ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

CASO BERNARDO - O REFLEXO DE "PAIS" MONSTROS

Assisti a reportagem do “Caso Bernardo”, ontem, no Fantástico. Revoltante! Percebe-se claramente que o pai e a madrasta foram os causadores do seu comportamento agressivo. O fato de dois adultos trocarem juízo o tempo todo com a criança gerou um menino aparentemente violento. O que esperar de uma criança educada num lar infernal?
Todas as fotos divulgadas na mídia mostram uma criança que se socializava bem com todos. Por vezes alegre e feliz. Isso deixa claro que fora do lar ela se sentia bem. Creio que o seu comportamento “violento” era um grito de desespero e medo. Era a solução que ela encontrou para se defender do pai e da madrasta com fortes indícios de psicopatas. O garoto vivia diariamente acuado, tenso e numa pressão psicológica infernal.
Normalmente, madrastas e padrastos são pessoas estranhas (principalmente quando estas são crianças). É natural que sejam rejeitadas. O grande segredo está na conquista dos filhos alheios (até porque será formada uma nova família). Quem se propõe e se casar com pessoa que possui filhos, deve se preparar para formar uma nova família, aceitando-os e conquistando-os naturalmente. Há casos de madrastas do bem, mas essa assumiu mesmo a porção mostrada no clássico conto de Perrault.
Percebe-se que enteado e madrasta se rejeitavam. O inexplicável da questão é que ela, por ser adulta (e “ocupar” o lugar da mãe falecida), deveria buscar maneiras de conquistar a criança aos poucos. O garoto era carente em aspectos fundamentais para a sua formação. Um deles era a afetividade. Como se não bastasse, assistia o casal se desdobrar em carinho com o bebê, filho da madrasta com o pai. Para a mente de uma criança tão maltratada, isso era outro tipo de tortura.
O pai, médico e dono de clínica, a madrasta enfermeira. Ambos reuniam todas as condições possíveis para construir uma saudável família. Mas, pelo contrário, se uniram contra o ser mais frágil da família. O pai é tão pior quanto a madrasta, pois permitia e instigava o sofrimento do filho.
O comportamento da madrasta demonstra uma pessoa problemática e incapaz de assumir o filho não biológico. Faltou a ela sensibilidade para conquistar a criança cuja mãe biológica cometer o suicídio.
O pai provoca o filho de forma assustadora, acuando-o como uma fera atrás da presa. Sua voz traduz prazer em provoca-lo. Não dá para acreditar nem para compreender se não se tratasse de dois psicopatas. Num dado momento a gente se assusta com a atitude da criança, a qual pega uma faca e depois um facão e mostra como quisesse se defender. Nota-se pelo olhar, que o garoto revestiu-se desse “menino violento” para sobreviver na “selva perigosa” que era seu próprio lar, mas seu olhar pedia socorro.
O casal incita o garoto a morrer. Num dado momento o menino realmente pede para morrer. A madrasta fala com a criança com sarcasmo e deboche, xingando a mãe biológica e chamando-a de “vagabunda”. O garoto parece enlouquecer ao escutar ofensa a quem ele mais amava. Crueldade pura! A cena na qual ele se tranca num armário denota uma convivência infernal com o casal. Stress máximo. A criança vivia em constante desespero. A madrasta ameaça-o, dizendo “você não sabe do que eu sou capaz”. Justamente o lar era uma escola de violência e humilhação.
Pessoa equivocada pode achar que o garoto era mal ou tinha índole ruim. Quem sabe até supor tratar-se de um forte candidato a matar os pais no futuro (inclusive ouvi isso de alguém), mas tenha certeza que não! Ele era fruto do ambiente onde vivia. Estava sendo moldado pela estupidez de dois adultos que se satisfaziam de forma doentia. O que desse errado no futuro – acaso ele não fosse assassinado – seria consequência desse casal diabólico. Precisa inferno pior?
Mesmo que essa criança agisse assim por consequência de alguma patologia, jamais mereceria tal tratamento. Por ser sadio, pelo menos se defendeu o quanto pode. Infelizmente nada pode fazer quando a madrasta o dopou. Suponho que ela ainda tenha dito horrores em seu ouvido, quando ele entrava em estado de letargia e nada mais podia fazer.
Enquanto educador e pai, vejo tais pessoas como psicopatas. Senti muito a morte dessa criança. Sinto por saber que existem muitos Leonardo por esse Mundão de Deus, sofrendo nas mãos desses seres doentes, cruéis e covardes. Pais ou padrastos devem proteger os filhos – biológicos ou adotados – e não torturá-los ou matá-los.
Infeliz dessa criança que foi parar justamente nas mãos de psicopatas. Meus sentimentos aos seus familiares. Espero que haja justiça! LUIS CARLOS FREIRE

terça-feira, 29 de julho de 2014

ARIANO SUASSUNA: PILAR DA NOSSA BRASILIDADE

                                                                  OBRIGADO, MESTRE!

Sempre admirei Ariano Suassuna, antes mesmo de o “Auto da Compadecida” se tornar um clássico da TV brasileira. Não há como não tirar o chapéu para esse escritor genial, que, ao contrário do que alguns pensam, deixou vasta obra. Sua inteligência, seu bom humor, suas críticas, a maneira de se expressar, a voz, o sotaque... tudo isso lhe emprestava um contorno especial e prendia a atenção de quem assistia a suas palestras, suas “aulas espetáculo” e suas entrevistas. Tive o privilégio de assisti-lo por duas vezes. Bastava o homem falar que não tinha como não prestar atenção com admiração.
Atrás do criador de “Chicó” e “João Grilo” existia o criador de diversas personagens de grande significação para a brasilidade com ênfase à ‘nordestinidade’. Sua aparência, seu jeito aparentemente simplórios escondiam um filósofo que escrevia com a finalidade de instigar o homem ao pensar, sem poupar opiniões muitas vezes ácidas e incômodas a quem quer que fosse.
O “Auto da Compadecida”, por exemplo, carregado de humor, permite ao leitor (e telespectador) fazer sérias reflexões sobre diversos assuntos. Um deles é a hipocrisia de alguns religiosos.
Quando Ariano Suassuna publicou tal obra, teve problemas com a Igreja Católica pelo fato de mandar para o inferno justamente aqueles que, aparentemente, tinham lugar certo no céu – e mandar para o céu aqueles que, aparentemente, tinham lugar certo no inferno. Óbvio que ele precisou de ‘panos de fundo’ para ambientar sua criatividade, pois a forte carga de hipocrisia contida em muitos personagens é a mesma em pleno século XXI. E permanece obviamente em muitos religiosos, com exceções, independente de igrejas.
O paraibano radicado há décadas no Pernambuco é autor de ensaios, crônicas, artigos, romances, peças de teatro além de ter criado o “Movimento Armorial”, cuja proposta é interessantíssima. Em vida publicou 16 livros.
Alguns o criticam pelo fato de ele ser conservador e tradicionalista no que se refere às manifestações folclóricas e a Música Popular Brasileira. Não o vejo assim. É certo que vivemos num mundo globalizado e com influências instantâneas em tudo (moda, música, dança, linguagem, gestos etc), mas enquanto os demais países vivenciam tudo isso e preservam a sua própria cultura, nós, brasileiros, esquecemos da nossa, vivenciando apenas a cultura dos outros.
Tem muita gente que torce o nariz quando se fala de “Boi-de-Reis”, “Pastoril”, “Bambelô”, “Congada”, “Boi-de-Mamão”, Agnaldo Rayol, Maria Betânia, Caetano Velozo, Núbia Lafaiette, Nelson Gonçalves, Maysa etc etc etc. Ele nos levou a pensar que boa parte dos jovens brasileiros tem vergonha da sua brasilidade. O que não é novidade, mas quando um homem da sua dimensão atinge as massas e os ambientes mais acadêmicos com tal discurso, é ótimo. Grosso modo, era simplesmente isso o que Ariano Suassuna criticava de forma ácida.
Sobre boa parte do repertório da MPB (clássicos, bregas etc) ele não poupava ironias, levando as plateias ao delírio com colocações fantásticas, tipo “é uma esculhambação da mulesta”. Se ele dava uma exagerada em algumas opiniões sobre x ou y, é digno que o tenhamos relevado mediante tudo o que ele foi.
Até parece que ele queria que tudo tivesse parado no tempo, mas engana-se quem assim pensa. Ariano Suassuna criticava o fato de o Brasil negar a sua raiz e enaltecer o que veio de fora. Ele entendia que o Brasil deve valorizar o que veio de fora desde que tenha qualidade, mas sem que a “internacionalidade” sobrepuje a “brasilidade”. Esta deve estar em primeiro lugar.
Ariano Suassuna detonava o lixo colocado onde quer que seja. Ele fazia reflexões sérias e importantes sobre a linguagem chula, vulgar, pornográfica e sem nexo que chega ao povo através de diversas manifestações artísticas, alienando as pessoas ao invés de despertar nelas o espírito crítico. Ele dizia que “lixo não é arte”, “lixo não é música”, “lixo não é cultura”. Na concepção dele o “velho” deve caminhar junto com o “novo”, desde que esse “novo” seja algo que possa somar positivamente, e não enaltecer o lixo. O “velho” pode até sofrer mudanças, mas do tipo que você lerá abaixo.
Não há como evoluir sem sofrer mudanças - nem mesmo a arte - mas que as mudanças não interfiram na essência, nem agridam a estética. Era mais ou menos assim que ele pensava. E que boa parte de nós pensamos.
Dia desses eu conversava com uma pessoa sobre uma manifestação rara, ainda em voga em São José de Mipibu, chamada “Pau Furado”. No passado os brincantes se serviam de toras de uma madeira hoje em extinção, a qual era ‘ocada’. Essa peça fazia as vezes de um atabaque para batucar as canções. A pele era de raposa ou algo assim. A todo instante os dançantes esquentavam a pele de tal instrumento numa fogueira que faziam ao redor. Desse modo o som ficava mais audível.
Hoje, eles usam instrumentos musicais modernos, e nas raras vezes que fazem fogueiras, adquirem gravetos de mangueiras ou árvores frutíferas velhas, pois não se pode destruir as matas para fazer zabumbas ou fogueiras. E assim vai. Porém, a essência não morre, que são as canções, o bailado, a indumentária, a mesma alegria contagiante de séculos passados.
Ariano criticava a acanhada falta de políticas públicas em prol da cultura, principalmente em governos anteriores, a ausência de uma reeducação para a tal brasilidade a partir dos primeiros anos escolares etc.
Tenha certeza que esse genial intelectual era um dos pilares da nossa cultura, da nossa história, da nossa literatura, da nossa brasilidade.
Torço para que com a sua morte não se definhe o patrimônio que ele tanto defendeu, e que, com certeza, deve estar dentro de cada um de nós, aliás, ele próprio era um patrimônio monumental. LUIS CARLOS FREIRE.

domingo, 27 de abril de 2014

EM TEMPO: ANIVERSÁRIO DE MORTE DE NÍSIA FLORESTA


Medalhão em bronze, feito em 1851, com efígie de Nísia Floresta e transcrição da assinatura dela. Essa peça foi o que restou do monumento originalmente erguido na praça Augusto Severo, em Natal/RN, em 1911. Foi destruído por vândalos, ; hoje pode ser apreciado no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, mas  ficou desaparecido durante muitos anos, depois encontrado casualmente num ferro velho e entregue ao IHGRN. Recentemente a peça foi polida e exposta ao público numa estrutura segura.

EM TEMPO: ANIVERSÁRIO DE MORTE DE NÍSIA FLORESTA
          
Eu havia preparado uma homenagem para Nisia Floresta no início do mês, mas não foi possível publicar no período certo, pois precisei ir ao Mato Grosso do Sul e ao interior de São Paulo, onde passei 15 dias. Creio que ainda esteja valendo, afinal o seu aniversário de morte deu-se no dia 24 de abril de 1884. Estamos no referido mês. Na realidade esta homenagem não é para a sua morte. A data da sua morte serve para lembrarmos dessa importante intelectual brasileira, cujos feitos servem de exemplo para todos aqueles que não aceitam injustiças sociais e gritam bem alto contra os tiranos e opressores da sociedade. OBSERVAÇÃO: As fotos são aleatórias e trazem explicações nelas mesmas. Outras têm legendas ou textos pertinentes.


            
        Inaugurado em 12 de outubro de 1909, para celebrar a passagem do 1º centenário do nascimento de Nísia Floresta. Em suas faces está escrito:
         A leste: Deste Ninho, até agora ignorado, levantou voo altaneiro a notável norte-riograndense a quem a mocidade rende esta homenagem.
  Lado Oeste: “Votre touchante composition est irrévocablement placée dans le tiroir sacré qui ne contient que la correspondence exceptionelle. Respect e sympathie. AUGUSTE COMTE”. Carta de 29 de agosto de 1857.
   Lado Norte – NÍSIA FLORESTA. 1809-1909. 12 de outubro. Papari.
       Lado Sul: O Congresso Literário, reunido em Setembro de 1909, sob os auspícios do exmº dr. Alberto Maranhão, seu presidente de honra e Governador do estado, resolveu erigir este monumento.
VEJA A IMAGEM DE NÍSIA FLORESTA, LOGO ATRÁS DOS DEMAIS PRECURSORES DA LUTA EM PROL DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA BRASILEIRA - O MONUMENTO PODE SER VISTO NA 'PRAÇA DA REPÚBLICA' - RIO DE JANEIRO.
PANFLETOS IGUAIS A ESTE, NUMA QUANTIDADE DE 10.000, FORAM DESPEJADOS DE UM AVIÃO SOBRE O CORTEJO QUE ACOMPANHOU A SOLENIDADE DA CHEGADA DOS  DESPOJOS DE NÍSIA FLORESTA, EM 1954, NO MUNICÍPIO QUE JÁ POSSUÍA O NOME DE NÍSIA FLORESTA/RN.

Medalhão em bronze, feito em 1851, com efígie de Nísia Floresta e transcrição da assinatura dela. Essa peça foi o que restou do monumento originalmente erguido na praça Augusto Severo, em Natal/RN, em 1911. Foi destruído por vândalos, ; hoje pode ser apreciado no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, mas  ficou desaparecido durante muitos anos, depois encontrado casualmente num ferro velho e entregue ao IHGRN. Recentemente a peça foi polida e exposta ao público numa estrutura segura. (Abaixo)
     









            Monumento a Nísia Floresta, em Natal. Inaugurado em 19 de Março de 1911, na Praça Augusto Severo. Obra de Corbiniano Vilaça e do escritor francês Edmond Badoche. Medalhão de bronze aposto a uma stela de granito, com incrustrações em bronze; uma palma e datas do nascimento e morte. Feito em Paris, sob a orientação de Henrique Castriciano. Sobre essa peça repousa uma curiosidade que me intriga. Tenho uma fotografia feita em 1954, herdada da minha mãe, Maria Freire, em que um medalhão (efígie) exatamente igual a essa se encontra sobre uma mesinha no Centro Norte-Rio-Grandense, no Rio de Janeiro. É exatamente igual. Mas se exitia uma peça igual aqui no Rio Grande do Norte, sob os cuidados do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, como ela poderia estar no Rio de Janeiro? Suponho que se trata de duas efígies (medalhão). O mais curioso é que em 1993 entrei em contato com o Centro Norte-Rio-Grandense, no Rio de Janeiro, para me informar sobre o que eles tinham sobre Nísia Floresta, e eles me disseram simplesmente que não tinham nada. Falei da efígie, mas me disseram que desapareceu há muitos anos. Tenho a impressão que foi um furto que partiu de algum colecionador de antiguidades, ou mesmo de algum admirador, ou admiradora de Nísia Floresta, que incorreu a tal absurdo. Espero que o tempo esclareça...
 
Essa fotografia, feita no Centro-Norte-Riograndense, em 1954, mostra o medalhão que atualmente está desaparecido. Na imagem em zoom é possível ver a mesma peça sobre a mesinha de centro.É exatamente igual a que existe no Instituto Histórico e Geográfico no Rio Grande do Norte. OBS. A imagem está borrada porque faz parte de um estudo inédito que estou fazendo, mas mesmo assim não há dúvida quanto ao medalhão. Contra fatos, não há argumenos.
 

 


quinta-feira, 20 de março de 2014

VOCÊ SE SURPREENDERÁ COM UM TEXTO ESCRITO HÁ 76 ANOS – INTITULADO “TERRAS DE PAPARI” TERRAS DE PAPARI - COMENTADO



O texto foi escrito em 1938. O autor inicia elogiando à exuberância da natureza em Papari (hoje Nísia Floresta). Nenhuma novidade, mas algo chama a atenção. Ele usa a lagoa Papari para explicar o atraso em que os  nisiaflorestenses já em encontravam naquela época. Vejam como isso é curioso: “A lagoa, que é uma tradição da alegria, do bom humor e da paciência resignada dos habitantes, explica, em parte, o atraso de uma comunidade esquecida de que sua prosperidade está na dependência imediata do trabalho agrícola mesmo pelos processos rudimentares usuais”.
Ele segue comentando sobre a decadência em que se encontra o município. É interessante como existem vários textos antigos que retratam Papari de forma deprimente. Alguns, escritos há mais de cem anos, mostram o município como lugar semiabandonado. O primeiro livro sobre o Rio Grande do Norte, escrito por Ferreira Nobre mostra uma terra desolada e parada no tempo.
Vamos ver o que o autor diz mais adiante: “Em algumas visitas que tenho feito à terra natal de Nísia Floresta, o que mais me surpreendeu foi a decadência implacável de um dos mais antigos núcleos da população do Rio Grande do Norte, em contraste flagrante com os elementos naturais favoráveis à produção de todas as sementes alimentícias ou de plantas adequadas a fins industriais”.
Outro detalhe curioso ocorre quando o autor comenta sobre a degradação da lagoa, cuja microfauna e microflora veem-se depredadas pelas redes de pesca. O texto parece ter sido escrito hoje, pois os nativos atuais têm os mesmos discursos. Todos falam do passado de piscosidade dessas águas nas épocas dos avós. Vejam que, muito antes de seus avós e bisavós, já se notavam essa decadência.
Esse texto é importantíssimo porque retrata com realismo uma época. O autor elogia o patrimônio natural de Nísia Floresta, mas não se priva de observar os sinais de destruição da lagoa.
Esse trecho nos faz lembrar um dos livros de Nísia Floresta denominado “A Lágrima de Um Caeté”, o qual, diferente dos livros de cunho indianista, que mostravam um índio herói, parecido com os cavaleiros medievais, mostra um índio derrotado e triste por ver a sua natureza sendo destruída.
Revejam o que o autor escreveu: “A própria lagoa tem apresentado deficiências no tocante a quantidade de fauna ictiológica, evidentemente prejudicada pelos métodos de pescaria impróprios à defesa das espécies em concorrência, com a falta de limites do tempo em que podem ser feitas. Se é certo, como ali se afirmaram, que a sua profundidade não diminuiu nem modificou a potabilidade da água, não há como negar os prejuízos advindos à produção e desenvolvimento dos peixes e saborosos camarões, hoje, menos famosos do que em tempos idos”.
Adiante é possível verificar um fato histórico, sobre a famosa cheia de 1924, comentado até hoje. Nesse episódio está implícito um fenômeno que não se restringiu apenas a lagoa Guaraíras, mas que abarcou a lagoa Papari, ou seja, a salinização de suas águas.
Outro detalhe importante – não contido no texto – deve ser trazido à tona para ajudar-nos a entender melhor. Trata-se de outra famosa cheia, a de 1974, a qual deixou rastros parecidos com os de 1924. Tudo isso influiu nas águas da lagoa Papari, principalmente no que se refere ao seu assoreamento. Tenho slides de época. É inacreditável como as águas chegaram até próximo ao quintal da casa onde hoje mora a professora Ana Barros. Da Floresta ao Porto tudo ficou submerso.
Vejamos o que o autor escreveu: “Enquanto sua rival, lagoa de Guaraíras ficou inteiramente salgada, depois da cheia catastrófica de 1924, que alargou a barragem de Tibau, numa extensão de duzentos metros e os famosos camarões de Arês, primitivamente idênticos aos de Papari, foram substituidos pela espécie Vila França, pertencente à fauna marítima a lagoa lendária continuou a criar os mesmos e variados peixes, embora diminuídos no tamanho, pela impropriedade das redes empregadas nas colheitas, cujas malhadas são tão apertadas que, com peixes maiores, se acumulam piabas minúsculas, na proporção de muitas centenas de quilos”.
Vejam como é interessante o trecho abaixo, quando o autor dá uma puxada de orelha no povo de Papari: “Não se esqueçam os habitantes de Papari de que as suas terras agrícolas proporcionalmente à área total, representam vantagens inatingidas nos mais férteis municípios do Estado”.
Ele pede que as pessoas sintam remorso por serem donos de terras tão ricas, que n’outros tempo eram repletas de roças exuberantes, se resumir em pasto para gado. Curioso é que hoje (2014), nem para pasto vem servindo. São muitas as áreas cujo mato se reinstaurou. Boas partes das terras estão legadas ao nada. Isso é de causar realmente remorso, principalmente por saber que são inúmeros os programas do Governo Federal para incentivo à agricultura, inclusive para o pequeno produtor.
O autor só falta dizer que quisera o povo do sertão ser dono de tão férteis terras. Nenhum município potiguar chega próximo de tamanho potencial.
Veja o que o autor diz: “Reflitam que a quase totalidade dessa área, é bastante irrigada graças ao milagre das vertentes procedentes de camadas profundas de sub-solo. Contemplem com remorso, essas terras, outrora de lavouras alimentícias e, hoje, transformadas em zona de pastoreio em prejuízo da saúde da população e economia coletiva”.
Outra informação histórica emerge no texto, quando ele se refere aos engenhos. É válida uma observação. O município de Nísia Floresta já passou por várias mudanças em suas divisas territoriais, não apenas em 1853, mas, inclusive, no início do século XIX.
Por tal motivo não estranhe quando ele lista os engenhos “Dedo” e “Ribeiro” como situados em Papari. Naquela época realmente estavam em terras paparienses. Em caráter de observação temos o “Monte”, o qual, com a última divisa territorial, ficou metade de São José de Mipibu e metade de Nísia Floresta, conforme pode ser constatado.
Constate o que ele escreveu: “Não faz muitos anos que, no município de Papari, safrejavam quarenta e quatro engenhos, embora, subordinados à forma das almanjarras. Lá estão ainda visíveis, as ruínas dessas fábricas de açúcar mascavo, substituídas, apenas, pelos engenhos a vapor “Dedo”, “Descanço”, “São Roque”, “Monte”, e “Ribeiro”.
Uma curiosidade realmente surpreendente ocorre quando – referindo-se a famosa “Cachoeira” o autor diz: “Resta ainda acrescentar um fator importante ao desenvolvimento econômico do município, objeto destas linhas apressadas. Quando ali estive a última vez, um antigo papariense me informou, que na velha propriedade denominada “Cachoeira”, pertencente ao Sr. Inácio Lopes de Macedo, existe uma queda d’água que, devidamente aproveitada, pode produzir, num mínimo, cento e vinte cavalos de força”.
Vejam como é animada a suposição do potencial energético da referida cachoeira. Não podemos desacreditar no informante, pois há muito o que se considerar. Assim como o autor fala da degradação das lagoas Papari e Guaraíras, a “Cachoeira” também é alvo de degradação digna, sim, de remorso.
Nativos mais idosos me relataram que a vazão de água da mesma era incomparável à atualidade. Falam do “ronco da Cachoeira”, ou seja, do barulho das suas águas. Há quem afirme que a altura da queda d’água era três vezes superior a atual.
Hoje essa atração turística está limitada a um pequeno filete, embora sua beleza natural é inegável. Certamente o fato de o proprietário impedir a entrada de visitantes tem contribuído ao menos com a manutenção do que restou
E assim o autor conclui: “Essa cachoeira é formada por um pequeno rio, tornado perene pela revência das lagoas “Urubu”, “Escura”, “Bom Água”, “Ferreira”, “Ferreirinha”, “Redonda” e “Redondinha”, fontes estas situadas à montante e à pequenas distâncias.
Vejam como são animadas as expectativas do papariense que informou o fato ao autor do texto: “O volume do rio aumenta bastante no inverno e a força prevista seria suficiente para iluminar Papari, São José, Arês e Monte Alegre. Não respondo pelo otimismo do informante, mas a indicação é bastante para determinar uma investigação concludente”.
Para encerrar, analisem a decepção do autor quando finaliza:
 Que falta, pois, para incentivar o progresso de Papari? Espero dos seus próprios habitantes a resposta adequada, que não pode ser outra senão: trabalho consciente, continuado e corajoso.
Veja como é inacreditável que passados 78 anos outras e outras pessoas, sejam nativos ou não, quando escrevem sobre Papari – hoje Nísia Floresta – continuam finalizando os seus textos da mesma forma. Todas estão erradas?


CONHEÇA AGORA A TRANSCRIÇÃO DO TEXTO

TERRAS DE PAPARI
“Papari é um município de clima benigno e de sedutoras paisagens. A terra é dadivosa. O vigor da vegetação constitue índice de fertilidade convidativa a várias atividades agrícolas compensadoras.
A lagoa, que é uma tradição da alegria, do bom humor e da paciência resignada dos habitantes, explica, em parte, o atraso de uma comunidade esquecida de que sua prosperidade está na dependência imediata do trabalho agrícola mesmo pelos processos rudimentares usuais.
Em algumas visitas que tenho feito à terra natal de Nísia Floresta, o que mais me surpreendeu foi a decadência implacável de um dos mais antigos núcleos da população do Rio Grande do Norte, em contraste flagrante com os elementos naturais favoráveis à produção de todas as sementes alimentícias ou de plantas adequadas a fins industriais.
A própria lagoa tem apresentado deficiências no tocante a quantidade de fauna ictiológica, evidentemente prejudicada pelos métodos de pescaria impróprios à defesa das espécies em concorrência, com a falta de limites do tempo em que podem ser feitas. Se é certo, como ali se afirmaram, que a sua profundidade não diminuiu nem modificou a potabilidade da água, não há como negar os prejuízos advindos à produção e desenvolvimento dos peixes e saborosos camarões, hoje, menos famosos do que em tempos idos.
Enquanto sua rival, lagoa de Guaraíras ficou inteiramente salgada, depois da cheia catastrófica de 1924, que alargou a barragem de Tibau, numa extensão de duzentos metros e os famosos camarões de Arês, primitivamente idênticos aos de Papari, foram substituidos pela espécie Vila França, pertencente à fauna marítima a lagoa lendária continuou a criar os mesmos e variados peixes, embora diminuídos no tamanho, pela impropriedade das redes empregadas nas colheitas, cujas malhadas são tão apertadas que, com peixes maiores, se acumulam piabas minúsculas, na proporção de muitas centenas de quilos.
Não se esqueçam os habitantes de Papari de que as suas terras agrícolas proporcionalmente à área total, representam vantagens inatingidas nos mais férteis municípios do Estado.
Reflitam que a quase totalidade dessa área, é bastante irrigada graças ao milagre das vertentes procedentes de camadas profundas de sub-solo. Contemplem com remorso, essas terras, outrora de lavouras alimentícias e, hoje, transformadas em zona de pastoreio em prejuízo da saúde da população e economia coletiva.
Não faz muitos anos que, no município de Papari, safrejavam quarenta e quatro engenhos, embora, subordinados à forma das almanjarras. Lá estão ainda visíveis, as ruínas dessas fábricas de açúcar mascavo, substituídas, apenas, pelos engenhos a vapor “Dedo”, “Descansço”, “São Roque”, “Monte”, e “Ribeiro”.
Resta ainda acrescentar um fator importante ao desenvolvimento econômico do município, objeto destas linhas apressadas.
Quando ali estive a última vez, um antigo papariense me informou, que na velha propriedade denominada “Cachoeira”, pertencente ao Sr. Inácio Lopes de Macedo, existe uma queda d’água que, devidamente aproveitada, pode produzir, num mínimo, cento e vinte cavalos de força.
Essa cachoeira é formada por um pequeno rio, tornado perene pela revência das lagoas “Urubu”, “Escura”, “Bom Água”, “Ferreira”, “Ferreirinha”, “Redonda” e “Redondinha”, fontes estas situadas à montante e à pequenas distâncias.
O volume do rio aumenta bastantes no inverno e a força prevista seria suficiente para iluminar Papari, São José, Arês e Monte Alegre.
Não respondo pelo otimismo do informante, mas a indicação é bastante para determinar uma investigação concludente.
Que falta, pois, para incentivar o progresso de Papari?
Espero dos seus próprios habitantes a resposta adequada, que não pode ser outra senão: trabalho consciente, continuado e corajoso”. 
____________________________________________
REF. SOUSA, E. - O presente texto, dentre outros, foi encontrado num Sebo, pelo ex-governador norte-riograndense, Juvenal Lamartine, o qual teve o cuidado de recuperá-lo e trazê-lo para o RN.


domingo, 16 de março de 2014

DR. ANTONIO DE SOUSA, O 'POLYCARPO FEITOSA' - HISTÓRIA E BIBLIOGRAFIA - POR LUÍS CARLOS FREIRE




         Antonio José de Melo e Sousa, o Polycarpo Feitosa, nasceu aos de 24 de dezembro de 1867 no Vale do Capió, quando Nísia Floresta tinha o nome de Vila Imperial de Papari. É o filho mais velho do casal Antonio José de Melo e Sousa e Maria Emília Seabra de Melo e Sousa, os quais eram católicos fervorosos.
Seu pai, apesar de proprietário de grandes extensões de terras em Papari, e dono de escravos,  inclusive os Engenhos Capió e São Luiz, ocupava a função de tenente coronel da Guarda Nacional, espécie de secretário de segurança do estado – se comparamos à atualidade. Possuía fazendas em outros lugares, como São Tomé, Barcelona e no Pajeú.
O envolvimento futuro de Antonio de Sousa na política certamente teve influência do seu pai, pois o mesmo era chefe do Partido Conservador e foi presidente da Câmara Municipal.
Ali mesmo, no Engenho Capió nasceram os treze filhos do casal, sendo dez homens e três mulheres: Antonio José, José Augusto, Luís Augusto, Francisco José, Brás Florentino, Celso Victor, Anísio Otávio, Tarquínio Bráulio, Cícero Franlin e Augusto César, Ana Luísa, Maria Amélia e Isabel Emiliana. Os primeiros anos escolares foram feitos em Papari e São José de Mipibu. Depois foram estudar em Natal.
         Dr. Antonio de Sousa, o futuro Polycarpo Feitosa foi único a estudar no Recife. É interessante ressaltar que ele tinha um tio, por parte de pai, Dr. Tarquínio Bráulio de Sousa Amaranto, jurista, cuja história estudaremos em outra ocasião. Era padrinho de Antonio de Sousa, portanto achou melhor levá-lo para Recife, onde concluiria o curso primário e só sairia de lá após se formar em Ciências Jurídicas e Sociais.
Era o ano de 1876, e no lombo de um cavalo e com dois jumentos carregando a bagagem e comida, saíram tio e sobrinho rumo à terra de Nunes Machado. Foram oito dias entre Papari e Recife. Viagem cansativa, mas naquela época não existia a estrada de Ferro, a qual seria construída em 1881. Era normal andar de cavalo, fosse rico, fosse pobre. Ao menos nisso eram iguais os viajantes que cruzavam as estradas pelo Brasil a fora. Tio e sobrinho se abalaram até Natal e embarcaram na Companhia Pernambucana. Chegaram em Recife na tarde de 9 de novembro de 1876.
         O garoto Antonio de Sousa, nunca havia saído de Papari. A surpresa foi grande quando chegou em Recife e viu o trenzinho de Caxangá (FOTO), apitando, no dia seguinte à sua chegada. O máximo que ele conheciam eram os carros-de-bois, as carroças e as carruagens de Papari, todas movidas a força animal. A admiração foi grande, pois Recife era uma das cidades mais populosas e movimentadas do Brasil. Os bondes, o trem, as carruagens, as seges se entrecortavam numa badalada movimentação.
Trenzinho Caxangá - Recife-PE.
         A saudade da família foi grande. De repente, o menino esperto e inteligente, que já aos oito anos encantava a todos recitando de cabeça os versos de Luís Gama, publicados no jornal Correio do Recife, trazidos pelo tio,  teria que sobreviver em meio a pessoas adultas, diferente do ambiente cheio de calor maternal.
         Dr. Tarquínio era jurista e vivia em trânsito constante por outras paragens e províncias. O pequeno Antonio de Sousa foi matriculado no Colégio São Tomás de Aquino, onde estudou apenas três meses. Em seguida foram para a Corte, no Rio de Janeiro. Ali ele vivenciaria uma das suas experiências inesquecíveis, tendo conhecido pessoalmente o Imperador Dom Pedro II, em companhia do tio durante um importante evento.
Dom Pedro II e Imperatriz Teresa Cristina, sua esposa.
         Na corte Antonio de Sousa frequentou três estabelecimentos de ensino, entre os quais, o São Salvador. Em 1877 retornou para Recife e foi matriculado no Ginásio Pernambucano e pouco tempo depois no Dois de Dezembro, em 1879.
No período entre 1881 a 1884 foi matriculado, em regime de internato, no Colégio Sete de Setembro. Todos esses estabelecimentos em que ele estudou mantinham regimes rígidos, muito comuns àquela época, como isolamento, “bolos”, dentre outros castigos. Para quem não sabe, bolos eram pancadas dadas nas mãos com um objeto chamado “palmatória”. Imagine um pirulito gigante, todo de madeira, com uns sulcos no meio. 
Ginásio Pernambucano - Recife - PE.
 Bastava a criança errar que tomava bolos, ou sejam, pauladas nas mãos. Mas o tempo foi passando e, agora jovem, Antonio de Sousa conseguiu um verdadeiro feito nesse referido educandário: substituir o professor no curso primário e ministrando aula de Português do curso secundário.
Palmatória original, usada até pouco tempo em muitas escolas - Era a forma "educativa" de punir o aluno que errava uma tarefa.
         Logo em seguida iniciou-se na Faculdade de Direito de Recife, formando-se em Ciências Jurídicas e Sociais, em 1889. Retornando para o Rio Grande do Norte, ocupou o cargo de promotor público, na comarca de Goianinha, de 1890 a 1892. De 1892 a 1895 exerceu o cargo de Diretor Geral de Instrução Pública, ao lado do mandato de deputado ao Congresso Legislativo do estado, 1892/1894. De 1895 a 1899, foi procurador da república, seção do Rio Grande do Norte. Ainda em 1899, foi nomeado secretário do governo do estado, ocupando, em 1900, o cargo de procurador geral, com assento no Superior Tribunal Federal de Justiça.
         Eleito governador em 1907, governou até 1908. Eleito senador da república, na vaga aberta com o falecimento do Dr. Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, voltou, mais tarde, a exercer o cargo de governador, no período de 1920 a 1924, presidindo, portanto, as grandes festas do primeiro centenário da “Independência do Brasil.
         Deixando o governo, foi nomeado Consultor Jurídico do estado, cargo em que se aposentou, em 1935. A Revolução de 1930, com todo um processo de vindictas e violências, desmanchando reputações e entronizando novos deuses, não dispensou os seus serviços, chamando-o a colaborar nas Interventorias Federais do Comandante Hercolino Cascardo e Dr. Mario Leopoldo Ferreira da Câmara, nas quais assumiu o governo oito vezes.
Escola Normal - Mossoró-RN.
         Luís da Câmara Cascudo, resumindo a sua ação à frente do Governo do estado, diz textualmente: “Criou a Escola Normal de Mossoró, decreto nº 165, de 19 de janeiro de 1922, instalada a 2 de março do mesmo ano e equiparada à de Natal pelo decreto nº 698, de 16 de julho de 1934 (Interventoria Mario Câmara); a Escola Profissional do Alecrim, (24 de abril de 1922), com cursos de serralheria, marcenaria, sapataria e funilaria; a Escola de Farmácia de Natal, pela lei nº 498, de dezembro de 1920; e o primeiro Grupo Escolar do estado, “Augusto Severo”, inaugurado a 12 de junho de 1908, mas criado pelo decreto nº 174, de 5 de março de 1908. Em ambas as administrações interessou-se intensamente pela saúde pública, imprimindo um desenvolvimento notável a esses dois departamentos.
Grupo Escolar Augusto Severo - fica ao lado do Teatro Alberto Maranhão
         Criou a Diretoria Geral de Agricultura e Obras Públicas, pela lei nº 568, de 19 de dezembro de 1923. Suas mensagens são modelos de nitidez, coragem e fidelidade ao ambiente real, sem retórica e disfarces.
         Como governador do estado, durante as eleições presidenciais, em que saiu eleito o Dr. Artur da Silva Bernardes (FOTO), pleito disputadíssimo, manteve a mais absoluta imparcialidade e foi talvez o único chefe de governo que não influiu e não teve candidatos.
         São de louvar as suas ideias  sobre o problema agrário, corporativo, educacional, expostas nas “Mensagens”, documentos formalmente diversos da literatura convencional desse gênero inútil de promessas e explicações e promessas oficiais. Jornalista e escritor, tem publicado vários romances sob o pseudônimo Polycarpo Feitosa.
      Festejou condignamente o centenário da Independência Nacional, inaugurando a estátua da praça sete de Setembro e prestigiando a Semana da Pátria que foi imponente.
            Elevou a vilas as povoações de Parelhas (lei 478, 26.11.1920), e a de Barriguda com o nome Alexandria (l n. 572, de 3 de dez. de 1923) e à cidade a vila de Lages (l. n. 572, de 3 de dez. 1923).

Alexandria - RN
Lajes - RN.
         O elogio do Dr. Antonio de Sousa está na verdade integral destes períodos com que se despediu dos deputados estaduais (mensagem de 1º de novembro de 1923): “Nunca um magistrado recebeu pedidos da administração nem mesmo quando interesses do estado se debatiam; nunca um professor foi nomeado ou removido por exigência ou solicitação de políticos; nunca o serviço de arrecadação das rendas esteve sujeito a conveniências ou influências dessa espécie. Por isso algum dissabor deve ter havido, mas os funcionários estavam seguros e os serviços se faziam com desassombro”. (Governo do RN, pags. 70/71).
         Intelectual dos mais brilhantes, Antonio José de Melo e Sousa começou a sua vida de imprensa muito cedo. Ao lado das primeiras leituras, veio infalivelmente o desejo de escrever. Iniciou-se pelo logogrifo, em que era habilíssimo, ao contrário dos que começavam fazendo versos. Estudante de geografia, comprazia-se em escolher nomes de cidades russas e paulistas, por sinal muito longos, cheios de consoantes e vogais, dos quais formava nomes de acidentes geográficos, rios, cabos, montes, ilhas. Desse inocente exercício passou aos artigos, escrevendo no jornalzinho do seu amigo Laurentino Vitoriano de Borba Cavalcanti, O Republicano, em que se iniciou. Estimulado por esse, trabalho de iniciação literária, fundou também o seu jornal, A Ideia, manuscrito, como o do seu colega. Daí passou à letra de forma, colaborando no jornalzinho – O Tentamen, órgão do Comício Literário, sociedade de calouros, que tinha como redatores e colaboradores Macedo França, Gervásio Fioravanti, Pacífico dos Santos, Luís Seráfico, Anísio Dantas, Pedro Paulo, além de outros. “Os primeiros artigos n’O Tentamen, diz ele, eram, já se vê, referências, variações, presunções sobre coisas lidas”.
         Na sua província, colaborou na Gazeta do Natal, - n’A República, no Almanaque do RN, na Revista do Rio Grande do Norte, n’O Lavrador, na Revista do IHGRN, no Diário de Natal, além de outros de reduzida e esporádica publicação.
         Escritor, jornalista, poeta, jurista, historiador, contista e romancista, Antonio José de Melo e Sousa dedicou-se principalmente ao conto e ao romance de costumes, escrevendo e publicando vários livros de ficção entre os quais se destacam Flor do Sertão, 1928, Gizinha, 1930, Alma Bravia, 1934, Encontros do Caminho, 1936, Os Moluscos, 1938 e Gente Arrancada, 1941, além de outros.
         Grande parte de sua obra literária, publicada em jornais e revistas da província, permanece dispersa, à espera de quem, amorosa, e diligentemente a recolha, dando-lhe feição duradoura e permanente.
         Este volume, que o Departamento de Imprensa do estado faz publicar, em colaboração com a Academia Norte-Riograndense de Letras e o IHGRN, na passagem do primeiro centenário do seu nascimento, representa o primeiro passo, no sentido de resgatar uma dívida que o RN e o povo têm com uma das maiores figuras da sua história política e literária.
         Antonio José de Melo e Sousa, “retraído por índole e modesto por necessidade”, como costumava dizer, escreveu quase toda a sua obra sob pseudônimo de Polycarpo Feitosa, utilizando ainda os de Lulu Capela, Francisco Macambira, Johannes da Silva, Antonio Josino de Tal e Coisa e a primeira inicial do seu próprio nome. Poucas vezes assinava Antonio de Sousa. Nos atos oficiais assinava com todas as letras, Antonio José de Melo e Sousa.
         Rômulo Chaves Wanderley, perguntando-lhe certa vez, desde quando e porque usava o pseudônimo Polycarpo Feitosa, respondeu textualmente: “desde 1897 que escrevo com este nome”. E acrescentou, fazendo blague (???): “É menos banal que o meu próprio. Há tantos  Polycarpo Feitosa por aí... Os arquivos da polícia estão cheios deles”...
         Raimundo Nonato da Silva, fabuloso contador de “casos” da história norte-riograndense, registrou, em uma de suas crônicas, o conceito que o matuto Vitorino da Caeira fazia dos homens públicos do estado, dizendo: “no RN só há dois homens: Felipe Guerra, pela inteligência, e Antonio de Sousa, pela honestidade”...
         Governador do estado, Antonio José de Melo e Sousa era, como em tudo, de uma austeridade estarrecedora. Conta-se que, chegando, certa vez, em casa, em dia de aniversário de uma de suas irmãs, esta mostrou-lhe um presente que havia recebido de um alto comerciante de Natal. O Dr. Sousa, olhando o objeto, determinou incontinente: “devolvo-o”!
         Dois ou três dias depois, voltando de Palácio, disse à irmã:
“Está vendo, aquele presente tinha endereço certo. O seu generoso doador queria um favor do Estado que eu não lhe podia conceder. Indeferi o seu requerimento”.
Era assim Antonio de Melo e Sousa, um homem de bem, um cidadão da República, dos mais austeros, dos mais limpos, dos mais puros, dos mais nobres, dos mais justos, dos mais clarividentes, dos mais argutos, dos mais cultos, dos mais patriotas, dos mais amigos da sua terra e do seu povo.
Honras lhe sejam dadas, na passagem do primeiro centenário do seu nascimento. E que os seus atos, os seus gestos e as suas atitudes sirvam de exemplo à mocidade de nossos dias para que assim possa servir também ao RN e Brasil.
Antonio J. de M. e Sousa faleceu na cidade do Recife, no dia 5 de julho de 1955, sendo sepultado em Natal, no cemitério do Alecrim.

NOTAS AVULSAS

O texto abaixo foi publicado no Jornal do Comércio, em Recife, em 1967, escrito por Nilo Pereira, o qual também deixou alguns escritos sobre Nísia Floresta. Coincidentemente, ontem, dia 15 de março de 2014, à tarde, estive no Cemitério do Alecrim – na tentativa de localizar o túmulo do Dr. Antonio de Sousa e acabei encontrando o túmulo de Nilo Pereira.

“Há alguns anos falecia no Recife o Dr. Antonio José de Melo e Sousa. Governou duas vezes o estado do Rio Grande do Norte. Conheci-o governador – alto, hierático, extremamente míope, talvez um tanto cético, retirou-se para Recife; aqui vivia recolhido como um asceta, lendo, meditando, escrevendo. A morte o colheu no dia 5 de julho de 1955, leio uma anotação feita no seu livro “Dois Recifes – com sessenta anos no meio”, Imprensa Industrial, Recife – 1945.
Desse livro é que eu desejo falar. Daquele homem de raras conversas – ora essa, pelo menos, a impressão que nos dava, à distância – não se podia esperar um livro de bom humor, leve, irônico e sutil. Parecia-nos que ele era severo demais para tanta leveza. E, no entanto, ágil na pena, essas suas memórias quase nos lembram o Visconde de Santo Tirso.
Os dois Recifes são os da adolescência e da velhice. Na adolescência cursou o colégio do Dr. Barbosa, do qual nos deixa uma forte pincelada, quase impressionista. E da velhice, o retrato conventual do tempo decorrido, porque ele o compôs com as tintas quase religiosas da lembrança. Escreveu o seu livro como quem se recolhe para alguma oração em silêncio, diante da lâmpada votiva.
O Recife do último quartel do século XIX é a sua maior vivência. Sua descrição chegada de Nabuco, com um preto de joelhos, na rua a louvar o tribuno da Abolição, é todo um Recife como o podemos imaginar agora. E os vivas que foi obrigado a erguer a José Mariano – sob pena de severa reprimenda – são alguma coisa que fica entre o fanatismo da multidão e o seu terror inicial diante da política.
Veio depois a quietude no Espinheiro, onde residiu por último, com as lembranças amáveis que estão no seu livro, hoje esgotado. Por que não o reeditam?”

EM MEMÓRIA DE UM ESCRITOR

A Academia Norte-Riograndense de Letras, juntamente com o Instituto Histórico e Geográfico, esteve em sessão solene (28 de Dezembro), para comemorar o centenário do nascimento do Dr. Antonio José de Melo e Sousa que, em 1897, adotou o nome literário de Polycarpo Feitosa. Em entrevista concedida a Rômulo Wanderley, jovem repórter d’A República (17/3/40) dizia que achava o seu nome próprio banal e muito conhecido, especialmente na polícia. “Há tantos Antonio de Sousa por aí. Os arquivos policiais estão cheios deles”. Declarou que escrevia por duas razões: não ter outra ocupação e para estimular os moços.  Já havia publicado Jornal da Vila (1939), sexto livro depois de “Flor do Sertão”, 1928, “Gizinha”, 1930, “Alma Bravia”,1934, “Encontros do Caminho”, 1936 e “Os Moluscos”, 1938.
O Dr. Antonio de Sousa chamava os seus livros “livrecos”. Suas notas literárias eram escritas em grego (informa o repórter) para livrar-se dos curiosos. Nesse tempo, há vinte e nove anos, havia críticos “tantos quantos os poetas, mas a maior parte é de café”. Insistia em dizer que apenas “empurrava” os outros para a frente, pois a sua idade não era mais de ambições. Achava que Ferreira Chaves e Alberto Maranhão em seus primeiros governos foram exemplos para a “gente que lia e escrevia”, relembrando a época do Grêmio Polimático e da Revista do Rio Grande do Norte. Referindo-se ao valor da gente nova, citava Cascudo, “trabalhador como ninguém, que, além das suas ocupações na secretaria de que é chefe publica livros e mais livros, mantem seções na imprensa diária e traduz obras importantes”.
         Polycarpo Feitosa rendia  homenagens aos grandes artistas da pintura e da escultura assim como os notáveis valores da imprensa ilustrada. Eram vistos no seu gabinete de trabalho do “Retiro dos Cajuais”, bustos em longa de Virgílio e Dante e telas de Leonardo da Vinci e de Murilo enviadas pela L’ILLUSTRATION, de Paris, de que foi assinante por mais de trinta anos. A outra face do mesmo homem, o político, o administrador, Antonio de Sousa esteve efetivamente no governo do Estado duas vezes e, interinamente, oito vezes. Mas, fugindo das ruas, procurava resolver no seu retiro os problemas da administração pública e se entregava à leitura dos escritores antigos e novos e tomando conhecimento das coisas da vida social, anotando o que lhe convinha para os romances numa época em que um beijo público entre namorados provocava escândalos (Gizinha) e o chique nos salões era o fox-trot, o tango e o maxixe. Tempo em que os espectadores de cinema e teatro saiam uns antes de terminar a sessão a fim de não perderem o bonde, quase como hoje com as lotações. O crítico e escritor literário Esmeraldo Siqueira está realizando um estudo de Polycarpo Feitosa através das anotações das suas leituras e o escritor Manuel Rodrigues de Melo já entregou para a divulgação literária do Departamento de Imprensa do Estado um interessante trabalho sobre o velho escritor, cujo centenário de nascimento foi brilhantemente comemorado pela Academia que preside. (Danilo – Diário de Natal).
        
         A “VAIDADE” DO OBSCURANTISMO LITERÁRIO MATOU A OBRA LITERÁRIA DE MELO E SOUSA

         (Publicado no “Diário da Noite” do Recife, em 30/08/56 - Cópia de acordo com o texto original)

         Um anúncio de jornal levou-nos à rua Geraldo de Andrade, n. 159, no Espinheiro, residência das snras. Maria José e Isabel de Melo e Sousa, irmãs de Polycarpo Feitosa, pseudônimo em que assinava os seus grandes livros o escritor Antonio José de Melo e Sousa, personalidade marcante da intelectualidade e da vida pública do Rio Grande do Norte.
         A nossa presença ali, como acima dissemos, fora sugerida por um anúncio alfabético onde se oferecia à venda uma estante para livros, em madeira de lei, por preço de ocasião.
         Assim, com a finalidade tão somente de realizarmos, se possível, uma transação comercial, abalando-nos para o endereço indicado, onde fomos recebidos cordial e urbanamente pelas simpáticas senhoras, com as quais efetivamos o negócio em vista e, posteriormente, outro.
                        
         ENCONTRO E HISTÓRIA

         Amante contumaz e admirador inveterado de livros, porém, não nos passara despercebido uma outra grande estante, com livros artisticamente encadernados e lombarmente titulados, da qual, curiosa e amorosamente nos aproximamos, vislumbrando, entre nomes de autores nossos conhecidos, o para nós absolutamente estranho Polycarpo Feitosa, assinava os seguintes volumes: “Flor do Sertão” (romance – 1928); “Gizinha” (romance – 1930); “Alma Bravia” (romance – 1934); “Encontros do Caminho”, (contos – 1936); “Os Moluscos” (romance – 1938); “Jornal da Vila”, (poemas – 1939); “Gente Arrancada”, (romance – 1941); E Dois Recifes, (memórias – 1945).
         Confessamos, então, às senhoras presentes, a nossa total ignorância sobre o estranho autor daqueles volumes, de quem nunca ouvimos falar e indagamos-lhes quem era Polycarpo Feitosa. E ouvimos entre comovido e emocionado, já agora com outras intenções e outros propósitos, a bela história de um homem simples, generoso e sem vaidades literárias ou políticas.
         Polycarpo Feitosa, que encontráramos agora espiritual e postumamente, pseudônimo de Antonio José de Melo e Sousa, fora um expoente da intelectualidade de sua terra e lá exercera os cargos mais representativos da sua vida pública. Estávamos nós, pois, diante de duas irmãs do grande escritor e homem público-potiguar, já agora sob a emoção literária que nos sugeria a sua vida e a sua obra, vida e obra que refletem um grande espírito e uma alma de escol, servidos por uma inteligência privilegiada e uma cultura pacientemente acumulada.

         DADOS BIOGRÁFICOS

         Dr. Antonio de Sousa repousa, hoje, no Cemitério do Alecrim, por vontade sua, expressa nos últimos instantes de sua vida.  Vinte e seis anos de sua vida foram vividos em Recife, representados por uma parte de sua mocidade, quando estudante de Direito, e na velhice, quando voltou em busca de saúde. “Dois Recifes” foi a sua última obra. Vejam o que os recifenses escreveram sobre ele:
         “Antão Josino, (por certo Melo e Sousa), velho funcionário público aposentado daquela deliciosa terrinha, que é o ápice do Nordeste, (Nordeste por definição mesmo, pois só ela tem costas para o norte e leste), viveu uma dúzia de anos no Recife, desde o último da Escola primária até o da Academia, ali pela segunda metade do século passado. Depois da conquista, a vida puxou-o para a sua terra, como a tantos outros; nela vegetou cincoenta e tantos anos e agora, há uns meses, pela justificável gana de viver mais um pouquinho, voltou à luminosa cidade em busca de saúde”.

VIDA PÚBLICA
         Tanto realizou e providenciou em prol da instrução e da educação, que foi cognominado dito período de “quadriênio pedagógico”.
         Morreu pobre, deixando uma “mincha” pensão para as irmãs, com quem sempre viveu e que foram sublimes de abnegação e renúncia, assistindo diuturnamente, insones e cansadas, os seus últimos alentos de vida.

ANTONIO DE SOUSA QUASE FEZ PARTE DE UMA ANTOLOGIA ESCRITA POR GRACILIANO RAMOS

Ninguém conhecia Polycarpo Feitosa. E, a propósito, vale ressaltar, aqui, o depoimento de R. Magalhães Junior, o biógrafo de Machado de Assis e de tantos outros sucessos da literatura contemporânea. Conta-nos Magalhães Junior como, certo dia, por acaso, caiu-lhe nas mãos um livro de contos assinado por Polycarpo Feitosa. Leu-o e achou-o um delicioso contista, confessando ainda que não teria hesitado, se o conhecesse, em indica-lo para uma antologia de contistas brasileiros que Graciliano Ramos organizava e para a qual lhe solicitara alguns nomes. E continua Magalhães Junior nos contando como, tendo encontrado em alguns de seus contos a existência de possibilidades dramáticas, o que muito lhe interessava como teatrólogo, pois pretendia proceder à dramatização de um dos seus contos que muito apreciara, precisando, para isto, de sua autorização, pôs-se em campo, então, para indicar e descobrir Polycarpo Feitosa, que inteiramente desconhecia, tendo-o localizado logo, em virtude “das referências a nomes geográficos identificáveis no mapa da terra potiguar” e encontardas nos seus contos, e por intermédio dos deputados e senadores do RN.

ATITUDE LOUVÁVEL

         Bem significativa, afinal, fora a atitude literária de Antonio de Sousa, sobretudo em uma época onde os primários das letras, eunucos de espírito e de cultura, cínica e sencerimoniosamente, surgem-nos fários e bestas nos suplementos literários, nas revistas e até mesmo em livros. Chegamos à evidência, a essa altura, de que os limites de espaço que nos foi reservado para estas notas não comportam considerações mais demoradas.
         Assim, com grande pesar da nossa parte, não abordaremos outros aspectos que julgamos significativos da vida pública e literária de Melo e Sousa, deixando para fazê-lo em outra oportunidade, quando talvez possamos estudar a sua personalidade individual e literária menos superficialmente.
         Tenta-nos porém, a solidão em que sempre viveu o romancista da “Alma Bravia”, sugerindo-nos algumas linhas sobre esse seu comportamento diante da vida. Era o autor de “Gizinha” um autêntico e consumado solitário, um místico e contemplativo no lato sentido do termo como o foram Anthero de Quental, Jean Jaques Rousseau e outros ilustres solitários.
         O primoroso romancista e “conteur” admirável que se escondia com modéstia excessiva atrás de um pseudônimo era um introspectivo e, consequentemente, um volutuoso da solidão e do silêncio. E foi na solidão e no silêncio, no seu solar do Espinheiro, onde construíra o seu retiro e limitara o seu mundo, ao lado das irmãs queridas e dos seus livros muito amados, que mergulhou, serenamente, em uma noite de julho, no abismo da morte.
         BIBLIOGRAFIA DO DR. ANTONIO DE SOUSA – POR ORDEM CRONOLÓGICA

1902 –  QUESTÃO DE LIMITES COM O ESTADO DO CEARÁ – Empresa de A República – Natal.
1909 – EXPLICAÇÕES ELEMENTARES SOBRE A CONSTITUIÇÃO POLÍTICA DO RIO GRANDE DO NORTE – Tipografia de A República – Natal.
1916 – À MARGEM DUMA CONFERÊNCIA – Tip. De A República – Natal.
1925 – DISCURSO DE PARANINFO DA PRIMEIRA TURMA DE PROFESSORES DA ESCOLA NORMAL DE MOSSORÓ, a 15 de novembro 1924 – Empresa Tipográfica Natalense Ltda.  – Natal.
1926 – DOM PEDRO II – Conferência pronunciada no Colégio Pedro II, de Ceará Mirim – Tip. J. Pinto e Cia. – Natal.
1928 – FLOR DO SERTÃO (Costumes do Sertão do Rio Grande do Norte) – Tipografia de A República – 1928 – Natal.
1930 – GIZINHA – Tipografia do Anuário do Brasil – Rio de Janeiro.
1934 – ALMA BRAVIA (História do Nordeste Antigo) – Estabelecimento Gráfico Apolo – Rio – 1934.
1936 – ENCONTROS DO CAMINHO – Estabelecimento Gráfico Apolo – Rio.
1939 – OS MOLUSCOS – Oficinas Gráfica Renato Americano – Rio.
1941 – GENTE ARRANCADA – Estabelecimento Gráfico Friedrich Fuchs – Rio.

1954 – DOIS RECIFES – Imprensa Industrial – Recife – Recife.