ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 17 de março de 2020

Escolas cívico-militares: bonitinhas, mas: "Ordinário, marche!

ESCOLA CÍVICO MILITAR É UM GRANDE ATRASO 
 
Dia desses, escrevendo sobre a escola cívico-militar, observei algumas pessoas com dificuldade de interpretação do texto. Elas me fizeram reflexões, de modo que eu tivesse que explicar o que elas haviam interpretado, e não o que eu havia escrito. Achei impressionante. Hoje, trazendo novas reflexões sobre o tema, procuro ser o máximo didático, evitando que palavras sejam colocadas na minha boca. O título é proposital, para checar mesmo a interpretação de alguns leitores…
 
Sou contra a escola cívico-militar. Não sou contra militares. Respeito-os como respeito os médicos, artistas, garis, os desempregados etc. Entendo o caso de pessoas sem informações, e que são a favor desse novo modelo escolar, mas ficaria perplexo se visse um professor civil favorável ao militarismo na escola, pois perceberia que ele se curvou a um equívoco, negou o seu próprio juramento docente, e faltou-lhe a aura de educador. Eu não diria um educador de verdade, mas um educador jamais aplaudirá militares no lugar do professor civil. Não somos país em regime de ditadura para militarizar os jovens. Não temos histórico de amores bélicos. Não admiramos Ustra. Não há necessidade dessa militarização. Há necessidade de medidas pontuais, por exemplo:
 
1) aumentar o PIB para a Educação;
2) aumentar o número de universidades em regiões isoladas;
3) aumentar o número de escolas técnicas federais no Brasil;
4) investir fortemente na qualificação contínua dos professores federais, estaduais e municipais;
5) investir fortemente na estruturação das universidades, escolas técnicas federais, escolas de ensino fundamental, médio e infantil;
6) garantir que no primeiro dia de aula TODOS os alunos das escolas de ensino fundamental, médio e infantil, tenham em mãos TODOS os livros didáticos;
7) garantir BIBLIOTECA DE VERDADE nas escolas;
investir fortemente em políticas públicas de educação, saúde, segurança pública, locomoção, lazer, esporte, entretenimento etc;
9) investir fortemente no combate à pobreza.
10) garantir cidadania e políticas públicas nos bairros para alunos e pais.
 
Essas políticas públicas permitem que crianças e jovens tenham educação e intelectualidade fortalecidas. Elas irão para a escola tratando com respeito os professores e qualquer pessoa.
 DETALHE: sem serem soldadinhos de chumbo. Essas medidas permitiriam famílias estruturadas, pois os alunos de fato se graduariam com condições intelectuais de avançar, ter emprego, melhorar a vida dos pais e se unir a outros cidadãos na construção contínua de uma nação evoluída. PARTE dessas medidas foi iniciada no final do governo de FHC, perpassou por Lula e Dilma, mas sofrem reduções e extinção no governo atual que está desmontando tudo.
 
Na realidade, os resultados concretos das medidas acima só fecharão o círculo após cinqüenta anos de efetivação, sendo que em vinte anos a sociedade sentiria os reflexos. É projeto para vários governos, pois é impossível a sua realização em quatro ou oito anos. Só um país sério, e com patriotas na prática – e não apenas nos discursos – daria essa guinada.
Alguns pensarão: por que não fizeram desde que surgiram as escolas públicas? Não sei. A dívida é secular. Por que não construíram nesses cem anos e se chegou ao atual estado? Criança cujos pais contam com serviços públicos de qualidade, que recebe educação libertária, torna-se homem e profissional altruísta. Ela conhece limites através dos pais (não dos professores), será autoridade idônea, saberá com clareza discernir certo e errado. Pobreza não justifica marginalidade. Há muitas famílias pobres de Jó que educam os filhos como príncipes, que se desdobram e protagonizam fatos impactantes, mas não é generalizado. Pobreza expõe e fragiliza mais.
 
Dia desses assisti a um vídeo no qual um pai bem apessoado entra numa grande farmácia com o filho, entretém o farmacêutico, enquanto a criança de NOVE ANOS furta todo o dinheiro do caixa. Se ambos tivessem a devida educação, não praticariam contravenção. Só a educação transforma o homem num cidadão de bem. Há exceções negativas, mas são casos isolados.
 
Reconheço a organização das escolas militares. Mas também reconheço a organização de muitas escolas públicas civis, mas vale salientar, que a escola militar recebe incomparavelmente muito mais recursos financeiros. Questiono o desvio do militar para a escola civil. Não é essa a necessidade do Brasil. Precisamos das medidas acima enumeradas, dentre outras ações pertinentes. Se as famílias marginalizadas, cujos filhos apresentam problemas na escola, fossem tratadas com dignidade pelo Estado, se tivessem os auxílios que têm os políticos e magistrados, com certeza educariam corretamente os filhos. Os professores não estariam sobrecarregados, substituindo pai e mãe, dando educação de berço aos filhos alheios.
 
Quando, espontaneamente, um jovem escolhe uma escola especificamente militar – é um direito dele seguir as escolas das Forças Armadas (Marinha, Aeronáutica, Exército, Polícia Militar). Mas transformar as escolas civis em espaço cívico-militar por força da opinião geniosa de um presidente que faz mal juízo dos educadores civis, é puro equívoco. A perseguição é tão óbvia que ele investirá pesado nessa ideia de militarizar a escola civil para, de fato, obter “bom resultado”, “provando” que ela é “melhor” que a educação civil.
 
O leitor poderá pensar “mas se eles investem muito mais dinheiro na escola militar, será bom que as escolas civis sejam militarizadas”. Não é bem assim. A destinação de verbas para as escolas secularmente militares é muito diferente de, por exemplo, militarizar uma escolinha civil em sua cidade interiorana. Não compare o que vai de dinheiro para o ITA com o que iria de dinheiro para a Escola Professor Zuza, aqui em Natal, por exemplo (acaso ela fosse militarizada). Os dispositivos são diferentes. É outra história. 
 
A educação militarizada jamais será completa como a Educação civil (explico abaixo). Por que o Governo Federal não investe dignamente na escola civil? Conheço incontáveis escolas civis, públicas, que, quase sem recursos, conquistam sucessivas vezes o primeiro lugar no IDEB. Os IFRN’s estão dando um show no aspecto de avanços intelectuais dos alunos.
Imagine se as escolas civis recebessem os mesmos investimentos das escolas cívico-militares? Com certeza seriam instituições incomparavelmente formidáveis. Mas é uma questão pessoal. Cismaram com Paulo Freire. Escolheram Ustra! A linha da educação militar é diferente, nem tanto pela organização e respeito, mas a essência, os conteúdos, os métodos. Leiam esse magnífico texto e entenderão melhor. a essência é a mesma: https://medium.com/.../a-hipervaloriza%C3%A7%C3%A3o-do...
 
Você sabia que os livros didáticos chegam às escolas baseados no senso escolar do ano anterior? Por isso nunca são suficientes para todos os alunos, pois a cada ano aumenta o número de alunos. Sabia que boa parte dos livros didáticos chega atrasado às escolas? Isso é gravíssimo. A culpa é dos governos. Mas a sociedade, equivocada, culpa escolas e professores. Pobres vítimas.
 
A sociedade tem a mania de supervalorizar o que é belo por fora e por dentro é pão bolorento, e o que os reclames anunciam: a fruta viçosa (mesmo que por dentro tenha gosto desenxabido), a caixa de fósforo acusando 100 palitos, mas com 70 palitos de fato. É mais ou menos isso que acontece com a aparência da escola cívico-militar. Estética bonita pelas fardas muito bem desenhadas, cabelos e sapatos impecáveis. Alguns acharão o máximo. Mas em termos intelectuais, há um déficit grande. 
 
Para quem tem dificuldade de interpretação de texto, esclareço que não falo em déficit no aspecto de inteligência, moral, caráter, mas déficit na profusão de sua intelectualidade. Os alunos das escolas cívico-militares não experimentam a mesma grandeza da escola civil pública: a plenitude das Humanidades sem pecar nas Exatas, não há áreas do conhecimento censuradas ou ignoradas. Não há perfis humanos discriminados. Nos ambientes educacionais civis públicos as regras são deliberadas, construídas. Há liberdade. Se algumas falham, o fazem por força do sistema falho. Mas a busca pelo conhecimento supremo e plural é contínua.
 
A escola civil permite ao aluno discutir os temas atuais sem censura; estudar e produzir todas as vertentes da Arte; estudar Política, Filosofia, Sociologia, Antropologia etc; experimentar os ensinamentos de incontáveis pensadores da Educação (inclusive Paulo Freire) e outros filósofos da Educação; não aquiescer à imposições que ferem culturas. Isso não tem preço, pois fecha o círculo da formação intelectual. A escola civil, além de oferecer as disciplinas das escolas cívico-militares, com exceção às específicas militares, oferece todas as disciplinas das áreas humanas, sem imposição e limitação, sem coerção, sem impor medo, sem ameaçar com agressões físicas, afogamento, sofrimentos diversos. É uma formação completa. Por tal razão observo que a educação na escola cívico-militar jamais será plena.
 
Na escola cívico-militar, um jovem afro-descendente, por exemplo, deverá cortar o cabelo rastafári para usar o quepe. A garota de cabelo azul deverá “destingi-lo” para usar “coque” e quepe. O cabelo rastafári ou azul jamais impediriam o aluno de aprender. Como fica o respeito à cultura de raiz africana e a liberdade da escolha da cor do cabelo? Regra e respeito entram em conflito quando a regra desrespeita a cultura. A escola civil respeita todas as culturas: nela entram os alunos de cabelos coloridos, tatuados, com rastafári, enfim não se pratica a exclusão, pois uma pessoa não é má ou marginal por ter esse visual. Observo que querem doutrinar os jovens antes de chegarem às universidades. Por que não tentam militarizar as universidades! São estratégicos! Experimentem!
 
Priorizam patriotismo como se patriotismo traduzisse idoneidade inquestionável. Há patriotas na cadeia. Há patriotas agredindo ciganos, nordestinos, judeus, gueis, lésbicas, negros etc. O próprio presidente da república, que proclama o patriotismo diariamente, planejou atos de terrorismo no Exército, planejou explodir o prédio das Agulhas Negras, uma adutora carioca e outros espaços públicos. Imagine um aluno dele, hoje, explodindo uma escola! Patriotismo é conteúdo da disciplina de Ética e Cidadania, assim como Física, Arte, Geografia etc. Não é algo extraordinário. Extraordinário é o que já expus nas medidas acima. Patriotismo não se resume à palavra, mas à prática. O presidente não é patriota nem no discurso, pois discurso que enaltece torturador é criminoso. Um presidente que diz “caguei” diante de um monte de autoridade não pode afirmar que a escola militar é melhor que a civil.
 
As Forças Armadas não têm a procuração do patriotismo nem do respeito para sentenciar que a escola cívico-militar é a solução para os problemas atuais. Há mais de cem anos os alunos entoam hinos cívicos e hasteiam bandeiras com naturalidade. Não se deve julgar a escola pública civil tendo como parâmetro fatos isolados, despertando na sociedade a ideia de que o professor civil fracassou. Isso é injusto.
 
Que história é essa de que a nação carece de disciplina militar? Parte da sociedade pode até necessitar de disciplina. Mas DISCIPLINA, e não DISCIPLINA MILITAR. Disciplina não é patrimônio militar. A sociedade é feita de famílias, as quais – salvo as devidas exceções – não disciplinam os filhos. O assunto é complexo e relativo. Há, inclusive, militares de todas as vertentes que não disciplinam os próprios filhos também. A internet está repleta de casos. Isso traduz um problema social/humano. A solução está na Educação, e nos tópicos enumerados acima.
 
Famílias que se encontram em situação de fragilidade, gerando filhos problemáticos nas escolas, salvas as exceções, predominantemente são de origens pobres, diferentes das famílias ricas. Famílias pobres estão sem moradia digna, sem emprego, sem saúde, sem educação, sem lazer, sem segurança, sem entretenimento etc. Elas perderam a capacidade de educar os seus filhos. O problema escorreu para o colo dos professores. Hoje o sistema ignora isso e produz “fake news”, crucificando a imagem do professor.
 
O resultado dessas escolas – que não são todas – onde o professor virou pai, mãe e professor, implica nos resultados cognitivos deficientes. Os alunos não aprendem satisfatoriamente. Há muitas escolas públicas que, pelas mãos dos educadores, são modelos. Isso exige esforços hercúleos. Não era para ser assim, pois a construção do conhecimento deve acontecer com serenidade, paz, fraternidade, amorosidade, como nos ensina Paulo Freire e outros pensadores da Educação. 
 
Há uma mania atual de alegarem baderna instalada nas escolas públicas civis – como se generalizada – mas a baderna veio de casa, salvas as exceções. A escola é o “quarto de despejo das família”. A disciplina que faltou em casa foi repassada para a escola, como se os professores tivessem parido alunos mal educados, portanto obrigados a educá-los. Os pais perderam a moral para os filhos que os dominam, então eles querem que os professores lhes deem educação de berço.
 
O ‘povão’ deve lutar por uma escola pública-civil de qualidade. Jamais aplaudir a escola cívico-militar limitadora da intelectualidade dos jovens. A sociedade, formada por pais, mães, avós, tios etc são as pobres vítimas desse fake news. As escolas civis com maiores problemas são assim por culpa da ineficiência governamental. Hoje, parte dessa sociedade ouve a propaganda da escola cívico-militar e se aquiesce aos equívocos, despercebendo que a mesma não constrói uma educação libertária, forte, altruísta, intensa, mas exclusiva e segregacionista.
 
Parte da sociedade – hipócrita – está assustada, culpando a escola e o professor. Ora! Os professores que apanham de alunos – não generalizando – apanham porque em casa eles batem nos pais. Em algumas escolas ocorre o tráfico de drogas. Crucificam os educandários como se eles gerassem o problema. O aluno traficante já o faz em sua própria casa. Algumas escolas se tornam a extensão do tráfico. Muitos pais nem sabem, outros fingem com medo de apanhar desses filhos. Mas quase todos culpam escola e professor. Ignoram que o problema está no sistema. Na realidade, a família é só mais uma vítima. E por falar em tráfico de drogas, lembram do avião presidencial com 39 kg de cocaína pura? Vejam a eficiência militar. Quem é perfeito, deve provar que é perfeito.
 
Ninguém precisa de militarização escolar. Precisa-se de educação plena, cidadania, civilidade, comida, emprego, lazer etc. Os militares poderão até disciplinar as escolas antes civis, mas disciplinar dentro da exclusão. O aluno que denominam de “bandido”, vai abandonar a escola e ampliar o tráfico e a violência em torno da escola e dos bairros. O aluno que não comunga com o estilo militar, não necessariamente o chamado “bandido”, vai evadir. Alunos gueis, lésbicas e trans sequer entrarão na cívico-militar. E nem devem. Não era para o governo estar investindo na Educação sob as suas novas faces? Não era para o governo estar investindo em saúde pública, não era para o governo estar investindo em prevenção feita pelos próprios militares em outras repartições?
 
Alegam que o bullying está acabando com as escolas. Alunos praticantes de bullying tiveram má formação educacional, ética em casa. Quem pratica bullying acha-se superior aos outros. Acha-se rico, por isso humilha o pobre; acha-se mais bonito, portanto humilha o “feio”; é mais popular, portanto humilha o tímido; usa roupas de grife, portanto exclui os que se vestem com simplicidade; vai à escola de carro, portanto discrimina quem vai a pé.
 
De onde vem esse comportamento? De casa! Há praticantes de bullying com problemas psiquiátricos, psicológicos, em situação de abuso, violência. Eles encontram no bullying uma válvula de escape. Aqui entramos na alçada médica. Onde estão as políticas públicas para essa preocupante situação? Vocês acham que militares irão resolver isso? Pelo contrário! Irão traumatizar ainda mais. Ninguém está precisando de ameaças, de medo, de gritos, de ordens estúpidas. Está-se precisando de educação e respeito. E isso não é propriedade militar, como se lê em tantos exemplos expostos aqui mesmo.
 
Há quem sentencie que se não precisássemos de escola cívico-militar, que antes os civis tivessem realizado medidas disciplinares nas escolas. Quem disse que não realizaram? Mas não é esse o problema. O problema se resolveria se efetivassem os tópicos acima elencados. Não são escolas que criam políticas públicas. São governos. Alegam que há anos as escolas e professores negligenciam o problema. É equivocado, pois a imagem ruim de ALGUMAS ESCOLAS civis públicas não surgiu no ano passado. É antiga. O problema é a falta de investimento e descontinuidade das políticas públicas iniciadas nos governos anteriores, salvas as devidas observações, como expus. Há professor equivocado, como há militar. Mas não é regra.
 
Os governos deveriam investir, obviamente, e com justiça, nos militares e nos professores. Mas cada um no seu quadrado e em harmonia social. Deveria-se investir pesado na estruturação das instituições militares no combate às drogas, ao tráfico e à violência. Os militares devem cuidar das fronteiras no ar, no mar e na terra. Os militares precisam de condições e políticas públicas para trabalhar prevenção diariamente. Polícia qualificada para trabalhar com Inteligência e Prevenção, faz milagres. Mas em seu quadrado.
Mais que armas de fogo, a prevenção desarma a criminalidade lentamente. Essa é uma das tarefas militares. A solução está nas políticas públicas, jamais na militarização de escola civil. Só com esse investimento maciço terá-se homens e mulheres fortes honrados, cidadãos plenos, país promissor. Escola cívico-militar é atraso. É equívoco. É caminhar para o passado que já se conhece. 
 
O que temos, hoje, na realidade, é um presidente ignorante, mal educado, genioso, que detesta a imagem dos professores, detesta as universidades e os ambientes educacionais. Um louco que age como se estivesse querendo vingar Ustra, vingar Pinochet pelo fracasso de seus regimes de tortura de maldade militar. 
 
Jamais admitiria meu filho ou neto ouvindo: “Ordinário! Marche!” Prefiro que ele ouça: “Não seja ordinário, não marche, mas pense… não tenha medo, leia, lute, e caminhe por todos os caminhos que o levem à liberdade, à justiça, à partilha, ao conhecimento de excelência, à cultura, ao êxito, amor ao próximo e um Brasil que extinga equivocados patriotas… voe…voe”. 
(Atualizado dia 24.10.2021)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

MEMÓRIA DE PARANÁ-MIRIM – 1942-1946... A PROIBIÇÃO DE PRETOS NA BASE AÉREA.


MEMÓRIA DE PARANÁ-MIRIM – 1942-1946...
A PROIBIÇÃO DE PRETOS NA BASE AÉREA.
Assim como os norte-americanos se instalaram aos poucos nas plagas de Manoel Machado, dando a origem à Base Leste, encostada à Base Oeste (dos brasileiros), o mesmo ocorreu durante a partida de volta aos Estados Unidos. Devagarinho eles foram embora, levando diversos pertences.
Os americanos chegaram em Natal em 1942 e foram em 1946. A Base Aérea montada pelos americanos é usada até hoje. A instalação da maior Base militar norte-americana fora dos EUA ocorreu em Natal, mais precisamente entre 7 de julho (data oficial do início das atividades) e 1946, ano ao longo do qual os norte-americanos foram deixando gradativamente a base administrada só por brasileiros.
Chegaram a pernoitar na base 22.000 homens e o movimento diário de aviões era em torno de 500 a 700. Os americanos chegaram em Natal em 1942 e foram em 1946. Deixaram mais de 700 galpões, grande quantidade de Jipes, armas e munições.
A História muitas vezes se prende aos fatos maiores, preocupando-se com começo, meio e fim, sem destaque a detalhes, muito embora eles possam significar uma história muito maior. Principalmente quando as minúcias ferem a ética e a lei. É exatamente sobre isso que comentarei abaixo. Trata-se de uma página meio esquecida na História dos norte-americanos durante s Segunda Guerra Mundial, e que aconteceu nessa plagas.
Durante os preparativos para referido projeto, apareceu um imbróglio complicado, principalmente aos olhos do século XXI. Houve a necessidade de que o pessoal da 194th Quarter-Master Truck Company fosse enviado ao Brasil para diversas demandas.
Com o fim da Guerra, vários despachos e demandas aconteceram paulatinamente. Surgiu o Projeto Verde (Geen Project), um programa de transporte que levava o pessoal norte-americano de volta aos Estados Unidos.
Ocorre que todos os membros da companhia 194th Quarter-Master Truck Company (soldados, oficiais, funcionários comuns, corpo técnico etc) eram de cor preta. Por aqui não existiam pretos. Pelo menos não se viam militares brasileiros nessa cor. A Marinha americana disponibilizou marinheiros negros no Brasil, mas nem o ATC nem o Quartel-General importou-se em servir-se de seus trabalhos. A partir dessa observação, suspeitaram que o general Walsh tinha feito acordo com as autoridades brasileiras para não trazer soldados pretos para o Brasil. Teria sido um pedido de Vargas? Não se sabe.
Diante disso o chefe da Divisão de Pessoal enviou documento ao Quartel-General do ATC orientando o unicamente o envio do equipamento necessário, mas que não viesse o pessoal da Divisão, ou seja, que não viessem profissionais pretos.
Certamente para que não ficasse feio e muito notório, criaram uma série de justificativas com relação a tal proibição. Enfim, proibiram a vinda de soldados pretos para o Nordeste do Brasil, cujos argumentos foram, aparentemente, considerados favoráveis, pois posteriormente comunicaram que o equipamento seria enviado, mas sem militares pretos.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

DEPREDAÇÃO DA HISTÓRIA E O SILÊNCIO ENSURDECEDOR DE ALGUNS NISIAFLORESTENSES...



DEPREDAÇÃO DA HISTÓRIA E O SILÊNCIO ENSURDECEDOR DE ALGUNS NISIAFLORESTENSES...

Ao longo desses últimos anos venho pontuando uma série de atitudes equivocadas, pertinentes à descaracterização da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Tudo começou em 2008, com uma denúncia que fiz à Fundação José Augusto durante a construção de um altar e nicho do lado direito no corredor a caminho da sacristia. Em 2014 denunciei a descaracterização do forro do altar-mor, no qual inseriram um forro de madeira preta, ao invés de refazerem do mesmo material e com os mesmos detalhes. 

Na oportunidade denunciei uma série de descaracterização em outros espaços e elementos da Matriz. Para todos os casos houve abordagens dos órgãos que receberam as denúncias, mas infelizmente a abordagem dos profissionais não têm surtido efeito. Paulo Heider, arquiteto especialista da Fundação José Augusto disse-me que tudo o que orientou aos responsáveis pela reforma não foi feito. Ele demonstrava profunda revolta, pois é um especialista e sabe da importância do templo. 

É uma construção rara e com acervo que não se repete em nenhuma cidade do RN. Nem na catedral de Natal nem na catedral velha. E o templo segue sofrendo descaracterizações e objetos mexidos leigamente, ao invés de restaurado e analisado por especialistas e pessoas experientes. Fiz um documento e pedi o tombamento, o qual vem sendo providenciado (está no meu blogue). Um das ações mais desnecessárias é a retirada das janelas e portas, ao invés da restauração. 

A notícia mais trágica é a pintura desse lampadário de prata maciça (peça portuguesa do final do século XVIII). É algo tão tosco que chega a ser inacreditável. O ideal para essa peça é única e exclusivamente limpeza e polimento. É inadmissível sujá-lo com tintas a oleo ou outro material. A peça já possui a sua cor natural. 

Para somar a essa depredação, o lustre de cristal, que ficava no centro do forro da matriz, infelizmente corre o risco de nunca mais ser reinstalado, pois suas peças principais se quebraram por não ter sido manuseado nem guardado de forma conveniente. É outra peça de grande valor. Guardam as peças como cadeiras velhas de plástico. A ponta do manto de uma das imagens de cedro folheado a ouro se quebrou. Todas essas imagens devem ser revestidas com plástico bolha ou tecido, e guardadas em espaço seguro, separada individualmente sem se tocarem. Mas não foi feito. 




É muito triste isso. E mais triste saber que muitos não se importam. Acham normal. E mais drasticamente pior é saber que alguns nisiaflorestenses estão revoltados, mas a cultura local os impede de assumidamente darem um basta. Há nativos que estão a ponto de ter um infarto. A igreja pertence ao povo. Os administradores passam, mas o povo ficará para sempre, se renovando, pois são os donos reais. 

De todas as denúncias que fiz a única que rendeu lucro foi dirigida à Arquidiocese, pois consegui sensibilizar as autoridades para criarem um curso e uma disciplina para os seminários, cujos futuros padres de agora em diante estudarão sobre o patrimônio histórico das igrejas. Inclusive fui convidado pela Arquidiocese para fazer o curso (publiquei isso no meu blogue, inclusive mostro todos os contatos que a Arquidiocese fez comigo). As instituições recebedoras das denúncias tomaram providências, mas tudo tem sido ignorado e as ações de descaracterização continuam. 

IMPLORO AO POVO NISIAFLORESTENSE QUE GUARDE CARINHOSAMENTE ATÉ OS CISCOS E FREPAS QUE FOREM RETIRADAS DA MATRIZ, GUARDEM AS MADEIRAS, OS PREGOS, FECHADURAS... ENFIM TUDO ISSO DEVERÁ SER RESTAURADO E REPOSTO NO SEU LUGAR ORIGINAL. NÃO PERMITAM QUE NADA DISSO SEJA JOGADO FORA OU VENDIDO. ESTAMOS EM PLENO SÉCULO XXI. NÃO DÁ MAIS PARA ASSISTIR A ATOS DESSE TIPO EM SILÊNCIO, NEM TAMPOUCO ENTENDER O MEU GESTO COM A INGÊNUA INTERPRETAÇÃO DE QUEM BUSCA AUDIÊNCIA. É MUITA LEVIANDADE PENSAR DESSA FORMA. SOU UMA PESSOA DE 52 ANOS COM TESTEMUNHO DE PROFUNDO RESPEITO AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO, À MEMÓRIA, À EDUCAÇÃO À CULTURA, E NÃO SEPULTAREI ISSO POR CAUSA DE EQUÍVOCOS. ESTAMOS DIANTE DE UM CRIME ASSISTIDO. RESTA AO POVO NISIAFLORESTENSE RECONHECER A GRAVIDADE DO FATO E IMPEDIR QUE A DESTRUIÇÃO CONTINUE. NÃO PERMITAM QUE AS CRIANÇAS DO FUTURO OS CRUCIFIQUEM POR TAL SILÊNCIO....

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O homem da cobra


   
Esta fotografia é atual. Foi retirada da internet para ilustrar o texto. Ela é um bom exemplo, embora no meu caso a multidão era maior e juntava homens, mulheres e crianças.

O HOMEM DA COBRA

Quando criança e adolescente, privilegiei-me de experiências típicas dos que nascem nos recônditos emoldurados de abundante fauna e flora, às margens dos gigantescos rios Pardo e Paraná, região berço dos Guaranis-Kaiowás e Ofaiés-Xavantes no estado de Mato Grosso do Sul. O mais simples acontecimento roubava a cena até mesmo de adultos. A cidade, apesar de planejada, guardava todas as pinceladas de cenário interiorano, diferente da potência que se tornou atualmente.

Certa vez a cidade acordou com a notícia de um curandeiro que fazia cirurgias sem cortes, e se instalava provisoriamente no centro. Entregavam um papelzinho nas residências com uma espécie de resumo dos prodígios do forasteiro. Sobre ele, contavam estranhas histórias. Uma grande fila se formou defronte à casa do homem que “recebia o espírito de um médico”. Comentavam que ele mexia as mãos sobre o corpo das pessoas e retirava doenças. Extirpava pedaços de coisas com sangue. Outras vezes saiam pequenos objetos, bolas de cabelos, pedacinhos de coisas enferrujadas e outras indecifráveis. A maioria dos casos era alegado como “coisa feita”, ou seja, magia negra de algum macumbeiro.

Os dias amanheciam e anoiteciam com feixes de novas histórias do curandeiro. Povo perplexo e entusiasmado daquele estranho homem. Minha mente pré-adolescente, desentendida desses assuntos fora da caixa, legava-me um misto de medo e curiosidade, mas agradava-me a novidade. E com certeza toda a meninada local. Minha mãe, adepta do mesmo proceder de São Tomé, ignorou o homem estranho, colocando freio na minha vontade de se plantar ali para contemplar a atração.

Quando um circo se arranchava, tínhamos a sensação de que a felicidade fizera morada na cidade. Saber que uma das maravilhas da infância se avizinhava com nossas casas, tornava-nos radiantes como o sol. A montagem era parte das atrações. Lona subindo, homens marretando os eixos de caminhões terra adentro para suster as bases da tenda colossal, elefante degustando cana-de-açúcar, bichos selvagens esturrando nas jaulas, macacos guinchando... tudo promovia um estado avançado de felicidade. A estreia transcendia esse bem-estar. Quando o circo partia, acendia o terrível sentimento de quando morre alguém da família. As pessoas daquela casa de pano soavam nossas parentes. Todos queríamos sê-las porque eram de outro planeta. Um vácuo de banzo acometia-nos.

O que ocorresse na pequena cidade parecia ter saído de um imenso alto falante. Todos sabiam a tempo e hora, buzinado pelo boca-a-boca de um e outro. O show de Teixeirinha e Mary Terezinha, a chegada de Milionário e José Rico na estreia do espetáculo, a aterrissagem do bimotor trazendo o governador no poeirento “campo de avião”, o acidente de carros na rodovia que cortava a cidade, o pneu que estourou na borracharia e fez as ruas tremerem, a serraria que pegou fogo, as moças que foram jogadas da ponte, o mendigo estranho que apareceu, a imensa ponte de madeira que quebrou com um caminhão de soja, as máquinas Caterpillar terraplenando as ruas de barro vermelho, alheias ao asfalto... enfim tudo que diferisse do dia anterior consistia em atração, principalmente para meninos movidos ao exercício da curiosidade. Não bastava saber, urgia ver...

Mas o que me impressionava talqualmente fato sobrenatural era o “Homem da Cobra”. De escrever sobre isso toma-me um arrepio de lembranças. Lembranças lindas. Lembranças emocionantes. Nenhuma novidade sobrepujava aquela presença excitante, transbordando a cidade de magia. Normalmente o homem misterioso aparecia numa Rural ou Combe, veículos grandes, cujos estrados do teto vinham abarrotados de mercadorias e segredos tocando as nuvens, amarrados por uma lona.

O adagiário popular traz uma máxima que classifica as pessoas que falam demais como quem “fala igual ao homem da cobra”, ou seja, conversa igual papagaio. Era assim o dito cujo. Sua chegada se percebia pelos auto-falantes do veículo, anunciando a solução para muitas doenças, e que se instalaria na esquina da praça, local de boa movimentação. Enquanto o carro gastava pneus – e as bocas de ferro matracavam – a meninada corria atrás, comendo poeira, ansiosa para conhecer o mundo maravilhoso que se revelariam daquele carro, igual coelhos saltando de cartolas.

O homem misterioso parava no local anunciado, abria as portas laterais, nas quais se dependuravam feixes de raízes e cascas, pacotes com folhas, sementes, flores secas, pós, emplastros, latas com ungüentos, resinas, garrafadas, enfim uma ampla medicina natural. Nesse interim o povo se aglomerava. O veículo exalava um cheiro diferente. Eram os matos misturados. 

Logo o condutor desenrolava o fio e pegava do microfone, destrinçando suas mercadorias. Antes, anunciava o “peixe-elétrico” guardado a sete chaves, “perigosíssimo”. Ressaltava mil vezes que acenderia lâmpadas no animal para todos verem e comprovarem. Falava de cobras venenosas desconhecidas, vindas de lugares intransponíveis do Pantanal, em que um pingo de veneno matava dez homens. Avisava que exibiria uma sucuri de doze metros, trazida numa caixa. Segundo ele, “ela já ouvia toda aquela conversa”.

Se verdade, creio que a pobre cobra não se sentia numa lata de sardinha. Doze metros? Impressionava a teatralidade do “Homem da Cobra”. Impressionava sua impostação de voz. Impressionava a maneira gilgomesca na qual ele exaltava a farmácia e os segredos guardados no veículo.  As palavras ora eram suavizadas por tons de mistério. O escandir das vogais espichadas dentro de algumas palavras... Tudo impactava até mesmo aos adultos. Nós, crianças, congelávamos nossas caras, ou melhor, caretas. Ficávamos abismados, ansiosos para ver a conversa tão demorada se transmutar em realidade diante de nós. Era comum alguma dona de casa reclamar “ai meu Deus! Que demora, tenho que ir pra casa fazer as coisas”...

Espertíssimo, em meio a esse suspense e anunciação de produtos milagrosos, ele despertava a curiosidade em todos. As mercadorias saiam como banana em feira. Os bichos consistiam em estratégia para segurar a atenção da multidão curiosa. Quem chegasse se prendia nos grilhões da palavra falada com profusão de feiticeiro. O homem agarrava as pessoas nos anzóis de seus dizeres. Todo mundo ficava ali, preso... e cada veza chegando mais...

Ciente das doenças e sintomas comuns ao Brasil, alardeava a pomada milagrosa de gordura de sucuri “excelente para reumatismo”, garrafadas “para animar os velhos e velhas que não estavam mais querendo fazer aquele negócio”, ungüentos para “desaparecer qualquer dor de pancada”, tônicos para fortalecer “menino guenzo”, outro para os “lombriguentos”, “remédios para solteironas nervosas”, óleo para “matar empingis”... tudo anunciado como rádio que não se desligava. Homens, mulheres, velhos e crianças eram laçados pelas conversas persuasivas, potentes quanto visgo de pegar passarinho. 

Todo “homem da cobra” era simpático e extrovertido. Em curto tempo adquiria foros de pessoa de nossa família. Suas falações por vezes pareciam saltadas de almanaque decorado. Sempre tinha exemplos acontecidos com pessoa de alguma cidade, e sua cura milagrosa. Alguém que estava morrendo e praticamente ressuscitou com a garrafada erguida ali de suas mãos como troféu, menino que “pôs um ninho de lombrigas” por conta do óleo contido num vidrinho escuro. Eu detestava essa parte, pois nossa mãe nos obrigava a tomar um tal “Sulfato Ferroso” e um demoníaco “Óleo de Rícino” – insuportáveis. Ela dizia que era para não adoecermos e termos que ir para o hospital. Aquilo era uma morte, pois o hospital ficava do outro lado da ponte sobre o gigantesco rio Paraná. A sorte era que nossa mãe não se atraía dessas novidades. 

Seu repertório de palavreados, ditos populares, frases de efeito e brincadeiras fazia o povo chorar de rir. De quando em vez ele quebrava o gelo com a história de velho que não “dava mais no couro", ou que "o ponteiro só marcava seis horas", mas ficou tinindo depois da garrafada”, e batia na garrafa para traduzir o efeito, levando os adultos às gargalhadas. 

Os homens adultos e velhos se comportavam de maneira mais avacalhada. As mulheres adultas e velhas guardavam as risadas nos bolsos de seus pudores, embora uma ou outra escondia o sorriso nas mãos. Nós, crianças – inocentes naqueles tempos – desapercebíamos daquelas malícias. Achávamos engraçado o contexto, as brincadeiras, as risadas... acabávamos gostando do “homem da cobra”, pois ele enchia a cidade de felicidade. Trazia alegria para todos.

O “homem da cobra” era um “show-man”. O volume de sua fala se alternava de acordo com a ênfase que ele dava ao produto ou a alguma história que sempre tinha testemunhado. Tudo convergia para o favorecimento de seus milagrosos produtos. Impossível alguém se desconcentrar, pois suas palavras encantavam, agarrando o povo.

Logo ele pegava de uma caixa e chamava algum menino para ajudá-lo. De repente saltava uma cobra espevitada. O povo desaparecia. Então percebiam que a peçonhenta era de borracha. Quem era doido de checar antes? Outrora ele pegava de uma caixa maior e arrastava para meio das pessoas. Era cobra de verdade. Uma grande cascavel manipulada com maestria com ferro próprio. Dizia que sua picada fazia a vítima vazar sangue por todo o corpo. O povo ficava petrificado, sem muita aproximação. De repente guardava os segredos e partia para as propagandas dos produtos. Repetia uns, anunciava outros, novos.

Tinha remédio para gastrite, azia, má digestão, corrimento, frieira, queda de cabelo, coceira, fraqueza, lombriga, dor desviada (o povo entendia "dor de viado"), febre, micoses, tônicos para homens... ele viera para curar a cidade inteira. E o povo comprando sem parar. Não havia intervalos para suas conversas sem fim.

Dado momento ele pedia que alguns homens o ajudasse a retirar a grande e pesada caixa de madeira sobre o assoalho do veículo. Era a sucuri. O tamanho da cobra assustava. Primeiramente ele apresentava uma latinha contendo uma pomada para dor nos ossos. As propriedades medicinais eram tão extraordinárias nos seus falares que ninguém duvidaria se ele alegasse terem vindo do céu. Logo vendia umas vinte latinhas. Objetivo alcançado, ele começava a desenrolar um novelo de histórias sobre o animal. 

Naquele tempo não existia internet, portanto suas narrações se apresentavam como filmes que imaginávamos conforme suas contações. Assim ele falava ter presenciado uma sucuri que acabara de engolir um boi inteiro no rio Paraguai. Outra engoliu um homem que pescava sozinho no rio Paraná. Contou sobre uma sucuri que foi morta por mais de dez homens após engolir um menino, cujo pai a perseguiu até encontrá-la. Eram histórias arrepiantes, observadas pela gigantesca sucuri que parecia nos encarar, movimentando sua lingüinha para dentro e fora da bocarra. Ele transformava aquela serpente num monstro.

Depois de um congestionamento infinito de palavras, caras e bocas –,e consequentemente a venda de sortidas mercadorias – ele anunciava a grande atração: o “peixe elétrico”. Então, convocava mais homens e pegava de uma tina redonda, toda em madeira, e o colocava no centro da roda. A tampa era aberta lentamente, sob um discurso que mais lembrava um filme de terror. 

A enguia, enfim, aparecia, ou melhor, era vista num balé lento e sinuoso sob a lâmina d'água. Então, sabe-se lá de que jeito, o “homem da cobra” pegava uma espécie de abajour com lâmpada, esticava um fio semelhante aqueles que se agarram às baterias de carro, tocava o peixe e a lâmpada se acendia. O abajour funcionava como estratégia para que a claridade do sol não ofuscasse a lâmpada acendendo.

A multidão ia ao delírio. Inacreditável! Em fração de segundos daquela exibição, parecia que mais de cem rádios se ligaram. Todos viraram o “homem da cobra”. Todos falavam ao mesmo tempo. Todos tinham um parecer... uns alegavam ser um truque, havia até quem dissesse ser “coisa do diabo”, cada um que dizia uma coisa... a galhofança lembrava uma feira movimentada. A maioria acreditava no fenômeno da lâmpada acendida no peixe, e parecia gostar muito. Eu era dos tais.

O “homem da cobra” aproveitava esse encantamento e debulhava um rosário de fatos que alegava ter testemunhado. Dizia que aquela espécie era capaz de dar um choque igual ao das tomadas das residências. De repente, como que um dispositivo tivesse sido ligado dentro dele como fazem aos aparelhos eletrônicos, ele era todo emoção. Passava a falar de maneira mansa, demonstrando tristeza.

 Contava que viu uma mulher que lavava roupa na beira de um rio com uma criança de seis anos, cujo peixe elétrico se agarrou numa roupa e sem querer ela o puxou para si, sendo eletrocutada instantaneamente junto ao filho... que chegou a ver pescadores morrendo e se debatendo nas águas escuras do Amazonas, após ter pisado ou tocado no peixe elétrico... que presenciou um jacaré morrer ao abocanhar aquela espécie... Para cada morte era um bordado diferente e triste, despertando comoção. Algumas velhinhas choravam aos cântaros, emocionadas com as mortes que talvez nunca aconteceram, mas cumpriam o papel importantíssimo de dar credibilidade ao “homem da cobra”. Eu olhava de longe. Temia que aquele demônio saltasse dali e me atingisse.

Enfim, chegava a hora do almoço e havia o intervalo para o seu repasto. Na cidade não existe a sesta, portanto a movimentação de transeuntes é ininterrupta. O “homem da cobra” retomava ao ofício e voltava a arremessar palavras ao vento. Logo, inchava a multidão vespertina. Muitos eram da turma da manhã, os quais retornavam instigados pela curiosidade inquietante. Ver duas vezes era privilégio. 

O homem vendia, brincava, contava histórias, vendia, instigava a curiosidade sobre seus bichos, fazia caras e bocas, vendia, mostrava a cobra, exibia o peixe-elétrico, vendia, enfim repetia com pequenas diferenças a mesma novela matinal.  Ele se demorava até o sol avisar da sua partida. Então se despedia... Então o “homem da cobra” fechava o veículo e desaparecia na rodovia... 

Até hoje não entendo por que o “homem da cobra” não era chamado de “homem do peixe-elétrico”. E hoje, pensando sobre as artimanhas e perspicácias daquele homem que na minha infância foi misterioso, reconheço que ele apenas usava os instrumentos possíveis para vender o seu peixe... era um João Grilo da vida... esperto... só isso... esperto à sua maneira, esperto segundo o que estava guardado dentro dele...

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O "Tanque" de Limoeiro, botija preciosa


       
O TANQUE DE ‘LIMOEIRO’, BOTIJA PRECIOSA

       Na cidade de Lagoa d’Anta, 100 km de Natal, área de caatinga, região agreste potiguar, há um reservatório natural de águas da chuva, chamado pelos nativos de “tanque”. Fica no povoado de “Limoeiro”, 3 km do centro.
       O “tanque” me impressionou. As águas fluviais descansam sobre um lajeiro da idade do Planeta Terra. Imenso. É uma gigante bacia de pedra emoldurada por cactos diversificados, como cardeiro (ou mandacaru), xique-xique, gogóia, umbu, facheiro. Vê-se muita algaroba, algumas quixabeiras, enfim as espécies típicas dali. A parte seca do lajeiro se espraia entre a mata, testemunha secular da história daquele município.
É um espetáculo.

No passado, segundo me contou um casal que mora próximo ao lajeiro, era a única fonte de água da região, portanto era sagrado. Ninguém se banhava no tanque. Tudo era cercado por faxina, impedindo o acesso do gado e animais domésticos, os quais bebiam em local reservado para não sujar a água.


Os moradores vinham de todas as localidades vizinhas e levavam água no lombo de jumentos. Assim enchiam as cisternas que tinham em suas casas. O “tanque” era referência para todos. O fato de as águas estarem sobre uma obra impermeabilizada pela própria natureza, garantia água por uma longa jornada.


O lugar é paradisíaco em sua condição semi-árida. Obviamente que o conheci numa época que choveu, portanto havia água considerável. Mas o contexto era belo. A mata rasteira, a terra de arisco, os sem-fim de pedras de todos os formatos e tamanhos – espalhadas pelo mato - davam à paisagem uma visão espetacular. Contam que no inverno, época de chuvas demoradas, ele transborda.


Olhando o “tanque”, pensei como deve ter sido difícil a vida dos nativos de antigamente. Naquele tempo não havia a Adutora Monsenhor Expedito, a qual abastece muitas cidades do agreste ao sertão. Hoje a água sai da lagoa do Bonfim, em Nísia Floresta, município da região metropolitana de Natal, percorre mais de cem kms e escorre nas torneiras de Lagoa d’Anta. Fato impensável até o início da década de 1990, quando os nativos armazenavam águas de chuva em cisternas, latas, baldes, tanques, enfim, onde podiam.


Água era coisa escassa e preciosa. Criança crescia aprendendo a economizá-la. Reservava-se água para animais, para banho, para louça e plantas. As plantas eram as que mais sofriam, portanto se viam tanta secura a partir dos quintais. Verde, somente os pequenos jardins das casas e o jirau de coentro e cebolinha. Verde apenas as plantinhas ribeirinhas dos regos de água. Verde também a esperança eterna de um bom inverno.


O futuro foi bondoso com Lagoa d’Anta, pois a história de águas carregadas nos lombos de jumentos é passado. Soa pitoresca e folclórica. As crianças, com o mundo nas mãos, talvez darão risada de ouvir um idoso abrindo seu livro da vida. Não entenderão como era tão difícil a água, se hoje ela escorre abundante nas pias e chuveiros. Mas quem conhece a história do “tanque”, e que ele era mais precioso que botijas, com certeza terá um acervo infinito de memórias sofridas, engraçadas, tristes e de muito suor e trabalho.


O “tanque”, apesar de estar quase esquecido, foi um pai bondoso, que reservou vida para dar vida a tudo o que o emoldurava.
Como é belo o “tanque”. Belo nas mais variadas acepções.


Creio que ali deveria estar afixada uma pedra de mármore com uma placa de bronze com um resumo de sua história. Ou simplesmente escrito “aqui jaz uma botija mais preciosa que ouro. Aqui está a vida”.
Todos deviam conhecê-lo.