Para ele, a música é como a mineração. O artista é aquele minerador que se embrenha pelas matas e sertões para buscar um metal precioso bruto - as cantigas de roda, os batuques, os modões - e depois o lapida para mostrar ao mundo. A receita da nossa mistura Flausino e outros pensadores daquela época nos lembram que a música brasileira é o resultado de um triângulo muito bonito, formado por três heranças profundas:
- A tristeza
e a saudade dos navegantes portugueses.
- A melancolia
e o isolamento dos povos indígenas nas florestas.
- A dor
e a resistência dos negros escravizados.
Quando tudo isso se misturou, aconteceu uma mágica. O poeta Olavo Bilac dizia que a nossa música é uma "flor amorosa de três raças tristes". Ela tem o fogo do amor, o requebro do pecado, mas traz no fundo um eco de nostalgia do oceano e do sertão. É por isso que, quando ouvimos o ponteado de uma viola ou o baque de um tambor de candomblé, algo dentro da gente acorda. Nós deixamos de ser apenas indivíduos e passamos a ser, de uma só vez, o conjunto de todos os nossos antepassados. Os grandes mestres sempre ouviram o povo
Se alguém disser que música do
povo é "inferior", saiba que os maiores gênios da história pensavam
exatamente o contrário. Compositores clássicos como Beethoven, Chopin e Haydn
criaram suas maiores obras-primas copiando ritmos de carreiros, camponeses e
cantigas de rua de seus países. Chopin vestiu as músicas simples do povo com
trajes de gala e as levou para os grandes salões europeus.
Por aqui, os povos indígenas já eram descritos pelos primeiros viajantes como músicos impressionantes, capazes de imitar o canto dos pássaros com perfeição. Na época da colonização, os jesuítas perceberam que não conseguiriam conversar com os nativos sem a música, criando as primeiras orquestras mistas do país. Por que celebrar isso hoje?
A música do povo é a natureza
cantando pela boca do homem. Ela não segue regras de conservatório ou manuais
de teoria; ela segue o ritmo do coração. Quando uma menina canta uma modinha à
sombra de uma jabuticabeira ao meio-dia, sem saber ler uma única nota musical,
ela está nos provando que o amor é o supremo mestre da arte.
Celebrar o Mês do Folclore não é
olhar para o passado com poeira. É perceber que cada samba, jongo, fado ou
toada caipira é a semente de quem nós somos. O folclore é a nossa raiz viva. E
um povo que conhece suas raízes sabe exatamente para onde pode voar.

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