ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 22 de agosto de 2026

HÉLIO SEREJO: UM MONUMENTO À CULTURA POPULAR SUL-MATO-GROSSENSE...

 

HÉLIO SEREJO: UM MONUMENTO À CULTURA POPULAR SUL-MATO-GROSSENSE

Por mais que estejamos longe do berço onde nascemos, por mais que vivamos onde a cultura popular é bela e rica, a nossa essência bate como um coração quando falamos de cultura popular, de memória e das coisas que dão sentido à nossa identidade. Por isso, como sul-mato-grossense, não poderia deixar passar este mês de agosto sem reverenciar um intelectual que realizou um verdadeiro prodígio: produzir uma gigantesca obra literária capaz de traduzir, com fidelidade, riqueza e abundância, a alma do povo sul-mato-grossense. Falo de HÉLIO SEREJO, escritor, jornalista, poeta, memorialista e folclorista, um dos maiores intérpretes da gente e da terra de Mato Grosso do Sul.

Nascido em Nioaque, em 1º de junho de 1912, Hélio Serejo viveu profundamente ligado ao universo dos ervais, da fronteira e da vida sertaneja. Desde muito cedo conheceu a dureza do trabalho e os homens que faziam daquele território um espaço de sobrevivência, esperança, coragem e convivência. Essa experiência não ficou apenas em sua memória: transformou-se em literatura. O menino que conheceu os caminhos, os ranchos, os ervais e as gentes de sua terra tornou-se, mais tarde, um extraordinário contador da história cotidiana de uma região.


É difícil falar de Hélio Serejo sem experimentar uma espécie de encantamento diante da dimensão de sua produção. São mais de sessenta obras atribuídas à sua trajetória, abrangendo contos, crônicas, poemas, romances, memórias, estudos de costumes, lendas e registros da vida regional. Em 2008, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul reuniu sua produção em nove volumes de Obras Completas, numa publicação monumental que permitiu perceber, de maneira ainda mais clara, a extensão e a unidade de seu legado.

E há algo particularmente extraordinário em sua escrita: o Folclore parece caminhar por dentro de toda a sua obra. Ele não precisa necessariamente anunciar que está escrevendo sobre cultura popular para que ela apareça. O Folclore surge naturalmente, como surge a conversa de um homem do campo, como surge o cheiro da erva-mate, como surge uma história contada no galpão ou uma lembrança evocada à beira do caminho. Está nos costumes, nas crenças, nas comidas, nas festas, nos modos de falar, nos medos, nas superstições, nas lendas, nas relações de trabalho e nas maneiras de compreender a vida.

É simplesmente impressionante perceber como essa presença atravessa livros de naturezas diferentes sem descaracterizá-los. Em Carreteiro de Minha Terra, Ronda Sertaneja, Rincão dos Xucros, Prosa Rude, Canto Caboclo, Vida de Erval, Pelas Orilhas da Fronteira, Palanques da Terra Nativa, Caraí e tantos outros títulos, a cultura popular aparece como uma espécie de fio invisível que costura a produção de Serejo.


Em algumas obras, esse compromisso com a cultura popular se torna ainda mais explícito. É o caso de Lendas da Erva-Mate e Lendas do Estado de Mato Gross do Sul, títulos que revelam o pesquisador atento às narrativas que habitavam o imaginário de sua gente. Em Abusões de Mato Grosso e de Outras Terras (escrito antes da divisão do estado do MT), mergulha no universo das crenças e dos assombros. Em Modismo do Sul de Mato Grosso, registra modos de falar e particularidades linguísticas. Em Vida de Erval e No Mundo Bruto da Erva-Mate, aproxima-nos do universo social e humano dos ervais, tão decisivo para a formação histórica e cultural da região.

Mas talvez uma das maiores grandezas de Hélio Serejo esteja justamente em não separar artificialmente literatura e vida. Ele compreendeu que a cultura de um povo não mora apenas nos grandes acontecimentos históricos. Ela mora também no pequeno gesto, na palavra aparentemente simples, no apelido, na superstição, no prato de comida, na conversa, na festa, no medo, na valentia, na maneira de cumprimentar um amigo e na história contada muitas vezes até adquirir a dimensão de lenda.

Por isso sua obra é, ao mesmo tempo, literatura e documento de uma época. Pesquisadores reconhecem nela um extraordinário patrimônio de memória, capaz de registrar costumes, trabalho ervateiro, alimentação, mitos, lendas, medicina natural, festas e modos de viver da região fronteiriça. E tudo isso é realizado com uma linguagem muito particular, marcada pelo encontro entre o português, o espanhol e o guarani, numa expressão literária que procura reproduzir a riqueza linguística daquela fronteira.

Há, portanto, em Hélio Serejo, um profundo respeito pelo homem simples. Ele não olha para o povo de longe. Ele escreve de dentro, com intimidade. Conhece suas dores, suas alegrias, suas crenças e contradições. Conhece a aspereza da vida nos ervais e a beleza das paisagens. Conhece o silêncio dos caminhos e a força das palavras. E, sobretudo, compreende que aquele homem que muitas vezes não aparece nos livros oficiais também é construtor da História.

Talvez por isso seja tão difícil encontrar uma definição que dê conta de sua importância. Chamá-lo apenas de escritor seria pouco. Dizer que foi apenas folclorista também seria insuficiente. Hélio Serejo foi um guardião da memória sul-mato-grossense. Foi um homem que percebeu, antes que muita coisa desaparecesse, que a cultura popular precisava ser registrada. Sua escrita funciona como uma grande casa onde ficaram abrigadas vozes que poderiam ter sido levadas pelo tempo.

Sua trajetória também é marcada por reconhecimento institucional. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e de outras instituições ligadas à cultura e ao folclore, inclusive organizações de outros países. Sua produção alcançou uma dimensão que ultrapassou as fronteiras regionais, embora tenha permanecido profundamente enraizada no chão de onde veio.

Hélio Serejo morreu em Campo Grande, em 8 de outubro de 2007, aos 95 anos. Mas há homens que não morrem inteiramente porque continuam vivendo naquilo que deixaram. Serejo permanece nas palavras que escreveu, nas histórias que registrou, nos personagens que criou, nos costumes que preservou e, sobretudo, na possibilidade que nos oferece de reencontrarmos uma parte de nós mesmos quando abrimos seus livros. No dia de hoje o meu coração viaja para longe...


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

BARÔNCIO GUERRA E A MEMÓRIA DOS CINCO PEIXOTOS EXPEDICIONÁRIOS - HEROIS DA GUERRA DO PARAGUAI.

MEU TIO TRISAVÔ MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORDEIRO PEIXOTO, AOS 100 ANOS, EXPEDICIONÁRIO QUE PARTICIPOU DA GUERRA DO PARAGUAI, SENDO HOMENAGEADO POR GETÚLIO VARGAS EM 1940 EM BELÉM/PA.

O artigo “Álbum e cronologia da vida de Barôncio Guerra”, de Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro Furtado de Mendonça e Menezes, ambos sócio efetivos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, publicado na Revista Galo, n. 7, ano 4, constitui uma importante contribuição para a compreensão da vida de Barôncio de Brito Guerra e, ao mesmo tempo, do ambiente histórico, cultural e intelectual do Rio Grande do Norte nas primeiras décadas do século XX. O trabalho foi elaborado a partir de fotografias, jornais, revistas, almanaques, correspondências e outras fontes reunidas em arquivos públicos e privados, com o propósito de estabelecer uma cronologia capaz de acompanhar a trajetória de Barôncio e, por meio dela, recuperar aspectos da própria história de Natal.

Os autores ressaltam que Barôncio Guerra, nascido em Triunfo, no Rio Grande do Norte, em 1882, teve uma vida estreitamente ligada à capital potiguar, onde exerceu exerceu numerosas atividades, como funcionário da repartição de Melhoramentos do Porto, agente da Caixa Paulista de Pensões, empresário, jornalista, advogado, delegado e chefe do comando do Batalhão de Polícia, além de ter sido músico, escritor e participante ativo da vida cultural da cidade. Sua existência, como observam os autores, praticamente se confunde com a própria vida de Natal de seu tempo. Apreciando esse importante material encontramos – dentre diversos temas distintos – os cinco potiguares que participaram da Guerra do Paraguai, os quais são todos da minha família. Encontra-se exatamente em uma passagem da cronologia correspondente ao ano de 1930. Ele também cita mais dois expedicionários, os quais não são da minha família.

Os autores informam que, naquele período, Barôncio Guerra escreveu uma série de perfis sobre figuras de Campo Grande, publicados no jornal A Republica. A iniciativa teria ocorrido em resposta a uma provocação do prefeito de Natal, Omar O'Grady, dirigida ao Instituto Histórico. O dado ganha especial relevância porque os nomes dos personagens foram posteriormente preservados por Yapery Yupiassu, filho de Barôncio, que enumerou aqueles sobre os quais o pai havia escrito. Entre os sete personagens relacionados, encontram-se Alferes Antonio Martins Corrêia, Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa e Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro – que são meus tios-trisavôs –, ao lado do Alferes Joaquim Castriciano de Brito e do Soldado Francisco Justiniano de Melo. É justamente nesse conjunto que reencontramos os cinco expedicionários que constituem objeto central de nossa investigação.

O registro possui importância especial porque revela que esses homens, cuja juventude havia sido marcada pela Guerra do Paraguai, continuavam presentes na memória histórica potiguar muitas décadas depois do conflito. Não estamos diante, portanto, de uma simples relação de militares. Barôncio Guerra os reuniu no contexto de uma série dedicada às figuras de Campo Grande, procurando recuperar personagens que, por suas trajetórias, haviam adquirido lugar na memória daquela antiga localidade. A presença simultânea de cinco expedicionários nessa relação é particularmente expressiva. Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro e Alferes Antonio Martins Correia passam a ser vistos, nesse documento, não apenas como homens ligados à Guerra do Paraguai, mas como integrantes de uma geração de personagens cuja lembrança permanecia vinculada à história de Campo Grande. O artigo, embora não reproduza os perfis originais escritos por Barôncio, confirma sua existência e identifica nominalmente os personagens que foram objeto daquela iniciativa memorialística.

Essa informação precisa ser compreendida dentro da própria trajetória intelectual de Barôncio Guerra. O artigo mostra que ele não se limitava à atividade jornalística, à advocacia ou à intensa vida social e cultural de Natal. Desde cedo demonstrava interesse pelo passado do Estado. Em 1908, por exemplo, ao registrar sua participação na vida musical natalense, o texto também o apresenta como alguém que estudava e pesquisava a história do Rio Grande do Norte. Essa inclinação ajuda a compreender a iniciativa de 1930. Barôncio já era então uma figura madura, com ampla experiência na imprensa e na vida pública, e voltou sua atenção para personagens da antiga Campo Grande, procurando registrar suas trajetórias em perfis publicados em A República. Sua atividade deve ser vista, portanto, como parte de um esforço mais amplo de preservação da memória histórica potiguar, desenvolvido por meio da imprensa e relacionado ao ambiente intelectual do Instituto Hist´rico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Há ainda um aspecto territorial que não pode ser desprezado. O artigo explica, em nota, a sucessão das denominações de Campo Grande, Triunfo e Augusto Severo, mostrando que a localidade passou por transformações administrativas e toponímicas ao longo do tempo. Campo Grande foi a denominação inicial; posteriormente, a localidade recebeu o nome de Triunfo e, mais tarde, Augusto Severo. A nota esclarece que Triunfo foi adotado em 1858 e que a denominação Augusto Severo constituiu homenagem ao grande amigo do chefe político Luís Pereira Tito Jacome, morto na explosão do dirigível Pax, em Paris, em 1902. Essa observação é importante para o nosso estudo porque ajuda a compreender as diferentes referências territoriais encontradas na documentação relativa aos expedicionários. Os homens que estamos estudando pertencem a uma realidade histórica anterior às denominações posteriores e, por isso, suas biografias podem aparecer em fontes diferentes associadas a Campo Grande, Triunfo ou Augusto Severo.

É nesse cenário que a figura do Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto adquire particular relevo. Seu nome aparece explicitamente entre os personagens de Campo Grande sobre os quais Barôncio Guerra escreveu. Para o presente estudo, essa informação possui grande significado, pois confirma que Cornélio não foi lembrado apenas por sua carreira militar ou por sua participação na Guerra do Paraguai. Sua trajetória permaneceu vinculada à memória histórica de Campo Grande, chegando à produção intelectual de Barôncio Guerra já na década de 1930. O artigo não fornece, nesse trecho, detalhes sobre sua carreira militar, sua atuação no conflito ou os acontecimentos posteriores de sua vida; não seria, portanto, correto atribuir ao texto informações que ele não apresenta, embora isso pode ser encontrado num texto recente que escrevi sobre cinco parentes meus, expedicionários da Guerra do Paraguai: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: MAJOR MANOEL CORNÉLIO BARBOSA CORDEIRO PEIXOTO: HERÓI DA GUERRA DO PARAGUAI - O FILHO DO RIO GRANDE DO NORTE QUE ATRAVESSOU A HISTÓRIA DO BRASIL O que o documento efetivamente confirma é que Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto foi escolhido por Barôncio como uma das figuras históricas de Campo Grande merecedoras de um perfil publicado em A República. Leia também outra matéria que trata sobre os mesmos personagens: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: REVELAÇÕES DO DIÁRIO DE ANTONIO MARTINS CORREIA PEIXOTO: QUANDO A PESQUISA HISTÓRICA REENCONTRA A MEMÓRIA DA FAMÍLIA...

O mesmo ocorre com os demais expedicionários. Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa e Alferes Antonio Martins Corrêia aparecem associados a Cornélio na mesma relação. O valor documental desse agrupamento é justamente a possibilidade de enxergar os cinco homens dentro de uma mesma tradição de memória. Embora suas trajetórias individuais tenham sido diferentes, todos foram recuperados por Barôncio Guerra como personagens ligados à antiga Campo Grande. Para uma investigação que busca reconstruir a participação dos potiguares na Guerra do Paraguai, essa coincidência é extremamente significativa. Ela demonstra que a experiência desses homens não desapareceu com o fim da guerra nem com o passar das gerações. Ao contrário, seus nomes continuaram disponíveis na memória local e puderam ser retomados, décadas mais tarde, por um pesquisador e jornalista interessado em registrar os personagens que haviam contribuído para a história de sua terra.

A própria circunstância de os perfis terem sido escritos na década de 1930 merece atenção. A Guerra do Paraguai havia terminado havia aproximadamente seis décadas. Já pertenciam ao passado os acontecimentos militares que haviam levado aqueles homens aos campos de batalha, e uma nova geração de potiguares começava a olhar para eles como personagens históricos. Barôncio Guerra pertence justamente a essa geração posterior. Ao recuperar suas figuras, ele estabelece uma ligação entre o século XIX, vivido pelos expedicionários, e o século XX, no qual a memória deles começava a ser transformada em registro histórico. É como se, através da escrita, Barôncio procurasse impedir que aquela geração desaparecesse inteiramente da lembrança coletiva. Esse gesto é de uma nobreza admirável, pois com certeza absoluta ele teve papel importante para que a memória desses meus cinco tios-bisavós não desaparecesse no tempo. Seus perfis, publicados em jornal, representavam uma maneira de devolver à sociedade os nomes de homens que haviam participado de momentos importantes da formação histórica do Estado e do país.

O artigo de Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro adquire – com igual valor – uma importância que ultrapassa a própria biografia de Barôncio Guerra. Ao reconstruírem sua vida, os autores acabam encontrando essa pequena, mas preciosa janela para a história dos cinco expedicionários. A cadeia documental é reveladora: Barôncio escreveu os perfis; seu filho Yapery Yupiassu preservou a relação dos personagens sobre os quais o pai havia escrito; décadas depois, os pesquisadores recuperaram essa informação ao estudar a vida de Barôncio. Agora, essa mesma referência retorna à investigação sobre os expedicionários da Guerra do Paraguai. Cada geração, de certa maneira, acrescentou uma nova camada à memória desses homens, fazendo com que seus nomes atravessassem o tempo. Isso reforça a ideia sobre o valor da História. Digo isso porque desde criança ouvia minha mãe falar que o seu tio-avô, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, havia participado da Guerra do Paraguai, mas eu não sabia nada mais que isso. Passei anos pesquisando, publiquei recentemente o texto acima e, nos últimos dias, como um algoritmo, as coisas vêm aparecendo incrivelmente, inspirando-me a escrever novos textos com novas abordagens sobre esses cinco parentes que me orgulham.

É preciso, entretanto, estabelecer com precisão os limites da fonte. O artigo da Revista Galo não transcreve os perfis de Barôncio Guerra sobre os cinco expedicionários. Ele apenas informa que esses textos existiram e identifica os personagens. Por isso, as informações biográficas mais amplas que já possuímos sobre esses cinco expedicionários da mesma família devem ser sustentadas pelas demais fontes que integram nossa pesquisa, e não atribuídas indevidamente a este artigo. O verdadeiro valor dessa publicação está em apontar para uma fonte primária ainda não explorada neste documento: os próprios textos publicados por Barôncio em A República. Encontrá-los poderá representar um avanço considerável, pois permitirá conhecer não apenas os nomes, mas a maneira como um intelectual potiguar da primeira metade do século XX interpretou e apresentou esses antigos combatentes.

A passagem da Revista Galo constitui, portanto, uma referência que merece ser incorporada ao estudo dos cinco expedicionários. Ela confirma que Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro e Alferes Antonio Martins Corrêia pertenciam à memória histórica de Campo Grande e que suas trajetórias foram consideradas dignas de registro por Barôncio Guerra. Mais do que isso, a fonte permite perceber que a lembrança desses homens ultrapassou o círculo familiar e militar e alcançou a imprensa e a produção intelectual potiguar. Quando Barôncio os recupera, na década de 1930, ele não está apenas recordando soldados de uma guerra distante; está trazendo novamente à luz personagens de uma geração que havia participado de acontecimentos fundamentais da história brasileira. E é precisamente essa permanência da memória que torna a referência tão importante para o este estudo.

O próximo passo, naturalmente, será buscar os perfis originais publicados por Barôncio Guerra em A República. Se encontrados, eles poderão constituir uma fonte de primeira grandeza para a reconstrução das trajetórias dos cinco expedicionários, permitindo comparar aquilo que Barôncio escreveu na década de 1930 com os documentos militares, registros familiares, jornais e demais fontes que já vêm sendo reunidos nesta pesquisa. O artigo de Sobral e Pignataro, nesse sentido, não encerra a investigação: ao contrário, abre uma porta. E talvez seja justamente atrás dessa porta que estejam algumas das mais importantes informações ainda não localizadas sobre esses cinco homens que, saídos do Rio Grande do Norte, atravessaram a história da Guerra do Paraguai e permaneceram, décadas depois, na memória de sua terra. Reitero: História é isso, o que pode começar com história oral – como foi o caso da informação da minha mãe – termina em material escrito: fato.

Referência: SOBRAL, Gustavo; MENDONÇA E MENEZES, André Felipe Pignataro Furtado de. Álbum e cronologia da vida de Barôncio Guerra. Revista Galo, Natal, n. 7, ano 4, p. 69-89. Recebido em 20 jul. 2022. Aprovado em 16 dez. 2022. A passagem relativa aos perfis das figuras de Campo Grande encontra-se na p. 82 da revista, correspondente à p. 14 do PDF disposto na internet. O artigo informa, ao final, que os autores consultaram jornais, revistas, almanaques, publicações do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, arquivos e coleções particulares, tendo desenvolvido a pesquisa e a redação ao longo de 2021 e 2022.

 


“SEU CASCUDO, TEM UM HOMEM AQUI FORA!”

Imagem apenas inspirada na história, sem compromisso com a fidelidade, gerada por IA.

Há histórias que parecem pequenas demais para serem contadas. Duram alguns segundos, caberiam facilmente entre uma porta e uma escadaria, entre duas vozes lançadas de um cômodo a outro. E, no entanto, algumas dessas histórias possuem uma espécie de eternidade. Ficam na memória porque, por trás do riso, carregam alguma coisa muito maior: revelam o homem, o ambiente em que viveu, a maneira como se relacionava com as pessoas e, sobretudo, uma época que não volta mais. Foi Daliana Cascudo Roberti Leite, neta de Câmara Cascudo quem me contou, certa vez, uma dessas histórias deliciosamente simples sobre seu avô, Luís da Câmara Cascudo. E nunca mais a esqueci. Daliana, herdeira da genética espirituosa da mãe e do avô, conta, encantando. 

Na casa de Cascudo, havia aquela atmosfera que só as casas verdadeiramente vividas conseguem guardar. O movimento das pessoas, a intimidade dos que ali trabalhavam, as conversas que atravessavam os cômodos, os visitantes que chegavam de todos os lugares e, no centro de tudo, aquele homem extraordinário, sentado em seu gabinete, cercado de livros, papéis, lembranças, documentos e ideias.

Cascudo estava em seu gabinete, logo na entrada da casa. Em determinado momento, alguém bateu palmas no portão. Uma das empregadas da casa foi atender. Era uma mulher simples, dessas criaturas que a vida aproxima dos outros sem cerimônia. E talvez aí esteja uma das características mais encantadoras do Nordeste: a espontaneidade. O nordestino, muitas vezes, não precisa de grandes formalidades para transformar um desconhecido em conhecido e, em pouco tempo, um conhecido em amigo. A conversa se estabelece, a distância desaparece e, quando se percebe, já existe uma intimidade que não precisou de convite.

Com aquela mulher acontecia exatamente isso. E havia ainda um detalhe: eram muitos anos trabalhando naquela casa. E trabalhar durante tantos anos na residência de quem? De Luís da Câmara Cascudo! A convivência havia dissolvido qualquer solenidade. Por isso, quando percebeu que havia um homem esperando do lado de fora, ela não achou necessário caminhar até o gabinete para avisar pessoalmente. Afinal, Cascudo estava ali perto. E, mais do que isso, tinha excelente audição. Ela simplesmente subiu um pouquinho a escadaria e, sentindo-se inteiramente em casa, chamou:

“SEU CASCUDO! SEU CASCUDO! TEM UM HOMEM AQUI FORA!”

E então aconteceu o que somente Cascudo poderia fazer. Com aquela instantaneidade de raciocínio que lhe era tão característica, sem perder um segundo sequer, ele respondeu:

“DIGA PARA ELE QUE TAMBÉM TEM UM HOMEM AQUI DENTRO!”

E está contada a história. É engraçada, aparentemente banal, quase doméstica demais. Mas talvez seja justamente aí que resida a sua grandeza. Porque, naquele breve diálogo, há um pouco de tudo o que sempre me encantou em Câmara Cascudo: a rapidez mental, o humor, a irreverência, a inteligência espontânea e aquela capacidade extraordinária de transformar uma situação corriqueira numa pequena obra de espírito.

A empregada viu um homem do lado de fora. Cascudo viu a oportunidade de fazer uma graça. E nós, tantos anos depois, podemos enxergar muito mais: podemos entrever o homem por trás do monumento, o escritor por trás do nome consagrado, o intelectual que, apesar de toda a sua grandeza, continuava sendo simplesmente “Seu Cascudo”, chamado aos gritos do alto de uma escadaria. É isso que me encanta nessa história. Porque às vezes conhecemos os grandes homens através de seus livros, de seus discursos, de seus retratos, das biografias e dos monumentos. Mas é em histórias assim, pequenas e quase domésticas, que eles verdadeiramente se humanizam.

Como eu queria ter conhecido Cascudo!

Digo isso com uma ponta de lamento, porque existem pessoas que parecem pertencer a um tempo que gostaríamos de ter alcançado. Pessoas que, embora já não estejam entre nós, continuam povoando os lugares onde viveram. Seus livros permanecem nas estantes, suas fotografias nas paredes, seus objetos sobre as mesas. E, de algum modo misterioso, a presença continua.

Mas confesso que, de certa maneira, tive o privilégio de conhecê-lo através de sua filha, Ana Cascudo, da qual apanhei algumas pérolas. Tive o gosto de conhecer uma mulher que carregava consigo uma herança muito maior do que um sobrenome ilustre. Quanto mais culta, mais simples. Quanto mais conhecedora, mais atenta. Quanto mais importante, mais disponível. Havia nela consideração, delicadeza, respeito e uma generosidade que não fazia esforço para aparecer. Era um amor de pessoa. Quando Ana Cascudo morreu, senti uma tristeza diferente. Foi como se, naquele momento, não estivesse partindo apenas uma pessoa querida, mas se fechando uma biblioteca inteira. Uma biblioteca viva, cheia de lembranças, histórias, afetos, conhecimentos e memórias que atravessaram gerações. E, ao mesmo tempo, partia um ser humano tremendamente útil à humanidade.

Mas talvez as bibliotecas verdadeiramente importantes não desapareçam quando suas portas se fecham. Ficam nos outros, nos ensinamentos que transmitiram e sobretudo, impregnadas de uma presença que o tempo não consegue apagar.

Por isso, quando penso naquele casarão, percebo o quanto suas paredes ainda guardam muito de Cascudo e de sua família. Talvez seja o silêncio dos livros. Talvez sejam as vozes antigas atravessando os corredores. Talvez seja a memória de tantas pessoas que ali chegaram e saíram levando consigo um pouco daquela casa. E talvez, se prestarmos atenção, ainda seja possível ouvir, em algum recanto da memória, uma voz chamando:

“SEU CASCUDO! SEU CASCUDO! TEM UM HOMEM AQUI FORA!”

E, logo em seguida, como se o tempo não tivesse passado, venha a resposta, rápida, espirituosa, absolutamente cascudiana:

“DIGA PARA ELE QUE TAMBÉM TEM UM HOMEM AQUI DENTRO!”

É por histórias assim que os grandes homens deixam de ser apenas nomes. Cascudo não está somente nos livros que escreveu. Está também na gargalhada que provocou, na resposta que ninguém esperava, na empregada que se sentia tão à vontade naquela casa que podia gritar por ele da escadaria, na filha que herdou a cultura sem perder a simplicidade e, sobretudo, nas pessoas que continuam contando suas histórias. E é por isso que hoje, tantos anos depois, ainda sinto que aquele homem continua lá. Não exatamente no gabinete Ou atrás dos livros, Mas dentro da memória. E, enquanto houver quem conte suas histórias, haverá sempre um pouco de Cascudo dentro da casa.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

CÂMARA CASCUDO: O ADVOGADO DO FOLCLORE...

Falar de Luís da Câmara Cascudo é sempre correr o risco de deixar algo importante de fora. Sua obra é tão vasta, tão múltipla e tão generosa em relação aos campos do conhecimento que qualquer tentativa de defini-lo parece, de algum modo, uma redução. Cascudo foi historiador, folclorista, etnógrafo, pesquisador da cultura popular, estudioso da música, do Direito, da alimentação, da religião, da linguagem, da literatura, dos costumes e de tantos outros assuntos que fizeram dele uma das inteligências mais fecundas que o Rio Grande do Norte ofereceu ao Brasil. Escreveu sobre a História do Rio Grande do Norte com a autoridade de quem conhecia documentos, personagens e acontecimentos; escreveu sobre música, sobre o cotidiano, sobre a vida social, sobre o Brasil e sobre aquilo que muitas vezes passava despercebido aos olhos dos homens que se julgavam mais cultos. Sua curiosidade parecia não conhecer fronteiras. Podia mergulhar num documento hist´rico, examinar uma lei, estudar uma palavra, investigar uma cantiga ou recolher uma história contada pela boca de um homem simples. E talvez seja justamente essa capacidade de transitar entre universos tão diferentes que explique parte de sua grandeza.

Mas há um Cascudo que, especialmente neste mês de agosto, merece ser lembrado com particular atenção: o Cascudo dedicado ao Folclore. Agosto, tradicionalmente associado às celebrações e reflexões em torno do folclore, oferece uma oportunidade para voltarmos os olhos para esse aspecto fundamental de sua obra. É extraordinariamente admirável que um homem capaz de escrever com tanta notoriedade sobre História, Direito, música, literatura e tantos outros campos do conhecimento tenha dedicado uma parcela tão expressiva de sua inteligência a uma área que, durante muito tempo, foi tratada com certo desprezo pelos setores mais eruditos da sociedade. Cascudo não enxergou o folclore como uma coleção de curiosidades ou como passatempo de gente simples. Compreendeu que, por trás de uma dança, de uma cantiga, de uma superstição, de um mito, de uma lenda ou de uma brincadeira, havia séculos de memória humana. Havia povos, encontros, crenças, medos, alegrias, sofrimentos, resistências e formas de compreender o mundo. E foi justamente essa percepção que fez dele um gigante dos estudos do folclore brasileiro.

O mais extraordinário é que Cascudo conseguiu mergulhar profundamente no universo dos mitos, das lendas, das histórias fantásticas, das assombrações e dos seres sobrenaturais sem permitir que o encantamento do folclore contaminasse o rigor com que tratava outros campos do conhecimento. O homem que estudava o mito sabia que mito era mito; o homem que recolhia uma lenda sabia que lenda era lenda; aquele que registrava uma história de assombração não precisava acreditar literalmente nela para compreender seu extraordinário valor cultural. Cascudo podia entrar no mundo do fantástico sem perder o caminho de volta à realidade. Se a fantasia tivesse invadido sua maneira de escrever História, se as lendas fossem tratadas como fatos documentais, seu legado certamente teria sido prejudicado. Mas não foi isso que aconteceu. Ele soube distinguir os territórios sem jamais isolá-los. Compreendeu que o fantástico, mesmo quando não corresponde à realidade factual, pode ser absolutamente verdadeiro enquanto expressão da imaginação, da memória e da experiência coletiva de um povo. Essa talvez seja uma das maiores lições de sua obra: não é preciso acreditar literalmente em uma lenda para reconhecer a verdade cultural que existe dentro dela.

Essa compreensão de Cascudo se torna ainda mais bonita quando lembramos não apenas o escritor, mas o homem que existia por trás dos livros. Há uma passagem que guardo com especial carinho, porque tive a oportunidade de ouvi-la de Ana Maria Cascudo Barreto, durante uma conferência no Ludovicus - Instituto Câmara Cascudo. Naquela ocasião, Ana Maria nos aproximou de um Cascudo que não aparece apenas nas bibliografias, nas fotografias ou nas lombadas dos livros, mas no cotidiano de sua relação com o povo. Ela contou que, em determinado período, manifestações da cultura popular realizadas por pessoas simples nas ruas, nas praças e nos quintais eram, muitas vezes, vistas por algumas pessoas e até por determinadas autoridades como arruaças. Brincadeiras como o bambelô, o zambê e outras manifestações marcadas pela percussão, pelo canto, pelo corpo e pela celebração eram incompreendidas por aqueles que não conseguiam enxergar ali uma expressão cultural. Para quem não conhecia aquela tradição, o som dos tambores podia parecer apenas barulho; a reunião de pessoas podia parecer desordem; a dança podia parecer perturbação da ordem pública. Para os brincantes, entretanto, aquilo não era arruaça. Era vida, tradição, memória. Era algo que traziam dentro da alma e que haviam recebido de seus antepassados.

E então acontecia uma situação que revela muito da grandeza humana de Cascudo. Em determinadas noites, quando essas pessoas eram levadas para a delegacia porque estavam brincando, alguém corria até sua casa. Às vezes era a esposa; às vezes uma filha, um avô, um parente ou alguém da comunidade. Chegavam aflitos, procurando socorro. Não procuravam apenas um intelectual famoso. Procuravam alguém que compreendesse - de forma muito especial - o que estava acontecendo. E Cascudo, segundo a narrativa que ouvi de Ana Maria, não fazia questão de esperar o dia seguinte. Se fosse noite ou madrugada, levantava-se e ia à delegacia. Muitos daqueles delegados eram seus amigos ou conhecidos. E então, diante da autoridade policial, dizia mais ou menos assim: “Meu amigo, solte essas criaturas. Elas não fazem mal a ninguém. Não são criminosos, apenas estão se divertindo. Isso é a cultura popular.” E o delegado, diante daquele pedido, mandava abrir a cela. Talvez com a cara fechada, talvez sem querer demonstrar muito entusiasmo para não “dar cabimento” aos brincantes, mas soltava. Aquela soltura, narrada por Ana Maria, me parece uma das imagens mais bonitas para compreender a verdadeira dimensão de Câmara Cascudo.

Ali estava o professor defendendo o folclore não como conceito abstrato, mas como direito de existir. O bambelô, o zambê, o batuque, a dança, a reunião de pessoas simples e a música produzida pelos tambores eram, para Cascudo, parte de uma herança cultural que precisava ser respeitada. Ele sabia que aquelas manifestações não tinham surgido do nada. Eram frutos de uma longa história brasileira, de encontros e permanências, de heranças africanas, indígenas e europeias, de adaptações feitas por homens e mulheres que transformaram suas experiências em canto, dança, ritmo, celebração e memória. O que alguns enxergavam como arruaça, Cascudo enxergava como documento vivo. O povo não precisava conhecer academicamente a palavra “folclore” para ser portador do folclore. E Cascudo compreendeu isso de maneira extraordinária.

É por isso que sua obra folclórica permanece tão grandiosa. Ele não ficou apenas sentado em sua biblioteca, recolhendo histórias para transformá-las em livros. Sabia que o folclore estava nas ruas, nos quintais, nas festas, nas vozes dos velhos, nos gestos das crianças, no corpo dos brincantes e no som dos tambores. O povo não era, para ele, apenas objeto de curiosidade. Era depositário de uma memória que os livros, muitas vezes, não conseguiam guardar. Sua biblioteca era enorme, mas sua fonte também era a rua. Seu arquivo estava nos livros, mas também estava na memória dos homens. É por isso que aquelas pessoas aflitas, que viam a sua cultura sendo interpretada como atentado à ordem pública, e por isso eram presas, corriam para se socorrer dele e, melhor, ele conhecia essas pessoas que para muitos eram invisíveis.

Neste mês dedicado ao folclore, falar de Câmara Cascudo é, portanto, muito mais do que lembrar o autor de Dicionário do Folclore Brasileiro. É lembrar o homem que percebeu que o folclore não era assunto menor. É lembrar aquele que levou para dentro das bibliotecas e dos círculos intelectuais aquilo que muitos consideravam apenas diversão de gente simples. É lembrar o intelectual que escreveu sobre mitos e lendas sem se tornar um fabulista; que estudou assombrações sem abandonar o rigor histórico; que registrou crenças sem transformar crença em documento factual; que entrou no território do fantástico sem permitir que o fantástico destruísse a fronteira entre imaginação e História. Talvez seja por isso que a imagem daquele Cascudo que ia à delegacia durante a noite seja tão poderosa. Ela resume uma vida inteira. O professor que defendia os brincantes não estava apenas pedindo um favor a um amigo delegado. Estava defendendo uma ideia. Estava dizendo que o povo tinha direito à sua própria cultura. Estava afirmando que aquelas pessoas não eram criminosas porque estavam tocando seus tambores e dançando suas tradições. Estava educando pessoas que ignoravam aquilo como cultura. E, quando o delegado abria a cela, alguma coisa maior também acontecia: a cultura popular saía da prisão.

Gosto de imaginar aquela cena como uma espécie de tribunal às avessas. De um lado, a autoridade formal da lei, representada pelo delegado. Do outro, a autoridade da cultura, representada por Câmara Cascudo. E, naquela noite, não era a força que vencia a força. Era o conhecimento que convencia o poder. Cascudo não precisava gritar. Bastava dizer, com a autoridade de quem havia dedicado a vida àquilo: “Meu amigo, solte essas criaturas.” E elas eram soltas. Talvez por isso aquela cena narrada por Ana Maria me pareça tão simbólica. O homem dos livros saía de sua biblioteca para defender aqueles que dificilmente teriam espaço nos livros. O intelectual consagrado colocava sua autoridade a serviço dos que não tinham autoridade alguma. Por isso, ao pensar em Câmara Cascudo neste mês de agosto, gosto de acrescentar à sua imensa bibliografia uma imagem que nenhum catálogo de livros consegue registrar: Cascudo diante de uma delegacia, à noite, pedindo a liberdade de brincantes do povo. Talvez essa seja uma das mais bonitas páginas de sua obra, justamente porque não foi escrita com tinta. Foi escrita com uma atitude. Foi escrita com humanidade. Foi escrita com a compreensão de que o folclore não vive apenas nos livros que falam dele, mas nas pessoas que o carregam. E então compreendemos que aquelas não eram apenas leis comuns. Eram outras leis. As leis da memória, da tradição, da cultura, daquilo que um povo recebe de seus antepassados e transmite aos que vêm depois. Leis do Folclore, isso sim. E, naquela pequena delegacia, diante de homens simples que apenas queriam continuar brincando, Câmara Cascudo parecia dizer que também havia uma autoridade acima da autoridade passageira dos homens: a autoridade da cultura que sobrevive ao tempo.

Foi esse Cascudo que Ana Maria Cascudo Barreto me fez enxergar naquela conferência no Ludovicus. Não apenas o homem dos livros e das escrivaninhas, mas o homem que abria espaço para aqueles que chegavam aflitos, vindos da rua, trazendo a notícia de que algum brincante havia sido preso. O homem que sabia reconhecer, por trás do som do tambor, aquilo que outros não conseguiam ouvir. E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois de sua morte, Câmara Cascudo continue tão vivo entre nós. Porque ele não estudou apenas o folclore. Ele compreendeu que, dentro do folclore, havia gente.

E quando um homem consegue enxergar gente onde outros enxergam apenas barulho, memória onde outros enxergam apenas brincadeira e cultura onde outros enxergam arruaça, então já não estamos diante apenas de um pesquisador. Estamos diante de alguém que compreendeu profundamente o seu povo. Esse foi Câmara Cascudo. E talvez essa seja uma das razões mais bonitas para que, neste mês de agosto, quando o Brasil volta os olhos para o folclore, nós também voltemos os nossos olhos para ele...


terça-feira, 18 de agosto de 2026

REVELAÇÕES DO DIÁRIO DE ANTONIO MARTINS CORREIA PEIXOTO: QUANDO A PESQUISA HISTÓRICA REENCONTRA A MEMÓRIA DA FAMÍLIA...

Fotografia dos ex-combatentes: sentado, meu tio-trisavô Manoel Martins Correia e Castro; de pé, meu tio-trisavô Antonio Martins Correia Peixoto. Fonte: Acervo do Museu Histórico Luiz Gondim, Paraú/RN (2026): Monografia de João Lucas de Oliveira Linhares 

CINCO PEIXOTOS NA GUERRA DO PARAGUAI

Este estudo é dedicado a João Lucas de Oliveira Linhares

Há descobertas que a pesquisa histórica nos proporciona e que ultrapassam, em muito, aquilo que inicialmente procurávamos. Algumas chegam quase por acaso, como se o passado, depois de permanecer silencioso durante décadas, resolvesse bater à porta do presente para surpreendê-lo. Foi exatamente isso que aconteceu comigo.Depois de escrever um estudo sobre o meu tio-trisavô, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto, mipibuense, veterano da Guerra do Paraguai, logo publiquei neste mesmo blog, entendendo que, mesmo diante de algumas lacunas, o material precisava ser disponibilizado, tendo em vista que muitos parentes meus, principalmente os mais jovens, desconhecem essa história. De sua história eu só sabia a ponta do novelo contada por minha mãe, Maria José Peixoto. Eu havia procurado documentos, reconstituído sua trajetória militar, acompanhado os caminhos que o levaram ao conflito, percorrido os caminhos de Belém, no Pará, onde ele também residiu, e tentado devolver à sua biografia um pouco da dimensão que o tempo havia apagado, enfim puxei todo o novelo, ou melhor, quase todo, pois pesquisa quase não tem fim. O texto foi publicado no meu blog, e eu acreditava que, naquele momento, aquela etapa da pesquisa estava concluída.

Leia o estudo sobre o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto

Foi então que aconteceu uma dessas coincidências que parecem possuir uma lógica própria. Eu havia chegado apenas à metade do novelo. Após a publicação, descobri que João Lucas de Oliveira Linhares, jovem historiador formado pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, havia feito pesquisas sobre a participação dos norte-rio-grandenses na Guerra do Paraguai, e o objeto de estudo dele era exatamente Antonio Martins Correia Peixoto: O Diário do Alferes Antonio Martins Correia Peixoto e as Memórias sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870). O trabalho, apresentado em 2026, tem como fonte central o diário pessoal de Antônio Martins Correia Peixoto, documento de extraordinário valor histórico.

A surpresa foi enorme. Aquele Antônio Martins Correia Peixoto não era simplesmente mais um nome entre os potiguares que participaram da Guerra do Paraguai. Era meu tio-trisavô. E, mais do que isso, o pesquisador havia chegado a uma fonte que eu jamais imaginara encontrar: o diário pessoal desse meu antepassado, que pertence ao Museu de Paraú, Rio Grande do Norte. João Lucas teve ainda uma generosidade intelectual que merece ser registrada, inclusive seu gesto serve de lição a muitos historiadores que omitem informações. Depois de estabelecermos contato, ele me enviou sua monografia e outros materiais afins. E foi assim que a pesquisa deixou de ser apenas uma investigação sobre um personagem do passado e ganhou uma dimensão profundamente familiar. Eu estava diante de um documento escrito por alguém da minha própria família, um homem que havia atravessado os mares, participado de uma guerra distante e carregado consigo, para o resto da vida, as lembranças daquela experiência.

O trabalho de João Lucas é particularmente importante porque não se limita a contar a história da Guerra do Paraguai. Seu propósito é compreender como a experiência do conflito foi registrada, lembrada e reelaborada por Antônio Martins Correia Peixoto. O diário, portanto, não é tratado simplesmente como uma narrativa pronta e incontestável, mas como uma fonte histórica que precisa ser confrontada com documentos militares, registros eclesiásticos, fotografias, literatura memorialística e outras fontes, mas com um ponto nobre: é documento, é fato. Essa metodologia confere ao trabalho uma solidez que o torna muito mais do que uma biografia familiar. E foi justamente nesse mergulho que encontrei uma das passagens mais emocionantes de toda essa história.

Diário do meu tio-trisavô Manoel Martins Correia Peixoto. Acervo: João Lucas de Oliveira Linhares

Antônio Martins não foi sozinho para a guerra. Em 1865, quando ainda era um jovem residente na Fazenda Beldroega, na então freguesia de Campo Grande, no Rio Grande do Norte, ele partiu como Voluntário da Pátria acompanhado de três irmãos: Padre Amaro Theot Castor Brasil, Manoel Martins Correia e Castro e José Lucas Barbosa. Os quatro irmãos integraram o contingente potiguar enviado para a Guerra do Paraguai. E, como pode ser visto no trabalho que cito acima, eram simplesmente cinco pessoas da minha família, a contar com o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Correia Peixoto.

Há outro detalhe precioso. A documentação militar foi pesquisada por um dos maiores intelectuais norte-rio-grandenses daquele período: Adauto Miranda Raposo da Câmara e ele confirma a presença dos quatro irmãos no Primeiro Corpo de Voluntários do Rio Grande do Norte. Antônio Martins aparece como praça da 4ª Companhia; Amaro Theot Castor Brasil, como capelão-alferes da 1ª Companhia; Manoel Martins Correia e Castro, como alferes da 2ª Companhia; e José Lucas Barbosa, como praça da 4ª Companhia. São quatro irmãos de uma mesma casa, de uma mesma família, saindo juntos de sua terra para uma guerra que acontecia a milhares de quilômetros dali. E existe algo ainda mais poderoso: o próprio Antônio Martins deixou registrada essa despedida.

Diário de Manoel Martins Correia Peixoto. Acervo: João Lucas de Oliveira Linhares

Em um trecho de seu diário, reproduzido por Yapery Tupiassu de Brito Guerra em seu estudo sobre os norte-rio-grandenses que participaram do conflito, Antônio escreveu que partira voluntariamente com seus irmãos Padre Amaro Theot Castor Brasil, Manoel Corrêia e Castro e José Lucas Barbosa, além de seu primo Elias, Francisco José de Melo, Sabino e outros. A partida da casa paterna ocorreu em 13 de março de 1865. A mãe ficou banhada em lágrimas, mas, segundo a lembrança registrada pelo filho, recomendou-lhes que partissem tranquilos, pois suas orações os acompanhariam. Pediu ainda que, depois da vitória, retornassem ao lar sãos e salvos para que pudesse novamente abençoá-los.

É difícil ler essas palavras sem imaginar a cena. Uma casa na antiga freguesia de Campo Grande. Uma mãe vendo os filhos partirem. Um pai acompanhando-os até Natal e depois retornando, sem saber se os filhos retornariam também. Quatro irmãos deixando para trás a segurança da família e seguindo para uma guerra cujo teatro de operações lhes era absolutamente distante e desconhecido. Não era apenas uma partida militar. Era uma ruptura familiar. Em junho de 1865, eles seguiram para o Rio de Janeiro e, dali, para o Sul. Chegaram a Cachoeira, onde iniciaram efetivamente a campanha em 29 de agosto daquele ano. Antônio registrou que ali tiveram o chamado "batismo de fogo", antes de marcharem para Uruguaiana, onde encontraram uma situação em que os paraguaios acabaram se entregando.

Meu tio-trisavô Padre Amaro Theot Castor Brasil

Antônio Martins carregaria essas experiências durante toda a vida. Seu diário registra, segundo o estudo de João Lucas, participação em 23 combates, entre 13 de março de 1865 e 1º de abril de 1870. Mas aquele caderno não é apenas um diário militar. Nele aparecem também lembranças pessoais, informações genealógicas, registros relacionados àfazenda Beldroega, reflexões e lamentações familiares. É, portanto, um retrato muito mais amplo de um homem e de seu tempo.

Isso talvez seja o que mais me emociona nessa descoberta, pois esse cuidado em ter sempre em mãos um papel e um lápis me aproxima muito dele. São objetos que acompanham a minha vida. Talvez por isso eu compreenda ainda melhor o significado daquele caderno. Antônio não escreveu apenas para registrar acontecimentos. Escreveu para não deixar que determinadas coisas se perdessem. E, sem saber, acabou deixando para seus descendentes e para os historiadores uma porta aberta para um mundo que desapareceu. É aqui que a história dos quatro irmãos se encontra novamente com a história do meu tio-trisavô, Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto.

Meu tio-bisavô Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto

O TCC de João Lucas recupera uma importante tradição memorialística potiguar: a comunicação de Yapery Tupiassu de Brito Guerra, publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, que procurou resgatar do esquecimento alguns dos norte-rio-grandenses que participaram da Guerra do Paraguai. Entre os personagens apresentados estão justamente Alferes Antonio Martins Corrêia, Padre Amaro Theot Castor Brasil, Capitão Manoel Martins Corrêia e Castro, Tenente José Lucas Barbosa e Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro, além de Joaquim Castriciano de Brito e Francisco Justiniano de Melo. Todos foram apresentados como naturais de Campo Grande.  É nesse ponto que a minha descoberta se torna ainda mais significativa.

Meu tio-trisavô José Lucas Barbosa

Eu havia começado a pesquisar UM parente que participou da Guerra do Paraguai e descobri, no caminho, uma verdadeira constelação familiar ligada àquele episódio da história brasileira. De um lado, os QUATRO irmãos: Antônio Martins, Amaro, Manoel Martins e José Lucas. De outro, o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro, outro parente cuja trajetória militar também se ligou àquela guerra. Assim, CINCO tios-trisavôs meus passaram a ocupar, de maneira muito mais concreta, um lugar na história da Guerra do Paraguai. Não são mais apenas nomes encontrados em genealogias, registros militares ou livros antigos. São homens que tiveram rosto, voz, família, medo, esperança, coragem e destino. E, no caso de Antônio Martins, temos algo ainda mais raro: temos a sua própria escrita.

O diário que permaneceu durante tantos anos restrito à memória familiar ganhou, pelas mãos de João Lucas, uma nova existência histórica. O pesquisador registra que o documento possui 104 páginas e que havia sido digitalizado em 2006, depois que um descendente de Antônio Martins procurou o Departamento de História da UERN. A análise revelou que o manuscrito não trata apenas da guerra. Ele reúne também dados genealógicos, contabilidade da fazenda, reflexões filosóficas e lamentações familiares. É, portanto, um retrato muito mais amplo de um homem e de seu tempo.

A história não ficou confinada aos grandes generais, aos presidentes, aos ministros ou aos grandes acontecimentos registrados nos livros oficiais. Ela sobreviveu também nas mãos de homens comuns que escreveram, guardaram, lembraram e transmitiram suas experiências. O diário de Antônio Martins é exatamente isso: uma ponte entre o indivíduo e a História. João Lucas percebeu isso com rara sensibilidade. Seu trabalho não transforma simplesmente os personagens em estátuas de bronze. Ao contrário, procura compreender como a memória foi construída, como os antigos combatentes foram transformados em “heróis" e como a própria historiografia potiguar muitas vezes exaltou o patriotismo sem discutir suficientemente as violências e as contradições do recrutamento.

Essa postura torna a pesquisa ainda mais valiosa. Afinal, reconhecer a coragem de nossos antepassados não significa abandonar o olhar crítico do historiador. É possível admirar a trajetória de um homem e, ao mesmo tempo, compreender as circunstâncias históricas que o levaram à guerra. É possível honrar sua memória sem transformar a História em lenda. E talvez seja justamente essa a maior homenagem que podemos prestar a eles. Há, entretanto, um lugar onde essa memória parece ter encontrado uma casa.

Eu estava me preparando para ir ao município de Paraú, no Rio Grande do Norte, para conhecer o museu onde se encontra uma parte muito significativa da memória desses meus ancestrais. Ali, segundo as informações que chegaram até mim e o material que venho pesquisando, existe uma verdadeira reverência a esses homens. Fotografias, objetos pessoais, registros e outros elementos relacionados à família e aos combatentes compõem um acervo que permite ao visitante aproximar-se não apenas dos personagens, mas do universo humano que os cercou. Paraú guarda, com orgulho, a memória desses cinco homens ligados à Guerra do Paraguai. E isso possui um significado especial para mim. Não se trata apenas de um município que preserva a lembrança de antigos combatentes. Trata-se de um lugar onde a história da minha própria família permanece materializada em fotografias, objetos e documentos. É como se aquilo que encontrei primeiro em livros, depois no diário de Antônio Martins e, finalmente, nas fotografias, tivesse um lugar físico para existir.

Tenho especial interesse em conhecer esse acervo pessoalmente. Quero estar diante das fotografias, observar os objetos, perceber os vestígios materiais deixados por esses homens e, sobretudo, imaginar a trajetória que cada peça percorreu até chegar ali. Há algo diferente quando uma pessoa deixa de olhar uma reprodução na tela do computador e passa a contemplar o objeto original, aquele que pertenceu a alguém que viveu, amou, sofreu, escreveu e partiu para uma guerra.  E Paraú parece ter compreendido o valor dessa memória. Inclusive familiares meus residem nesse município, embora não os conheço e nem imaginava suas existências. É por isso que vou me organizar para visitar todo esse achado.

A cidade se orgulha de saber que possui entre seus referenciais históricos cinco homens ligados à Guerra do Paraguai, e essa consciência patrimonial merece ser valorizada. Porque preservar a memória não significa apenas guardar objetos antigos. Significa explicar às novas gerações por que aqueles objetos sobreviveram e o que eles têm a dizer sobre nós. Quando eu chegar a Paraú, portanto, não estarei apenas visitando um museu. Estarei, de certa maneira, indo ao encontro de cinco parentes.

Antônio Martins Correia Peixoto, Padre Amaro Theot Castor Brasil, Manoel Martins Correia e Castro, José Lucas Barbosa e Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro pertencem agora a uma memória familiar que ganhou novas dimensões. Quatro deles partiram juntos da casa paterna, acompanhados pelas lágrimas e pelas orações da mãe. Outro, o Major Manoel Cornélio, também carregou consigo o peso e a experiência daquela guerra que marcou profundamente a sua geração. Hoje, tantos anos depois, seus nomes voltam a se encontrar. E isso aconteceu porque um jovem historiador decidiu abrir um diário antigo e perguntar o que havia dentro dele.

Por isso, esta história é também uma história de gratidão. Gratidão a Antônio Martins, que escreveu. Gratidão aos familiares que conservaram. Gratidão aos pesquisadores que procuraram. Gratidão à Universidade que acolheu a pesquisa. Gratidão a todos aqueles que, de alguma maneira, compreenderam que esses homens mereciam ser lembrados. E, de maneira muito especial, gratidão a João Lucas de Oliveira Linhares, pela generosidade de compartilhar comigo um trabalho que, para qualquer pesquisador, já seria extraordinário, mas que para mim adquiriu um significado ainda maior. João Lucas não me entregou apenas a sua monografia. Entregou-me, de certa maneira, uma parte da minha própria história. E seu gesto de generosidade intelectual é exemplar.

Eu já havia produzido um estudo, como disse, obviamente uma produção mais acanhada, e não conhecia o TCC de João Lucas. Mas, ao abrir aquele estudo tão amplo e rico, encontrei um antepassado. Ao conhecer o diário, encontrei a voz de um homem que viveu a Guerra do Paraguai. Ao descobrir que ele partira acompanhado dos irmãos, encontrei outros três parentes. E, ao lado deles, reencontrei também o Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro, cuja trajetória havia sido justamente o ponto de partida dessa nova investigação. É assim que a História às vezes acontece. Pensamos que estamos procurando um homem e descobrimos uma família inteira. Pensamos que estamos pesquisando o passado e descobrimos que, na verdade, o passado estava procurando por nós.

E talvez essa seja a maior beleza de tudo isso: depois de mais de um século e meio, cinco homens que um dia partiram para uma guerra distante voltaram a se encontrar nas páginas de um diário, nas fotografias de um museu, na memória de uma cidade e, agora, na memória de um descendente. Muito obrigado, João Lucas! Você abriu um diário. E, ao fazê-lo, abriu também uma porta. Do outro lado dela estavam cinco homens, uma família, uma guerra e uma história que ainda precisava ser contada... (Nos próximos dias escreverei sobre uma conferência que houve no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – há 35 anos – e que o conferencista revela que seu pai recebeu de Omar O’Grady, então prefeito de Natal, que propusesse nomes a serem dados a ruas, praças, avenidas da capital... ele propôs os nomes desses heróis)...


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

LENDA DO BAOBÁ DE NÍSIA FLORESTA: DECIFRA-ME OU TE DEVORO - QUANDO A LENDA PODE TER RAÍZES NA HISTÓRIA...

Baobá de Nísia Floresta, ilustrando um material didático proposto pela SEMEC de Nísia Floresta em 2004

Ontem escrevi sobre o baobá de Nísia Floresta, detendo-me especialmente na questão de quem teria sido, de fato, o Moura responsável por plantá-lo. Para não transformar aquele texto em mais um dos longos escritos que costumo produzir, deixei para hoje uma outra dimensão dessa história: a lenda. E não se trata de qualquer lenda. Trata-se de uma narrativa que, além de atravessar gerações da antiga Papary, foi registrada por um dos maiores estudiosos da cultura popular brasileira, Luís da Câmara Cascudo. É justamente aí que a história começa a ficar ainda mais fascinante.

A partir de 1992, passei a desenvolver um trabalho de História Oral em Nísia Floresta. Fui atrás das memórias que ainda sobreviviam na voz dos mais antigos: histórias de família, costumes, acontecimentos, crenças, lugares, personagens, festas, tragédias e lendas. Priorizei, sobretudo, pessoas idosas. Assim, tive a oportunidade de conversar com homens e mulheres que ultrapassavam os 90 anos e também com pessoas centenárias. Era, de certa maneira, uma corrida contra o tempo, porque quando uma pessoa muito idosa morre, não desaparece apenas uma vida: muitas vezes desaparece uma biblioteca inteira. Foi nesse universo de memórias que encontrei também as narrativas sobre o baobá.

A lenda, conforme escrevi (Continua abaixo)...

Em 2004, a Secretaria Municipal de Educação de Nísia Floresta, através da professora Ana Maria Barros de Carvalho, organizou um pequeno opúsculo destinado às escolas. O material reunia um dicionário da Língua Portuguesa e uma síntese de informações sobre o município. Pequeno em tamanho, mas grande em propósito, funcionava quase como um pequeno livro didático, reunindo conhecimentos que poderiam servir de referência às crianças e aos jovens do munic´pio, parte esta confiada a mim. Nesse material registrei a “Lenda do Baobá”, procurando reproduzi-la da maneira como a ouvi. Não pretendia, naquele momento, fazer uma reconstrução acadêmica da narrativa. Registrei aquilo que sobrevivia na memória coletiva. Havia, inclusive, limite de espaço para a publicação, razão pela qual selecionei as lendas clássicas. Hoje, porém, olhando para aquela narrativa com outros olhos, percebo que o baobá de Papary pode nos conduzir a uma reflexão muito maior.

Numa de suas Actas Diurnas, Câmara Cascudo (1941), escreveu sobre o baobá de Papary de maneira extraordinariamente poética. Ao imaginar a reação de um botânico diante daquela árvore monumental, perdida na paisagem de uma pequena cidade nordestina, Cascudo descreve o estranhamento diante de uma espécie que não pertencia originalmente à flora brasileira. O baobá é uma árvore profundamente ligada ao continente africano, especialmente a Adansonia digitata, espécie cuja presença natural está associada às regiões tropicais e meridionais da África. E é justamente por isso que a presença de um baobá em Papary não pode ser vista apenas como uma curiosidade botânica. Ela é também uma pergunta histórica. Como uma árvore tão profundamente africana chegou até aqui? Não há como não perguntarmos isso. Inclusive foi a pergunta que fiz quando a conheci.

Cascudo oferece uma resposta baseada na tradição local. Segundo o relato por ele registrado, José de Araújo teria recebido uma semente e a entregue a Manuel José de Moura, que a teria plantado em Papary por volta de 1870. Mas Cascudo vai além. "(...) E como apareceu esse Baobá em Papari? José de Araújo, antigo chefe político de Papari, trouxe a metade de uma semente e presenteou-a a Manuel José de Moura. Este, mais ou menos ao redor de 1870, plantou-a na praça silenciosa. E o Baobá nasceu." (1941) Ele menciona a existência de outro baobá em Olheiros, próximo de Tororomba, e registra uma tradição segundo a qual aquela árvore teria se originado de uma semente trazida por um negro escravizado, clandestinamente desembarcado nas proximidades. E é nesse ponto que a narrativa deixa de ser apenas botânica. Ela passa a ser humana. Passa a ser africana. Passa a ser memória. Cascudo conclui seu texto com uma imagem de enorme força: o baobá de Papary como uma espécie de “pegada da África”. Talvez seja exatamente essa a expressão que devemos guardar.

A lenda que registrei no início da década de 90 diz que um africano teria trazido consigo uma semente do baobá. Pensemos, por um instante, na dimensão humana dessa imagem. Um homem arrancado de sua terra, separado de sua família, trazido para um continente desconhecido e transformado em mercadoria por um sistema econômico que reduzia seres humanos à condição de propriedade. E, no meio de tudo isso, carregando consigo uma semente. Uma coisa aparentemente pequena, quase insignificante, mas que continha uma árvore inteira. Uma árvore da sua terra. Uma árvore da sua memória. Uma árvore de seu povo e, superando todas essas condições: uma árvore sagrada, quase mágica.. Se a tradição estiver correta, aquele homem talvez não soubesse se voltaria algum dia à África. Talvez não soubesse sequer onde terminaria sua própria vida. Mas poderia ter levado consigo aquilo que lhe era possível transportar: uma semente da paisagem que havia deixado para trás. E essa semente teria encontrado chão em Papary. O que seria, então, essa árvore? Somente uma árvore? Ou uma espécie de monumento vivo à presença africana em Nísia Floresta?

Não devemos romantizar essa história. A antiga Papary estava inserida numa sociedade escravista. A documentação histórica demonstra a presença de pessoas escravizadas na região e revela episódios diretamente relacionados ao tráfico ilegal de africanos. Isso muda a maneira como devemos olhar para a velha Papary. Não estamos falando apenas de uma cidade onde existiram escravizados. Estamos falando de um território que participou das redes econômicas e humanas da escravidão e que também recebeu africanos trazidos ilegalmente para o Brasil. E aqui a narrativa do baobá ganha uma dimensão ainda mais perturbadora. Porque Cascudo fala de uma árvore, a documentação histórica nos fala de africanos e a memória oral nos fala de um homem que teria trazido consigo uma semente. Talvez sejam histórias diferentes. Talvez sejam a mesma história vista de ângulos diferentes. Talvez nunca consigamos provar completamente a ligação. Mas é justamente nessa fronteira entre documento, memória e tradição que nasce uma das histórias mais fascinantes de Nísia Floresta.

Há ainda outra questão que sempre me chamou a atenção durante minhas pesquisas de História Oral. Em Tororomba e no Porto existem famílias negras antigas, algumas delas de pele muito retinta, tão preta que brilha, cuja característica atravessou gerações e estão ali, intactos, como se tivessem chegado ontem de seus países africanos. Isso, evidentemente, não permite afirmar, apenas pela aparência física, uma descendência específica. A genealogia não pode ser construída somente pela cor da pele. Seria necessário recorrer a registros de batismo, casamento, óbito, inventários, cartas de alforria, documentos de propriedade, registros judiciais e outras fontes capazes de reconstruir essas linhagens. Mas a pergunta histórica permanece. Quem eram essas pessoas? De onde vieram seus antepassados? Quais histórias carregaram? Quantas gerações permaneceram naquele território? E, sobretudo, será que entre essas famílias existem descendentes daqueles africanos que chegaram à velha Papary durante o período escravista? Alguns deles são descendentes do escravo que plantou o baobá de Olheiros? Essa é uma pergunta que merece investigação. Não uma afirmação precipitada, mas uma investigação séria, paciente e documental. Porque a história de um povo não está apenas nos documentos oficiais. Ela também está nos sobrenomes, nos lugares, nos modos de falar, nas festas, nas crenças, nos silêncios e nas histórias que os mais velhos contavam quando os historiadores ainda não haviam chegado.

Há uma coincidência simbólica difícil de ignorar. O baobá é uma árvore associada à África. Papary foi uma sociedade escravista. É berço de grandes engenhos. Existem registros documentais da presença de africanos e descendentes de africanos em Papary. Existe uma tradição oral sobre um africano que teria trazido uma semente do baobá. Câmara Cascudo registrou essa tradição. O baobá de Olheiro morreu. E, no presente, o baobá do centro do município continua de pé. Assim, a árvore que um dia poderia ter sido apenas uma curiosidade exótica transformou-se numa espécie de árvore genealógica da própria paisagem. Uma semente. Depois uma árvore. Depois outras árvores. E, ao redor delas, histórias. É possível que a lenda tenha nascido de um fato real. É possível também que, com o passar das gerações, um acontecimento histórico tenha adquirido os contornos da mitologia. Mas isso não diminui sua importância. Pelo contrário. Às vezes, a lenda é aquilo que restou quando o documento desapareceu.

Gosto de imaginar aquela semente. Não como um simples objeto botânico, mas como uma pequena cápsula de memória. Ela poderia ter vindoda África. Poderia ter atravessado o Atlântico nas condições mais brutais da história humana. Poderia ter sido escondida, guardada ou simplesmente carregada. E, depois de tudo, encontrou terra em Papary. A África, que havia sido arrancada de um homem, teria voltado a nascer pelas suas mãos. Não seria mais apenas África. Seria África em Papary. África em Tororomba. África no Porto. A África no cenrro da cidade. África na memória de seus descendentes. África transformada em árvore. É por isso que, quando olhamos para o baobá de Nísia Floresta, talvez não devamos enxergar somente seu tronco gigantesco, suas raízes ou sua copa. Devemos tentar enxergar o que ele pode estar dizendo. Porque árvores também testemunham. E algumas testemunham durante séculos.

O baobá de Papary pode ser, portanto, muito mais do que uma árvore africana plantada em território potiguar. Pode ser uma memória viva de homens e mulheres africanos que passaram por esta terra, sofreram nesta terra, trabalharam nesta terra, constituíram famílias nesta terra e deixaram descendentes nesta terra. Câmara Cascudo viu naquele baobá a “pegada da África”. Talvez seja essa a melhor maneira de compreendê-lo: uma pegada que não desapareceu, uma pegada que criou raízes, uma pegada que cresceu, uma pegada que atravessou gerações e que, ainda hoje, permanece de pé.

Talvez a lenda não seja apenas uma história sobre uma árvore. Talvez seja a história de uma árvore que guardou, por mais de um século, aquilo que a história dos homens quase conseguiu apagar. E talvez seja justamente por isso que o baobá de Nísia Floresta mereça ser olhado não apenas como patrimônio natural, mas como um possível testemunho vivo da presença africana na velha Papary. No fim, talvez a pergunta mais bonita não seja sequer quem plantou o baobá. Talvez seja outra: quem foi o homem que um dia trouxe consigo uma semente da África e, sem saber, deixou plantada em Papary uma árvore que continuaria contando a sua história muito depois que ele próprio desaparecesse?