ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

DONA IRACEMA E AS CORRENTES DA MEMÓRIA...


Dona Iracema, acometida por Diabete, enfrentou a doença com sofrimento, mas sem perder o amor a vida, sem perder o amor dos filhos e parentes, e assim, abençoada pelo amor da família caminhou até quando o corpo resistiu.

Ontem, recebi com profundo pesar a notícia do falecimento da Senhora Iracema Elisa de Carvalho, aos 85 anos. Ela foi uma das vozes mais generosas que ouvi ao longo das minhas atividades de História Oral, desenvolvidas no município de Nísia Floresta a partir de 1992. Dona Iracema pertenceu a uma geração que testemunhou – ainda que de forma involuntária – décadas de movimentação em torno do conjunto histórico de Nísia Floresta, situado exatamente em frente à sua residência. Embora fosse a pessoa que zelava daquele espaço. Essa proximidade geográfica fez dela e de seus familiares testemunhas oculares por excelência; os guardiões silenciosos de um espaço cujas memórias herdaram também de seus pais.

Como sempre faço questão de ressalvar, o mapeamento etnográfico que realizei em Nísia Floresta buscou apreender a densidade cultural daquela comunidade sob a ótica de seus próprios habitantes. Através de conversas informais e espontâneas, sem a rigidez protocolar de uma entrevista de gabinete, pude inventariar o grau de apropriação local sobre a biografia de Nísia Floresta, bem como salvaguardar manifestações multifacetadas da cultura material e imaterial da região. Evidentemente, cada tema ocupou seu devido lugar: investiguei a religiosidade, o folclore, as lendas, as curiosidades locais, as práticas da culinária típica, o universo do lúdico infantil tradicional e a perpetuação de costumes e tradições que definem a singularidade identitária dos nisiaflorestenses.
Quando iniciei minhas incursões de campo, elegi como prioridade dialogar com os mais idosos. Movia-me a urgência de que a finitude da vida não levasse consigo os testamentos orais daquela geração. Para mim, perder um idoso sem registrar suas memórias equivale a queimar os mais preciosos livros de história, peças unicas que a arqueologia jamais redescobrirá. Afinal, a Inteligência Artificial ainda não foi capaz de conceber um dispositivo que extraia do cranio de um falecido o saber acumulado ao longo de toda uma vida.
Dona Iracema zelava do conjunto histórico de Nísia Floresta e era relativamente jovem quando a conheci, em 1992; tinha 51 anos, era mais nova do que sou hoje. Contudo, habitavam aquela casa parentes mais velhos e, considerando que o sepultamento de Nísia Floresta havia ocorrido 37 anos antes, aquele nucleo familiar representava umafonte inestimável de informação. Dali, extraí relatos interessantes por meio de indagações estruturadas, mas nenhuma delas foi mais importante do que um dado fornecido por Dona Iracema, capaz de desfazer uma mentira cuja origem desconheço e que, por razões igualmente ignoradas, ao invés de ser absorvida pelo imaginário popular, gerou revolta nos nisisflorestenses, conforme veremos abaixo.
Sobrinhas da Dona Iracema brincando próximas ao conjunto histórico de Nísia Floresta há quase 40 anos.
Normalmente, as perguntas que eu fazia para os nativos variavam conforme certas peculiaridades, conforme o caso dela, que, para mim, era a "guardiã daquele espaço". E a ela eu perguntei:  A senhora se lembra do dia da chegada dos restos mortais em 1954? Como era o terreno ou o espaço em frente à sua casa antes da construção desse monumento? Na época do sepultamento, as pessoas da comunidade já conheciam a história de Nísia Floresta ou a senhora e suas vizinhas aprenderam mais sobre ela por causa do monumento? Como é a rotina da senhora morando exatamente em frente ao túmulo de uma figura histórica tão importante? Quem são as pessoas que a senhora costuma ver visitando este local no dia a dia? Ao longo desses 37 anos, a senhora se lembra de o monumento ter passado por momentos de abandono ou por reformas importantes? Existe alguma tradição, homenagem ou celebração feita pelas mulheres ou pela comunidade aqui em frente ao túmulo em datas específicas? Para a senhora, a mudança do nome da cidade de Papary para Nísia Floresta mudou o seu orgulho de morar aqui?
Exemplar de túmulo antigo no Rio Grande do Sul, cujas correntes são um recurso ornamental amplamente empregado na arquitetura cemiterial.

Como folclorista nato, eu não poderia deixar de explorar as fronteiras do imaginário popular. Perguntei-lhe se pudesse escolher uma história ou caso curioso que aconteceu aqui em frente a este monumento nestes anos todos, qual seria? E como se trata de um túmulo às margens de uma estrada e levando em conta a imaginação fértil das pessoas, perguntei também se ela já ouviu alguma história de ‘malassombro’ relacionada ao túmulo de Nísia Floresta? A indagação despertou risos imediatos. Dona Iracema confessou que, embora brincasse que morar ali parecia viver dentro de um cemitério, lidava com aquilo com naturalidade absoluta, sentenciando com sabedoria popular: “Os mortos não mexem com ninguém. Quem faz mal aos outros são os vivos”. Nenhum de seus familiares jamais presenciara qualquer manifestação sobrenatural ali. Confesso que - obviamente sem imaginar que, no futuro, alguém pudesse criar uma história de malassombro envolvendo a figura de Nísia Floresta -, jamais supus que o malassombro criado pudesse ser exatamente sobre ela.

Até então, as demais famílias que eu pesquisava compartilhavam da mesma visão; nunca, em quase três décadas de estudo, emergiu qualquer narrativa que vinculasse Nísia Floresta a almas penada. Surpreendeu-me, portanto, uma mat´ria publicada em 2005 pela revista de circulação nacional Cláudia com tal informação.

Revista Cláudia, 2005.

Embora louvável o espaço concedido à escritora, o texto veiculava uma informação inusitada: afirmava que, no imaginário de Nísia Floresta, as correntes de ferro que circundam o monumento teriam sido instaladas para “impedir que a alma de Nísia saísse à noite para atacar os vivos”. Vejam se isso não é um devaneio, considerando que almas, segundo a tradição milenar, transpõem paredes e não há barreira que as impeçam de atravessar, portanto acreditar nisso soa como falta de cognição. Obviamente foi isso que gerou revolta em muitos nisiaflorestenses.

Professor Jorge Januário de Carvalho. Mais de meio século dedicado ao zelo pela história e memória de Nísia Floresta
A tese era hilária. Apresentei o artigo ao professor Jorge Januário de Carvalho, que reagiu com indignação. Para ele, tal afirmação subestimava o intelecto dos nisiaflorestenses; ele próprio, aos 58 anos de idade, jamais ouvira semelhante absurdo. Voltei a campo e consultei outros idosos, que receberam a história entre risadas e desmentidos.

Sabemos que as correntes em monumentos fúnebres possuem função estritamente ornamental ou de isolamento, servindo para evitar que os vivos pisem sobre o jazigo, nunca para enclausurar espíritos. Retornei a questionar Dona Iracema, então com 64 anos. Ela riu novamente e reiterou o que me dissera no início dos anos 1990. Nem ela, nem seus vizinhos, tampouco a família Paulino – cuja residência foi erguida simultaneamente à construção do túmulo – jamais ouviram tal lenda. Divertidos, os vizinhos até me disseram que estavam me dizendo aquilo para me “fazer medo”. Enfim, aquilo não fazia parte da cultura de Nísia Floresta.
Ao longo de todos esses anos, Dona Iracema jamais se furtou a colaborar com minhas pesquisas. Sempre me recebeu com atenção, paciência e uma generosidade rara, respondendo às minhas perguntas com espontaneidade e sinceridade, sem jamais demonstrar qualquer incômodo diante da insistência própria do ofício do pesquisador. Sua disposição em compartilhar lembranças, esclarecer dúvidas e preservar aquilo que sabia transformou-a em uma colaboradora de valor inestimável para o meu trabalho de História Oral. 

Residência da família Paulino, construída simultaneamente ao túmulo de Nísia Floresta

Grande parte da compreensão que hoje possuímos sobre a memoria social do conjunto histórico de Nísia Floresta, inegavelmente deve-se também à sua boa vontade em transmitir aquilo que viveu e ouviu de seus familiares. Por isso, minha gratidão para com Dona Iracema transcende o reconhecimento de um pesquisador: é a gratidão de quem encontrou, em sua casa e em sua acolhida, uma das mais sólidas correntes de ligação entre o passado e o presente.

Monumento em homenagem a Tavares de Lira, vendo-se as correntes que o revestem (Cais de Natal)
Nos últimos anos, acometida pela diabetes, Dona Iracema enfrentou o doloroso sofrimento da amputação da perna direita. Contudo, o amparo e o amor de sua família foram o bálsamo que lhe suavizou as provações, dando-lhe forças para aceitar uma realidade que, infelizmente, não era apenas sua, mas compartilhada por tantos outros. Com serenidade e coragem, venceu as adversidades e alcançou a dádiva dos 85 anos de vida. Partiu em paz, cercada pelo carinho e pelo amor de todos os que lhe eram queridos.
Ao tomar conhecimento do falecimento de Dona Iracema, essas memórias inundaram minhas recordações como água corrente. Ela foi parte indissociável e afetiva da minha jornada pela história de Nísia Floresta. Não poderia deixar de manifestar publicamente meu agradecimento e minhas condolências aos seus familiares. Embora meu blog já registre menções à sua importância, este tributo impõe-se como um dever de gratidão.
Dona Iracema cuidou com zelo do conjunto histórico de Nísia Floresta durante anos, fazendo-se merecedora do respeito de todos nós. Ontem, ela transpôs as correntes definitivas da existência, encerrando com dignidade sua missão terrena. À sua família, deixo meu abraço fraterno e a minha eterna gratidão...
Lúcia Elisa do Nascimento (In memorian): "A Menina do Vestido Roxo" riu bastante quando lhe perguntei se era verdade que a corrente no túmulo de Nísia era para evitar que ela saísse para assombrar as pessoas.



































segunda-feira, 13 de julho de 2026

OS CAFUNDÓS E OS CABANOS: UMA ANTIGA RIVALIDADE ENTRE PAPARY E SÃO JOSÉ DE MIPIBU...

 

Imagem inspirada no texto, mediante Inteligência Artificial, sem compromisso com precisão da realidade, exceto o conteúdo escrito...

Em 1953, Manoel Rodrigues de Melo (1907-1996) publicou Cavalo de Pau, uma obra evocativa e sentimental que preserva um universo etnográfico e sociológico hoje praticamente desaparecido. Em suas páginas sobrevive um modo de viver que já não se encontra com a mesma intensidade, permanecendo apenas na memória dos mais antigos. O livro ainda guarda duas verdadeiras joias: os textos de apresentação assinados por Lu´s da Câmara Cascudo (1897-1986) e pelo antropólogo francês Roger Bastide (1898-1974), que reconhecem e consagram o valor da obra do escritor norte-rio-grandense.

O volume reúne pequenos ensaios sobre aspectos da vida do homem nordestino, abordando temas como Infidelidade Conjugal dos Maridos, Apelidos e Alcunhas, Catar Piolho, O Patriarcalismo, O Matriarcalismo, Doenças e Malefícios, Benzeduras, Preconceito de Cor, Instrumentos de Castigo, entre muitos outros costumes e tradições do antigo Rio Grande do Norte. Ao final, o autor acrescenta extensas notas explicativas, um vocabulário em ordem alfabética e uma coletânea de opiniões críticas sobre sua obra, onde figuram Cascudo e Roger Bastide.

Como fazia o saudoso Olavo de Medeiros Filho (1934-2005) – historiador por vocação, que reunia documentos, notícias e curiosidades para depois lhes dar vida em pequenos opúsculos –, eis-me aqui, modestamente, "olavisando" Cavalo de Pau. Não pretendo abarcar a imponência do conjunto da obra, mas apenas destacar um pequeno fragmento que, justamente por sua aparente singeleza, merece ser retirado do anonimato. Talvez desperte a curiosidade dos leitores, especialmente dos filhos de Nísia Floresta, antiga Papary, e de São José de Mipibu, incentivando novas pesquisas sobre um episódio praticamente esquecido de nossa história regional.

Manoel Rodrigues de Melo
Sobre a Biblioteca Virtual – Biblioteca Virtual – Prefeituera de Pendencias – RN

Na página 123 deparei-me com duas informações que até então me eram completamente desconhecidas. A leitura imediatamente me fez recordar a célebre rivalidade entre os Xarias e os Canguleiros, tão bem registrada por Luís da Câmara Cascudo. Durante décadas, Natal viveu dividida entre os Xarias, moradores da Cidade Alta, e os Canguleiros, da Ribeira. Os próprios apelidos exprimiam diferenças sociais e territoriais: de um lado, o xaréu, peixe mais valorizado; de outro, o cangulo, considerado mais humilde. A rivalidade transformou-se em marca identitária, alimentando provocações e frequentes confrontos, resumidos na famosa expressão: "Xaria não desce; Canguleiro não sobe." Ai daquele que ousasse atravessar os limites do território adversário: o pau comia. Somente com a modernização da cidade, a circulação proporcionada pelos bondes e a abertura da Avenida Junqueira Aires, hoje Avenida Câmara Cascudo,, essa antiga divisão perdeu o sentido. Como sintetizou Cascudo, morreram os Xarias e os Canguleiros; ficou apenas o natalense.

Pois bem. Manoel Rodrigues de Melo registra que fenômeno semelhante ocorria entre Papary e São José de Mipibu. Os moradores de Papary eram conhecidos como Cafundós; os de São José de Mipibu, como Cabanos. O registro supostamente foi feito na década de 40, tendo em vista que a obra foi publicada em 1953, entretanto o fato, perdido no tempo, deve ser muito remoto. Tão remoto que nunca ouvi nem li, exceto nessa obra. Escreve o autor:

"Cafundós: apelido com que os antigos caboclos de São José de Mipibu designavam os moradores de Papari. À semelhança do que se dava em várias cidades do Brasil, vez por outra os 'Cafundós' se encontravam com os 'Cabanos', havendo lutas enormes."

E prossegue:

"Cabanos: apelido pelo qual respondiam os moradores de São José de Mipibu. Não está ainda bem esclarecida a gênese dessas lutas. Se a política serviu muitas vezes para acirrá-las, não quer dizer, porém, que fosse a causa principal. Nos comuns encontros entre 'Cafundós' e 'Cabanos' havia grandes lutas de cacete. Estas informações me foram prestadas por Américo de Carvalho. Era sempre na Festa de Setembro, início das pescarias, em Papari."

Há, entretanto, uma diferença importante entre essa antiga rivalidade e a dos Xarias e Canguleiros de Natal. No caso da capital, Luís da Câmara Cascudo explica satisfatoriamente a origem dos apelidos. Sabe-se que ambos derivavam de dois peixes bastante conhecidos - o xaréu e o cangulo -, cujos significados extrapolaram a simples referência alimentar para representar diferenças sociais, econômicas e territoriais entre os moradores da Cidade Alta e da Ribeira. Já em relação aos Cafundós e aos Cabanos, Manoel Rodrigues de Melo limita-se a registrar os apelidos e os conflitos, sem oferecer qualquer explicação para sua origem. A lacuna é significativa e desperta inevitavelmente a curiosidade do pesquisador. Afinal, por que os moradores de Papary eram chamados de Cafundós e os de São José de Mipibu de Cabanos?

Naturalmente, qualquer tentativa de interpretação deve permanecer no terreno das hipóteses. A ausência de documentação impede conclusões definitivas, mas isso não significa que algumas possibilidades não mereçam reflexão. Na linguagem popular brasileira, cafundó designa um lugar distante, escondido, de difícil acesso, quase um "fim de mundo". Não seria difícil imaginar que os antigos moradores de São José de Mipibu empregassem esse apelido de maneira depreciativa para se referirem a Papary, então uma pequena povoação cercada por lagoas, matas e caminhos precários. Durante boa parte de sua história, Papary permaneceu subordinada administrativa, comercial e politicamente a São José de Mipibu, possuindo menor população e menor importância econômica. Nesse contexto, o apelido poderia representar a visão, talvez preconceituosa, de quem enxergava a localidade vizinha como um lugar remoto, periférico e de reduzido prestígio.

Quanto ao termo cabano, sua interpretação parece ainda mais desafiadora. A associação mais imediata remete à Cabanagem, uma das mais importantes revoltas populares do Período Regencial, ocorrida na Província do Pará entre 1835 e 1840, cujos participantes ficaram conhecidos como cabanos. Não existe, contudo, qualquer elemento documental que permita estabelecer uma ligação direta entre aquele movimento histórico e os moradores de São José de Mipibu. Ainda assim, a palavra permaneceu incorporada ao vocabulário brasileiro, muitas vezes associada à ideia de gente simples, aguerrida, de origem popular e habituada às dificuldades. É possível que, em algum momento, o apelido tenha sido atribuído pelos paparienses aos mipibuenses - ou até apropriado pelos próprios moradores de São José de Mipibu - , sem que hoje seja possível determinar sua motivação original.

Outra hipótese, talvez ainda mais plausível sob o aspecto linguístico, é que cabano derive simplesmente de cabana, numa referência às moradias modestas, geralmente construídas de taipa, madeira ou palha, bastante comuns entre a população rural nordestina do século XIX. Se assim ocorreu, o termo poderia ter nascido como um simples apelido popular e, com o passar do tempo, adquirido novas conotações históricas e simbólicas, enquanto sua origem primitiva acabava esquecida.

Talvez jamais se descubra a verdadeira gênese desses dois apelidos. Contudo, sua permanência na memória popular demonstra que dificilmente nasceram por acaso. Apelidos coletivos costumam refletir circunstâncias históricas concretas, características geográficas, diferenças econômicas, costumes locais ou a forma como comunidades vizinhas percebiam umas às outras. Mesmo quando sua origem se perde no tempo, continuam sendo valiosos testemunhos da construção das identidades coletivas e da maneira como um povo enxergava o outro - e, muitas vezes, como enxergava a si próprio.

Manoel Rodrigues de Melo é igualmente prudente ao reconhecer que não apenas a origem da rivalidade permanece obscura, mas também a dos próprios apelidos, sobre a qual nada esclarece. A política partidária, segundo ele, muitas vezes agravava os conflitos, mas dificilmente lhes deu origem. Essa observação merece atenção. Divergências políticas costumam aprofundar animosidades já existentes, mas raramente explicam, por si sós, rivalidades que atravessam gerações. Na verdade, episódios semelhantes podem ser encontrados em diversas partes do Brasil. Distritos prestes a se emanciparem frequentemente desenvolvem tensões com a sede do município; cidades vizinhas disputam prestígio; populações criam apelidos umas para as outras; diferenças econômicas, sociais e culturais acabam transformadas em símbolos de superioridade ou inferioridade. Não se trata de regra, mas tampouco de fato isolado. É um comportamento recorrente na formação histórica das comunidades brasileiras.

Talvez algum documento ainda desconhecido, alguma tradição oral preservada pelas famílias mais antigas ou mesmo um manuscrito esquecido em arquivos públicos ou particulares venha, um dia, esclarecer definitivamente a origem dos Cafundós e dos Cabanos. Até lá, essas hipóteses permanecem como simples possibilidades interpretativas. Mas, justamente por isso, transformam uma pequena nota registrada por Manoel Rodrigues de Melo em um estimulante convite à pesquisa histórica, lembrando-nos de que, muitas vezes, os maiores mistérios da história local encontram-se escondidos nas menores referências documentais.

No caso de Papary e São José de Mipibu, essa hipótese parece bastante plausível. Durante muito tempo, Papary dependeu administrativamente, comercialmente e até intelectualmente de São José de Mipibu. Sua emancipação política, em 18.2.1852, não eliminou de imediato essa dependência. Pelo contrário, os primeiros anos de autonomia costumam exigir um período de adaptação institucional, econômica e administrativa. Em antigos manuscritos que li, relativos à emancipação de Papary encontrei, inclusive, registros de conflitos entre autoridades dos dois municípios, alguns deles solucionados pela intervenção da própria Justiça.

Essa relação de proximidade permaneceu por muitas décadas. Até a década de 90, inúmeros professores mipibuenses lecionavam em Nísia Floresta. Fato de que sou testemunha. A primeira diretora da principal escola municipal do município, professora Lúcia Amaral, era natural de São José de Mipibu. O mesmo ocorreu com profissionais vindos de Parnamirim. Evidentemente, isso não significa que Nísia Floresta não possuísse pessoas capacitadas. Claro que existia, inclusive conheci algumas, mas apenas revela que sua estrutura educacional ainda se encontrava em processo de consolidação, recorrendo naturalmente aos centros vizinhos. 

Talvez essa convivência tão estreita explique parte da antiga rivalidade. Afinal, emancipar-se politicamente não significa romper, de um dia para o outro, os vínculos econômicos, sociais e culturais construídos ao longo de décadas. Em circunstâncias semelhantes, é comum que surjam suscetibilidades, disputas de prestígio e hostilidades alimentadas tanto pelo orgulho quanto pelo preconceito. O grau de civilidade - ou, por vezes, a ausência dele, faz o restante. Há ainda um detalhe que desperta especial curiosidade. Manoel Rodrigues de Melo informa que recebeu esses relatos de Américo de Carvalho, inclusive. A tradicional fam´lia Carvalho possui profundas raízes em Nísia Floresta - embora nem todo Carvalho dali seja parente um do outro -, mas, até o momento, não consegui identificar com segurança quem seria esse informante. Lembrei-me do ex-prefeito Américo de Oliveira (gestor no período de 1945 a 1949), cujo retrato integra a Galeria dos Prefeitos do município, e também de outras figuras da família Carvalho. Entretanto, o texto do livro é claro ao mencionar "Américo de Carvalho", razão pela qual qualquer identificação diversa seria mera especulação.

E é justamente aí que reside o verdadeiro valor dessas pequenas descobertas. Muitas vezes, um simples verbete esquecido em um livro antigo guarda a chave para compreender aspectos inteiros da história de uma comunidade. Os Cafundós e os Cabanos talvez tenham desaparecido, assim como os Xarias e os Canguleiros de Natal. Permaneceram, contudo, as perguntas que ainda aguardam resposta. E, para quem aprecia a história, poucas coisas são tão estimulantes quanto um documento capaz de transformar uma velha curiosidade em uma nova linha de pesquisa.

Sob esse aspecto, o registro feito por Manoel Rodrigues de Melo ultrapassa o valor de uma simples curiosidade folclórica. Ele constitui um precioso documento para a compreensão da formação social e cultural de nossa região. Apelidos, rivalidades, festas, encontros e até mesmo as antigas lutas de cacete revelam muito mais do que episódios pitorescos: revelam a maneira como comunidades vizinhas construíam suas identidades, afirmavam sentimentos de pertencimento e reproduziam valores, preconceitos e relações de poder característicos de seu tempo. É justamente por isso que obras como Cavalo de Pau permanecem indispensáveis. Elas preservam fragmentos da memória coletiva que, sem esse registro, estariam definitivamente perdidos.

Felizmente, o tempo tratou de apagar essas antigas animosidades. As hostilidades que um dia marcaram o relacionamento entre Cafundós e Cabanos pertencem a uma época em que o grau de instrução, os costumes e até mesmo a compreensão da convivência social eram muito diferentes dos atuais. Hoje, Nísia Floresta e São José de Mipibu mantêm uma relação de respeito, cooperação e amizade entre suas autoridades e suas populações. Mais do que municípios vizinhos, são cidades irmãs, unidas por uma história comum, por laços familiares que atravessam gerações e por uma identidade cultural compartilhada. Conhecer essas antigas rivalidades não significa cultivá-las, mas compreender o caminho percorrido até que o respeito mútuo prevalecesse sobre as diferenças...

domingo, 12 de julho de 2026

POR QUE NÃO CONHECEMOS AS PRATAS DA CASA?


Nos últimos dias, fiquei surpreso ao ver diversas postagens nas redes sociais e em jornais digitais potiguares informando que o prefeito de Natal, Paulinho Freire, havia vetado o projeto de lei do vereador Daniel Valença que determinava a obrigatoriedade de as livrarias da capital reservarem espaço em suas vitrines para obras de autores potiguares. A notícia me chamou a atenção porque o projeto é importante, e independente disso, já havia sido aprovado pela Câmara Municipal. Ou seja, depois de passar pela discussão legislativa e receber o aval dos vereadores, a proposta acabou sendo barrada pelo Executivo. Mais do que discutir o mérito do veto, isso me levou a pensar sobre uma questão que, há muito tempo, considero central: por que conhecemos tão pouco os artistas da nossa própria terra?

Essa reflexão não nasceu agora. Há poucos meses, conversava com uma pessoa ligada às oficinas de música de Parnamirim O assunto era o desconhecimento que muitas crianças e adolescentes têm em relação aos músicos parnamirinenses. Ouvi atentamente e, ao final da conversa, expus uma opinião que continuo considerando a única saída possível para mudar esse cenário: criar estratégias inteligentes e sensatas para aproximar crianças e jovens dos artistas e agentes de cultura locais.

O que falta é pertencimento. É preciso que a criança cresça conhecendo quem produz arte na cidade onde ela vive. Crianças e jovens precisam saber quem escreve, quem pinta, quem canta, quem dança, quem pesquisa, quem faz teatro, quem promove a cultura popular na sua cidade. O interesse dificilmente surge pelo acaso. Primeiro vem o contato; depois, a familiaridade; por fim, o gosto. Ninguém aprende a admirar aquilo que nunca lhe foi apresentado. Sempre entendi que devemos valorizar os artistas locais: músicos, atores, pintores e dançarinos, da mesma forma que os escritores, os mestres e os brincantes das mais diversas manifestações da cultura popular. Porém, num país em que a arte ainda é tratada, muitas vezes, como um luxo - ou até como algo supérfluo, ressalvadas as exceções - não chega a ser estranho que o pr´prio povo desconheça muitas de suas pratas da casa.

Em 2017, escrevi o espetáculo Câmara Cascudo e o Tapete Mágico, apresentado no Cine-Teatro Municipal Vereador Paulo Barbosa da Silva. Durante os ensaios, vivi uma experiência que nunca esqueci: descobri que muitos alunos das oficinas de arte não tinham a menor ideia de quem havia sido Luís da Câmara Cascudo. Isso me impressionou. Estamos falando de um dos maiores intelectuais brasileiros, pesquisador do folclore, historiador, antropólogo, etnógrafo, jornalista eprofessor. Um homem que dedicou a vida a estudar a cultura popular e cuja obra continua sendo referência para quem deseja compreender a identidade cultural do Brasil.

Se isso acontece com Câmara Cascudo, imagine o que ocorre com músicos, escritores, atores, artistas plásticos e tantos outros fazedores de cultura que estão mimetizados entre nós. Esse episódio apenas reforçou uma convicção que já carregava: não basta produzir arte. É preciso criar oportunidades para que as pessoas a conheçam. O reconhecimento quase sempre nasce da convivência. E a convivência depende de aproximação.

Foi justamente por isso que as notícias sobre o veto despertaram minha atenção. Muito além da discussão jurídica ou política, elas reacenderam uma pergunta que considero essencial: o que estamos fazendo, de forma concreta, para que o povo potiguar conheça aqueles que constroem diariamente a cultura do Rio Grande do Norte?

Essa pergunta me acompanha há anos e, confesso, torna-se ainda mais inquietante toda vez que vejo alguém lendo um livro físico ou jornal impresso em um espaço público. Hoje isso é raro. Quase todos estão com os olhos voltados para a tela do celular, deslizando os dedos rapidamente. Mas, quando encontro alguém com um livro nas mãos, tenho o hábito - talvez um defeito, talvez uma curiosidade incurável - de tentar descobrir qual obra está sendo lida. Quando não consigo identificar a capa, pergunto ao leitor. A conversa quase sempre começa pelo livro e, naturalmente, envereda pelos autores.

Nessas ocasiões, costumo mencionar escritores de Parnamirim e de Natal. É um exercício simples, mas revelador. E a constatação, infelizmente, quase nunca muda: a maioria das pessoas desconhece os autores da própria terra. Conhecem J. K. Rowling, J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin, Dan Brown, Colleen Hoover, John Green. Entre os brasileiros, citam de Clarice Lispector, Carlos Drummond, Carolina Maria de Jesus e tantos outros, todos merecidamente reconhecidos. Mas, quando a conversa chega aos escritores potiguares contemporâneos, instala-se um silêncio que diz muito mais do que qualquer resposta. E eu sempre digo: "Você precisa ler os escritores Ana Cláudia Trigueiro, José Acaci, Angélica Vitalino, José de Castro, Gilvânia Machado, Francisco Martins, Gilvânia Machado, Carlos Peixoto, Lenilson Antunes, Valdívia Beauchamps, Jânia Souza... E em outros momentos, no devido contexto, questiono se a pessoa conhece os músicos Ismael Dumang e Caio Padilha, a Cia. Gira Dança, os bailarinos Rodolpho Santos, Vitória Santos e Thaíse Galvão, a artista plástica e escritora Ana Catarina Fernandes, enfim...

Não vejo o desconhecimento sobre as pratas da casa como culpa do adulto. Como alguém poderá se interessar por um escritor que nunca lhe foi apresentado? O próprio habitat, por excelência, nos apresenta Clarice Lispector, Machado de Assis,  J. K. Rowling e outros. No Instagran e Facebook topamos com eventos nacionais e internacionais sobre Guimarães Rosa, Machado de Assim, Mary del Priori, Clarice Lispector - frases, provérbios, pensamentos deles -, portanto nos familiarizamos por excelência. Mas e com os locais? Você já topou com Ana Cláudia Trigueiro, Ana Catarina, Francisco Martins, Ismael Dumang, Acaci, Rodolpho Santos???

É por isso que sigo acreditando que o caminho mais eficiente passa pela infância.

A criança da escola pública e privada precisa conviver com a cultura produzida no lugar onde vive. Precisa ouvir, na escola, a música dos compositores da sua cidade. Precisa encontrar, na biblioteca, os livros dos escritores que caminham pelas mesmas ruas que ela percorre. Precisa conhecer os artistas plásticos, os grupos de teatro, os mestres da cultura popular, os fotógrafos, os cordelistas, os escultores... Não para desprezar a produção de outros estados ou países, mas para compreender que a cultura também acontece perto dela. Começa ao lado dela. O gosto nasce do conhecimento. Antes de admirar, é preciso conhecer. Antes de valorizar, é preciso conviver.

É justamente por isso que acredito que as escolas têm um papel decisivo nesse processo. Refiro-me desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental. Não imagino uma disciplina específica para isso, mas uma política pública permanente. Defendo, inclusive, que os municípios criem leis orientando as redes de ensino a desenvolver ações contínuas de valorização dos artistas locais, para que escritores, músicos, atores, artistas plásticos, mestres da cultura popular e tantos outros passem a fazer parte do cotidiano escolar. Não se trata de criar uma obrigação burocrática, mas de estabelecer uma diretriz capaz de garantir que esse trabalho continue existindo, independentemente de quem esteja ocupando os cargos de gestão. A cultura não pode depender apenas da boa vontade de um diretor, de um professor ou de um secretário de educação; ela precisa estar amparada por políticas públicas permanentes.

Se cada professor trabalhar, ao longo do ano, algumas obras de escritores da cidade; se apresentar músicas compostas por artistas locais; se utilizar pinturas, poemas, fotografias e textos produzidos por quem vive na região; se transformar esse material em leitura, exposição, apresentação cultural, gincana, sarau ou festival, pouco a pouco esses nomes deixarão de ser estranhos. Eles passarão a fazer parte da memória afetiva dos alunos.

Depois desse primeiro contato, o passo seguinte acontece quase naturalmente: aproximar os artistas das escolas. Imagine um escritor visitando uma turma que já leu seus livros. Imagine um compositor sendo recebido por estudantes cantando suas músicas porque aprenderam suas canções durante as aulas. Imagine um artista plástico encontrando crianças que reproduziram releituras de suas obras em sala de aula. Não há homenagem maior para quem dedica a vida à arte do que perceber que ela encontrou abrigo na imaginação de uma nova geração. Esse encontro transforma todos os envolvidos.

O aluno percebe que o artista não é uma figura distante, inacessível, restrita aos livros didáticos ou aos documentários da televisão. Descobre que ele mora na mesma cidade, frequenta os mesmos espaços e enfrenta os mesmos desafios de qualquer cidadão. O artista, por sua vez, encontra o público que sempre desejou alcançar. É assim que se constrói pertencimento.

Foi exatamente por isso que a notícia sobre o veto me fez voltar a essa reflexão. Ainda que se discutam os aspectos jurídicos da proposta ou as razões que levaram o Executivo a rejeitá-la, continuo convencido de que a ideia que motivou o projeto merece ser debatida com serenidade. Dar visibilidade aos autores potiguares não significa retirar espaço de escritores consagrados nem interferir na liberdade de escolha dos leitores. Significa apenas reconhecer que uma livraria instalada em Natal ou em Parnamirim pode, legitimamente, apresentar ao público aqueles que escrevem sobre esta terra, preservam sua memória e ajudam a construir sua identidade. Afinal, aquilo que não é visto dificilmente será lembrado. E aquilo que não é lembrado corre sempre o risco de desaparecer do imaginário coletivo.

Quanto mais penso sobre isso, mais me convenço de que não existe solução isolada. Não será uma única lei, um único projeto ou uma única instituição que mudará esse cenário. A lei que propõe dar visibilidade aos autores potiguares nas vitrines das livrarias é importante, porque amplia o encontro entre o escritor e o leitor. Mas ela pode caminhar ao lado de outras iniciativas igualmente transformadoras, entre elas uma legislação que incentive as escolas a desenvolver, de forma permanente, ações voltadas ao conhecimento das pratas da casa. Uma lei aproxima os autores do público nas livrarias; a outra os aproxima das crianças, justamente na fase da vida em que o pertencimento começa a ser construído. Não vejo como problema, por exemplo, que as secretarias municipais e estaduais de educação comprem uma parte das obras dos autores regionais e encontre formas de disponibilizá-las aos públicos específicos. Isso pode perpassar por lei sem problema algum, pois é nobre. 

A valorização da cultura local depende de um esforço conjunto, contínuo e, sobretudo, de uma mudança de mentalidade. As escolas têm um papel fundamental, mas não estão sozinhas. As bibliotecas, as universidades, os institutos federais, as fundações culturais, o Sistema S, as academias de letras, as secretarias de cultura, as câmaras municipais, os meios de comunicação e até a iniciativa privada podem contribuir para aproximar a população dos artistas da terra. Cada instituição pode fazer a sua parte. Não se trata de criar privilégios, mas de corrigir uma invisibilidade histórica.

Quando uma biblioteca organiza um espaço dedicado aos escritores locais, quando uma escola convida um músico da cidade para conversar e cantar com seus alunos, quando uma livraria destaca autores potiguares em sua vitrine, quando um festival reserva espaço para artistas da região, todos estão colaborando para a mesma causa: permitir que a população conheça aquilo que ela própria produz. É curioso perceber que admiramos com facilidade aquilo que vem de longe, mas, muitas vezes, ignoramos o talento que está ao nosso lado. Não há problema algum em ler autores estrangeiros ou prestigiar artistas de outros estados. Eu mesmo faço isso constantemente. A cultura não deve conhecer fronteiras. O problema surge quando essa abertura para o mundo não é acompanhada pelo conhecimento das nossas próprias raízes.

Ninguém precisa escolher entre um escritor potiguar e um escritor francês, entre um compositor natalense e um músico inglês. Uma coisa não exclui a outra. Pelo contrário: quanto maior for nosso repertório, mais rica será nossa experiência como leitores, ouvintes e espectadores. O que me parece injusto é que tantos artistas norte-rio-grandenses permaneçam desconhecidos justamente porque nunca lhes foi dada a oportunidade de serem vistos.Volto, então, à conversa que tive em Parnamirim. Naquele dia, saí convencido de que o pertencimento não nasce espontaneamente. Ele é construído. A criança aprende a gostar daquilo que lhe é apresentado com naturalidade. É assim com a leitura, com a música, com o teatro, com as artes visuais e com tantas outras manifestações culturais.

Se um aluno passa toda a sua vida escolar sem ouvir uma única música composta por um artista da sua cidade, sem ler um livro de um escritor potiguar, sem visitar uma exposição de um pintor norte-rio-grandense ou sem conhecer um mestre da cultura popular, dificilmente chegará à vida adulta valorizando aquilo que nunca fez parte da sua formação. Por outro lado, quando esse contato acontece desde cedo, tudo muda. Os nomes deixam de ser estranhos. As obras passam a ser familiares. A curiosidade aparece naturalmente. E o que antes parecia distante transforma-se em motivo de orgulho. É exatamente esse orgulho que chamo de pertencimento.

Talvez seja por isso que as notícias sobre o veto tenham provocado em mim muito mais reflexão do que indignação. Independentemente das posições políticas ou das interpretações jurídicas sobre o projeto, continuo acreditando que ele trouxe para o centro do debate uma questão que não pode ser ignorada: como fazer com que os potiguares conheçam melhor os seus próprios escritores? Essa pergunta continua sem uma resposta definitiva, mas uma certeza eu carrego comigo há muito tempo. O reconhecimento vem depois do conhecimento. Ninguém valoriza aquilo que desconhece.

Se desejamos uma sociedade que prestigie seus artistas, precisamos apresentá-los às crianças. Precisamos colocá-los nas escolas, nas bibliotecas, nos teatros, nas feiras literárias, nas galerias, nos festivais, nos meios de comunicação, na rua, e, por que não, também nas vitrines das livrarias. Porque uma vitrine não vende apenas livros. Ela desperta curiosidade. E, às vezes, basta um livro visto na hora certa para que um leitor descubra um autor que caminhava pela mesma cidade sem jamais ter sido percebido. No fim das contas, é disso que estamos falando. Não apenas de livros. Nem apenas de escritores. Estamos falando da forma como um povo escolhe cuidar da própria memória. E um povo que conhece seus artistas conhece melhor a si mesmo.

sábado, 4 de julho de 2026

RETRATOS DE PAPARY EM 1930 – PERCORRENDO AS TRILHAS DE UM DICIONÁRIO ESQUECIDO...

Obs. Imagem criada por Inteligência Articial, apenas inspirada no estudo abaixo.

Há livros que cumprem apenas a finalidade para a qual foram escritos. Outros, entretanto, parecem desafiar o tempo. Permanecem décadas adormecidos nas estantes de bibliotecas ou nas coleções particulares, aguardando apenas que um leitor curioso lhes devolva a voz. Foi exatamente essa sensação que experimentei quando, há alguns anos, tive acesso ao Diccionário Histórico e Geographico do Rio Grande do Norte - Volume I (A-E), de autoria de Antonio Soares, publicado pela Imprensa Official, em Natal, no ano de 1930.

Trata-se de uma obra singular, apresentada ao Congresso Econômico do Rio Grande do Norte, realizado na capital potiguar em janeiro daquele mesmo ano, durante as comemorações do segundo aniversário da administração do então presidente do Estado, Juvenal Lamartine. Embora concebido como um projeto muito mais amplo, abrangendo vários volumes destinados a registrar localidades, acidentes geográficos, personagens históricos e inúmeros outros aspectos da vida potiguar, o empreendimento jamais ultrapassou seu primeiro tomo, dedicado às letras A até E. As razões desse interrompimento não são conhecidas. É uma pena. Se o projeto tivesse sido concluído, provavelmente possuir´amos hoje um importante repositório histórico e geogr´fico já produzidos sobre o Estado, reunindo informações de enorme valor para pesquisadores, professores, estudantes e todos aqueles que cultivam interesse pela memória potiguar.

Em 1997, quando consultei esse volume, fiz diversas anotações a lápis nos meus cadernos. Passados quase trinta anos, ao reencontrá-las, percebi que aquelas pequenas notas continuavam despertando a mesma curiosidade de outrora. Resolvi, então, revisitá-las, confrontando-as novamente com o texto original e transcrevendo os verbetes relativos ao antigo município de Papary - hoje Nísia Floresta.

É importante recordar que, em 1930, quando Antonio Soares publicou sua obra, o município ainda conservava oficialmente o nome de Papary. A alteração para Nísia Floresta somente ocorreria dezoito anos depois, em 1948, numa justa homenagem à mais ilustre filha daquela terra. Assim, todas as referências presentes no dicionário utilizam naturalmente a antiga denominação. O leitor encontrará, nas linhas que seguem, numerosas transcrições literais do texto de Antonio Soares. Fiz questão de preservar a grafia original, respeitando não apenas a ortografia vigente naépoca, mas também a própria feição documental da obra. Afinal, documentos históricos não transmitem apenas informações: também revelam a maneira como uma sociedade escrevia, nomeava lugares, descrevia paisagens e compreendia o mundo ao seu redor. À primeira vista, pode parecer tratar-se apenas de um inventário de rios,lagoas, povoados, acidentes geográficos e figuras notáveis. Contudo, basta um olhar mais atento para perceber que o dicionário oferece muito mais do que isso. Cada verbete funciona como uma pequena janela aberta para uma Papary de quase um século atrás, revelando aspectos da hidrografia, da ocupação do território, da economia, das comunicações, da religiosidade popular e da própria formação histórica do município.

Há ainda um detalhe que chama particularmente a atenção. Antonio Soares não se limita a indicar a localização dos lugares. Em muitos casos, registra informações sobre a população das localidades, comenta a piscosidade das lagoas, descreve características da paisagem, apresenta etimologias indígenas e, não raramente, incorpora tradições orais que, sem esse registro, talvez tivessem desaparecido para sempre. É precisamente esse conjunto de observações que transforma o livro numa fonte documental de extraordinária importância.

Percorrer suas páginas é como acompanhar um mapa vivo de uma época em que as distâncias eram medidas muito mais pelas estradas de barro do que pelos modernos sistemas de georreferenciamento; quando determinadas lagoas jamais secavam, os rios ainda obedeciam aos seus cursos naturais e pequenas povoações possuíam importância administrativa muito superior àquela que hoje lhes atribuímos. Curiosamente, muitos dos lugares mencionados continuam existindo, embora profundamente transformados. Outros conservaram apenas o nome. Alguns praticamente desapareceram da memória coletiva. Há também aqueles cuja grafia mudou, acompanhando as sucessivas reformas ortográficas, enquanto outros permaneceram quase inalterados, desafiando o tempo como discretos marcos da permanência histórica.

Foi justamente essa possibilidade de comparar a Papary de Antonio Soares com a Nísia Floresta contemporânea que me motivou a reunir estas notas. Não se trata de um estudo exaustivo, mas de um convite ao leitor para caminhar por antigas veredas documentais e perceber que a História, muitas vezes, encontra-se escondida em obras aparentemente modestas, esquecidas pelo grande público, mas extraordinariamente generosas para quem delas se aproxima com curiosidade.

UMA GEOGRAFIA VIVA, ONDE AS ÁGUAS CONTAM A HISTÓRIA

A primeira informação que despertou minha atenção foi a respeito de um personagem hoje praticamente esquecido, embora tenha sido presidente da província do Rio Grande do Norte (governador) em duas oportunidades. Não se trata do conhecido Dr. Antônio José de Melo e Souza, o célebre Policarpo Feitosa, frequentemente lembrado quando se fala de figuras ilustres de Papary, mas do coronel Antonio Galdino da CunhaAntonio Soares registra:

“Antonio Galdino da Cunha – Coronel da antiga Guarda Nacional, natural do município de Papary e proprietário no município de Goianinha, onde residia. Nomeado vice-presidente da província por Carta Imperial de 4 de fevereiro de 1852, teve ocasião de assumir o governo do Rio Grande do Norte por duas vezes: a primeira, durante vinte e quatro horas, de 16 para 17 de maio de 1861; a segunda, de 26 de maio de 1863 a 27 de junho do mesmo ano, quando entregou a administração ao presidente Olintho Meyra. Faleceu em Goianinha, a 6 de agosto de 1883.”

Também encontrei informação em outras fontes de que que o coronel Antonio Galdino da Cunha, era natural de Goianinha, figura que merece ser lembrada antes mesmo de nomes muito mais conhecidos da historiografia potiguar. Era irmão do padre João Jerônimo da Cunha, nascido a 12 de julho de 1813, provavelmente nascido em Papary.

Esse pequeno verbete, aparentemente singelo, lembra-nos como a história oficial costuma selecionar alguns nomes enquanto deixa tantos outros à margem da memória coletiva. Quantos nisiaflorestenses sabem hoje que um filho da antiga Papary chegou a governar a Província do Rio Grande do Norte ainda no período imperial? São precisamente essas pequenas descobertas que justificam o valor permanente de obras como a de Antonio Soares. É algo a se investigar...

Mas é sobretudo quando trata da geografia que o dicionário revela sua verdadeira riqueza. A leitura dos verbetes permite perceber que Papary era, essencialmente, um território moldado pela água. Lagoas, rios, riachos, enseadas e várzeas aparecem sucessivamente, compondo um mosaico hidrográfico impressionante. Não por acaso, muitas dessas águas continuam desempenhando papel fundamental no abastecimento e na identidade paisagística do município. Antonio Soares menciona, por exemplo, a “Lagoa do Arroz”, topônimo hoje pouco lembrado, embora certamente conhecido pelos moradores mais antigos. Da mesma forma, registra um monte denominado “Banana”, descrito simplesmente como “elevação à margem da lagoa Papary”. É facilmente localizável quando se passa na estrada.

São referências aparentemente discretas, mas que demonstram como o relevo também participava da construção da identidade local. Em muitas ocasiões, pequenos acidentes geográficos acabavam fornecendo nomes às propriedades, aos caminhos e até às famílias que ali se estabeleciam. Outro registro curioso refere-se à antiga “Barra de Estevão Ribeiro”, descrita da seguinte forma:

“Povoado, também conhecido pelo nome de Barra, no município de Papary. É situado aproximadamente vinte quilômetros para leste da sede municipal e tem uma população de cerca de cento e cinquenta habitantes.”

Hoje, quando percorremos a região, talvez não imaginemos que esse pequeno núcleo populacional merecesse destaque num dicionário estadual. Entretanto, o simples fato de Antonio Soares registrá-lo demonstra sua importância regional no início do século XX. Aliás, um aspecto chama continuamente a atenção ao longo da obra: a preocupação do autor em registrar o número aproximado de habitantes de cada povoação. Esses dados, embora estimativos, transformam-se atualmente em preciosa fonte para estudos demográficos, permitindo reconstruir a distribuição populacional de Papary antes mesmo da expansão urbana ocorrida nas décadas posteriores. As lagoas aparecem quase como personagens. A “Boa Água”, por exemplo, recebe uma descrição objetiva:

“Localizada no tabuleiro do mesmo nome, nove quilômetros a nordeste da vila de Papary. Não é piscosa e conserva água ainda mesmo no rigor do estio.”

Poucas linhas bastam para revelar muito. Quando Antonio Soares afirma que determinada lagoa “não seca no verão”, fornece ao pesquisador moderno uma informação ambiental extremamente valiosa. Trata-se de um testemunho sobre o comportamento hídrico da região há quase um século. Em tempos de intensas transformações ambientais, alterações climáticas e ocupação crescente do território, observações dessa natureza passam a possuir um significado que talvez o próprio autor jamais imaginasse. Mas nenhuma descrição supera, em beleza, aquela dedicada à “Lagoa do Bonfim.” Escreve Antonio Soares:

“Bonfim – Lagoa no município de Papary. É um bello e pittoresco lago, de águas crystalinas, visitado frequentemente pelos moradores dos logares visinhos e até mesmo por excursionistas que ahi encontram excellente banho.”

 É impossível ler essas palavras sem imaginar a paisagem descrita pelo autor. Muito antes da preocupação contemporânea com turismo ecológico, Antonio Soares já registrava que excursionistas procuravam o Bonfim atraídos pela beleza natural do lugar. É uma informação simples, mas extremamente significativa, pois demonstra que aquela lagoa já era reconhecida como espaço de lazer e contemplação muito antes da popularização do turismo moderno. Todavia, o aspecto mais fascinante do verbete talvez esteja em sua observação linguística. Prossegue Antonio Soares:

“Teve outr'ora a denominação de Pochy, vocábulo indígena, parece que alteração de pochii: feio, mau, ruim, sujo; ou, antes, de hu-pochy: água suja – qualificativos que, entretanto, não se ajustam ao claro e formoso lago.”

Aqui encontramos um detalhe extremamente interessante. Ao tentar explicar a origem indígena do antigo nome da lagoa, Antonio Soares distancia-se de interpretações posteriormente consagradas por outros estudiosos. A grafia “Pochy”, ou “Hu-Pochy”, difere sensivelmente das formas registradas em outras obras ao longo do s´culo XX. Esse fato abre uma instigante possibilidade de investigação. Sabe-se que muitos dos significados indígenas utilizados pelos estudiosos potiguares chegaram até eles por intermédio do grande engenheiro, geógrafo e filólogo Teodoro Sampaio, profundo conhecedor das línguas tupi e autor de importantes estudos sobre a formação dos topônimos brasileiros. Já Luís da Câmara Cascudo, em diversas ocasiões, valeu-se dessas interpretações em seus próprios trabalhos.

Entretanto, Antonio Soares escreve depois de Cascudo e apresenta explicação distinta. Isso não significa necessariamente que um estivesse errado e outro certo. Ao contrário, revela como a etimologia indígena frequentemente comporta diferentes hipóteses interpretativas, especialmente quando se trabalha com vocábulos recolhidos da tradição oral ou registrados em épocas distintas. A quaestão aqui é como ambos escreveram os vocábulos. São exatamente essas pequenas divergências que tornam apaixonante a pesquisa histórica. Muitas vezes, uma única palavra é capaz de abrir caminhos para investigações inteiras. Prosseguindo pela obra, encontramos outro curioso registro referente à região de “Boacica”. Antonio Soares descreve uma estrada nas proximidades da confluência de dois pequenos ribeiros, onde ocorre um fenômeno que ainda hoje desperta curiosidade:

“No logar da confluência observa-se um facto curioso: ahi se distinguem perfeitamente as águas de um e outro dos ribeiros, porque, a qualquer hora, uma é tépida e a outra é fria.”

Confesso que, ao reler esse trecho, imaginei quantos moradores atuais conhecem essa singularidade. Seria ela ainda observável? Ou teria desaparecido em razão das modificações ambientais ocorridas ao longo das últimas décadas? São perguntas que apenas novas pesquisas de campo poderão responder. E talvez aí resida uma das maiores virtudes do velho dicionário de Antonio Soares: mais do que oferecer respostas, ele continuamente desperta novas perguntas. As curiosidades reunidas por Antonio Soares seguem encantando. Ao tratar da povoação de “Búzios”, por exemplo, registra:

“Povoação, à margem da enseada do mesmo nome, na costa do município de Papary. Tem uma população de 200 habitantes, pequeno porto do mar, e está situada vinte quilômetros ao norte da sede municipal. Chamam-na também Porto de Búzios. Antes da conquista o porto era frequentado por naus francesas, que ahi faziam carregamentos de páu-brasil.”

Poucas linhas bastam para nos transportar aos primórdios da ocupação do litoral potiguar. Muito antes da colonização portuguesa consolidar-se, embarcações francesas já frequentavam aquela costa, atraídas pela exploração do pau-brasil, estabelecendo relações comerciais com os povos indígenas. Não por acaso, a presença francesa deixou marcas profundas em diversos pontos do litoral nordestino, constituindo um dos capítulos mais interessantes da história colonial brasileira.

O verbete dedicado à “Cajarana” é breve, limitando-se a informar tratar-se de um sítio localizado na costa sul do Estado, marcando um dos limites entre Arês e Papary, também conhecido como “Ponta de Cajarana”. A simplicidade da descrição não diminui seu valor documental, pois evidencia como determinados acidentes geográficos serviam de referência para a delimitação administrativa dos municípios. Outro registro particularmente interessante refere-se ao “rio Cajupiranga”:

“Rio, nos limites do município de Natal com os de São José de Mipibu e Papary. O Cajupiranga entra na lagoa do Jiqui, recebe pela margem direita o seu afluente Pium e vai desembocar no oceano, entre as povoações de Pirangi de Baixo e Pirangi de Cima. Nas proximidades de sua foz, chamam-no também Pirangi.”

Essa observação permanece atual. Ainda hoje é comum encontrar moradores que identificam o Cajupiranga simplesmente como “rio Pirangi”, demonstrando como a tradição popular muitas vezes sobrevive às denominações oficiais. Antonio Soares acrescenta uma observação etimológica igualmente preciosa:

“Cajupiranga é palavra indígena; de aca-yu, caju, e piranga, vermelho: caju vermelho.”

É mais um exemplo da permanente presença da língua tupi na formação da paisagem potiguar. Rios, lagoas, serras, praias e povoados continuam guardando, em seus nomes, fragmentos da memória indígena que resistiram à passagem dos séculos. Outro verbete digno de nota refere-se ao então “Campo de Sant'Anna”, atualmente mais conhecido por muitos como “Cururu”. Antonio Soares informa:

“Povoação, vinte quilômetros ao sul da vila de Papary, a cujo território pertence. Tem população de cerca de setecentos habitantes e é também conhecida pela antiga denominação de Cururú. Subdelegacia de Polícia, creada em 1893. A capella de Campo de Sant'Anna é dedicada a São Sebastião.”

Talvez esse seja um dos dados que mais surpreendem. Uma população estimada em setecentos habitantes, no contexto das primeiras décadas do século XX, representava um núcleo relativamente importante para os padrões do interior potiguar. Mais significativo ainda é o registro da criação de uma Subdelegacia de Polícia em 1893. Esse simples detalhe revela que Campo de Sant'Anna exercia relevante função administrativa e possuía movimento suficiente para justificar a presença permanente da autoridade policial. Já andei escrevendo sobre Cururu neste blog e tenho a impressão de que, depois da Villa de Papary, Cururu fosse  aa maior em população.

São informações que dificilmente aparecem nas sínteses tradicionais da história regional. Também “Camurupim” comparece duas vezes na obra: como povoação e como rio. O autor registra que a localidade era igualmente conhecida por “Barra de Camurupim”, acrescentando que camurupim deriva do nome indígena de um peixe bastante conhecido, também chamado “camboropi”. Mais uma vez, percebe-se como a fauna serviu de inspiração para a formação dos topônimos litorâneos. Diante desse dado é possível entender que, tendo Camurupim referenciada como “povoado” àquela ocasião, hoje é o que chamamos de Praia de Camurupim, conforme se lê no site da administração municipal. Embora não deixa de ser uma povoação e uma praia, o IBGE usa a expressão técnica de “aglomerado rural ou povoado”.

Um dos verbetes mais ricos é, sem dúvida, o referente ao “Vale do Capió”. Antonio Soares descreve-o como um vale extenso e fértil, situado no baixo Trairi, iniciando-se acima de São José de Mipibu e prolongando-se até a lagoa Papary. Segundo ele, tratava-se de região extremamente favorável ao cultivo da cana-de-açúcar, concentrando diversos engenhos, entre eles Capió, Belém, São Luiz e Pavilhão. Chega mesmo a estimar uma produção anual de quarenta mil sacos de açúcar bruto em anos de inverno regular. Mais do que um dado agrícola, esse registro ajuda a compreender a importância econômica da região no contexto da agroindústria açucareira potiguar, cuja influência marcou profundamente a organização social, a ocupação do território e a formação de inúmeras famílias tradicionais.

As lagoas continuam surgindo sucessivamente: “Caracará”, descrita como pouco piscosa, mas permanente; “Carnahuba”, que enchia apenas em anos de bom inverno; e “Escura”, apontada como nascente do rio Boacica. Essas observações, aparentemente simples, constituem hoje um verdadeiro inventário ambiental do município há quase um século. Em tempos de crescente preocupação com a preservação dos recursos hídricos, documentos dessa natureza assumem valor ainda maior, permitindo comparações entre a paisagem descrita em 1930 e aquela que conhecemos atualmente. Outro aspecto curioso diz respeito às distâncias. Ao longo de praticamente todos os verbetes, Antonio Soares informa quantos quilômetros separavam cada povoação da sede da antiga vila de Papary.

Quando confrontamos essas medidas com os trajetos atuais, percebemos que nem sempre coincidem. Evidentemente, não se trata de erro do autor. O mais provável é que as antigas estradas seguissem percursos bastante diferentes dos atuais. Ao longo do século XX, a abertura de novas rodovias, o retificação de caminhos e a expansão urbana alteraram significativamente a forma de percorrer o território. É um detalhe que passa despercebido à primeira leitura, mas que oferece excelente material para estudos sobre a evolução da malha viária do município. Também chama atenção a constante preocupação do autor em registrar se determinada lagoa era ou não piscosa, se permanecia cheia durante o verão ou se secava em anos de estiagem. Hoje sabemos que tais informações representam muito mais do que simples curiosidades. Constituem um importante retrato das condições ambientais do início do século XX, podendo auxiliar pesquisadores interessados na evolução da hidrografia regional.

Ao final dessa breve incursão pelo Diccionário Histórico e Geographico do Rio Grande do Norte, fica uma certeza. Antonio Soares não escreveu apenas um repertório de verbetes. Sem talvez imaginar, legou um retrato extremamente fiel da antiga Papary, registrando rios, lagoas, povoados, caminhos, atividades econômicas, tradições, etimologias e aspectos ambientais que, em muitos casos, já desapareceram ou se transformaram profundamente. É justamente aí que reside a grandeza das fontes históricas. Elas não envelhecem. Envelhecemos nós, que frequentemente deixamos de consultá-las. Os documentos permanecem silenciosos nas estantes, aguardando apenas que alguém lhes devolva a palavra. E talvez seja essa a maior missão da pesquisa histórica: permitir que o passado continue conversando com o presente. Quem sabe, daqui a outros cem anos, algum pesquisador encontre este pequeno estudo, sorria diante de nossas observações e, como aconteceu comigo diante das páginas de Antonio Soares, descubra que a História nunca termina. Ela apenas muda de interlocutores.

Mas... a propósito dessas “novidades”, Na obra também conhecemos uma passagem instigante e, embora não diz respeito à Nísia Floresta, mas à Natal, somos informados sobre o “Morro do Estrondo”:

“Estrondo - Môrro, de grande elevação e situado ao S da cidade do Natal. A tradição afirma que eram ouvidos, outr’ora, das visinhanças d’esse morro, longos estrondos subterrâneos”.

Bem O que explicaria esses estrondos? O barulho decorreria de algo sobrenatural ou abalo geológico? Pequenos abalos sísmicos, relativamente comuns em algumas áreas do Nordeste? Simples amplificações naturais produzidas pelo relevo? Ou apenas mais uma das tantas tradições orais que povoam a imaginação popular? Já ouvi velhos nisiaflorestenses dizendo que as franjas das dunas das praias locais, tocadas pelo vento veloz, emitem “roncos”. Estaria explicado? Os moradores da Vila de Ponta Negra contam que o Morro do Estrondo é o nome do antigo “Morro do Careca”. Parece possível. Careca é um nome moderno, lembra uma cabeça careca. Mas nem sempre foi assim. Mas ouvi de um pescador da vila. Está revelado o local, mas o mistério do estrondo - ou ronco - continuam... Pois é, uma boa pesquisa hist´rica raramente termina quando se fecha um livro. Ao contrário, é justamente nesse momento que costuma começar.

Fiquei curioso.... mas o assunto aqui é Papary. Deixemos para Natal decifrar o estrondo, afinal. É assunto que deverá interessar a muitos...