Talvez alguns não saibam, mas as obras Grande Sertão: Veredas e Entremeio: com o vaqueiro Mariano - esta última publicada postumamente em Estas estórias (1969), embora escrita muitos anos antes - guardam bastidores que aproximam dois dos maiores nomes da literatura brasileira: João Guimarães Rosa (1908–1967) e meu conterrâneo Manoel de Barros (1916–2014). Guimarães veio antes de Manoel, e também partiu antes. Foram apenas cinquenta e nove primaveras. Manoel chegou depois e permaneceu por quase um século sob o planeta água. Viveu noventa e sete anos - a maior parte dele no Pantanal -, tempo suficiente para fazer da palavra um lugar onde a infância nunca envelhece. Às vezes fico imaginando o que ainda escreveria Guimarães Rosa caso tivesse atravessado tantas décadas quanto o amigo pantaneiro. Talvez tivesse virado palavra por inteiro. A morte de Guimarães é um dos maiores prejuízos literários que vi.
Quando Manoel de Barros leu Saganara, publicado em 1946, encantou-se imediatamente. Aquele livro já revelava um escritor de linguagem incomum, profundamente atento às vozes do sertão e às possibilidades do português brasileiro. Muito antes de Grande Sertão: Veredas, Rosa demonstrava uma rara capacidade de reinventar a língua sem romper com suas raízes populares. Manoel reconheceu isso desde cedo e jamais deixou de admirá-lo. Não foi por acaso que, anos mais tarde, em seu Tributo a J. G. Rosa, escreveu: "Passarinho parou de cantar. Essa é apenas uma informação. Passarinho desapareceu de cantar. Esse é um verso de João Guimarães Rosa. Desapareceu de cantar é uma graça verbal. Poesia é uma graça verbal." Poucos escritores compreenderam tão bem o labor linguístico de Rosa quanto Manoel, ele próprio um inventor de palavras e de espantos.
No início da década de 1950, enquanto amadurecia ideias que desembocariam em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa continuava realizando viagens pelo interior do Brasil. Seu método de criação era também um m´todo de escuta. Gostava de observar paisagens, recolher falares, conviver com boiadeiros, vaqueiros e homens do campo. Em 1952 estendeu sua viagem até a Nhecolândia, no então Mato Grosso uno, hoje Mato Grosso do Sul, desejando conhecer de perto o universo pantaneiro. Ali encontrou Manoel de Barros. No Mato Grosso do Sul é muito comum ouvir os velhos dizerem "os sertões do Mato Grosso", quando acheguei aqui, tudo era um 'sertãozão"... Crescemos com a ideia de sertão como lugar de mata fechada e cheia de bicho. É esse o nosso sertão. Diferente do sertão de Minas e do Nordeste. Creio que Guimarães quis entender que sertão era aquele.
O encontro entre aqueles dois homens talvez tenha sido um dos episódios mais singulares da literatura brasileira. De um lado, um diplomata mineiro que perseguia a palavra perfeita; do outro, um fazendeiro-poeta que enxergava poesia onde quase ninguém via. Ambos tinham verdadeira devoção pela linguagem. Ambos acreditavam que escrever era muito mais do que narrar: era recriar o mundo. É inevitável imaginar os dois caminhando entre vazantes, corixos, carandás e capões, conversando sobre literatura, sobre o homem, sobre os animais e sobre a difícil tarefa de transformar paisagem em linguagem. Muito do que disseram pertence apenas à memória daqueles dias. A documentação preservada é discreta. Ainda assim, depoimentos posteriores de Manoel e os textos deixadospor Rosa revelam que aquele convívio foi marcante para ambos.
Manoel de Barros também era fascinado por Manoel Bandeira. Ele conta que certa vez foi visitá-lo no Rio de Janeiro. Chegou até a porta do apartamento, apertou a campainha e fugiu antes que o poeta abrisse. Não teve coragem de enfrentar, frente a frente, um dos seus maiores mestres. É uma história deliciosa, mas essa já pertence a outro capítulo. Guimarães Rosa procurava compreender os muitos sertões brasileiros. Sabia que o sertão não era um lugar único, mas uma ideia que assumia diferentes formas conforme a geografia e o homem. O Pantanal lhe apresentou um universo distinto daquele sertão mineiro que já conhecia profundamente desde a infância e que mais tarde serviria de cenário a Riobaldo e Diadorim. Ali o "sertão" podia significar mata fechada, campos inundáveis, distâncias sem fim. Não era o mesmo sertão das veredas de Minas, mas era igualmente Brasil.
Essa experiência certamente ampliou seu olhar sobre o país. Seria exagero afirmar que dali nasceu a linguagem de Grande Sertão: Veredas (1956), pois essa extraordinária elaboração literária já se anunciava em Sagarana (1946) e continuaria sendo lapidada ao longo dos anos. Mas não há dúvida de que cada viagem de Rosa acrescentava novas vozes, novos ritmos e novas imagens ao vasto mosaico humano que alimentava sua criação literária. Manoel de Barros talvez nunca tenha imaginado que aquele encontro renderia algumas das páginas mais belas que Guimarães Rosa escreveria sobre o Pantanal. O texto que mais tarde receberia o título Entremeio: com o vaqueiro Mariano, incorporado a Estas estórias (1969), nasceu justamente da convivência de Rosa com os homens daquelas paisagens inundáveis, sobretudo com o extraordinário vaqueiro José Mariano da Silva.
E convenhamos: não seria estranho que Rosa encontrasse, na mesma viagem, dois homens igualmente memoráveis. Um, vaqueiro por of´cio; outro, poeta por destino e fazendeiro pelas circunstâncias da vida. Ambos pertenciam ao mesmo universo humano que tanto fascinava o autor de Grande Sertão: Veredas. É importante lembrsr que Manoel de Barros, embora homem de letras, em nada lembrava o intelectual que costuma povoar nossa imaginação. Vestia-se como qualquer fazendeiro pantaneiro, acompanhava os serviços da propriedade, conhecia o gado, os peões, as cheias e as secas. Quem visse Manoel entre a peonada, não o diferia. Não havia separação entre o homem da fazenda e o homem da poesia. Um alimentava o outro. Isso o fascinava, pois aquela vida era para ele um laboratório. Era material para poesia. Assim, Manoel era também um peão de boiadeiro...
Aliás, esse modo de viver é bastante característico do Pantanal. Muitos proprietários rurais trabalham lado a lado com seus empregados, compartilham as mesmas lidas e aprendem os mesmos caminhos das águas. Manoel era um desses homens. Durante muitos anos viveu intensamente a rotina da fazenda, somente reduzindo esse envolvimento quando os filhos passaram a assumir boa parte das responsabilidades do campo. Aos poucos, Campo Grande tornou-se seu pouso definitivo, embora sua imaginação jamais tivesse deixado os brejos, os ipês, os tuiuiús e os bois. Antes disso, entretanto, sua vida havia seguido outros rumos. Estudou no Rio de Janeiro desde criança, no Colégio Marista, frequentou diariamente a Biblioteca Nacional, mergulhou na literatura e sonhou com uma existência dedicada às letras. Casou-se ainda jovem com dona Estela, mineira de refinada educação, e enfrentou dificuldades financeiras. Com a morte do pai herdou parte da fazenda da família e quinhentos bois. A princípio pensou em vender tudo, mas dona Estela, sabendo que ele não sabia lidar com dinheiro, atravessou na frente e disse que ele escolhesse entre o casamento e entre o futuro da família.
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| Manoel de Barros com o neto em sua casa no Pantanal. Casa feita por ele... |
A mudança para o Pantanal parecia improvável para um jovem apaixonado por livros. Mas ocorria o mesmo com dona estela. Certamente um era apoio para o outro. No entanto, foi justamente ali que Manoel reencontrou suas raízes. Aprendeu a lidar com o gado, descobriu talento para administrar a propriedade e fez prosperar a criação. Sem abandonar a literatura, tornou-se também um homem da lida campeira. Quando Guimarães Rosa o conheceu, encontrou alguém que transitava com absoluta naturalidade entre esses dois mundos. Talvez resida aí uma das maiores singularidades de Manoel de Barros. O poeta não observava o Pantanal como visitante. Também não o descrevia apenas como proprietário rural. Vivia aquele ambiente por dentro. Conhecia o silêncio das madrugadas, o barro das vazantes, o voo lento dos tuiuiús, o comportamento dos bois, o trabalho dos peões. Tudo isso se acumulava silenciosamente dentro dele.
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| Peões da fazenda de Manoel de Barros, no Pantanal. Arquivo do neto de Manoel. |
Mais tarde, essa experiência reapareceria transformada em poesia. Não como simples descrição da natureza, mas como reinvenção dela. Os bichos deixariam de ser apenas bichos; as árvores, apenas árvores; as palavras, apenas palavras. Tudo ganharia outra existência. A infância passaria a morar definitivamente dentro da linguagem. É por isso que tantos leitores têm a impressão de que Manoel de Barros escrevia a partir de um lugar onde a realidade e a imaginação já não precisavam ser separadas. O Pantanal fornecia a matéria; a poesia realizava o milagre.
Na abertura de Entremeio: com o vaqueiro Mariano, Guimarães Rosa registrou seu encantamento diante daquele universo pantaneiro por meio da figura do vaqueiro José Mariano da Silva:
"Em julho, na Nhecolândia, Pantanal do Mato Grosso, encontrei um vaqueiro que reunia em si, em qualidade e cor, quase tudo o que a literatura empresta esparso aos vaqueiros principais..."
Segue então um retrato de extraordinária humanidade, no qual Rosa descreve Mariano como técnico admirável do ofício, homem de sentimentos, inteligência e equilíbrio. Trata-se de uma das mais belas homenagens já prestadas ao trabalhador pantaneiro e revela a capacidade do escritor mineiro de transformar um encontro real em literatura da mais alta qualidade. Ainda que José Mariano da Silva seja reconhecido como personagem histórico da viagem de Rosa, é difícil acreditar que as longas conversas com Manoel de Barros não tenham enriquecido sua percepção daquele universo. O próprio Rosa sempre foi um escritor que aprendia ouvindo. Era um pescador de palavras. Colecionava vozes, expressões, modos de pensar. Sua literatura nasceu desse extraordinário exercício de escuta.
Se aquele encontro no Pantanal permaneceu cercado por poucos testemunhos, uma declaração posterior de Manoel de Barros ajuda a compreender a estima que nutria por Guimarães Rosa e a natureza das conversas que mantiveram. Em entrevista concedida à revista Bric-à-Brac, Manoel recordou a passagem do escritor mineiro pela Nhecolândia e comentou algumas impressões daquele convívio.
Segundo suas palavras:
"... vi poucas notas da viagem de Rosa ao Pantanal. Quis saber, ele, ainda, de meus receios sobre as confusões com o exótico. Falei, falei demais, espichei. Dei a entender que se estava olhando o Pantanal só como uma coisa exótica. Um superficial para só se ver e bater chapa. Mesmo os que cantavam em prosa e verso ficavam enumerando bichos, carandás, aves, jacarés, seriemas; e que essa enumeração não transmite a essência do Pantanal, porém só sua aparência. Havia o perigo de se afundar no puro natural etc. Precisávamos de um escritor como você, Rosa, para frear, com a sua estética, com a sua linguagem calibrada, os excessos do natural. Temos que enlouquecer o nosso verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la."
Independentemente do peso que se queira atribuir a essa conversa, ela revela uma afinidade estética impressionante entre os dois escritores. Ambos recusavam a descrição meramente documental da paisagem. Sabiam que a literatura não se faz pela enumeração de árvores, aves ou rios. A natureza, por si só, já existe. Cabe ao escritor recri´-la, devolvendo-lhe humanidade, mistério e espanto. Talvez seja essa a grande convergência entre Guimarães Rosa e Manoel de Barros. Ambos compreenderam que a linguagem precisava ultrapassar o registro do visível para alcançar aquilo que apenas a literatura consegue revelar.
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| A sede da fazenda de Manoel de Barros no Pantanal... |
Não seria prudente afirmar que a conversa entre Manoel e Guimarães Rosa tenha determinado os rumos de Grande Sertão: Veredas. A obra rosiana já demonstrava, desde Sagarana, um domínio extraordinário da linguagem e um projeto literário muito consistente. Mas é igualmente difícil imaginar que um escritor da sensibilidade de Rosa passasse dias conversando com um poeta da dimensão de Manoel de Barros sem levar consigo alguma nova inquietação, alguma nova pergunta, algum novo olhar sobre o Pantanal e sobre o próprio fazer literário.
Rosa era um escritor que aprendia continuamente. Manoel também. Talvez o maior legado daquele encontro tenha sido justamente esse: dois criadores reconhecendo um no outro a mesma obsessão pela palavra. A preocupação com a escrita ocupava, para ambos, um lugar semelhante ao que ocupava para Gustave Flaubert: "escrever sangra". A frase precisava nascer exata. Não bastava dizer; era necessário descobrir uma maneira inédita de dizer. A palavra comum raramente lhes servia. Procuravam outra, reinventada, deslocada, surpreendente. Sofriam com a escrita porque sabiam que cada página exigia paciência de artesão.
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| Manoel de Barros com o neto no Pantanal... |
Cada um chegou a esse resultado por caminhos próprios. Guimarães Rosa aprofundou as possibilidades do português brasileiro, aproximando fala popular, erudição, regionalismos, neologismos e estruturas sintáticas inesperadas. Manoel de Barros preferiu desmontar a lógica cotidiana da língua para devolver às palavras uma inocência quase infantil. Ambos, entretanto, trabalhavam na mesma oficina: a da invenção.
Por isso, Grande Sertão: Veredas permanece como um romance atravessado pela poesia. Não porque abandone a narrativa, mas porque a linguagem nunca se contenta em apenas contar. Ela canta, filosofa, brinca, hesita, inventa e sonha. Da mesma forma, a poesia de Manoel de Barros frequentemente narra pequenas histórias, cria personagens e transforma o cotidiano em espanto permanente. É possível perceber que entre Sagarana e Grande Sertão: Veredas houve um extraordinário amadurecimento da escrita de Guimaráes. Isso não significa ruptura, mas aprofundamento. O escritor que já impressionava em 1946 continuou ampliando seu universo literário através das viagens, das leituras, das anotações, das conversas e da incessante lapidação da linguagem. O Pantanal certamente integrou esse vasto processo criativo, oferecendo-lhe novas experiências humanas e novas paisagens brasileiras, sem que se possa reduzir a elas a gênese de sua obra maior.
Entremeio: com o vaqueiro Mariano, publicado postumamente em Estas estórias, permanece como um dos frutos mais belos dessa experiência pantaneira. Ali o narrador praticamente se confunde com o observador apaixonado. Os bois deixam de ser simples animais para adquirirem presença quase humana; o homem, por sua vez, aproxima-se da natureza sem perder sua individualidade. Não por acaso surge uma das mais belas observações do livro: "... aqui é o gado que cria a gente...". Poucas frases resumem com tanta felicidade a relação entre o pantaneiro e sua terra. Também merece destaque o cuidado de Rosa em evitar que o Pantanal fosse reduzido ao exotismo. Sua escrita procura compreender aquele mundo por dentro, revelando pessoas antes de paisagens. Nesse aspecto, suas preocupações dialogam profundamente com as reflexões de Manoel de Barros, ainda que cada um tenha desenvolvido, com absoluta independência, sua própria voz literária.
Para mim, esse encontro continua sendo um dos episódios mais fascinantes de nossa literatura. Não apenas porque aproximou dois escritores extraordinários, mas porque reuniu, num mesmo pedaço do Brasil, duas maneiras muito particulares de compreender a linguagem. Há encontros que produzem fotografias. Outros produzem livros. Aquele produziu, ao que tudo indica, admiração mútua e uma memória literária que atravessou décadas. Ao longo dos anos li muitos estudos e comentários sobre Entremeio: com o vaqueiro Mariano. Poucos, entretanto, se detêm na convivência de Guimarães Rosa com Manoel de Barros durante sua passagem pelo Pantanal. É compreensível. A documentação disponível é relativamente escassa, e a prudência recomenda distinguir aquilo que os documentos efetivamente demonstram daquilo que permanece como hipótese ou interpretação.
Ainda assim, é difícil não perceber a beleza dessa aproximação. Guimarães Rosa saiu em busca dos sertões brasileiros e encontrou, no Pantanal, homens cuja experiência de vida ampliava sua compreensão do país. Entre eles estava Manoel de Barros, um poeta que ainda não havia alcançado a consagração nacional, mas que já carregava dentro de si uma das vozes mais originais da literatura brasileira. Não me parece exagero afirmar que ambos se reconheceram. Não porque um tenha ensinado o outro a escrever, mas porque compartilhavam a mesma reverência pela palavra. A conversa entre dois grandes escritores nunca produz milagres instantâneos; produz inquietações. E, para um criador, poucas coisas são mais valiosas do que uma nova inquietação.
Também chama a atenção o fato de Guimarães Rosa procurar, nos sertões do então Mato Grosso, elementos para ampliar seu conhecimento sobre o homem brasileiro e encontrar ali uma realidade distinta daquela que conhecia em Minas Gerais. O Pantanal lhe ofereceu outra paisagem, outro ritmo, outra maneira de falar e de viver. Incorporar essas experiências ao seu vasto repertório humano fazia parte de seu método de criação. Talvez por isso sua obra nunca pertença apenas a uma região. Embora profundamente enraizada no sertão mineiro, ela dialoga com um Brasil muito mais amplo. O mesmo se pode dizer de Manoel de Barros. Ainda que identificado para sempre com o Pantanal, tornou-se poeta do mundo justamente porque soube transformar o local em universal. A literatura brasileira ganhou muito com esse encontro, ainda que nunca possamos medir exatamente quanto cada um levou do outro. E talvez nem seja necessário medir. A beleza da literatura reside justamente nessas zonas onde a influência deixa de ser contabilizável e passa a ser convivência, admiração, escuta.
Aos dezessete anos, tive o privilégio de conhecer Manoel de Barros em sua casa, na Rua Piratininga, em Campo Grande. Devo esse encontro à escritora Iracema Sampaio, editora da revista Executivo Pluss, amiga de Manoel que me incentivara a mostrar a ele alguns poemas que eu insistia em chamar de poesia.. Eu lhe enviei um calhamaço de poesias. Ela respondeu, dizendo: "você precisa conhecer Manoel de Barros". Guardo desse dia uma lembrança que o tempo apenas tornou mais nítida. Cheguei tímido. Seu filho João havia acabado de retornar da fazenda. Descarregava a caminhonete quando me viu e pediu que eu entrasse. Chamou pelo pai. Instantes depois, Manoel apareceu diante de mim. Naquela época ele ainda não era o escritor celebrado em todo o Brasil, como ocorreu no início da década de 90. Entrei carregando um maço de folhas escritas a grafite e uma enorme insegurança. Contei-lhe que tinha vergonha dos meus escritos. Ele sorriu. Em determinado momento disse uma frase que jamais esqueci:
- Eu me sinto desonrado quando publico um livro. E me escondo por bom tempo.
Naquele instante não compreendi inteiramente o que queria dizer. Anos depois passei a entender que talvez falasse da distância entre o livro ideal e o livro possível, entre aquilo que o escritor sonha e aquilo que finalmente entrega ao leitor. Aquela resposta, curiosamente, me tranquilizou. Se um poeta daquela grandeza também experimentava dúvidas diante da própria obra, talvez a insegurança fosse menos um defeito do que parte inevitável do ofício.
Conversamos longamente. Manoel leu alguns textos, comentou outros, sugeriu caminhos. Em nenhum momento assumiu a postura do mestre inalcançável. Ao contrário, parecia diminuir a própria estatura para conversar de igual para igual com um rapaz que apenas sonhava escrever. Hoje penso que aquela tarde me ensinou tanto sobre literatura quanto sobre humildade. Saí dali levando muito mais do que sugestões para meus poemas. Levei a lembrança de um homem cuja genialidade jamais precisou fazer barulho. Talvez seja esse o maior traço que Manoel de Barros e Guimarães Rosa tenham compartilhado: ambos transformaram a língua portuguesa sem jamais perderem a humanidade. E isso, convenhamos, é muito mais raro do que o talento...
Referências
BARBOSA, Alaor. Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa. Belo Horizonte: Lê, 1987.
BARROS, Manoel de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003.
BARROS, Manoel de. Tratado das grandezas do ínfimo. Rio de Janeiro: Record, 2001.
COSTA, Ana Luiza Martins (org.). João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Academia Brasileira de Letras, 2003.
GALVÃO, Walnice Nogueira. As formas do falso: um estudo sobre a ambiguidade no Grande Sertão: Veredas. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1986.
NUNES, Benedito. O dorso do tigre. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2009. (Ensaios sobre Guimarães Rosa.)
ROSA, João Guimarães. Estas estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.
ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Universal, 1946.
SPERBER, Suzi Frankl. Caos e cosmos: leituras de Guimarães Rosa. São Paulo: Duas Cidades, 1976.












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