ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Comemorar o golpe de 64 é o mesmo que:

COMEMORAR O GOLPE DE 64 É O MESMO QUE:
1) comemorar o exílio de homens notáveis como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Miguel Arraes, dentre tantos pensadores, intelectuais, cientistas, artistas e políticos brasileiros vítimas da Ditadura Militar. Lembremos que o AI-5, inclusive perseguiu e torturou – pasme – os próprios militares contrários à arbitrariedade do golpe. Tudo muito bem apoiado, como sempre, pelos Estados Unidos da América. Imagine o prejuízo causado a essas pessoas, as quais deixaram de executar relevantes projetos em prol da sociedade brasileira.
2) Comemorar o golpe de 64 é reacender a imbecilidade aprendida durante a Velha Escola, onde ouvíamos que o golpe de 31 de março e 1º de abril foi uma “revolução destinada a salvar a democracia brasileira ameaçada pelos comunistas”.
3) comemorar o golpe de 64 é comemorar a morte de centenas de jovens, pais de família, intelectuais e outros cujos ossos nunca foram encontrados.
4) Comemorar o golpe de 64 é comemorar a queima e a proibição da impressão de milhares de livros que poderiam estar sendo úteis, hoje.
5) Comemorar o golpe de 64 é comemorar o fechamento de inúmeras empresas jornalísticas por todo o Brasil, acusadas de inimigas da ordem social.
6) Comemorar o golpe de 1964 é comemorar o fechamento de inúmeros teatros na maioria das grandes cidades brasileiras, cujos enredos mesmo não o sendo, eram acusados de arbitrários e atentadores da moral e dos bons costumes.
7) comemorar o golpe de 64 é atacar os direitos humanos e o estado democrático de direito.
8) comemorar o golpe de 64 é comemorar a censura, o escárnio, o deboche e o desrespeito a inúmeras letras de música que levavam ao povo brasileiro ao pensar.
9) comemorar o golpe de 64 é comemorar a covarde cassação de mandatos de homens eleitos legalmente para pensar o Brasil, enfim é comemorar tanta injustiça que encheriam laudas...
10) comemorar o golpe de 64 é endossar a noite de 31 de março, quando o pesadelo desabou sobre as forças comprometidas com as reformas sociais, dentro e fora do governo. Enormes expurgos varreram todos os setores sociais importantes, das Foras Armadas aos serviços públicos em geral, atingindo também a imprensa, os profissionais liberais, os meios acadêmicos e culturais. Os militares leais ao governo democrático pagaram caro pela falta de resistência, pois foram perseguidos implacavelmente por seus colegas no poder, como disse acima, até os próprios militares, muitos deles, eram contrários à insanidade que inauguravam no Brasil. E estamos vendo isso, hoje. Obviamente que não me refiro à Ditadura Militar, mas às mais variadas patuscadas oriundas do Executivo Federal e que retardam o Brasil. É um tal de “ele não quis dizer isso”, “ele vai dar um jeito na rapaziada dele”. É um tal de publica-se leis e decretos no Diário Oficial da União e no outro dia “despublicam”, desmanchando uma coisa feita no dia anterior, demonstrando total falta de falta de assessoria competente e visão diante da pasta ocupada.
       11) comemorar o golpe de 64 é concordar que no dia 9 de abril de 1964 o Ato Institucional cassou mandatos, suprimiu direitos políticos por até dez anos, para decretar estado de sitio sem aprovação parlamentar e para obrigar o Congresso a aprovar emendas constitucionais. Na prática, o Executivo transformava o Legislativo em um mero carimbador de decretos-leis.
12) comemorar o golpe de 64 é assinar embaixo de quando em Recife a “Operação Limpeza”, gesto selvagem e truculento, espancou e arrastou pelas ruas, seminu, o presidente da Liga Camponesa. Os presídios ficaram superlotados em quase todo o Brasil. Pessoas de bem, sem mais nem menos, ou mediante a simples discordância de ideias políticas eram consideradas subversivas eram submetidas à tortura como: telefone (tapas aplicados simultaneamente, com as mão em concha, nos dois ouvidos da vítima, muitas vezes lhe estourando os tímpanos); o “pau-de-arara” (pedaço de madeira roliço que, depois de passado entre ambos os joelhos e cotovelos flexionados, é suspenso em dois suportes, ficando a vitima, geralmente nua, de cabeça para baixo e como que de cócoras, submetida a pancadas e choques elétricos); e o “banho chinês” (mergulhar a cabeça da vítima em uma tina de água fervida ou óleo até virtualmente sufocá-la).
13) comemorar o golpe de 64 é dar como certo que em todos os centros urbanos brasileiros ocorreram episódios de extrema humilhação, como invasão de milhares de residências, prisões arbitrárias, insultos, delações em massa, espancamentos e assassinatos “acidentais”. As prisões foram tantas, que foi preciso encarcerar uma parte dos capturados em navios presídios, no Rio de Janeiro e em Santos. A propósito, e quando sabemos que o militar que desencadeou o golpe, general Mourão Filho, era um energúmeno, desprestigiado na própria corporação, que definia a si próprio como uma “Vaca Fardada” (como registra a História) o vemos bem parecido com o fantasma atual que envergonha a nação por sucessivas fabricações de furos, gafes, cortinas de fumaça e incompetência junto a sua trupe circense, a exemplo o Ministério da Educação, o qual encontra-se parado e envolto numa grande confusão interna (demissões, atribuição de pessoas despreparadas para funções diversas, falta de sintonia nas equipes etc.).
14) comemorar o golpe de 64 é desconhecer que os militares que chegaram ao cume do estado em 1964 não foram somente os testas-de-ferro privilegiados das elites brasileiras e estrangeiras. E nunca estiveram sozinhos. Eles foram a sustentação de um pilar de poder econômico, social e político muito bem construído pela maioria dos setores empresariais, juntamente com os técnicos civis que manipulavam os comandos da máquina administrativas financeira estatal (os famosos tecnocratas) e amplos grupos formadores das elites políticas. Tudo isso legitimado, durante um bom tempo pelo menos, pela mediocridade das camadas médias em suas mais variadas expressões, cuja palavra de ordem era proibir e dizer “não pode” sem qualquer questionamento.
15) comemorar o golpe de 64 é ignorar que a alternativa dos golpistas para as reformas sociais era uma “modernização conservadora”, que afastava a pressão das massas (povo era como disse o General Figueiredo, “prefiro os cavalos”) e permitia a expansão da economia associada a maiores liberdades para o capital externo e para a grande propriedade em geral. Como definiu um líder político perseguido após 64, a ideia dos conspiradores, influenciados pelo programa norte-americano da “Aliança para o Progresso”, era a de que a “senzala seria caiada, teria o seu “playground”, e os negrinhos receberiam mais comida. Mas permaneceria senzala”. Isso é tão atual!
Vale, pelo menos, tentar deixar vivo o registro dos anos da ditadura militar e dos desmandos do poder absoluto, com certeza de que a luta pela democracia é também a luta da memória contra o esquecimento. O golpe de 1964 jamais deve ser lembrado como um triunfo militar, como o quer o presidente da república, mas lembrado por todos como uma página vergonhosa do nosso país. Prova maior da abominação que é comemorar o golpe de 64 é que os próprios militares, tenham certeza, se consultados, não concordariam com essa insana comemoração, exceto meia dúzia de gatos pingados ao estilo do insano autor da ideia.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Dia da água: e Daí!




Na sexta-feira passada, dia 22 de março, o Brasil comemorou o dia da água. Não sei o que exatamente as autoridades nisiaflorestenses vem fazendo em termos de projetos sobre a preservação de suas águas. Refiro-me de sua costa marítima, seus rios, fontes e lagoas. Com certeza as escolas lembraram dessa importante data, mas o assunto é tão sério que precisamos construir com a sociedade, em especial com as comunidades escolares, ações concretas sobre os problemas que afetam as nossas águas. 
São vários problemas, mas a poluição tem sido o maior deles. É o caso da galeria de esgoto que escorre de São José de Mipibu, deságua no rio Mipibu e finaliza na lagoa Papari. O problema é sério, pois essa lagoa é fonte de sustento de muitos nativos de Nísia Floresta. A lógica é que esse despejar constante irá afetar gradualmente a saúde dos pescadores e de quem se serve dela para outras finalidades, como lazer.
A lagoa Papari já sofre muito com o assoreamento. A poluição despejada por São José de Mipibu agrava a situação. As crianças precisam ser educadas a entender que se o povo não preservar seus mananciais, como fontes, pequenos rio, riachos, lagoas e o mar que costeia Nísia Floresta, ficará sem água no próximo século. 
É essa a herança que será deixada para os filhos e netos? Não seria muito egoísmo e falta de educação?
Algumas pessoas, completamente equivocadas, inclusive determinadas autoridades, alegam que isso é bobagem, que é invenção, que é coisa de gente de esquerda etc. Mas não! Os fatos são graves. Pergunte aos seus pais como era a temperatura de Nísia Floresta há dez anos. Peça para ele comparar a como está hoje.
Não tem nada de brincadeira. É sério. Há menos de dez anos, quando você caminhava na estrada que liga Nísia Floresta a São José de Mipibu, sentia uma brisa fria. Durante a noite a temperatura era tão amena que pelas seis horas da manhã via-se a intensidade do sereno.
Algum bobão poderá dizer: "ah! essa temperatura alta acomete o planeta inteiro". Mas tenha certeza que isso é uma soma. Se Nísia Floresta fizer a sua parte terá uma temperatura melhor, pois árvores preservam águas e juntos ÁGUA/MATA ajudam a diminuir grandemente a temperatura.
Até pouco tempo a relva era deliciosa para quem descia de São José de Mipibu a adentrava a caminho de Nísia Floresta. A vegetação parecia ter recebido uma borrifação, pois eram pingos minúsculos de água ao longo dos arbustos pela manhã. Durante a tarde era possível sentir no rosto a friagem diferenciada. Isso acabou. Sabe por quê? Por que em Nísia Floresta também estão acabando com as matas. Você não vê reflorestamento e arborização. E a mata ciliar, aquela que deve emoldurar os rios, lagoas e fontes.
Você já olhou a fonte que fornece água para a “Bica”? Dê uma olha com urgência. E faça alguma coisa. Não basta olhar. A relação ÁGUA/MATA é fundamental para a pureza dos mananciais e sua vivacidade. Sem eles a temperatura se eleva e as águas desaparecem lentamente.
Os mais velhos contam que o rio que corta a comunidade do Porto era mais caudaloso. Dali se pescava camarão e caranguejo à vontade. Veja como está! Você concorda?
Uma coisa é certa: as autoridades têm muita culpa nesse processo degradante. Mas e o povo? Será que o povo não está direcionando o seu esgoto para esse rio e outros? Tenham certeza que muito mais importante que pensar em culpados é acordar para o problema e reconhecer que ele é ocasionado por nós, e somente nós podemos mudar essa realidade. E com urgência!
Quem está causando a poluição? O que deve ser feito para reverter o quadro? Compete a quem? Há uma parte que é das autoridades: o que se refere às leis, projetos e políticas públicas. Outra é do povo: não jogar nada nos rios, nas lagoas e no mar, cobrar das autoridades e até mesmo criar ONGS e associações pertinentes. Na realidade é papel de todos, pois denota civilidade e cidadania
Dê uma olhadinha nas águas e nas matas de Nísia Floresta. Quais são os problemas? Saiba que é muito egoísmo constatar um problema e se calar. Não é coisa de um cidadão civilizado.
Que tal agir?
Vamos cuidar das nossas águas, pois a nossa vida depende delas.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Memória de Parañá-Mirim - "Vela Branca" - 1934



ACTA NOTURNA
MEMÓRIA DE PARAÑA-MIRIM – 1934 – “VELA BRANCA"...
 
Em 1934 alguns franceses visitaram essas terras com o objetivo de encontrar uma área ideal para construir o Campo de Pouso da “Air France”, pioneira da aviação comercial através do Atlântico. O local, diga-se de passagem, ainda não se chamava Parnamirim. Era uma extensão despovoada, um prado de alecrim silvestre e tabuleiros, parte de cidades imiscuídas a Natal, Papari e São José de Mipibu. Cada qual, em suas peculiares convenções geográficas. 
 
O topônimo tupi “Paraña-Mirim” como sabemos, era o nome dado pelos indígenas locais a um pequeno rio, por sinal até hoje envolto em controvérsias sobre a sua localização. O famoso mapa de Marcgraf (Marcgrave para uns), desenhado em 1643, traz apenas o nome “paraña-mirim”, sem precisão diante de vários veios d’água. Mas isso é outra história…
Pois bem, tais franceses andaram por aqui sondando o local exato para comprar terras e aplainar o Campo de Avião. A opção foi construí-lo em Macaíba, onde localizaram uma imensa esplanada com excelentes condições aeronáuticas. Ficaram loucos pelo terreno. Maravilha!
 
Mas houve um problema: os proprietários, ao darem fé que eram estrangeiros adoraram a propriedade, acharam por bem explorá-los, pedindo um valor exorbitante. Queriam dinheiro de puxar de rodo.
 
Os gauleses se assustaram e retornaram ao país de origem. Certamente foram estudar outros empreendimentos. Infelizmente esse tipo de exploração nos preços dos imóveis é comum até hoje, mesmo prejudicando os próprios brasileiros.
 
A estada dos europeus virou notícia à época, chegando aos ouvidos de Manoel Machado, um dos homens mais ricos da região, empresário e exportador português, dono de diversos empreendimentos comerciais e muitas terras. A maior propriedade rural da região era dele: “Fazenda Pitimbu”, onde havia um engenho de cana de açúcar, portanto também conhecida como “Engenho Pitimbu”. 
 
A estância possuía uma casa assobradada, de alvenaria com energia elétrica, geladeira à gás e rádio. Verdadeiros adventos da modernidade para a realidade da ápoca. O casarão era emoldurada por uma floresta nativa, cujo rio Pitimbu, piscoso e perene, dava água potável.
A sede do engenho era permeada de árvores frutíferas, destacando-se mangueiras, fruta-pão, cajá-manga, jaca, dendê, abacate, coco, graviola, carambola, limão, laranja, mamão. 
 
Havia uma pequena criação comandada por uma quantidade razoável de empregados. A fazenda era o local onde o imigrante português recarregava as suas baterias ao lado de sua esposa Amélia Machado, que se tornaria, depois, “Viúva Machado” e em torno dela criariam uma terrível e injusta lenda (isso também é outra história; quem quiser conhecê-la é só pesquisar no meu blog https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/...
 
Como estava dizendo, ao saber do interesse dos franceses por terras na região - que a essa altura haviam retornado a Paris -, Manoel Machado deslocou-se à França, localizou os ditos franceses e ofereceu, gratuitamente, uma grande extensão de terras nos fundos da
 fazenda Pitimbu.
Os gauleses ficaram surpresos, mas dessa vez por bom motivo. Eles se sensibilizaram, e acharam por bem oferecer uma espécie de contrapartida pelo gesto altruísta do conterrâneo europeu. Propuseram contratar equipamentos do doador para fazer a derrubada das matas, terraplenagem e comprar em seus armazéns o material de construção e tudo mais que fosse necessário à concretização do empreendimento. Assim seguiram os trabalhos…
 
Naquela época havia uma estrada de rodagem ligando Natal a Fazenda Pitimbu através de Guarapes. A distância era grande. Quem viajasse de caminhão precisava dar uma volta demorada e cansativa para chegar a “Parnamirim”.
 
Como sabemos, a “rodovia” asfaltada só viria em 1942, construída pelos norte-americanos, mas também é outra história. Lembre-se que estamos no início da década de 30. É outro tempo. As imediações externas da fazenda eram rasgadas por veredas e pequenas estradinhas sobre a areia fofa e alva, difícil percorrê-las até mesmo pelos animais de trabalho, imagine veículos modernos.
 
Enfim os técnicos europeus, responsáveis pela construção do “Campo de Pouso”, chegaram a Natal e se organizaram com grandes equipamentos. Na data acordada para o início da marcação do terreno, todos viajaram num caminhão das empresas Manoel Machado até a Fazenda Pitimbu. 
 
Sua residência seria o porto seguro para o desenrolar dos negócios, pois era bem próxima. Mas havia um grande problema. A estrada boa era somente até o engenho Pitimbu. Eles precisariam prosseguir mais seis quilômetros adiante nas veredas e atalhos de areia fofa.
Era muito equipamento pesado. Não havia como o caminhão se deslocar até o local escolhido para eles montarem um acampamento provisório e iniciarem a demarcação do Campo de Pouso, pois atolaria na areia. 
 
A mata era fechada, cortada apenas pela velha Great Western, onde a “Maria-Fumaça” apelidada de “Catita”, apitava diariamente, borrifando os seus vapores sobre as copas das árvores, ligando Natal a Paraíba. A solução foi viajar no lombo de cavalos ou jumentos.
Eis que os europeus se assustaram. Nenhum deles era familiarizado ao mais antigo transporte da humanidade. Não conseguiam cavalgar. “Vamos caminhando! Colocaremos tudo sobre uma tropa de mulas e jumentos e caminharemos devagar!” 
 
Dessa vez os brasileiros se assustaram. Para eles a distância era um pulo, mas para um grupo de “doutores” desacostumados a tais “aventuras” o desgaste seria grande. E mesmo sabendo que seria sacrificante fazer a caminhada, era a única opção. 
 
Conversa vai, conversa vem… decidiram que os peões conduziriam a comitiva de animais e eles iriam a pé. Os estrangeiros ficaram admirados com a força dos potiguares, os quais eram acostumados à vida pesada da fazenda. Para eles aquilo não era nada. A alternativa não era tão boa, mas… dos males, o menor.
 
Até aí tudo estava resolvido. Foi então que apareceu na história, ou melhor, reapareceu, um homem chamado Júlio Isaías de Macedo. Era nada mais que o próprio motorista do caminhão, conhecido na região como “Vela Branca”. Então Júlio Isaías disse: "eu posso dirigir o caminhão sobre os trilhos". A ‘homarada’ ficou perplexa. “Mas como?” “Ora bolas, dirigindo!” Todos se olharam. Num piscar de olhos o caminhão subiu a linha férrea.
E assim, sentindo os solavancos do caminhão vencendo os dormentes, e o ajeita aqui e ali, venceram a façanha. A maior dificuldade foi a passagem sobre os bueiros (manilhas de passagem de água do rio). Mas venceram os seis quilômetros. Ficaram exatamente onde planejaram. 
 
A linha férrea se divisava com o futuro Campo de Pouso, como ocorre até os dias atuais. Os estrangeiros ficaram surpresos com a criatividade dos potiguares. Essa história foi contada durante muito tempo por quem a presenciou ou viu a peripécia de “Vela Branca”. Escutei-a da boca de uma das filhas de D. João, o qual contava para ela. 
 
É mais um retalho histórico de Paraná-Mirim. Creio que as histórias trazem inúmeras histórias dentro delas… são fragmentos, detalhes… mas nada perdem das histórias maiores pela sua riqueza. Aqui está um exemplo… (L.C.F.)

quinta-feira, 7 de março de 2019

Homero Homem, genial escritor potiguar quase desconhecido


       JÁ OUVIU FALAR EM HOMERO HOMEM, AUTOR DO “MENINO DE ASAS”? SABIA QUE ELE É NORTERIO-GRANDENSE?
Refiro-me ao escritor potiguar HOMERO HOMEM DE SIQUEIRA CAVALCANTI, nascido em Canguaretama, cidade próxima a Natal, no estado do Rio Grande do Norte, cuja bibliografia e biografia - passam despercebidas na sua própria terra natal, exceto aos leitores mais efusivos.
Homero Homem é o único escritor norte-rio-grandense traduzido para outra língua. Nasceu o insigne personagem no Engenho Catu no dia 5 de janeiro de 1921. Formou-se em Natal, mas ainda jovem migrou para o Rio de Janeiro e só vinha ao solo potiguar a passeio. Nunca esqueceu suas origens, inclusive o cheiro delicioso de rapadura de cana de açúcar.

É um dos escritores brasileiros mais respeitados. Teve duas de suas obras contempladas durante décadas pela Coleção Vagalume. Foi assim que o conheci, quando adolescente, ao ler primeiramente “Menino de Asas”, publicado em 1980, alcançando venda superior a um milhão de exemplares permanecendo lido vorazmente fora de seu estado de origem, por incrível que pareça. Depois li “Cabra das Rocas”, a pedido dos professores.

Lembro-me que ao término da leitura, respondi a um intragável questionário pertinente a cada história. Também me recordo ter brincado com a minha genitora sobre isso: “mãe, eu estou lendo um livro de uma pessoa lá do seu Rio Grande do Norte”. “Ah! Então deve ser bom! Se é de lá, é bom” devolveu ela.
Quando passeava pelas linhas de “Cabra das Rocas” ia contando para ela os episódios mais interessantes. Então ela contou-me que em criança passava pelas Rocas, bairro de Natal, quando ia para a Praia do Meio. À época eu não entendia essa geografia. Só muito tempo depois, descobri o bairro, próximo da morada do velho Cornélio Campina, criador do “Araruna”.

Mas suas obras não param por aí. O Rio Grande do Norte é tema de todo um livro de poesia intitulado “Terra Iluminada”. Ele é autor de Além de contos e novelas e poesias, dirigidos ao público infanto-juvenil. Por exemplo, o romance “Cabra das Rocas” atingiu sucesso em todo o Brasil. Depois veio “Menino de Asas”, ambos da Coleção vagalume. Mas não pense que está encerrada a sua biografia. Alguns de seus livros caminham para a vigésima terceira edição, tornando-o o escritor potiguar mais lido dentre outros autores conterrâneos. “Cabra das Rocas”, por exemplo, virou “Gente delle Rocas” em sua tradução italiana.
Outros livros notáveis na área da ficção encantam o leitor, por exemplo: o romance “O Goleador”, (primeiro volume de uma trilogia do futebol), e a novela “O Moço da Camisa 10”.

Embora a sua prosa é extraordinária, muitos críticos reconhecem o nosso Homero Homem mais importante como poeta. No rol dos notáveis representantes da geração pós-45, o autor potiguar se destaca como um romântico fora do seu tempo. Por exemplo, o poeta Manoel de Barros (1916-2013), seu contemporâneo, pertenceu a geração pós-45, mas sua obra não evidenciava o romantismo visto em Homero Homem. Sua retórica é outra.
A obra do autor canguaretamense está imbuída de valores românticos: subjetivismo, exaltação da mulher amada, comunhão com a natureza – principalmente o mar - crítica social e política e outras. Não significa que ele seja atrasou-se. A sua escrita poética pautada de ritmos, de musicalidade, contribui com notável destaque com a poesia atual. O que o torna moderno.
A estreia de Homero Homem deu-se em 1954, no Rio de Janeiro, com um poema em prosa, “A Cidade, Suíte de Amor e Secreta Esperança”. Em 1958 publicou “Calendário Marinheiro” e a partir de então vários outros livros reunidos, em 1981, num volume sob o título “O Agrimensor da Aurora”. Pouco tempo depois, em 1983, presenteou principalmente o leitor norte-rio-grandense com “O Luar Potiguar” (Rio, 1983), uma homenagem à sua terra. Em 1990 escolheu a capital de sua terra natal para publicar “Eu sem Ego”.
Morava no Leblon. Durante anos assinou artigos no “Diário de Notícias”, no Rio de Janeiro, tratando sobre os mais variados temas. Era comunista. Fundou o Partido Socialista, ao lado de João Mangabeira. Foi secretário da União Brasileira de Escritores da Guanabara (1960-1966).  Teve três mulheres através de uniões distintas: Téia Carpen, Zaira Kemper e Alzira Figueiredo. Foi pai de Eduardo, Maria Elisa e Ana Maria. Vale ressaltar que tendo enviuvado e ficado com um filho com meros três meses de idade, assumiu a maternidade durante anos, até apaixonar-se novamente. Dizia nesse tempo que "era a mae do ano". 
Sabe-se que existem pessoas famosas, de várias áreas, que negam suas raízes. Não é o caso do nosso Homero Homem. É curioso que um escritor de tal quilate, que amou e exaltou tanto a sua terra seja estudado e lido nos chamados “grandes centros”, mas esteja esquecido na sua própria terra natal com raras exceções.
Um de seus críticos, Leo Gilson Ribeiro disse o seguinte sobre Homero Homem: “poeta de inquieta raiz social. (…) lirismo entre a emotividade, a erudição, o tom popular irônico e a musicalidade rítmica”.
Confesso que nunca vi uma escola com o nome de Homero Homem. Também desconheço que ele seja nome de alguma biblioteca, prêmio literário, comenda etc etc etc. Será que pelo menos em Canguaretama existe a devida deferência á sua obra? Não sei!
Homero Homem morreu em 1991, aos 70 anos.
Que tal abrirmos as páginas de seus livros  a partir de hoje?




sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

A Ira de Judas


            
A ira de Judas

            O livro “A ira de Judas”, da escritora Ana Cláudia Trigueiro traz uma porção de contos de medo e malassombros. A autora inventa estórias dentro de fatos, lugares e crenças, ora inspirados nas páginas da história do Rio Grande do Norte, ora importados de lugares impensados. Foi feliz na façanha, sombreando ineditismo sobre episódios que pensávamos conhecê-los de todo.
            Quem tem medo de fantasma deve correr da obra, pois tudo está a flor das páginas, num buuuuuuuuuuuu! constante. Começa pela capa, onde salta um monstruoso tubarão para nos engolir, respingando sobre o leitor a água salgada do mar de Ponta Negra?
            Na velha Igreja Matriz senti vontade de me tornar arqueólogo e estar lá, junto com os pesquisadores, desvendando fatos da revolução de 1817. Mas com as luzes muito acesas para não presenciar as experiências horripilantes vividas por eles.
            Tive medo da surpreendente história da serial killer. Quem imaginava que uma fêmea tivesse autoria naquelas passagens assustadoras? A autora concede um empoderamento meio louco à mulher. Seria para vingar anos de tabus e preconceitos amealhados durante séculos contra a mulher? Só ela para explicar!
            Depois da loucura de inventar de ler esse livro triste não visito mais a Praia do Meio. O diabo é quem vai! Também não passo mais defronte ao edifício 21 de Março, no centro. Não nasci para ver fantasmas. E olha que vivem, ou melhor, insistem em “viver” próximo da Assembleia Legislativa! Sonhava conhecer Serra Caiada, lugar tão proclamado, com seus serrotes e paisagens de tirar o fôlego... mas a vontade foi apunhalada nas páginas d’A Ira de Judas. Há muito tempo visitei o Museu Café Filho. Ainda bem que desconhecia seus bastidores fantasmagóricos.  
Era louco para contemplar o Lajeiro da Soledade... Vá outro em meu lugar! Quem prova que ali não revive o anômalo Labatut, monstro com forma humana, pés redondos, mãos compridas, cabelos longos e assanhados, corpo cabeludo, só um olho na testa e dentes como os do elefante, mil vezes pior que o lobisomem? A história de que o mataram é balela! A autora inventou isso para tranquilizar os viajantes e ter mais panos para contos futuros.
São tantas façanhas malassombradas que só vendo! E lendo!
Curiosos são os detalhes nos detalhes, num rococoíssimo esdrúxulo. Pessoas velhas ressuscitam e incorporam os novos tempos. Apareceu até um homem que casou com outro homem. Que ‘mulesta’ é essa? Quem diabo via isso no passado (mas era porque ficava escondido!). Ainda bem que o cabra ressuscitou e encontrou o seu amor num novo tempo. E a velha que iria ser comida pelo monstruoso malassombro! Tinha que ser a pobre de uma velha tão bondosa? Não teria sido melhor se fosse a serial killer para pagar seus crimes.
Numa dada passagem um monstro comeu o prefeito e os vereadores da cidade. Foi a única hora que gostei de monstro! Com as devidas exceções, faltam monstros desses em muitos municípios do Brasil. Fariam limpezas utilíssimas. A autora inventa cenas picantes entre um casal. Da até para imaginar as coisas! A última vez que vi o pelo no pelo com outro pelo dentro foi em Ana Terra, de Érico Veríssimo. Outrora, narra uma safadeza das mais nojentas de ‘servengonhices’ politiqueiras numa cidade. Lembrei-me de “Norte das Águas do Sarney.
É isso!
O livro faz todos os tipos de medo. Um infanto-juvenil de primeira. E mais uma vez a autora representa muito bem a literatura brasileira.
           
           
           


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Conjunto Habitacional da Aeronáutica lentamente desaparece


 Velhas fotografias de domínio público nos contam sobre as inúmeras construções que se ergueram na explosiva Parnamirim dos tempos de guerra: galpões, alojamentos, saguões, oficinas, igreja, comando, enfim inúmeras edificações que serviriam aos soldados americanos primariamente. São imagens gostosas de ver, pois retratam um tempo muito diferente.

      Nesse álbum é possível ver alguns flagrantes datados de 1942, ou seja, há 77 anos, quando se deu a construção do “conjunto dos oficiais”. As paredes se ergueram num descampado de terras alvas como lençol, no centro da cidade. Bem ao lado das construções que acolheram os primeiros aviadores franceses no início do século XX. Hoje está rodeado de casas e comércio. Como as plantas foram desenhadas por norte-americanos, a arquitetura desse conjunto obedeceu ao design dos estados Unidos. São casas bem diferentes, inclusive as únicas construções de Parnamirim cobertas com telhas francesas.

 O aspecto singular dessas velhas residências chama a atenção. São muito altas (justamente para haver boa ventilação). O íngreme telhado complementa o contexto. Mas assim como fizeram aos vários elementos arquitetônicos da Base Aérea, os quais desapareceram sob o crivo do desconhecimento ou desrespeito assumido às leis de preservação do Patrimônio Histórico, esse belo Conjunto Habitacional sofre lentamente a sua depredação.
 Coincidentemente passei por ali, ontem, e deparei-me com essa cena difícil de ser vista com normalidade, e que vem se repetindo eventualmente. Os pedreiros, que não tem culpa alguma e muitas vezes dilapidam inocentemente, apenas me olharam sem entender o por quê de eu estar fotografando. Acenei para eles e fui retribuído com o mesmo gesto. Quando vi a cena pensei: vou registrar isso para pelo menos exercer o meu direito de chorar pela memória brasileira que se esvai como vento.

Eles rebaixavam a construção, colocando telhas de amianto. Vejam a estupidez: destruir a história e a memória de uma cidade, substituindo-a pela ignorância, pois não existe cobertura mais inadequada, tanto pelo aspecto visual quanto pelo aspecto do calor que emanará no interior da residência.

Entrada da Base Oeste, exatamente onde estão as construçoes que abrigaram Jean Mermoz e Paul Vachet, primeiros aviadores a pousar no Rio Grande do Norte exatamente no local onde seria fundada Parnamirim.

Suponho que essa descaracterização apelidada de “reforma” seja uma espécie de estratégia, ou seja, é como se dissessem “vamos fazer uma por uma, aos poucos para que a sociedade não perceba proteste”. E por falar na sociedade, onde anda a sociedade?
É impressionante que os militares da Basse Aérea de Parnamirim não tenham o devido olhar para esse conjunto que é um dos resquícios do que sobrou das origens da cidade. Tenho impressão que a visão cultural desses senhores é muito limitada. Talvez esteja mais atrelado às bandas marciais e coisa do tipo.
No lugar desses senhores eu faria uma pesquisa de mercado para ver onde se fabricam tais telhas. Para quem não sabe o único lugar do Brasil que produz esse modelo é no estado de Santa Catarina. Seria necessário um projeto muito antecipado. Então se recuperaria o telhado original, sem necessidade de rebaixar a parede e colocar o horroroso amianto. Isso é coisa que não se faz da noite para o dia. Tem que haver orçamento e coisa e tal. Tudo o que é planejado da certo. Mas o grande projeto vem de dentro de nós. Os “proprietários” precisam ter consciência da importância desse conjunto arquitetônico. Do contrário pensarão que esse teto é fruto de bobagem.
É uma pena.
Torço para que a sociedade também esteja enxergando isso e pense igual a mim.
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Veja, abaixo fotografias originais da época da construção desse conjunto, datado de 1942.




sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Professora Cida Basílio, uma pioneira


 Professora Cida Basílio, uma pioneira

Podemos encontrar uma explicação bem fácil para entendermos a história da professora Aparecida Sales servindo-nos da Santa Bíblia Sagrada, quando ela traz as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando Ele diz  “Vinde a mim as criancinhas!”.
Essa comparação se justifica no fato de a referida professora ter vivido a maior parte da sua vida cercada de crianças, na condição de professora do ensino infantil.
Essa história começou no ano de 1982, quando sua amiga de infância, Soledade Araújo, conhecida como “Suli”, reconhecendo o seu potencial, apresentou-a à professora Terezinha Leite, a qual era secretária do ex-prefeito Almir da Silva Leite, ambos falecidos.
Nessa época existia um programa do Governo Federal denominado MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, que era voltado para a alfabetização de adolescentes e adultos, numa política educacional exatamente igual ao EJA que conhecemos atualmente.
Esse programa, criado em 1967, ocorria por meio de convênios com entidades públicas ou privadas. Foi extinto em 1985, e substituído pela Fundação Educar, desativada no Governo Collor de Melo, em 1990.
O MOBRAL existiu sob forte influência da Ditadura Militar, cuja professora Aparecida vivenciou seu auge no governo do Presidente João Figueiredo, que era Major do Exército Brasileiro.
A Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, na pessoa do prefeito Almir da Silva Leite, estabeleceu esse convênio, conseguindo que ele também fosse destinado às crianças de Nísia Floresta, numa atitude inédita
A professora Terezinha, encantada com o dinamismo da professora Aparecida, encaminhou-a à Secretaria Estadual de Educação, submetendo a professora Aparecida a um treinamento de 15 dias, cuja professora realizou com sucesso.
Em seguida ela retornou para o município já para começar a trabalhar como professora de uma turma de crianças com idades entre 4 a 5 anos, cujos pais estavam ansiosos para ver funcionar, pois se tratava de um momento histórico, afinal era a primeira vez que a pré-escola funcionaria em Nísia Floresta.
Naquela ocasião a senhora Lurdinha Guerra, coordenadora do Mobral, enviou um documento ao prefeito Almir Leite, o qual dizia: “Comunico que o trabalho do MOBRAL do RN foi contemplado com um prêmio internacional da UNESCO, e agradeço pelo apoio recebido do município de Nísia Floresta, o qual contribuiu para essa grandiosa vitória”,
Naquela época não existiam tantos programas educacionais como hoje. Os recursos eram escassos e tudo acontecia com grandes dificuldades.
E foi assim que ela começou, pois o prédio destinado às aulas – o Centro Pastoral Isabel Gondim – não tinha a mínima infra-estrutura. Não havia água encanada, nem móveis. Mas Aparecida não fez disso um problema. Reuniu todos os pais, expôs os problemas e recebeu apoio de todos.
A partir daí passaram a ocorrer várias reuniões. Todas muito proveitosas e com resultados surpreendentes.
Naquela época as pessoas demonstravam um maior grau de voluntariado, pois, sem nenhuma reclamação, todos abraçaram a causa com muito amor.
Cada pai trouxe o que podia: filtro para água, um fogão de lata movido a carvão, bacias, vassouras etc. Resolveram o problema da água, conseguindo improvisar uma mangueira que vinha da CAERN.
Houve o acordo para cada criança trazer um prato, um copo, uma colher e o seu lanche.
Como a turma era grande foi decidido que cada dia uma mãe daria expediente como auxiliar, numa espécie de estagiária. Posteriormente os próprios pais decidiram que uma das mães, a senhora Adélia (hoje falecida) ficaria de forma fixa, e seria remunerada pelos demais pais, os quais fariam uma cota mensal. Infelizmente, devido às condições financeiras dos pais, eles findavam não conseguindo pagá-la todos os meses.
Interessante era que a senhora Adélia, mãe da aluna Janiere, jamais fez qualquer juízo de valor dessa situação, pois nunca faltava e trabalhava com grande dedicação, sempre alegre, extrovertida e atenciosa com as crianças.
         Ao contrário do Regime Militar que vigorava na época, a professora Aparecida, de forma bastante democrática, pediu que os pais sugerissem nomes para a escola, a qual foi denominada “Chapeuzinho Vermelho”.
         Para obter melhores resultados a professora Aparecida serviu-se de uma criatividade fora do comum, mas, sem quere, acabou se tornando uma espécie de precursora no uso de materiais reaproveitáveis – tão na moda atualmente -  pois, de forma lúdica, servia-se de tudo o que poderia ser jogado no lixo: caixas de ovos, latas de conservas, vasilhames de margarina, palitos de fósforos, caixas de papelão, tampinhas de garrafa, sementes, macarrão, cola de goma e outros materiais.
         A Praça Coronel José de Araújo, que na época não tinha o modelo atual, passou a ser praticamente uma extensão do Centro Pastoral Isabel Gondim, pois ali as crianças passavam horas a fio, cantando músicas educativas, canções tradicionais do folclore brasileiro, e várias músicas inventadas pela própria professora. Uma das atividades que as crianças adoravam era desenhar na areia com pequenos gravetos.
         Com o passar do tempo os pais perceberam os avanços no aprendizado dos alunos e resolveram investir mais. Desse modo conseguiram mesinhas e bancos para as crianças e para a professora, baldes e panelas grandes, um armário e um fogão à gás.
         Os pais eram muito dedicados e participativos. Não mediam esforços para fazer festas com direito a escolha do rei e da rainha, com venda de votos e comes-e-bebes. Toda a arrecadação das festinhas eram revertidas em prol do patrimônio da escolinha.
         Um dos reis dessas festinhas foi José Roberto, e uma das rainhas foi Clézia de Araújo, a Nildinha, que reside atualmente em São Paulo.
         A escolinha “Chapeuzinho Vermelho” era uma escola feliz, amada e respeitada por todos.
         Certo dia uma encomenda dos Correios mudou a história dessa escola. Várias caixas chegaram, destinadas pelo Ministério da Educação.
         Ao serem abertas a professora Aparecida foi às lágrimas. Eram materiais didáticos e pedagógicos: cola, papel ofício, lápis de cor, giz de cera, lápis grafite, régua, borracha, tinta guache, massa de modelar, pincéis, papel crepom, tesoura, barbante, pegador, livrinhos de historinhas e diversos jogos educativos.
Foi um presente que emocionou a todos e foi notícia na cidade inteira. A alegria das crianças não tinha fim. Era vista no brilho dos olhos de cada um, os quais recebiam o material como se fosse algo do outro mundo, com um valor inestimável. Havia um zelo especial por parte da escola, dos alunos e dos pais.
No decorrer da existência dessa escolinha tão feliz o seu funcionamento deu-se em outros prédios, como a casa de força, na rua da Bica, a qual abrigava o velho motor desativado, que por muitos anos abasteceu de energia elétrica todo o município.
Depois foi para o prédio onde atualmente funciona a Secretaria Municipal de Ação Social. Posteriormente funcionou numa sala cedida pela Escola Municipal Yayá Paiva.
Durante toda a trajetória educacional da professora Aparecida ela teve o senhor Almir da Silva Leite como seu grande incentivador e apoiador. O ex-prefeito sempre visitava a escola para saber se tudo caminhava bem, pois tinha uma atenção especial às crianças.
Muitas vezes tirava dinheiro do seu próprio bolso para arcar com despesas da instituição e sempre apoiou todos os eventos dessa escola.
Um dia, tocado pelas constantes improvisações e mudanças de prédio, resolveu empreender todos os esforços possíveis para reverter esse quadro. Foi ao Governo do estado. Viajou a Brasília e conseguiu um grande presente cujos pais não acreditavam: a escola teria prédio próprio.
E foi assim que, onde atualmente se encontra o prédio da Escola Municipal Maria Dolores Regina de Macedo Leite, foi erguido um prédio que recebeu o nome Escola “Chapeuzinho Vermelho”.
A alegria se redobrou durante muito tempo nessa instituição. E nessa escola, juntamente com as crianças que Deus lhe enviou, ela encerrou suas atividades, sendo aposentada  no ano de ...............
Desde muito tempo a professora Aparecida sonhou reunir seus alunos para esse que é um dos mais importantes da sua vida, pois ela não viu outro lugar mais especial para agradecer a Deus e a Virgem Maria como a casa de Deus. A casa de Nossa Senhora do Ó. Ela agradece a essas divindades por ter coroado de êxito a sua missão de educadora. Num tempo que as coisas não eram tão abundantes como hoje, mas que o amor das famílias e as bênçãos do Céu sempre estiveram, ao seu favor, fazendo com que tudo desse certo.
Aparecida Basílio, essa nisiaflorestense abnegada, foi a primeira professora do ensino infantil de Nísia Floresta e será sempre lembrada por sua trajetória de amor à educação.
Que Deus possa abençoá-la juntamente com todos os seus ex-alunos e com os pais dos mesmos, pois foram peças importantíssimas para o sucesso da sua trajetória.
Quando Jesus disse “Vinde a mim as criancinhas”, à luz da exegese bíblica, ele quis dizer: “que todos os adultos amparem as crianças e as ensinem o caminho do cristianismo, que é o caminho do amor. Protejam as crianças e eduque-as para que o mundo seja cada vez melhor. Nunca deixem uma criança desamparada”.
Foi com esse entendimento que a professora Aparecida Basílio trabalho a vida inteira.
É por isso que Nísia Floresta deve a essa professora o seu respeito e a sua gratidão, pois a missão de educadora é uma das mais lindas, mas não deixa de ser uma das mais árduas. E não existe profissional que não tenha passado pelas mãos de um professor.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O bredo em Papari: no passado, a fartura; no presente, a indiferença.


 O bredo em Papari: no passado, a fartura; no presente, a indiferença.
 Quando cheguei a Papari pela primeira vez chamou a minha atenção um mato vistoso espraiado atrás da Bica, onde proliferava. Percebi claramente se tratar de um angiosperma, o qual normalmente é comestível. Mordi a folha e constatei que era uma hortaliça.


A professora que me acompanhava disse que o nome era “Bredo”. Explicou que toda a cidade consumia o vegetal com abundância durante a Semana Santa. Faziam no leite de coco e, segundo ela, era delicioso. Mas ressaltou que a tradição desapareceu completamente. Segundo ela ninguém mais preparava “bredo” em Papari. "Se alguém disser isso aos mais novos, dirão que é mentira", reforçou.

Assim como no passado muitas hortaliças que consumimos hoje com naturalidade eram nativas das florestas, o bredo com certeza integra esse rol. Mas curiosamente perdeu a glória dos velhos tempos, diferente de outras hortaliças como couve, cebolinha, coentro e outros, cujas donas de casa jamais os dispensam.

Falar de “bredo”, hoje, assusta.
Percebi que o “bredo” nasce de forma espontânea, cujas sementes certamente são levadas pelas aves.
Algum tempo depois despertou-me a curiosidade de pesquisar sobre o “bredo” e descobri que originou-se na América e foi trazido pelos escravos africanos, os quais o consumiam abundantemente, através de variados pratos. Na Bahia é alimento sagrado.
Não falta em nenhuma casa, principalmente durante a Quaresma, inclusive nessa época ele é encontrado em todos os lugares, assim como a “xanana”, embora essa não seja comestível. Mas o "bredo" nasce sem que seja plantado intencionalmente, nos cantos de muro, nos quintais, no mato e até mesmo nas calçadas. E isso não é exclusividade do Nordeste. Nasce em quase todo o Brasil e em muitos países. Na “Sexta-Feira da Paixão” se torna o único prato do almoço em muitos estados do Nordeste, pois é comum em todo o Brasil.


Explicou-me a avó da professora que o “bredo” era tão gostoso que os próprios ricos de Papari o consumiam no bacalhau. “Não é porque era coisa de pobre que era ruim”, explicou-me a velha senhora. Vejam como se trata de um alimento curioso.
Creio que o uso do “bredo” não ocorra simplesmente porque é hortaliça, mas que os antigos o adotaram também por seu valor nutritivo. Pesquisando, descobri que o “bredo” é rico em cálcio, potássio, ferro, e contém vitaminas A, B1 e B2. Se a pessoa estiver com a vista fraca deve consumir boldo e sentirá grande diferença.


Estudiosos afirmam que o seu consumo manda embora a anemia, fortalece a imunidade do corpo e abranda os terríveis sintomas da osteoporose, da anemia. Faz bem até mesmo para inflamações da bexiga, as doenças do estômago e a prisão do ventre.
Lendo sobre o assunto observei que assim como resgatamos várias coisas do passado, como histórias, danças antigas etc, deveríamos resgatar o consumo desse importante alimento, e não apenas durante a quaresma, mas sempre.
Segundo a professora que me apresentou o “bredo”, o prato normalmente é feito no leite de coco ou até mesmo o óleo do coco. É preparado com peixe ou com camarão. Ela explicou-me que as famílias ricas compravam o bacalhau para preparar durante a Semana Santa. Os pobres, como não tinham recursos, colhiam o “bredo” que se espraiava abundantemente por toda a cidade e o preparavam com peixe, o qual era farto nas lagoas locais. Ela até brincou, dizendo “ser o bacalhau dos pobres”.
   

É importante reconhecermos que o camarão era tão abundante na velha Papari, inclusive o “pitu” (um tipo de camarão enorme), atualmente extinto, e o camarão verdadeiro, que podemos atribuir a ele a máxima “santo de casa não faz milagre”. As pessoas eram tão familiarizadas com o crustáceo que o bom mesmo era o bacalhau. Mas como era caro, o jeito era “camarão no bredo”. Ou “peixe no bredo”.
Analisando essa tradição, chamou a minha atenção o seu desaparecimento, o qual não deixa de ser algo curioso. Por que desaparecer um prato popular que atravessou séculos? Por que deixar de comer um alimento tão saudável?

Não sei se em Papari ainda afloram os ervais de "bredos", mas em casa adotei o hábito de tê-los como ornamento. Suas flores são verdadeiros poemas...

Tenho impressão que tudo isso revela um comportamento cultural. Talvez o “bredo” seja associado à pobreza. Quem sabe entenderam que comer “bredo” fosse “coisa de pobre”. O “bredo” era consumido num tempo em que as diferenças entre pobres e ricos eram mais nítidas. Aos ricos, bacalhau. Aos pobres, “bredo” e peixes e camarão de lagoa.
Comer “bredo”, hoje, seria uma desonra? Falar que os antepassados comiam “bredo” revela pobreza?
Etimologicamente, o "bredo" é originário do termo grego blíton por via da expressão latina blitu. Estudiosos afirmam que a planta harmonizou as culinárias do Daomé nagô, da Nigéria ioruba e da Bahia.
Com certeza o “bredo” chegou a Papari pelas mãos dos negros que aqui fabricaram muita rapadura, cachaça e mel de engenho, sob o chicote dos senhores de engenho. Certamente o “bredo”, por ter um pé na Àfrica, tornou-se desinteressante, assim como muitos o fazem até hoje.
Deixar de comer “bredo” seria uma forma de preconceito?