HÉLIO SEREJO: UM
MONUMENTO À CULTURA POPULAR SUL-MATO-GROSSENSE
Por mais que estejamos longe do
berço onde nascemos, por mais que vivamos onde a cultura popular é bela e rica,
a nossa essência bate como um coração quando falamos de cultura popular, de
memória e das coisas que dão sentido à nossa identidade. Por isso, como
sul-mato-grossense, não poderia deixar passar este mês de agosto sem
reverenciar um intelectual que realizou um verdadeiro prodígio: produzir uma
gigantesca obra literária capaz de traduzir, com fidelidade, riqueza e
abundância, a alma do povo sul-mato-grossense. Falo de HÉLIO SEREJO, escritor, jornalista, poeta, memorialista e
folclorista, um dos maiores intérpretes da gente e da terra de Mato Grosso do
Sul.
Nascido em Nioaque, em 1º de
junho de 1912, Hélio Serejo viveu profundamente ligado ao universo dos ervais,
da fronteira e da vida sertaneja. Desde muito cedo conheceu a dureza do
trabalho e os homens que faziam daquele território um espaço de sobrevivência,
esperança, coragem e convivência. Essa experiência não ficou apenas em sua
memória: transformou-se em literatura. O menino que conheceu os caminhos, os
ranchos, os ervais e as gentes de sua terra tornou-se, mais tarde, um
extraordinário contador da história cotidiana de uma região.
É difícil falar de Hélio Serejo
sem experimentar uma espécie de encantamento diante da dimensão de sua
produção. São mais de sessenta obras atribuídas à sua trajetória, abrangendo
contos, crônicas, poemas, romances, memórias, estudos de costumes, lendas e
registros da vida regional. Em 2008, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato
Grosso do Sul reuniu sua produção em nove volumes de Obras Completas, numa publicação monumental que permitiu perceber,
de maneira ainda mais clara, a extensão e a unidade de seu legado.
E há algo particularmente
extraordinário em sua escrita: o Folclore parece caminhar por dentro de toda a
sua obra. Ele não precisa necessariamente anunciar que está escrevendo sobre
cultura popular para que ela apareça. O Folclore surge naturalmente, como surge
a conversa de um homem do campo, como surge o cheiro da erva-mate, como surge
uma história contada no galpão ou uma lembrança evocada à beira do caminho.
Está nos costumes, nas crenças, nas comidas, nas festas, nos modos de falar,
nos medos, nas superstições, nas lendas, nas relações de trabalho e nas
maneiras de compreender a vida.
É simplesmente impressionante
perceber como essa presença atravessa livros de naturezas diferentes sem
descaracterizá-los. Em Carreteiro de
Minha Terra, Ronda Sertaneja,
Rincão dos Xucros, Prosa Rude, Canto Caboclo, Vida de
Erval, Pelas Orilhas da
Fronteira, Palanques da Terra
Nativa, Caraí e tantos
outros títulos, a cultura popular aparece como uma espécie de fio invisível que
costura a produção de Serejo.
Em algumas obras, esse
compromisso com a cultura popular se torna ainda mais explícito. É o caso de Lendas da Erva-Mate e Lendas do Estado de Mato Gross do Sul,
títulos que revelam o pesquisador atento às narrativas que habitavam o
imaginário de sua gente. Em Abusões de
Mato Grosso e de Outras Terras (escrito antes da divisão do estado do MT),
mergulha no universo das crenças e dos assombros. Em Modismo do Sul de Mato Grosso, registra modos de falar e
particularidades linguísticas. Em Vida
de Erval e No Mundo Bruto da
Erva-Mate, aproxima-nos do universo social e humano dos ervais, tão
decisivo para a formação histórica e cultural da região.
Mas talvez uma das maiores
grandezas de Hélio Serejo esteja justamente em não separar artificialmente
literatura e vida. Ele compreendeu que a cultura de um povo não mora apenas nos
grandes acontecimentos históricos. Ela mora também no pequeno gesto, na palavra
aparentemente simples, no apelido, na superstição, no prato de comida, na
conversa, na festa, no medo, na valentia, na maneira de cumprimentar um amigo e
na história contada muitas vezes até adquirir a dimensão de lenda.
Por isso sua obra é, ao mesmo
tempo, literatura e documento de uma época. Pesquisadores reconhecem nela um
extraordinário patrimônio de memória, capaz de registrar costumes, trabalho
ervateiro, alimentação, mitos, lendas, medicina natural, festas e modos de
viver da região fronteiriça. E tudo isso é realizado com uma linguagem muito
particular, marcada pelo encontro entre o português, o espanhol e o guarani,
numa expressão literária que procura reproduzir a riqueza linguística daquela
fronteira.
Há, portanto, em Hélio Serejo, um
profundo respeito pelo homem simples. Ele não olha para o povo de longe. Ele
escreve de dentro, com intimidade. Conhece suas dores, suas alegrias, suas
crenças e contradições. Conhece a aspereza da vida nos ervais e a beleza das
paisagens. Conhece o silêncio dos caminhos e a força das palavras. E,
sobretudo, compreende que aquele homem que muitas vezes não aparece nos livros
oficiais também é construtor da História.
Talvez por isso seja tão difícil
encontrar uma definição que dê conta de sua importância. Chamá-lo apenas de
escritor seria pouco. Dizer que foi apenas folclorista também seria
insuficiente. Hélio Serejo foi um guardião
da memória sul-mato-grossense. Foi um homem que percebeu, antes que muita
coisa desaparecesse, que a cultura popular precisava ser registrada. Sua
escrita funciona como uma grande casa onde ficaram abrigadas vozes que poderiam
ter sido levadas pelo tempo.
Sua trajetória também é marcada
por reconhecimento institucional. Foi membro do Instituto Histórico e
Geográfico de Mato Grosso do Sul, da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e de
outras instituições ligadas à cultura e ao folclore, inclusive organizações de
outros países. Sua produção alcançou uma dimensão que ultrapassou as fronteiras
regionais, embora tenha permanecido profundamente enraizada no chão de onde
veio.
Hélio Serejo morreu em Campo
Grande, em 8 de outubro de 2007, aos 95 anos. Mas há homens que não morrem
inteiramente porque continuam vivendo naquilo que deixaram. Serejo permanece
nas palavras que escreveu, nas histórias que registrou, nos personagens que
criou, nos costumes que preservou e, sobretudo, na possibilidade que nos
oferece de reencontrarmos uma parte de nós mesmos quando abrimos seus livros. No
dia de hoje o meu coração viaja para longe...


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