ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 28 de julho de 2026

"CONSPIRAM OS AGOSTOS CONTRA MIM" - NÍSIA FLORESTA E O MÊS DAS TRÍPLICES PERDAS...


Há meses que atravessam o calendário quase despercebidos. Outros, porém, parecem adquirir vida própria, como se carregassem consigo um destino inevitável. Para Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-188), agosto deixou de ser apenas o oitavo mês do ano para converter-se em símbolo da dor, da memória e das perdas irreparáveis. Não por acaso, em uma de suas mais tocantes confissões, escreveu:

"Conspiram os agostos contra mim."

A frase, aparentemente simples, concentra uma profunda experiência existencial. Mas, diferente da conotação folclórica emprestada a agosto, para Nísia não se trata de superstição, mas da dolorosa constatação íntima de que as grandes tragédias familiares pareciam retornar sempre sob o mesmo signo do calendário. Entre essas recordações dolorosas estava aquilo que ela própria chamava de tríplice perda: a morte do pai, do marido e da mãe, três acontecimentos que marcaram decisivamente sua trajet´ria pessoal e intelectual.

A afirmação ganha pleno sentido quando se recompõe sua trajetória familiar. Em 17 de agosto de 1828, Nísia perdeu o pai Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, assassinado em Pernambuco, vítima das perseguições e rivalidades políticas que marcaram aquele conturbado período da história brasileira. A violência de sua morte deixou profundas cicatrizes na jovem escritora que jamais esqueceria a figura paterna, tão decisiva em sua formação intelectual e moral. A presença de seu pai durante sua infância foram fundamentais para despertar nela o amor aos livros. Ele, homem culto, artista e advogado, debruçou-se sobre sua formaçoa intelectual com desvelo.

Mal se recuperava desse vazio - cinco anos depois, - nova tragédia se descortinaria diante dela. Em 29 de agosto de 1833, faleceu, em Porto Alegre, Manuel Augusto de Faria Rocha, seu esposo, deixando-a viúva aos vinte e dois anos de idade e responsável pela criação de dois filhos ainda pequenos. A perda precoce impôs-lhe responsabilidades que moldariam sua personalidade independente e fortaleceriam sua determinação em buscar, por meio da educação e das letras, um caminho próprio numa sociiedade que reservava às mulheres espaço extremamente limitado.

Como se essas duas provações não bastassem - e novamente cinco anos depois -, no dia 25 de agosto de 1855, sua mãe, Antônia Clara Freire do Revoredo, veio a falecer igualmente no fatídico mês, numa trídua conspiração. Essa terceira perda completaria o doloroso ciclo familiar que a própria Nísia evocaria décadas mais tarde ao afirmar que os agostos pareciam conspirar contra sua felicidade. Não era, portanto, um mês qualquer: transformara-se numa dolorosa geografia da memória, na qual cada retorno do calendário reabria lembranças que jamais cicatrizaram completamente.

É precisamente por isso que sua célebre frase deve ser compreendida muito além do sentido figurado. Ao escrever que "conspiram os agostos contra mim", Nísia atribuía ao tempo uma dimensão quase humana. O mês deixava de ser mera convenção cronológica para converter-se em personagem de sua biografia, como se a repetição das tragédias lhe tivesse conferido vontade própria. Era uma maneira profundamente literária de traduzir aquilo que tantas pessoas experimentam diante das datas que assinalam perdas irreparáveis: a sensação de que o calendário também guarda memória. Talvez resida aí um dos aspectos mais humanos de sua obra. A educadora, a filósofa, a pioneira do feminismo brasileiro e a intelectual respeitada na Europa jamais deixou de ser filha, esposa e mãe profundamente marcada pelas ausências. A firme defensora da emancipação feminina convivia, em silêncio, com recordações que nenhum triunfo intelectual seria capaz de apagar.

É curioso perceber que justamente o mês consagrado, no Brasil, às lendas e às tradições populares tenha adquirido, para Nísia Floresta, um significado inteiramente diverso. Enquanto o imaginário nacional povoa agosto de narrativas folcl´ricas, a escritora fez dele um território de lembranças pessoais e dentro de uma realidade que nunca deixou de doer seu coração. Seus fantasmas não habitavam matas, rios ou serras; habitavam a memória. Eram as imagens do pai assassinado, do jovem companheiro morto prematuramente e da mãe cuja ausência completou a tríplice dor familiar.

Talvez por isso sua frase continue a sensibilizar leitores mais de um século depois. Ela nos recorda que o calendário não é apenas uma sucessão de dias. Cada pessoa carrega consigo meses que significam alegria, esperança ou renascimento, mas também existem meses que retornam revestidos de saudade. Para Nísia Floresta, agosto nunca foi apenas agosto. Foi o mês em que a memória insistia em abrir antigas feridas e em recordar que, às vezes, o tempo não apaga a dor; apenas lhe ensina novas maneiras de sobreviver a ela...

segunda-feira, 27 de julho de 2026

AGOSTO FOLCLORICAMENTE CHEGANDO...

Luís da Câmara Cascudo (imagem colorizada por IA)

Todos os anos, quando agosto se aproxima, volto a refletir sobre um tema que sempre me preocupa e deveria ocupar lugar de honra na vida cultural e educacional do Brasil: o Folclore. Não apenas porque o calendário assim determina, mas porque um povo que esquece suas raízes perde sua identidade. O mês do Folclore precisa ser mais do que uma data comemorativa. Deve ser um período de reencontro com a nossa identidade. É tempo de revisitar as lendas que encantaram gerações, as estórias transmitidas ao pé da rede, os provérbios, as cantigas, os brinquedos populares, os folguedos, as danças, os costumes, a culinária, os modos de falar, de celebrar a vida. Afinal, folclore não é uma coleção de curiosidades guardadas em livros; é a própria alma de um povo em movimento.

As escolas, naturalmente, já desenvolvem atividades relacionadas ao tema. Contudo, muitas ainda precisam ampliar o espaço dedicado àquilo que verdadeiramente nos pertence. Tenho visto o Halloween roubando a cena até mesmo em - pasmem - escolas. É preciso que os holofotes iluminem, antes de tudo, as manifestações culturais brasileiras, especialmente aquelas que nasceram do povo e continuam vivas nas comunidades, muitas vezes sustentadas apenas pela resistência de seus mestres, brincantes e guardiões da tradição. E haja resistência, pois alguns são explorados ou vistos com indiferença. Sou testemunha. Da mesma forma, as instituições públicas ligadas à cultura - fundações, secretarias, associações e demais organismos municipais e estaduais - carregam uma responsabilidade incomparavelmente superior. Eu diria, sem exagero, um dever moral. São elas que devem fomentar, incentivar, proteger e divulgar as manifestações culturais populares. Esses órgãos existem para funcionar como verdadeiros faróis da brasilidade, orientando políticas públicas que fortaleçam aquilo que somos.

Quando uma instituição dessa natureza passa a dedicar maior atenção ao que vem de fora, relegando a segundo plano os artistas populares, os mestres da cultura, os folguedos, os saberes tradicionais e as expressões da própria terra, acaba prestando um desserviço ao país e, sobretudo, à sua própria missão institucional, oque, para mim, é uma espécie de crime. Valorizar a cultura brasileira não significa fechar as portas para o mundo; significa, antes de tudo, abrir as portas da nossa própria casa para que todos conheçam.

Não se trata de defender qualquer espécie de bairrismo ou isolamento cultural. Muito pelo contrário. Quanto mais uma criança, um jovem ou um adulto conhece outras culturas, outros povos e outras tradições, maior se torna seu horizonte intelectual. O conhecimento universal enriquece. Entretanto, há uma ordem natural nessa construção. Antes de admirar a árvore do vizinho, é preciso conhecer as raízes da própria árvore. Especialmente nos anos iniciais da educação, a criança deve ser conduzida ao conhecimento daquilo que constitui sua identidade cultural. Deve descobrir as lendas de sua região, as festas populares de seu município, os brinquedos de seus avós, as cantigas que embalaram gerações, os causos contados pelos mais velhos, os personagens do imaginário brasileiro. Somente quando se reconhece pertencente à própria cultura é que poderá dialogar, de forma madura e respeitosa, com as culturas do mundo.

E, ao falar de Folclore, torna-se impossível não reverenciar o inesquecível mestre Luís da Câmara Cascudo, um dos maiores estudiosos da cultura popular brasileira. Com uma dedicação incansável, Cascudo percorreu caminhos, ouviu o povo, registrou costumes, pesquisou crenças, documentou tradições e eternizou um patrimônio que, sem seu trabalho, talvez se perdesse na poeira do tempo. Mais do que um pesquisador, foi um guardião da memória nacional. Seu legado continua nos ensinando que o Brasil profundo merece ser conhecido, respeitado e celebrado. Como ele bem dizia "O melhor do Brasil é o Brasileiro".

Que agosto não seja apenas um mês de apresentações escolares ou de atividades pontuais realizadas para cumprir o calendário. Que seja, acima de tudo, um tempo de verdadeiro compromisso com a cultura popular brasileira. Que as escolas promovam feiras culturais, oficinas, concursos literários, rodas de conversa e vivências com as tradições populares. Que as universidades, fundações, secretarias e demais instituições culturais organizem cursos, seminários, palestras e encontros com folcloristas, pesquisadores, mestres da cultura popular, brincantes e integrantes de grupos folcl´ricos, permitindo que o conhecimento acadêmico dialogue com a sabedoria do povo. Que os municípios invistam na realização de festivais, mostras, cortejos, apresentações de folguedos, exposições, exibições de documentários e tantos outros eventos que coloquem o Folclore no centro das atenções. E, sobretudo, que os mestres da tradição popular sejam valorizados em vida, recebendo o reconhecimento que lhes é devido, pois são eles os verdadeiros guardiões da memória cultural brasileira, transmitindo, de geração em geração, um patrimônio que nenhum livro, por si só, seria capaz de preservar.

Um povo que conhece sua cultura conhece a si mesmo. Um povo que preserva sua memória fortalece sua identidade. Um povo que honra suas raízes caminha para o futuro sem perder a própria essência. Que venha o Mês do Folclore. E que venha acompanhado do respeito, da valorização e do orgulho de sermos, antes de tudo, brasileiros. Agosto não pode ser aguardado meramente como um novo mês chegando, mas um mês folcloricamente chegando...

sexta-feira, 24 de julho de 2026

RENATO PEIXOTO E A INSURREIÇÃO COMUNISTA DE 1935 EM NATAL ...


A Insurreição Comunista de 1935 reuniu militares e civis ligados ao Partido Comunista do Brasil (PCB) e à Aliança Nacional Libertadora (ANL), contando com lideranças de projeção nacional e regional. Em âmbito nacional, o principal nome associado ao movimento foi Luís Carlos Prestes, líder da ANL e principal inspirador político da revolta, embora não tenha participado dos combates em Natal. No Rio Grande do Norte, destacaram-se José Praxedes de Andrade, um dos principais articuladores civis da insurreição e integrante do Governo Popular Revolucionário, e Quintino Clementino de Barros, militante comunista que exerceu papel de liderança durante a ocupação da capital. Também tiveram participação relevante João Lopes de Barros, responsável pela mobilização de militares favoráveis ao movimento em Natal, e Giocondo Dias, dirigente comunista envolvido na preparação do levante no Nordeste. João Café Filho - norte-rio-grandense - então dirigente da ANL no estado e futuro presidente da República, foi preso após a insurreição por suspeita de envolvimento político, embora sua participação direta permaneça objeto de debate entre os historiadores. Já Elza Fernandes, apesar de não ter participado da revolta, tornou-se um dos símbolos do episódio ao ser assassinada por integrantes do PCB em 1936, sob acusação de delação. 

Em Natal, Rio Grande do Norte, o Governo Popular Revolucionário foi composto principalmente por militares de baixa patente, operários, sindicalistas e militantes comunistas, tendo como principais representantes José Praxedes de Andrade, Quintino Clementino de Barros e diversos cabos e sargentos do 21º Batalhão de Caçadores.Renato Alves Peixoto nasceu em 18 de novembro de 1913, na propriedade Morgado, município de São José de Mipibu, Rio Grande do Norte. Era filho de Antônio Ezequiel Peixoto (1869–1946) e de Joana Alves Maciel, posteriormente Joana Alves Peixoto (1875–1975), pertencendo a um dos mais tradicionais ramos da família Peixoto estabelecidos na região desde o século XIX.

Seu nascimento somente foi registrado em 29 de novembro de 1919, seis anos após ocorrer, conforme consta no Livro de Registros de Nascimento de São José de Mipibu. Seu pai declarou que Renato havia nascido em seu domicílio, no Morgado, em 18 de novembro de 1913, sendo filho legítimo do casal Antônio Ezequiel Peixoto e Joana Alves Maciel. O registro tardio não constitui uma exceção para a época. Era relativamente comum, nas primeiras décadas do século XX, que crianças fossem registradas anos após o nascimento, havendo inclusive pessoas que somente providenciavam o registro civil ao contrair matrimônio. Antônio Ezequiel Peixoto aproveitou a mesma ocasião para registrar quatro de seus filhos: Luzia, Ezequiel, João, Renato e, logo em seguida, Palmiro, todos nascidos anteriormente.

Morgado, onde nasceu Renato e os demais irmãos.

Renato era neto paterno de Ezequiel Corrêa Peixoto (1835–1930) e de Luzia Brasileira Peixoto (Luzia Brasileira Pacheco), casal que consolidou um importante núcleo familiar no Morgado. Por linha materna, era neto de João Alves Maciel (1840–1922), proprietário do Engenho Descanso, e de Joana Quitéria de Araújo (1845–1919), pertencendo igualmente a uma tradicional família da região de São José de Mipibu.

Era irmão de:

  • Luzia Alves Peixoto (1905–2009), posteriormente Luzia Peixoto Maranhão, casada com o intendente Roque de Albuquerque Maranhão, do Engenho São Roque;
  • Ezequiel Alves Peixoto (26 de setembro de 1909 – 8 de novembro de 1936), assassinado em circunstâncias nunca completamente esclarecidas, em um sobrado localizado no centro de São José de Mipibu, aos vinte e sete anos de idade;
  • João Alves Peixoto (27 de julho de 1911 – 25 de fevereiro de 1992), casado com Clhóris Trigueiro, pai de Abdon Trigueiro Peixoto e Tamires Ítalo Trigueiro Peixoto;
  • Palmiro Alves Peixoto (24 de março de 1916 – 8 de outubro de 1980), agricultor, posteriormente residente em Natal, casado com Severina Peixoto de Araújo, deixando extensa descendência;
  • José Alves Peixoto (1918–1986).

Renato Alves Peixoto teve seu nome ligado a um dos episódios mais marcantes da história política do Rio Grande do Norte: a Insurreição Comunista de novembro de 1935, quando Natal tornou-se a primeira capital brasileira a permanecer, ainda que por poucos dias, sob controle dos revolucionários ligados à Aliança Nacional Libertadora. A Insurreição Comunista de 1935 em Natal, ocorrida entre 23 e 27 de novembro daquele ano, foi um movimento armado liderado por militares e civis ligados à Aliança Nacional Libertadora (ANL) e ao Partido Comunista do Brasil, inserido no contexto do que também denominam Intentona Comunista. Os insurgentes assumiram temporariamente o controle da capital potiguar, destituíram as autoridades locais e instituíram um governo revolucionário provisório, experiência inédita no país. A revolta foi rapidamente reprimida pelas forças federais, resultando em prisões, perseguições políticas e no fortalecimento das medidas autoritárias do governo de Getúlio Vargas, que utilizou o episódio como justificativa para ampliar a repressão aos opositores e consolidar seu poder.

A Insurreição Comunista de 1935 foi concebida por integrantes do Partido Comunista do Brasil (PCB) e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que defendiam a derrubada do governo de Getúlio Vargas por considerá-lo autoritário, repressivo e subordinado aos interesses das elites econômicas. Inspirados pela Revolução Russa de 1917 e pela estratégia da Internacional Comunista (Comintern), os revolucionários alegavam que o Brasil vivia uma situação de profunda desigualdade social, baixos salários, concentração fundiária e restrição das liberdades políticas, o que justificaria a implantação de um governo popular e revolucionário. Entre suas principais reivindicações estavam a reforma agrária, a ampliação dos direitos dos trabalhadores, a nacionalização de setores estratégicos da economia e o combate ao fascismo, cuja influência crescia em diversos países na década de 1930. Embora essas propostas encontrassem apoio em alguns setores civis e militares, o movimento teve adesão limitada e foi rapidamente derrotado pelas forças legalistas. Contrariamente a esse movimento, surgiu o Integralismo, movimento fascista de extrema direita. Mas é outra história...

A participação de Renato Peixoto encontra-se documentada nos processos do extinto Tribunal de Segurança Nacional, posteriormente estudados pelo historiador Homero de Oliveira Costa em A Insurreição Comunista de 1935: o caso de Natal. Ao longo desse texto, relato o que sei sobre a participação de Renato e alguns parentes nossos também envolvidos na Intentona - das famílias Isaías de Macedo e Guedes de Mouta -, primos legítimos da minha mãe, portanto primos meus.

Segundo essa documentação, Renato participou da operação destinada ao recolhimento dos recursos financeiros arrecadados pelos insurgentes durante o movimento revolucionário. Coube-lhe, juntamente com o sapateiro Jaime de Brito e o motorista Francisco Braz Leopoldo, transportar a importância de 4:376$000 (quatro contos, trezentos e setenta e seis mil-réis) proveniente da Agência de Rendas Estadual.

Os recursos foram encaminhados para a chamada Vila Cincinato, local onde funcionou o Comitê Revolucionário durante os poucos dias em que os insurgentes exerceram o controle da capital potiguar. O fato de Renato integrar uma operação de natureza financeira evidencia que ele gozava de confiança por parte dos dirigentes revolucionários responsáveis pela administração do governo insurrecional.


Sua presença entre os envolvidos na Insurreição Comunista de 1935 revela um aspecto pouco conhecido da história da família Peixoto do Morgado. Enquanto muitos de seus parentes permaneceram vinculados às atividades agrícolas e ao funcionalismo público, Renato passou a integrar um dos episódios políticos mais significativos da história republicana do Rio Grande do Norte.

Sua trajetória também demonstra como famílias tradicionais do interior potiguar não permaneceram alheias às profundas transformações políticas e sociais ocorridas durante a década de 1930, período marcado pela Revolução de 1930, pela radicalização ideológica e pela reorganização dos movimentos operários e militares em todo o país. E Renato destoou a se unir a outros comunistas norte-rio-grandenses.

Após a derrota do movimento revolucionário, Renato Alves Peixoto passou a ser procurado pelas autoridades encarregadas da repressão aos participantes da insurreição. A política de combate ao comunismo adotada pelo governo de Getúlio Vargas mobilizou a Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte, as forças policiais estaduais, o Exército e os órgãos federais de segurança, responsáveis pela prisão e pelo encaminhamento dos acusados à Justiça de exceção, representada pelo Tribunal de Segurança Nacional. 

Quartel da Polícia Militar de Natal, crivado de balas após a Insurreição Comunista

Os participantes da Insurreição Comunista de 1935 que eram capturados pelas forças legalistas eram inicialmente submetidos a inquéritos policiais, sendo muitos deles vítimas de torturas e outras formas de violência durante os interrogatórios. Em seguida, permaneciam recolhidos em cadeias públicas, quartéis ou estabelecimentos prisionais, onde aguardavam a conclusão das investigações. Posteriormente, eram denunciados e processados pelo Tribunal de Segurança Nacional, criado em 1936 para julgar os acusados de crimes políticos contra a ordem institucional. 

Colônia Correcional de Fernando de Noronha (Shutterstock)

Entre os principais locais de encarceramento destacavam-se a Casa de Detenção do Recife, a Casa de Correção do Rio de Janeiro, o Quartel da Polícia Especial, na então capital federal, e a Colônia Correcional de Fernando de Noronha, destinada principalmente ao confinamento de presos políticos considerados mais perigosos pelo governo Vargas. Muitos insurgentes permaneceram anos encarcerados, submetidos a longos processos judiciais, enquanto outros responderam às acusações em liberdade ou conseguiram permanecer foragidos durante anos para escapar à intensa repressão desencadeada pelo Estado.


O livro 82 Horas de Subversão - Intentona Comunista de 1935 no Rio Grande do Norte, de João Medeiros Filho é uma das obras mais relevantes sobre o assunto. Na denúncia oferecida pelo Dr. Carlos Gomes de Freitas ao Juiz Federal, constam, dentre Renato Peixoto e uma infinidade de outros subversivos, nomes como: Lauro Cortez Lago, Josafá Machado, Paulo Isaías de Macedo, João Isaías de Macedo (Dom João), Júlio Guedes de Moura, Júlio Macedo, dentre tantos. Autores que estudaram especificamente o caso potiguar costumam mencionar mais de 300 envolvidos diretamente ou indiciados, embora esse número possa aumentar quando incluídos suspeitos e perseguidos pela repressão.

Othoniel Menezes

O jornalista e poeta Othoniel Menezes de Melo teve participação direta nos acontecimentos da Intentona, sobretudo na condição de jornalista. Durante os poucos dias em que os insurgentes controlaram a capital potiguar, atuou como principal redator do jornal A Liberdade, órgão oficial do governo revolucionário. Após a retomada da cidade pelas forças legalistas, foi preso, processado pelo Tribunal de Segurança Nacional e, inicialmente, condenado, sendo posteriormente absolvido em grau de recurso. Embora sua colaboração com o movimento seja um fato histórico documentado, não há evidências conclusivas de que tenha sido um dirigente ou militante do Partido Comunista, sendo sua atuação geralmente interpretada pelos historiadores como de natureza intelectual e jornalística, mais do que propriamente partidária.

82 Horas de subversão

Severino Cavalcanti de Albuquerque Maranhão, de raízes de São José de Mipibu (parente de Djalma Maranhão, o qual, no futuro, como comunista, sofreria penalidades e morreria no exílio, no Uruguai). Severino foi um dos envolvidos nas investigações posteriores à Insurreição Comunista de 1935 no Rio Grande do Norte, tendo sido fichado pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) sob o prontuário nº 09. Preso em 4 de setembro de 1936, foi submetido ao Tribunal de Segurança Nacional (TSN), que inicialmente o condenou a cinco anos de prisão, pena posteriormente reduzida para um ano em grau de recurso. Apesar da redução, permaneceu encarcerado até 29 de janeiro de 1940, quando foi libertado. Sua trajetória integra o conjunto de perseguidos políticos atingidos pela repressão desencadeada após o movimento revolucionário de novembro de 1935.

Lauro Cortês Pereira do Lago foi um dos principais dirigentes civis da Insurreição de Natal. Contabilista e então diretor da Casa de Detenção de Natal, integrou o Comitê Popular Revolucionário que assumiu o governo do Rio Grande do Norte durante os poucos dias em que os insurgentes controlaram a capital, exercendo funções ligadas à administração política do movimento. Com a derrota da revolta, tendo fugido, foi localizado em Canguareta, foi preso, processado e condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional, sendo posteriormente anistiado. Sua atuação o coloca entre os mais destacados líderes civis da chamada Intentona Comunista no Rio Grande do Norte.

Josafá Machado também foi um dos participantes, figurando entre os envolvidos processados pelo Tribunal de Segurança Nacional. Agricultor, ele também fugiu, mas capturado e condenado a cinco anos de prisão por sua participação no movimento e, posteriormente, seu nome também apareceu em registros oficiais como foragido. 

82 Horas de subversão

João Isaías Sobrinho, conhecido como “Dom João”, foi um dos civis envolvidos na Insurreição Comunista de Natal de 1935. Identificado nos registros do Tribunal de Segurança Nacional como comerciante, foi processado e condenado a seis anos e seis meses de prisão por sua participação no movimento. Embora tenha sido incluído entre os implicados pela repressão posterior à revolta, não há registros de que tenha exercido funções de comando ou integrado o Governo Popular Revolucionário, sendo sua atuação enquadrada entre os participantes civis alcançados pelos processos judiciais de 1935. Era parente da minha mãe.

Paulo Isaías de Macedo,  de São José de Mipibu também participou daa Insurreição Comunista no Rio Grande do Norte, sendo posteriormente alcançado pela repressão desencadeada contra os participantes do movimento. Após o fracasso da insurreição, preso em 21.8.1936, foi submetido às medidas policiais e judiciais adotadas pelo governo contra os acusados de participação no levante, condenado a 6 anos e seis meses de reclusão, tendo a penalidade reduzida para cinco anos após nova análise. Foi absolvido em 1938. 

Outra figura é Júlio Guedes de Moura, um dos principais líderes militares da Insurreição Comunista. Sargento do 21º Batalhão de Caçadores, participou da organização e da execução das ações armadas que permitiram aos insurgentes assumir o controle da capital potiguar. Após a derrota do movimento, foi preso e processado pelas autoridades, figurando entre os militares responsabilizados pela insurreição e pela implantação do Governo Popular Revolucionário durante os quatro dias em que Natal esteve sob domínio dos rebeldes.

82 Horas de subversão

Antônio Bernardo da Silva, natural de São José de Mipibu, foi jornalista e participou da Insurreição Comunista. Seu nome figura entre os civis processados pelo Tribunal de Segurança Nacional em decorrência do movimento, tendo sido condenado à prisão. Embora sua participação seja documentada, não há evidências de que tenha exercido funções de liderança, sendo lembrado principalmente como um dos envolvidos civis na revolta que atingiu o Rio Grande do Norte.

Sizenando Filgueira da Silva foi um dos participantes mais atuantes da Insurreição Comunista de 1935 no Rio Grande do Norte. Guarda civil e militante do Partido Comunista Brasileiro, integrou o núcleo revolucionário que tomou o poder em Natal durante alguns dias e participou de ações militares no interior do estado, sendo apontado como um dos comandantes das colunas organizadas pelos insurretos. Após a derrota do movimento, foi preso e submetido à repressão política, permanecendo detido por longo período. Sua trajetória destaca-se por representar o setor mais organizado e combativo do movimento comunista potiguar, ligado aos militantes que tiveram participação direta nos confrontos armados de novembro de 1935. Enfim, são muitos nomes, aqui apresento alguns apenas por terem relação de parentesco uns com os outros, por serem de São José de Mipibu ou por alguma peculiaridade do envolvimento.

Para escapar dessa perseguição política, Renato Peixoto refugiou-se, acompanhado da esposa, na cidade de Russas, no Ceará, onde permaneceu durante vários anos em relativo anonimato, evitando qualquer exposição que pudesse levar à sua localização e prisão. Renato Alves Peixoto permaneceu escondido em Russas, no Ceará, durante os anos de maior repressão aos participantes da Insurreição Comunista de 1935. Com o enfraquecimento das buscas e a normalização gradual de sua situação processual - após a anistia concedida em 1945 - retornou ao estado, onde retomou sua vida profissional e familiar. Seus últimos anos se passaram no Morgado, onde sentia protegido pelas memórias de sua infância. 

Ele permanecia semanas no Morgado, onde passava longos períodos recolhido, quase sempre entregue à leitura em uma velha cadeira de balanço. Homem de grande cultura, distinguia-se também pela discrição, pela reserva e pela extrema polidez no trato com as pessoas. Em 2005, meu primo Amauri e eu tivemos a oportunidade de entrevistá-lo, ocasião em que revelou o quanto se sentia acolhido e confortado naquele lugar. Ali, certamente, reencontrava as lembranças mais afetivas de sua vida: a presença da mãe, do pai, dos irmãos e as memórias de sua infância .

Tamires Ítalo Trigueiro Peixoto

Ele me lembrava muito Tamires, seu sobrinho, que, mesmo já idoso, conservava o hábito de falar sobre a mãe quase todos os dias. Assim também Renato guardava uma ligação profunda com as suas próprias memórias familiares. Tamires amava tanto a velha Chlóris - sua mãe - que jamais teve coragem de se desfazer de seus vestidos, mantendo-os guardados e expostos no armário exatamente como ela os havia deixado, como se preservasse, por meio daqueles objetos, a presença e a lembrança dela. Também me recordo de um velho baú de fotografias dos antepassados que jazia na sala do velho Morgado. Não sei que fim tomou... Renato faleceu em 2006, aos 93 anos, em Natal, encerrando uma longa trajetória iniciada ainda nos tempos da República Velha e que atravessou praticamente todo o século XX.

Como descendente direto de Ezequiel Corrêa Peixoto e integrante de uma das mais antigas famílias de São José de Mipibu, Renato Alves Peixoto ocupa posição singular na história regional, reunindo, em sua trajetória, a herança de uma antiga linhagem de proprietários rurais e a participação em um dos mais importantes acontecimentos políticos da história contemporânea do Rio Grande do Norte.

EXCERTOS...

SÃO JOSÉ DE MIPIBU - REGISTROS DE NASCIMENTO - 1918-1927

35 - Aos vinte e nove dias do mês de novembro de 1919, nesta cidade de São José, estado do Rio Grande do Norte, em meu cartório, compareceu, Antônio Ezequiel Peixoto, filho de Ezequiel Corrêa Peixoto e dona Luzia Brasileira Peixoto, casado com dona Joanna Alves Peixoto, filha de João Alves Maciel e Joanna Alves Maciel, e depois de obter licença por ter vindo fora do prazo legal, declarou: que em seu domicílio no dia dezoito de novembro de mil novecentos e treze, neste município, onde se casou, nasceu uma criança do sexo masculino, que recebeu o nome de Renato, filho d'elle, declarante e sua dita mulher. O que para constar fiz este termo que assinam com as testemunhas abaixo, a tudo presentes e commigo ...........(ilegível) Guedes o escrevi e assignam Antonio Ezequiel Peixoto, João Ferreira, Austricliano Lopes de Macedo.

......x.......

Observações importantes sobre o registro acima: O livro de assento de nascimentos que registra o nascimento de Renato Alves Peixoto nos pede algumas reflexões bastante pertinentes, a começar pelo próprio livro. Se os registros de nascimento são do período de 1918 a 1927, como pode ser registrada uma pessoa que nasceu em 1913, ano que Renato nasceu?. Na verdade, o pai de Renato, Antônio Ezequiel Peixoto o registrou tardiamente, após seis anos de seu nascimento, em 1919. Àquela época era comum esses registros tardios. Havia pessoas que tinham os seus registros de nascimento feitos no dia que se casavam, portanto o pai de Renato, se comparado a isso, não demorou muito a registrar esses três filhos. Outra curiosidade diz respeito aos escrivães, os quais escreveriam apenas o primeiro nome da criança, desse modo no registro aparece apenas "Renato". Antônio Ezequiel registrou quatro filhos no mesmo dia, sendo "Luzia" (Luzia Peixoto), nasceu no dia 2 de fevereiro de 1905, registro nº 32, e "Ezequiel" (Ezequiel Peixoto) nasceu no dia 22 de setembro de 1909, registro nº 33 e "João" nascido no dia (ilegível) de julho de 1912, registro nº 34. "Palmyro", 24 de março de 1916, registro nº 36. Curiosidade: Luzia se tornaria no futuro, Luzia Peixoto Maranhão, ao se casar com Roque Maranhão, os quais residiam no Engenho São Roque.  Ezequiel seria assassinado num sobrado no centro de São José de Mipibu no ano de 1935.

AINDA SOBRE A DENÚNCIA DO DR. CARLOS GOMES DE FREITAS

Entre os documentos reunidos em 82 Horas de Subversão, a denúncia apresentada pelo Procurador da República no Rio Grande do Norte, Carlos Gomes de Freitas, merece atenção especial. Ela não é apenas uma peça do processo instaurado após a Revolta de Novembro de 1935. É também um testemunho de como o Estado brasileiro começou a construir a versão oficial daqueles acontecimentos.

Essa observação é importante porque nos ajuda a compreender a natureza do documento. O procurador não escrevia como historiador, preocupado em reconstruir os fatos com distanciamento crítico. Sua missão era convencer o juiz da culpa dos acusados. Por isso, o texto vai muito além da descrição dos acontecimentos. Ele procura, ao mesmo tempo, explicarr, condenar, justificar e 'monstrualizar' os subversivos.

Logo nas primeiras linhas, a revolta é apresentada como fruto do "antro da traição e do ódio", de onde teria surgido um movimento "virulento", "perverso" e voltado para o "terrorismo". Antes mesmo de expor as provas, o autor já oferece ao leitor uma interpretação completa do episódio. A linguagem não busca apenas informar; procura despertar indignação e reforçar a legitimidade da repressão. Esse aspecto chama a atenção porque revela um mecanismo recorrente na documentação produzida logo após a Intentona Comunista. Os acontecimentos não aparecem primeiro para depois serem interpretados. O processo é inverso: a interpretação antecede a narrativa dos fatos. O leitor é conduzido desde o in´cio a enxergar a revolta sob um único prisma, definido pelas autoridades encarregadas da acusação.

Essa forma de construir o relato dialoga diretamente com uma das questões centrais levantadas por Renato Peixoto. Ao estudar a memória de 1935, o historiador demonstra que ela não foi formada apenas pelas lembranças dos participantes ou pelas pesquisas posteriores, mas também pelos documentos oficiais produzidos no calor dos acontecimentos. Inquéritos, denúncias, sentenças e relatórios passaram a moldar a maneira como o episódio seria lembrado pelas gerações seguintes. Outro aspecto que merece destaque é a forma como determinados personagens são apresentados. O caso de Epifânio Guilhermino é talvez o mais evidente. Em vez de limitar-se a descrever os atos que lhe são atribuídos, a denúncia procura construir uma imagem completa de sua personalidade. O acusado deixa de ser apenas um participante da revolta para tornar-se a personificação da violência revolucionária. É descrito como ignorante, brutal, movido por uma suposta inclinação natural para o crime e pelo prazer de matar.

Independentemente da responsabilidade que efetivamente tenha tido nos acontecimentos, percebe-se que o objetivo do texto ultrapassa a demonstração dos fatos. Busca-se criar uma figura simbólica capaz de representar tudo aquilo que o Estado desejava associar ao comunismo. O julgamento moral passa a ocupar um espaço tão importante quanto a própria acusação criminal. Esse procedimento aparece em vários momentos da denúncia. Ao lado da narrativa sobre prisões, ocupações de quartéis, incêndios e saques, surgem comentários que procuram explicar o comportamento dos acusados como consequência inevitável da ideologia comunista. Assim, fatos e interpretações se misturam continuamente. O documento deixa de ser apenas um registro dos acontecimentos para transformar-se em um instrumento de convencimento político.

Paradoxalmente, é justamente essa característica que torna a denúncia tão valiosa para o historiador. Seu interesse não está apenas nas informações que preserva sobre os dias da revolta, mas também na forma como essas informações foram organizadas. O texto revela quais episódios as autoridades decidiram destacar, quais personagens transformaram em protagonistas e quais interpretações procuraram consolidar como verdade histórica. Ao mesmo tempo, chama a atenção o cuidado do procurador em fundamentar sua narrativa. Ao longo de toda a denúncia, aparecem referências constantes aos depoimentos das testemunhas, aos laudos periciais, aos exames realizados e às folhas do processo. Essas indicações demonstram que o texto foi construído sobre um amplo conjunto documental. Para o pesquisador de hoje, elas têm um valor adicional, pois funcionam como pistas para localizar os autos originais e confrontar a narrativa da acusação com os depoimentos e documentos que lhe deram origem.

Sob esse aspecto, a reprodução da denúncia em 82 Horas de Subversão adquire importância que vai além da simples transcrição de uma peça processual. Ela preserva uma das primeiras interpretações oficiais da Revolta de Novembro de 1935 e permite observar, quase em tempo real, o nascimento de uma memória institucional sobre aqueles acontecimentos. É justamente nesse ponto que a leitura proposta por Renato Peixoto oferece uma contribuição decisiva. Em vez de utilizar documentos como esse apenas para reconstruir a sequência dos fatos, o historiador convida o leitor a examiná-los como parte do próprio processo de construção da memória histórica. A denúncia deixa de ser vista apenas como fonte de informação e passa a ser compreendida como um documento que ajudou a definir, por décadas, a maneira como a sociedade norte-rio-grandense interpretou a Insurreição Comunista.

Assim, ao lado dos fatos que procura registrar, a denúncia também testemunha outra história: a da elaboração de uma narrativa oficial sobre 1935. É essa dupla dimensão - ao mesmo tempo documental e memorial - que faz dela uma fonte tão rica para compreender não apenas o que aconteceu em novembro daquele ano, mas também como esses acontecimentos foram transformados em memória pública.

Engenho São Roque, onde Luzia Peixoto Maranhão viveu toda a sua fase de casada com Roque Albuquerque Maranhão

Sobrado onde Ezequiel Peixoto foi assassinado.


ABDON ÁLVARES TRIGUEIRO (1868–1941): O ANTEPASSADO, O MILITAR E O MÚSICO

 

Capitão Abdon Álvares Trigueiro, avô materno de Tamires e Abdon

INSERÇÃO GENEALÓGICA

Abdon Álvares Trigueiro - "Pai Abdon" no círculo familiar - integra o tronco familiar materno de Tamires, figurando como seu avô materno. Sua trajetória distingue-se não apenas pela posição na linhagem, mas pelo relevo público que alcançou como militar e músico, projetando o sobrenome Trigueiro para além do âmbito doméstico, no cenário cultural e institucional do Rio Grande do Norte entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Obra publicada pelo Governo do Estado, durante a gestão Wilma de Faria


Filho de Francisco Álvares Trigueiro, Abdon nasceu em Guarabira, Paraíba, no ano de 1868. Casou-se com Higina Campos Trigueiro ("Mãe Santa" no círculo familiar), também paraibana, com quem constituiu família numerosa já radicada em Natal.

Higina Campos Trigueiro ("Mãe Santa"), esposa de Abdon Álvares Trigueiro, avós de Tamires e Abdon.

Dessa união nasceram Maria Esmeraldina Rodrigues Trigueiro (10.07.1891), Othoniel, Tharsis, Dalila, Ercila e Clhóris, todos registrados na capital potiguar. Nos últimos anos de vida, Abdon fixou residência em São José de Mipibu, onde faleceu em 1941.

Maria Esmeraldina Rodrigues Trigueiro, filha de Abdon Álvares Trigueiro, tia de Tamires

FORMAÇÃO MILITAR E PRIMEIROS ANOS DE SERVIÇO

A carreira militar de Abdon Álvares Trigueiro teve início no Exército Nacional, com ingresso no 27º Batalhão de Infantaria, em 20 de janeiro de 1890, na Paraíba. Permaneceu nessa unidade até 4 de maio de 1893, retornando ao serviço ativo em 20 de fevereiro de 1895, quando foi incorporado ao 34º Batalhão de Infantaria, já então residente em Natal.

Desde o início, foi admitido na condição de músico de 2ª classe, evidenciando que sua habilidade musical precedia a carreira castrense e foi por ela absorvida. Os registros de assentamento indicam evolução funcional contínua até seu desligamento definitivo do Exército, ocorrido em 5 de novembro de 1900.

CAMPANHA DE CANUDOS (1897)

Canudos/BA

Durante sua permanência no 34º Batalhão de Infantaria, Abdon Álvares Trigueiro participou da Campanha de Canudos, no interior da Bahia, entre os meses de junho e dezembro de 1897. Atuando como regente da banda da unidade, não permaneceu restrito a funções auxiliares ou cerimoniais.

Os assentamentos militares registram sua participação direta em ações de combate, inclusive na tomada da cidadela de Canudos, sendo oficialmente elogiado por bravura, disciplina e iniciativa. Consta nos registros a menção elogiosa à forma como ocupou posições designadas “na linha de fogo” e à atuação nas noites de enfrentamento aos ataques inimigos. À época, era identificado como 2º sargento, o que confirma seu envolvimento efetivo na operação militar.

CARREIRA MILITAR NA POLÍCIA MILITAR DO RIO GRANDE DO NORTE

Desligado do Exército, Abdon ingressou no Batalhão de Segurança em 4 de novembro de 1900, como alferes em comissão. Poucos dias depois, em 17 de novembro, foi nomeado pelo governador Alberto Maranhão para exercer simultaneamente as funções de inspetor e regente da banda da corporação.
Sua ascensão funcional foi progressiva e regular:
• 2º tenente (14 de novembro de 1900)
• 1º tenente (1º de fevereiro de 1911)
• Capitão (31 de dezembro de 1917)
Foi reformado por ato do governador Juvenal Lamartine, em 10 de janeiro de 1929. Ao todo, Abdon dedicou nove anos ao Exército e vinte e oito anos à Polícia Militar, exercendo também funções administrativas e policiais no interior do estado, inclusive como capitão sediado em Macaíba e delegado em diversas localidades.

ATUAÇÃO MUSICAL E VIDA CULTURAL

Paralelamente à carreira militar, Abdon Álvares Trigueiro construiu sólida atuação musical. Desde 1896, seu nome aparece nos jornais associado a apresentações, composições e regências. Nesse ano, apresentou ao piano, na redação do jornal O Diário de Natal, o “Hino à Imprensa”, de sua autoria, com letra do professor Elias Souto.

Cláudio Galvão

Entre 1899 e 1900, compôs e regeu a música da opereta “O Palito Milagroso”, de Ezequiel Wanderley, encenada pela Sociedade Dramática 12 de Outubro”. Também musicou a comédia “A Pulga”, com texto do poeta Segundo Wanderley, sendo elogiado pela imprensa como “inteligentíssimo maestrino”. As partituras dessas obras, entretanto, não foram localizadas.

Cláudio Galvão

Em 1º de outubro de 1902, a banda do Batalhão de Segurança executou, pela primeira vez em Natal, a introdução da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes, fato que demonstra o nível técnico alcançado pela corporação sob sua regência.

Cláudio Galvão

RECONHECIMENTO PÚBLICO E EPISÓDIOS MARCANTES

Após um período de menor visibilidade, a atividade musical de Abdon foi retomada com destaque em 1907, quando uma de suas polcas foi executada em retreta pública, recebendo elogios entusiasmados da imprensa, que celebrava seu retorno ao cenário musical da cidade.

Em 1913, durante um episódio de forte tensão política em Natal, Abdon teve atuação destacada em confronto armado envolvendo forças policiais e militares. Sua ação foi oficialmente elogiada pelo comando da Polícia Militar, que ressaltou a iniciativa do então 1º tenente Abdon Álvares Trigueiro ao assumir posição estratégica no combate, contribuindo para conter os atacantes.

ATUAÇÃO RELIGIOSA, MAÇONARIA E ÚLTIMOS ANOS

Abdon também teve participação ativa na vida religiosa e associativa. Foi dirigente da Associação Evangélica de Natal, reeleito vice-presidente em 1916, sob a presidência do reverendo Jerônimo Gueiros. Regeu por muitos anos o coro da Igreja Presbiteriana, compondo músicas sacras associadas a textos bíblicos e poesias religiosas.

Na maçonaria, foi venerável da Loja ‘Evolução II’, onde teve seu retrato inaugurado ao deixar o cargo. Após a reforma militar, passou a residir em São José de Mipibu, dedicando-se a viagens pelo interior do estado em atividades de pregação evangélica.

PRODUÇÃO MUSICAL E LEGADO

Embora não seja classificado como modinheiro típico, Abdon Álvares Trigueiro destacou-se como compositor de valsas, polcas, dobrados, hinos e canções de serenata, entre elas “Aos 15 anos”, com letra de Segundo Wanderley. Seu maior reconhecimento ocorreu em 1922, quando venceu concurso promovido pelo governo Antônio de Souza, por ocasião do 1º Centenário da Independência do Brasil, com as melodias para os poemas “Caminho do Sertão” e “Olhos”, de Auta de Souza.

Recebeu dois prêmios no valor de 500$000 (Quinhentos mil réis) cada, além da impressão das partituras pela Casa Bevilacqua, do Rio de Janeiro. As obras foram apresentadas no Teatro Carlos Gomes, sob sua regência.

Teatro Carlos Gomes, atualmente Alberto Maranhão.

Grande parte de sua produção perdeu-se ao longo do tempo. Sobreviveram referências em jornais, partituras dispersas e registros preservados em arquivos religiosos. Ainda assim, sua contribuição é reconhecida por estudiosos da música potiguar, como Cláudio Galvão, que o menciona na obra Modinha Rio-Grandense, dentre renomados músicos e jornalistas de época.

terça-feira, 21 de julho de 2026

AS PÉROLAS DA MINHA TIA MARIA DE LOURDES FREIRE DIAS...

Maria de Lourdes Freire Dias ("Joana de Vareda")...

Havia um ritual que eu cultivava com alegria: visitar tia Maria de Lourdes juntamente com uma prima. Já centenária e, embora cheia de saúde, sabíamos que ela poderia partir a qualquer hora. Então não poderíamos nos poupar de estarmos sempre com ela, um poço de alegria, receptividade e memória intacta. Tia Maria leu e escreveu a vida toda. Era uma figura encantadora, cheia de amorosidade. 

Nunca era apenas uma visita. Era um mergulho em um tempo que eu não vivi, mas que aprendi a conhecer através da memória de quem o habitou. Eu chegava disposto a ouvir, e ela, quase sempre, estava pronta para abrir o baú das lembranças. Bastava uma pergunta, um nome ou uma fotografia para que as histórias começassem a desfilar, uma puxando a outra, como contas de um rosário antigo.
Aprendi cedo que as melhores histórias não costumam estar nos livros. Moram na boca dos mais velhos, esperando apenas um ouvido paciente. E eu fazia questão de recolher essas pequenas preciosidades. Eram pérolas que, se não fossem registradas, talvez desaparecessem com o tempo.
Numa dessas tardes, tia Maria sorriu antes mesmo de começar a falar. Lembrou-se dos apelidos que os irmãos inventavam uns para os outros durante a infância. Eram apelidos de criança, desses que fazem sentido apenas dentro da família e que carregam muito mais afeto do que malícia.



Numa dessas tardes, tia Maria sorriu antes mesmo de começar a falar. Lembrou-se dos apelidos que os irmãos inventavam uns para os outros durante a infância. Eram apelidos de criança, desses que fazem sentido apenas dentro da família e que carregam muito mais afeto do que malícia.

Ela própria era chamada de Joana de Vareda. Meu pai, José Amaro respondia por Caboré. Olindina era Verdolenga. Sebastiana, Sapatiana. Calazans atendia pelo curioso Calango Sardanha. Dos meus tios Manoel e Júlio, infelizmente, a lembrança ficou pela metade. Em algum momento deixei escapar o registro dos apelidos que também lhes pertenciam. Até hoje lamento essa pequena lacuna, dessas que nenhum esforço da memória consegue preencher depois.

(José Freire) Caboré

Confesso que até hoje dou risada quando leio isso. Fico comparando aquela mulher que viria a morrer com 103 anos de idade com a menina Joana de Vareda. Tenho impressão que Joana de Vareda foi uma criança muito feliz, altiva, altruísta, cheia de viva que grudou nela e nunca mais saiu, pois Maria de Lourdes era inspiradora como pessoa. Era realmente uma Joana de Vareda...
Enquanto ela recordava aqueles nomes, eu imaginava a cena: um terreiro de chão batido, irmãos correndo, rindo uns dos outros, brigando por um instante e fazendo as pazes logo depois. Os apelidos eram quase uma segunda certidão de nascimento, concedida não pelo cartório, mas pela convivência. Revelavam uma infância simples, sem brinquedos caros, mas rica na criatividade e na cumplicidade entre irmãos. Ela, inclusive me contava que os irmãos - todos idosos - fazia questão de recordar desses apelidos e darem gargalhadas.


Foi então que a conversa tomou outro rumo, como tantas vezes acontecia. Sem perceber, Joana de Vareda, aliás, tia Maria, saltou décadas e voltou aos primeiros dias de escola. Contou que estudou o primário na cartilha Felisberto de Carvalho, organizada por Antonio Firmino Proença. Era um nome que, para mim, soava distante, mas que para ela trazia o cheiro das primeiras letras, do caderno novo e do esforço de decifrar o mundo através das palavras. Ela descreveu a cartilha com o sentimento que pertence apenas a quem gosta muito de estudar. Eu vi a cartilha diante de mim...

Foi então que a conversa tomou outro rumo, como tantas vezes acontecia. Sem perceber, Joana de Vareda, aliás, tia Maria, saltou décadas e voltou aos primeiros dias de escola. Contou que estudou o primário na cartilha Felisberto de Carvalho, organizada por Antonio Firmino Proença. Era um nome que, para mim, soava distante, mas que para ela trazia o cheiro das primeiras letras, do caderno novo e do esforço de decifrar o mundo através das palavras. Ela descreveu a cartilha com o sentimento que pertence apenas a quem gosta muito de estudar. Eu vi a cartilha diante de mim...

Depois vieram as lembranças das professoras. Primeiro, Dulce e Biá, ambas de Lagoa Dantas. Em seguida, Bernardete, Adelaide e Expedita, que vinham de Natal montadas a cavalo para ensinar. Passavam a semana na cidade e retornavam a cada 15 dias ou cada sexta-feira. Já imaginou uma coisa dessa! Só essa imagem já bastava para transformar a professora em personagem de romance: mulheres enfrentando estradas de barro, sol e inverno, apenas para que as crianças aprendessem a ler.

Tia Maria ainda fez questão de situar Expedita na árvore da família. Era filha de Maria Velha, irmã de Amaro Justino da Cruz. Na memória dos antigos, ninguém existia sozinho. Cada pessoa vinha acompanhada de seus laços de parentesco, como se a identidade estivesse costurada à família inteira. 

Ao voltar para casa naquele dia, pensei que eu não havia recolhido apenas informações. Levei comigo uma fotografia invisível de uma época. Os apelidos, a cartilha, as professoras que cavalgavam léguas para ensinar... tudo isso parecia pequeno quando contado separadamente. Junto, porém, compunha o mosaico de uma geração.

Hoje compreendo que minhas visitas à tia Maria de Lourdes nunca foram apenas encontros entre sobrinho e tia. Eram lições de memória. Ela narrava; eu escutava. Ela recordava; eu anotava. Ela revivia; eu preservava.

E é curioso como funciona a lembrança. Esqueci de registrar o apelido de tio Júlio, mas jamais esquecerei o brilho nos olhos de tia Maria enquanto contava aquelas histórias. Talvez seja esse o verdadeiro nome da memória: não aquilo que conseguimos guardar no papel, mas aquilo que permanece vivo dentro de nós, iluminando o passado com a ternura de quem o viveu.

Todos partiram. Um deles com 98 anos de idade. E assim, aos 103 anos, partiu Joana de Vareda, a minha tia Maria de Lourdes Freire Dias...