, RN: Offset Gráfica, 2008. 604 p.

TRADIÇÃO ORAL e depoimentos de familiares relativos à Fazenda Bigle, especialmente informações transmitidas por Valdo Fontoura. Acervo memorialístico familiar.

.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ACTA NOTURNA - SANTA CRUZ DA BICA: CEM ANOS DE UM ALERTA DESCONHECIDO...

Essa fotografia mostra uma perspectiva muito interessante do Baldo e da Cidade Alta. O elemento metálico em formato de torre ao centro é uma das estruturas da antiga Empresa d’Água Natal, de Bigois & Leinhardt, exatamente o marco histórico citado por Nestor Lima no texto anterior para explicar quando a Cruz foi movida de sua posição original de descida para o pedestal definitivo. 

O QUE NESTOR LIMA DIRIA HOJE?

Há um clássico que sempre gosto de assentá-lo ao presente estilo de texto. É uma frase do grande mestre Câmara Cascudo "Natal não consagra nem desconsagra ninguém". Genial como era, com certeza essa frase retratava bem a realidade de sua época, mas não combina mais com a atualidade, pois esse marco de excepcional significado hist´rico é um dos monumentos desconsagrados da velha Natal. O local não tem recebido o devido olhar urbanístico, nem turístico nem histórico e eventualmente é vandalizado. A outra Santa Cruz - que demarcada o perímetro da Urbes da época -, nas proximidades da Assembleia Legislativa foi derrubada sabe-se lá quando e nem mesmo um minúsculo registro existe no local. E assim, esquecidos, invisíveis, desconsagrados seguem alguns elementos históricos de Natal. Exemplo recente, dentre tantos, é casa que pertenceu a Romualdo Galvão, posta abaixo pelo - pasmem - SESC. E isso não é novidade.

Vez por outra, a história abre uma fresta para a dúvida: foi assim mesmo? Nestor Lima já fazia esse movimento em 1926, ao questionar qual seria, de fato, o “Rio Grande” que deu nome ao nosso Estado. Um ano depois, voltaria seu olhar para outro vestígio quase esquecido da fundação de Natal: a Santa Cruz da Bica, que ele considerava uma das mais preciosas relíquias do passado colonial potiguar. Sempre que passo pelos limites da Cidade Alta e olho para a encosta sul, nas proximidades do Baldo, não consigo deixar de pensar no quanto de nossa história permanece diante dos nossos olhos sem que a reconheçamos. 

A Santa Cruz da Bica, muitas vezes encoberta pela paisagem urbana e pela pressa cotidiana, resiste como uma espécie de testemunha silenciosa dos primeiros tempos de Natal. O mais inquietante, porém, é perceber que há quase um século Nestor Lima já advertia que a razão de ser daquele monumento estava praticamente perdida na memória dos natalenses. Se isso já o preocupava em 1927, o que dizer de nós, quase cem anos depois? Para compreender sua importância, é preciso voltar aos primeiros anos da ocupação portuguesa. Depois da construção do Forte dos Reis Magos, em 1598, e das lutas que marcaram a conquista do território, a paz com os potiguaras abriu caminho para a formação da povoação. 

Atual estado da Santa Cruz da Bica

Frei Vicente do Salvador registrou que, feitas as pazes, “se começou a fazer uma povoação no Rio Grande, uma légua do forte”. Outros historiadores, entre eles Vicente de Lemos e Rocha Pombo, referem-se à existência de um “sítio da cidade”, cujo perímetro teria sido demarcado por Jerônimo de Albuquerque. É justamente aí que começa a hipótese de Nestor Lima. Se a povoação havia sido oficialmente planejada e seu sítio delimitado, seria razoável supor que a demarcação tivesse deixado algum vestígio material. O problema é que, segundo ele, a tradição e os documentos não conservavam notícia clara desses marcos. Entretanto, havia dois antigos cruzeiros posicionados nas extremidades da área elevada onde Natal começava a se constituir: um ao norte, a antiga Cruz do Norte, desaparecida posteriormente, e outro ao sul, a Santa Cruz da Bica, que sobreviveu, embora profundamente modificada. Para Lima, essa localização não seria uma simples coincidência. Os dois cruzeiros formariam uma espécie de eixo norte-sul, correspondendo ao antigo alinhamento do terreno em que se estabeleceu a cidade. A Cruz do Norte teria existido aproximadamente onde hoje se encontra a Assembleia Legislativa, enquanto a Santa Cruz da Bica permanecia na encosta sul, nas proximidades do antigo rio da Passagem, ou Baldo. A hipótese é que esses dois sinais religiosos fossem, na realidade, marcos da delimitação primitiva do “sítio da cidade” de Natal. 

Eventualmente a Cruz da Bica sofre vandalismo. 

Há, nessa interpretação, algo especialmente fascinante: a possibilidade de que um objeto aparentemente religioso e popular tenha desempenhado também uma função territorial. A cruz não seria apenas símbolo da fé dos colonizadores. Poderia representar posse, domínio, conquista e demarcação. Nestor Lima lembrava que era prática dos portugueses e castelhanos assinalar, com cruzes, territórios conquistados e acontecimentos considerados memoráveis. A Santa Cruz da Bica, portanto, poderia ser muito mais antiga e significativa do que a tradição popular deixou registrado. O próprio nome “Bica” acrescenta outra camada à memória do lugar. A cruz esteve associada à área de águas e ao antigo curso do rio da Passagem, posteriormente afetado pelas intervenções urbanas e pelos serviços de abastecimento de água. 

Segundo Lima, a cruz teria sido deslocada para o pedestal atual quando da construção das instalações da antiga Empresa d’Água Natal, de Bigois & Leinhardt. Assim, até mesmo sua localização atual seria resultado de transformações posteriores. É preciso, naturalmente, tratar a interpretação de Nestor Lima como hipótese histórica, e não como uma certeza documental definitivamente comprovada. Ele próprio reconhecia isso ao afirmar que esperava que os estudiosos das velhas crônicas pudessem oferecer outra explicação. Mas terminava com uma frase de enorme força: enquanto não lhe provassem o contrário, considerava a Santa Cruz da Bica “a mais preciosa relíquia do nosso passado colonial”. 

Talvez seja essa a maior atualidade de seu texto. Independentemente de conseguirmos provar integralmente que a cruz foi um dos marcos utilizados por Jerônimo de Albuquerque, ela permanece como um testemunho material de uma Natal que já não existe. E é justamente por isso que deveria ser vista não apenas como objeto de devoção, mas como patrimônio histórico, urbano e afetivo da cidade. O que restou do nosso início? Restou uma cruz. Restou uma encosta. Restaram nomes de ruas, rios, ladeiras e lugares que atravessaram quatro séculos. Restaram, sobretudo, fragmentos de uma história que corremos o risco de perder não porque tenha desaparecido, mas porque deixamos de enxergá-la. Talvez a Santa Cruz da Bica nos faça uma pergunta incômoda: quantos outros marcos da fundação de Natal ainda estão diante de nós, esperando apenas que alguém volte a perguntar o que significam?

REFERENCIA BIBLIGRÁFICA:

LIMA, Nestor. Preciosa relíquia colonial. A Santa Cruz da Bica é um dos Marcos da Fundação de Natal. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Natal, v. XXIII-XXIV, p. 105-111, 1926-1927.

FOTOGRAFIA ANTIGA, ACIMA: Manoel Dantas, extraída do blog Tok de História.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ACTA NOTURNA - QUAL É O "RIO GRANDE” DO NORTE?

Rio Potengi cortando Natal, capital do Rio Grande do Norte.

Uma questão aparentemente simples e um capítulo esquecido da história potiguar

Essa prática de questionar fatos histórico é antiga. De tempos em tempos, a história abre uma fresta para a dúvida: foi assim mesmo? Nestor Lima já questionava, em 1926, portanto há 1 século, qual seria, de fato, o “Rio Grande” que deu nome ao Rio Grande do Norte; hoje, outra questão provoca a historiografia potiguar e brasileira: teria o Brasil sido “descoberto” pelo Rio Grande do Norte, antes da chegada oficial de Cabral? Bem, isso é só outro detalhe. O assunto aqui é outro...

Há nomes que parecem tão naturais que deixamos de perguntar de onde vieram. “Rio Grande do Norte” é um deles. O nome – belo por sinal – é repetido desde a infância por quem nasce neste solo, nos livros escolares, nos mapas, nos documentos oficiais e nas conversas cotidianas, sem imaginar que por trás dessas três palavras existe uma questão histórica que, há exatamente um século, provocou uma interessante controvérsia entre estudiosos norte-rio-grandenses. Há 100 anos Nestor dos Santos Lima questionou que rio era esse. Em 1926 ele perguntou “Qual é o Rio ‘Grande’ do Norte?” e hoje, sabendo de outro rio caudaloso que serpenteia o solo potiguar a pergunta permanece surpreendentemente provocadora. Afinal, se o Estado recebeu seu nome de um rio chamado “Rio Grande”, qual rio era esse? O Potengi, como tradicionalmente aprendemos? Ou o Açu, como sustentou, com argumentos que merecem ser revisitados, o historiador, professor e intelectual assuense?

Antes de refletirmos sobre o assunto, julgo interessante uma explicação sobre o “Norte”, do Rio Grande do Norte. A denominação Rio Grande do Norte tem origem hist´rica. Inicialmente, a capitania era chamada simplesmente de Rio Grande, em referência ao rio que, segundo a interpretação tradicional, corresponde ao atual Potengi. Posteriormente, para diferenciá-la de outra região denominada Rio Grande, situada ao sul e que viria a formar o Rio Grande do Sul, acrescentou-se a expressão “do Norte”. Assim, embora o Estado pertença geograficamente à Região Nordeste, seu nome preserva uma distinção histórica entre dois antigos “Rios Grandes”: o do Norte e o do Sul.

Retomando a reflexão sobre qual o Rio Grande, se o Açu ou Potengi, a questão não é apenas uma curiosidade toponímica. Ela nos conduz a um problema maior: como os lugares recebem seus nomes, como esses nomes sobrevivem ao tempo e como determinadas interpretações históricas acabam transformando-se em verdades aparentemente incontestáveis. Nestor Lima escreveu seu artigo em 1926, quando a explicação corrente afirmava que o Rio Grande do Norte recebera esse nome por causa do rio Potengi, que banha Natal. A Revista Escolar, de Fortaleza, havia reafirmado essa interpretação. Lima, entretanto, considerava-a equivocada e se propôs a contestá-la. O artigo foi publicado na Revista Escolar, em maarço daquele ano, e posteriormente reproduzido em 1927 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Rio Açu, também chamado de Rio Piranha-Açu.

O primeiro aspecto que chama a atenção é a segurança com que Lima apresenta sua discordância. Ele não trata o assunto como mera hipótese curiosa. Para ele, havia ocorrido um “equívoco” que atravessara anos e autores e que precisava ser corrigido. Sua investigação partia de uma pergunta aparentemente elementar, mas profundamente histórica: qual era, afinal, o rio chamado pelos portugueses de “Rio Grande”? O Potengi ou o Açu? A argumentação de Nestor Lima organiza-se em três frentes: a linguística, a geográfica e a histórica. Seu primeiro argumento está na própria palavra Açu. Segundo ele, a expressão indígena permitiria interpretar o nome como “rio grande”. Já Potengi possuiria outro significado, relacionado aos camarões ou ao fumo, e, portanto, não poderia ser compreendido como “rio grande”. Hoje, a discussão etimológica exige algumas cautelas. A tradição linguística associada a Potengi relaciona o termo ao universo tupi e ao significado de “rio dos camarões”; trabalhos sobre a história do rio confirmam que a denominação ind´gena sobreviveu em registros coloniais sob formas como “Potigi” ou “Potengi”.

Mas o que torna o texto de Lima particularmente interessante não é apenas saber se sua etimologia estava correta em todos os detalhes. É perceber que ele utilizava a linguagem como uma chave para reinterpretar a própria história territorial do Estado. Se Açu significava “rio grande”, e se esse era também o maior rio da região, parecia-lhe lógico concluir que aquele deveria ser o rio que dera nome à capitania. É justamente nesse ponto que surge uma segunda dimensão de sua argumentação: a geografia. Para Lima, não fazia sentido atribuir a um curso d'água de importância relativamente menor a designação que teria dado nome a todo um território . O Açu aparecia, em sua interpretação, como o grande eixo hidrográfico do Rio Grande do Norte. Sua bacia alcançaria extensas áreas do interior, receberia diversos afluentes e estaria associada a uma das regiões agrícolas mais importantes da antiga capitania. O Potengi, por sua vez, era apresentado por Lima de maneira deliberadamente provocativa: um rio de importância local, relacionado à área de Natal e, em sua interpretação geográfica de então, tributário do Jundiaí.

Essa oposição entre o rio da capital e o rio dos sertões talvez seja uma das dimensões mais sugestivas do texto. Nestor Lima nasceu em Assú e dedicou grande parte de sua produção intelectual à história, à geografia e às territorialidades do interior norte-rio-grandense. Estudos recentes sobre sua obra destacam precisamente seu interesse pelos sertões, pelo Seridó e pela região do Assú. Assim, não seria exagero enxergar no artigo também uma tentativa de deslocar o centro da narrativa histórica do Estado. A história do Rio Grande do Norte não deveria, para ele, ser pensada exclusivamente a partir de Natal e do litoral. O Açu, os sertões e suas ribeiras também constituíam elementos fundamentais da identidade potiguar.

O terceiro argumento é talvez o mais fascinante. Nestor Lima recorre à documentação e aos relatos dos primeiros navegadores europeus para tentar localizar o “Rio Grande” dos primeiros tempos da colonização. Ele menciona Alonso de Hojeda, Américo Vespúcio, Juan de la Cosa e Gabriel Soares, procurando demonstrar que a descrição de um grande rio que desembocava no oceano por vários braços corresponderia à foz do Açu. A hipótese ganha ainda mais força, em seu raciocínio, quando relacionada à distribuição das terras da capitania. Lima afirma que as cinquenta léguas concedidas por D. João III a João de Barros alcançariam justamente a região da foz do Açu. Aqui é importante destacar que a própria documentação colonial permite compreender que a delimitação das capitanias é mais complexa do que muitas narrativas escolares fazem parecer. A documentação relativa à doação de terras a João de Barros e à formação da Capitania do Rio Grande é objeto de estudos específicos. A carta de doação hoje conhecida indica uma divisão territorial que relaciona as terras de João de Barros à região entre a Baía da Traição e o Açu. Isso significa que o argumento de Nestor Lima não pode simplesmente ser descartado como uma excentricidade de um historiador local. Ele estava dialogando com problemas reais da cartografia, da documentação colonial e da definição dos limites territoriais. Entretanto, uma questão permanece: a localização de um rio descrito como “grande” pelos navegadores significa necessariamente que o nome da capitania tenha sido derivado daquele rio? É justamente aí que a interpretação tradicional apresenta sua força.

A historiografia que se consolidou posteriormente manteve o Potengi como o rio associado ao nome da Capitania do Rio Grande. A documentação e os estudos históricos registram que, no final do século XVI, a expedição portuguesa que empreendeu a conquista efetiva da região alcançou a barra do atual Potengi. Em 25 de dezembro de 1597, a expedição comandada por Manuel de Mascarenhas Homem chegou à foz do rio, e ali começou o processo que conduziria à construção da Fortaleza da Barra do Rio Grande, posteriormente conhecida como Fortaleza dos Reis Magos. É significativo que a fortificação tenha sido chamada Fortaleza da Barra do Rio Grande. O nome “Rio Grande” estava, portanto, associado àquele estuário, isto é, ao espaço onde posteriormente se desenvolveria Natal.

Estudos contemporâneos sobre o Rio Grande do Norte também registram a utilização da denominação “Rio Grande” para a capitania e observam que, somente posteriormente, a expressão “do Norte” se consolidou como forma de distingui-la do Rio Grande do Sul. Nesse sentido, a explicação tradicional não depende exclusivamente da etimologia de “Potengi”. Ela se apoia sobretudo na documentação histórica do período colonial, na associação entre o estuário e a denominação “Rio Grande” e na permanência dessa designação para a capitania. O que aconteceu, então, com a tese de Nestor Lima? Ela não desapareceu completamente. Seu artigo permanece como um documento valioso da própria história da historiografia potiguar. Um trabalho acadêmico recente sobre Nestor Lima identifica expressamente “Qual é o Rio Grande do Norte?” como um texto em que o autor questiona se o “Rio Grande” correspondia ao Açu ou ao Potengi. E talvez seja justamente aí que esteja a maior importância desse episódio.

Mais importante do que decidir é compreender a pergunta. Hoje, provavelmente, não precisamos escolher entre Nestor Lima e a historiografia consolidada como se estivéssemos diante de uma disputa que só pode produzir um vencedor. O mais produtivo é compreender por que essa pergunta surgiu e o que ela revela sobre a construção da memória histórica do Rio Grande do Norte. O nome de um Estado parece uma coisa objetiva. Mas nomes são construções históricas. Eles resultam de encontros entre povos, línguas, mapas, interesses políticos, interpretações geográficas e decisões administrativas. O caso potiguar é especialmente rico porque envolve dois rios com enorme importância histórica: o Potengi, profundamente associado a Natal e à conquista portuguesa do litoral; e o Açu, eixo fundamental da ocupação e da história dos sertões.

Talvez o grande mérito de Nestor Lima tenha sido justamente nos obrigar a olhar para esse segundo rio. Quando dizemos “Rio Grande do Norte”, quase automaticamente pensamos em Natal, no Forte dos Reis Magos e no Potengi. Raramente pensamos no vale do Açu, em suas várzeas, em sua bacia hidrográfica ou em seu papel na interiorização da ocupação colonial. A pergunta de Nestor Lima, portanto, continua viva não necessariamente porque sua conclusão tenha prevalecido – ela não prevaleceu na historiografia dominante –, mas porque nos ensina a desconfiar das respostas que parecem óbvias demais.

Enfim, qual é o Rio “Grande” do Norte? Historicamente, a interpretação hoje predominante associa o nome ao Rio Grande identificado com o Potengi. Mas a controvérsia levantada por Nestor Lima demonstra que a história da denominação não é tão simples quanto a fórmula encontrada nos livros escolares. E há uma ironia particularmente bonita nisso tudo: o rio que hoje chamamos Potengi carrega um nome indígena que sobreviveu à colonização, enquanto o nome português “Rio Grande” desapareceu do curso d'água, mas permaneceu vivo no nome de um Estado inteiro. Assim, talvez a pergunta de Nestor Lima deva ser lida menos como uma tentativa de substituir definitivamente um rio por outro e mais como um convite à reflexão sobre quem nomeia os lugares, quem escreve sua história e quais memórias acabam permanecendo enquanto outras são esquecidas. Um século depois, recuperar essa polêmica é também recuperar uma parte pouco conhecida da intelectualidade norte-rio-grandense. É devolver visibilidade a um debate que envolveu geografia, linguística, cartografia, memória e identidade regional. E talvez seja essa a verdadeira riqueza do texto de Nestor Lima: ele nos lembra que, por trás de um nome aparentemente banal – Rio Grande do Norte – existe uma história de disputas, interpretações e esquecimentos.

Observação Importante: a tese de Nestor Lima deve ser apresentada hoje como uma interpretação historiográfica de 1926, e não como consenso atual. A documentação histórica consolidada associa o “Rio Grande” da capitania ao rio que corresponde ao atual Potengi, especialmente no contexto da conquista portuguesa de 1597-1598. Isso, porém, não diminui o valor do texto de Lima: ao contr´rio, torna a polêmica ainda mais interessante, porque revela como a própria historiografia potiguar discutiu – e continua discutindo – a formação de sua identidade territorial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVEAL, Carmen; FAGUNDES, José Evangelista; ROLIM, Leonardo; DIAS, Thiago Alves; TORRES, Thiago (org.). Rio Grande (do Norte): história e historiografia. Mossoró: EDUERN, 2021.

DUTRA, Adalgisa Maria Alencar. Viajando os sertões: Nestor Lima e a territorialização das cidades sertanejas na obra “Municípios do Rio Grande do Norte” (1938-1942). 2021. 93 f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Ensino Superior do Seridó, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Caicó, 2021.

INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Natal: Typographia d'A República, 1927. v. 23-24.

LIMA, Nestor dos Santos. Municípios do Rio Grande do Norte. Natal: Tipografia Santo Antônio, 1942. 2 v.

LIMA, Nestor dos Santos. Qual é o Rio “Grande” do Norte? Revista Escolar, Fortaleza, n. 9, mar. 1926.

LIMA, Nestor dos Santos. Qual é o Rio “Grande” do Norte? Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Natal, v. 23-24, p. 163-167, 1927.

LOPES, Fátima Martins (org.). Catálogo de documentos manuscritos avulsos da Capitania do Rio Grande do Norte (1623-1823). Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; Projeto Resgate Barão do Rio Branco, 2024.

MEDEIROS, Tarcísio. Aspectos geopolíticos e antropológicos da história do Rio Grande do Norte. Natal: Imprensa Universitária, 1973. 

domingo, 6 de setembro de 2026

OFAIÉS-CHAVANTES NO PORTO XV DE NOVEMBRO EM 1924 - OS REGISTROS DO GENERAL MALAN HÁ 102 ANOS...

INDÍGENAS OFAIÉS CHAVANTES ÀS MARGENS DO RIO PARANÁ, ALTURA DA ATUAL PORTO XV - 1924 (GENERAL MALAN).

ESSAS SÃO AS FOTOGRAFIAS MAIS ANTIGAS QUE EXISTEM DOS OFAIÉS-CHAVANTES...

Em 1924, o General Alfredo Malan d’Angrogne percorreu a região sul de Mato Grosso e deixou um conjunto de registros que hoje possui extraordinário valor histórico. Entre fotografias de caminhos, rios, balsas, pontes, travessias de gado e aspectos da paisagem, encontram-se imagens dos Ofaié, então também identificados nas legendas como “Chavantes”, às margens do rio Paraná. O Núcleo de Documentação Histórica Honório de Souza Carneiro, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, considera essas imagens as fotografias mais antigas de que se tem notícia sobre esse povo indígena.

INDÍGENAS OFAIÉS CHAVANTES ÀS MARGENS DO RIO PARANÁ, ALTURA DA ATUAL PORTO XV - 1924 (GENERAL MALAN).

O conjunto é especialmente revelador porque registra não apenas pessoas, mas também o território em que viviam e as condições de deslocamento da época: o Taquaruçu, o rio Verde, o Porto Quinze e o próprio Paraná aparecem como elementos fundamentais daquela paisagem. Há ainda um esboço cartográfico da região Sul de Mato Grosso, compondo, ao lado das fotografias, um pequeno testemunho visual de uma região que passava por transformações e cuja história seria profundamente marcada pelas relações entre território, circulação, atividades econômicas e populações indígenas.

INDÍGENAS OFAIÉS CHAVANTES ÀS MARGENS DO RIO PARANÁ, ALTURA DA ATUAL PORTO XV - 1924 (GENERAL MALAN).

Vistos hoje, quase um século depois, esses registros ultrapassam a condição de simples documentos militares ou de viagem. São fragmentos visuais de um mundo desaparecido, capazes de aproximar o presente de pessoas, lugares e paisagens que já não podem ser observados da mesma maneira. Por isso, as fotografias de Malan possuem importância que vai muito além da figura do próprio general: elas constituem uma rara janela para a história dos Ofaié e para a paisagem humana e geográfica do sul de Mato Grosso em 1924.

PASSAGEM DE CURSO D'ÁGUA EM PORTO XV

PORTO XV

ATRAVESSANDO GADO NO RIO PARANÁ


CAMINHÃO VARANDO O TAQUARUSSU

ESBOÇO DA REGIÃO DO SUL DO MATO GROSSO EM 1924

CONSTRUÇÃO DA PONTE SOBRE O RIO TAQUARUSSU


BALSA NO RIO VERDE

MORADIA OFAIÉ

ANTIGA PONTE SOBRE O RIO PARANÁ


1.007.780: UM MILHÃO, SETE MIL, SETECENTOS E OITENTA OLHARES PARA A HISTÓRIA, A POESIA, A CRÔNICA E O IMAGINÁRIO POPULAR...

1.007.780 VISUALIZAÇÕES: UM ARQUIVO VIVO CONTRA O ESQUECIMENTO

Hoje, ao cumprir o meu ritual rotineiro de acessar o painel de controle do meu blog, inserindo a minha senha de administrador, deparei-me com um número que me fez pausar os olhos por alguns instantes: 1.007.780 visualizações. Obviamente que, daqui há alguns segundos, esse número terá avançado, pois visualizações esttarão sempre acontecendo. Confesso, fui tomado por uma genuína surpresa. Quem me acompanha por aqui sabe muito bem que a contagem de acessos é um assunto sobre o qual nunca escrevi. Mais do que isso, é algo que eu sequer costumo acompanhar. Este espaço nasceu e permanece vivo sob uma premissa muito clara: é o meu passatempo, um refúgio pessoal onde escrevo quando a vontade bate e o tempo permite. Não sou youtuber, não vivo da efemeridade das redes sociais e nem estou aqui para competir.

É óbvio que vivemos em uma era onde os fenômenos da internet alcançam a marca de um milhão de acessos em uma semana; alguns, mais fulminantes, conseguem o feito em um único dia. Alguns, prestam grande serviço ao bem comum, outros, são futilidade pura. Mas a dinâmica de um blog cultural e histórico é de outra natureza. Nós, que habitamos os bastidores dessas páginas e as acessamos pelo painel administrativo, por senha, temos uma visão panorâmica e detalhada do que acontece. Sabemos quais municípios nos visitam, quais países nos encontram, o volume de acessos nas últimas duas horas, no dia, na semana, no mês e ao longo de todo o tempo de existência do projeto.

TRINTA MIL E OITOCENTAS VISUALIZAÇÕES  NA POSTAGEM "A LINGUAGEM NO RIO GRANDE DO NORTE"

Olhando para esses dados, vejo que este espaço é acessado no mundo inteiro. Naturalmente, as visitas internacionais ocorrem em menor grau, visto que o nosso conteúdo é estritamente voltado para o Brasil e, predominantemente, dedicado a resgatar a história e o legado da intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta. Convenhamos, os temas que trato por aqui - centralizados na História e, em menor escala, na poesia e na cultura popular - não possuem o apelo de massa capaz de gerar uma explosão de acessos em poucos dias. Literatura de nicho, voltada para a memória histórica e documental, atrai um público muito específico: aqueles que, como eu, possuem um amor profundo pelas nossas raízes e pelo resgate de identidades que o tempo insiste em tentar apagar. E é exatamente por isso que a minha surpresa se transformou em uma profunda alegria. Não há vaidade nisso, fiquem tranquilos. Afinal, o objetivo fundamental de qualquer pessoa que se predispõe a sentar diante de uma tela para escrever é, simplesmente, ser lido. Saber que um projeto focado em temas tão densos e específicos alcançou a marca fiel de 1.007.780 visualizações na tela do meu contador de páginas é, para mim, um feito extraordinário.

Nesta caminhada que já soma 17 anos - cruzando o tempo desde a fundação deste espaço, em 2009, até este ano de 2026 -, (embora, anteriormente eu havia criado o primeiro em 2003 e o deletei), o blog se consolidou como um arquivo vivo. E talvez esteja justamente aí o significado mais bonito dessa marca. Um acesso não é apenas um número que aumenta no contador. É uma pessoa que, em algum momento, procurou uma informação e encontrou aqui uma fotografia, um documento, uma história, um nome, uma lembrança ou uma pista para continuar sua própria pesquisa. Alguns chegam por acaso; outros retornam muitas vezes. São poucos os seguidores, e os que mais o pesquisam são os que menos o seguem, pois o número de seguidores é de 58 pessoas. Mas isso não reflete os acessos.  Há estudantes, professores, pesquisadores, genealogistas, escritores e simplesmente pessoas curiosas querendo saber um pouco mais sobre aquilo que lhes pertence por nascimento, por memória ou por afeto. O blog é uma fonte de conhecimento e de inspiração para muitos, seja em aspectos da história, seja em crônicas e prosas poéticas. Ao olhar para tudo isso, percebo também que este blog atravessou uma parte considerável da própria história da internet. Desde 2009, mudaram as plataformas, os hábitos de leitura, as redes sociais e a maneira como as pessoas procuram informação. Muitas páginas nasceram e desapareceram nesse intervalo. Este espaço, porém, continuou aqui. Sem pressa, sem compromisso comercial e sem a pretensão de ser uma grande plataforma, foi acumulando textos, fotografias, documentos, pesquisas e memórias. O tempo, que tantas vezes destrói os vestígios do passado, acabou trabalhando a favor deste pequeno arquivo.

SETE MIL, QUINHENTAS E 6 VISUALIZAÇÕES NA POSTAGEM "VIÚVA MACHADO: UMA MULHER DESCONSAGRADA".

Para além de um projeto de pesquisa, este espaço carrega um valor profundamente íntimo. Como bisneto de Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto, trineta de Franscisca Clara Freire do Revoredo, irmã da mãe de Nísia Floresta, sinto que a memória dessa ascendência atravessa este trabalho. Cada linha escrita sobre a personagem Dionísia Gonçalves Pinto Lisboa, sobre Papary, sobre a extensão de Camurupim ou sobre as ruínas da Capela de Cururu funciona como uma trincheira contra o esquecimento e, ao mesmo tempo, como um tributo à história familiar e à memória coletiva. Talvez, portanto, 1.007.780 não seja apenas uma grande quantidade de visualizações. É a dimensão que um trabalho pessoal pode alcançar quando permanece fiel àquilo em que acredita. São mais de um milhão de pequenas possibilidades de encontro entre o passado e alguém do presente. E existe algo ainda mais bonito nisso: amanhã, quando já não estivermos aqui para contar determinadas histórias, talvez alguém encontre uma dessas páginas e descubra nelas aquilo que o tempo quase conseguiu apagar.

É nesse sentido que considero esta marca verdadeiramente especial. Não porque o número seja extraordinário diante dos gigantes da internet, mas porque ele é extraordinário para aquilo que este blog sempre se propôs a ser. Atingir essa marca histórica me dá a certeza de que a memória de Nísia Floresta e a riqueza da história potiguar continuam incrivelmente vivas. Meu mais sincero obrigado a cada estudante, pesquisador, professor, curioso ou amante da poesia que passou por aqui, inscreveus-se ou não, deixou um comentário ou compartilhou um texto ao longo de quase duas décadas. Que este arquivo continue vivo. Que outras pessoas encontrem estas páginas. E que, enquanto houver alguém disposto a lembrar, aquilo que merece ser lembrado não desapareça.

Luís Carlos Freire

sábado, 5 de setembro de 2026

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

PADRE AMARO THEOT CASTOR BRASIL: UM SACERDOTE NORTE-RIO-GRANDENSE NA GUERRA DO PARAGUAI

Acervo: Igreja Matriz de São João Batista, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro

Entre os norte-rio-grandenses que participaram da Guerra do Paraguai, a trajetória do Padre Amaro Theot Castor Brasil apresenta uma singularidade que merece atenção especial. Sua participação no conflito não se explica apenas pela mobilização militar que alcançou diferentes regiões do Império, nem pode ser compreendida da mesma maneira que a trajetória dos demais homens de sua família que seguiram para a guerra. Amaro era sacerdote, formado no Seminário de Olinda e ordenado em 16 de junho de 1862 por Dom João da Purificação Marques Perdigão, bispo de Pernambuco. Quando a Guerra do Paraguai começou, portanto, sua vida já estava orientada para o exercício do ministério religioso. Ainda assim, em 1865, tomou a decisão de alistar-se e acompanhar as tropas brasileiras como capelão militar. Essa circunstância confere à sua história uma dimensão particular, pois ele não abandonou a condição sacerdotal para assumir simplesmente a de combatente: levou consigo a própria vocação religiosa para dentro de uma campanha militar que se prolongaria por aproximadamente cinco anos. O material que estudei até o momento situa seu nascimento em 1838 na antiga Campo Grande, na região correspondente ao atual município de Paraú, identificando-o como filho de Jeronymo José Correia Peixoto e Joana Baptista Martins da Silva.

Antes de nos aprofundarmos, julgo oportuno um esclarecimento sobre o nome do padre Amaro. Embora ele possuísse o sobrenome do pai, Peixoto, ele adotou Amaro Theot Castor Brasil como uma escolha de caráter eclesiástico e patriótico. Essa informação consta no diário de seu irmão, Manoel Martins Correia e Castro - Alferes da 2ª Companhia - o qual teve a feliz iniciativa de registrar o que viveu na Guerra do Paraguai e obviamente informações sobre os irmãos que junto com ele estavam ali, O termo "Theot" é uma abreviação erudita e devocional para Theotókos (Mãe de Deus, em grego), e "Castor" fazia alusão à sua postura firme de protetor, enquanto o "Brasil" foi assumido como sobrenome patriótico em face da Guerra do Paraguai. A documentação histórica nem sempre registra uma mesma pessoa de maneira uniforme. No século XIX, era relativamente comum que indivíduos passassem a ser conhecidos e até a assinar seus escritos, cartas e documentos por nomes diferentes daqueles recebidos no batismo. Isso podia ocorrer por diversas razões: uso de apelidos familiares que acabavam se tornando nomes públicos; abreviações ou modificações do nome de batismo; homenagem a pessoas, lugares ou ideias; afirmação de identidade pessoal ou literária; convenções sociais; ou, especialmente entre escritores e jornalistas, a adoção deliberada de pseudônimos. Em alguns casos, o nome escolhido tornou-se tão conhecido que praticamente substituiu o nome de batismo na memória histórica.

O Brasil do século XIX oferece exemplos bastante expressivos desse costume. Nísia Floresta Brasileira Augusta, nascida Dionísia Gonçalves Pinto, é talvez um dos casos mais próximos da realidade potiguar: adotou o nome pelo qual se tornou célebre e passou a assinar sua produção intelectual dessa maneira. Outro exemplo é Qorpo-Santo, nome pelo qual ficou conhecido o escritor e dramaturgo gaúcho José Joaquim de Campos Leão. Também Sousândrade, poeta maranhense do século XIX, tornou-se conhecido por esse nome, derivado de seu nome de nascimento, Joaquim de Sousa Andrade. O próprio filho de Nísia Floresta, Joaquim Pinto Lisboa, assinava Joaquim Pinto Brasil. Esses casos ajudam a demonstrar que, para o pesquisador, não se deve pressupor que a forma pela qual uma pessoa ficou conhecida corresponda necessariamente ao nome que consta em seu registro de batismo. Todos os documentos eclesiais assinados pelo Padre Amaro Theot Castor Brasil passaram a ser assim assinados após a Guerra do Paraguai.

Essa prática era particularmente significativa no ambiente literário e jornalístico. O anonimato e os pseudônimos foram amplamente utilizados pela imprensa brasileira oitocentista, inclusive por autores hoje conhecidos por seus nomes civis. Por isso, quando aparecem em documentos históricos nomes diferentes para uma mesma pessoa, é necessário investigar se estamos diante de indivíduos distintos, de uma variação ortográfica, de um apelido incorporado à vida pública ou de um nome deliberadamente escolhido pelo próprio indivíduo. No caso de Padre Amaro Theot Castor Brasil, essa observação é especialmente pertinente. O fato de determinada fonte utilizar apenas “Amaro”, outra registrar “Padre Amaro Theot” e outra apresentar o nome mais completo não significa, por si só, que se trate de pessoas diferentes. A identificação deve ser estabelecida pela combinação de outros elementos – filiação, local de nascimento, atividade sacerdotal, datas, cargos exercidos e acontecimentos biográficos –, e não exclusivamente pela forma do nome. É justamente esse cuidado que permite ao pesquisador acompanhar uma pessoa através de documentos produzidos em épocas e circunstâncias diferentes, preservando a distinção entre o nome de batismo, o nome pelo qual era conhecido e eventual nome adotado para assinar ou se apresentar publicamente.

Independentemente dessa divergência, sua origem familiar é bastante clara: Amaro pertencia a uma família estabelecida na região de Campo Grande e ligada à história daquela localidade, especialmente à Fazenda Espírito Santo, propriedade de seu pai, Jeronymo José Correia Peixoto, meu tio-tetravô, irmão do meu tetravô Manoel Thomaz Peixoto, pai do meu trisavô José Thomaz de Magalhães Fontoura, pai da minha bisavó Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto, mãe do meu avô Abel Gomes Peixoto, pai de Maria José Freire, minha mãe. O padre Amaro Theot era meu primo em primeiro grau, três gerações afastado, pois era primo-irmão do meu trisavô, José Thomaz de Magalhães Fontoura.

O contexto familiar é indispensável para compreender a decisão de Padre Amaro, embora não devamos reduzir sua trajetória à história dos parentes que o acompanharam. Seus irmãos Manoel Martins Correia e Castro, Antônio Martins Correia e José Lucas Barbosa também participaram da Guerra do Paraguai, e com eles seguiu o primo Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto. Foram cinco Peixotos participantes da Guerra do Paraguai. Philippe Guerra registrou posteriormente que Padre Amaro “seguiu de Campo Grande com mais dois irmãos e dois parentes para o Paraguay”, acrescentando que os cinco fizeram a campanha como Voluntários da Pátria e regressaram como oficiais. A documentação memorialística relativa ao grupo identifica os quatro parentes que acompanharam Amaro e preserva inclusive os nomes pelos quais alguns deles ficaram conhecidos na tradição local: Capitão Manuelzinho, Alferes Toinho, Tenente Zumba e Major Cornélio. Não é necessário, contudo, aprofundar aqui as biografias desses homens, pois cada uma delas constitui uma história própria. O que interessa, neste estudo, é perceber que Amaro partiu inserido em uma circunstância familiar muito específica. Ele não era um sacerdote que, isoladamente, decidiu conhecer a guerra; estava inserido em um grupo de irmãos e parentes que se dirigia para o conflito e no qual ele desempenharia uma função inteiramente diferente.

A própria composição desse grupo suscita uma questão que considero particularmente significativa como pesquisador e parente desses cinco homens: seria possível que a decisão de Amaro tivesse também uma motivação familiar, além das razões patrióticas e religiosas que naturalmente podem ser associadas à sua escolha? Não existe, nas fontes reunidas, uma declaração do próprio sacerdote que permita afirmar isso como fato, e seria metodologicamente incorreto apresentar uma hipótese como se fosse uma informação documental. Entretanto, não me parece descabido considerar que a presença de três irmãos e de um primo entre os homens destinados à guerra possa ter pesado em sua decisão. Um sacerdote que acompanhasse aqueles parentes poderia exercer uma função que nenhum outro membro do grupo desempenharia da mesma maneira: prestar-lhes assistência religiosa, acompanhá-los nos momentos de enfermidade e perigo e, se necessário, administrar os sacramentos aos que estivessem feridos ou próximos da morte.

Não consigo deixar de considerar essa possibilidade, ainda que a trate apenas como hipótese. A guerra envolvia uma possibilidade concreta de morte, e Amaro, por sua formação e por sua função sacerdotal, certamente conhecia o significado espiritual que poderia assumir sua presença junto aos soldados. Não sabemos se ele pensou especificamente nos irmãos e no primo quando decidiu partir, mas a circunstância familiar torna essa interpretação plausível e confere à sua partida uma dimensão humana que as fontes militares, naturalmente mais preocupadas com postos, datas e operações, não conseguem registrar.

A formação religiosa de Amaro ajuda a compreender ainda melhor o contraste existente entre sua vida anterior e a experiência que decidiu enfrentar. Estudou no Seminário de Olinda e foi ordenado sacerdote em 16 de junho de 1862, três anos antes de partir para a guerra. Segundo Monsenhor Severino Bezerra, em Os Levitas do Senhor, quando começou o conflito Amaro tinha 27 anos e decidiu alistar-se para seguir ao campo de batalha juntamente com seus irmãos Manoel Martins Correia e Castro, Antônio Martins Correia e José Lucas Barbosa. O mesmo autor informa que o sacerdote saiu de Natal em 9 de junho de 1865 e somente retornou ao Brasil em maio de 1870. Durante esse período, sua vida esteve ligada ao Exército e às condições extremamente difíceis da campanha. O fato de ser capelão não significa que estivesse distante dos acontecimentos militares. O capelão acompanhava as tropas, prestava assistência religiosa aos soldados e podia estar próximo das áreas onde os combates ocorriam. No caso de Amaro, a documentação demonstra que sua participação foi efetiva. Adauto Miranda Raposo da Câmara, em O Rio Grande do Norte na Guerra do Paraguai, identifica-o como capelão-alferes da 1ª Companhia do Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande do Norte. Essa informação é particularmente importante porque coloca o sacerdote dentro da estrutura militar do contingente potiguar e confirma que sua presença na campanha não pertence apenas à tradição familiar ou à memória construída posteriormente.

Um dos episódios mais expressivos de sua trajetória ocorreu no combate de Potrero-Oveja, em 28 de outubro de 1867. A Ordem do Dia nº 152, expedida no Quartel-General em Tuiuti em 9 de novembro daquele ano, registra expressamente a presença de “o Sr. Capellão Alferes padre Amaro Theot Castor Brasil”. Trata-se de uma fonte contemporânea aos acontecimentos, produzida no contexto do próprio comando militar brasileiro, e por isso possui importância especial para a reconstrução de sua biografia. Monsenhor Severino Bezerra informa que o Marechal Marquês de Caxias citou Amaro na Ordem do Dia de 9 de novembro de 1867, elogiando seu comportamento durante o combate. A presença do nome do sacerdote nesse documento permite perceber que sua atuação não ficou restrita à rotina religiosa dos acampamentos. Ele estava inserido em uma campanha militar e teve seu comportamento reconhecido pelo comando. O próprio perfil traçado por Severino Bezerra reforça essa impressão, pois o autor descreve Amaro como inteligente, generoso, compreensivo e grande pregador sacro, mas também como homem de temperamento forte, valente e destemido. Registra ainda que era excelente cavaleiro e grande atirador com diferentes armas. Esse retrato é importante porque afasta duas interpretações igualmente simplificadoras: a de que Amaro teria sido apenas um padre que acompanhou os soldados sem participar efetivamente da realidade da guerra e, no extremo oposto, a de que teria deixado de ser sacerdote para transformar-se simplesmente em militar. Sua trajetória foi justamente marcada pela coexistência dessas duas dimensões.

A participação de Padre Amaro na Guerra do Paraguai precisa, portanto, ser observada dentro da própria natureza do sacerdócio exercido em uma campanha militar. Em um conflito marcado por combates, doenças, mortes e longos deslocamentos, a presença de um capelão assumia uma importância que ultrapassava a celebração regular dos ofícios religiosos. O sacerdote podia ouvir confissões, celebrar missas, administrar sacramentos, acompanhar os feridos e oferecer conforto espiritual aos homens submetidos a circunstâncias extremas. Quando esse sacerdote tinha, entre os militares que acompanhava, três irmãos e um primo, a dimensão dessa missão se torna ainda mais significativa, embora não possamos afirmar documentalmente que esse tenha sido o motivo determinante de sua decisão. É precisamente nesse ponto que a figura de Amaro se distancia dos demais integrantes de sua família. Amaro foi como sacerdote integrado à organização militar. Essa condição permite imaginar que, além de cumprir aquilo que considerava seu dever para com a Pátria e com a Igreja, pudesse sentir uma responsabilidade particular para com aqueles que partiam de sua própria casa e de sua própria comunidade. Como pesquisador e parente, considero difícil olhar para essa circunstância sem formular essa pergunta. Afinal, se seus irmãos e seu primo fossem feridos, quem estaria preparado para lhes prestar a assistência espiritual que um sacerdote poderia oferecer? Se um deles estivesse morrendo, quem poderia administrar-lhe os últimos sacramentos? Não há resposta documental para essas perguntas, mas elas ajudam a compreender a dimensão humana da decisão de Amaro sem que seja necessário transformá-la em certeza histórica.

Nova Friburgo, Rio de Janeiro, primeira paróquia onde o padre Amaro atual após retornar da Guerra do Paraguai.

O retorno ao Brasil, em maio de 1870, não significou o encerramento da história militar de Amaro nem, muito menos, o fim de sua vida sacerdotal. Ao contrário, terminada a guerra, ele retomou o exercício do ministério religioso e construiu uma longa trajetória pastoral. As informações sobre sua passagem por Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, entretanto, merecem uma precisão maior do que aquela apresentada anteriormente. 

Jornal A SEMANA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, ano 5, n. 246, p. 1, 7 set. 1879. Acervo: Hemeroteca Digital

A documentação localizada registra que, em 1879, Padre Amaro foi provido vigário encomendado da freguesia de São João Batista de Nova Friburgo, e uma nova provisão, em 1881, confirma sua permanência nessa função. A sede dessa freguesia era a Igreja Matriz de São João Batista, templo inaugurado em 8 de dezembro de 1869 e que corresponde à atual Catedral de São João Batista de Nova Friburgo, Rio de Janeiro. Uma fotografia histórica de 1870, pertencente ao acervo da Catedral, permite visualizar o templo poucos meses após sua inauguração, oferecendo uma imagem particularmente significativa da igreja que fazia parte da paisagem religiosa de Nova Friburgo no período em que Padre Amaro exerceu ali seu ministério.

Igreja Matriz de São João Batista, em Nova Friburgo. Foi nesta igreja, então sede da Paróquia de São João Batista, que Padre Amaro Theot Castor Brasil exerceu seu ministério como vigário de Nova Friburgo. A imagem permite visualizar o templo que fazia parte da paisagem religiosa da cidade durante sua passagem pelo município (Acervo: Catedral de Nova Friburgo, RJ)

Essa documentação precisa ser considerada ao lado da informação de Monsenhor Severino Bezerra, que situa Padre Amaro como vigário de Nova Friburgo em 1874. Há, portanto, uma pequena questão cronológica ainda a ser esclarecida pelas fontes primárias: não sabemos, com segurança, se houve uma primeira passagem pela cidade em 1874 e posterior retorno, ou se as fontes estão registrando períodos distintos de uma mesma atuação. O que já pode ser afirmado com segurança, porém, é sua ligação com a Paróquia de São João Batista de Nova Friburgo, comprovada documentalmente em 1879 e 1881. 

Jornal O Apóstolo, Rio de Janeiro, ano 16, n. 100, p. 3, 4 set. 1881. Acervo: Hemeroteca Digital

Há ainda outro dado significativo: a história da Euterpe Friburguense registra que, em 13 de junho de 1884, foi inaugurada a Capela de Santo Antônio, em Nova Friburgo, “sendo Vigário da Paróquia o Padre Amaro Theot Castor Brasil”. Esse conjunto de informações reforça a importância de Nova Friburgo em sua trajetória sacerdotal e permite identificar com maior precisão o espaço religioso em que exerceu seu ministério.

OBS. A aparente contradição cronológica sobre a permanência do Padre Amaro em Nova Friburgo antes de 1879 encontra esclarecimento no acervo biográfico do Centro de Pesquisa e Documentação Cultural de Juizados Especiais e Legislação do Estado (CEPEJUL), vinculado à Fundação José Augusto (FJA). Os registros oficiais revelam que, imediatamente após o término da Guerra do Paraguai, o sacerdote não regressou ao Nordeste, assumindo o vicariato encomendado da Paróquia de São João Batista de Nova Friburgo já no ano de 1870, onde permaneceu fixo até 1874. Essa evidência documental concilia a cronologia com as notas de Monsenhor Severino Bezerra e demonstra que os provimentos subsequentes de 1879 e 1881, localizados na imprensa oitocentista fluminense, não assinalavam sua estreia na região, mas sim uma segunda provisão e o aguardado retorno de um pastor que já havia conquistado a estima daquela comunidade.

Ceará-Mirim

Em data ainda não precisamente esclarecida, ele retornou para o Rio Grande do Norte e se tornou coadjutor em Ceará-Mirim; posteriormente, exerceu o vicariato de Caicó entre 1885 e 1894, esteve ligado à freguesia de Triunfo em 1895 e também atuou em Jucurutu. Sua passagem por Caicó foi suficientemente prolongada para que seu nome permanecesse incorporado à história religiosa daquela comunidade. A continuidade de sua vida sacerdotal depois da guerra é fundamental para compreender sua biografia, porque demonstra que o conflito foi um capítulo extraordinário, mas não uma ruptura definitiva com sua vocação. O homem que havia acompanhado soldados no Paraguai voltou a desempenhar funções pastorais e continuou sendo reconhecido principalmente como sacerdote. Essa permanência da identidade religiosa é uma das características mais interessantes de sua trajetória e mostra que a experiência militar foi incorporada à sua vida, e não utilizada para substituí-la.

Caicó

A personalidade de Amaro também emerge de maneira muito particular nos relatos de Monsenhor Severino Bezerra. O autor não o apresenta como uma figura idealizada, mas como um homem dotado de qualidades e defeitos, generoso e compreensivo, mas também franco, impetuoso e, por vezes, excessivamente direto. Uma pequena história preservada por Severino Bezerra ilustra esse aspecto. Em determinada ocasião, o padre João Alípio da Cunha teria cobrado de Amaro os emolumentos relativos a batizados realizados em sua paróquia, e o sacerdote respondeu por escrito com palavras de extrema franqueza, iniciando a correspondência desta forma: “Ao padre João Alípio da Cunha, vigário de Macaíba por infelicidade do povo e imprevidência do Bispo.” A passagem ajuda a compreender o temperamento atribuído a Amaro e demonstra que a mesma personalidade vigorosa que aparece associada à sua coragem na guerra também se manifestava em sua vida cotidiana. Severino Bezerra registra ainda que o sacerdote recebeu do Imperador D. Pedro II a condecoração da Ordem de Cristo, da Ordem da Rosa e a Medalha de Mérito Militar da Campanha do Paraguai, reconhecimento que demonstra a importância atribuída à sua atuação. Assim, a memória de Amaro reúne duas dimensões aparentemente distintas, mas que nele coexistiram: a do sacerdote dedicado à pregação e ao ministério e a do homem que havia demonstrado coragem e habilidade no ambiente militar.

A ligação de Amaro com sua terra e com a religiosidade familiar também aparece depois da guerra. Segundo o material reunido, sua mãe, Joana Batista Martins da Silva, teria feito uma promessa de que, se seus quatro filhos regressassem vivos da Guerra do Paraguai, seria construída uma capela em agradecimento. A tradição familiar, portanto, conservou a guerra não apenas como um episódio militar, mas como uma experiência vivida com apreensão no interior da própria família. Todos os homens regressaram vivos, e essa circunstância teria sido associada à promessa religiosa feita pela mãe. Mais tarde, o próprio Amaro participou diretamente de outra iniciativa religiosa relacionada à região de sua família. Sua tia Raulina, descrita como muito devota do Espírito Santo, teria incentivado a doação de terras para o patrimônio do padroeiro. Em 1898, Amaro escreveu de próprio punho um documento doando terras e incentivando que nelas fosse construída uma capela dedicada ao Divino Espírito Santo. Ele não chegou a acompanhar a construção, pois posteriormente foi transferido para a Amazônia, mas deixou uma imagem de madeira representando o Divino Espírito Santo. Anos depois, em 1912, Luiz Gondim celebrou a primeira capela em honra do padroeiro. Esses episódios são importantes porque revelam que a religiosidade de Amaro não ficou restrita ao exercício formal de suas funções paroquiais; ele também participou de iniciativas ligadas à formação religiosa e comunitária da região de origem de sua família.

Maués, Manaus.

No início do século XX, Amaro deixou o Rio Grande do Norte e seguiu para o Amazonas. A narrativa de Severino Bezerra informa que, em 1901, ele foi transferido para o Amazonas, assumindo a paróquia de Maués. Sua vida, que havia começado no interior do Rio Grande do Norte e passado pelo Seminário de Olinda, pelas paróquias nordestinas e pelos campos de batalha do Paraguai, terminaria muito longe de sua terra natal. Padre Amaro morreu em Manaus em 22 de agosto de 1906, aos 68 anos segundo a fonte, depois de 44 anos de sacerdócio. O jornal Voz Potiguar, de Currais Novos, em 2 de setembro de 1906, registrou sua morte e o chamou de “nosso coestaduano”, lembrando que havia sido vigário de Caicó. Mesmo distante, portanto, continuava sendo lembrado como sacerdote potiguar. Sua morte encerrou uma vida que havia atravessado diferentes espaços geográficos e históricos, mas deixou uma trajetória particularmente rica para quem procura compreender as relações entre religiosidade, família e participação militar no Rio Grande do Norte do século XIX.

Ao reconstruir a vida de Padre Amaro Theot Castor Brasil, torna-se possível perceber que sua participação na Guerra do Paraguai não deve ser tratada como uma simples curiosidade biográfica. Ele não foi apenas um padre que, excepcionalmente, esteve em uma guerra. Foi um sacerdote formado em uma das principais instituições religiosas do Nordeste, ordenado poucos anos antes do início do conflito, que se apresentou voluntariamente para acompanhar o Exército brasileiro e que permaneceu na campanha durante aproximadamente cinco anos. Foi capelão-alferes do Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande do Norte, esteve no combate de Potrero-Oveja, teve seu comportamento mencionado pelo comando de Caxias e recebeu posteriormente distinções militares. Ao mesmo tempo, permaneceu ligado à sua família, partiu acompanhado de três irmãos e de um primo e, terminada a guerra, retomou sua atividade religiosa, exercendo funções em diferentes paróquias e comunidades. A documentação disponível permite afirmar tudo isso com segurança. O que permanece no campo da interpretação é a razão íntima que o levou a partir, e é justamente aí que a condição familiar ganha interesse especial.

Particularmente, considero impossível não olhar para a decisão de Amaro também sob o ponto de vista da família. É provável que o patriotismo tenha sido suficiente para explicar sua escolha; é provável que sua vocação religiosa o tenha levado a compreender a guerra como uma oportunidade de prestar assistência espiritual aos soldados; e também é provável que a presença de seus três irmãos e de seu primo tenha exercido alguma influência sobre sua decisão. Essas hipóteses não são excludentes. Um homem pode ter sentido simultaneamente o dever para com a Pátria, a responsabilidade própria de sua condição sacerdotal e o desejo de acompanhar pessoas de sua própria família. O que torna a história de Amaro tão instigante é justamente o fato de que as fontes documentam sua decisão e suas ações, mas não registram claramente o conteúdo de seus pensamentos quando deixou Natal em junho de 1865. Sabemos que partiu; sabemos que foi capelão; sabemos que esteve próximo dos combates; sabemos que foi reconhecido por Caxias; sabemos que voltou vivo com os irmãos e o primo. O que não sabemos é o que se passou dentro dele quando tomou aquela decisão. É nesse espaço deixado pelas fontes que a pesquisa histórica pode formular perguntas, desde que preserve a diferença entre hipótese e evidência.

A trajetória de Padre Amaro é, por isso, especialmente significativa para a história do Rio Grande do Norte. Ela aproxima dois universos que raramente aparecem reunidos em uma mesma biografia: a história religiosa e a história militar. Sua vida começou no ambiente de uma família estabelecida em Campo Grande, passou pela formação sacerdotal em Olinda, atravessou a experiência da Guerra do Paraguai e voltou posteriormente às paróquias e comunidades religiosas. Ao lado dele estavam três irmãos e um primo, circunstância que dá à sua partida uma dimensão familiar particular. O registro de Philippe Guerra preservou o episódio; Adauto Câmara situou-o na estrutura militar; Severino Bezerra reconstruiu sua personalidade e sua vida sacerdotal; Yapery Tupiassu de Brito Guerra manteve seu nome na memória dos homens de Campo Grande; e a documentação militar de 1867 confirmou sua presença durante a campanha. São diferentes testemunhos de uma mesma trajetória, e sua leitura conjunta permite recuperar um personagem que durante muito tempo poderia permanecer reduzido a uma simples nota entre os potiguares que foram ao Paraguai.

No final, talvez a melhor maneira de compreender Padre Amaro seja reconhecê-lo em toda a complexidade que as fontes permitem reconstruir. Ele foi sacerdote antes da guerra, capelão durante a campanha e sacerdote novamente depois dela; pertenceu a uma família que enviou cinco homens ao conflito e esteve entre eles como o único que levava consigo uma missão religiosa; participou de uma campanha militar sem abandonar a identidade sacerdotal que havia construído no Seminário de Olinda; enfrentou as dificuldades da guerra, esteve em Potrero-Oveja e recebeu reconhecimento por sua atuação; retornou ao Brasil e dedicou ainda muitos anos ao ministério religioso.

Para mim, como parente, permanece particularmente significativa a circunstância de que Padre Amaro tenha decidido acompanhar seus irmãos e seu primo. Não posso afirmar que tenha partido pensando especificamente em protegê-los espiritualmente, nem que essa tenha sido a principal razão de sua decisão, porque as fontes não dizem isso. Posso, contudo, reconhecer que essa possibilidade oferece uma chave humana para compreender um gesto que, à primeira vista, parece estranho: um homem que havia escolhido a vida sacerdotal deixando sua atividade paroquial para enfrentar uma guerra distante e brutal. Talvez tenha ido por patriotismo, talvez por vocação, talvez pela família, ou talvez por uma combinação dessas razões. O certo é que partiu, permaneceu anos na campanha e voltou para continuar sendo padre. É justamente essa combinação entre fé, família e guerra que faz de Padre Amaro Theot Castor Brasil uma figura singular da história potiguar do século XIX. 

REFERENCIAS

A SEMANA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, ano 5, n. 246, p. 1, 7 set. 1879.

BEZERRA, Severino. Os Levitas do Senhor. Natal: Fundação José Augusto, 1985.

CÂMARA, Adauto Miranda Raposo da. O Rio Grande do Norte na Guerra do Paraguai. Natal: Tipografia Galhardo, 1951.

EXPEDIENTE DO BISPADO. O Apóstolo, Rio de Janeiro, ano 16, n. 100, p. 3, 4 set. 1881.

GUERRA, Philippe. História Militar do Rio Grande do Norte. Natal, 1920.

GUERRA, Yapery Tupiassu de Brito. Obra de caráter histórico-memorialístico sobre os norte-rio-grandenses participantes da Guerra do Paraguai.

BRASIL. Exército Brasileiro. Ordem do Dia nº 152. Quartel-General em Tuiuti, 9 nov. 1867.

HISTÓRIA. Sociedade Musical Beneficente Euterpe Friburguense, Nova Friburgo. Disponível em: https://fassis.wixsite.com/euterpe/historia. Acesso em: 4 set. 2026. 

VOZ POTIGUAR. Currais Novos, 2 set. 1906. Nota sobre o falecimento do Padre Amaro Theot Castor Brasil

NOTAS COMPLEMENTARES



https://fassis.wixsite.com/euterpe/historia.