ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. O parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações podem ser encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade de nome homônimo. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de lendas, crônicas, artigos, reproduções de reportagens de interesse nacional, fotos poesias, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. Posso enviar alguns textos por e-mail, já que é um blog protegido. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

ACTA NOTURNA – SOCORRO TRINDADE – MEIO SÉCULO DE UMA HISTÓRIA GUARDADA NO ARMÁRIO – 26.8.2019



ACTA NOTURNA – SOCORRO TRINDADE – MEIO SÉCULO DE UMA HISTÓRIA GUARDADA NO ARMÁRIO – 26.8.2019

Quem vê Socorro Trindade recolhida em seu cadinho logo à entrada de Nísia Floresta, talvez saiba que ela é escritora. Uma minoria tem conhecimento de que um dia ela foi escritora aclamada e professora nas universidades federais do Rio Grande do Norte e do Rio de Janeiro. Mas quase ninguém sabe que ali mora uma rainha... ou melhor a rainha da cana de açúcar. Quem sabe dessa página da história são pessoas com seus setenta anos de idade adiante. Para entender a história, vamos retroagir no tempo...
O viço da mocidade ofertou a Socorro Trindade uma beleza singular. Ela roubava a cena quando transitava pelas ruas de Floresta. Com o fim da adolescência foi estudar em Natal e o fato se tornou gancho para uma experiência curiosa de sua vida. Tudo começou com pessoas querendo saber quem era a moça tão atraente. Os rapazes faziam todo tipo de corte, mas ela não se curvava a nenhum. Estava ali para estudar. Mas os burburinhos continuaram, despertando os “olheiros” da época.

Em 1967, portanto, há 52 anos, seus pais receberam um grupo de senhores que se deslocaram até a residência da bela jovem, em Nísia Floresta, para exclusivamente convidá-la a concorrer ao concurso “Rainha da Cana-de-Açucar”, evento tradicional e disputado que ocorria em Ceará - Mirim. Ela contava 17 anos de idade. A princípio não aceitou, mas cedeu às insistências. O concurso era organizado por uma espécie de associação de usineiros e produtores de cana de açúcar. Todos os municípios potiguares produtores de cana de açúcar participavam. As emissoras de rádio divulgavam amplamente o evento.
O certame tinha uma aura de concurso de miss, devido ao glamour. As candidatas representavam os municípios onde moravam. Havia muita disputa e intrigas típicas desses acontecimentos que envolvem beleza. As moças potiguares aguardavam com êxtase o dia da inscrição, embora não foi o caso de Socorro Trindade, a qual foi descoberta por olheiros, sem imaginar a existência do concurso. “Nunca fui ligada a isso... se fosse hoje, jamais teria participado”, contou-me.

No dia do concurso comitivas das cidades envolvidas se deslocavam em peso à terra de engenhos. Era prefeito de Papari o senhor Wilson de Oliveira, presença marcante no evento. Ceará-Mirim ficava pequena para tanta gente. No centro do clube era montada uma passarela cercada de mesas e cadeiras. Enquanto as candidatas desfilavam, as famílias, autoridades políticas, os empresários e fazendeiros apreciavam e consumiam comes e bebes no espaço decorado com imponência. A festa tinha uma conotação puramente familiar. Autoridades políticas davam o retoque final, com direito a presença do governador Walfredo Dantas Gurgel.
Dona Conceição Trindade, mãe de Socorro, mandou fazer um vestido verde-cana com detalhes em branco, apliques de lantejoulas, cristais, e uma luva de pulso, bordada com pedrarias. Houve um boom acerca desse vestido. Espécie de aura nupcial. Pessoas estranhas à família não poderiam vê-lo. O assunto passeava de casa em casa, de rua em rua, na praças, nas esquinas, no comércio. Pudera! Papari cheirava a floresta e curral. Os poucos nativos que tinham aparelho de rádio acompanhavam as notícias com curiosidade.

E foi justamente nesse verão de 1967 que Socorro Trindade roubou a cena, coroada Rainha da Cana de Açúcar. A coroa e a faixa lhe foram colocadas por uma importante autoridade política, cujo nome ela não se recordou durante a conversa. “Quando retornei a Nísia Floresta não se falava n’outra coisa... a cidade era pacata... o episódio foi um acontecimento muito significativo para o contexto daquela época... virei o centro das atenções, o assunto foi comentado até na igreja, era todo mundo me dando os parabéns e me visitando... virei uma rainha mesmo”, explicou Socorro Trindade em 2015, narrando alguns fatos da sua vida ao autor desse blog. A fase de rainha passou, dando lugar à escritora que brotaria lentamente, cuja história está publicada na ACTA NOTURNA DO DIA 25.8.2019.

O fato de ela ter me mostrado o seu famoso vestido de “Rainha da Cana de Açúcar”, e permitido fotografá-lo ao seu lado, contando minúcias sobre o episódio, foi um feito extraordinário para quem escolheu a reclusão e o silêncio como seus companheiros atuais. A peça, sepultada num antiqüíssimo guarda-roupa de madeira de lei, foi retirada por suas próprias mãos após mais de meio século. Assim exumou-se a história.
Hoje, ninguém pode desconhecer que na entrada da cidade, além de residir a escritora que promoveu polêmica com livro audacioso em plena Ditadura Militar, mora a “Rainha da Cana-de-Açúcar” do ano de 1967. Saibam todos quantos possam conhecer essa história que todos nós somos livros, e mesmo fechados guardamos história, e que ouro algum paga a emoção de abri-lo e disponibilizá-lo a quantos puderem lê-lo, principalmente pelo ineditismo que se encerra neste exato momento.






















segunda-feira, 2 de setembro de 2019

ACTA NOTURNA – O BAOBÁ DE OLHEIROS EM PAPARI – 29.8.2019



ACTA NOTURNA – O BAOBÁ DE OLHEIROS EM PAPARI  – 29.8.2019

Quem come couve-flor experimenta a visão lúdica de contemplar uma pequena floresta de minúsculos baobás espalhados no prato. Nada mais lembra o exemplar africano. É boa pedida para ensinar crianças a gostar da hortaliça. Olhando atentamente a árvore original tem-se impressão de que ela está plantada de raiz para cima. Seu disign é bizarro. O tronco provoca incômodo. Lembra elefantíase. Outrora se assemelha a animal fantástico.
Não é árvore de se encontrar em cada esquina. Por tal razão a exótica espécie, predominantemente de gênese africana – e de outros países quentes, diga-se de passagem – desperta curiosidade. Ao contrário do que se imagina, o estado do Rio Grande do Norte possui vários baobás. Os mais conhecidos e famosos são os exemplares da Rua São José, em Natal (conhecido como “Baobá do Poeta”. O terreno onde a árvore está plantada foi comprado por Diógenes da Cunha Lima. Ele defende a ideia de que essa dita árvore inspirou Exupéry escrever o “O Pequeno Príncipe”. Há quem diga que foi a árvore de Nísia Floresta a dona do mérito. Fantasias à parte, no dia 18 de maio de 2015 publiquei o estudo “Exupéry e o Baobá”. Pode ser lido no meu blog com informações mais substanciais.

O outro exemplar famoso está em Nísia Floresta/RN. Curiosamente a esdrúxula árvore recebe louros indevidos por esse e outros motivos. Os méritos de sua fama pertencem, na realidade, ao “baobá de Olheiros”, em Tororomba, distrito do citado município, pai de todos os baobás existentes na terra das águas. A magnífica árvore, que parecia ter sido plantada de raiz para o céu, não existe mais. Mas sua história resiste à poeira ora espanada. É sobre ele que escreverei, mas para isso precisaremos entender um detalhe sobre a escravidão no nosso estado. 

Baobá localizado no centro do município de Nísia Flortesta/RN, conhecido como "pau do Moura", no linguajar dos idosos.
Os primeiros escravos africanos chegaram ao Rio Grande do Norte no ano de 1600. Como não poderia ser diferente, vieram atender às demandas dos engenhos. Papari abrigou vários deles nos terreiros de suas casas grandes. Mas alguns desciam clandestinamente das embarcações que costeavam as praias locais, conforme registra a historiografia pertinente. Essas escapadas não se deram apenas no RN, mas n’outros estados brasileiros, cujos escravos africanos se jogavam no mar para fugir do que o leitor bem sabe.
A propósito, Papari foi palco da explosão de um movimento de escravos revoltados com essa condição vergonhosa. Eles recebiam guarida de um padre compadecido da dor preta. Os cômodos da labiríntica matriz serviram de esconderijo para muito preto fujão. Sob os olhos piedosos de Nossa Senhora do Ó, os escravos viam o coração sair pela boca, guardados naquele útero de pedra e madeira. Ali tudo era insuspeito aos senhores da cana-de-açúcar. Era o que a santa podia fazer (essa história está no meu blog).
Desenho de Exupéry - Observe a semelhança com a couve-flor

Em Nísia Floresta há uma lenda do escravo que escapa da embarcação e planta o baobá em Papari para se recordar de sua terra. Essa lenda tem fortes possibilidades de não ser originalmente lenda. Assim como tantos e tantos fatos reais atravessaram séculos perpetuando no imaginário popular deturpações e equívocos, estamos diante de um. Exemplo concreto é do pernambucano “Zumbi, herói de Palmares”, em Alagoas; “Ana Jansen”, no Maranhão, dentre tantos, cuja poeira das lendas foi espanada há pouco tempo. Uma pergunta simples nos ajuda a clarear as ideias: como teria surgido um baobá legitimamente africano numa região de vegetação e solo tão diferentes? Essa pergunta não é só minha. Está na historiografia.
Os municípios potiguares que possuem baobás em sua área geográfica, receberam escravos, assim como Nísia Floresta. Portanto, o que se concebe como lenda tem grandes possibilidades de ser fato. Inaceitável supor que o escravo plantou o baobá no centro de Papari, pois o mérito é do velho Moura, como veremos adiante. A propósito, conversando com gente muito idosa, há 26 anos, ouvi a expressão “o pau do Moura”, referindo-se ao baobá do centro. Nessa região as pessoas chamam árvore de “pé-de-pau”, portanto o “pau do Moura” é árvore do Moura. Isso reforça a história.
Baobá na África ´Observe como dá impressão de estar com as raízes para o céu.

Há muito mais revelações nos bastidores do plantio de baobás pelo mundo que se imagina. Somos levados a entender que há um misticismo no caudal da história dessas sementes carregadas tão cuidadosamente, em bornais e bisacos, da África para o mundo. Seria um acordo do povo africano para assinalar que ali chegaram pretos escravizados? É como se o majestoso vegetal significasse um marco. Imaginariam eles que um dia seus ancestrais ou deuses os reivindicariam? Esperança de liberdade? Haveria espiritualidade na ideia de levar a semente justamente do baobá para o país estranho?
Se considerarmos a lógica histórica, podemos crer que esse primeiro baobá plantado em “Olheiros”, localidade do distrito de Tororomba, germinou nas primeiras décadas do século XVII. Os alfarrábios contam que existiam dois baobás em Nísia floresta. Ambos em Tororomba. Um em “Olheiros”; o outro ficava muito próximo dele, mas nessa localidade. Os dois morreram no início do século XX, contando quase trezentos anos. Um era filho do outro.
Ouvi pela primeira vez o topônimo “Olheiros” da boca da senhora Natália Gomes, 90 anos, em 1992. Ela nasceu exatamente ali. Contando sobre sua vida, ela disse, “vovó nasceu na banda de “Olheiros”. A casa ficava encostada num tronco velho de barriguda”. Para quem não sabe, barriguda é o nome que os potiguares chamavam o baobá até pouco tempo. 
 
Quando Fídias, meu filho, era pequeno eu o ensinava a "comer baobás", desses que estão no prato. Brincando ele aprendeu a gostar de hortaliças.
Em 1997 fui ao bairro “Mãe Luísa” entrevistar uma nisiaflorestense de cento e quatro anos de idade. Não me recordo seu nome neste momento, mas ela é da família Cordeiro, do “Monte Hermínio”, bairro de Nísia Floresta. Ela havia se transferido desse município para Natal há muitos anos. A senhora Cordeiro, que na infância vendia água e lenha pelas ruas de Papari, estava ladeada por sua filha que naquele ano contava oitenta e dois anos de idade. Até me surpreendi vendo uma pessoa tão idosa ainda ter mãe. Então a entrevistada explicou que pariu aos quinze anos.  No bojo do diálogo, ela mencionou o baobá de Olheiros e também se referiu ao “pau do Moura”. Nunca mais ouvi o nome de “Olheiros” por parte de outras pessoas. É interessante o desaparecimento de topônimos velhos. Esse não é único. Há vários casos em Nísia Floresta. Eles morrem conforme morrem os idosos. Pois bem, agora veremos como se deu o plantio do baobá próximo a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó.
Em 1870 o presidente da Intendência de Papari, Coronel José de Araújo, espécie de prefeito da vila durante quarenta e oito anos, recolheu uma das cápsulas oblongas que se espalhavam debaixo da árvore tororombense e a ofereceu ao senhor Manoel de Moura Júnior. Este plantou-a em sua casa. Quando ela contava sete anos e já estava com o caule firme, transferiu-a para o centro de Papari, onde se encontra até hoje.
Michael Adanson, estudioso dos baobás (a denominação científica do baobá vem de seu nome)

O nome científico dessa bela dádiva natural é “Andasonia digitata”, homenagem ao cientista Michael Adanson (1727-1806), botânico, naturalista, entomologista, micologista, pteridólogo, antropólogo e explorador francês, estudioso dessa árvore no Senegal e outros países daquele continente. Ele nasceu em Aix-em-Provence, aos sete de abril de 1727, e faleceu em Paris, aos três de agosto de 1806. Adanson descreveu a espécie Adansonia digitata, seu nome genérico. Em 1763 publicou a importante obra “Familles Naturelles dês Plantes. Era irmão de Jean Baptiste Adanson, (1732-1803), intérprete e chanceler da França no Oriente. A palavra digitata se inspira nas folhas do baobá, cujo formato nos reporta aos dedos humanos, onde há as digitais. Mas o baobá de Nísia Floresta, aliás, os baobás trazem mais que revelações. Trazem incógnitas como veremos adiante. É a sua relação idade/ diâmetro/altura. É impressionante a discrepância nos baobás de Nísia Floresta.

Baobá na África do Sul - seis mil anos de idade

Sobre a estimativa de vida dessa planta e as características típicas de seu desenvolvimento, há curiosidades incríveis. O cientista Anderson fez cálculos tendo como base um baobá típico de Cabo Verde, o qual teria cinco mil anos. Considere que o diâmetro normal de um baobá é de mais de oito metros, e para se chegar a esse ponto é necessário oitocentos anos de idade. O Baobá de Nísia Floresta tinha nove metros e dez centímetros de tronco, numa altura de um metro do solo em 1941, quando contava 64 anos de idade, ou seja, estava incomparavelmente maior do que se tivesse oito séculos de vida. Por tal lógica julgaríamos que esse baobá já estivesse muito grande quando Pedro Álvares Cabral encostou as suas caravelas por aqui. Todos os viajantes e pesquisadores que se depararam com baobás em países africanos registram troncos anômalos.
Que mistérios a terra, a água e os ares do Rio Grande do Norte, em especial de Nísia Floresta, exercem nesse vegetal a ponto de alterar o seu desenvolvimento ou mexer na sua “genética”? Só um botânico explica. Isso faz crer que algo interfere em seu desenvolvimento e da mesma forma nos outros baobás nisiaflorestenses, pois todos fogem a regra. Crescem a olhos vistos.
Há um baobá nos fundos do Sítio Mãe-Ia, altura de Golandi. Esse exemplar pode ser filho do baobá de Olheiros (ou teria sido fruto da primeira floração de sementes do baobá do centro, considerando a lógica de sua genética). É o mais velho baobá depois do exemplar plantado no centro da cidade. Em seguida vem o baobá de Oitizeiro (defronte ao cemitério), em seguida temos o baobá ao lado do Fórum de Justiça (plantado pelo Senhor Marcos Vinícius, ex-juiz de Direito de Nísia Floresta, em 2007). Por último temos o baobá do Sítio Traque, em Tororomba (plantado pela Senhora Lurdes Maia em 2005). Esses três últimos baobás, todos filhotes do baobá do centro, crescem prodigiosamente, desafiando a sua própria natureza. Hoje em dia cientistas modificam a genética das plantas mas não é o caso desses exemplares, os quais não passam por processo artificial algum. Considerando a característica peculiar dessa planta de desenvolvimento muito lento, conforme o revela o cientista Miguel Adanson, resta-nos reconhecer que algo por aqui acelera a sua desenvoltura. Mas o quê?
A propósito de tratarmos sobre baobás, é interessante citar o baobá de Parnamirim, que conta vinte e três anos de idade e parece ter cem anos a julgar pelo surpreendente desenvolvimento. A bela árvore está localizada no Parque Aluízio Alves. Em 1995, houve um evento envolvendo várias instituições no plantio de árvores naquele parque. Levei várias mudas nessa ocasião. Dois anos depois ocorreu grande movimentação em prol de reflorestamento da mata da Bica, em São José de Mipibu. Escolas e instituições ligadas ao meio ambiente e cultura estiveram ali em peso. Levei dois baobás e ali os plantei juntamente com mais de quinhentas mudas adquiridas pelos organizadores do evento. Mas um fato deplorável se efetivou pouco tempo depois. O proprietário das terras mandou arrancar tudo, instigado por pessoas que o precaveram de que aquele plantio poderia colocar em risco a posse de sua propriedade. Lástima!
Retomando ao assunto do baobá, há versões diferentes sobre como o baobá do centro chegou à bucólica vila de Papari. Uma delas pode ser lida no Museu Nísia Floresta. Também temos a lenda, que na realidade é a história real deturpada pelos séculos. Nas minhas investigações de História Oral, antes de encontrar algo escrito, também ouvi a lenda e a escrevi no meu blog. Encerro aqui essa importante reflexão sobre os baobás cujo exemplar do centro da cidade goza de parte da fama que pertence ao seu genitor, o baobá de Olheiros.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

ACTA NOTURNA – SOCORRO TRINDADE, A ESCRITORA QUE "NÃO TEVE NADA A DIZER" – 25.8.2019


ACTA NOTURNA – SOCORRO TRINDADE, A ESCRITORA QUE "NÃO TEVE NADA A DIZER" – 25.8.2019

Um velho adágio anuncia desde os primórdios dos folclores que “santo de casa não faz milagres”. É verdade. A escritora ficcionista, poetisa e jornalista Maria do Socorro Trindade de Oliveira personifica-o bem. Filha do empresário Olavo Oliveira, o “Olavo do Camarão”, como era popularmente conhecido, e da professora Conceição Bezerra da Trindade, ambos falecidos, nasceu aos 18 de outubro de 1950, dois anos após o município de Papari ter o seu nome mudado para Nísia Floresta.
Socorro Trindade, como é mais conhecida, nunca foi reverenciada em sua terra natal, Nísia Floresta/RN, mesmo reconhecida nacionalmente. Depois da intelectual Nísia Floresta, nenhum nativo desse pequeno torrão potiguar se projetou mais que ela em nível nacional e pelo impacto da obra. Mas em Nísia Floresta, conta-se nos dedos quem leu suas obras ou conhece a sua história. É como se ela não existisse na cidade que a ignora. Suponho que depois deste texto, como ocorre sempre, choverão homenagens e darão conta da inobservância. Mas, antes, que aluno bateu à sua porta para pesquisar suas obras? Que universitário ali esteve para citá-la numa tese acadêmica de Literatura? Qual Feira de Ciências a reverenciou? Qual evento literário potiguar a colocou no centro das falas? Quem a convidou para um evento cultural? Quase todos ignoram o grande mito. E ela age com a mesma indiferença. Ou melhor, nem pensa nisso.
Há uma aparente indiferença – ou alheamento – em torno de sua obra. Confesso ter observado até mesmo certa hostilidade por parte de alguns. Lembro-me, em 1992, quando cheguei à Nísia Floresta, soube da existência dessa intelectual nisiaflorestense e me encantei com a notícia. Perguntei sobre ela a um professor nativo. Nessa época ela morava no Rio de Janeiro. Espantei-me quando o indagado criticou ferrenhamente o trecho de um de seus livros no qual ela retratava poeticamente a significação de sua mãe.
Naquela época eu não conhecia nem Socorro, nem sua obra. O nativo interpretou literalmente um trecho, sem refletir a graça literária nele contida. Ele considerou a composição despudorada. Desse dia em diante, instigado pelo detalhe, passei a analisar o trecho, mas o interpretei de maneira diferente. Vi uma carga poética incrível quando ela trabalha determinada metáfora.
Sabemos que um poema ou uma prosa, assim como pintura artística, não clamam necessariamente por interpretações. Tudo têm a sua graça verbal ou criticidade respectivamente. Muitos buscam entender o que o autor quis dizer com a tela pintada, a frase estranha, enfim, mas não é praxe. O sentido real está na sensação, nas deduções, suposições etc. Particularmente vi poesia pura em sua prosa, cujos detalhes prefiro omitir para que o leitor tire suas conclusões.
Em 1995 tive o prazer de conhecê-la e conversar sobre sua obra e Literatura Brasileira. Daí passei a lê-la e entre suas idas e vindas para o Rio de janeiro, eventualmente conversávamos. Tenho essa lembrança dos meus primórdios em Nísia Floresta e achei interessante aventá-lo, já que escrevo sobre ela.
Sua família sempre foi católica praticante. A menina Socorro foi educada dentro da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. “Eu ia com vovó, vovô e minhas tias. Eles não perdiam missas, procissões e tudo que a igreja realizava. Uma vez eu fui anjo e participei da coroação de Nossa Senhora. Nunca me esqueci daquele momento tão emocionante”.
CONVIDADA A ASSISTIR AO DESFILE CÍVICO DE 1999, SOCORRO SE FEZ PRESENTE
Socorro Trindade fez o ensino primário na Escola estadual Nísia Floresta no próprio município. Equivalia do primeiro ao quarto ano inicial. Em seguida cursou o “ginásio” no Colégio Nossa Senhora das Neves. Equivalia do quinto ao oitavo ano. Depois cursou o “Científico” no Colégio “Atheneu Norte-Rio-Grandense”. Equivalia ao segundo grau, depois denominado ensino médio. Esses dois últimos cursos deram-se em Natal, capital do Rio Grande do Norte.
Socorro Trindade sempre se afeiçoou aos livros, e desse modo foi despertada a escrever desde pequena. “Eu passava a noite e entrava a madrugada escrevendo. O motor que gerava energia elétrica parava e eu acendia os candeeiros. Era um lápis-grafite e um caderno sempre perto de mim, atendendo a minha inspiração. Tudo em Nísia Floresta me inspirava: a natureza, a arquitetura antiga, a própria igreja, o baobá, as praias, enfim tudo... mas depois eu fui me afastando dos poemas ligados a natureza, preocupada com outras temáticas. A cidade de Nísia foi o meu exercício de escritora. Nunca quis guardar os escritos de infância e mocidade... não tenho nada”.
Quando moça, Socorro Trindade trazia beleza singular, despertando olhares. Tendo ido estudar em Natal, chamava a atenção. Todos queriam saber quem era a jovem Socorro de Nísia Floresta. Os rapazes faziam todo tipo de corte, mas ela não se simpatizava.
Em 1967, aos 17 anos, incentivada por admiradores concorreu ao concurso “Rainha da Cana-de-Açucar”, evento tradicional, ocorrido anualmente em Ceará-Mirim, e trouxe a faixa de campeã para Nísia Floresta.
Mal saiu da adolescência, ainda estudante, conheceu Luís da Câmara Cascudo, seu professor de História no Colégio Atheneu. Em 1972, aos 22 anos, publicou em Fortaleza/CE, a obra “Os olhos do lixo”, Editora Jurídica Ltda. Trata-se de uma novela de ficção, cujo prefácio foi assinado pelo notável folclorista.
Concluído o ensino médio iniciou o curso superior de Comunicação na Universidade Federal do Ceará e o terminou na Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo se transferido para aquele estado em 1976. Lá apresentou a tese intitulada “Laboratório de Criatividade”. Na terra da “garota de Ipanema” exerceu funções no Museu de Arte Moderna e jornais locais. Editou nessa cidade o suplemento literário da Tribuna da Imprensa e coordenou o setor de literatura do Museu de Arte Moderna, onde criou o Laboratório de Criatividade.
Eu tinha o sonho de conhecer o Rio de Janeiro, lugar que reunia o melhor que se tinha de cultura, educação, enfim não se podia comparar com Papari ou o próprio estado do Rio Grande do Norte, muito provincianos naquele momento. No Rio de Janeiro freqüentei os melhores ambientes culturais e educacionais, li de tudo, conheci muitos escritores a artistas famosos. O Rio foi o meu auge, mas nunca esqueci minhas raízes, visitava muito Nísia Floresta e todos pediam que eu retornasse”.
Seu segundo livro, de contos, “Cada cabeça uma sentença”, Ática Editora, saiu em 1978, publicado no Rio de Janeiro, pois suas relações com aquele estado nunca se encerraram devido às amizades ali construídas. “Era um livro de contos, tendo a Justiça como personagem principal”, explicou Socorro.
No fim de 1979 o Rio Grande do Norte promoveu concurso para seu quadro docente e Socorro Trindade foi aprovada como professora do curso de Comunicação. Foi uma das mulheres pioneiras a exercer o magistério nessa instituição. Naquela época precisou atender as necessidades da universidade com dedicação exclusiva. “Eu praticamente morava na UFRN, pois lecionava nos três turnos”. 
No início de 1980, regressou a Natal, tendo sido professora do Departamento de Comunicação Social da UFRN, onde exerceu também cargos administrativos. Na UFRN, implementou diversas iniciativas visando estimular a criação literária, entre elas, o Laboratório de Criatividade, que reuniu diversos intelectuais natalenses e jovens aprendizes da arte poética. A produção do Laboratório era divulgada no jornal-poster Dito e feito e na revista Grande Ponto.
Em 1981 publicou Grande Ponto: Laboratório de Criatividade, pela Editora Universitária. Ainda em 1981 lançou Feminino feminino – Ensaio, também pela Editora Universitária.
Em 1982 publicou uma obra de poesia no Rio de Janeiro “Uma Arma Para Maria, Editora Codecri.
Em 1985 publicou “Eu Não Tenho Palavras - o diário da democratização pessoal”, Editora Codecri, Rio de Janeiro, sua segunda obra. Certamente a mais lembrada até hoje, aclamada como o melhor livro do ano pela Academia Brasileira de Letras, Academia Jornalística e UFRJ. Tinha como subtítulo “O diário da democratização”. Com esse livro ela foi precursora da ideia de iniciar a democratização a partir de nós. O livro era totalmente em branco. Com exceção ao título e normas da ABNT, não trazia uma palavra sequer.
Loucura da escritora?
Não. Espírito crítico e criatividade associados.
“Escrevi esse livro para que as pessoas escrevessem nele. Era um tempo de medo. Na realidade o livro falava sem precisar palavras. Quem escreveria nele? O que escreveriam?”. Muitas pessoas não me compreenderam por isso. Também fui criticada por alguns. Perguntavam como alguém tem tanto trabalho para publicar um livro e se dava ao desplante de não ter escrito nada? Mas se tem algo que nunca me incomodei foi com opiniões alheias. Se escrevesse pensando em opiniões, não promoveria a arte, não seria literatura”.
“Eu Não Tenho Palavras” é um dos livros mais famosos e interessantes de Socorro Trindade, exatamente pela audácia. Em plena ditadura militar, idealizar uma performance que não deixava de ser provocativa, contrariando os generais que não aceitavam opiniões, era atitude muito corajosa. Depois de Nísia Floresta, Socorro Trindade foi a mulher mais corajosa no sentido de dizer “alto lá!”.
Ao escrever um livro sem palavras, passando por louca, ela criticava – sem palavras – aqueles que queimavam livros e arquivos, demonstrando que o seu livro não podia ser censurado porque não continha nada. O livro continha silêncio. Mas um silêncio que incomodava mais que milhões de gritos das ruas. E o livro aceitava palavras. Mas quem escreveria? E escreveria o quê?  O livro era realmente sem palavras? Creio que tenha sido o livro sem palavras mais gritante que se tenha publicado.
Sua quarta obra foi “Feminino Feminino”, uma biografia de Nísia Floresta, publicado em 1981 pela Editora Universitária de Natal. A ideia é contemplar o nome de Nísia Floresta no panteão das mulheres pioneiras na história do feminismo brasileiro.
Em 1985, ano do centenário de morte de Nísia Floresta, a Fundação José Augusto organizou um círculo de palestras em Natal. A imprensa publicou artigos assinados por diversos intelectuais. Nesse tempo Socorro Trindade se envolveu numa polêmica, publicando o texto intitulado “Nísia Floresta é mito ou persona non grata?” Escreveu “Nísia Floresta tornou-se mito por ser maldita” e “para desvendar o mito é necessário desvendar a maldição”. Quando ela diz ter sido sua conterrânea uma “puta erudita” comprou briga com uma porção de escritores e admiradores de Nísia Floresta. Muitos a rebateram nos jornais.
Até hoje soa incompreensível o real objetivo de Socorro Trindade nesse feito, principalmente porque os seus escritos anteriores enaltecem Nísia Floresta. Interessante essa passagem, pois Socorro endossa o que Isabel Gondim escreveu em 1884. A propósito, essa conterrânea é mais conhecida por ter denegrido Nísia Floresta que por sua própria obra. Todos os que falam sobre ela, ressaltam essa página criada pela conterrânea que nunca a conheceu.
Enquanto professora universitária, em Natal, Socorro Trindade assinou vários textos nos jornais Diário de Natal e Tribuna do Norte, inclusive em 1979 escreveu uma página inteira sobre a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó e nessa ocasião ressaltou a urgência de um reforma, pois o templo já oferecia riscos de desabamento. A dita reforma viria quase vinte anos depois, na administração do padre João Batista Chaves da Rocha.
Em 1990 publicou O Dia Público e os Outros Dias, Editora Ponto Oito. Desse tempo em diante, eventualmente ela é convidada para participar de antologias poéticas. Tem textos publicados em jornais e revistas do Rio de Janeiro, Ceará, São Paulo, Minas Gerais, Paraíba e do Rio Grande do Norte. Em 1994 publicou a novela Natal, pela Edições Ponto Oito.
       Socorro Trindade, hoje, parece ter imitado o gesto solitário de Nísia Floresta, a qual se recolheu na pacata e medieval Rouen, na França, protegendo-se da vida tumultuada de Paris. Cansada do Rio de Janeiro ela aquietou-se na antiga casinha fincada logo na entrada do município, bem acompanhada pela tia sobrevivente numa família de dez irmãos, senhora Terezinha Bezerra da Trindade. Parece bastante adequado para quem entendeu ter chegado a hora de parar. Socorro Trindade aquietou-se enquanto escritora e pessoa pública. Escolheu a sua paz pessoal. Hoje é avessa a entrevistas.
Um detalhe alça o incompreensível nessa história: Socorro Trindade não possui sequer um exemplar original ou cópia de seus próprios livros. É inacreditável. Perguntei sobre isso e curiosamente não senti que ela lastimasse o fato. Creio que alguns escritores têm essa irreverência acerca do seu legado. O genial Franz Kafka, ao perceber que estava morrendo, implorou a seu amigo Max Brodi que queimasse todas as suas obras, inclusive os manuscritos que iriam a prelo. Ainda bem que o amigo não cumpriu o pedido do morto. Não sei! Seja como for, essa é Socorro Trindade, admirável intelectual que se sente bem dentro de seu silêncio. Hoje, sua profecia se cumpriu ao contrário. Ela parece nos dizer literalmente “Eu Não Tenho Palavras”.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

ACTA NOTURNA – BARRETA: A PRAIA DE “ZÉ DE TATÁ” –



ACTA NOTURNA – BARRETA: A PRAIA DE “ZÉ DE TATÁ” – 21.8.2019
Distante 55 km de Natal, acessível pela RN 063, via Rota do Sol, descortina-se a bela praia de Barreta. Um muro de dunas altas, areias finas e alvas jaz imponente, servindo de morada para pescadores antigos que dividem espaço com veranistas. Nos seus detrás um tapete vivo de verdejantes arbustos esconde rios, olhos d’água e uma fauna e flora riquíssima: tijuaçu, camaleão, preás, raposas, cobras, infinidade de pássaros e outros animais. Sem contar as espécies quase invisíveis, moradoras submergidas em folhas e troncos secos.
No passado ninguém dava valor à praia. Era diversão de poucos. Não é à toa que nos primórdios da “civilidade brasileira”, os escravos buscavam as praias para despejar tinas carregadas de dejetos humanos, levados dos casarões dos seus ricos senhores. Os penicos eram despejados logo de manhã. Tudo ia para o mar. Praia era local de jogar lixo, restos, coisas imprestáveis. Por muitos anos as praias nisiaflorestenses, e de toda a região, eram inabitáveis.
O nome Barreta é oriundo de uma minúscula barra formada pelas águas de rios e lagoas integrantes de um grande complexo de águas que se avizinha acima e abaixo de todo o município de Nísia Floresta. A expressão ‘Barreta’ significa ‘barra pequena’. ‘Barra’ é a foz de um rio ou riacho. Já expliquei com riquezas de detalhes o assunto numa Acta Noturna, neste mesmo blog: http://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2019/07/actanoturna-4.html
       Barreta é uma praia linear, cujas ondas são quebradas nos arrecifes que formam amuradas em toda a sua extensão. Uma característica interessante são as piscinas naturais formadas durante a maré-baixa. Em outros pontos formam-se deliciosas cachoeiras quando a maré está enchendo. Muitos preferem o banho nesse local que, coincidentemente, fica defronte ao restaurante do primeiro morador da Barreta, o respeitável e querido senhor “Zé de Tatá”. Isso será explicado abaixo.
O fluxo de gente nessas piscinas vai de janeiro a janeiro, mas durante os períodos de veraneio há uma explosão demográfica. Turistas do mundo inteiro se misturam aos quase-turistas que vêm de todas as cidades vizinhas. Só se vê crianças e adolescentes dando piruetas e se jogando nas águas como a disputar o melhor pulo. Talvez esse tenha sido o som mais ouvido na vida pelo velho pioneiro. Som de criança. Som de meninos zombeteiros.
       Nessa praia reinou, imponente, um coqueiro exótico que entortou a tal ponto que adquiriu forma de um gogó de ema. Os nativos o denominavam “corcunda da Barreta”. Ainda alcancei o espécime, o qual arriou em 2003, empurrado pelo vento soprado do Atlântico. Infelizmente o lindo exemplar não existe mais.
      A praia de Barreta foi habitat natural dos povos indígenas tupis no século XVI. Eles viviam da pesca artesanal seja nas lagoas próximas e no mar. Das matas tiravam mel e caça. Os tupis dessa região, assim como boa parte dos índios brasileiros, também foram vítimas da exploração dos exploradores europeus. Aqui, nesse caso, foram portugueses, holandeses e franceses. Eles os colocavam em constantes confusões devido à ganância por tudo o que viam por ali: búzios, penas de animais, madeira, âmbar, mel enfim. Quem mais tirou proveito deles foram os portugueses, os quais se irmanavam mesmo em voltas com confusões. Breves inimizades.
       Como se sabe, há um povoado próximo denominado Cururu. Lugar antiquíssimo. Primórdios da organização branca nesses ermos. O lugarejo foi inundado várias vezes por ser muito baixo. Verdadeira bacia entre dunas alvas como algodão pincelado pelo verde dos arbustos. Tem caju como floresta. Tais enchentes motivaram os cururuenses a migrar para a Barreta. Lugar seguro e com garantia de alimento na porta da casa. Originalmente os “condomínios” eram todos de troncos de coqueiro cobertos com varas e palhas da própria palmeira. Os mais “ricos” erguiam casinholas de taipa. O barro vinha nos caçuás carregados pelo animalzinho que carregou Jesus. Hoje os pobrezinhos vivem abandonados, atropelados, comendo lixo, morrendo à míngua. As motos tomaram o seu lugar. Era para cada nordestino adotar um jumentinho. Muitos são ricos pelo suor desses bichinhos. Era o automóvel da época. Vinham devagarzinho, vencendo dunas sucessivas, carregando caçuás cheios de comida e meninos buchudos, gritando, assustando calangos e passarinhos.
       Em 1930, instalou-se na praia de Barreta o senhor José Anísio da Silva (“Zé de Tatá”) e sua esposa Marinete Monteiro da Silva. São os primeiros moradores. Deixaram um sítio denominado “Patos”, bem próximo dali. Em seguida instalou-se Cícero José dos Santos e Letícia Felix dos Santos, vindos de Cururu. Em 2010 ele contou-me uma grande decepção que teve com o poço de água potável de sua propriedade. Suas águas se tornaram salgadas pela ação de uma empresa vizinha que despeja águas salgadas sucessivamente nas proximidades, gerando o fenômeno que acomete toda a vizinhança.
       Até 1992 existia a antiga capelinha de Nossa Senhora da Conceição exatamente onde hoje é o Barreta Praia Clube. Os moradores, como são muito dados a festas, entenderam por bem fazer uma barganha, trocando o terreno da capela por um terreno no cume da duna, com a vantagem de ser maior. A capela foi demolida. O terreno da igreja foi doação do senhor Rinaldo Itamar da Silva e pelo Conselho da Barreta Praia Clube, na pessoa do seu presidente, Ivanildo Ramos de Oliveira. A informação está no Contrato Particular de Cessão de Posse e Venda e Benfeitorias, datado de 3 de fevereiro de 1994. Em fevereiro de 1994 houve a inauguração. Os fogos espocaram, ecoando nas águas do Atlântico aos cuidados do padre João Batista Chaves da Rocha. A visão de mirante era privilegiada antes de erguerem sucessivas casas de veranistas.
A agremiação “Barreta Praia Clube” já foi referência em grandes eventos, atraindo a mocidade de todas as cidades vizinhas, principalmente durante o Carnaval. Ali tocaram grandes bandas.  O local se transforma em formigueiro humano. Há gente que prefere o furdunço do lado de fora. Não entram no clube. Foi exatamente no início da década de 1990 que o jovem Josimar Trindade, popularmente conhecido como “Bóca”, juntamente com alguns jovens da localidade, fundou a maior atração carnavalesca da região, o “Barreta Gay”.
O cortejo sai da Barreta e se encerra em Camurupim. A característica original da festa é de homens heterossexuais vestidos de mulher. Os brincantes levam água, farinhas, gomas e arremessam em carros e pessoas. Verdadeiro “entrudo” do início do século passado. Atualmente há grandes carros de som e minis-trios-elétricos. Tudo se iniciou de maneira acanhada e simples. Hoje é a grande atração do carnaval de Nísia Floresta. E como Folclore é coisa viva e mutante, todos se vestem de mulher, até mesmo mulheres. Uma curiosidade desse evento é a ausência de violência. Talvez a tônica pitoresca e circence do evento, protagonizado por famílias que se juntam em meio a jovens, crianças e velhos, impõe-se com naturalidade o que podemos chamar de “carnaval respeitável”. Uma das grandes curiosidades dessa festa, segundo um depoente, foi a presença do ex-prefeito George Ney Ferreira vestido de mulher, o qual lembrava uma mocinha gorda e barriguda. Contam que foi uma das maiores atrações locais em tempo passado.
O cansaço dos brincantes é despejado sem dó nem piedade na belíssima lagoa de Arituba, em Camurupim, praia divisória, lugar de águas deliciosas e revigorantes. Ali tudo termina, menos a Barreta. A Barreta é para sempre.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A mulher que enganou o diabo



A MULHER QUE ENGANOU O DIABO
Certa vez uma mulher encontrou uma garrafa de vidro. Era recipiente diferenciado. Chamava atenção. Ela a tomou às mãos. Percebeu algo esquisito se mexendo dentro. ERA O DIABO!!!
Ele disse:
- A belíssima dama poderia me tirar daqui? É só destampar a garrafa.
A mulher percebeu a argúcia da estranha figura, pois ela mesma se achava feia demais. Mas como era velha e calejada pela vida, não se importava com piadas. Quis se divertir com a situação, e disse:
- Pois bem, nobre cavaleiro, claro que posso. Eu tenho poderes para lhe soltar e lhe prender.
No mesmo instante retirou a tampa e o diabo saiu num jato, acomodando-se sobre uma pedra. Muito aliviado, disse:
- Ufa! Graças a Deus!
A mulher redarguiu:
- Estranho! Justo o senhor dar graças a Deus! Nunca imaginei ouvir o diabo dar graças a Deus?!!!
O diabo atalhou:
- Eu disse isso?!!!
- Claro! Tu disseste um claro e notório “Ufa! Graças a Deus!”
- Ave Maria! Cruz Credo três vezes, eu falei isso sem querer (disse isso batendo num galho seco de árvore). Foi força de expressão!
- Olha agora o que acabaste de falar!
- Como assim?
- Tu acabaste de dizer claro e em bom som “Ave Maria! Cruz Cedo três vezes!” Ainda bateste numa madeira três vezes!
- Eu disse isso? Sostô!!! Que presepada bater em madeiras... coisas desses folclores velhos!!!
- Seja como for, tu disseste “Ave Maria! Cruz Cedo três vezes!”
- Meu Deus! Logo eu dizer isso!
- Pois, sim. E agora acaba de dizer “Meu Deus! Logo eu dizer isso!”
- A senhora está querendo me enlouquecer, pelo visto. Bem que me disseram que com mulher não se brinca. São ladinas como as serpentes!
- Se se brinca ou não se brinca, o senhor é que deve estar brincando! Mas chamaste por Deus. Ouvi muito bem com essas oiças que Deus mo deu.  
- Certo. Eu até acredito, mas quis mesmo chamar pelas potestades do mal.
- Cruz Credo!!! Vire essa boca para lá! Leve o teu mal para os mil e seiscentos diabos!
- Ora! Mas a senhora disse que tinha poder para me soltar e me prender novamente. Senti vontade de rir ao ouvir essa bestagem, mas como queria ajuda, me calei. Que invenção é essa?  Respeite, a senhora está falando com o diabo. Não sou qualquer coisa. Não é tão esperta? Toma-me nas mãos e me coloque de volta na garrafa!
Percebendo o erro que acabara de cometer, a mulher pensou logo em reverter a situação, mas preferiu lhe dar corda inicialmente.
- Senhor diabo, eu só estava brincando. O senhor é que tem poder. Quem sou diante de tamanha criatura.  Mesmo se tivesse poder para colocá-lo de volta não o faria, pois estou adorando a vossa companhia. Se estivesses na garrafa não estaríamos em prosa tão agradável. Eu sempre quis conhecer o diabo!
- Ah! é? Mas eu não posso ficar aqui perdendo tempo com vossa pessoa. Preciso sair aí pelo mundo em busca de malfazejos. Tenho muito serviço... pois é, já me vou indo!
       - Não vá – insistiu a mulher - fique e prove de fato que tens poder. Queria ver na prática o que dizem sobre vossa nobre pessoa. Nunca vi nada demais que vossa persona tenha feito.  Dão-te toda essa protuberância meléfica... mas, com perdão da palavra, estás parecendo um bobinho, aliás, bonzinho!
       O diabo, inchado de raiva e vermelho igual ao diabo, bravejou:
       - Sois abusada mesmo! Diga o que queres?
   - Se sois esse cara todo que falam, cheio de malevolências, infernizador-mor do mundo, entre e saia novamente da garrafa. Duvido! Tu lá tens poder para isso? Sois um mentiroso!
       - Oras bolas, que ingênua. Esqueces que sou o pai da mentira. Mas se achas que sou um ingênuo qualquer, estás benevolamente enganada. Mostro que entro e saio disso sem problema algum. Não viste que saí como um raio?!!!
       - De fato! Mas deixes de blábláblá e te enfia nessa garrafa que ganha muito mais. Tu tens lá maldade. Sois bonzinho igual a um anjo da guarda!
       O diabo, ainda mais inchado deu uma guinchada e num rompante apareceu dentro da garrafa.
       - Veja, disse ele – estou cá dentro – percebe?
       - E não é verdade, mesmo!!! Pois dê umas piruetas...
       Enquanto o diabo estava entretido com a falácia, ela pegou imediatamente a tampa e meteu-a na boca da garrafa, prendendo o bute.
       - Pronto! Continue dançando! Danças bem, aliás, mal...
       - Maldita! Infeliz! Demônia dos mil e setecentos diabos me enganaste! Sois ladina!
       - Claro, meu jovem fedido. Estava só no banho-maria. Quando percebi que eras o diabo em pessoa, aliás, em espírito mal... espírito de porco... vi a gravidade do que fiz. Coloquei o mundo em risco. Desde que o libertei, me vi no dever de criar um contexto para levá-lo no bico e engarrafá-lo novamente. E veja que caíste como um diabinho desajuizado! Pois bem. Fique aí bem quietinho! Vá dormir com os anjos...
       O diabo desmaiou de ódio ao ouvir tamanho insulto.
       Ela aproveitou e enterrou a garrafa bem no fundo de um buraco. Pôs até uma pedra sobre ela. Esse episódio se deu na Barreira do Inferno.
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       Sempre ouvi alguém dizer que ‘a mulher enganou o diabo’. Nunca ouvi alguém contando a história. Certo dia, sem que eu estivesse sequer imaginando algo parecido, ouvi o esqueleto dessa história dentro de um VLT, em 2017, contada por um bêbado. Ele adentrou no veículo dizendo pilhérias e abusos. Todos se afastaram. Fedia a urina. Uma mulher disse-lhe algum desaforo. Ele mastigava algumas palavras tronchas contra ela. Percebi quando ele disse: “mas também a mulher enganou o diabo!”. Aproximei e engatei conversa. Fiquei curioso com o que ouvi. Perguntei-lhe: que história é essa de a mulher ter enganado o diabo? Ele disse: o senhor nunca ouviu? Não, respondi. Renunciei ao meu olfato para não perder a oportunidade de tamanho tesouro. Peguei do lápis e agenda. Anotei os tópicos. Somente ontem organizei este texto, lembrando que hoje seria o dia do Folclore. Foi assim em meio ao aroma de mijo que tenho a graça de oferecer-lhes a história...