ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 29 de agosto de 2020

Deus entre a cruz e a espada - Opinião

 


DEUS ENTRE A CRUZ E A ESPADA - CASO FLORDELIS E PADRE ROBSON À LUZ DE UMA REFLEXÃO.


Esses dias têm me sido incomparavelmente muito mais duros pelo que assistimos nas redes sociais EM NOME DE DEUS – do que pelos próprios efeitos decorrentes da Pandemia do Novo Corona Vírus. Particularmente tiro de letra a Pandemia, lendo, escrevendo, assistindo a bons filmes, conversando em família etc... mas as notícias... que notícias! Como nos fazem mal...

Tenho me deparado com católicos muito tristes, escandalizados com as acusações de corrupção que Justiça faz ao padre Robson, decorrentes das doações dos católicos à ANFIPE, Associação Filhos do Pai Eterno, vindas à tona a partir de extorsões de um suposto relacionamento homoafetivo do padre, cujo rapaz armou uma trama envolvendo extorsão, vida de alto luxo, um sino de seis milhões de reais, desvios de dinheiro das obras para compra de mansão na Bahia, fazenda e investimentos em mineração. Como não bastasse chega ao fim a investigação do assassinato do pastor Anderson, cuja esposa Flordelis, pastora evangélica e também Deputada Federal pelo Rio de Janeiro, arquitetou o crime. História horrorosa. E quando a assassina é uma pastora evangélica choca ainda mais, pois se constata uma morte “EM NOME DE DEUS”.

É incompreensível e estúpido alguém preferir assassinar o marido a se separar, alegando que o divórcio é pecado. No processo ela diz exatamente assim: “... fazer o quê? Separar não posso, porque ia escandalizar o nome de Deus...”. Os fatos se agravam quando sabemos que essa pastora representa parte do povo brasileiro na Câmara dos Deputados Federais, no caso os evangélicos.

Não é a minha intenção ferir ou atacar nomenclaturas religiosas, mas alegarem que essa mulher não é evangélica é tapar o sol com a peneira. É rir da cara de todos. Ela é e sempre foi evangélica, assim como o padre Robson é padre, e sempre foi católico. Se ambos fatos não tivessem sido descobertos, eles estariam em ação, EM NOME DE DEUS. Uma, assassina comprovada pelos autos, outra, suspeita de ter desviado dinheiro de milhões de brasileiros católicos. Mas ele não é suspeito de comprar um sino de seis milhões. Ele comprou o sino, comprou as fazendas, comprou a mansão e comprou a mineração, alegando estar investindo. A Justiça diz não "engolir" isso, tendo em vista que em plena construção de uma mega igreja (que se encontra só nos alicerces, mesmo tendo passado oito anos do início da campanha), se use o dinheiro para investir, esquecendo a obra e se vivendo vida de rei.

Conheci uma senhora de 78 anos que enviava mensalmente cem reais de sua humilde aposentadoria de um salário mínimo. Nunca falhava: dona “Maria do Carmo”, esposa do “Sr. Bambão”, de Papari. Ela deve estar se remoendo no túmulo.

Sobre a deputada e pastora evangélica Flordelis, a mesma não pode ser presa porque tem IMUNIDADE PARLAMENTAR. Vejam que recurso absurdo e descarado. Bem a cara da maioria dos políticos brasileiros. Serve para favorecer bandidos. Mas Flordelis foi denunciada, e o pedido acatado. Resta-nos aguardar que a Justiça, através do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados a expulse. Só assim ela será presa. Não é possível que seguiremos tendo uma MANDANTE DE CRIME como representante de um dos pilares da Constituição Brasileira, chamado Câmara dos Deputados.

Flordelis veio da favela. Era pobre de Jó. Lentamente alçou voo sobre camada social mais poderosa, até se tornar cantora gospel, cada vez mais conhecida em todo o Rio de Janeiro. Logo começou a adotar crianças abandonadas, depois se casou. Até aí é digna do respeito e aplauso de todos, afinal tudo isso denota resiliência, luta, solidariedade com o próximo. Lembrando que a a sociedade brasileira é preconceituosa, discrimina pobres e favelados. Inegavelmente a pastora Flordelis era uma heroína. Mas até aí ninguém imaginava que ela já estava casada com um dos filhos adotivos, dezesseis anos mais jovem que ela.

Filhos adotivos não diferem quando o assunto é INCESTO, portanto ela vivia um incesto que só os filhos sabiam. Tudo piora quando o processo revela que esse marido foi tomado de uma das filhas de Flordelis, que também era irmã dele. Fatualmente eles viviam um filme na vida real, e esse filme poderia se chamar “A CASA DO TERROR”. Era uma salada macabra, envolvendo orgias sexuais, rituais estranhos, cultos evangélicos, louvores, unções, gravações de vídeos, brigas, ameaças, alimentos separados conforme o “valor” de cada filho, brigas por dinheiro de bilheteria de shows gospel... uma das filhas, que vinha envenenando lentamente a comida do pai-irmão, disse: "esse pastor Anderson é difícil de morrer"... por fim descobriu-se - conforme o processo - que ela mantinha relações sexuais com outro filho, ou seja, traia o filho-marido com outro filho, enfim O INFERNO DE DANTE ALEGHIERI e O AUTO DA COMPADECIDA, de ARIANO SUASSUNA moravam naquela casa.

Ela entendia que matar o marido-filho era menos feio de que se divorciar, pois ao se separar quebraria um princípio bíblico - ou o sacramento do matrimônio. Ou seja, a “mulher separada” ficaria feia diante dos olhos de Deus e da sociedade. Veja como é forte nela a tradição que a própria Nísia Floresta combatia há mais de cem anos. Entendam o psicológico flordelisiano: ela não achava pecado – nem enojante e inconcebível - transar com o filho-marido. Nem transar com o outro filho-filho. Era menos mau mandar matar alguém. Na sua abominável massa cinzenta via-se Deusa superior à verdade. Pensava que jamais alguém saberia do seu lado pombagira Maria Padilha, excetuando a verve assassina, ou a própria Jesebel. A internet está coalhada de vídeos nos quais ela condena a prostituição e o homossexualismo. Em outros ela chora a morte do marido-filho, diz sentir saudades dele. Flordelis tinha segurança de estar acima das investigações que rolavam.

Para ela ficaria muito feio uma EVANGÉLICA E DEPUTADA FEDERAL DIVORCIADA. Atrapalharia a agenda de shows gospel, pois EVANGÉLICOS E CATÓLICOS OLHAM TORTO PARA MULHERES SEPARADAS. Não seria bom exemplo. Ela queria ter autoridade e ser genuína representante da bandeira evangélica. E como agora é moda ARMAS DE FOGO - agregou mais esse elemento à sua bizarra casa do terror: e ESCOLHEU mandar matar o marido.

A pergunta mais óbvia é: e o quinto mandamento “Não Matarás?” A palavra de Deus vale menos que a dela? Sabemos que ela escolheu mandar matar o marido-filho, usando alguns filhos. Ela usou do lado avesso o mandamento “Honrar pai e mãe” O primeiro mandamento “Amar a Deus sobre todas as coisas” ela nunca o usou em verdade. O segundo mandamento “Não tomar seu santo nome em vão” foi o que ela mais praticou nos shows gospel e nos incontáveis vídeos que abarrotam as redes sociais. “Não desejar a mulher do próximo”, que também pode ser entendido como “não cobiçar o homem da próxima” ela também teve dificuldade na prática. E dentro de sua própria casa. Toda a sua bondade e amor às crianças abandonadas caiu por terra. Ela se tornou o pior exemplo para esses seres já tão sofridos. E ao invés de educá-los, ensinou-lhes a serem assassinos.

No enterro do marido ela se serviu do oitavo mandamento “Não levantar falso testemunho”. Entrou em parafusos, quis abrir o caixão, desesperada, para que o marido-filho levasse com ela um pouco de suas lágrimas quentes. Comoção e pranto parecido ao de Suzanne Richttoffen. Fez o máximo de teatro para dar a entender que os criminosos eram outras pessoas. Mas era falso testemunho.

O caso Flordelis parece ter sido escrito por Agatha Christie ou Edgar Allan Poe. São fatos impensáveis. Mais comuns aos geniais cérebros da escrita. FLORDELIS TENTOU TRANSFORMAR O DIVÓRCIO NO PIOR MANDAMENTO DA “LEI DE DEUS”, e julgou que se sobrepujaria aos demais, tornando-os “fichinhas”. Tudo em nome da preservação de uma imagem que não podemos chamar de Flordelis, mas do próprio DEMÔNIO. Pelo menos no que nos contam sobre o mesmo. Mas não nos enganemos. De singular nessa história temos apenas a trama. A novela é comum e acontece a cada momento, tanto dela quanto do padre Robson, muito embora ele não seja assassino nem incestuoso.

Mas um sino de seis milhões é o mesmo que matar milhares de pessoas de fome. Por quem esse sino dobra? Com certeza não é para os pobres e excluídos. Os sinos dobram para os incontáveis padres que vivem no alto luxo que Jesus tanto condenou.

A pastora evangélica Flordelis é a cara real de boa parte dos evangélicos do Brasil. PROCLAMAM-SE SALVOS MAS ESTÃO CHEIOS DE ÓDIO. Acusam a todos. DIZEM SEGUIR A BÍBLIA, MAS SÓ FALAM EM DINHEIRO, SALVAS RARAS EXCEÇÕES. E saber que ouvi uma senhora evangélica muito idônea - na eleição passada (2014) – dizendo que votou no Pastor Everaldo para Presidente da República, nos assusta. Imagine um homem deste governando. Seria semelhante ao atual governo.

Confesso que me surpreendo com evangélicos que ainda tem a coragem de defender essa cidadã, dizendo que ela estava sob possessão, e que não podemos julgá-la. Particularmente não estou julgando, mas comentando e exercendo a minha capacidade crítica. Sem isso, também seremos Flordelis. E me surpreendo com a omissão dos evangélicos nesse caso. Deveriam estar em massa diante do prédio da Câmara Federal, exigindo que essa assassina fosse expulsa para ontem. MAS ESTÃO EM SILÊNCIO, E ISSO É TÍPICO DA MAIORIA DELES. Esse silêncio revela possessão. Mas possessão seletiva. Evangélicos pentecostais – principalmente – não se silenciaram diante do caso da menina de dez anos, estuprada pelo tio. Fizeram disso um escândalo (junto com católicos), pedindo que a menina não abortasse. Mas se silenciam diante de uma pastora evangélica que manda matar o marido-filho e diz representar os evangélicos na Câmara dos Deputados.

Vejo muito preconceito e fiéis seguidores do Velho Testamento. São espécie de analfabetos funcionais, que leem e interpretam ao pé da letra. Para esse público - evangélico e católico - a “Besta de Sete Cabeças” é uma espécie de jegue com sete pescoços e sobre os sete pescoços, sete cabeças. Se negam a enxergar a Besta de Sete Cabeças ao lado, e em todos os lugares.

Suponho que se Jesus aparecesse, hoje – se é que Ele não ande por aí - estaria ao lado de todas as vítimas da sociedade, ao lado das vítimas dos políticos mal intencionados - que são maioria – ao lado dos inúmeros pedintes que se amontoam nas ruas, ao lado dos sem-teto, das minorias enfim... O LUGAR QUE ELE MENOS ENTRARIA SERIA NAS IGREJAS, ONDE DE DEZ PALAVRAS, NOVE SÃO SOBRE DINHEIRO E RIQUEZA.

Só sei que nos últimos dez anos eu passei a rever muita coisa na minha vida. PASSEI A ACREDITAR MAIS EM PESSOAS QUE EM SUAS FUNÇÕES PROFISSIONAIS. Desse modo um padre, uma freira, um pastor, um político, um ministro da eucaristia ou um ministro do Supremo pode não significar nada para mim – ou pode significar muito – se eu tiver a certeza absoluta do seu bom caráter. Respeito - mas não gosto – quando alguém se aproxima de mim se apresentando – ou sendo apresentado com mil títulos ou funções, pois só me interesso pela mesma enquanto pessoa humana. Nada mais. O resto é ‘flordelis’. É lixo mesmo!

Ao longo dos meus cinquenta e dois anos de idade, conheci padres santos. Alguns já partiram. Outros estão vivos. Conheci - e conheço - pastores evangélicos santos. Conheci - e conheço - religiosos de outras denominações cheios de santidade. SÃO RAROS, pois a maioria está preocupada demais com o DEUS-DINHEIRO, PODER E POLÍTICA. O humanismo está diluído nessa seara. Tem que se olhar muito para enxergar a face de Jesus entre os povos. Hoje, me assusto com o que vejo em muitas igrejas, ventilado como COISA DE DEUS.

Nesses últimos cinco meses a mendicância tem aumentado aqui no centro de Natal. Em casa temos o hábito de guardar frascos plásticos para darmos alimento aos pedintes. Tem sido comum até pedido de sabonete e creme dental. O semblante dessas pessoas é de desespero. Nunca negamos, pois com toda a certeza, a fome e a necessidade devem ser as piores dores do mundo. Enquanto isso um padre compra um sino de seis milhões de reais. Isso é uma espécie de roubo. Creio que, se o que está sendo atribuído a ele for verdade – o homem que também deveria ser exemplo - se esqueceu do sétimo mandamento.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Bibliotecas vivas: história de uma pesquisa (Oralidade)

BIBLIOTECAS VIVAS - HISTÓRIA DE UMA PESQUISA (ORALIDADE)

Em 2009 passei três meses visitando alternadamente a residência dos filhos de Vicente Elísio, bisneto do Coronel Alexandre de Oliveira, o famoso Cavaleiro da Rosa que se encontra sepultado na parede da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta, estado do Rio Grande do Norte. Quase toda noite nos reuníamos na sala: Onaldo, Lulu e Lourdes. Fui também durante alguns domingos à tarde, pois esses encontros não eram marcados previamente. Eu disse apenas que precisaria escrever sobre o ex-prefeito Vicente Elísio, pai deles, que fora prefeito de Papari na década de 40. Eles adoraram a ideia, pois nunca alguém se debruçou sobre essa história. Assim salvei uma importante página da História de Papari. 

Sabedores do que se tratava, bastava eu me apresentar à porta, era muito bem recebido. Em História você não pode se preocupar com diferenças ideológicas, principalmente político-partidárias. Disse isso porque alguns me alertaram que eu não conseguiria jamais pesquisar com eles. Foi o contrário. Eles me disseram os horários que normalmente estavam em casa. Bastava eu chegar, as portas se abriam, e as histórias fluíam em livros abertos em memórias. Nunca conversamos sobre política atual: não era esse o objetivo! 

 

 Assim aconteciam conversas sobre coisas velhas de Papari. Os fatos me eram narrados como se tivessem ocorrido no dia anterior. Graças às mentes privilegiadas dos contadores, inclusive Lulu se lembrava de fatos que nem Onaldo o narrara. Vejam como é interessante as memórias antigas. Um assunto puxava o outro. Eram conversas olho no olho. Onaldo começava um fato, olhava para Lourdes, ele continuava, Lulu jogava um detalhe esquecido, outrora Lourdes lembrava de um detalhe esquecido e assim flui. A cada encontro era uma página nova, buscada naquelas bibliotecas vivas. Acervos preciosos. 

Todos colaboravam com uma informação aqui, outra ali. Ri muito com eles. Foi uma das entrevistas mais deliciosas e divertidas dentre tantas que fiz em Papari. Interessante é que todos eles, quando me viam na rua, perguntavam se eu iria naquela noite, ou naquela tarde. Nossas conversas adquiriram uma química tão forte que lembrava tempo antigo, no qual os netos cercavam os avós defronte as casas para ouvir histórias de Trancoso. Só que eram histórias reais.  

 

Quando concluí a pesquisa, imprimi-a e fiz a questão de entregar um exemplar à família. Nunca me esqueci a fisionomia de felicidade de Onaldo e os demais. Ficou radiante. Agradeceu mais que devia. Emocionaram-se. Até brinquei, dizendo que estávamos gerando um filho naqueles encontros. E o filho havia nascido. Pesquisa é isso!  

Quando soube que Lulu, e depois Onaldo haviam se encantado, reavivou esse filme na minha mente. Só tenho a agradecer a todos eles por terem se disposto a contar tudo o que sabia sobre a história da gestão de seu pai Vicente Elísio, e tantos outros fatos ocorridos em Papari. Se não tivessem ocorrido esses encontros eu não teria escrito a história do seu pai. Eles teriam levado  para o túmulo uma parte da Biblioteca de Papari. Costumo dizer sempre que ainda consegui salvar muita coisa das Biblioteca Viva de Papari, pois tendo chegado ali há 27 anos, empreendi vasta pesquisa junto a idosos de idades entre 70 a quase cem anos. A maior parte dessas pessoas partiram, mas me ajudaram a salvar muita coisa que sem ela jamais os mais novos saberiam. 

 

Às vezes os nativos entram em contato comigo e perguntam: “como é que você sabe disso, se você não é daqui, nem morava daqui nessa época?”. Respondo: “eu não morava, mas falei com aqueles que moravam”. História Oral é isso! Outro detalhe muito curioso diz respeito a nativos que entram em contato comigo para saber coisas que os avós haviam contado, mas que a pessoa não lembrava mais como era em detalhes aquele fato. A Oralidade é preciosa, pois eu precisava daquele material para confrontar com inúmeros outros e dar cada vez mais cientificidade. E assim, juntando os fragmentos, ia montando. Talvez por isso eu tenha até hoje facilidade para escrever de memória inúmeras histórias sobre a Papari antiga. Embora tudo isso esteja anotado, ou transformado em textos, ou ainda guardado, o fato de eu ter conversado com muitos velhos, paramentei-me dessa autoridade. 

Aproveito para agradecer a sua família pela grande contribuição, a qual não foi para mim, mas para as gerações futuras, pois nada existia escrito sobre o período de gestão de Vicente Elísio, pelo menos com tantos detalhes. Já agradeci em vida a todos eles. História é assim! Acaba ficando a saudade. Para finalizar: se eu tivesse me preocupado com ideologias políticas, não teria escrito a história de Vicente Elísio. E hoje ninguém saberia! Em pesquisa não podemos aflorar nossas opiniões pessoais. Assim aprendi.

Estuprada aos dez anos por nós... (Opinião)

ESTUPRADA AOS 10 ANOS DE IDADE POR NÓS

O caso de uma criança de dez anos de idade, estuprada por um tio, e engravidado, provoca discussões em todo o Brasil. O assunto é complexo e cai na seara da justiça, da medicina e religião. É também assunto de Moral, afinal a simbologia de um tio difere muito pouco da simbologia de um pai. E da mesma forma de uma tia. Tios e tias são quase pais e mães dos sobrinhos, portanto é uma espécie de incesto. Esse tio merece prisão perpétua.

Ontem a Justiça autorizou o aborto, mas quando o médico chegou ao hospital para o procedimento, um grupo de católicos cercou a porta de entrada do hospital, impedindo que o profissional entrasse. Houve muita hostilidade. Xingavam o médico de assassino e comunista (os vídeos estão na Internet). Hoje em dia as palavras “comunista” e “pessoas de esquerda” sãos usada pelos ignorantes para traduzir o que eles consideram nocivo à moral, aos bons costumes e à religião e família. É xingamento genérico. Funciona em qualquer confusão. Esbarrou sem querer, Usou máscara, é esquerdista e comunista... assim rotularam o médico e a própria criança: "assassina!" Enquanto isso Jesus está a lá dentro do hospital com a criança.

Ontem, vi a postagem dessa mulher da fotografia, a qual se proclama católica e apoiadora do Governo Federal. Até aí tudo bem. Somos livres, mas as palavras dela são preconceituosas, deturpadas e carregadas de maldade, que não dá para entender como ela se diz “cristã”. Ela culpa a criança pelo estupro. A menina, então com seis anos de idade, pediu que o tio a extuprasse por certo! Questiona por que a criança ficou calada desde quando começou a ser estuprada pelo tio. Sugere que a criança gostava de ser estuprada. Diz que “as mulheres de hoje estão iguais a cachorras no cio”, e “na minha comunidade têm crianças de dez anos que já estão com dois, três filhos nos braços” e outras coisas. Não dá para acreditar que uma mulher seja capaz dessa opinião.

Uma criança de seis anos entende o contato físico como carinho, portanto o tio teve a permissão da criança para fazer o que para ela era carinho. Uma criança não sabe o que é erotismo, sexualidade, excitação e coisas do gênero. Ao longo dos anos o tio estimulou a sexualidade da criança sem que ele entendesse o que acontecia. Só depois ela começou a compreender que algo estava errado.Mas entrou a ameaça. Houve um contexto de terror dentro desse lar, embora disfarçado de amor e carinho, e só veio à tona com a gravidez. A partir dos seis anos essa menina aquiesceu aos “carinhos” do tio sem a mínima noção de sexualidade, e menos ainda, de sexo.

Como sabemos, as meninas se desenvolvem mais rápido que os meninos, e o estímulo provocado pelo tio ampliou ainda mais esse desenvolvimento. Os anais da Medicina registram o caso de uma menina que engravidou aos cinco anos porque tinha uma patologia que a fez menstruar aos três anos e seu corpo se desenvolveu de forma incomum desde então. Essa patologia ocorre ainda hoje. Não é tão comum, mas é fato. Para agravar, o tio estimulou a sexualidade na criança, e tudo o que é estimulado, evolui. No caso dessa menina de dez anos, ela foi estimulada a se tornar mulher sem saber nem o que era pré-adolescência.

A Igreja Católica, como outras, proíbe o aborto, considerando-o crime. É entendido como assassinato. Já a Justiça entende o aborto – em criança -, como violação à infância, risco de morte e traumatização, portanto o favorece. São visões que se chocam. A Medicina explica que o aborto, seja numa criança ou numa mulher adulta, causa danos físicos, traumas e pode levá-la à morte, além de, dependendo o procedimento, tornar a mulher estéril etc. Percebe-se que a Medicina fica entre a cruz e a espada, pois existem médicos que se valem unicamente da ciência, e outros que pesam o aborto na balança da religião.

Em alguns países o aborto é permitido – independente de ser motivado por anencefalia e outras deficiências do cérebro. É entendido como direito de a mulher ter domínio sobre o próprio corpo, portanto uma moça que engravidou do namorado pode abortar, acaso não queira ser mãe naquele momento. Tudo perpassa por atendimento social-clínico para se ter a certeza da opção pelo aborto, pois a pessoa pode mudar de ideia e optar pela maternidade.

Mas a igreja católica - nesse caso - é contra o aborto, independente de qualquer fato, se bem que ela não funciona como Tribunal fora da Igreja. Ser contrária ao aborto é uma orientação que perpassa por considerações da ética cristã etc. É algo que está de católico para católico. Diante disso, os católicos que estavam defronte ao hospital, hostilizando o médico, não representam a igreja, mesmo que fossem católicos. Eles representam seus pontos de vistas religiosos, e por isso não tinham o direito de estarem ali, se a Justiça autorizou o aborto naquela criança. São visões e opiniões diferentes. Causam conflitos. Mas há fatos e fatos.

É complexo dizer sim ou não ao aborto. Pesam muitos outros fatores sérios. O tio cometeu um crime ao violar uma criança dos seis aos dez anos de idade. A Medicina cometerá um crime ao proceder o aborto na vítima do estupro (aos olhos da igreja, pois o considera pecado mortal). Tão mortal quanto o tio ter matado a infância da menina aos seis anis. A Justiça aprova nesse caso específico. Cada lado tem uma alegação que considera legítima. É um imbróglio no qual poucos pensam no futuro da menina.

Creio que o leitor se lembra do caso de um grupo de freiras estupradas na Bósnia por soldados em guerra. O Papa da época não autorizou o aborto, e todas se tornaram mães. Pela lógica, esse fato nem precisaria da opinião do Papa, pois se o entendimento dos católicos é de não abortar em hipótese alguma, seria óbvio que as freiras se tornariam mães, mesmo não sendo aquilo que escolheram para si. A favor das mesmas está o fato de não serem crianças estupradas, mas adultas estupradas. Horroroso, mas real. Esse detalhe também é muito complexo, pois há registros de católicos, evangélicos e pessoas de todas as religiões que apregoam o “não” ao aborto, mas quando engravidam do namorado, esquecem a Bíblia e correm para a clínica. Então, nesse caso, não seria crime?

Crime é uma menina de dez anos ser mãe sem saber sequer o que é ser filha, e muito menos sem ter vivido a infância. Isso parece poético, mas o estupro é algo tão grave que deveria ser alçado à categoria de prisão perpétua. Todos sabem que a maior parte das mulheres (não crianças) estupradas ao longo da História possui síndromes pós-traumáticas, incluindo os pesadelos, tendências de suicídio, anestesia emocional etc.

Uma criança nessas condições terá fortes indícios de desenvolver problemas iguais quando entender o que aconteceu. Talvez o choque seja maior ao pensar sobre o que lhe foi roubado, principalmente a fase preciosa da infância. Creio que uma pessoa adulta só é verdadeiramente completa e normal se viveu intensamente todas as fases de sua vida. Imagine uma menina estuprada dos seis aos dez anos, que não teve infância, e não terá pré-adolescência e adolescência porque foi forçada a se tornar mulher e mãe. Penso que isso seja um crime hediondo, merecedor de eterna prisão ao algoz.

Não tenho filhas, mas confesso que se essa menina fosse minha filha, faria o aborto, sim. Esse assunto é muito amplo, está na alçada de vários outros profissionais. E sobre a mulher da postagem, que culpa a criança, não sou contra o posicionamento dela meramente por ela ser contra o aborto. É direito dela, já que é católica “praticante”. Sou contra o seu alto grau de preconceito, e por sua visão deturpada de infância e dos fatos sociais . Sou contra ela culpar a criança e os pais. Sou contra ela dizer que as meninas de dez anos “parecem cachorras no cio”. Ela desqualifica o gênero dela, generalizando os fatos.

Tudo isso – embora seja outro assunto – entra na alçada de Educação, de problemas familiares e problemas sociais diversos, ausência de políticas públicas concretas diversas e fluentes. O índice de miserabilidade é um grande contribuinte disso tudo, pois gera abandono, descuido. As mães, normalmente sem maridos, precisam ser faxineiras para trazer o pão e o leite de noite. Enquanto isso parentes e até mesmo autoridades estão ali, de olho nas crianças - meninas e meninos - à espera de uma pequena brecha para estuprá-los. Quais políticos - a partir da sua cidade - lutam ferrenhamente contra isso? A menina de dez anos foi estuprada por uma sociedade hipócrita, e há muitas sendo estupradas neste exato momento. De repente até dentro do seu lar. Isso num país no qual o presidente da república estimula o estupro em cadeia nacional, tendo sido gravado dizendo que “não estupraria uma parlamentar pelo fato de ela ser feia”. Não bastasse uma sociedade machista, que conserva vivo o ranço do patriarcado do século XVIII, cuja violência aumenta assustadoramente, somos obrigados a constatar os casos de estupro aumentando, chegando à infância por força desse indesejável filme de terror.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Guimarães Rosa e Manoel de Barros: um sertão entre dois mitos...

 

Talvez alguns não saibam, mas as obras Grande Sertão: Veredas e Entremeio: com o vaqueiro Mariano - esta última publicada postumamente em Estas estórias (1969), embora escrita muitos anos antes - guardam bastidores que aproximam dois dos maiores nomes da literatura brasileira: João Guimarães Rosa (1908–1967) e meu conterrâneo Manoel de Barros (1916–2014). Guimarães veio antes de Manoel, e também partiu antes. Foram apenas cinquenta e nove primaveras. Manoel chegou depois e permaneceu por quase um século sob o planeta água. Viveu noventa e sete anos - a maior parte dele no Pantanal -, tempo suficiente para fazer da palavra um lugar onde a infância nunca envelhece. Às vezes fico imaginando o que ainda escreveria Guimarães Rosa caso tivesse atravessado tantas décadas quanto o amigo pantaneiro. Talvez tivesse virado palavra por inteiro. A morte de Guimarães é um dos maiores prejuízos literários que vi.

Quando Manoel de Barros leu Saganara, publicado em 1946, encantou-se imediatamente. Aquele livro já revelava um escritor de linguagem incomum, profundamente atento às vozes do sertão e às possibilidades do português brasileiro. Muito antes de Grande Sertão: Veredas, Rosa demonstrava uma rara capacidade de reinventar a língua sem romper com suas raízes populares. Manoel reconheceu isso desde cedo e jamais deixou de admirá-lo. Não foi por acaso que, anos mais tarde, em seu Tributo a J. G. Rosa, escreveu: "Passarinho parou de cantar. Essa é apenas uma informação. Passarinho desapareceu de cantar. Esse é um verso de João Guimarães Rosa. Desapareceu de cantar é uma graça verbal. Poesia é uma graça verbal." Poucos escritores compreenderam tão bem o labor linguístico de Rosa quanto Manoel, ele próprio um inventor de palavras e de espantos.

No início da década de 1950, enquanto amadurecia ideias que desembocariam em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa continuava realizando viagens pelo interior do Brasil. Seu método de criação era também um m´todo de escuta. Gostava de observar paisagens, recolher falares, conviver com boiadeiros, vaqueiros e homens do campo. Em 1952 estendeu sua viagem até a Nhecolândia, no então Mato Grosso uno, hoje Mato Grosso do Sul, desejando conhecer de perto o universo pantaneiro. Ali encontrou Manoel de Barros. No Mato Grosso do Sul é muito comum ouvir os velhos dizerem "os sertões do Mato Grosso", quando acheguei aqui, tudo era um 'sertãozão"... Crescemos com a ideia de sertão como lugar de mata fechada e cheia de bicho. É esse o nosso sertão. Diferente do sertão de Minas e do Nordeste. Creio que Guimarães quis entender que sertão era aquele.

O encontro entre aqueles dois homens talvez tenha sido um dos episódios mais singulares da literatura brasileira. De um lado, um diplomata mineiro que perseguia a palavra perfeita; do outro, um fazendeiro-poeta que enxergava poesia onde quase ninguém via. Ambos tinham verdadeira devoção pela linguagem. Ambos acreditavam que escrever era muito mais do que narrar: era recriar o mundo. É inevitável imaginar os dois caminhando entre vazantes, corixos, carandás e capões, conversando sobre literatura, sobre o homem, sobre os animais e sobre a difícil tarefa de transformar paisagem em linguagem. Muito do que disseram pertence apenas à memória daqueles dias. A documentação preservada é discreta. Ainda assim, depoimentos posteriores de Manoel e os textos deixadospor Rosa revelam que aquele convívio foi marcante para ambos.

Manoel de Barros também era fascinado por Manoel Bandeira. Ele conta que certa vez foi visitá-lo no Rio de Janeiro. Chegou até a porta do apartamento, apertou a campainha e fugiu antes que o poeta abrisse. Não teve coragem de enfrentar, frente a frente, um dos seus maiores mestres. É uma história deliciosa, mas essa já pertence a outro capítulo. Guimarães Rosa procurava compreender os muitos sertões brasileiros. Sabia que o sertão não era um lugar único, mas uma ideia que assumia diferentes formas conforme a geografia e o homem. O Pantanal lhe apresentou um universo distinto daquele sertão mineiro que já conhecia profundamente desde a infância e que mais tarde serviria de cenário a Riobaldo e Diadorim. Ali o "sertão" podia significar mata fechada, campos inundáveis, distâncias sem fim. Não era o mesmo sertão das veredas de Minas, mas era igualmente Brasil.

Essa experiência certamente ampliou seu olhar sobre o país. Seria exagero afirmar que dali nasceu a linguagem de Grande Sertão: Veredas (1956), pois essa extraordinária elaboração literária já se anunciava em Sagarana (1946) e continuaria sendo lapidada ao longo dos anos. Mas não há dúvida de que cada viagem de Rosa acrescentava novas vozes, novos ritmos e novas imagens ao vasto mosaico humano que alimentava sua criação literária. Manoel de Barros talvez nunca tenha imaginado que aquele encontro renderia algumas das páginas mais belas que Guimarães Rosa escreveria sobre o Pantanal. O texto que mais tarde receberia o título Entremeio: com o vaqueiro Mariano, incorporado a Estas estórias (1969), nasceu justamente da convivência de Rosa com os homens daquelas paisagens inundáveis, sobretudo com o extraordinário vaqueiro José Mariano da Silva.

 
 
Ao longo dos anos surgiu, entre leitores e admiradores dos dois escritores, a interpretação de que a figura de Mariano teria recebido traços de Manoel de Barros. A ideia é sedutora. Ambos compartilhavam uma inteligência rara, uma relação íntima com o Pantanal e uma maneira muito particular de compreender a natureza. Entretanto, a documentação hoje conhecida não permite afirmar categoricamente que José Mariano da Silva fosse o próprio Manoel de Barros. Ao contrário, tudo indica que Mariano existiu como personagem real da viagem de Guimarães Rosa. Isso, porém, não impede que a convivência com Manoel tenha deixado impressões profundas no escritor mineiro e que alguns leitores percebam aproximações entre ambos.

E convenhamos: não seria estranho que Rosa encontrasse, na mesma viagem, dois homens igualmente memoráveis. Um, vaqueiro por of´cio; outro, poeta por destino e fazendeiro pelas circunstâncias da vida. Ambos pertenciam ao mesmo universo humano que tanto fascinava o autor de Grande Sertão: Veredas. É importante lembrsr que Manoel de Barros, embora homem de letras, em nada lembrava o intelectual que costuma povoar nossa imaginação. Vestia-se como qualquer fazendeiro pantaneiro, acompanhava os serviços da propriedade, conhecia o gado, os peões, as cheias e as secas. Quem visse Manoel entre a peonada, não o diferia. Não havia separação entre o homem da fazenda e o homem da poesia. Um alimentava o outro. Isso o fascinava, pois aquela vida era para ele um laboratório. Era material para poesia. Assim, Manoel era também um peão de boiadeiro...

Aliás, esse modo de viver é bastante característico do Pantanal. Muitos proprietários rurais trabalham lado a lado com seus empregados, compartilham as mesmas lidas e aprendem os mesmos caminhos das águas. Manoel era um desses homens. Durante muitos anos viveu intensamente a rotina da fazenda, somente reduzindo esse envolvimento quando os filhos passaram a assumir boa parte das responsabilidades do campo. Aos poucos, Campo Grande tornou-se seu pouso definitivo, embora sua imaginação jamais tivesse deixado os brejos, os ipês, os tuiuiús e os bois. Antes disso, entretanto, sua vida havia seguido outros rumos. Estudou no Rio de Janeiro desde criança, no Colégio Marista, frequentou diariamente a Biblioteca Nacional, mergulhou na literatura e sonhou com uma existência dedicada às letras. Casou-se ainda jovem com dona Estela, mineira de refinada educação, e enfrentou dificuldades financeiras. Com a morte do pai herdou parte da fazenda da família e quinhentos bois. A princípio pensou em vender tudo, mas dona Estela, sabendo que ele não sabia lidar com dinheiro, atravessou na frente e disse que ele escolhesse entre o casamento e entre o futuro da família. 

Manoel de Barros com o neto em sua casa no Pantanal. Casa feita por ele...

A mudança para o Pantanal parecia improvável para um jovem apaixonado por livros. Mas ocorria o mesmo com dona estela. Certamente um era apoio para o outro. No entanto, foi justamente ali que Manoel reencontrou suas raízes. Aprendeu a lidar com o gado, descobriu talento para administrar a propriedade e fez prosperar a criação. Sem abandonar a literatura, tornou-se também um homem da lida campeira. Quando Guimarães Rosa o conheceu, encontrou alguém que transitava com absoluta naturalidade entre esses dois mundos. Talvez resida aí uma das maiores singularidades de Manoel de Barros. O poeta não observava o Pantanal como visitante. Também não o descrevia apenas como proprietário rural. Vivia aquele ambiente por dentro. Conhecia o silêncio das madrugadas, o barro das vazantes, o voo lento dos tuiuiús, o comportamento dos bois, o trabalho dos peões. Tudo isso se acumulava silenciosamente dentro dele.

Peões da fazenda de Manoel de Barros, no Pantanal. Arquivo do neto de Manoel.

Mais tarde, essa experiência reapareceria transformada em poesia. Não como simples descrição da natureza, mas como reinvenção dela. Os bichos deixariam de ser apenas bichos; as árvores, apenas árvores; as palavras, apenas palavras. Tudo ganharia outra existência. A infância passaria a morar definitivamente dentro da linguagem. É por isso que tantos leitores têm a impressão de que Manoel de Barros escrevia a partir de um lugar onde a realidade e a imaginação já não precisavam ser separadas. O Pantanal fornecia a matéria; a poesia realizava o milagre.

Na abertura de Entremeio: com o vaqueiro Mariano, Guimarães Rosa registrou seu encantamento diante daquele universo pantaneiro por meio da figura do vaqueiro José Mariano da Silva:

"Em julho, na Nhecolândia, Pantanal do Mato Grosso, encontrei um vaqueiro que reunia em si, em qualidade e cor, quase tudo o que a literatura empresta esparso aos vaqueiros principais..."

Segue então um retrato de extraordinária humanidade, no qual Rosa descreve Mariano como técnico admirável do ofício, homem de sentimentos, inteligência e equilíbrio. Trata-se de uma das mais belas homenagens já prestadas ao trabalhador pantaneiro e revela a capacidade do escritor mineiro de transformar um encontro real em literatura da mais alta qualidade. Ainda que José Mariano da Silva seja reconhecido como personagem histórico da viagem de Rosa, é difícil acreditar que as longas conversas com Manoel de Barros não tenham enriquecido sua percepção daquele universo. O próprio Rosa sempre foi um escritor que aprendia ouvindo. Era um pescador de palavras. Colecionava vozes, expressões, modos de pensar. Sua literatura nasceu desse extraordinário exercício de escuta.


Se aquele encontro no Pantanal permaneceu cercado por poucos testemunhos, uma declaração posterior de Manoel de Barros ajuda a compreender a estima que nutria por Guimarães Rosa e a natureza das conversas que mantiveram. Em entrevista concedida à revista Bric-à-Brac, Manoel recordou a passagem do escritor mineiro pela Nhecolândia e comentou algumas impressões daquele convívio.

Segundo suas palavras:

"... vi poucas notas da viagem de Rosa ao Pantanal. Quis saber, ele, ainda, de meus receios sobre as confusões com o exótico. Falei, falei demais, espichei. Dei a entender que se estava olhando o Pantanal só como uma coisa exótica. Um superficial para só se ver e bater chapa. Mesmo os que cantavam em prosa e verso ficavam enumerando bichos, carandás, aves, jacarés, seriemas; e que essa enumeração não transmite a essência do Pantanal, porém só sua aparência. Havia o perigo de se afundar no puro natural etc. Precisávamos de um escritor como você, Rosa, para frear, com a sua estética, com a sua linguagem calibrada, os excessos do natural. Temos que enlouquecer o nosso verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la."

Independentemente do peso que se queira atribuir a essa conversa, ela revela uma afinidade estética impressionante entre os dois escritores. Ambos recusavam a descrição meramente documental da paisagem. Sabiam que a literatura não se faz pela enumeração de árvores, aves ou rios. A natureza, por si só, já existe. Cabe ao escritor recri´-la, devolvendo-lhe humanidade, mistério e espanto. Talvez seja essa a grande convergência entre Guimarães Rosa e Manoel de Barros. Ambos compreenderam que a linguagem precisava ultrapassar o registro do visível para alcançar aquilo que apenas a literatura consegue revelar.

A sede da fazenda de Manoel de Barros no Pantanal...

Não seria prudente afirmar que a conversa entre Manoel e Guimarães Rosa tenha determinado os rumos de Grande Sertão: Veredas. A obra rosiana já demonstrava, desde Sagarana, um domínio extraordinário da linguagem e um projeto literário muito consistente. Mas é igualmente difícil imaginar que um escritor da sensibilidade de Rosa passasse dias conversando com um poeta da dimensão de Manoel de Barros sem levar consigo alguma nova inquietação, alguma nova pergunta, algum novo olhar sobre o Pantanal e sobre o próprio fazer literário.

Rosa era um escritor que aprendia continuamente. Manoel também. Talvez o maior legado daquele encontro tenha sido justamente esse: dois criadores reconhecendo um no outro a mesma obsessão pela palavra. A preocupação com a escrita ocupava, para ambos, um lugar semelhante ao que ocupava para Gustave Flaubert: "escrever sangra". A frase precisava nascer exata. Não bastava dizer; era necessário descobrir uma maneira inédita de dizer. A palavra comum raramente lhes servia. Procuravam outra, reinventada, deslocada, surpreendente. Sofriam com a escrita porque sabiam que cada página exigia paciência de artesão.

Manoel de Barros com o neto no Pantanal...

Cada um chegou a esse resultado por caminhos próprios. Guimarães Rosa aprofundou as possibilidades do português brasileiro, aproximando fala popular, erudição, regionalismos, neologismos e estruturas sintáticas inesperadas. Manoel de Barros preferiu desmontar a lógica cotidiana da língua para devolver às palavras uma inocência quase infantil. Ambos, entretanto, trabalhavam na mesma oficina: a da invenção.

Por isso, Grande Sertão: Veredas permanece como um romance atravessado pela poesia. Não porque abandone a narrativa, mas porque a linguagem nunca se contenta em apenas contar. Ela canta, filosofa, brinca, hesita, inventa e sonha. Da mesma forma, a poesia de Manoel de Barros frequentemente narra pequenas histórias, cria personagens e transforma o cotidiano em espanto permanente. É possível perceber que entre Sagarana e Grande Sertão: Veredas houve um extraordinário amadurecimento da escrita de Guimaráes. Isso não significa ruptura, mas aprofundamento. O escritor que já impressionava em 1946 continuou ampliando seu universo literário através das viagens, das leituras, das anotações, das conversas e da incessante lapidação da linguagem. O Pantanal certamente integrou esse vasto processo criativo, oferecendo-lhe novas experiências humanas e novas paisagens brasileiras, sem que se possa reduzir a elas a gênese de sua obra maior.


Entremeio: com o vaqueiro Mariano, publicado postumamente em Estas estórias, permanece como um dos frutos mais belos dessa experiência pantaneira. Ali o narrador praticamente se confunde com o observador apaixonado. Os bois deixam de ser simples animais para adquirirem presença quase humana; o homem, por sua vez, aproxima-se da natureza sem perder sua individualidade. Não por acaso surge uma das mais belas observações do livro: "... aqui é o gado que cria a gente...". Poucas frases resumem com tanta felicidade a relação entre o pantaneiro e sua terra. Também merece destaque o cuidado de Rosa em evitar que o Pantanal fosse reduzido ao exotismo. Sua escrita procura compreender aquele mundo por dentro, revelando pessoas antes de paisagens. Nesse aspecto, suas preocupações dialogam profundamente com as reflexões de Manoel de Barros, ainda que cada um tenha desenvolvido, com absoluta independência, sua própria voz literária.


Para mim, esse encontro continua sendo um dos episódios mais fascinantes de nossa literatura. Não apenas porque aproximou dois escritores extraordinários, mas porque reuniu, num mesmo pedaço do Brasil, duas maneiras muito particulares de compreender a linguagem. Há encontros que produzem fotografias. Outros produzem livros. Aquele produziu, ao que tudo indica, admiração mútua e uma memória literária que atravessou décadas. Ao longo dos anos li muitos estudos e comentários sobre Entremeio: com o vaqueiro Mariano. Poucos, entretanto, se detêm na convivência de Guimarães Rosa com Manoel de Barros durante sua passagem pelo Pantanal. É compreensível. A documentação disponível é relativamente escassa, e a prudência recomenda distinguir aquilo que os documentos efetivamente demonstram daquilo que permanece como hipótese ou interpretação.

Ainda assim, é difícil não perceber a beleza dessa aproximação. Guimarães Rosa saiu em busca dos sertões brasileiros e encontrou, no Pantanal, homens cuja experiência de vida ampliava sua compreensão do país. Entre eles estava Manoel de Barros, um poeta que ainda não havia alcançado a consagração nacional, mas que já carregava dentro de si uma das vozes mais originais da literatura brasileira. Não me parece exagero afirmar que ambos se reconheceram. Não porque um tenha ensinado o outro a escrever, mas porque compartilhavam a mesma reverência pela palavra. A conversa entre dois grandes escritores nunca produz milagres instantâneos; produz inquietações. E, para um criador, poucas coisas são mais valiosas do que uma nova inquietação.


Também chama a atenção o fato de Guimarães Rosa procurar, nos sertões do então Mato Grosso, elementos para ampliar seu conhecimento sobre o homem brasileiro e encontrar ali uma realidade distinta daquela que conhecia em Minas Gerais. O Pantanal lhe ofereceu outra paisagem, outro ritmo, outra maneira de falar e de viver. Incorporar essas experiências ao seu vasto repertório humano fazia parte de seu método de criação. Talvez por isso sua obra nunca pertença apenas a uma região. Embora profundamente enraizada no sertão mineiro, ela dialoga com um Brasil muito mais amplo. O mesmo se pode dizer de Manoel de Barros. Ainda que identificado para sempre com o Pantanal, tornou-se poeta do mundo justamente porque soube transformar o local em universal. A literatura brasileira ganhou muito com esse encontro, ainda que nunca possamos medir exatamente quanto cada um levou do outro. E talvez nem seja necessário medir. A beleza da literatura reside justamente nessas zonas onde a influência deixa de ser contabilizável e passa a ser convivência, admiração, escuta.


Aos dezessete anos, tive o privilégio de conhecer Manoel de Barros em sua casa, na Rua Piratininga, em Campo Grande. Devo esse encontro à escritora Iracema Sampaio, editora da revista Executivo Pluss, amiga de Manoel que me incentivara a mostrar a ele alguns poemas que eu insistia em chamar de poesia.. Eu lhe enviei um calhamaço de poesias. Ela respondeu, dizendo: "você precisa conhecer Manoel de Barros". Guardo desse dia uma lembrança que o tempo apenas tornou mais nítida. Cheguei tímido. Seu filho João havia acabado de retornar da fazenda. Descarregava a caminhonete quando me viu e pediu que eu entrasse. Chamou pelo pai. Instantes depois, Manoel apareceu diante de mim. Naquela época ele ainda não era o escritor celebrado em todo o Brasil, como ocorreu no início da década de 90. Entrei carregando um maço de folhas escritas a grafite e uma enorme insegurança. Contei-lhe que tinha vergonha dos meus escritos. Ele sorriu. Em determinado momento disse uma frase que jamais esqueci:

- Eu me sinto desonrado quando publico um livro. E me escondo por bom tempo.

Naquele instante não compreendi inteiramente o que queria dizer. Anos depois passei a entender que talvez falasse da distância entre o livro ideal e o livro possível, entre aquilo que o escritor sonha e aquilo que finalmente entrega ao leitor. Aquela resposta, curiosamente, me tranquilizou. Se um poeta daquela grandeza também experimentava dúvidas diante da própria obra, talvez a insegurança fosse menos um defeito do que parte inevitável do ofício.


Conversamos longamente. Manoel leu alguns textos, comentou outros, sugeriu caminhos. Em nenhum momento assumiu a postura do mestre inalcançável. Ao contrário, parecia diminuir a própria estatura para conversar de igual para igual com um rapaz que apenas sonhava escrever. Hoje penso que aquela tarde me ensinou tanto sobre literatura quanto sobre humildade. Saí dali levando muito mais do que sugestões para meus poemas. Levei a lembrança de um homem cuja genialidade jamais precisou fazer barulho. Talvez seja esse o maior traço que Manoel de Barros e Guimarães Rosa tenham compartilhado: ambos transformaram a língua portuguesa sem jamais perderem a humanidade. E isso, convenhamos, é muito mais raro do que o talento...

Referências

BARBOSA, Alaor. Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa. Belo Horizonte: Lê, 1987.

BARROS, Manoel de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003.

BARROS, Manoel de. Tratado das grandezas do ínfimo. Rio de Janeiro: Record, 2001.

COSTA, Ana Luiza Martins (org.). João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Academia Brasileira de Letras, 2003.

GALVÃO, Walnice Nogueira. As formas do falso: um estudo sobre a ambiguidade no Grande Sertão: Veredas. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1986.

NUNES, Benedito. O dorso do tigre. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2009. (Ensaios sobre Guimarães Rosa.)

ROSA, João Guimarães. Estas estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.

ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Universal, 1946.

SPERBER, Suzi Frankl. Caos e cosmos: leituras de Guimarães Rosa. São Paulo: Duas Cidades, 1976.