ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

NÍSIA FLORESTA E A DEFESA DA AMAMENTAÇÃO

IMAGEM CRIADA POR IA - INSPIRADA NO TEXTO - SEM COMPROMISSO COM A FIDELIDADE

Muito antes de o Brasil discutir campanhas públicas de incentivo ao aleitamento materno, muito antes de a Medicina moderna transformar a amamentação em pauta de saúde pública, uma mulher nascida na antiga Papary - atual Nísia Floresta - já escrevia sobre a importância moral, afetiva, educativa e social de a mãe amamentar os próprios filhos. Essa mulher chamava-se Nísia Floresta Brasileira Augusta.

A História intelectual brasileira ainda conhece pouco essa dimensão extraordinária de sua obra. Costuma-se lembrar Nísia como pioneira do feminismo brasileiro, defensora da educação feminina, tradutora de ideias progressistas europeias e crítica das injustiças sociais do século XIX. Contudo, existe um aspecto profundamente avançado em seus escritos que merece reconhecimento ainda maior: Nísia foi também uma das primeiras intelectuais brasileiras - e provavelmente a primeira mulher escritora do país - a defender explicitamente a amamentação materna como dever natural, afetivo, educativo, moral e até patriótico da mulher brasileira.

Tal afirmação não nasce apenas de entusiasmo interpretativo contemporâneo. Diversos pesquisadores de sua obra vêm demonstrando que a questão da maternidade e da amamentação ocupa lugar relevante em seu pensamento pedagógico e civilizacional. Entre esses estudiosos destacam-se Charlotte Liddell, Constância Lima Duarte, Zilá Bernd, Michelle Perrot e Mary Del Priore, entre outros estudiosos da maternidade, da educação feminina e da condição da mulher no século XIX.

No Brasil oitocentista, especialmente entre as elites urbanas, era extremamente comum que mulheres brancas entregassem seus filhos aos cuidados de amas de leite negras, quase sempre escravizadas. Essas mulheres africanas ou afrodescendentes amamentavam os filhos das famílias senhoriais, muitas vezes em detrimento dos próprios filhos biológicos. A prática estava profundamente ligada à estrutura escravista do Império. As amas de leite tornaram-se figuras centrais da vida doméstica brasileira durante o século XIX, constituindo um dos mais perversos aspectos da escravidão urbana.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA AOS 22 ANOS DE IDADE

A historiadora Mary Del Priore demonstra, em seus estudos sobre maternidade e cotidiano no Brasil colonial e imperial, que a terceirização da amamentação era vista como símbolo de distinção social entre as elites. A mulher aristocrática muitas vezes evitava amamentar por razões estéticas, sociais ou médicas, transferindo às escravas a responsabilidade pelo aleitamento infantil. Tal sistema gerava profundas violências afetivas, raciais e humanas.

Foi justamente contra essa lógica cultural que Nísia Floresta Brasileira Augusta se insurgiu intelectualmente. Oportuno ressaltar, embora não me recordo no momento sobre a autoria - mas li há algum tempo - há um texto publicado num jornal natalense, intitulado Nísia Floresta: Racista?, justamente focado no livro O Brasil, emque ela relata experiências observadas na França, especialmente em aldeias onde famílias camponesas recebiam crianças das elites urbanas para serem amamentadas por amas de leite. Ali, Nísia descreve cenas dramáticas de abandono, sujeira, negligência e exploração infantil. Entre os episódios mais chocantes mencionados por pesquisadores da obra está justamente o caso de uma criança devorada por um porco, fato que profundamente a impressionou.

Nísia Floresta acreditava que a formação moral da criança começava no pr´prio seio materno e que a mãe exercia papel decisivo na construção ética, afetiva e educacional da sociedade. Por essa razão, via o distanciamento materno e a transferência da criação dos filhos a terceiros como um grave problema social e moral. Seu pensamento, naturalmente, apresenta ambiguidades típicas do século XIX - como ocorre com praticamente todos os intelectuais de sua época -, mas isso está muito distante de transformá-la numa defensora do racismo escravista. Ao contrário, há fortes indícios de que Nísia enxergava o sistema das amas de leite como mais uma deformação produzida pela escravidão e pelos costumes artificiais das elites aristocráticas, tanto europeias quanto brasileiras. Sua crítica dirigia-se sobretudo ao abandono afetivo da maternidade e à mercantilização da infância, num sistema em que mulheres pobres e escravizadas eram frequentemente exploradas para suprir aquilo que as classes abastadas se recusavam a exercer: o cuidado direto e amoroso dos próprios filhos.

Em Opúsculo Humanitário, publicado em 1853, ela constrói uma poderosa reflexão sobre maternidade, educação e responsabilidade feminina. Embora a obra seja mais conhecida pela defesa da emancipação intelectual da mulher, vários trechos tratam diretamente da maternidade e da relação entre mães e filhos. Nísia acreditava que a amamentação fortalecia não apenas os vínculos afetivos familiares, mas também a própria formação moral da sociedade brasileira.

A pesquisadora Charlotte Liddell, em importante estudo acadêmico intitulado Nature, Nurture and Nation: Nísia Floresta's Engagement in the Breast-Feeding Debate in Brazil and France, demonstra que Nísia inseriu-se diretamente nos debates internacionais do século XIX sobre amamentação, maternidade e cidadania feminina. Segundo Liddell, Nísia compreendia o aleitamento materno como prática “natural e patriótica”, associando o ato de amamentar à construção moral da nacionalidade brasileira. E aqui reside um dos aspectos mais impressionantes de seu pensamento.

Nísia não tratava a maternidade apenas como experiência privada. Para ela, a mãe exercia papel fundamental na formação ética da nação. A educação dos filhos começava literalmente no colo materno. A amamentação aparecia como primeiro gesto pedagógico, primeiro elo afetivo e primeiro compromisso social da mulher com o futuro da sociedade.

A professora Constância Lima Duarte observa que toda a obra da escritora potiguar está atravessada pela defesa da educação moral feminina. Para Constância, Nísia entendia a mulher como agente civilizador da sociedade, o que naturalmente incluía os deveres maternos e a formação da infância.

Da mesma forma, como pesquisador, chamo atenção, em diversos ensaios e estudos sobre Nísia Floresta, para o caráter profundamente humanitário de sua obra. Destaco que Nísia percebia a maternidade como espaço de construção ética da sociedade brasileira, associando educação, sensibilidade e responsabilidade materna ao progresso nacional.

Em seus escritos, Nísia criticava duramente a vaidade e os hábitos aristocráticos das elites brasileiras que terceirizavam a criação dos filhos às amas de leite escravizadas. Ela via nisso não apenas um afastamento afetivo entre mãe e criança, mas também um problema moral e educativo. Em sua visão, mães que abandonavam voluntariamente a amamentação comprometiam parte essencial da formação emocional dos filhos. É importante compreender a ousadia disso no século XIX.

Nísia nasceu numa sociedade escravista. Sua família possuía escravos; seus tios da parte de sua mãe, Antônia Freire, de Goianinha/RN, também os possuíam. Havia inclusive em seu convívio uma escrava chamada Pepe, que a acompanhava desde cedo e que Nísia muito a citou, expressando amorosidade e respeito pela mesma. Isso torna ainda mais significativo o percurso intelectual da autora, pois ela foi gradualmente percebendo as profundas contradições morais daquele sistema e compreendendo que havia algo profundamente errado na naturalização da escravidão e da exploração humana. Criticar o sistema das amas de leite significava tocar diretamente numa das estruturas mais íntimas da sociedade imperial brasileira. Afinal, aquelas amas negras eram também parte do sistema doméstico da escravidão urbana. Muitas eram alugadas, compradas ou exploradas economicamente exatamente por sua capacidade de amamentar.

A historiadora francesa Michelle Perrot, ao estudar o papel das mulheres na sociedade oitocentista, observa que a maternidade passou, durante o século XIX, a ser reinterpretada como missão moral da mulher burguesa. Nísia dialogava diretamente com esse universo intelectual europeu, especialmente com autores franceses que defendiam o fortalecimento dos vínculos maternos como fundamento da regeneração social.

Além disso, os estudos contemporâneos reconhecem que a posição de Nísia sobre a questão carregava contradições típicas de seu tempo. Charlotte Liddell observa que sua defesa da maternidade patriótica acabava limitada pelos preconceitos raciais presentes na sociedade oitocentista. Ainda assim, o fato extraordinário permanece: Nísia foi uma das primeiras mulheres brasileiras a transformar a amamentação em tema de reflexão intelectual, educacional e social.

Em Conselhos à Minha Filha e também em diversos textos reunidos posteriormente em Opúsculo Humanitário, a autora insiste na importância da formação moral das mães e da participação feminina consciente na educação infantil. Sua concepção de maternidade estava profundamente ligada ao projeto de civilização do Brasil.

A pesquisadora Zilá Bernd ressalta que a escrita de Nísia articula constantemente educação, maternidade e identidade nacional. Em suas análises, percebe-se que a autora potiguar compreendia a mulher como núcleo moral da sociedade brasileira, visão que inevitavelmente conduzia à valorização da amamentação materna. Talvez por isso Nísia enxergasse na amamentação algo muito maior do que simples nutrição biológica. Ela via ali um ato de amor, responsabilidade, educação e construção da cidadania. Existe algo profundamente simbólico nisso tudo.

A mesma mulher que defendia educação para mulheres, criticava injustiças sociais e escrevia contra a escravidão também percebia que o futuro de uma nação começava nos braços de uma mãe. Num século em que poucas mulheres podiam sequer publicar livros, Nísia Floresta Brasileira Augusta ousou discutir maternidade, educação infantil, afetividade familiar e responsabilidade social feminina como questões centrais para o progresso do país.

Mais impressionante ainda é perceber que, antes dela, praticamente não se conhecem no Brasil textos femininos de circulação intelectual defendendo explicitamente que as mães não transferissem a outras mulheres - especialmente às amas escravizadas - a responsabilidade de amamentar os próprios filhos. Sob esse aspecto, Nísia pode ser considerada verdadeira pioneira da defesa da amamentação materna no Brasil.

Hoje, quando campanhas de saúde pública defendem o aleitamento materno como instrumento de fortalecimento emocional, imunológico e psicológico das crianças, torna-se impossível não reconhecer o caráter visionário daquela mulher nascida em Papary. Mais uma vez, Nísia Floresta Brasileira Augusta estava muito à frente de seu tempo.

REFERÊNCIAS

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: EDUFRN, diversos ensaios e edições.

FLORESTA, Nísia. Opúsculo Humanitário. Rio de Janeiro: Typographia de M. A. da Silva Lima, 1853.

FLORESTA, Nísia. Conselhos à Minha Filha. Rio de Janeiro: edição histórica.

FREIRE, Luís Carlos. Ensaios, artigos e estudos sobre Nísia Floresta publicados no blog "nisiaflorestaporluiscarlosfreire", dedicado à autora.

LIDDELL, Charlotte. Nature, Nurture and Nation: Nísia Floresta's Engagement in the Breast-Feeding Debate in Brazil and France. Estudo acadêmico sobre maternidade e amamentação na obra de Nísia Floresta (TRADUÇÃO: Fídias A. C. M. P. F.)

PERROT, Michelle. Minha História das Mulheres. São Paulo: Contexto.

PRIORE, Mary Del. História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto.

PRIORE, Mary Del. Ao Sul do Corpo: condição feminina, maternidade e mentalidades no Brasil Colônia. São Paulo: Editora UNESP.

TELLES, Norma. Estudos sobre escritoras brasileiras do século XIX e maternidade.

BERND, Zilá. Estudos sobre literatura feminina brasileira e identidade nacional.


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A EDUCAÇÃO NA INFÂNCIA DE NÍSIA FLORESTA E A REALIDADE ESCOLAR DO RIO GRANDE DO NORTE OITOCENTISTA...

Nísia Floresta tendo aula com o pai, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa no Sítio Floresta, Papary. Dionísio foi sua grande referência e inspiração intelectual. Imagem inspirada por IA, sem compromisso com a fidelidade dos fatos.

Quanto mais se estuda a trajetória de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), mais se percebe que sua preocupação não se restringia à defesa dos direitos das mulheres, à educação feminina ou à crítica das desigualdades sociais. Sua obra, sua atuação pedagógica e seus escritos revelam uma atenção permanente à infância, à formação moral das novas gerações e ao papel da educação na construção de uma sociedade mais justa. Ela entendia que é na infância que se constitui o alicerce essencial do desenvolvimento humano adulto. Muito antes de o Brasil discutir direitos da criança, pedagogia moderna, proteção à infância ou políticas públicas voltadas para o desenvolvimento infantil, Nísia já compreendia que o futuro de qualquer nação depende diretamente da forma como ela cuida, educa e prepara suas crianças para a vida em sociedade.

Quando nasceu, em 12 de outubro de 1810, na então Vila de Papary, atual município de Nísia Floresta, o Brasil vivia um período de profundas transformações políticas e sociais. Apenas dois anos antes, a chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro havia alterado significativamente os rumos da antiga colônia. Apesar dessas mudanças, a infância brasileira continuava marcada por inúmeras dificuldades. A mortalidade infantil atingia índices alarmantes, epidemias assolavam as populações urbanas e rurais, o trabalho infantil era amplamente tolerado e a educação permanecia privilégio de uma reduzida parcela da sociedade. Crianças pobres, indígenas e negras raramente tinham acesso à instrução formal, enquanto milhares de crianças escravizadas eram submetidas ao trabalho precoce e privadas dos mais elementares direitos. Como observou o historiador francês Philippe Ariès, em sua clássica História Social da Criança e da Família, a própria noção de infância como uma fase distinta da vida humana é relativamente recente, pois durante séculos a criança foi vista apenas como um adulto em miniatura.

No Rio Grande do Norte, a realidade educacional das primeiras décadas do século XIX era marcada por profundas limitações. A antiga Capitania e, posteriormente, a Província dispunham de reduzida estrutura de ensino, poucas escolas públicas e escassas oportunidades de acesso à instrução. Ainda não existia um sistema educacional organizado, e as iniciativas de ensino restringiam-se, em grande parte, à educação doméstica, a aulas particulares ou aos ensinamentos ministrados por religiosos. Em muitas localidades, a alfabetização constituía um privilégio raro, acessível apenas a uma pequena parcela da população. Crianças do litoral, do agreste e do sertão cresciam auxiliando suas famílias na agricultura, na pesca, na pecuária ou nos afazeres domésticos, vivendo praticamente à margem da escolarização formal.

Foi nesse cenário que nasceu, em 1810, na então Vila de Papary, Dionísia Gonçalves Pinto, que mais tarde se tornaria conhecida como Nísia Floresta Brasileira Augusta. As chamadas escolas de primeiras letras somente começariam a se expandir de forma mais efetiva a partir das décadas de 1830 e 1840, enquanto instituições de maior porte, como o Atheneu Norte-Riograndense, seriam criadas quando Nísia já havia alcançado a idade adulta. Assim, apesar da notoriedade intelectual que conquistaria ao longo da vida, Nísia não frequentou escolas regulares durante a infância, simplesmente porque elas praticamente não existiam em sua realidade imediata, sobretudo para as meninas.

Sua formação educacional se deu pelas mãos de seu pai, Dionísio Gonçalves Pinto, de leituras, do contato com mestres particulares e, posteriormente, das experiências acumuladas em outras províncias do Brasil - como o Convento das Carmelitas em Goiana, Pernambuco - onde supostamente ela frequentou e na Europa. Talvez por ter vivenciado de perto as limitações educacionais de seu tempo, Nísia tenha desenvolvido uma compreensão singular da importância da infância e da instrução como fundamentos para a formação moral dos indivíduos e para a construção de uma sociedade mais justa e esclarecida.

Pouco se comenta que sua relação com o ensino começou ainda muito cedo. Após as dificuldades familiares decorrentes do assassinato de seu pai, Dionísio Gonçalves Pinto, a jovem Nísia assumiu responsabilidades incomuns para uma mulher de sua época. Aos dezoito anos de idade já ministrava aulas particulares, contribuindo para o sustento familiar e revelando uma extraordinária vocação para o magistério. Sua atuação como educadora iniciou-se em Pernambuco, onde entrou em contato com ambientes intelectuais mais dinâmicos e com debates relacionados à instrução p´blica. Posteriormente viveu no Rio Grande do Sul, ampliando sua experiência pedagógica e conhecendo diferentes realidades brasileiras. Essas vivências permitiram-lhe compreender que o principal desafio do Brasil não era apenas político ou econômico, mas sobretudo educacional.

Essa convicção alcançou sua expressão mais significativa quando, em 1838, já estabelecida no Rio de Janeiro, então capital do Império, fundou o célebre Colégio Augusto, cujo nome homenageava Manoel Augusto de Faria Rocha, seu marido falecido cinco anos antes. A instituição representou uma verdadeira inovação pedagógica em uma época na qual grande parte dos colégios femininos limitava-se ao ensino de bordado, costura, religião e boas maneiras. Nísia propunha algo muito mais ambicioso. Suas alunas estudavam literatura, história, geografia, ciências naturais, línguas estrangeiras e filosofia moral. Em pleno século XIX, defender que meninas recebessem instrução intelectual equivalente à dos rapazes constituía uma posição avançada e, para muitos, até mesmo ousada. Seu projeto pedagógico possuía como fundamento a formação integral da criança e do jovem, preparando-os não apenas para o ambiente doméstico, mas para a participação consciente na vida social.

Essa preocupação com a infância aparece de maneira particularmente sensível em sua obra Conselhos à Minha Filha, publicada em 1842. O livro constitui um dos mais belos testemunhos de afeto materno e reflexão educativa produzidos no Brasil oitocentista. Dirigindo-se à filha Lívia, Nísia aborda questões relacionadas à moral, à dignidade, à responsabilidade, à educação e à formação do caráter. Embora escrita em linguagem íntima e familiar, a obra ultrapassa os limites do círculo doméstico e apresenta uma verdadeira proposta de formação para a juventude brasileira. Ao escrever para sua filha, Nísia estava, simbolicamente, dialogando com toda uma geração de jovens mulheres e demonstrando sua confiança no poder transformador da educação. Essa obra, inclusive seria adotada por escolas católicas italianas, a pedido de uma autoridade religiosa.

Sua reflexão educacional alcançou maior profundidade em 1853, quando publicou Opúsculo Humanitário, uma das mais importantes obras pedagógicas do Brasil Imperial. Nesse trabalho, criticou duramente o abandono da instrução pública, denunciando a precariedade das escolas, a insuficiência de investimentos governamentais, a escassez de professores qualificados e a negligência das autoridades em relação à educação popular. Para Nísia, educar não significava apenas transmitir informações ou exercitar a memória. A verdadeira educação deveria formar seres humanos completos, capazes de desenvolver senso crítico, valores morais e consciência social. Nesse aspecto, suas ideias dialogavam com pensadores como Jean-Jacques Rousseau, autor de Emílio, ou Da Educação, e Johann Heinrich Pestalozzi, cuja pedagogia defendia o desenvolvimento integral da criança.

Enquanto Nísia difundia essas ideias inovadoras, a educação norte-rio-grandense avançava lentamente. Ao longo do século XIX, diversos presidentes da Província registraram em seus relatórios oficiais as dificuldades enfrentadas pelo ensino público. As reclamações eram constantes: falta de escolas, ausência de professores habilitados, carência de recursos financeiros e baixa frequência escolar. A Lei Imperial de 15 de outubro de 1827, considerada um dos primeiros marcos da educação pública brasileira, determinara a criação de escolas de primeiras letras em cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. Entretanto, sua implementação encontrava enormes obstáculos, especialmente em províncias periféricas como o Rio Grande do Norte. Historiadores como Augusto Tavares de Lyra, Luís da Câmara Cascudo e Rocha Pombo registraram essas dificuldades e demonstraram como a educação potiguar avançou de forma lenta e desigual durante o período imperial.

A história da educação no Rio Grande do Norte permite compreender de forma mais ampla o contexto em que nasceu e se formou Dionísia Gonçalves Pinto, a futura Nísia Floresta Brasileira Augusta. Quando veio ao mundo, em 12 de outubro de 1810, na então Vila de Papary, a realidade educacional da antiga Capitania do Rio Grande do Norte era marcada por profundas limitações. Não existia ainda um sistema público de ensino organizado, tampouco uma rede escolar capaz de atender à população de maneira regular. As poucas iniciativas de instrução existentes encontravam-se dispersas entre a educação doméstica, aulas particulares ministradas por professores contratados pelas famílias mais abastadas e os ensinamentos oferecidos por religiosos. Em muitas localidades da capitania, a alfabetização constituía um privilégio raro, acessível apenas a uma reduzida parcela da população. Enquanto isso, crianças do litoral, do agreste e do sertão cresciam auxiliando suas famílias nas atividades agrícolas, na pesca, na pecuária ou nos afazeres domésticos, vivendo praticamente à margem da escolarização formal.

Foi nesse cenário que nasceu aquela que se tornaria uma das maiores educadoras da história do Brasil. As chamadas escolas de primeiras letras somente começariam a expandir-se de forma mais efetiva a partir das décadas de 1830 e 1840, quando Nísia já era adulta e estava muito longe de Papary. Instituições de maior porte, destinadas ao ensino secundário e à formação intelectual mais avançada, surgiriam ainda mais tarde. Entre elas destaca-se o Atheneu Norte-Riograndense, fundado em 1834, quando a futura escritora já se encontrava em sua juventude. Dessa forma, apesar da extraordinária notoriedade intelectual que alcançaria ao longo da vida, Nísia não frequentou escolas regulares durante a infância, simplesmente porque tais instituições praticamente não existiam em sua realidade imediata, sobretudo para as meninas. A sociedade oitocentista reservava às mulheres um papel predominantemente doméstico, limitando significativamente suas oportunidades de instrução formal.

Sua formação intelectual ocorreu por caminhos alternativos. A educação familiar, as leituras realizadas desde cedo, o contato com mestres particulares e, posteriormente, as experiências adquiridas em diferentes províncias brasileiras - a exemplo do Convento das Carmelitas, em Goiana, onde ela supostamente estudou breve período - e em diversos países europeus contribuíram decisivamente para a construção de sua vasta cultura. Talvez justamente por haver experimentado as limitações educacionais impostas às mulheres de sua geração, Nísia tenha desenvolvido uma compreensão singular da importância da infância, da instrução e da formação moral como fundamentos indispensáveis para a construção de uma sociedade mais justa, esclarecida e civilizada. Essa percepção seria refletida em seus escritos pedagógicos, em sua atuação como educadora e em sua defesa pioneira do acesso feminino à educação.

Ao longo do século XIX, a instrução pública potiguar avançou de forma lenta e gradual. Embora novas escolas fossem sendo criadas e o poder público passasse a dedicar maior atenção ao ensino, persistiam enormes dificuldades estruturais, especialmente nas regiões mais afastadas da capital. Somente com a Proclamação da República e a consolidação dos governos republicanos surgiriam condições para reformas educacionais mais profundas, capazes de transformar significativamente o panorama do ensino norte-rio-grandense.

As mudanças mais expressivas ocorreram nas primeiras décadas do século XX. Entre os governantes que mais contribuíram para a modernização da educação potiguar destaca-se Alberto Maranhão, cuja administração, especialmente entre 1908 e 1913, promoveu uma ampla reorganização da instrução pública estadual. Inspirado pelos modelos pedagógicos modernos que circulavam no país naquele período, Alberto Maranhão implementou reformas administrativas, fortaleceu a formação de professores, incentivou a expansão da rede escolar e introduziu novos métodos de ensino. Em 1908 foi criado, em Natal, o Grupo Escolar Augusto Severo, considerado um dos maiores símbolos da modernização educacional norte-rio-grandense. A partir desse marco, a educação pública estadual passou a incorporar práticas pedagógicas mais avançadas, estruturas organizacionais mais eficientes e uma concepção mais ampla da função social da escola.

O movimento de expansão da educação pública não permaneceu restrito à capital. Nas primeiras décadas do século XX, grupos escolares e estabelecimentos de ensino foram criados ou reorganizados em importantes centros urbanos do interior, como Mossoró, Caicó, Assú, Ceará-Mirim, São José de Mipibu e diversas outras localidades. Esse processo contribuiu para ampliar o acesso à escolarização e reduzir, ainda que lentamente, as desigualdades educacionais existentes entre Natal e os demais municípios do estado. Pela primeira vez, um número crescente de crianças das mais variadas origens sociais passou a encontrar oportunidades mais consistentes de acesso à instrução pública.

Foi nesse contexto de valorização da educação que o nome de Nísia Floresta passou a ser oficialmente incorporado à rede escolar potiguar. Em 1910, durante o governo de Alberto Maranhão, foram criadas escolas de primeiras letras em diversas localidades do Rio Grande do Norte, entre elas Papary, terra natal da educadora. Na ocasião surgiu a Escola Isolada Nísia Floresta, considerada uma das primeiras instituições públicas de ensino do município. O fato possui grande significado histórico, pois demonstra que apenas vinte e cinco anos após a morte da escritora, ocorrida em 1885, seu nome já era reconhecido pelo poder público como referência educacional digna de homenagem permanente. E tenho a impressão que isso possa ter sido sugestão do escritor - que também seria governador do Rio Grande do Norte - Antônio José de Melo e Souza, nascido em Papary. Ele assumiu o governo em seguida de Alberto Maranhão e, antes, ocupou importantes pastas nos governos anteriores, inclusive de Pedro velho de Albuquerque Maranhão.

A criação da Escola Isolada Nísia Floresta constituiu uma das primeiras manifestações oficiais de reconhecimento à contribuição da educadora para a história da instrução brasileira. Décadas depois de haver defendido a ampliação do acesso ao ensino e a valorização da educação feminina, sua memória retornava simbolicamente às salas de aula por meio de uma instituição destinada justamente à formação das novas gerações. O gesto também revelava a consolidação de seu prestígio intelectual no Rio Grande do Norte, transformando-a em símbolo da educação estadual.

A trajetória da instituição prosseguiria ao longo do século XX. Em 1950 foi criado o Grupo Escolar Rural, ampliando a estrutura educacional existente no município. Posteriormente, a evolução administrativa e pedagógica da unidade culminaria em uma nova etapa de sua história. Em 1978, o estabelecimento passou a receber oficialmente a denominação de Escola Estadual Nísia Floresta, nome que conserva até os dias atuais. Dessa forma, do ponto de vista histórico, existe uma ligação direta entre as iniciativas educacionais implantadas durante o governo de Alberto Maranhão e a instituição que atualmente preserva a memória da educadora em sua terra natal. Trata-se, na verdade, de um processo de evolução institucional que pode ser compreendido em três momentos fundamentais: a criação da Escola Isolada Nísia Floresta, em 1910; a criação do Grupo Escolar Rural, em 1950; e a adoção da denominação Escola Estadual Nísia Floresta, em 1978.

Paralelamente a esse processo de expansão educacional, como mencionei acima, destacou-se também a atuação do escritor e político Dr. Antônio José de Melo e Souza, filho da antiga Papary. Nascido na mesma terra que viu nascer Nísia Floresta, Antônio de Souza tornou-se uma das figuras mais respeitadas da vida intelectual norte-rio-grandense, associando seu nome aos esforços de fortalecimento da instrução pública e da formação educacional da juventude potiguar. A coincidência histórica é particularmente significativa: duas importantes referências da educação do Rio Grande do Norte surgiram daquele mesmo espaço geográfico marcado pelas lagoas, pelos engenhos, pelas tradições indígenas e por uma intensa vida cultural. Em épocas distintas, ambos contribuíram para o fortalecimento do ideal educativo no estado, representando diferentes momentos de uma mesma herança intelectual.

Ao longo do século XX, o crescimento da rede escolar norte-rio-grandense permitiu que os ideais educacionais defendidos por Nísia Floresta encontrassem concretização cada vez maior. A ampliação do ensino público, a valorização da formação docente, a criação de grupos escolares e a expansão das oportunidades de escolarização representaram avanços que, embora tardios, aproximaram a realidade educacional potiguar dos princípios defendidos pela educadora desde o século XIX. Nesse sentido, a existência da Escola Estadual Nísia Floresta, localizada justamente na antiga Papary, possui um significado que ultrapassa o âmbito institucional. Ela simboliza a permanência de um legado intelectual que continua a inspirar a educação potiguar e brasileira, reafirmando a instrução como instrumento fundamental de transformação social, formação cidadã e construção do conhecimento.

Ao mesmo tempo em que as instituições escolares se transformavam, também evoluíam os materiais destinados ao ensino. Durante a infância de Nísia, predominavam obras influenciadas pela tradição pedagógica portuguesa, incluindo textos inspirados nas ideias de Luís António Verney e diversos compêndios religiosos utilizados na alfabetização. Nas décadas posteriores, ganharam destaque autores como Abílio César Borges, o célebre Barão de Macaúbas, considerado um dos mais importantes educadores do Império. Também se destacaram nomes como Felisberto de Carvalho, Hilário Ribeiro e João Köpke, cujos livros didáticos foram utilizados por milhares de crianças brasileiras entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Mas talvez a dimensão mais humana da preocupação de Nísia com a infância esteja presente em suas reflexões sobre maternidade, afeto e formação moral. Em uma época na qual era comum que famílias mais abastadas delegassem a outras pessoas grande parte dos cuidados com seus filhos, ela defendia a proximidade entre mães e crianças e valorizava profundamente a amamentação materna. Muito antes do surgimento da pediatria moderna ou das campanhas oficiais de incentivo ao aleitamento, compreendia a importância dos vínculos afetivos estabelecidos nos primeiros anos de vida. Sua sensibilidade alcançava também as crianças pobres, órfãs, abandonadas e escravizadas, frequentemente esquecidas pelas políticas públicas e pelas elites da época.

Ao longo de seus setenta e quatro anos de vida, Nísia Floresta testemunhou acontecimentos decisivos da história brasileira, incluindo a Independência, o Primeiro Reinado, o período regencial, o Segundo Reinado e os debates que antecederam a Abolição da Escravidão. Em todos esses momentos manteve inabalável sua confiança na educação como instrumento de transformação social. Por essa razão, talvez seja correto afirmar que Nísia Floresta não foi apenas pioneira da educação feminina ou precursora do feminismo brasileiro. Foi também uma das primeiras intelectuais do país a compreender a infância como fundamento da cidadania, da justiça social e do progresso nacional.

Quando ensinava meninas, quando escrevia para mães e filhas, quando dirigia seu colégio, quando denunciava a precariedade das escolas ou quando sonhava com um Brasil mais instruído, estava, na verdade, defendendo as crianças. E talvez seja justamente essa a sua herança mais duradoura. Muito antes dos ministérios da educação, das campanhas de alfabetização, dos grupos escolares republicanos, dos conselhos tutelares ou do Estatuto da Criança e do Adolescente, uma mulher nascida às margens da lagoa de Papary já havia compreendido uma verdade que permanece atual: nenhuma nação se torna verdadeiramente grande quando abandona suas crianças ao esquecimento.

REFERÊNCIAS 

ALMEIDA, Jane Soares de. Mulher e educação: a paixão pelo possível. São Paulo: UNESP, 1998. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/up000028.pdf. Acesso em: 04 jun. 2026.

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 2022. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/77410. Acesso em: 12 mai. 2026.

BASTOS, Maria Helena Câmara; STEPHANOU, Maria (org.). Histórias e memórias da educação no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2011. Disponível em: https://dspace.unisa.br/items/e57b9456-ebbe-4a74-88d2-f6b3c4c85c43. Acesso em: 15 jun. 2026.

BORGES, Abílio César. Primeiro livro de leitura. Edição fac-similar. Brasília: Senado Federal, 2019. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/528950. Acesso em: 14 jul. 2026.

CARVALHO, Marta Maria Chagas de. A escola e a República e outros ensaios. Bragança Paulista: EDUSF, 2003. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/77410. Acesso em: 20 mai. 2026.

CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. 4. ed. Natal: EDUFRN, 2010. Disponível em acervo digital institucional. Acesso em: 06 mar. 2026.

DEL PRIORE, Mary (org.). História das crianças no Brasil. 8. ed. São Paulo: Contexto, 2020. Disponível em: https://www.editoracontexto.com.br/produto/historia-das-criancas-no-brasil/. Acesso em: 12 mai. 2026.

DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. 10. ed. São Paulo: Contexto, 2017. Disponível em: https://www.editoracontexto.com.br/produto/historia-das-mulheres-no-brasil/. Acesso em: 07 jun. 2026.

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. 2. ed. Natal: EDUFRN, 2008.

DUARTE, Constância Lima (org.). Mulheres em letras: antologia de escritoras oitocentistas brasileiras. Florianópolis: Editora Mulheres, 2004.

FARIA FILHO, Luciano Mendes de. Dos pardieiros aos palácios: cultura escolar e urbana em Belo Horizonte na Primeira República. Passo Fundo: UPF, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/jjd7qRF8FN3h96w9Y9PVwxR/?format=pdf. Acesso em: 06 mar. 2026.

FREIRE, Luís Carlos. Ensaios, artigos, crônicas e pesquisas sobre Nísia Floresta publicados no blog nisiaflorestaporluiscarlosfreire. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/. Acesso em: 15 mar. 2026.

GONDRA, José Gonçalves; SCHUELER, Alessandra Frota Martinez de. Educação, poder e sociedade no Império brasileiro. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2018. Disponível em repositório acadêmico digital. Acesso em: 04 jun. 2026.

KÖPKE, João. Livro de leitura. Edição fac-similar. Brasília: Senado Federal, 2017. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/528950. Acesso em: 01 jun. 2026.

LOURO, Guacira Lopes. Mulheres na sala de aula. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. Disponível em acervo digital institucional. Acesso em: 09 jun. 2026.

LYRA, Augusto Tavares de. História do Rio Grande do Norte. 3. ed. Natal: EDUFRN, 2008.

MONARCHA, Carlos. História da educação brasileira: formação do campo. Ijuí: Unijuí, 2006. Disponível em repositório institucional. Acesso em: 28 abr. 2026.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA. Conselhos à minha filha. Org. Constância Lima Duarte. Florianópolis: Editora Mulheres, 2004.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Org. Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez, 2016.

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NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA. Cintilações de uma alma brasileira. Florianópolis: Editora Mulheres, 1997.

PESTALOZZI, Johann Heinrich. Como Gertrudes ensina seus filhos. São Paulo: UNESP, 2006. Disponível em repositório digital de domínio público. Acesso em: 12 abr. 2026.

RIZZINI, Irene; PILOTTI, Francisco (org.). A arte de governar crianças: a história das políticas sociais, da legislação e da assistência à infância no Brasil. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2011. Disponível em acervo digital acadêmico. Acesso em: 03 mai. 2026.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou Da educação. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014. Disponível em acervo digital consultado. Acesso em: 18 mai. 2026.

SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas no Brasil. 5. ed. Campinas: Autores Associados, 2021. Disponível em repositório institucional. Acesso em: 27 mai. 2026.

SAVIANI, Dermeval. História da escola pública no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2008. Disponível em repositório institucional. Acesso em: 09 jun. 2026.

VEIGA, Cynthia Greive. História da educação feminina no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. Disponível em acervo digital institucional. Acesso em: 22 jun. 2026.

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

NOTA PRÉVIA - ADAUTO DA CÂMARA E NÍSIA FLORESTA - 1938


Em pé, Adauto da Câmara proferindo sua conferência. Academia Militar, 1938.

UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA

Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada.

NOTA PRÉVIA - ADAUTO DA CÂMARA E NÍSIA FLORESTA - 1938.

Há leitores que atravessam um livro como quem percorre uma estrada sem jamais olhar as margens. Passam pelas páginas centrais, detêm-se apenas nos capítulos principais e ignoram justamente aquilo que muitas vezes constitui a alma secreta de uma obra: os prefácios, as notas prévias, as dedicatórias, as orelhas, as advertências ao leitor. Entretanto, para os estudiosos atentos - sobretudo aqueles que se dedicam à pesquisa histórica - esses espaços aparentemente periféricos podem esconder verdadeiras pepitas documentais. Uma simples observação feita num prefácio pode tornar-se o ponto de partida para uma investigação inteira. É exatamente essa sensação que experimentamos ao ler a extraordinária "Nota Prévia" escrita por Adauto da Câmara (14.03.1898-17.10.1952) para o livro História de Nísia Floresta, publicado em 1941. Mais do que uma apresentação, aquele texto é um testemunho emocionado das dificuldades, dos achados, das paixões intelectuais e do espírito arqueológico que envolveram a construção da primeira grande biografia moderna de Nísia Floresta Brasileira Augusta (12.10.1810-24.04.1885).

                                "História de Nísia Floresta", 1941. Exemplar que herdei da minha mãe.

Logo no primeiro parágrafo, Adauto da Câmara toca numa questão central para todos os que, ainda hoje, estudam Nísia Floresta: o peso das lendas, dos equívocos e das repetições acríticas em torno de sua biografia. Sua observação de que "os estudiosos iam repetindo sem maiores escrúpulos" informações errôneas revela uma prática infelizmente comum na historiografia antiga: a reprodução automática de dados sem conferência documental. Durante décadas, Nísia foi envolvida por uma névoa quase mítica. Datas equivocadas, episódios romantizados, calúnias e interpretações fantasiosas passaram de autor em autor como verdades estabelecidas. A frase de Adauto denuncia exatamente esse processo de fossilização do erro histórico. É importante lembrar que, em 1938, quando ele iniciou sua investigação, haviam transcorrido aproximadamente cinquenta e três anos desde a morte de Nísia Floresta, ocorrida em 1885. Ou seja: tratava-se de uma personagem cuja memória já estava parcialmente obscurecida pelo tempo, pela ausência de documentação acessível e pela dispersão de seus escritos. A coragem intelectual de Adauto consistiu justamente em desconfiar da tradição repetida e regressar às fontes primárias, tarefa arduentíssima.

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA (DIONÍSIA GONÇALVES PINTO LISBOA)

No segundo parágrafo, emerge outra dificuldade monumental: encontrar os próprios livros escritos por Nísia Floresta. Hoje, na era digital, muitos estudiosos conseguem acessar obras raríssimas através de bibliotecas virtuais, hemerotecas digitais ou arquivos internacionais digitalizados num simples toque. Ademais, há livros em banda de lata escritos por Nísia e sobre Nísia espalhados em livrarias Brasil afora, acessíveis a quem quiser. Mas, em 1938, a situação era dramaticamente distinta. Algumas obras nisianas simplesmente não existiam no Brasil, enquanto outras sobreviviam em pouquíssimos exemplares dispersos em acervos privados ou instituições públicas. Adauto menciona a Biblioteca Nacional, o Instituto Histórico e o Gabinete Português de Leitura como espaços fundamentais para sua pesquisa. Deve-se imaginar o esforço hercúleo que significava consultar obras frágeis, muitas vezes deterioradas pelo tempo, sem catálogos modernos, sem digitalização, sem ferramentas de busca. E, à medida que iam consumindo a obra nisiana, a impressão que lhes surgia era a de uma inteligência extraordinária injustamente esquecida. O próprio Adauto reconhece "quanto era ainda pouco apreciada, por desconhecida, a sua pujança espiritual". Essa expressão é belíssima porque traduz exatamente o espanto de quem descobre uma autora muito maior do que a tradição oficial permitira enxergar. Cada livro de Nísia parecia desmontar o preconceito de que ela fosse apenas uma curiosidade feminina do século XIX; revelava-se, na verdade, uma intelectual cosmopolita, viajante, educadora, feminista pioneira e observadora aguda das questões sociais de seu tempo.

O terceiro parágrafo talvez seja um dos mais fascinantes da "Nota Prévia", porque nele Adauto da Câmara descreve aquilo que poderíamos chamar de arqueologia documental. Não é exagero afirmar que pesquisar Nísia Floresta naquele período equivalia a escavar ruínas históricas em busca de fragmentos dispersos, por tal razão, tenho devoção santificada a Adauto e Henrique Castriciano (15.03.1874-26.07.1947). E o mais impressionante é perceber o encantamento quase afetivo que ele demonstra diante desse processo. As "canseiras", como diz, eram suportadas com satisfação. Quem pesquisa Nísia Floresta conhece exatamente essa sensação: a alegria indescritível de encontrar uma pequena nota perdida num jornal oitocentista, um anúncio aparentemente banal, uma referência esquecida numa coluna social. Adauto compreendeu, com rara sensibilidade metodológica, que os grandes enigmas históricos às vezes se resolvem nos detalhes mínimos. Por isso sua observação sobre os "Comunicados", os "A Pedidos", os anúncios, os convites de missa, os obituários e as gazetilhas possui enorme importância historiográfica. Ele revela ali uma concepção moderna de pesquisa histórica, baseada não apenas em documentos oficiais, mas nos rastros cotidianos da vida social. Os jornais mencionados - Jornal do Commercio, Diário de Pernambuco, O Mercantil e O Liberal - transformaram-se para ele em minas documentais. Cada pequena referência podia iluminar um episódio obscuro da vida de Nísia. É justamente isso que ainda hoje torna a pesquisa tão apaixonante. E vale ressaltar que mesmo tendo se passado tantos anos, algumas lacunas seguem não explicadas sobre a nossa Nísia. Embora não se compara às lacunas antes de Henrique e Adauto.

A repercussão da conferência pronunciada no Clube Militar demonstra o impacto daquele trabalho pioneiro. Publicada em excertos no Jornal do Commercio e no Diário de Noticias, a investigação despertou imediatamente a atenção dos meios culturais cariocas e potiguares. É significativo perceber que figuras como Henrique Castriciano e José Augusto Bezerra de Medeiros (22.09.1884-18.05.1971) reconheceram ali a importância histórica do empreendimento. A futura publicação de História de Nísia Floresta como Volume V da "Biblioteca de Historia Norte-Riograndense" também revela um projeto cultural profundamente ambicioso: construir uma memória intelectual do Rio Grande do Norte através de suas grandes figuras históricas. José Augusto compreendia que preservar essas biografias era erguer um monumento simbólico à identidade cultural potiguar. Não se tratava apenas de publicar livros; tratava-se de salvar memórias ameaçadas pelo esquecimento.

Nesse contexto, o episódio narrado em torno do livro Itineraire d’un Voyage en Allemagne assume um valor quase novelesco. Em 1925, quarenta anos após a morte de Nísia Floresta, José Augusto Bezerra de Medeiros entra numa livraria da Rua Chile, no Rio de Janeiro, e descobre que, justamente no dia anterior, um raríssimo exemplar da obra havia sido vendido ao major Pedro Gomes, oficial do Exército. A cena é quase cinematográfica: o desapontamento do pesquisador diante da oportunidade perdida e, em seguida, a inesperada generosidade do comprador, que decide presenteá-lo com o volume. O episódio revela algo maior: a percepção, ainda restrita a poucos, do imenso valor histórico daqueles livros. Talvez o major Pedro Gomes tenha compreendido que, nas mãos de José Augusto, a obra serviria melhor à memória nacional do que em uma coleção particular. E foi exatamente o que aconteceu: o livro foi destinado à biblioteca pública de Natal, tornando-se patrimônio coletivo. Mas onde estaria hoje esse exemplar? A qual biblioteca José Augusto se referia? Seria a atual Biblioteca Câmara Cascudo? Ali, porém, o livro não mais se encontra. Estaria no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte? Suponho que sim. Há, entretanto, uma lembrança que reforça essa hipótese. Em 1994, quando eu era bolsista do CNPq e pesquisava para a Base de Educação História e Sociedade, coordenada pelo professor Dr. José Willington Germano, fiz amizade com o Dr. Enélio Petrovich (13.06.1934-06.01.2012), então presidente do IHGRN. Em uma de nossas conversas sobre Nísia Floresta, para meu encantamento, ele pegou de uma chave, abriu a gaveta de um pequeno móvel, quase um aparador, e me mostrou justamente o livro acima citado. Seria esse o mesmo exemplar encontrado por José Augusto tantos anos antes?

Enfim, a gratidão demonstrada por Adauto da Câmara a Henrique Castriciano ocupa um dos trechos mais emocionantes da "Nota Prévia". E com razão. Sem o trabalho silencioso e persistente de Henrique, muito provavelmente teríamos perdido informações preciosíssimas sobre Nísia Floresta. É impressionante perceber que ele conseguiu realizar suas pesquisas numa época ainda mais difícil, no início do século XX, quando muitos contemporâneos ainda mais próximos de Nísia ainda estavam vivos. Henrique teve contato com sobrinhas da escritora residentes no Rio de Janeiro; correspondeu-se com sua filha, Lívia Augusta de Faria Gade (1832-1912), já idosa e residente na França; pesquisou pessoalmente em território europeu; reuniu documentação que ninguém mais possuía. Quando Adauto afirma que Henrique explorou "mananciais que só ele explorou", está reconhecendo algo fundamental: houve fontes orais e documentais que desapareceram para sempre depois daquela geração. Sem Henrique Castriciano, jamais saberíamos certos detalhes íntimos da vida de Nísia contados pela própria filha. Isso se parece com o que aconteceria anos depois - em 1954 - quando os restos mortais de Nísia Floresta foram trasladados para o Brasil e houve uma exposição no Centro Norte-Rio-Grandense no Rio de Janeiro. Àquela ocasião, Marciano Freire (14.5.1863-?) teve um encontro com uma senhora de 103 anos de idade, ex-funcionária do Colégio Augusto, informação esta que me foi contada por Wânia Zaremba (1913-2012) em 1996.

Esse reconhecimento é ainda mais importante porque o livro definitivo que Henrique Castriciano pretendia escrever sobre Nísia Floresta nunca chegou a ser publicado. E isso representa uma das grandes perdas da historiografia potiguar, embora, até onde se sabe, doente, ele doou a Adauto, tudo o que havia reunido até então. O próprio Adauto o define como "o órgão mais autorizado, o estudioso mais bem informado, a última instância neste assunto". Trata-se de um testemunho fortíssimo. Henrique era, naquele momento, a principal autoridade nisiana do Brasil. Seu trabalho funcionou como verdadeira ponte entre o século XIX e os pesquisadores posteriores. Da mesma forma, o agradecimento dirigido a Geonisio Curvelo de Mendonça, da Igreja Positivista do Brasil, suscita uma reflexão dolorosa. Durante muito tempo, a sede da Igreja Positivista enfrentou graves problemas estruturais e patrimoniais. Muitos documentos ali guardados deterioraram-se ou desapareceram. É perfeitamente possível que materiais relacionados a Nísia Floresta, compilados por Geonisio e consultados por Adauto, tenham se perdido irremediavelmente. Isso nos faz compreender ainda mais o valor do trabalho daqueles pioneiros: eles registraram informações que talvez hoje não existam mais.

No último trecho da "Nota Prévia", Adauto da Câmara explica que inseriu excertos da produção nisiana para proporcionar aos leitores uma impressão de seu estilo, imaginação e cultura. Essa decisão foi extremamente importante. Afinal, até então, muita gente falava sobre Nísia Floresta sem jamais tê-la lido efetivamente. Seus textos revelavam uma autora sofisticada, dotada de forte consciência moral, vasta cultura europeia e extraordinária capacidade argumentativa. Os jornais da época não apenas registravam sua atuação; eram também espaços onde circulavam debates sobre sua figura pública, suas ideias pedagógicas e suas intervenções intelectuais. Ler Nísia diretamente era desmontar caricaturas.

Hoje, olhando retrospectivamente, impressiona perceber o contraste entre aquele tempo e o presente. A partir das décadas de 1980 e 1990, com o avanço da informática, da microfilmagem e posteriormente da internet, os materiais sobre Nísia Floresta começaram a tornar-se muito mais acessíveis. Obras raras passaram a ser localizadas com maior facilidade; periódicos antigos puderam ser digitalizados; pesquisadores passaram a dialogar internacionalmente. Foi nesse contexto que, já na década de 80, surgiram estudos fundamentais como os da pesquisadora norte-americana Peggy Sharpe Valadares, que relançou o livro Opúsculo Humanitário, escrito por Nísia Floresta em 1989, durante o I Movimento Pró-Memória em Nísia Floresta. Ela é autora do importante livro Nísia Floresta: Brazilian Feminist Pioneer, e, logo em seguida, os trabalhos decisivos de Constância Lima Duarte, responsável por uma verdadeira renovação dos estudos nisianos no Brasil. Contudo, é preciso reconhecer com justiça: durante décadas, História de Nísia Floresta, de Adauto da Câmara, permaneceu como a principal - e muitas vezes única - grande fonte sistematizada sobre a vida da escritora potiguar. Seu livro funcionou como ponte indispensável para gerações posteriores de pesquisadores.

Por isso, a leitura dessa "Nota Prévia" emociona profundamente os que se dedicam ao estudo de Nísia Floresta. Ela nos mostra que a historiografia também é feita de paixão, obstinação e acaso; de encontros improváveis em livrarias antigas; de cartas enviadas à França; de notícias esquecidas em colunas de jornais; de bibliotecas empoeiradas; de pessoas que compreenderam, antes dos demais, a grandeza de uma mulher extraordinária. Adauto da Câmara não escreveu apenas uma introdução: deixou um testemunho vivo sobre o esforço heroico de salvar Nísia Floresta do esquecimento histórico.

SEGUE, ABAIXO, A "NOTA PRÉVIA", IPSIS LITERIS...

"NOTA PRÉVIA

Em 1938, delegado da Academia Norte-RioGrandense de Letras junto à Federação das Academias de Letras do Brasil, fomos por esta designado para realizar uma conferência sobre uma figura mental da nossa terra. Escolhemos Nísia Floresta para tema desse estudo de vulgarização. Durante meses, frequentamos bibliotecas, arquivos, em busca de algo novo sobre a gloriosa escritora brasileira, nascida no Rio Grande do Norte. Sobre sua vida e atividade intelectual muito se havia escrito, é certo, através de lendas e equívocos, que os estudiosos iam repetindo sem maiores escrúpulos, concorrendo para que fossem perpetuando os disparates de que estava inçada a história desta mulher prodigiosa.

Lutamos com dificuldades sem conta para esclarecer pontos obscuros de sua existência, alguns dos quais continuam como dantes. Procedemos à leitura de quase todas as suas obras, pelo menos das que se encontram em nossas bibliotecas públicas: a Biblioteca Nacional, Instituto Histórico e Gabinete Português de Leitura. Verificamos quanto era ainda pouco apreciada, por desconhecida, a sua pujança espiritual. Mais uma vez podemos dar testemunho da inestimável colaboração dos velhos jornais para todo esforço de investigação do passado. Se não fora o subsídio do JORNAL DO COMMERCIO, do DIÁRIO DE PERNAMBUCO, d’O MERCANTIL, d’O LIBERAL e de outros consultados menos assiduamente, não teríamos podido imprimir a esta biografia o rumo novo da afirmação abonada pelo documento contemporâneo, estampados nos órgãos da imprensa. Nos “Comunicados” e “A Pedidos”, nos anúncios, nos convites de missa, nos recantos mais discretos de uma coluna, no obituario, na gazetilha, surge um filão opulento de informações, em que o pesquisador atilado mergulha e colhe o pormenor insignificante, que é, muitas vezes, a chave de enigmas que pareciam insolúveis.

Após tantas canseiras, a que nos entregávamos satisfeitos, pensando sempre em servir dignamente a nossa terra, pronunciamos a Conferência, no Clube Militar, e desvanecidamente reconhecemos que teve uma honrosa repercussão nos meios culturais do Rio de Janeiro. Publicada, em exertos, no JORNAL DO COMERCIO e no DIARIO DE NOTICIAS, recebemos muitos estímulos para que lhe déssemos maior amplitude, reunindo, em volume, a vasta e então ignorada documentação obtida. Tais votos nos vieram, entre outros, dos prezados confrades da Academia Potiguar, do dr. Henrique Castriciano, grande conhecedor da vida de Nisia Floresta, e do dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, que é um dos valores mais representativos da inteligência e da cultura da nossa querida província. Eis como temos agora o orgulho de colaborar na magistral Biblioteca de Historia Norte-Riograndense, que José Augusto está editando, com um êxito magnífico e digno de todos os encômios. Cada mês, um volume novo sobre homens e cousas potiguares. Nesta paciente e apaixonada tarefa, vai ele ajuntando os materiais para o futuro historiador do Rio Grande do Norte. Aqui trazemos a nossa pedrinha para esse monumento.

José Augusto não é um displicente admirador dos títulos literarios de Nisia. É um devoto militante, que que não perde ocasião de a estudar e de contribuir para divulgar os seus altos merecimentos. O episodio que vamos relatar, atesta os seus serviços à glória da conterrânea insigne. Em 1925, sendo ele governador do Rio Grande do Norte e estando no Rio, acompanhamo-lo em uma de suas habituais visitas às livrarias. Penetrando em uma que a esse tempo, existia na rua Chile, indagou se por ali não apareciam raridades bibliográficas, pois que se interessava pelas obras de Nísia Floresta.

Responderam-lhe que, no dia anterior, havia sido vendido, por 200$, um volume do ITINERAIRE d’um VOYAGE em ALLEMAGNE a um distinto oficial do Exército, o major Pedro Gomes. Tão viva foi a sua expressão de desgosto por lhe ter escapado a oportunidade da aquisição do precioso exemplar, que o livreiro se dispôs a fazer uma comunicação ao bibliófilo afortunado da véspera. Este, que em um gesto que ainda hoje José Augusto recorda com emoção, lhe ofertou o cimelho, que foi parar no lugar que ele lhe destinara: a biblioteca pública de Natal, mantida pelo Instituto Histórico local, onde se encontra, conforme nos informou, há pouco, o dr. Nestor Lima, seu benemérito presidente.

A Henrique Castriciano devemos valiosas informações, que generosamente nos ministrou. Podemos assegurar que o Brasil não esqueceu Nísia Floresta por obra e graça de Henrique, que tão fervorosamente lhe tem cultuado a memoria, procurando tornar conhecidos, por toda a parte, os seus talentos. Aproveitamos o ensejo para lhe reiterar o apelo que tantos outros lhe têm feito, no sentido de publicar o seu livro sobre Nisia Floresta, para o qual reuniu copiosa documentação, colhida em mananciais que só ele explorou. Esteve em contato com pessoas que conheceram Nisia; travou relações com sobrinhas residentes no Rio; correspondeu-se com a filha de Nisia; pesquisou, pessoalmente, na Europa, sobre esta grande vida. Ninguém melhor do que ele para traçar a biografia definitiva de Nisia Floresta: é o órgão mais autorizado, o estudioso mais bem informado, a ultima instancia neste assunto.

Agradecemos cordialmente a gentileza de quantos atenderam a solicitações nossas, ou espontaneamente trouxeram a sua achega a este ensaio, entre os quais os srs. Geonisio Curvelo de Mendonça, da Igreja Positivista do Brasil, e Aurelio Porto, diretor dos “Anais” do Itamarati.

No intuito de proporcionar a quem nunca leu Nisia Floresta uma impressão, embora superficial, de seu estilo, imaginação, cultura e tendências, inserimos alguns excertos de sua variada produção. Todas as traduções encontradas neste livro são nossas.

Rio de Janeiro, 1º de Março de 1941

ADAUTO Miranda Raposo da CÂMARA 

(Da Academia Norte-Rigrandense de Letras. Do I.H. r Geográfico do Rio Grande do Norte. Da Ordem dos Advogados. Professor do GINASIO METROPOLITANO, do Rio de Janeiro). Biblioteca de Historia Norte-Rigrandense - V - História de Nísia Floresta. 1941. IRMÃOS PONGETTI editores. Rio de Janeiro"

 

sábado, 3 de outubro de 2026

NÍSIA FLORESTA SOB A LENTE DE PEGGY SHARPPE VALADARES...

Peggy Sharppe Valadares

Entre os pesquisadores que, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, lançaram novos olhares sobre a vida, a obra e o pensamento de Nísia Floresta Brasileira Augusta, Peggy Sharpe Valadares ocupa um lugar verdadeiramente significativo. Sua contribuição não deve ser compreendida como um ponto de partida absoluto dos estudos nisianos, pois antes dela já existia uma tradição de pesquisadores brasileiros que haviam se dedicado à recuperação da memória da escritora, entre os quais se destacam Henrique Castriciano e Adauto da Câmara. O que torna particularmente importante a atuação de Peggy Sharpe é o fato de ela ter contribuído para que Nísia deixasse de ser percebida apenas como uma personagem de interesse regional ou como uma pioneira isolada da história das mulheres brasileiras e passasse a ser estudada dentro de um campo intelectual mais amplo, envolvendo a literatura comparada, a história das mulheres, a educação feminina, o pensamento social e a cultura latino-americana. A pesquisadora norte-americana ajudou, assim, a estabelecer uma ponte entre aquilo que já vinha sendo preservado por pesquisadores brasileiros e uma nova geração de estudos acadêmicos que, principalmente a partir das décadas de 1980 e 1990, começou a reconsiderar a participação das mulheres na formação intelectual das sociedades modernas.


Acima, da esquerda para a direita: Elizabeth Lowe, UIUC; Peggy Sharpe, FSU; Domicio Coutinho, Brazilian Endowment for the Arts; Ana Maria Machado, escritora; Joyce Cavalcanti, REBRA; Renata Wasserman, Wayne State University; Jacinele Brataas, REBRA. Fonte: PN Fall 2009 Color ONLINE_2.indd


Para compreender a importância desse trabalho, é necessário voltar algumas décadas e observar a situação em que se encontravam os estudos sobre Nísia Floresta. A escritora havia morrido em Rouen, na França, em 24 de abril de 1885, aos 74 anos, depois de uma vida que, para os padrões de seu tempo, havia sido extraordinariamente movimentada. Nascida Dionísia Gonçalves Pinto, em 12 de outubro de 1810, no Sítio Floresta, em Papary, no Rio Grande do Norte, Nísia atravessou o Brasil imperial e viveu experiências em diferentes regiões do país e da Europa. Publicou livros, escreveu para jornais, dedicou-se à educação feminina, dirigiu uma escola para meninas no Rio de Janeiro, produziu literatura, ensaios, relatos de viagem e reflexões sobre a condição da mulher, a educação, a escravidão, os indígenas, a moral, a religião, a civilização e o próprio Brasil. Sua trajetória intelectual também a levou a estabelecer contato com importantes ambientes culturais europeus e a aproximar-se de personalidades como Auguste Comte, nascido em Montpellier em 19 de janeiro de 1798 e morto em Paris em 5 de setembro de 1857. A relação entre Nísia e Comte é conhecida e documentada, embora a influência do filósofo francês sobre o pensamento nisiano não deva ser transformada numa explicação totalizante de sua obra. Nísia possuía uma formação intelectual anterior e dialogava com diferentes correntes de pensamento, entre elas ideias oriundas do Iluminismo, do liberalismo, do romantismo e das discussões pedagógicas de seu século.

Quando Peggy Sharpe se aproximou da produção de Nísia, portanto, encontrou uma autora cuja importância histórica já havia sido percebida por alguns estudiosos, mas cuja obra permanecia em grande parte inacessível. Muitos dos livros publicados por Nísia durante o século XIX haviam se tornado raros, encontravam-se dispersos em bibliotecas e coleções particulares ou não haviam recebido novas edições brasileiras. Essa situação explica por que a memória de Nísia sobrevivera durante tanto tempo de maneira desigual: havia informações biográficas, homenagens, referências em jornais e estudos pioneiros, mas o acesso direto aos seus textos era extremamente limitado. No Rio Grande do Norte, essa dificuldade pode ser percebida de maneira concreta. Em 1994, durante minhas próprias pesquisas, tive a oportunidade de conhecer, no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, um exemplar original de obra de Nísia Floresta, mostrado pelo dr. Enélio Petrovich, então presidente da instituição. A experiência é significativa porque demonstra como, ainda na década de 1990, o pesquisador interessado em Nísia dependia muitas vezes da localização física de exemplares raros e de acervos institucionais para ter acesso direto à produção da escritora.

Antes de Peggy Sharpe, entretanto, houve homens e mulheres que trabalharam para que essa memória não desaparecesse. Entre eles, Henrique Castriciano de Souza, nascido em Macaíba em 15 de março de 1874 e falecido em Natal em 26 de julho de 1947, ocupa lugar de grande importância. Escritor, jornalista, poeta, educador e intelectual de atuação marcante no Rio Grande do Norte, Henrique Castriciano dedicou atenção especial à memória de Nísia Floresta e reuniu informações e documentos que posteriormente seriam utilizados por outros pesquisadores. Seu trabalho deve ser visto dentro de uma época em que os mecanismos de preservação documental eram muito mais precários do que os atuais e em que grande parte da produção intelectual do século XIX permanecia dispersa. A importância de Castriciano não está apenas naquilo que escreveu, mas também no fato de ter percebido que a memória de Nísia precisava ser preservada antes que desaparecessem as fontes capazes de sustentá-la.

Esse trabalho seria posteriormente ampliado por Adauto da Câmara, autor de História de Nísia Floresta, publicado em 1941. A obra tornou-se durante décadas uma das principais referências para quem desejasse conhecer a vida da escritora. Adauto não partiu do vazio. Ao contrário, beneficiou-se do trabalho realizado anteriormente por Henrique Castriciano e incorporou informações que ajudaram a construir uma narrativa biográfica de maior amplitude. Por isso, é importante compreender a historiografia de Nísia como uma cadeia de transmissão e recuperação documental, e não como uma sucessão em que cada pesquisador posterior simplesmente substitui o anterior. Castriciano teve importância na coleta e preservação; Adauto da Câmara desempenhou papel fundamental na sistematização biográfica; pesquisadores posteriores voltaram aos documentos, localizaram novas fontes, fizeram novas perguntas e, em alguns casos, corrigiram interpretações anteriores. A história da recuperação de Nísia é, portanto, também a história de diferentes gerações de pesquisadores trabalhando sobre um patrimônio documental que não chegou inteiro até o presente.

Peggy Sharpe Valadares

Foi nesse terreno que Peggy Sharpe encontrou Nísia Floresta. Pesquisadora norte-americana ligada aos estudos de literatura e cultura luso-brasileira, Sharpe dedicou parte significativa de sua trajetória ao estudo e à divulgação de escritoras brasileiras. A própria edição de 1989 de Opúsculo humanitário deixa evidente que seu interesse não estava limitado a Nísia. Peggy Sharpe vinha pesquisando e divulgando escritoras brasileiras de diferentes períodos, contribuindo para ampliar, entre estudantes e pesquisadores norte-americanos, o conhecimento de uma literatura feminina brasileira que permanecia pouco representada nos programas acadêmicos. Nísia, nesse sentido, tornou-se uma das figuras mais importantes desse trabalho de recuperação, justamente porque sua obra reunia literatura, educação, reflexão social e uma discussão pioneira sobre a posição da mulher.

A publicação de Opúsculo humanitário em 1989 constituiu um dos momentos mais importantes desse processo. O livro havia sido originalmente publicado em 1853 e retornou ao público brasileiro 136 anos depois, em edição atualizada pela Cortez, em parceria com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, trazendo estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares e posfácio de Constância Lima Duarte. A Biblioteca Nacional registra a edição de 1989 como uma publicação de 164 páginas, pertencente à série Biblioteca da Educação - Mulher Tempo. A importância da iniciativa não estava simplesmente na reimpressão de um livro antigo, mas na possibilidade de oferecer ao leitor contemporâneo instrumentos para compreender o texto de Nísia dentro do contexto histórico e intelectual em que havia sido produzido. A edição permitiu que uma obra fundamental sobre educação feminina voltasse a circular num momento em que os estudos sobre mulheres estavam adquirindo nova dimensão acadêmica no Brasil e no exterior.

O significado dessa publicação torna-se ainda maior quando se considera o próprio conteúdo de Opúsculo humanitário. Nísia não escreveu apenas uma defesa genérica da educação das mulheres. Ela analisou historicamente a condição feminina, comparou sociedades, discutiu o papel da educação na formação moral e intelectual e criticou as limitações impostas às brasileiras de seu tempo. Os primeiros ensaios percorrem referências históricas que vão da Antiguidade a diferentes sociedades europeias e norte-americanas, antes de chegarem à situação da mulher brasileira no século XIX. Nísia utilizou a história como argumento para demonstrar que a condição feminina não era resultado de uma incapacidade natural, mas de processos culturais, sociais e educacionais. A educação, portanto, aparecia em seu pensamento não como simples ornamento para as mulheres das famílias abastadas, mas como elemento fundamental para o desenvolvimento individual e para o próprio progresso da sociedade. Essa concepção ajuda a explicar por que Peggy Sharpe considerou o Opúsculo um texto de importância tão significativa dentro da história intelectual brasileira.

É importante lembrar que Nísia já havia iniciado essa discussão duas décadas antes. Em 1832, publicou Direitos das mulheres e injustiça dos homens, obra que dialogava diretamente com a tradição inaugurada na Europa por Mary Wollstonecraft, autora de A Vindication of the Rights of Woman, publicado em Londres em 1792. Wollstonecraft havia nascido em 1759 e morreu em 1797, e seu livro tornou-se um dos textos fundamentais da tradição intelectual que reivindicava educação e autonomia para as mulheres. Nísia não realizou uma tradução literal da obra inglesa; produziu uma tradução livre e adaptação, apropriando-se de ideias que passaram por seu próprio entendimento e pelo contexto brasileiro. Essa diferença é importante porque demonstra que Nísia não deve ser vista simplesmente como uma repetidora de ideias europeias. Ela tomou referências estrangeiras e as reelaborou para discutir uma realidade social específica, a do Brasil imperial.

A experiência educacional de Nísia também confere uma dimensão prática ao seu pensamento. Em 1838, fundou no Rio de Janeiro o Colégio Augusto, instituição destinada à educação de meninas. O estabelecimento ficou conhecido por oferecer um programa de estudos mais amplo do que aquele tradicionalmente reservado às mulheres. Numa sociedade em que a educação feminina era frequentemente reduzida às chamadas prendas domésticas, a iniciativa representava uma mudança significativa. As críticas que Nísia recebeu demonstram, inclusive, que sua atuação não passou despercebida. A imprensa do período registrou ataques à diretora e àquilo que seus opositores consideravam uma excessiva ampliação da educação das meninas. A expressão “mulher metida a homem”, posteriormente recuperada nos estudos de Peggy Sharpe, sintetiza o tipo de reação que uma mulher intelectual podia provocar ao ocupar um espaço público tradicionalmente reservado aos homens. Nísia enfrentou esse ambiente não apenas como escritora, mas também como educadora responsável por uma instituição concreta.

A importância de Peggy Sharpe está justamente em ter compreendido essa multiplicidade. Nísia não era apenas “a primeira feminista brasileira”, fórmula que, embora tenha sido utilizada durante décadas e possua fundamento em determinados aspectos, é insuficiente para definir uma personalidade intelectual tão complexa. Nísia foi educadora, escritora, tradutora, cronista, autora de literatura de viagem, pensadora social e observadora crítica da sociedade brasileira. Sua produção também revela preocupações com a escravidão, a situação dos indígenas, a educação das crianças e a própria formação moral da sociedade. O pensamento nisiano precisa, portanto, ser estudado em suas várias dimensões e dentro das contradições do século XIX, sem transformá-lo nem numa antecipação perfeita das ideias do século XXI nem numa simples reprodução das correntes europeias.

Essa perspectiva é particularmente importante quando se analisa a relação de Nísia com Auguste Comte. A amizade e a aproximação intelectual entre ambos são fatos importantes da biografia da escritora, mas não autorizam a redução de todo o pensamento nisiano ao positivismo. Nísia já havia publicado Direitos das mulheres e injustiça dos homens em 1832 e fundado o Colégio Augusto em 1838, portanto antes de seu contato mais conhecido com Comte em Paris. Sua formação intelectual também revela a presença de outras matrizes, entre elas a tradição ilustrada, o pensamento pedagógico, o romantismo e as discussões sobre civilização. A leitura de Peggy Sharpe é importante justamente porque procura situar Nísia dentro de um universo intelectual mais amplo, no qual diferentes ideias eram recebidas, adaptadas e reinterpretadas.

A recuperação de N´sia também exigia enfrentar o problema da memória negativa que se construiu em torno de sua figura. Sua independência pessoal, seu casamento muito precoce, sua separação do primeiro marido, sua vida intelectual, suas viagens e sua exposição pública provocaram críticas ainda durante sua existência. No século XIX, uma mulher que publicava em jornais, dirigia uma escola, escrevia sobre política e educação e circulava em ambientes intelectuais podia facilmente ser considerada transgressora. A própria trajetória de Nísia mostra como a sociedade brasileira oitocentista estabelecia limites rigorosos para o comportamento feminino. Sua decisão de casar-se por espontaneidade, aos 13 anos, e romper com esse casamento em menos de um ano,, adquiriu posteriormente uma dimensão escandalosa dentro de determinadas memórias familiares e sociais, embora a historiografia contemporânea tenha condições de analisar o episódio de maneira muito mais cuidadosa do que fizeram seus críticos.

Nesse contexto aparece também Isabel Gondim, nascida em Papary em 5 de julho de 1839 e falecida em Natal em 10 de junho de 1933. Professora, escritora e historiadora, Isabel pertenceu a uma geração posterior à de Nísia e jamais conviveu pessoalmente com ela, pois nasceu 29 anos depois do nascimento de Nísia. Foi a primeira mulher a integrar o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte como sócia efetiva, em 1928, e desenvolveu uma produção própria dedicada à educação e à história. Justamente por possuir essa autoridade intelectual, a carta que escreveu em 1884 sobre Nísia Floresta adquiriu posteriormente peso considerável na formação da memória da escritora.

II MOVIMENTO PRÓ-MEMÓRIA NÍSIA FLORESTA: IAPERI SOARES DE ARAÚJO, PRIMEIRO À DIREITA - À ESQUERDA VEMOS: GRAÇA LUCENA DE MEDEIROS, ZÉLIA MARIZ, ? E PEGGY SHARPE VALADARES. CONJUNTO HISTÓRICO DE NÍSIA FLORESTA, 1989.

A carta de Isabel Gondim, entretanto, precisa ser tratada pelo historiador com o devido cuidado. Ela é uma fonte histórica importante, mas não deve ser confundida automaticamente com uma descrição objetiva da vida de Nísia. O documento revela, antes de tudo, a maneira como Isabel Gondim interpretava sua conterrânea e como determinados valores morais do século XIX influenciavam a avaliação da conduta de uma mulher. As afirmações depreciativas existentes na carta precisam ser confrontadas com outros documentos, com os próprios escritos de Nísia, com jornais, correspondências e testemunhos disponíveis. O problema historiográfico não está em esconder a existência da carta, mas em compreender o lugar que ela ocupa na construção posterior da memória nisiana. A carta de Isabel é considerada por todos os críticos como fruto de ferenha inveja.

É justamente nesse ponto que a recuperação crítica promovida por pesquisadores como Peggy Sharpe adquire especial relevância. Em vez de tomar a biografia de Nísia apenas a partir das opiniões de seus contemporâneos ou de seus críticos posteriores, o estudo moderno procura devolver centralidade aos próprios textos da autora. Essa mudança metodológica é fundamental. Quando o pesquisador lê Direitos das mulheres e injustiça dos homens, Opúsculo humanitário, A lágrima de um Caeté, Itinerário de uma viagem à Alemanha, Três anos na Itália seguidos de uma viagem à Grécia e outras obras, encontra uma mulher muito mais complexa do que aquela produzida pelas anedotas biográficas ou pelas acusações morais. É a própria Nísia que passa a falar, e não apenas aqueles que escreveram sobre ela.

A dimensão internacional da obra também merece atenção. Nísia não foi uma escritora confinada ao Brasil. Publicou em francês e teve parte de sua produção editada na Europa, onde escreveu sobre suas experiências de viagem e sobre o Brasil. Itinéraire d’un voyage en Allemagne foi publicado em Paris em 1857; Trois ans en Italie suivis d’un voyage en Grèce, par une Brésilienne apareceu em Paris na década de 1860; Le Brésil, par Mme Brasileira Augusta foi publicado em 1871; e Fragments d’un ouvrage inédit: notes biographiques apareceu em 1878. Portanto, quando Peggy Sharpe promoveu a recuperação de Nísia para o público acadêmico internacional no final do século XX, estava, em certo sentido, reabrindo um diálogo que a própria escritora já havia estabelecido no século XIX.

O problema é que a projeção internacional de Nísia em vida não garantiu a permanência de sua memória. Com o passar das décadas, suas obras deixaram de circular amplamente no Brasil e muitos de seus textos tornaram-se raridades bibliográficas. Essa circunstância ajuda a explicar o caráter quase paradoxal da trajetória nisiana: uma mulher que havia publicado em Paris e dialogado com intelectuais europeus acabou, posteriormente, sendo conhecida de maneira muito mais restrita em seu próprio país. A recuperação editorial do final do século XX começou a modificar essa situação. A publicação de Opúsculo humanitário em 1989 foi particularmente importante porque permitiu que a obra retornasse ao debate educacional e feminista brasileiro. Estudos posteriores confirmam que essa edição representou um marco na retomada dos textos de Nísia e que novas edições de outras obras viriam nos anos seguintes.

O ano de 1989 possui ainda uma importância especial no Rio Grande do Norte por causa do I Movimento Pró-Memória Nísia Floresta, realizado no município que hoje leva o nome da escritora. A participação de Peggy Sharpe nesse movimento estabeleceu uma ligação particularmente significativa entre a pesquisadora estrangeira e a terra natal de Nísia. Naquele momento, a recuperação da memória nisiana mobilizou intelectuais, escritores, professores e agentes culturais do Estado. Entre os nomes relacionados àquele movimento estavam Iaperi Araújo, Maria das Graças Lucena de Medeiros e Zélia Mariz, entre outros. O evento contou também com o apoio da administração municipal, então sob a gestão do prefeito Almir da Silva Leite, por meio do professor Jorge Januário de Carvalho, cuja participação na defesa da memória de Nísia foi importante naquele processo e em diverso outros. Mais do que um acontecimento isolado, aquele movimento fazia parte de uma tentativa de devolver à escritora um lugar mais visível na memória cultural do Rio Grande do Norte.

É nesse mesmo ambiente de renovação dos estudos que aparece com força o trabalho de Constância Lima Duarte. Sua trajetória seria decisiva para a consolidação acadêmica dos estudos nisianos, sobretudo a partir da década de 1990. A aproximação entre Peggy Sharpe e Constância é particularmente significativa porque ambas contribuíram, por caminhos diferentes, para a recuperação da produção intelectual de Nísia. A edição de Opúsculo humanitário de 1989 já reunia o estudo introdutório e as notas de Peggy Sharpe com um posfácio de Constância Lima Duarte, demonstrando que naquele momento começava a se formar uma rede de pesquisadores interessada em devolver à escritora seus próprios textos e em interpretá-los à luz de novas perspectivas.

A partir de então, outras obras de Nísia começaram a receber novas edições, estudos críticos e traduções. Direitos das mulheres e injustiça dos homens voltou a circular em edição crítica; Itinerário de uma viagem à Alemanha ganhou edição brasileira com tradução e estudo; Três anos na Itália, seguidos de uma viagem à Grécia foi publicado pela EDUFRN; e outras obras que durante muito tempo permaneceram pouco acessíveis passaram a integrar o repertório de pesquisadores e estudantes. Essa retomada editorial é importante porque modifica profundamente a relação entre o pesquisador e a fonte. Em vez de depender exclusivamente de biografias ou de citações fragmentárias, o leitor passa a ter condições de entrar em contato diretamente com a escrita de Nísia e acompanhar a evolução de seu pensamento.

Nesse processo, a contribuição de Peggy Sharpe não deve ser superestimada a ponto de apagar os pesquisadores brasileiros anteriores, mas também não deve ser diminuída. Seu mérito está justamente em ter percebido o potencial de uma escritora que permanecia praticamente desconhecida fora de determinados círculos especializados e em ter trabalhado para colocá-la novamente em circulação. O fato de uma pesquisadora norte-americana dedicar-se a uma autora brasileira do século XIX é significativo porque revela que a questão ultrapassava a memória regional. Nísia poderia ser lida dentro da história internacional das mulheres, da literatura brasileira, dos estudos latino-americanos e da história da educação.

Essa mudança de perspectiva também ajudou a retirar Nísia de uma espécie de folclorização biográfica. Durante muito tempo, sua figura foi apresentada sobretudo por epis´dios considerados curiosos ou escandalosos: o casamento precoce, a separação, as viagens, o contato com Auguste Comte e as críticas que recebeu. Embora esses elementos façam parte de sua trajetória e não devam ser ocultados, concentrar toda a narrativa neles significa transformar uma intelectual em personagem. A leitura crítica de seus textos permite outro caminho: compreender as razões pelas quais ela escreveu, o contexto em que suas ideias surgiram, os autores com os quais dialogou, os problemas que enfrentou e as limitações próprias de uma intelectual pertencente às elites letradas do Brasil oitocentista.

Também é necessário evitar o anacronismo. Nísia Floresta não pode ser simplesmente transformada numa pensadora do século XXI transportada para o século XIX. Ela escreveu dentro dos valores, das linguagens e das categorias disponíveis em sua época. Seu pensamento sobre as mulheres, por exemplo, estava fortemente relacionado à educação, à moral, à maternidade, à família e à ideia de progresso da sociedade. Sua crítica à escravidão e sua defesa da dignidade humana devemser consideradas dentro de sua trajetória e de seu tempo, assim como suas limitações. O interesse histórico está precisamente em compreender o que ela conseguiu formular dentro das possibilidades de seu período e como algumas de suas ideias ultrapassaram as expectativas sociais existentes para uma mulher brasileira nascida em 1810.

Quando se observa a trajetória de Nísia a partir dessa perspectiva, sua importância torna-se ainda mais evidente. Ela nasceu no Brasil colonial apenas nove anos antes da Independência, viveu durante o Primeiro Reinado, o período regencial e praticamente todo o Segundo Reinado, e morreu três anos antes da Abolição da escravidão. Seu primeiro livro importante sobre os direitos das mulheres apareceu em 1832, quando o Brasil ainda estava sob o impacto da abdicação de D. Pedro I e vivia as turbulências da Regência. Seu Colégio Augusto surgiu em 1838, durante a Regência, e seu Opúsculo humanitário foi publicado em 1853, durante o reinado de D. Pedro II. Sua experiência europeia levou-a a observar diretamente sociedades que ela comparava constantemente com o Brasil. Nísia, portanto, não foi uma observadora distante do século XIX: ela esteve profundamente inserida nas grandes transformações intelectuais, sociais e culturais daquele período.

É exatamente essa dimensão que Peggy Sharpe ajudou a revelar para novas gerações de leitores. Ao recuperar Opúsculo humanitário, ao estudá-lo e ao situá-lo dentro da história da educação feminina, Sharpe contribuiu para que Nísia fosse novamente lida como uma intelectual e não apenas como uma personagem biográfica. A obra passou a interessar a pesquisadores de literatura, educação, história das mulheres e pensamento brasileiro. A recuperação editorial também permitiu que novas pesquisas surgissem, que outros textos fossem procurados e que pesquisadores brasileiros, entre eles Constância Lima Duarte, ampliassem o campo dos estudos nisianos.

Por isso, quando se fala na contribuição de Peggy Sharpe Valadares, talvez seja mais correto falar em uma retomada do diálogo internacional do que numa simples “descoberta” de Nísia Floresta. A escritora já havia estabelecido esse diálogo no século XIX, quando publicou em Paris, escreveu em francês, viajou pela Europa e apresentou aos leitores estrangeiros suas observações sobre o Brasil. O que aconteceu no final do século XX foi uma espécie de reabertura desse diálogo depois de décadas de circulação limitada de seus livros. Peggy Sharpe participou decisivamente desse processo, ao lado de outros pesquisadores que, em diferentes momentos, contribuíram para reconstruir a trajetória intelectual da escritora.

A história da recuperação de Nísia Floresta, portanto, não pertence a uma única pessoa. Henrique Castriciano preservou e valorizou uma memória que poderia ter desaparecido; Adauto da Câmara organizou uma das primeiras grandes sínteses biográficas; pesquisadores posteriores voltaram às fontes e questionaram interpretações antigas; Peggy Sharpe devolveu parte importante da obra ao circuito editorial e acadêmico; Constância Lima Duarte aprofundou a pesquisa, organizou novas edições e contribuiu decisivamente para a consolidação dos estudos nisianos. Outros pesquisadores, brasileiros e estrangeiros, continuaram esse trabalho e ainda continuam. A própria pesquisa histórica sobre Nísia permanece aberta, pois novos documentos, exemplares, cartas, registros e testemunhos podem modificar detalhes de uma trajetória que, apesar de bastante estudada atualmente, ainda possui zonas pouco conhecidas.

Há, por fim, uma circunstância que confere particular significado a todo esse processo. Nísia Floresta nasceu em Papary, numa época em que a localidade estava muito distante dos grandes centros intelectuais do Império, mas terminou sua vida em Rouen, na França, depois de ter construído uma trajetória intelectual que ultrapassou as fronteiras brasileiras. Durante décadas, sua memória voltou a ser sobretudo regional, enquanto seus livros se tornavam cada vez mais raros. O trabalho de pesquisadores como Henrique Castriciano, Adauto da Câmara, Peggy Sharpe Valadares e Constância Lima Duarte permitiu que essa trajetória fosse novamente reconstruída e colocada diante de novos leitores. É nesse sentido que Peggy Sharpe ocupa lugar especial na história dos estudos nisianos: ela não criou a importância de Nísia Floresta, não foi a primeira a pesquisá-la e tampouco trabalhou isoladamente, mas contribuiu decisivamente para que a obra de uma intelectual brasileira do século XIX voltasse a ultrapassar as fronteiras que o esquecimento editorial e historiográfico havia imposto.

Hoje, quando se lê Nísia Floresta a partir de suas próprias obras, torna-se possível compreender melhor a dimensão de uma mulher que começou a escrever ainda muito jovem, enfrentou as limitações impostas às mulheres de seu tempo, dedicou-se à educação feminina, publicou em jornais e livros, percorreu diferentes países, escreveu sobre a sociedade brasileira e estabeleceu relações intelectuais com homens e mulheres de seu tempo. A recuperação dessa obra não é apenas um cap´tulo da história literária brasileira. É também parte da história da educação, da história das mulheres, da história intelectual e da própria maneira como o Brasil passou a olhar para suas escritoras. Nesse percurso, Peggy Sharpe Valadares teve um papel que merece ser reconhecido com a devida proporção histórica: o de uma pesquisadora que, ao estudar uma autora brasileira pouco conhecida fora de círculos especializados, contribuiu para devolver a Nísia Floresta uma dimensão internacional que, em vida, ela própria havia conquistado.

Referências

Obras e estudos diretamente relacionados a Nísia Floresta e Peggy Sharpe-Valadares

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Tradução livre e adaptação de A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft. Recife: Typographia Fidedigna, 1832.

FLORESTA, Nísia. Opúsculo humanitário. Edição atualizada, com estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares; posfácio de Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez; Brasília: INEP, 1989. A edição é confirmada pelo catálogo da Biblioteca Nacional.

SHARPE-VALADARES, Peggy. Nísia Floresta: Brazilian Feminist Pioneer. Washington: University Press of America, 1994.

SHARPE-VALADARES, Peggy. Opúsculo humanitário. Estudo introdutório e notas. São Paulo: Cortez; Brasília: INEP, 1989.

SHARPE-VALADARES, Peggy. A Woman's Thoughts on Brazil. Tradução, organização e introdução. Austin: University of Texas Press, 1997.

SHARPE-VALADARES, Peggy. “Nísia Floresta e o feminismo no Brasil oitocentista”. In: DUARTE, Constância Lima (org.). Nísia Floresta: vida e obra. Natal: EDUFRN, 1995.

SHARPE-VALADARES, Peggy. “Travel Writing and Female Education in Nineteenth-Century Brazil: The Thought of Nísia Floresta”. Luso-Brazilian Review, Madison, v. 31, n. 2, p. 45-67, 1994.

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: EDUFRN, 1995.

CÂMARA, Adauto da. História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1941.

PORTUGUESE Newsletter: PN. [S. l.]: AATSP, Fall 2009. Disponível em:https://cdn.ymaws.com/www.aatsp.org/resource/resmgr/pn/PN_Fall2009web.pdf. Acesso em: 12. mai. 2026.