ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

QUAL É O "RIO GRANDE” DO NORTE?

Rio Potengi cortando Natal, capital do Rio Grande do Norte.

Uma questão aparentemente simples e um capítulo esquecido da história potiguar

Essa prática de questionar fatos histórico é antiga. De tempos em tempos, a história abre uma fresta para a dúvida: foi assim mesmo? Nestor Lima já questionava, em 1926, portanto há 1 século, qual seria, de fato, o “Rio Grande” que deu nome ao Rio Grande do Norte; hoje, outra questão provoca a historiografia potiguar e brasileira: teria o Brasil sido “descoberto” pelo Rio Grande do Norte, antes da chegada oficial de Cabral? Bem, isso é só outro detalhe. O assunto aqui é outro...

Há nomes que parecem tão naturais que deixamos de perguntar de onde vieram. “Rio Grande do Norte” é um deles. O nome – belo por sinal – é repetido desde a infância por quem nasce neste solo, nos livros escolares, nos mapas, nos documentos oficiais e nas conversas cotidianas, sem imaginar que por trás dessas três palavras existe uma questão histórica que, há exatamente um século, provocou uma interessante controvérsia entre estudiosos norte-rio-grandenses. Há 100 anos Nestor dos Santos Lima questionou que rio era esse. Em 1926 ele perguntou “Qual é o Rio ‘Grande’ do Norte?” e hoje, sabendo de outro rio caudaloso que serpenteia o solo potiguar a pergunta permanece surpreendentemente provocadora. Afinal, se o Estado recebeu seu nome de um rio chamado “Rio Grande”, qual rio era esse? O Potengi, como tradicionalmente aprendemos? Ou o Açu, como sustentou, com argumentos que merecem ser revisitados, o historiador, professor e intelectual assuense?

Antes de refletirmos sobre o assunto, julgo interessante uma explicação sobre o “Norte”, do Rio Grande do Norte. A denominação Rio Grande do Norte tem origem hist´rica. Inicialmente, a capitania era chamada simplesmente de Rio Grande, em referência ao rio que, segundo a interpretação tradicional, corresponde ao atual Potengi. Posteriormente, para diferenciá-la de outra região denominada Rio Grande, situada ao sul e que viria a formar o Rio Grande do Sul, acrescentou-se a expressão “do Norte”. Assim, embora o Estado pertença geograficamente à Região Nordeste, seu nome preserva uma distinção histórica entre dois antigos “Rios Grandes”: o do Norte e o do Sul.

Retomando a reflexão sobre qual o Rio Grande, se o Açu ou Potengi, a questão não é apenas uma curiosidade toponímica. Ela nos conduz a um problema maior: como os lugares recebem seus nomes, como esses nomes sobrevivem ao tempo e como determinadas interpretações históricas acabam transformando-se em verdades aparentemente incontestáveis. Nestor Lima escreveu seu artigo em 1926, quando a explicação corrente afirmava que o Rio Grande do Norte recebera esse nome por causa do rio Potengi, que banha Natal. A Revista Escolar, de Fortaleza, havia reafirmado essa interpretação. Lima, entretanto, considerava-a equivocada e se propôs a contestá-la. O artigo foi publicado na Revista Escolar, em maarço daquele ano, e posteriormente reproduzido em 1927 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Rio Açu, também chamado de Rio Piranha-Açu.

O primeiro aspecto que chama a atenção é a segurança com que Lima apresenta sua discordância. Ele não trata o assunto como mera hipótese curiosa. Para ele, havia ocorrido um “equívoco” que atravessara anos e autores e que precisava ser corrigido. Sua investigação partia de uma pergunta aparentemente elementar, mas profundamente histórica: qual era, afinal, o rio chamado pelos portugueses de “Rio Grande”? O Potengi ou o Açu? A argumentação de Nestor Lima organiza-se em três frentes: a linguística, a geográfica e a histórica. Seu primeiro argumento está na própria palavra Açu. Segundo ele, a expressão indígena permitiria interpretar o nome como “rio grande”. Já Potengi possuiria outro significado, relacionado aos camarões ou ao fumo, e, portanto, não poderia ser compreendido como “rio grande”. Hoje, a discussão etimológica exige algumas cautelas. A tradição linguística associada a Potengi relaciona o termo ao universo tupi e ao significado de “rio dos camarões”; trabalhos sobre a história do rio confirmam que a denominação ind´gena sobreviveu em registros coloniais sob formas como “Potigi” ou “Potengi”.

Mas o que torna o texto de Lima particularmente interessante não é apenas saber se sua etimologia estava correta em todos os detalhes. É perceber que ele utilizava a linguagem como uma chave para reinterpretar a própria história territorial do Estado. Se Açu significava “rio grande”, e se esse era também o maior rio da região, parecia-lhe lógico concluir que aquele deveria ser o rio que dera nome à capitania. É justamente nesse ponto que surge uma segunda dimensão de sua argumentação: a geografia. Para Lima, não fazia sentido atribuir a um curso d'água de importância relativamente menor a designação que teria dado nome a todo um território . O Açu aparecia, em sua interpretação, como o grande eixo hidrográfico do Rio Grande do Norte. Sua bacia alcançaria extensas áreas do interior, receberia diversos afluentes e estaria associada a uma das regiões agrícolas mais importantes da antiga capitania. O Potengi, por sua vez, era apresentado por Lima de maneira deliberadamente provocativa: um rio de importância local, relacionado à área de Natal e, em sua interpretação geográfica de então, tributário do Jundiaí.

Essa oposição entre o rio da capital e o rio dos sertões talvez seja uma das dimensões mais sugestivas do texto. Nestor Lima nasceu em Assú e dedicou grande parte de sua produção intelectual à história, à geografia e às territorialidades do interior norte-rio-grandense. Estudos recentes sobre sua obra destacam precisamente seu interesse pelos sertões, pelo Seridó e pela região do Assú. Assim, não seria exagero enxergar no artigo também uma tentativa de deslocar o centro da narrativa histórica do Estado. A história do Rio Grande do Norte não deveria, para ele, ser pensada exclusivamente a partir de Natal e do litoral. O Açu, os sertões e suas ribeiras também constituíam elementos fundamentais da identidade potiguar.

O terceiro argumento é talvez o mais fascinante. Nestor Lima recorre à documentação e aos relatos dos primeiros navegadores europeus para tentar localizar o “Rio Grande” dos primeiros tempos da colonização. Ele menciona Alonso de Hojeda, Américo Vespúcio, Juan de la Cosa e Gabriel Soares, procurando demonstrar que a descrição de um grande rio que desembocava no oceano por vários braços corresponderia à foz do Açu. A hipótese ganha ainda mais força, em seu raciocínio, quando relacionada à distribuição das terras da capitania. Lima afirma que as cinquenta léguas concedidas por D. João III a João de Barros alcançariam justamente a região da foz do Açu. Aqui é importante destacar que a própria documentação colonial permite compreender que a delimitação das capitanias é mais complexa do que muitas narrativas escolares fazem parecer. A documentação relativa à doação de terras a João de Barros e à formação da Capitania do Rio Grande é objeto de estudos específicos. A carta de doação hoje conhecida indica uma divisão territorial que relaciona as terras de João de Barros à região entre a Baía da Traição e o Açu. Isso significa que o argumento de Nestor Lima não pode simplesmente ser descartado como uma excentricidade de um historiador local. Ele estava dialogando com problemas reais da cartografia, da documentação colonial e da definição dos limites territoriais. Entretanto, uma questão permanece: a localização de um rio descrito como “grande” pelos navegadores significa necessariamente que o nome da capitania tenha sido derivado daquele rio? É justamente aí que a interpretação tradicional apresenta sua força.

A historiografia que se consolidou posteriormente manteve o Potengi como o rio associado ao nome da Capitania do Rio Grande. A documentação e os estudos históricos registram que, no final do século XVI, a expedição portuguesa que empreendeu a conquista efetiva da região alcançou a barra do atual Potengi. Em 25 de dezembro de 1597, a expedição comandada por Manuel de Mascarenhas Homem chegou à foz do rio, e ali começou o processo que conduziria à construção da Fortaleza da Barra do Rio Grande, posteriormente conhecida como Fortaleza dos Reis Magos. É significativo que a fortificação tenha sido chamada Fortaleza da Barra do Rio Grande. O nome “Rio Grande” estava, portanto, associado àquele estuário, isto é, ao espaço onde posteriormente se desenvolveria Natal.

Estudos contemporâneos sobre o Rio Grande do Norte também registram a utilização da denominação “Rio Grande” para a capitania e observam que, somente posteriormente, a expressão “do Norte” se consolidou como forma de distingui-la do Rio Grande do Sul. Nesse sentido, a explicação tradicional não depende exclusivamente da etimologia de “Potengi”. Ela se apoia sobretudo na documentação histórica do período colonial, na associação entre o estuário e a denominação “Rio Grande” e na permanência dessa designação para a capitania. O que aconteceu, então, com a tese de Nestor Lima? Ela não desapareceu completamente. Seu artigo permanece como um documento valioso da própria história da historiografia potiguar. Um trabalho acadêmico recente sobre Nestor Lima identifica expressamente “Qual é o Rio Grande do Norte?” como um texto em que o autor questiona se o “Rio Grande” correspondia ao Açu ou ao Potengi. E talvez seja justamente aí que esteja a maior importância desse episódio.

Mais importante do que decidir é compreender a pergunta. Hoje, provavelmente, não precisamos escolher entre Nestor Lima e a historiografia consolidada como se estivéssemos diante de uma disputa que só pode produzir um vencedor. O mais produtivo é compreender por que essa pergunta surgiu e o que ela revela sobre a construção da memória histórica do Rio Grande do Norte. O nome de um Estado parece uma coisa objetiva. Mas nomes são construções históricas. Eles resultam de encontros entre povos, línguas, mapas, interesses políticos, interpretações geográficas e decisões administrativas. O caso potiguar é especialmente rico porque envolve dois rios com enorme importância histórica: o Potengi, profundamente associado a Natal e à conquista portuguesa do litoral; e o Açu, eixo fundamental da ocupação e da história dos sertões.

Talvez o grande mérito de Nestor Lima tenha sido justamente nos obrigar a olhar para esse segundo rio. Quando dizemos “Rio Grande do Norte”, quase automaticamente pensamos em Natal, no Forte dos Reis Magos e no Potengi. Raramente pensamos no vale do Açu, em suas várzeas, em sua bacia hidrográfica ou em seu papel na interiorização da ocupação colonial. A pergunta de Nestor Lima, portanto, continua viva não necessariamente porque sua conclusão tenha prevalecido – ela não prevaleceu na historiografia dominante –, mas porque nos ensina a desconfiar das respostas que parecem óbvias demais.

Enfim, qual é o Rio “Grande” do Norte? Historicamente, a interpretação hoje predominante associa o nome ao Rio Grande identificado com o Potengi. Mas a controvérsia levantada por Nestor Lima demonstra que a história da denominação não é tão simples quanto a fórmula encontrada nos livros escolares. E há uma ironia particularmente bonita nisso tudo: o rio que hoje chamamos Potengi carrega um nome indígena que sobreviveu à colonização, enquanto o nome português “Rio Grande” desapareceu do curso d'água, mas permaneceu vivo no nome de um Estado inteiro. Assim, talvez a pergunta de Nestor Lima deva ser lida menos como uma tentativa de substituir definitivamente um rio por outro e mais como um convite à reflexão sobre quem nomeia os lugares, quem escreve sua história e quais memórias acabam permanecendo enquanto outras são esquecidas. Um século depois, recuperar essa polêmica é também recuperar uma parte pouco conhecida da intelectualidade norte-rio-grandense. É devolver visibilidade a um debate que envolveu geografia, linguística, cartografia, memória e identidade regional. E talvez seja essa a verdadeira riqueza do texto de Nestor Lima: ele nos lembra que, por trás de um nome aparentemente banal – Rio Grande do Norte – existe uma história de disputas, interpretações e esquecimentos.

Observação Importante: a tese de Nestor Lima deve ser apresentada hoje como uma interpretação historiográfica de 1926, e não como consenso atual. A documentação histórica consolidada associa o “Rio Grande” da capitania ao rio que corresponde ao atual Potengi, especialmente no contexto da conquista portuguesa de 1597-1598. Isso, porém, não diminui o valor do texto de Lima: ao contr´rio, torna a polêmica ainda mais interessante, porque revela como a própria historiografia potiguar discutiu – e continua discutindo – a formação de sua identidade territorial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVEAL, Carmen; FAGUNDES, José Evangelista; ROLIM, Leonardo; DIAS, Thiago Alves; TORRES, Thiago (org.). Rio Grande (do Norte): história e historiografia. Mossoró: EDUERN, 2021.

DUTRA, Adalgisa Maria Alencar. Viajando os sertões: Nestor Lima e a territorialização das cidades sertanejas na obra “Municípios do Rio Grande do Norte” (1938-1942). 2021. 93 f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Ensino Superior do Seridó, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Caicó, 2021.

INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Natal: Typographia d'A República, 1927. v. 23-24.

LIMA, Nestor dos Santos. Municípios do Rio Grande do Norte. Natal: Tipografia Santo Antônio, 1942. 2 v.

LIMA, Nestor dos Santos. Qual é o Rio “Grande” do Norte? Revista Escolar, Fortaleza, n. 9, mar. 1926.

LIMA, Nestor dos Santos. Qual é o Rio “Grande” do Norte? Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Natal, v. 23-24, p. 163-167, 1927.

LOPES, Fátima Martins (org.). Catálogo de documentos manuscritos avulsos da Capitania do Rio Grande do Norte (1623-1823). Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; Projeto Resgate Barão do Rio Branco, 2024.

MEDEIROS, Tarcísio. Aspectos geopolíticos e antropológicos da história do Rio Grande do Norte. Natal: Imprensa Universitária, 1973. 

domingo, 6 de setembro de 2026

OFAIÉS-CHAVANTES NO PORTO XV DE NOVEMBRO EM 1924 - OS REGISTROS DO GENERAL MALAN HÁ 102 ANOS...

INDÍGENAS OFAIÉS CHAVANTES ÀS MARGENS DO RIO PARANÁ, ALTURA DA ATUAL PORTO XV - 1924 (GENERAL MALAN).

ESSAS SÃO AS FOTOGRAFIAS MAIS ANTIGAS QUE EXISTEM DOS OFAIÉS-CHAVANTES...

Em 1924, o General Alfredo Malan d’Angrogne percorreu a região sul de Mato Grosso e deixou um conjunto de registros que hoje possui extraordinário valor histórico. Entre fotografias de caminhos, rios, balsas, pontes, travessias de gado e aspectos da paisagem, encontram-se imagens dos Ofaié, então também identificados nas legendas como “Chavantes”, às margens do rio Paraná. O Núcleo de Documentação Histórica Honório de Souza Carneiro, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, considera essas imagens as fotografias mais antigas de que se tem notícia sobre esse povo indígena.

INDÍGENAS OFAIÉS CHAVANTES ÀS MARGENS DO RIO PARANÁ, ALTURA DA ATUAL PORTO XV - 1924 (GENERAL MALAN).

O conjunto é especialmente revelador porque registra não apenas pessoas, mas também o território em que viviam e as condições de deslocamento da época: o Taquaruçu, o rio Verde, o Porto Quinze e o próprio Paraná aparecem como elementos fundamentais daquela paisagem. Há ainda um esboço cartográfico da região Sul de Mato Grosso, compondo, ao lado das fotografias, um pequeno testemunho visual de uma região que passava por transformações e cuja história seria profundamente marcada pelas relações entre território, circulação, atividades econômicas e populações indígenas.

INDÍGENAS OFAIÉS CHAVANTES ÀS MARGENS DO RIO PARANÁ, ALTURA DA ATUAL PORTO XV - 1924 (GENERAL MALAN).

Vistos hoje, quase um século depois, esses registros ultrapassam a condição de simples documentos militares ou de viagem. São fragmentos visuais de um mundo desaparecido, capazes de aproximar o presente de pessoas, lugares e paisagens que já não podem ser observados da mesma maneira. Por isso, as fotografias de Malan possuem importância que vai muito além da figura do próprio general: elas constituem uma rara janela para a história dos Ofaié e para a paisagem humana e geográfica do sul de Mato Grosso em 1924.

PASSAGEM DE CURSO D'ÁGUA EM PORTO XV

PORTO XV

ATRAVESSANDO GADO NO RIO PARANÁ


CAMINHÃO VARANDO O TAQUARUSSU

ESBOÇO DA REGIÃO DO SUL DO MATO GROSSO EM 1924

CONSTRUÇÃO DA PONTE SOBRE O RIO TAQUARUSSU


BALSA NO RIO VERDE

MORADIA OFAIÉ

ANTIGA PONTE SOBRE O RIO PARANÁ


1.007.780: UM MILHÃO, SETE MIL, SETECENTOS E OITENTA OLHARES PARA A HISTÓRIA, A POESIA, A CRÔNICA E O IMAGINÁRIO POPULAR...

1.007.780 VISUALIZAÇÕES: UM ARQUIVO VIVO CONTRA O ESQUECIMENTO

Hoje, ao cumprir o meu ritual rotineiro de acessar o painel de controle do meu blog, inserindo a minha senha de administrador, deparei-me com um número que me fez pausar os olhos por alguns instantes: 1.007.780 visualizações. Obviamente que, daqui há alguns segundos, esse número terá avançado, pois visualizações esttarão sempre acontecendo. Confesso, fui tomado por uma genuína surpresa. Quem me acompanha por aqui sabe muito bem que a contagem de acessos é um assunto sobre o qual nunca escrevi. Mais do que isso, é algo que eu sequer costumo acompanhar. Este espaço nasceu e permanece vivo sob uma premissa muito clara: é o meu passatempo, um refúgio pessoal onde escrevo quando a vontade bate e o tempo permite. Não sou youtuber, não vivo da efemeridade das redes sociais e nem estou aqui para competir.

É óbvio que vivemos em uma era onde os fenômenos da internet alcançam a marca de um milhão de acessos em uma semana; alguns, mais fulminantes, conseguem o feito em um único dia. Alguns, prestam grande serviço ao bem comum, outros, são futilidade pura. Mas a dinâmica de um blog cultural e histórico é de outra natureza. Nós, que habitamos os bastidores dessas páginas e as acessamos pelo painel administrativo, por senha, temos uma visão panorâmica e detalhada do que acontece. Sabemos quais municípios nos visitam, quais países nos encontram, o volume de acessos nas últimas duas horas, no dia, na semana, no mês e ao longo de todo o tempo de existência do projeto.

TRINTA MIL E OITOCENTAS VISUALIZAÇÕES  NA POSTAGEM "A LINGUAGEM NO RIO GRANDE DO NORTE"

Olhando para esses dados, vejo que este espaço é acessado no mundo inteiro. Naturalmente, as visitas internacionais ocorrem em menor grau, visto que o nosso conteúdo é estritamente voltado para o Brasil e, predominantemente, dedicado a resgatar a história e o legado da intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta. Convenhamos, os temas que trato por aqui - centralizados na História e, em menor escala, na poesia e na cultura popular - não possuem o apelo de massa capaz de gerar uma explosão de acessos em poucos dias. Literatura de nicho, voltada para a memória histórica e documental, atrai um público muito específico: aqueles que, como eu, possuem um amor profundo pelas nossas raízes e pelo resgate de identidades que o tempo insiste em tentar apagar. E é exatamente por isso que a minha surpresa se transformou em uma profunda alegria. Não há vaidade nisso, fiquem tranquilos. Afinal, o objetivo fundamental de qualquer pessoa que se predispõe a sentar diante de uma tela para escrever é, simplesmente, ser lido. Saber que um projeto focado em temas tão densos e específicos alcançou a marca fiel de 1.007.780 visualizações na tela do meu contador de páginas é, para mim, um feito extraordinário.

Nesta caminhada que já soma 17 anos - cruzando o tempo desde a fundação deste espaço, em 2009, até este ano de 2026 -, (embora, anteriormente eu havia criado o primeiro em 2003 e o deletei), o blog se consolidou como um arquivo vivo. E talvez esteja justamente aí o significado mais bonito dessa marca. Um acesso não é apenas um número que aumenta no contador. É uma pessoa que, em algum momento, procurou uma informação e encontrou aqui uma fotografia, um documento, uma história, um nome, uma lembrança ou uma pista para continuar sua própria pesquisa. Alguns chegam por acaso; outros retornam muitas vezes. São poucos os seguidores, e os que mais o pesquisam são os que menos o seguem, pois o número de seguidores é de 58 pessoas. Mas isso não reflete os acessos.  Há estudantes, professores, pesquisadores, genealogistas, escritores e simplesmente pessoas curiosas querendo saber um pouco mais sobre aquilo que lhes pertence por nascimento, por memória ou por afeto. O blog é uma fonte de conhecimento e de inspiração para muitos, seja em aspectos da história, seja em crônicas e prosas poéticas. Ao olhar para tudo isso, percebo também que este blog atravessou uma parte considerável da própria história da internet. Desde 2009, mudaram as plataformas, os hábitos de leitura, as redes sociais e a maneira como as pessoas procuram informação. Muitas páginas nasceram e desapareceram nesse intervalo. Este espaço, porém, continuou aqui. Sem pressa, sem compromisso comercial e sem a pretensão de ser uma grande plataforma, foi acumulando textos, fotografias, documentos, pesquisas e memórias. O tempo, que tantas vezes destrói os vestígios do passado, acabou trabalhando a favor deste pequeno arquivo.

SETE MIL, QUINHENTAS E 6 VISUALIZAÇÕES NA POSTAGEM "VIÚVA MACHADO: UMA MULHER DESCONSAGRADA".

Para além de um projeto de pesquisa, este espaço carrega um valor profundamente íntimo. Como bisneto de Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto, trineta de Franscisca Clara Freire do Revoredo, irmã da mãe de Nísia Floresta, sinto que a memória dessa ascendência atravessa este trabalho. Cada linha escrita sobre a personagem Dionísia Gonçalves Pinto Lisboa, sobre Papary, sobre a extensão de Camurupim ou sobre as ruínas da Capela de Cururu funciona como uma trincheira contra o esquecimento e, ao mesmo tempo, como um tributo à história familiar e à memória coletiva. Talvez, portanto, 1.007.780 não seja apenas uma grande quantidade de visualizações. É a dimensão que um trabalho pessoal pode alcançar quando permanece fiel àquilo em que acredita. São mais de um milhão de pequenas possibilidades de encontro entre o passado e alguém do presente. E existe algo ainda mais bonito nisso: amanhã, quando já não estivermos aqui para contar determinadas histórias, talvez alguém encontre uma dessas páginas e descubra nelas aquilo que o tempo quase conseguiu apagar.

É nesse sentido que considero esta marca verdadeiramente especial. Não porque o número seja extraordinário diante dos gigantes da internet, mas porque ele é extraordinário para aquilo que este blog sempre se propôs a ser. Atingir essa marca histórica me dá a certeza de que a memória de Nísia Floresta e a riqueza da história potiguar continuam incrivelmente vivas. Meu mais sincero obrigado a cada estudante, pesquisador, professor, curioso ou amante da poesia que passou por aqui, inscreveus-se ou não, deixou um comentário ou compartilhou um texto ao longo de quase duas décadas. Que este arquivo continue vivo. Que outras pessoas encontrem estas páginas. E que, enquanto houver alguém disposto a lembrar, aquilo que merece ser lembrado não desapareça.

Luís Carlos Freire

sábado, 5 de setembro de 2026

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

PADRE AMARO THEOT CASTOR BRASIL: UM SACERDOTE NORTE-RIO-GRANDENSE NA GUERRA DO PARAGUAI

Acervo: Igreja Matriz de São João Batista, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro

Entre os norte-rio-grandenses que participaram da Guerra do Paraguai, a trajetória do Padre Amaro Theot Castor Brasil apresenta uma singularidade que merece atenção especial. Sua participação no conflito não se explica apenas pela mobilização militar que alcançou diferentes regiões do Império, nem pode ser compreendida da mesma maneira que a trajetória dos demais homens de sua família que seguiram para a guerra. Amaro era sacerdote, formado no Seminário de Olinda e ordenado em 16 de junho de 1862 por Dom João da Purificação Marques Perdigão, bispo de Pernambuco. Quando a Guerra do Paraguai começou, portanto, sua vida já estava orientada para o exercício do ministério religioso. Ainda assim, em 1865, tomou a decisão de alistar-se e acompanhar as tropas brasileiras como capelão militar. Essa circunstância confere à sua história uma dimensão particular, pois ele não abandonou a condição sacerdotal para assumir simplesmente a de combatente: levou consigo a própria vocação religiosa para dentro de uma campanha militar que se prolongaria por aproximadamente cinco anos. O material que estudei até o momento situa seu nascimento em 1838 na antiga Campo Grande, na região correspondente ao atual município de Paraú, identificando-o como filho de Jeronymo José Correia Peixoto e Joana Baptista Martins da Silva.

Antes de nos aprofundarmos, julgo oportuno um esclarecimento sobre o nome do padre Amaro. Embora ele possuísse o sobrenome do pai, Peixoto, ele adotou Amaro Theot Castor Brasil como uma escolha de caráter eclesiástico e patriótico. Essa informação consta no diário de seu irmão, Manoel Martins Correia e Castro - Alferes da 2ª Companhia - o qual teve a feliz iniciativa de registrar o que viveu na Guerra do Paraguai e obviamente informações sobre os irmãos que junto com ele estavam ali, O termo "Theot" é uma abreviação erudita e devocional para Theotókos (Mãe de Deus, em grego), e "Castor" fazia alusão à sua postura firme de protetor, enquanto o "Brasil" foi assumido como sobrenome patriótico em face da Guerra do Paraguai. A documentação histórica nem sempre registra uma mesma pessoa de maneira uniforme. No século XIX, era relativamente comum que indivíduos passassem a ser conhecidos e até a assinar seus escritos, cartas e documentos por nomes diferentes daqueles recebidos no batismo. Isso podia ocorrer por diversas razões: uso de apelidos familiares que acabavam se tornando nomes públicos; abreviações ou modificações do nome de batismo; homenagem a pessoas, lugares ou ideias; afirmação de identidade pessoal ou literária; convenções sociais; ou, especialmente entre escritores e jornalistas, a adoção deliberada de pseudônimos. Em alguns casos, o nome escolhido tornou-se tão conhecido que praticamente substituiu o nome de batismo na memória histórica.

O Brasil do século XIX oferece exemplos bastante expressivos desse costume. Nísia Floresta Brasileira Augusta, nascida Dionísia Gonçalves Pinto, é talvez um dos casos mais próximos da realidade potiguar: adotou o nome pelo qual se tornou célebre e passou a assinar sua produção intelectual dessa maneira. Outro exemplo é Qorpo-Santo, nome pelo qual ficou conhecido o escritor e dramaturgo gaúcho José Joaquim de Campos Leão. Também Sousândrade, poeta maranhense do século XIX, tornou-se conhecido por esse nome, derivado de seu nome de nascimento, Joaquim de Sousa Andrade. O próprio filho de Nísia Floresta, Joaquim Pinto Lisboa, assinava Joaquim Pinto Brasil. Esses casos ajudam a demonstrar que, para o pesquisador, não se deve pressupor que a forma pela qual uma pessoa ficou conhecida corresponda necessariamente ao nome que consta em seu registro de batismo. Todos os documentos eclesiais assinados pelo Padre Amaro Theot Castor Brasil passaram a ser assim assinados após a Guerra do Paraguai.

Essa prática era particularmente significativa no ambiente literário e jornalístico. O anonimato e os pseudônimos foram amplamente utilizados pela imprensa brasileira oitocentista, inclusive por autores hoje conhecidos por seus nomes civis. Por isso, quando aparecem em documentos históricos nomes diferentes para uma mesma pessoa, é necessário investigar se estamos diante de indivíduos distintos, de uma variação ortográfica, de um apelido incorporado à vida pública ou de um nome deliberadamente escolhido pelo próprio indivíduo. No caso de Padre Amaro Theot Castor Brasil, essa observação é especialmente pertinente. O fato de determinada fonte utilizar apenas “Amaro”, outra registrar “Padre Amaro Theot” e outra apresentar o nome mais completo não significa, por si só, que se trate de pessoas diferentes. A identificação deve ser estabelecida pela combinação de outros elementos – filiação, local de nascimento, atividade sacerdotal, datas, cargos exercidos e acontecimentos biográficos –, e não exclusivamente pela forma do nome. É justamente esse cuidado que permite ao pesquisador acompanhar uma pessoa através de documentos produzidos em épocas e circunstâncias diferentes, preservando a distinção entre o nome de batismo, o nome pelo qual era conhecido e eventual nome adotado para assinar ou se apresentar publicamente.

Independentemente dessa divergência, sua origem familiar é bastante clara: Amaro pertencia a uma família estabelecida na região de Campo Grande e ligada à história daquela localidade, especialmente à Fazenda Espírito Santo, propriedade de seu pai, Jeronymo José Correia Peixoto, meu tio-tetravô, irmão do meu tetravô Manoel Thomaz Peixoto, pai do meu trisavô José Thomaz de Magalhães Fontoura, pai da minha bisavó Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto, mãe do meu avô Abel Gomes Peixoto, pai de Maria José Freire, minha mãe. O padre Amaro Theot era meu primo em primeiro grau, três gerações afastado, pois era primo-irmão do meu trisavô, José Thomaz de Magalhães Fontoura.

O contexto familiar é indispensável para compreender a decisão de Padre Amaro, embora não devamos reduzir sua trajetória à história dos parentes que o acompanharam. Seus irmãos Manoel Martins Correia e Castro, Antônio Martins Correia e José Lucas Barbosa também participaram da Guerra do Paraguai, e com eles seguiu o primo Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto. Foram cinco Peixotos participantes da Guerra do Paraguai. Philippe Guerra registrou posteriormente que Padre Amaro “seguiu de Campo Grande com mais dois irmãos e dois parentes para o Paraguay”, acrescentando que os cinco fizeram a campanha como Voluntários da Pátria e regressaram como oficiais. A documentação memorialística relativa ao grupo identifica os quatro parentes que acompanharam Amaro e preserva inclusive os nomes pelos quais alguns deles ficaram conhecidos na tradição local: Capitão Manuelzinho, Alferes Toinho, Tenente Zumba e Major Cornélio. Não é necessário, contudo, aprofundar aqui as biografias desses homens, pois cada uma delas constitui uma história própria. O que interessa, neste estudo, é perceber que Amaro partiu inserido em uma circunstância familiar muito específica. Ele não era um sacerdote que, isoladamente, decidiu conhecer a guerra; estava inserido em um grupo de irmãos e parentes que se dirigia para o conflito e no qual ele desempenharia uma função inteiramente diferente.

A própria composição desse grupo suscita uma questão que considero particularmente significativa como pesquisador e parente desses cinco homens: seria possível que a decisão de Amaro tivesse também uma motivação familiar, além das razões patrióticas e religiosas que naturalmente podem ser associadas à sua escolha? Não existe, nas fontes reunidas, uma declaração do próprio sacerdote que permita afirmar isso como fato, e seria metodologicamente incorreto apresentar uma hipótese como se fosse uma informação documental. Entretanto, não me parece descabido considerar que a presença de três irmãos e de um primo entre os homens destinados à guerra possa ter pesado em sua decisão. Um sacerdote que acompanhasse aqueles parentes poderia exercer uma função que nenhum outro membro do grupo desempenharia da mesma maneira: prestar-lhes assistência religiosa, acompanhá-los nos momentos de enfermidade e perigo e, se necessário, administrar os sacramentos aos que estivessem feridos ou próximos da morte.

Não consigo deixar de considerar essa possibilidade, ainda que a trate apenas como hipótese. A guerra envolvia uma possibilidade concreta de morte, e Amaro, por sua formação e por sua função sacerdotal, certamente conhecia o significado espiritual que poderia assumir sua presença junto aos soldados. Não sabemos se ele pensou especificamente nos irmãos e no primo quando decidiu partir, mas a circunstância familiar torna essa interpretação plausível e confere à sua partida uma dimensão humana que as fontes militares, naturalmente mais preocupadas com postos, datas e operações, não conseguem registrar.

A formação religiosa de Amaro ajuda a compreender ainda melhor o contraste existente entre sua vida anterior e a experiência que decidiu enfrentar. Estudou no Seminário de Olinda e foi ordenado sacerdote em 16 de junho de 1862, três anos antes de partir para a guerra. Segundo Monsenhor Severino Bezerra, em Os Levitas do Senhor, quando começou o conflito Amaro tinha 27 anos e decidiu alistar-se para seguir ao campo de batalha juntamente com seus irmãos Manoel Martins Correia e Castro, Antônio Martins Correia e José Lucas Barbosa. O mesmo autor informa que o sacerdote saiu de Natal em 9 de junho de 1865 e somente retornou ao Brasil em maio de 1870. Durante esse período, sua vida esteve ligada ao Exército e às condições extremamente difíceis da campanha. O fato de ser capelão não significa que estivesse distante dos acontecimentos militares. O capelão acompanhava as tropas, prestava assistência religiosa aos soldados e podia estar próximo das áreas onde os combates ocorriam. No caso de Amaro, a documentação demonstra que sua participação foi efetiva. Adauto Miranda Raposo da Câmara, em O Rio Grande do Norte na Guerra do Paraguai, identifica-o como capelão-alferes da 1ª Companhia do Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande do Norte. Essa informação é particularmente importante porque coloca o sacerdote dentro da estrutura militar do contingente potiguar e confirma que sua presença na campanha não pertence apenas à tradição familiar ou à memória construída posteriormente.

Um dos episódios mais expressivos de sua trajetória ocorreu no combate de Potrero-Oveja, em 28 de outubro de 1867. A Ordem do Dia nº 152, expedida no Quartel-General em Tuiuti em 9 de novembro daquele ano, registra expressamente a presença de “o Sr. Capellão Alferes padre Amaro Theot Castor Brasil”. Trata-se de uma fonte contemporânea aos acontecimentos, produzida no contexto do próprio comando militar brasileiro, e por isso possui importância especial para a reconstrução de sua biografia. Monsenhor Severino Bezerra informa que o Marechal Marquês de Caxias citou Amaro na Ordem do Dia de 9 de novembro de 1867, elogiando seu comportamento durante o combate. A presença do nome do sacerdote nesse documento permite perceber que sua atuação não ficou restrita à rotina religiosa dos acampamentos. Ele estava inserido em uma campanha militar e teve seu comportamento reconhecido pelo comando. O próprio perfil traçado por Severino Bezerra reforça essa impressão, pois o autor descreve Amaro como inteligente, generoso, compreensivo e grande pregador sacro, mas também como homem de temperamento forte, valente e destemido. Registra ainda que era excelente cavaleiro e grande atirador com diferentes armas. Esse retrato é importante porque afasta duas interpretações igualmente simplificadoras: a de que Amaro teria sido apenas um padre que acompanhou os soldados sem participar efetivamente da realidade da guerra e, no extremo oposto, a de que teria deixado de ser sacerdote para transformar-se simplesmente em militar. Sua trajetória foi justamente marcada pela coexistência dessas duas dimensões.

A participação de Padre Amaro na Guerra do Paraguai precisa, portanto, ser observada dentro da própria natureza do sacerdócio exercido em uma campanha militar. Em um conflito marcado por combates, doenças, mortes e longos deslocamentos, a presença de um capelão assumia uma importância que ultrapassava a celebração regular dos ofícios religiosos. O sacerdote podia ouvir confissões, celebrar missas, administrar sacramentos, acompanhar os feridos e oferecer conforto espiritual aos homens submetidos a circunstâncias extremas. Quando esse sacerdote tinha, entre os militares que acompanhava, três irmãos e um primo, a dimensão dessa missão se torna ainda mais significativa, embora não possamos afirmar documentalmente que esse tenha sido o motivo determinante de sua decisão. É precisamente nesse ponto que a figura de Amaro se distancia dos demais integrantes de sua família. Amaro foi como sacerdote integrado à organização militar. Essa condição permite imaginar que, além de cumprir aquilo que considerava seu dever para com a Pátria e com a Igreja, pudesse sentir uma responsabilidade particular para com aqueles que partiam de sua própria casa e de sua própria comunidade. Como pesquisador e parente, considero difícil olhar para essa circunstância sem formular essa pergunta. Afinal, se seus irmãos e seu primo fossem feridos, quem estaria preparado para lhes prestar a assistência espiritual que um sacerdote poderia oferecer? Se um deles estivesse morrendo, quem poderia administrar-lhe os últimos sacramentos? Não há resposta documental para essas perguntas, mas elas ajudam a compreender a dimensão humana da decisão de Amaro sem que seja necessário transformá-la em certeza histórica.

Nova Friburgo, Rio de Janeiro, primeira paróquia onde o padre Amaro atual após retornar da Guerra do Paraguai.

O retorno ao Brasil, em maio de 1870, não significou o encerramento da história militar de Amaro nem, muito menos, o fim de sua vida sacerdotal. Ao contrário, terminada a guerra, ele retomou o exercício do ministério religioso e construiu uma longa trajetória pastoral. As informações sobre sua passagem por Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, entretanto, merecem uma precisão maior do que aquela apresentada anteriormente. 

Jornal A SEMANA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, ano 5, n. 246, p. 1, 7 set. 1879. Acervo: Hemeroteca Digital

A documentação localizada registra que, em 1879, Padre Amaro foi provido vigário encomendado da freguesia de São João Batista de Nova Friburgo, e uma nova provisão, em 1881, confirma sua permanência nessa função. A sede dessa freguesia era a Igreja Matriz de São João Batista, templo inaugurado em 8 de dezembro de 1869 e que corresponde à atual Catedral de São João Batista de Nova Friburgo, Rio de Janeiro. Uma fotografia histórica de 1870, pertencente ao acervo da Catedral, permite visualizar o templo poucos meses após sua inauguração, oferecendo uma imagem particularmente significativa da igreja que fazia parte da paisagem religiosa de Nova Friburgo no período em que Padre Amaro exerceu ali seu ministério.

Igreja Matriz de São João Batista, em Nova Friburgo. Foi nesta igreja, então sede da Paróquia de São João Batista, que Padre Amaro Theot Castor Brasil exerceu seu ministério como vigário de Nova Friburgo. A imagem permite visualizar o templo que fazia parte da paisagem religiosa da cidade durante sua passagem pelo município (Acervo: Catedral de Nova Friburgo, RJ)

Essa documentação precisa ser considerada ao lado da informação de Monsenhor Severino Bezerra, que situa Padre Amaro como vigário de Nova Friburgo em 1874. Há, portanto, uma pequena questão cronológica ainda a ser esclarecida pelas fontes primárias: não sabemos, com segurança, se houve uma primeira passagem pela cidade em 1874 e posterior retorno, ou se as fontes estão registrando períodos distintos de uma mesma atuação. O que já pode ser afirmado com segurança, porém, é sua ligação com a Paróquia de São João Batista de Nova Friburgo, comprovada documentalmente em 1879 e 1881. 

Jornal O Apóstolo, Rio de Janeiro, ano 16, n. 100, p. 3, 4 set. 1881. Acervo: Hemeroteca Digital

Há ainda outro dado significativo: a história da Euterpe Friburguense registra que, em 13 de junho de 1884, foi inaugurada a Capela de Santo Antônio, em Nova Friburgo, “sendo Vigário da Paróquia o Padre Amaro Theot Castor Brasil”. Esse conjunto de informações reforça a importância de Nova Friburgo em sua trajetória sacerdotal e permite identificar com maior precisão o espaço religioso em que exerceu seu ministério.

OBS. A aparente contradição cronológica sobre a permanência do Padre Amaro em Nova Friburgo antes de 1879 encontra esclarecimento no acervo biográfico do Centro de Pesquisa e Documentação Cultural de Juizados Especiais e Legislação do Estado (CEPEJUL), vinculado à Fundação José Augusto (FJA). Os registros oficiais revelam que, imediatamente após o término da Guerra do Paraguai, o sacerdote não regressou ao Nordeste, assumindo o vicariato encomendado da Paróquia de São João Batista de Nova Friburgo já no ano de 1870, onde permaneceu fixo até 1874. Essa evidência documental concilia a cronologia com as notas de Monsenhor Severino Bezerra e demonstra que os provimentos subsequentes de 1879 e 1881, localizados na imprensa oitocentista fluminense, não assinalavam sua estreia na região, mas sim uma segunda provisão e o aguardado retorno de um pastor que já havia conquistado a estima daquela comunidade.

Ceará-Mirim

Em data ainda não precisamente esclarecida, ele retornou para o Rio Grande do Norte e se tornou coadjutor em Ceará-Mirim; posteriormente, exerceu o vicariato de Caicó entre 1885 e 1894, esteve ligado à freguesia de Triunfo em 1895 e também atuou em Jucurutu. Sua passagem por Caicó foi suficientemente prolongada para que seu nome permanecesse incorporado à história religiosa daquela comunidade. A continuidade de sua vida sacerdotal depois da guerra é fundamental para compreender sua biografia, porque demonstra que o conflito foi um capítulo extraordinário, mas não uma ruptura definitiva com sua vocação. O homem que havia acompanhado soldados no Paraguai voltou a desempenhar funções pastorais e continuou sendo reconhecido principalmente como sacerdote. Essa permanência da identidade religiosa é uma das características mais interessantes de sua trajetória e mostra que a experiência militar foi incorporada à sua vida, e não utilizada para substituí-la.

Caicó

A personalidade de Amaro também emerge de maneira muito particular nos relatos de Monsenhor Severino Bezerra. O autor não o apresenta como uma figura idealizada, mas como um homem dotado de qualidades e defeitos, generoso e compreensivo, mas também franco, impetuoso e, por vezes, excessivamente direto. Uma pequena história preservada por Severino Bezerra ilustra esse aspecto. Em determinada ocasião, o padre João Alípio da Cunha teria cobrado de Amaro os emolumentos relativos a batizados realizados em sua paróquia, e o sacerdote respondeu por escrito com palavras de extrema franqueza, iniciando a correspondência desta forma: “Ao padre João Alípio da Cunha, vigário de Macaíba por infelicidade do povo e imprevidência do Bispo.” A passagem ajuda a compreender o temperamento atribuído a Amaro e demonstra que a mesma personalidade vigorosa que aparece associada à sua coragem na guerra também se manifestava em sua vida cotidiana. Severino Bezerra registra ainda que o sacerdote recebeu do Imperador D. Pedro II a condecoração da Ordem de Cristo, da Ordem da Rosa e a Medalha de Mérito Militar da Campanha do Paraguai, reconhecimento que demonstra a importância atribuída à sua atuação. Assim, a memória de Amaro reúne duas dimensões aparentemente distintas, mas que nele coexistiram: a do sacerdote dedicado à pregação e ao ministério e a do homem que havia demonstrado coragem e habilidade no ambiente militar.

A ligação de Amaro com sua terra e com a religiosidade familiar também aparece depois da guerra. Segundo o material reunido, sua mãe, Joana Batista Martins da Silva, teria feito uma promessa de que, se seus quatro filhos regressassem vivos da Guerra do Paraguai, seria construída uma capela em agradecimento. A tradição familiar, portanto, conservou a guerra não apenas como um episódio militar, mas como uma experiência vivida com apreensão no interior da própria família. Todos os homens regressaram vivos, e essa circunstância teria sido associada à promessa religiosa feita pela mãe. Mais tarde, o próprio Amaro participou diretamente de outra iniciativa religiosa relacionada à região de sua família. Sua tia Raulina, descrita como muito devota do Espírito Santo, teria incentivado a doação de terras para o patrimônio do padroeiro. Em 1898, Amaro escreveu de próprio punho um documento doando terras e incentivando que nelas fosse construída uma capela dedicada ao Divino Espírito Santo. Ele não chegou a acompanhar a construção, pois posteriormente foi transferido para a Amazônia, mas deixou uma imagem de madeira representando o Divino Espírito Santo. Anos depois, em 1912, Luiz Gondim celebrou a primeira capela em honra do padroeiro. Esses episódios são importantes porque revelam que a religiosidade de Amaro não ficou restrita ao exercício formal de suas funções paroquiais; ele também participou de iniciativas ligadas à formação religiosa e comunitária da região de origem de sua família.

Maués, Manaus.

No início do século XX, Amaro deixou o Rio Grande do Norte e seguiu para o Amazonas. A narrativa de Severino Bezerra informa que, em 1901, ele foi transferido para o Amazonas, assumindo a paróquia de Maués. Sua vida, que havia começado no interior do Rio Grande do Norte e passado pelo Seminário de Olinda, pelas paróquias nordestinas e pelos campos de batalha do Paraguai, terminaria muito longe de sua terra natal. Padre Amaro morreu em Manaus em 22 de agosto de 1906, aos 68 anos segundo a fonte, depois de 44 anos de sacerdócio. O jornal Voz Potiguar, de Currais Novos, em 2 de setembro de 1906, registrou sua morte e o chamou de “nosso coestaduano”, lembrando que havia sido vigário de Caicó. Mesmo distante, portanto, continuava sendo lembrado como sacerdote potiguar. Sua morte encerrou uma vida que havia atravessado diferentes espaços geográficos e históricos, mas deixou uma trajetória particularmente rica para quem procura compreender as relações entre religiosidade, família e participação militar no Rio Grande do Norte do século XIX.

Ao reconstruir a vida de Padre Amaro Theot Castor Brasil, torna-se possível perceber que sua participação na Guerra do Paraguai não deve ser tratada como uma simples curiosidade biográfica. Ele não foi apenas um padre que, excepcionalmente, esteve em uma guerra. Foi um sacerdote formado em uma das principais instituições religiosas do Nordeste, ordenado poucos anos antes do início do conflito, que se apresentou voluntariamente para acompanhar o Exército brasileiro e que permaneceu na campanha durante aproximadamente cinco anos. Foi capelão-alferes do Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande do Norte, esteve no combate de Potrero-Oveja, teve seu comportamento mencionado pelo comando de Caxias e recebeu posteriormente distinções militares. Ao mesmo tempo, permaneceu ligado à sua família, partiu acompanhado de três irmãos e de um primo e, terminada a guerra, retomou sua atividade religiosa, exercendo funções em diferentes paróquias e comunidades. A documentação disponível permite afirmar tudo isso com segurança. O que permanece no campo da interpretação é a razão íntima que o levou a partir, e é justamente aí que a condição familiar ganha interesse especial.

Particularmente, considero impossível não olhar para a decisão de Amaro também sob o ponto de vista da família. É provável que o patriotismo tenha sido suficiente para explicar sua escolha; é provável que sua vocação religiosa o tenha levado a compreender a guerra como uma oportunidade de prestar assistência espiritual aos soldados; e também é provável que a presença de seus três irmãos e de seu primo tenha exercido alguma influência sobre sua decisão. Essas hipóteses não são excludentes. Um homem pode ter sentido simultaneamente o dever para com a Pátria, a responsabilidade própria de sua condição sacerdotal e o desejo de acompanhar pessoas de sua própria família. O que torna a história de Amaro tão instigante é justamente o fato de que as fontes documentam sua decisão e suas ações, mas não registram claramente o conteúdo de seus pensamentos quando deixou Natal em junho de 1865. Sabemos que partiu; sabemos que foi capelão; sabemos que esteve próximo dos combates; sabemos que foi reconhecido por Caxias; sabemos que voltou vivo com os irmãos e o primo. O que não sabemos é o que se passou dentro dele quando tomou aquela decisão. É nesse espaço deixado pelas fontes que a pesquisa histórica pode formular perguntas, desde que preserve a diferença entre hipótese e evidência.

A trajetória de Padre Amaro é, por isso, especialmente significativa para a história do Rio Grande do Norte. Ela aproxima dois universos que raramente aparecem reunidos em uma mesma biografia: a história religiosa e a história militar. Sua vida começou no ambiente de uma família estabelecida em Campo Grande, passou pela formação sacerdotal em Olinda, atravessou a experiência da Guerra do Paraguai e voltou posteriormente às paróquias e comunidades religiosas. Ao lado dele estavam três irmãos e um primo, circunstância que dá à sua partida uma dimensão familiar particular. O registro de Philippe Guerra preservou o episódio; Adauto Câmara situou-o na estrutura militar; Severino Bezerra reconstruiu sua personalidade e sua vida sacerdotal; Yapery Tupiassu de Brito Guerra manteve seu nome na memória dos homens de Campo Grande; e a documentação militar de 1867 confirmou sua presença durante a campanha. São diferentes testemunhos de uma mesma trajetória, e sua leitura conjunta permite recuperar um personagem que durante muito tempo poderia permanecer reduzido a uma simples nota entre os potiguares que foram ao Paraguai.

No final, talvez a melhor maneira de compreender Padre Amaro seja reconhecê-lo em toda a complexidade que as fontes permitem reconstruir. Ele foi sacerdote antes da guerra, capelão durante a campanha e sacerdote novamente depois dela; pertenceu a uma família que enviou cinco homens ao conflito e esteve entre eles como o único que levava consigo uma missão religiosa; participou de uma campanha militar sem abandonar a identidade sacerdotal que havia construído no Seminário de Olinda; enfrentou as dificuldades da guerra, esteve em Potrero-Oveja e recebeu reconhecimento por sua atuação; retornou ao Brasil e dedicou ainda muitos anos ao ministério religioso.

Para mim, como parente, permanece particularmente significativa a circunstância de que Padre Amaro tenha decidido acompanhar seus irmãos e seu primo. Não posso afirmar que tenha partido pensando especificamente em protegê-los espiritualmente, nem que essa tenha sido a principal razão de sua decisão, porque as fontes não dizem isso. Posso, contudo, reconhecer que essa possibilidade oferece uma chave humana para compreender um gesto que, à primeira vista, parece estranho: um homem que havia escolhido a vida sacerdotal deixando sua atividade paroquial para enfrentar uma guerra distante e brutal. Talvez tenha ido por patriotismo, talvez por vocação, talvez pela família, ou talvez por uma combinação dessas razões. O certo é que partiu, permaneceu anos na campanha e voltou para continuar sendo padre. É justamente essa combinação entre fé, família e guerra que faz de Padre Amaro Theot Castor Brasil uma figura singular da história potiguar do século XIX. 

REFERENCIAS

A SEMANA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, ano 5, n. 246, p. 1, 7 set. 1879.

BEZERRA, Severino. Os Levitas do Senhor. Natal: Fundação José Augusto, 1985.

CÂMARA, Adauto Miranda Raposo da. O Rio Grande do Norte na Guerra do Paraguai. Natal: Tipografia Galhardo, 1951.

EXPEDIENTE DO BISPADO. O Apóstolo, Rio de Janeiro, ano 16, n. 100, p. 3, 4 set. 1881.

GUERRA, Philippe. História Militar do Rio Grande do Norte. Natal, 1920.

GUERRA, Yapery Tupiassu de Brito. Obra de caráter histórico-memorialístico sobre os norte-rio-grandenses participantes da Guerra do Paraguai.

BRASIL. Exército Brasileiro. Ordem do Dia nº 152. Quartel-General em Tuiuti, 9 nov. 1867.

HISTÓRIA. Sociedade Musical Beneficente Euterpe Friburguense, Nova Friburgo. Disponível em: https://fassis.wixsite.com/euterpe/historia. Acesso em: 4 set. 2026. 

VOZ POTIGUAR. Currais Novos, 2 set. 1906. Nota sobre o falecimento do Padre Amaro Theot Castor Brasil

NOTAS COMPLEMENTARES



https://fassis.wixsite.com/euterpe/historia.