ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

BIOGRAFIA DE ISMAEL DUMANG...

 


Cantor, compositor, poeta, cordelista e agente cultural, Ismael Dumang é reconhecido como um dos mais autênticos representantes da música autoral do Rio Grande do Norte. Nascido em 5 de novembro de 1960, no município de São José de Mipibu, filho de Raimundo Nonato de Araújo e Emygdia Alves de Araújo, teve suas origens ligadas ao Sítio Quebra Fuzil, ambiente marcado pela presença dos antigos engenhos, pelas tradições populares e pela forte identidade cultural do interior potiguar. Criado posteriormente no centro de São José de Mipibu por sua mãe adotiva, cresceu em meio às manifestações populares, às celebrações religiosas e à intensa musicalidade presente no cotidiano da cidade. 

1996

O rádio, os alto-falantes espalhados pelas ruas, as radiolas e as canções que ecoavam pelas casas foram decisivos em sua formação artística. Desde cedo, absorveu influências dos hinos da Harpa Cristã, da música sertaneja e romântica e de artistas como Roberto Carlos e Sérgio Reis. Mais tarde, aproximou-se da obra de compositores como Belchior, Fagner e Alceu Valença, referências fundamentais para a construção de sua identidade musical e de sua compreensão da canção como expressão poética e instrumento de reflexão humana.

A religiosidade exerceu papel importante em sua formação. Durante parte da juventude participou das atividades da Assembleia de Deus, experiência que contribuiu para desenvolver a sensibilidade melódica, a dramaticidade narrativa e a intensidade emocional presentes em sua obra. Nos primeiros anos da década de 1980 iniciou sua trajetória artística de maneira mais efetiva, participando de apresentações em eventos populares e festividades locais. Ainda jovem, recebeu seu primeiro cachê durante o carnaval de São José de Mipibu, episódio que simboliza o início de sua caminhada profissional na música.

1999

Em 1983, mudou-se para o município de Parnamirim, cidade onde consolidaria sua carreira artística e desenvolveria grande parte de sua atuação cultural. Na “Terra de Manoel Machado”, integrou a banda Natureza, atuando como baixista em apresentações realizadas em diversas cidades do Rio Grande do Norte. A experiência ampliou seus conhecimentos musicais e fortaleceu sua presença nos palcos. Posteriormente, aprofundou seus estudos de música, dedicando-se ao aprendizado do cavaquinho, da flauta doce e, sobretudo, da composição autoral, área na qual encontraria sua principal forma de expressão.

Um dos aspectos mais importantes de sua trajetória foi o aprofundamento nos estudos da literatura de cordel e das formas poéticas dos repentistas nordestinos. O domínio da métrica, da rima e da musicalidade dos versos tornou-se uma das marcas de sua produção artística. Suas composições apresentam forte elaboração literária sem perder a simplicidade comunicativa característica da canção popular nordestina. Em sua obra, letra e melodia surgem de forma integrada, revelando uma escrita musical refinada e profundamente ligada à tradição dos poetas populares. Sua produção estabelece uma ponte entre o cancioneiro nordestino e a moderna música popular brasileira, preservando identidade própria marcada pela valorização das raízes culturais, da memória afetiva e da autenticidade artística.

2003

Ao longo da carreira, Ismael Dumang consolidou-se como compositor de rara sensibilidade. Suas canções abordam temas como pertencimento, saudade, infância, fé, amor e identidade cultural, transformando experiências pessoais em mensagens universais. Em suas letras permanecem vivas as lembranças dos engenhos, das igrejas, das ruas de São José de Mipibu e das paisagens humanas do interior potiguar. Sua obra distingue-se pelo rigor na escolha das palavras, pela riqueza poética e pela profunda musicalidade dos versos.

A maturidade artística alcançada ao longo dos anos pode ser observada em sua vasta produção fonográfica. Em 1996 lançou o álbum Estação do Sonho, trabalho que marcou uma etapa importante de afirmação de sua linguagem autoral. Três anos depois, em 1999, apresentou Terra de Engenho, obra profundamente inspirada nas memórias da zona canavieira, nos engenhos e nas paisagens humanas do interior potiguar. Em 2003 lançou Astro de Quimera, ampliando o alcance poético de sua produção musical.

2004

No ano de 2004 veio a público o álbum Vivências, considerado um dos trabalhos mais representativos de sua trajetória. O próprio título sugere uma síntese de experiências humanas, afetivas e existenciais acumuladas ao longo da vida. O disco reúne as canções Vivências, Amo-te, A Ilusão da Vida, O Tempo da Canção, Fome, Frustrações, Pretensões, Poética, Queixumes, Prisioneiro, Tributo às Bicicletas, As Bem-Aventuranças, Saudade (instrumental) e Epílogo. O repertório oferece uma verdadeira janela para o universo criativo de Ismael Dumang, revelando reflexões sobre o amor, o tempo, os sonhos, as limitações humanas, as inquietações sociais e os dilemas da existência. Trata-se de um álbum em que o compositor expõe com maior clareza sua dimensão filosófica, sua sensibilidade poética e sua capacidade de transformar experiências cotidianas em arte.

2006

Dando continuidade à sua produção, lançou Palavras em 2006, reafirmando a importância da literatura e da poesia em seu processo criativo. Em 2008 apresentou Navegante, obra marcada pela simbologia das travessias humanas, dos encontros e dos caminhos percorridos ao longo da vida. No ano seguinte, em 2009, lançou Enigma das Estações, álbum que dialoga com as transformações do tempo, da natureza e da própria condição humana.

2008

Após um período dedicado a novas composições e projetos culturais, Ismael Dumang retornou à discografia com Cocada Sambótica, lançado em 2021, trabalho que evidencia sua permanente capacidade de renovação artística sem abrir mão de suas raízes culturais. Em 2023 apresentou Implacável Tempo, obra que aprofunda reflexões sobre a passagem dos anos, a memória, os afetos e a condição humana diante da inevitabilidade do tempo. Já em 2026 lançou Floresta Voraz, álbum que simboliza um novo momento de maturidade criativa, reafirmando a vitalidade de sua produção artística e sua permanente disposição para criar, renovar-se e dialogar com o público.

2009

Entre as composições associadas à sua produção artística destacam-se Terra de Engenhos, Lua de Céu-Sertão (Lua Mariana), O Canavial Invasor, Represa, Galope da Sabedoria, Sou, Barreta, O Preço de um Homem e O Velho Chico, obras que evidenciam sua forte ligação com a poesia, a memória nordestina e a valorização das experiências humanas.

2021

Além da carreira musical, desenvolveu importante atuação como cordelista, poeta e agente cultural. Participou de projetos promovidos pela Fundação Parnamirim de Cultura e contribuiu para iniciativas voltadas ao fortalecimento da produção artística local. Destaca-se sua participação no espetáculo Asas da História, de autoria de Makários Maia, para o qual compôs parte significativa da trilha sonora em uma de suas versões. Também participou de apresentações virtuais durante o período da pandemia e marcou presença em festivais, mostras de música autoral e eventos realizados em importantes espaços culturais do estado, incluindo o Teatro Alberto Maranhão.

2023

Mesmo após mais de quatro décadas de trajetória artística, Ismael Dumang permanece em plena atividade. Em 2024 participou de um especial musical ao lado do músico potiguar Almir Padilha, reafirmando sua presença constante na cena cultural do estado. Atualmente encontra-se em fase avançada de produção de um novo álbum autoral, projeto que deverá reunir composições inéditas e cuja previsão de lançamento está programada para o ano de 2027.

Floresta Voraz - 2026

Reconhecido pela coerência de sua obra e pela independência de sua criação artística, Ismael Dumang sempre manteve distância dos modismos passageiros e das imposições mercadológicas. Sua música caracteriza-se pela autenticidade, pela profundidade poética e pelo respeito às tradições culturais nordestinas. Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, consolidou-se como uma das vozes mais expressivas da música autoral do Rio Grande do Norte. Seu legado artístico, construído com sensibilidade, coerência e profundo respeito à cultura popular, contribui significativamente para o fortalecimento da identidade cultural de Parnamirim, de São José de Mipibu e de todo o estado do Rio Grande do Norte, tornando-o merecedor do reconhecimento público por sua relevante contribuição à música e à cultura potiguar.


domingo, 31 de maio de 2026

DA CAIXA DE PICOLÉS À LUTA SINDICAL: A TRAJETÓRIA DE JOSIVALDO NASCIMENTO E O COMPROMISSO COM A JUSTIÇA...

 

CHAPA 1

Conheci Josivaldo literalmente como nessa "fotografia" imaginária. E, por tudo o que ele é, por sua história honesta, justa, resiliente e exemplar, torço por ele. TORÇO PELA CHAPA 1. A história do professor Josivaldo Nascimento é daquelas que ajudam a compreender como a educação pode transformar vidas e como a persistência individual, quando associada ao compromisso coletivo, pode produzir importantes contribuições para uma comunidade inteira. Hoje pré-candidato à Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN, pela Chapa 1, Josivaldo apresenta uma trajetória construída a partir do trabalho precoce, da dedicação aos estudos, da atuação docente e de décadas de participação nas lutas sindicais em defesa da educação pública.

Nascido em 21 de setembro de 1978, na comunidade do Porto, no município de Nísia Floresta, Josivaldo é filho de Maria da Paz Nascimento, dona de casa e costureira, e de José Amador do Nascimento Neto, agricultor, pescador e feirante. Cresceu em uma família simples, formada por cinco filhos, em um ambiente marcado pelo trabalho e pelos valores da solidariedade familiar.
Desde cedo aprendeu que o esforço era parte da vida cotidiana. Ainda criança, aos nove anos de idade, passou a vender picolés pelas ruas da cidade, debaixo de sol ou chuva, para ajudar no orçamento doméstico. Aquela caixa de isopor carregada sob o sol do litoral sul potiguar tornou-se símbolo de uma fase importante de sua formação. Ao mesmo tempo em que trabalhava, mantinha firme o compromisso com os estudos. Na adolescência, passou a estudar à noite na Escola Municipal Yayá Paiva para conciliar educação e trabalho, demonstrando uma disciplina que o acompanharia por toda a vida. Nunca foi reprovado e sempre buscou fazer da escola um instrumento de crescimento pessoal.



Sua entrada no magistério ocorreu ainda muito jovem. Após prestar concurso público em 1996, foi convocado em 1997 para assumir uma vaga como professor da rede municipal, mesmo antes de concluir oficialmente o curso de Magistério, que finalizou em 1998. No dia 9 de março de 1997, deixava para trás a atividade de vendedor de picolés e iniciava sua carreira docente justamente na Escola Municipal Yayá Paiva, instituição que havia marcado sua própria trajetória como estudante.
Paralelamente ao exercício da profissão, continuou investindo em sua formação acadêmica. Em 1999 ingressou no curso de Matemática da Universidade Potiguar, concluindo a graduação em 2003. A partir de então, passou a atuar no Ensino Fundamental II, ampliando sua experiência na educação pública.
Entretanto, a história de Josivaldo não se limita à sala de aula. Sua consciência sindical começou a ser construída ainda como estudante. Em 1992, quando tinha apenas quatorze anos, testemunhou a primeira grande greve dos professores do município de Nísia Floresta. Naquele período, muitos profissionais recebiam salários inferiores ao mínimo legal e reivindicavam concurso público e plano de carreira. O movimento contou com o apoio dos Irmãos Maristas e marcou profundamente o jovem estudante, que passou a compreender a importância da organização coletiva e da luta por direitos.
A partir daquele momento, nasceu um interesse crescente pelo estudo das leis, da legislação educacional e dos mecanismos de defesa da categoria. Anos mais tarde, essa experiência transformaria sua vida.
Em 2006, diante da necessidade de reorganizar a representação sindical local, Josivaldo foi escolhido pela categoria para coordenar uma diretoria provisória responsável pela reconstrução do núcleo sindical de Nísia Floresta. Na época, a entidade encontrava-se praticamente desativada, sem sede própria, sem direção estruturada e com apenas quarenta associados.
O desafio era enorme. Entre abril e outubro daquele ano, percorreu todas as escolas do município realizando um trabalho de conscientização junto aos profissionais da educação. Muitas vezes utilizou recursos próprios para custear deslocamentos e visitas às unidades escolares. O resultado foi significativo: o número de filiados mais que dobrou, fortalecendo a representação da categoria.
Em dezembro de 2006, foi inaugurada a primeira sede sindical reorganizada, localizada na Travessa Padre José Hermínio. Embora modesta, aquela estrutura representava uma conquista histórica para os trabalhadores da educação do município. A partir dali, o sindicato ganhou visibilidade, ampliou sua atuação e consolidou sua presença junto aos professores das redes municipal e estadual.
Durante muitos anos, Josivaldo conciliou as atividades sindicais com a rotina de professor. Lecionava durante o dia e dedicava noites, finais de semana e horários de intervalo ao trabalho sindical. Entre reuniões, assembleias, elaboração de documentos e negociações com gestores públicos, construiu uma atuação marcada pela defesa dos direitos da categoria.
Um dos episódios mais importantes dessa trajetória ocorreu em 2015, durante a segunda greve dos professores do município. O movimento reivindicava o reajuste do Piso Nacional do Magistério e a realização de concurso público. Após intensas mobilizações e disputas judiciais, foi firmado um compromisso institucional que contribuiu para viabilizar o concurso realizado em 2016, ampliando o quadro efetivo da educação municipal.
Ao longo dos anos, sua atuação também ultrapassou as fronteiras do município. Participou de atividades promovidas pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), integrou debates relacionados ao combate ao racismo, esteve presente em encontros nacionais sobre educação e acompanhou discussões sobre políticas públicas voltadas para a valorização dos profissionais do ensino.
Essa experiência ajuda a compreender sua atual pré-candidatura à Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN. Para Josivaldo, a luta sindical não se restringe às questões salariais ou funcionais. Ela também envolve o combate às desigualdades, o enfrentamento ao preconceito e a defesa da dignidade humana. Em suas palavras, promover igualdade racial significa defender humanidade, justiça social e consciência histórica.
Sua trajetória pessoal parece dialogar diretamente com essa compreensão. Filho de trabalhadores, oriundo de uma comunidade popular, vendedor de picolés na infância, professor concursado, dirigente sindical e defensor da educação pública, Josivaldo construiu uma história marcada pela superação de obstáculos e pelo compromisso com causas coletivas.
Ao apresentar seu nome para compor a Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN, leva consigo não apenas décadas de atuação sindical, mas também a experiência de quem conhece, por vivência própria, os desafios enfrentados pelos trabalhadores da educação e pelas populações historicamente submetidas à exclusão social.
Mais do que uma candidatura, sua trajetória representa um percurso de dedicação à educação, à organização dos trabalhadores e à construção de uma sociedade mais justa. Da caixa de picolés carregada pelas ruas de Nísia Floresta aos espaços de representação sindical em âmbito estadual, a história de Josivaldo Nascimento demonstra como a educação, o trabalho e o compromisso coletivo podem caminhar lado a lado na formação de uma liderança construída ao longo do tempo e da experiência. Por essa história, por ser testemunha, me honra apresentar esse nome a quem porventura não o conheça...

segunda-feira, 25 de maio de 2026

LADRÕES DE LIVROS RAROS...


Eu que já fui vítima, sei o quanto isso prejudica uma biblioteca pessoal e principalmente respeitáveis e históricas bibliotecas públicas a nível, por exemplo, da Biblioteca Naciona. Nesta semana, o Brasil voltou a assistir, perplexo, a mais um episódio envolvendo o furto de livros raros e documentos históricos. O caso ganhou repercussão nacional, sendo destaque em diversos veículos de comunicação e programas jornalísticos da Rede Globo, inclusive assisti hoje de manhã no Hora 1 e no Fantástico. O homem preso é Laéssio Rodrigues de Oliveira, apontado pela Polícia Federal e por diversas investigações jornalísticas como um dos maiores ladrões de livros raros do Brasil.

Li sobre esse episódio e vi que Laéssio não é um criminoso comum. Seu nome tornou-se conhecido nacionalmente há décadas, sobretudo por furtos praticados em importantes instituições culturais brasileiras. Segundo reportagens e investigações divulgadas pela imprensa, ele teria atuado em locais como a Biblioteca Nacional, a Biblioteca Mário de Andrade, o Palácio do Itamaraty, a Fundação Oswaldo Cruz, a Universidade de São Paulo (USP), o Museu Nacional e diversas outras instituições culturais e bibliotecas históricas do país.E agora o vagabundo está com dois parceiros, inclusindo uma mulher.

O mais assustador é perceber o grau de especialização desses criminosos. Não se trata de ladrões improvisados. São indivíduos que conhecem acervos, catalogação, valor histórico, mercado clandestino e até mesmo os hábitos de pesquisadores e bibliotecários. Muitas vezes se apresentam como estudiosos, pesquisadores ou intelectuais interessados em temas históricos específicos. Recentemente, segundo li numa reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, Laéssio voltou a frequentar instituições culturais paulistas, tendo sido reconhecido no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, fato que levou a instituição a restringir temporariamente o acesso de pesquisadores ao acervo.

É profundamente doloroso escrever sobre isso. Quem ama livros antigos, manuscritos, jornais raros, primeiras edições e documentos históricos sabe que cada peça dessas guarda dentro de si uma parcela da memória nacional. Um livro raro não é apenas um objeto antigo: é testemunha do tempo. Há obras que existem em um ou dois exemplares conhecidos. Há documentos manuscritos impossíveis de serem substituídos. Há coleções inteiras que, uma vez mutiladas ou furtadas, jamais poderão ser recompostas, inclusive jamais relançadas como tem acontecido, por exemplo, no Sebo Vermelho, sob os cuidados de Abimael, um mecenas dos livros raros. Quando um ladrão invade uma biblioteca histórica, ele não furta apenas patrimônio físico: ele rouba a memória coletiva, interrompe pesquisas, mutila a história e lesa futuras gerações de estudiosos. A propósito disto, em 1994, vi o livro original Itinéraire d’un voyage en Allemagne, escrito por Nísia Floresta, que me foi mostrado por Enélio Petrovich e torço para que ainda esteja no IHGRN. Inclusive, dia desses conversei sobre isso com um ex-presidente do IHGRN que também é revoltado com o fato.

E o mais revoltante é perceber que tais crimes frequentemente ocorrem dentro de ambientes que deveriam ser sagrados para a cultura. Bibliotecas, institutos históricos, arquivos públicos e universidades deveriam ser templos do conhecimento. No entanto, acabam se tornando alvo de indivíduos inescrupulosos que transformam a cultura em objeto de mercado clandestino, vaidade pessoal ou acumulação privada. Reduzindo um objeto raro, e muitas vezes único, numa peça pessoal. Um vagabundo desse é ladrão, é canalha!

Confesso que essa notícia me provocou profunda indignação porque, infelizmente, tomei conhecimento de que situações semelhantes também ocorreram - e talvez ainda ocorram com "normalidade" - no Rio Grande do Norte. Essas informações me foram narradas por pessoas que ocuparam e ocupam posições importantes em instituições históricas potiguares. Não mencionarei nomes, por responsabilidade e respeito ao devido processo investigativo. Contudo, não posso silenciar diante da gravidade do assunto.

No caso do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, os desaparecimentos teriam ocorrido ao longo do tempo, de maneira lenta, silenciosa e quase subterrânea, exatamente como costumam agir ladrões especializados nesse tipo de crime. O mais inquietante é que existem suspeitas recorrentes sobre determinados indivíduos conhecidos em certos círculos culturais e acadêmicos do estado. Não afirmo aqui culpabilidade de ninguém, pois isso cabe às autoridades competentes apurar. Mas há comentários antigos, indícios observados e estranhezas difíceis de ignorar. Obras raríssimas, documentos praticamente impossíveis de serem encontrados em bibliotecas públicas ou sebos comuns, começaram a surgir aqui e ali, sendo vistos em ambientes privados e comentados por pessoas ligadas ao meio intelectual.

E é exatamente aí que mora o perigo. O silêncio. O constrangimento. O corporativismo. Muitas vezes há quem prefira fingir que nada acontece para evitar desgaste entre nomes conhecidos da intelectualidade local. Mas quem ama verdadeiramente a história não pode agir assim. O patrimônio histórico não pertence a indivíduos; pertence à coletividade. Pertence ao povo potiguar. Pertence às futuras gerações e quem faz isso é um criminoso sem escrúpulo algum.

Torço sinceramente para que providências concretas sejam tomadas. Havendo indícios, é necessário investigar. Havendo suspeitas consistentes, é necessário aprofundar apurações. E, se houver comprovação, os responsáveis precisam responder rigorosamente perante a Justiça. Não vejo qualquer exagero na possibilidade de acionamento da Polícia Federal em casos dessa natureza, sobretudo quando envolvem patrimônio documental raro, circulação de peças históricas e possível atuação articulada entre estados. Lugar de criminoso que saqueia bibliotecas históricas é diante dos tribunais. E, sendo comprovados os crimes, na cadeia.

Quem pratica esse tipo de delito deve, inclusive, ser moralmente banido da convivência acadêmica e dos espaços históricos. Porque o ladrão de livros raros talvez seja ainda mais perverso que o ladrão comum: ele rouba inteligência acumulada, destrói fontes de pesquisa, impede descobertas futuras e mutila silenciosamente a memória cultural de um povo inteiro.

Espero sinceramente que o Rio Grande do Norte enfrente esse problema com coragem, firmeza e seriedade. Sem perseguições irresponsáveis, é claro. Mas também sem omissões covardes. Há muitos indícios, muitos comentários recorrentes e muitas histórias que precisam ser devidamente investigadas. A história potiguar merece respeito. E aqueles que atentam contra ela precisam responder perante a sociedade e perante a lei. Ladrão não pode ter o nome de Historiador!

sábado, 23 de maio de 2026

ISMAEL DUMANG: UMA PÉROLA EM PARNAMIRIM...

 

O cantor, compositor, poeta e cordelista potiguar Ismael Dumang constrói sua trajetória artística a partir de experiências profundamente ligadas à memória afetiva, à cultura popular nordestina e às sonoridades interioranas do Rio Grande do Norte. Natural do município de São José de Mipibu, filho de Raimundo Nonato de Araújo e Emygdia Alves de Araújo, nasceu no dia 5 de novembro de 1960, na localidade rural conhecida como Sítio Quebra Fuzil, espaço marcado pelas paisagens de engenhos, pelas tradições orais e pela musicalidade popular que mais tarde se tornaria matéria-prima de sua obra artística. Ainda criança, foi levado para o centro da cidade, sendo criado na Rua Coronel Antônio Basílio por sua mãe adotiva, figura fundamental em sua formação humana e emocional.

Durante boa parte da infância, Ismael não compreendia plenamente sua condição de filho adotivo. Cresceu acreditando ser filho único, embora convivesse naturalmente com Eunice, menina frequentadora da mesma igreja e reconhecida socialmente como sua irmã. Somente mais tarde, em um delicado processo de descobertas familiares, passou a compreender sua verdadeira origem. A revelação ocorreu após a visita de uma mulher apresentada como sua tia, despertando questionamentos que culminaram numa conversa definitiva com sua mãe. Assim, soube que havia sido adotado ainda com apenas dezoito dias de vida. Descobriu também que seu pai biológico falecera poucos meses após seu nascimento e que Eunice era realmente sua irmã consanguínea. Posteriormente, integrou-se afetivamente aos demais irmãos - Moacir, João Batista, Tânia e Sônia - assumindo com maturidade e sensibilidade esse reencontro familiar.

Sua infância foi marcada por brincadeiras típicas do interior nordestino, como pião e biloca (bola de gude), mas sobretudo pela presença intensa da música. O rádio exerceu papel decisivo em sua formação cultural. As transmissões da Rádio Rural de Natal, os alto-falantes espalhados pelas ruas de Mipibu, nos parques e as tradicionais radiolas do interior criaram em sua imaginação um universo sonoro vasto e emocionalmente poderoso. Essas experiências deixaram marcas profundas em sua estética musical. O próprio artista reconhece que grande parte de sua sensibilidade nasce da escuta cotidiana dos hinos evangélicos da Harpa Cristã, das canções sertanejas e românticas transmitidas pelo rádio e das músicas populares ouvidas nas casas vizinhas.

Entre as primeiras referências musicais que despertaram seu desejo de cantar estavam canções associadas a Sérgio Reis e Roberto Carlos. Mais tarde, já adolescente, passou a mergulhar em universos musicais mais sofisticados da música popular brasileira, aproximando-se de nomes como Alceu Valença, Belchior e Fagner. Essas influências seriam determinantes para consolidar sua vocação artística e ampliar sua compreensão da canção como instrumento poético, político e existencial.

A religiosidade também exerce forte influência em sua formação estética. Durante parte de sua vida foi frequentador da Assembleia de Deus e cantava regularmente os hinos tradicionais da igreja, absorvendo a dramaticidade melódica, a intensidade emocional e a força narrativa presentes nas composições sacras. Paralelamente, mantinha contato com atividades musicais ligadas ao catolicismo popular, algo relativamente delicado em tempos de maiores tensões religiosas. Essa convivência plural acabou enriquecendo ainda mais sua percepção artística, fazendo surgir um compositor capaz de unir espiritualidade, memória popular e lirismo cotidiano.

Nos anos 1980, iniciou suas primeiras experiências mais concretas como compositor. Ainda muito jovem, começou a participar de eventos populares e apresentações locais, recebendo no carnaval de sua cidade natal o primeiro cachê da carreira musical. O fato possui forte dimensão simbólica: o artista surgia exatamente no ambiente das festas populares nordestinas, espaço onde música, povo e tradição convivem organicamente.

Em 1983, após o falecimento de sua mãe adotiva, mudou-se para Parnamirim, cidade onde passaria a desenvolver de maneira mais intensa sua vida artística. Na “Terra de Manoel Machado”, integrou a banda Natureza, atuando como baixista em apresentações por diversas localidades do interior potiguar. A experiência foi essencial para ampliar seu domínio musical e consolidar sua presença de palco. Após o encerramento das atividades do grupo, aprofundou seus estudos musicais, dedicando-se ao cavaquinho, à flauta doce e, sobretudo, à composição autoral.

Seu processo criativo ganhou enorme consistência quando passou a estudar a literatura de cordel e as estruturas poéticas dos repentistas nordestinos. Ismael mergulhou no universo das sextilhas, do martelo agalopado e das formas métricas tradicionais da poesia oral sertaneja. Esse aprendizado lhe proporcionou refinamento técnico no uso da rima, do ritmo e da musicalidade interna dos versos. Diferentemente de muitos compositores intuitivos, Ismael desenvolveu uma escrita estruturada, consciente da engenharia poética da canção popular.

Tal característica é perceptível em suas composições, frequentemente construídas numa relação simultânea entre letra e melodia. Em sua obra, palavra e som parecem nascer juntos, como se o verso já carregasse em si a cadência musical. Essa organicidade é um dos traços mais admiráveis de sua produção artística. Há em suas músicas uma fluidez narrativa que remete tanto à tradição dos cantadores nordestinos quanto à sofisticação lírica da MPB setentista.

Seu estilo musical apresenta forte diálogo com a tradição da música nordestina, mas sem limitar-se a fórmulas regionais convencionais. Ismael Dumang parece construir uma ponte entre o cancioneiro popular do interior e a densidade poética da moderna música brasileira. Em alguns momentos, suas canções evocam a dramaticidade existencial de Belchior; em outros, aproximam-se da inventividade melódica de Alceu Valença ou da sensibilidade sertaneja de Fagner. Também são perceptíveis influências do romantismo popular e até de elementos do rock clássico, referências assimiladas ao longo de sua trajetória artística.

Contudo, mesmo diante dessas aproximações, Ismael preserva identidade própria. Suas composições são primorosas. Cada palavra é depurada e encaixada com acuidade. É rigoroso na escolha da frase certa. Sua obra possui forte sentimento telúrico, marcado pela memória dos engenhos, das ruas de Mipibu, das radiolas, das igrejas e das paisagens humanas do interior potiguar. Poucos artistas conseguem transformar lembranças pessoais em experiências universais com tamanha delicadeza. Em suas letras, há sempre uma dimensão afetiva muito intensa, frequentemente atravessada por temas como pertencimento, saudade, infância, fé, resistência cultural e reencontro consigo mesmo.

Sua discografia inclui trabalhos importantes, como o álbum Estação do Sonho, lançado em meados da década de 1990, considerado um marco relevante em sua trajetória artística. Outro destaque fundamental é Terra de Engenhos, obra dedicada à sua cidade natal e considerada uma verdadeira homenagem musical às raízes culturais de São José de Mipibu. Nesse trabalho, Ismael transforma memória em poesia sonora, reafirmando seu compromisso com a valorização da identidade nordestina.

Além da música, também se consolida como autor de cordéis e agente cultural. Sua atuação ultrapassa o palco e alcança iniciativas voltadas à formação artística, ao incentivo de novos talentos e à valorização da cultura popular potiguar. Participou de projetos relevantes promovidos pela Fundação Parnamirim de Cultura, inclusive é autor de grande parte da trilha sonora de uma das versões do espetáculo Asas da História, escrito por Makários Maia, inclusive participou de várias apresentações virtuais durante o período da pandemia. Também está presente em importantes eventos da música autoral do Rio Grande do Norte, como mostras realizadas no Teatro Alberto Maranhão, espaço tradicional da cultura potiguar.

Sua presença nesses eventos reafirma o reconhecimento conquistado ao longo das décadas dentro da cena cultural do estado. Frequentemente descrito como um veterano da música autoral potiguar, Ismael Dumang é admirado não apenas pela qualidade técnica de suas composições, mas pela autenticidade de sua arte. Sua música jamais soa artificial ou produzida para seguir modismos. Ao contrário: nasce da experiência humana, da escuta sensível do cotidiano e da profunda conexão com suas origens. Em uma época marcada pela pressa estética, pela produção descartável e pela padronização musical imposta pelas tendências comerciais, Ismael mantém-se fiel à essência de sua criação artística. Nunca demonstra preocupação em adaptar sua obra às conveniências passageiras do mercado ou às fórmulas sonoras momentaneamente em evidência. Sua preocupação sempre esteve - e permanece - voltada para a construção de uma obra sólida, verdadeira e artisticamente refinada, capaz de atravessar o tempo sem perder autenticidade.

Como compositor, Ismael demonstra rara habilidade em construir letras carregadas de imagens poéticas e reflexões existenciais sem perder a simplicidade comunicativa característica da canção popular nordestina. Existe em sua escrita uma honestidade emocional que aproxima imediatamente o ouvinte. Suas músicas não parecem buscar apenas entretenimento; elas convidam à contemplação, à memória e ao sentimento. Há em sua produção um evidente compromisso com a permanência estética da obra artística. Cada composição parece cuidadosamente trabalhada não apenas para o presente, mas para constituir um legado cultural e poético duradouro. Sua arte recusa superficialidades. Em vez de ceder ao imediatismo das tendências efêmeras, Ismael investe na profundidade da palavra, na força melódica e na elaboração sensível das emoções humanas.

Também merece destaque sua contribuição no campo educacional e cultural. Atua em projetos e festivais estudantis de música ligados à formação de novos intérpretes e compositores, aproximando estudantes da música brasileira de qualidade e valorizando autores relevantes da cultura popular. Essa atuação evidencia o compromisso de Ismael não apenas com a produção artística, mas também com a formação de novas gerações de ouvintes e músicos.

Sua trajetória revela um artista profundamente comprometido com a cultura popular brasileira e, sobretudo, com a preservação das memórias afetivas do Nordeste. Em tempos marcados pela velocidade e pelo consumo efêmero, Ismael Dumang representa uma espécie de resistência poética. Sua obra valoriza a palavra, a melodia, o sentimento e a identidade cultural como patrimônios indispensáveis. Sua singularidade artística reside justamente nessa capacidade de permanecer coerente consigo mesmo, preservando sua identidade estética mesmo diante das constantes transformações do cenário musical contemporâneo. Ismael pertence à rara linhagem de artistas que compreendem a música não apenas como produto de consumo, mas como expressão humana, patrimônio simbólico e instrumento de permanência cultural.

Ao longo dos anos, consolida-se como uma das vozes mais sensíveis e autênticas da música potiguar contemporânea. Cantor, compositor, cordelista e poeta, Ismael Dumang transforma sua própria história de vida em matéria artística, criando uma obra profundamente humana, emocionalmente verdadeira e culturalmente relevante. Sua música permanece viva exatamente porque nasce daquilo que há de mais permanente no ser humano: a memória, a emoção, o pertencimento e a necessidade de transformar a vida em poesia. Mais do que acompanhar tendências, Ismael Dumang constrói um caminho próprio - singular, coerente e artisticamente sofisticado - e, desse modo, segue somando à cultura potiguar e nordestina um legado marcado pela autenticidade, pela beleza poética e pelo profundo respeito à arte de compor.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

NÍSIA FLORESTA: A PRIMEIRA MULHER ABOLICIONISTA DO BRASIL...

 


Há certas injustiças históricas que o tempo insiste em perpetuar. Uma delas talvez seja o silêncio que ainda paira sobre o nome de Nísia Floresta Brasileira Augusta quando o assunto é o movimento abolicionista brasileiro. O Brasil aprendeu, corretamente, a reverenciar nomes como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Luiz Gama, André Rebouças e tantos outros gigantes da luta contra a escravidão. Contudo, muito antes de boa parte desses homens levantarem publicamente suas vozes contra o cativeiro, uma mulher nascida na antiga Papary, atual Nísia Floresta, já escrevia com coragem incomum contra a brutalidade da escravidão e contra a desumanização do povo negro.

Talvez por ter sido mulher. Talvez por ter vivido num século profundamente patriarcal. Talvez porque sua luta principal tenha ficado historicamente associada à emancipação feminina. O fato é que a dimensão abolicionista de Nísia Floresta ainda permanece insuficientemente reconhecida pela historiografia brasileira. E isso precisa ser dito com clareza: Nísia Floresta foi, sim, uma das primeiras intelectuais brasileiras a defender publicamente posições antiescravistas, podendo legitimamente ser considerada a primeira mulher abolicionista do Brasil.

Sua postura diante da escravidão aparece de maneira mais explícita em Opúsculo Humanitário, publicado em 1853. A obra, tradicionalmente lembrada por defender a educação feminina, vai muito além disso. Nela, Nísia constrói uma profunda reflexão moral sobre a sociedade brasileira, denunciando não apenas a opressão das mulheres, mas tamb´m a violência praticada contra escravizados e amas de leite negras dentro das famílias brasileiras.

Num dos trechos mais contundentes da obra, Nísia condena o comportamento das elites brasileiras diante das amas de leite escravizadas, denunciando aquilo que chamou de “revoltante ingratidão”. A expressão tornou-se histórica porque revela algo raríssimo para a época: empatia pública e explícita para com mulheres negras submetidas ao regime escravista. Em pleno século XIX, quando grande parte da elite naturalizava a escravidão como elemento estrutural da sociedade, Nísia oussava enxergar humanidade naqueles que o sistema insistia em transformar em mercadoria.

Mas sua visão antiescravista não surgiu apenas em Opúsculo Humanitário. O pensamento de Nísia passeia em várias de suas obras. Eela defendia a abolição da escravidão e os direitos indígenas, articulando essas pautas a uma crítica ampla do colonialismo e da desigualdade social.

Na importante obra A lágrima de um caeté, por exemplo, publicado em 1849, a autora já demonstrava profunda sensibilidade diante dos povos marginalizados e violentados pela colonização brasileira. Embora a obra esteja centrada na figura indígena, constatamos nela um discurso humanitário que também dialoga diretamente com a condição dos negros escravizados. Nísia compreendia que o Brasil imperial havia sido construído sobre estruturas violentas de exclusão social e racial.

Seu pensamento possuía uma dimensão revolucionária para o período. Enquanto boa parte da intelectualidade brasileira ainda aceitava a escravidão como elemento “natural” da economia, Nísia associava civilização, progresso moral e educação à superação da barbárie social. Em Opúsculo Humanitário, ela afirma que o grau de civilização de um país podia ser medido pela forma como tratava suas mulheres e seus grupos socialmente oprimidos. Tal formulação, ainda hoje moderna, colocava-a frontalmente contra a lógica escravista do Império.

É importante compreender a coragem disso. Estamos falando de uma mulher escrevendo no Brasil da primeira metade do século XIX. Um país onde mulheres quase não tinham espaço intelectual. Um país onde negros eram vendidos em praças públicas, inclusive, em se tratando da velha Papary, eram comercializados num frontoso oitizeiro próximo à Estação Papary. Um país em que defender escravizados significava desafiar interesses econômicos profundos. E, ainda assim, Nísia escreveu, publicou, criticou, denunciou...

Não há como não enxergá-la como precursora das ideias abolicionistas no Brasil. A pesquisadora Charlotte Hammond Matthews (do Reino Unido, Escócia) registra que diversos pesquisadores atribuíram a Nísia “o título incontestável de precursora da propaganda das ideias e doutrinas abolicionistas”. Não há como dissociá-la desse realidade.

Existe algo profundamente simbólico nisso tudo. A antiga Papary, terra onde aconteceu a primeira insurreição de escravizados no Rio Grande do Norte - encabeçada pelo escravizado Miguel Rei -  terra marcada pela presença da escravidão colonial, pelo trabalho de negros escravizados em suas lavouras, pescarias, serviços domésticos e festas do Rosário, acabaria tornando-se nacionalmente conhecida justamente pelo nome de uma mulher que ousou defender liberdade, dignidade e emancipação humana.

Talvez a História ainda esteja em dívida com Nísia Floresta Brasileira Augusta. Porque mais do que pioneira do feminismo brasileiro, mais do que educadora visionária, mais do que escritora de extraordinária coragem intelectual, a filósofa Nísia também foi uma voz profundamente humanitária contra a escravidão. E talvez tenha sido exatamente isso que tornou sua escrita tão perigosa para seu tempo, e tão necessária para o nosso.

ISMAEL DUMANG: “A MÚSICA QUE FAÇO NASCE DA MEMÓRIA E DO SENTIMENTO”

 

Cantor, compositor, poeta e cordelista, Ismael Dumang é um dos nomes mais autênticos da música autoral potiguar. Nascido em São José de Mipibu no dia 5 de novembro de 1960, filho de Raimundo Nonato de Araújo e Emygdia Alves de Araújo, radicado em Parnamirim desde 1983, cidade onde consolidou grande parte de sua trajetória artística e cultural, o artista construiu uma obra marcada pela poesia, pela valorização das raízes nordestinas e pela recusa em transformar sua arte em produto descartável.

Ao longo de mais de quatro décadas vivendo na “Terra de Manoel Machado”, Ismael Dumang tornou-se também uma referência cultural parnamirinense, mantendo viva uma produção musical profundamente ligada à memória, à sensibilidade poética e à identidade nordestina. Em conversa ao BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE, ele fala sobre infância, memória, religiosidade, literatura de cordel, influências musicais e o compromisso de produzir uma obra que permaneça viva no tempo. Ismael nunca perdeu seu vínculo com São José de Mipibu e Nísia Floresta, terras que ouviram o choro de seu nascimento e ouviram seus primeiros acordes...


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Ismael, sua trajetória artística nasce muito ligada à memória e às origens. Que lembranças da infância em São José de Mipibu ainda permanecem mais fortes em você?


ISMAEL DUMANG: Permanecem muitas coisas. A rua, os engenhos, as brincadeiras de infância, as radiolas, os parques, o som das músicas chegando pelas janelas das casas… Tudo isso ficou muito vivo dentro de mim. Eu costumo dizer que minha música nasce justamente desse universo de lembranças. A infância no interior deixa marcas profundas. O rádio teve uma importância enorme na minha formação. Eu ouvia de tudo: hinos religiosos, música sertaneja, Roberto Carlos, canções românticas. Aquilo foi formando minha sensibilidade sem que eu percebesse.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Sua história de vida também é marcada pela descoberta da adoção. De alguma forma, isso influenciou sua arte?


ISMAEL DUMANG: Influenciou muito. Quando a gente descobre certas coisas sobre a própria origem, passa a olhar para a vida de outra maneira. Acho que isso aprofundou em mim uma necessidade maior de pertencimento, de entender as raízes, de compreender os afetos. Minha música fala muito sobre memória, identidade, reencontro, saudade… Talvez venha justamente daí. A arte, muitas vezes, acaba sendo uma maneira de organizar emoções.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Você costuma citar influências muito diversas, que vão desde os hinos da igreja até Belchior e Alceu Valença. Como essas referências convivem dentro da sua música?


ISMAEL DUMANG: Convivem naturalmente. A música que escutei na infância nunca saiu de mim. Os hinos da igreja têm uma dramaticidade muito forte, uma intensidade emocional muito grande. Depois vieram Belchior, Fagner, Alceu Valença, que me mostraram uma música mais poética, mais elaborada. Mas tudo isso foi se somando. Nunca tive preocupação em seguir uma linha fechada. Minha música é resultado das experiências que vivi e das sonoridades que me tocaram ao longo da vida.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Em suas composições existe uma preocupação muito forte com a palavra. Isso vem da convivência com o cordel e a poesia popular?


ISMAEL DUMANG: Sem dúvida. Quando comecei a estudar mais profundamente a literatura de cordel e as estruturas dos repentistas, passei a compreender melhor o peso da métrica, da rima, do ritmo interno dos versos. O cordel ensina disciplina poética. Ensina que a palavra precisa soar bem, carregar musicalidade. Tenho muito cuidado com isso. Gosto de lapidar a letra, procurar a frase certa, encontrar o encaixe exato entre palavra e melodia.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Há quem diga que suas músicas possuem um sentimento muito telúrico, muito ligado à terra e às raízes nordestinas. Você concorda?


ISMAEL DUMANG: Concordo. Acho que não conseguiria fugir disso, porque faz parte de quem sou. Os engenhos, as ruas de Mipibu, as igrejas, as paisagens humanas do interior… tudo isso habita minha memória afetiva. Mesmo quando a música fala de sentimentos universais, existe sempre esse chão nordestino sustentando a composição. É algo natural.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Você é frequentemente apontado como um artista que nunca cede aos modismos. Em tempos de músicas produzidas rapidamente para consumo imediato, como você enxerga isso?


ISMAEL DUMANG: : Eu respeito todos os estilos e todas as formas de fazer música, mas nunca consegui criar pensando em tendência ou mercado. Minha preocupação sempre foi fazer algo verdadeiro. Acho que a arte precisa ter permanência. Não gosto da ideia de música descartável. Gosto de compor algo que continue fazendo sentido daqui a muitos anos. Talvez isso torne o caminho mais difícil, mas também mais honesto comigo mesmo.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Sua música parece buscar mais do que entretenimento. Existe uma intenção consciente de provocar reflexão?


ISMAEL DUMANG: Sim. A música pode emocionar, provocar lembranças, despertar reflexões. Não penso na canção apenas como distração. Gosto quando uma letra toca alguém profundamente, quando desperta memória ou sentimento. Acho que a arte tem essa capacidade de permanecer dentro das pessoas.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: O álbum Terra de Engenhos é considerado por muitos uma homenagem afetiva à sua cidade natal. Qual o significado desse trabalho para você?


ISMAEL DUMANG: É um trabalho muito especial porque reúne exatamente esse universo afetivo que me acompanha desde menino. Falar de São José de Mipibu é falar das minhas origens, das pessoas que fizeram parte da minha história, das paisagens que me formaram emocionalmente. Foi uma maneira de transformar memória em música.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: E como você vê a cena musical potiguar atualmente?


ISMAEL DUMANG: Vejo muitos artistas talentosos produzindo coisas interessantes. O Rio Grande do Norte sempre teve uma riqueza cultural enorme. O problema, muitas vezes, é a falta de espaço e incentivo. Mas existe uma geração muito boa surgindo, fazendo música autoral, valorizando identidade cultural. Isso é importante.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Além da carreira artística, você também participa de projetos culturais e educacionais. Qual a importância desse trabalho?


ISMAEL DUMANG: Acho fundamental. A cultura precisa circular, alcançar os jovens, formar novos ouvintes e novos artistas. Quando participo de festivais estudantis ou projetos culturais, sinto que estou contribuindo para manter viva essa corrente da música e da poesia. A arte transforma pessoas.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Depois de tantos anos de trajetória, o que ainda move Ismael Dumangue?


ISMAEL DUMANG: A emoção de criar. Enquanto eu tiver algo para dizer através da música, continuo compondo. A arte ainda me emociona profundamente. E talvez seja justamente isso que mantém tudo vivo: a capacidade de transformar experiências humanas em canção.


BLOG NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Para encerrar: como você gostaria que sua obra fosse lembrada no futuro?


ISMAEL DUMANG: Gostaria que fosse lembrada como uma obra sincera. Uma música feita com verdade, respeito à poesia e amor pela cultura nordestina. Se minhas canções conseguirem permanecer na memória afetiva das pessoas, já me sinto realizado.

BIBLIOTECA VIRTUAL CONTANDO HISTÓRIAS DE NÍSIA FLORESTA...

 


Hoje, às 09h00, o município de Nísia Floresta viveu um momento que merece ser guardado na memória coletiva de seu povo. Não se tratou apenas de uma reunião administrativa, nem simplesmente do lançamento de mais um projeto cultural. O que aconteceu foi algo maior: um encontro entre a História, a Educação e o compromisso com o futuro das novas gerações.


Nasceu oficialmente a BIBLIOTECA VIRTUAL CONTANDO HISTÓRIAS, uma iniciativa da mais alta relevância cultural e pedagógica, idealizada por Jusciê Correa e abraçada pelo cineasta Nilson Eloy  e o webdsigner Jadelson Sales, três nomes que compreenderam, com sensibilidade e visão histórica, a necessidade urgente de aproximar as crianças e a juventude de suas raízes, de sua memória e de sua identidade. Porque é nessa fase que formamos o sentimento de pertencimento do cidadão.

Por meio de pequenos vídeos de até dez minutos, produzidos com linguagem didática e acessível, diversos pesquisadores, estudiosos, professores e pessoas ligadas à preservação da memória histórica - e que estavam presentes - irão compartilhar conhecimentos sobre fatos, personagens, tradições e acontecimentos ligados ao município de Nísia Floresta e à cultura potiguar. O material ficará disponível gratuitamente na internet, especialmente voltado às escolas, democratizando o acesso ao conhecimento e permitindo que estudantes, professores e toda a população possam aprender e revisitar a própria história.

Vivemos tempos em que a memória muitas vezes corre o risco do esquecimento. Por isso, iniciativas dessa natureza assumem um papel quase missionário. Uma cidade que preserva sua história fortalece sua identidade. Um povo que conhece suas raízes aprende também a defender sua cultura, seu patrimônio e sua dignidade.

O encontro contou com a presença do prefeito Gustavo Santos, que abraçou o projeto com entusiasmo e sensibilidade administrativa, compreendendo imediatamente a grandeza cultural e educacional da proposta. Merece, portanto, os mais sinceros aplausos por apoiar uma iniciativa que certamente deixará frutos permanentes para o município.

Estiveram presentes também a vice-prefeita, Maxsa Valéria Mesquita, o presidente da Câmara Municipal, Luiz Henrique de Castro Ferreira, o secretário de Educação Gustavo Fernandes dos Santos, demais secretários municipais, funcionários da Secretaria de Cultura, convidados, todos unidos pelo mesmo sentimento de valorização da memória e do conhecimento.

A verdade é que Nísia Floresta recebeu hoje um grande presente. Um presente que não se mede em cifras, mas em consciência cultural, em formação cidadã e em valorização da inteligência coletiva de seu povo. Num município que carrega o nome da pioneira educadora Nísia Floresta Brasileira Augusta, nada poderia ser mais simbólico do que investir justamente em Educação, História e Cultura. É como se o espírito da grande escritora potiguar continuasse soprando inspiração sobre sua terra natal, lembrando-nos de que educar também é libertar.

Parabéns ao prefeito Gustavo Santos pelo apoio decisivo ao projeto. Parabéns a Jusciê Correa, Nilson Eloy e Jadelson Sales pela brilhante iniciativa. Parabéns a todos os envolvidos. E parabéns, sobretudo, ao povo de Nísia Floresta, que passará a contar com mais um importante instrumento de preservação de sua memória histórica e cultural. Que venham os vídeos...