Os "velhos" de S. José de Mipibu foram morrendo, morrendo, e com eles as reminiscências de tradições locais. Velho de hoje não tem memória e não gosta de recordar tempo passado, para que ninguém pense que ele é demasiado antigo. Outrora havia orgulho em fazer-se viver a vida dos dias idos, mas presentemente sente-se o pudor, respeito, timidez, acanhamento, em recordar o que desapareceu. A impressão é que o julgam contemporâneo aos fatos pretéritos. Como se toda a gente fosse coeva ao que sabe ter acontecido.Luís da Câmara Cascudo
Um negociante do velho Mossoró, estória contada pelo Manuel Borges, ao perguntarem sobre o descobrimento do Brasil, respondeu, rápido, como afastando parentesco na quarta dimensão:– Não é do meu tempo!... (A REPÚBLICA - 24/09/1959)
Quando morrem os guardiões da memória
Há, nessas palavras de Câmara Cascudo, escritas em uma de suas Actas Diurnas, uma inquietação que permanece profundamente atual: a percepção de que uma comunidade pode perder muito mais do que pessoas quando seus velhos desaparecem. Com eles podem desaparecer histórias, lendas, costumes, maneiras de falar, acontecimentos, nomes de lugares, personagens esquecidos, antigas relações de parentesco e, sobretudo, uma determinada maneira de compreender o mundo. Já contei inúmeras vezes sobre as pesquisas que fiz em Nísia Floresta, ocasião que conversei com inúmeros idosos, pois na lógica da existência, são eles que partem primeiro, portanto suas memórias precisam ser colhidas.
Cascudo percebeu isso com extraordinária lucidez. Nela, ele se refere ao município de São José de Mipibu/RN, mas, na verdade, pensava em todos os lugares. O que está em jogo não é simplesmente a velhice, mas a memória. O velho, naquele universo de que ele fala, não era apenas alguém que havia vivido muitos anos. Era, muitas vezes, uma espécie de arquivo vivo da comunidade. Sua memória guardava aquilo que os livros não registravam e que os documentos oficiais frequentemente ignoravam. Quando esse homem ou essa mulher morria, levava consigo uma parte de um passado que talvez jamais pudesse ser recuperada.
Há, porém, uma observação ainda mais delicada no pensamento de Cascudo: o velho de seu tempo já começava a sentir certo constrangimento em falar do passado. Havia uma espécie de pudor em admitir a idade, em recordar costumes antigos, em contar aquilo que testemunhara. Como se lembrar fosse denunciar a própria velhice. Como se recordar fosse confessar que se pertence a outro tempo. E aqui está uma das grandes ironias apontadas por Cascudo. A sociedade que deveria ouvir os mais velhos, justamente porque eles carregam experiências que ninguém mais possui, começa a tratá-los como se fossem inadequados ao presente. O passado passa a ser visto como coisa ultrapassada, e a memória, em vez de patrimônio, transforma-se em motivo de acanhamento.
Isso é particularmente grave quando pensamos nas pequenas cidades e comunidades, onde a história muitas vezes sobrevive muito mais na palavra do que no papel. Em lugares como São José de Mipibu, cada velho poderia ser portador de uma parcela da história coletiva. Um engenho que desapareceu, uma festa que deixou de existir, uma antiga família, um caminho, uma expressão popular, uma história de assombração, um acontecimento político, uma tradição religiosa ou simplesmente uma maneira de viver que já não encontra lugar no presente.
Tudo isso pode morrer silenciosamente. Por isso, a advertência de Cascudo não deve ser lida apenas como uma lembrança de seu tempo. Ela é também um chamado à responsabilidade. Antes que o último narrador desapareça, é preciso perguntar, ouvir e registrar. É preciso compreender que a memória oral não é uma memória menor. Ela é uma das formas pelas quais uma sociedade reconhece a si mesma. Talvez seja justamente por isso que a frase de Cascudo sobre os velhos de São José de Mipibu adquira, hoje, uma força ainda maior. Ele não estava apenas lamentando a morte de algumas pessoas. Estava percebendo o desaparecimento de um mundo.
E mundos inteiros podem desaparecer sem fazer barulho. Às vezes, desaparecem quando a última pessoa que sabia contar determinada história fecha os olhos. Não há funeral para a memória perdida. Não existe lápide para aquilo que ninguém mais poderá contar. O que se perdeu simplesmente deixa de ser conhecido. É por isso que ouvir os velhos é também uma forma de salvar o passado. E talvez seja esse um dos maiores ensinamentos de Câmara Cascudo: antes que a memória se transforme em silêncio, é preciso dar-lhe ouvidos.
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