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| Imagem feita por Inteligência Artificial, baseada no retrato, mas essa não é Nísia Floresta. É apenas uma brincadeira alusiva à reflexão do texto. |
FOLCLORE TAMBÉM É HUMOR...
Imagine que você passe por este mundo e deixe apenas uma
fotografia. Agora imagine que essa fotografia, fatalmente, seja aquela do dia
em que você participou do “Dia do Cabelo Doido” da sua escola, ou aquela fotografia
de Carnaval em que você aparece coberto de spray colorido, purpurina e sabe
Deus mais o quê. Enfim, imagine que só exista essa fotografia sua. Você morre,
passam-se décadas, você se torna uma pessoa famosa e aquela única fotografia
começa a ser reproduzida, desenhada, pintada, esculpida e reinterpretada. De
repente, sua infância, adolescência, mocidade, maturidade e velhice passam a
ser representadas exatamente com aquele mesmo cabelo. É mais ou menos isso que
acontece com Nísia Floresta.
Antes de adentrarmos nessa seara capilar, porém,
faço uma ressalva: trago esta reflexão para a gente desopilar um pouco e rir da
situação do que para transformar o penteado de Nísia numa questão de Estado.
Afinal, agosto é mês do folclore e, se o folclore tamb´m é aquilo que fazemos,
repetimos e transmitimos sem perceber, talvez já seja hora de reconhecer uma
das mais persistentes tradições iconográficas do Rio Grande do Norte: o
folclórico penteado de Nísia Floresta.
Você já reparou? Num evento infantil, quando alguém
representa Nísia Floresta, lá vem ela: cabelos com tantos cachos que mais
parecem um espiral, uma mola de colchão, uma colmeia capilar ou uma sentinela
especialmente treinada para espantar pernilongos. A Nísia Floresta adolescente
só muda no corpo. Os cabelos foram transplantados. Quando saltamos para a Nísia
Floresta já madura, lá estão novamente os cachos, firmes e vigorosos tais quais
os da menina. E, como se não bastasse, mais adiante aparece a Nísia idosa, de
cabelos grisalhos, mas, pasme, tão cacheada quanto durante toda a vida. É
gostar de cachos demais!
E olha que as mulheres são muito vaidosas. Até
mesmo as intelectuais, por mais ocupadas que estejam escrevendo livros,
discutindo ideias, viajando pela Europa ou enfrentando os preconceitos de seu
tempo, não costumam declinar de suas vaidades por menores que sejam. Por isso,
permitam-me uma pergunta absolutamente impertinente: será que Nísia Floresta
passou setenta e cinco anos usando exatamente o mesmo penteado? Setenta e cinco
anos! No Brasil, na França, na Alemanha, na Grécia, na Itália, na Inglaterra,
em Portugal e por onde mais tenha andado? Será que nunca olhou para uma vitrine
parisiense e pensou: “Minha Nossa Senhora, preciso mudar esse cabelo”?
Paris era a capital da moda. E moda, naquela época,
como hoje, não tinha compromisso algum com a eternidade. Mudavam-se vestidos,
chapéus, luvas, acessórios, golas, mangas, saias e, evidentemente, os cabelos.
Ora aparecia um coque. Ora cabelos presos de outra maneira. Ora cachos. Depois
vinham outras ondulações, outros penteados e novas maneiras de arrumar a
cabeça. Portanto, enquanto a Europa inteira trocava o cabelo, será que Nísia
permanecia fiel aos seus cachos como quem permanece fiel ao casamento? Teria
sido um penteado congelado no tempo? Um amor capilar até que a morte os
separasse?
Então, o que teria feito Nísia Floresta resistir heroicamente durante toda a vida aos seus famosos cachos? Teria ela amado platonicamente aqueles cabelos? Teria feito um pacto de fidelidade com o pente? Teria dito à cabeleireira: “Pode fazer qualquer coisa, desde que tenha cachos”? Ou será que o problema não está em Nísia, mas em nós? Talvez os artistas e retratistas que vieram depois tenham encontrado uma imagem tão forte de Nísia que simplesmente não conseguiram imaginá-la de outra maneira. Uma vez consolidado o rosto, consolidou-se também o cabelo. E, a partir daí, começou uma espécie de moda retroativa. Pegamos um penteado que pode ter sido usado por Nísia em determinado momento de sua vida e o colocamos na cabeça da menina. Depois colocamos na cabeça da adolescente. Depois na cabeça da mulher adulta. Depois na cabeça da senhora. E pronto! Está criada a Nísia Floresta de penteado vitalício.
Deem uma olhada nos livros. Você verá a Princesa
Isabel, a Imperatriz Tereza Cristina, Dona Leopoldina, a Marquesa de Santos e
tantas outras mulheres com os mais variados penteados, mas Nísia Floresta, não.
Engessaram o seu cabelho. É quase como se alguém tivesse decretado: daqui para
a frente, esta mulher não muda mais de cabelo! A menina nasce cacheada, a
adolescente permanece cacheada, a mulher amadurece cacheada e a senhora
envelhece cacheada e morrerá cacheada. Só faltou alguém representar Nísia no
leito de morte perguntando ao médico: “Doutor, ela está bem?” E o médico responder:
“Ela está. Mas os cachos continuam firmes”.
Em 2024, quando escrevi um espetáculo de
aproximadamente uma hora e quarenta minutos sobre Nísia Floresta, confesso que
já estava traumatizado com aqueles horrorosos espirais. Sugeri à equipe técnica
que priorizasse penteados diferentes justamente para romper com essa espécie de
condenação capilar. Eu queria libertar Nísia dos cachos. Queria devolver-lhe o
direito de mudar de cabelo. Afinal, se até nós, pessoas comuns, conseguimos ter
uma fotografia com um cabelo na infância, outra na adolescência, outra na
juventude e outra na velhice, por que Nísia, logo Nísia, teria de passar pela
vida inteira com o mesmo penteado?
Porque, se a história de uma mulher é longa, sua
cabeça também tem direito à história. É muito provável que Nísia tenha usado
penteados com cachos. Afinal, o Brasil sempre esteve muito atento à moda
francesa e os famosos cachos em anéis, aqueles cachos tubulares e bem
definidos, realmente fizeram parte de determinados períodos da moda feminina. O
problema não está, portanto, em representar Nísia com cachos. O problema é
transformar os cachos em patrimônio permanente do couro cabeludo nisiano. É
quase uma tombamento capilar. Ninguém mais pode mexer. Não se pinta, não se
penteia, não se solta, não se prende. Está tombado pelo patrimônio histórico.
Nísia não nasceu necessariamente com aquele
penteado. Nísia não morreu necessariamente com aquele penteado. E, entre uma
coisa e outra, convenhamos, muita água passou por baixo da ponte. É bem
possível que tenha mudado de penteado. Que tenha prendido os cabelos. Que tenha
usado coque. Que tenha experimentado outras formas de arrumá-los. Que tenha
acompanhado, como qualquer mulher de seu tempo, as transformações da moda.
Afinal, uma mulher que atravessou décadas, países e transformações culturais
provavelmente não passou a vida dizendo ao espelho: “Hoje vou fazer exatamente
o mesmo cabelo de 1815”.
Mas nós fizemos algo curioso: congelamos Nísia. Não apenas no tempo, mas também no penteado. E isso é particularmente interessante quando pensamos que ela foi justamente uma mulher que não aceitou ficar parada no tempo. Nísia viajou, escreveu, rompeu convenções, discutiu educação, defendeu ideias que estavam muito à frente de seu tempo e transitou por diferentes ambientes culturais. Sua vida foi movimento. Seu cabelo, entretanto, parece ter recebido ordem de permanecer no mesmo lugar. Talvez seja esse o verdadeiro folclore da história. A imagem foi repetida tantas vezes que passou a parecer verdade absoluta. Crianças aprendem assim. Ilustrações reproduzem assim. Representações teatrais repetem assim. Desenhos copiam os desenhos anteriores. E, pouco a pouco, aquilo que era apenas uma representação artística transforma-se numa espécie de documento. E eis que Nísia, menina, adolescente, adulta e idosa, atravessa dois séculos com o mesmo penteado. Se isso não é folclore, já não sei mais o que é!
Mas há uma lição interessante escondida nessa
brincadeira. Toda imagem histórica precisa ser interrogada. Não basta perguntar
quem é a pessoa retratada. É preciso perguntar quando aquela imagem foi
produzida, quem a produziu, em que época, com quais referências e sob quais
padrões estéticos. Porque até o cabelo conta história. A moda muda. Os
penteados mudam. As mulheres mudam. E Nísia Floresta, que passou a vida inteira
enfrentando mudanças, certamente não merece que nós a condenemos a uma eterna
prisão de cachos ao modo espiral.
E talvez seja justamente aí que esteja a graça. Nós, que tanto gostamos de falar de Nísia como mulher moderna, independente, viajante, escritora e intelectual, acabamos fazendo com sua cabeça exatamente o contrário: transformamos seu penteado numa espécie de peça de museu. A mulher pode viajar para a França, publicar livros, discutir educação, desafiar costumes e atravessar oceanos. O cabelo, não. O cabelo fica em Papary. Portanto, neste agosto, mês do folclore, proponho uma pequena revolução. Da próxima vez que alguém representar Nísia Floresta, não perguntem apenas: “Onde estão os cachos?” Perguntem também: “Em que ano estamos?” Se for Nísia menina, talvez um penteado. Se for adolescente, outro. Se for adulta, quem sabe um coque. Se for uma senhora, talvez cabelos mais naturais, presos ou simplesmente diferentes. E se aparecer uma Nísia idosa com exatamente o mesmo cabelo da menina, não se assustem. Talvez não seja Nísia. Talvez seja apenas o nosso folclórico penteado de Nísia Floresta.
E, pensando bem, talvez esteja na hora de deixar
a nossa grande escritora finalmente mudar de cabelo. Ela merece. Depois de
enfrentar preconceitos, atravessar países, escrever livros e desafiar
convenções, acho que o mínimo que podemos fazer é permitir que ela escolha
outro penteado. Afinal, Nísia já foi suficientemente revolucionária para mudar
muita coisa no mundo. Só falta agora alguém revolucionar seus cabelos.

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