ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Rocas Quintas, a verdadeira história.

Para quem gosta de ler histórias de figuras populares, o Rio Grande do Norte é um rio perene, desaguador de impressionantes personalidades que ainda 'agoam' o imaginário popular. Vai da embaixatriz que tinha carta-branca para entrar no gabinete de qualquer governador - e ser bem recebida - a um vendedor que entregava urubu tratado como sendo galeto. A venda era exclusiva aos norte-americanos dos tempos da guerra... Mas dentre os mais excêntricos personagens, temos "Rocas Quintas", cuja história segue abaixo. Resolvi transcrevê-la porque um autor norte-rio-grandense publicou um livro apresentando outra pessoa como sendo "Rocas Quintas", portanto a bem da verdade segue a verdadeira história de "Rocas Quintas", contada nada menos por um especialista no estudo dos nossos personagens populares...



ROCAS QUINTAS

(Por Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Escritor e Pesquisador).        

O memorialista é aquele que com certa idade conta o vivenciou de fatos e do seu conhecimento com pessoas e lugares. Descreve o seu passado e o repassa acompanhado de sérios testemunhos e fontes fidedignas. Sabe-se que quem pesquisa história necessariamente é devorador de livros, cliente voraz de livrarias e ‘rato’ de sebos. Já os ficcionistas ficam isentos de veracidade histórica em suas criações, como nos seus contos e romances. Apenas alguns desses, retratam os seus personagens, que aos olhos dos bons observadores, logo enxergam pessoas existentes em seus tempos. Mesmos que mudem os seus nomes ou situações. Assim o fez nosso criativo Nilo Emerenciano, em muitos de seus contos.

           Dentro da paisagem urbana de Natal dos anos 70 a 90, do século passado, existiu de fato uma mulher prostituta e muito famosa conhecida por seu apelido – Rocas Quintas. Tímida, não aceitava ser entrevistada, mas aos poucos me concedeu curtos depoimentos em diversos momentos na então calçada do finado Café São Luiz, centro da Cidade Alta, no início dos anos 90, (1991): “Meu nome é Maria Edite. Estudei pouco na infância. Sempre fui uma menina traquina. Sempre gostei de fazer sexo desde mocinha. Eu quando era mais nova fazia ponto lá na Rua Quinze de Novembro na Ribeira. Numa noite atendia dezenas de homens nos quartos daqueles cabarés. Era uma cama velha, uma bacia de ágata ao lado, jarra d’água e sabonete para o asseio do casal. Era tudo na pressa e saia um e já se entrava com outro… homem de todo tipo, de cachaceiro a valentão, de jovem a velho… Hoje eu estou gorda e velha. Peço ajuda nas ruas, pois ando muito doente, meu senhor”. E mostrou-me na ocasião numa manhã de sol forte, meio dia, para comprovar seu pedido, uma parte de uma caixa de antibiótico onde se via o nome do tal remédio…

            Alguns até diziam ser o seu marketing de pedinte ambulante. Na ocasião, a famosa Rocas Quintas, já aparentava uns 50 anos. Cabelos pretos com algumas mechas em branco. Desdentada, mas risonha às vezes. Obesa, como diziam ‘com barriga quebrada’. Branca e semi analfabeta, pernas grossas e pescoço bem curto. Olhos castanhos claros, diferentemente daquela romanceada Capitu machadiana. Estava calçando sandálias havaianas já gastas de muitas andanças e peregrinações, vestindo saia vermelha já desbotada e uma blusa não tão branca, como deveria ter sido no passado. Saudade do milagroso ‘Omo total’ das propagandas televisivas.

           Seu apelido apareceu primeiramente na história escrita, através do premiado contista e memorialista, Nilo Emerenciano, em seu livro de Contos – ‘Aconteceu na Quinta Delegacia’, (1982, FJA). Embora ele não diga o seu livro foi inspirado em alguns personagens populares que o autor conheceu de perto nas ruas de Natal. O grande amigo Nilo, como dezenas de outros natalenses, conheceu a verdadeira Rocas Quintas, que era também natalense. Segundo a mesma: tinha dezenas de irmãos e seu pai vendia peixes e também matava porcos para sustentar sua família. Ela, solteirona, morava com os pais na região entre os bairros de Petrópolis e Praia do Meio. Família pobre, mas trabalhadora como muitas outras que habitavam os arredores da referida praia. No citado livro de Nilo, seu apelido dá título a um conto e mostra-nos uma quadra cantada popularmente pelos mais jovens dos anos 70/90, os quais também a apelidava de – ‘Corre Campo’ e ‘Errepê’, referências à cobra que não para de correr e ao antigo fusquinha da polícia, que batia o mundo todo em Natal:

“Rocas Quintas, Rocas Quintas,

Todo dia pega trinta,

Trinta homens todo dia,

“É a conta de Maria…”.

             Em 1999, participando do concurso literário do então Quarto centenário da Cidade do Natal, promovido pela secretária especial para as festividades, apresentei meu projeto, que tratava de muitos tipos populares que conheci nas ruas das Rocas, das Quintas, passando meu Alecrim, onde nasci e vivi grande parte de minha vida. O referido projeto foi aprovado e eu ainda exigi que o livro fosse numerado de 01 a 400, em homenagem a minha cidade. E lá, pela segunda vez, a prostituta andante apelida de Rocas Quintas está figurando numa crônica, nas páginas 146/148. Sem sua fotografia, tão programada com o amigo Canindé Soares, pois quando chegara em sua moto, ela já havia debandado da Cidade Alta para as Quintas, atrás de seus possíveis pretendentes sexuais… Quando lancei o meu citado livro a procurei por semanas e não mais a encontrei pelas ruas. Teria partido sem destino em busca de novos amores em outras paragens? Ou como diz o povo: virou finada na terra dos pés juntos?

domingo, 4 de outubro de 2020

O Medalhão de Nísia Floresta - 1911

Nísia Floresta aos 60 anos de idade

 No dia 2 de abril de 1911 o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, sob a presidência do Dr. Desembargador Vicente de Lemos, foi convidado, mediante um ofício enviado pelo Grêmio Literário “Augusto Severo”, para prestigiar a solenidade de inauguração do medalhão de Nísia Floresta no jardim da praça “Augusto Severo” no dia 19 de março de 1911. 

 
 
Henrique Castriciano, apaixonado pela história de Nísia Floresta, mandou fazer essa obra em Paris, pelas mãos dos artistas Corbiniano Vilaça e Edmond Badoche, e sensibilizou o governador Alberto Maranhão para edificar um monumento nos jardins da praça Augusto Severo, onde a bela peça foi afixada. À ocasião o presidente do IHGRN nomeou os senhores Pedro Soares, Luiz Lyra e Nestor Lima para representá-lo no evento. Na reunião do dia 16 de abril de 1911, inclusive o sr. Luiz Lyra declarou que a comissão nomeada para a referida inauguração cumpriu o dever recebido. 
 

Esse evento foi muito divulgado. Muitos foram os convidados. Nesse tempo o município de "Vila de Papari" tinha o Coronel José Joaquim Carvalho de Araújo como Presidente da Intendência. Ele era muito ligado à família Maranhão, e sempre esteve a serviço dessa Oligarquia. Não posso afirmar, mas é muito provável que ele tenha prestigiado o evento, já que a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta nasceu em Papari, levando em conta - também - o fato de ele ter prestigiado a construção e inauguração do antigo monumento em homenagem a Nísia Floresta, erigido em 1909, quando Alberto Maranhão - amigo pessoal dele - esteve em Papary (antigo nome do município que se chamaria Nísia Floresta a partir de 1948). 
 
Esse monumento não demorou muito, pois vândalos roubaram o medalhão, e como não o encontraram mais, mandaram derrubar a base de alvenaria que o sustentava. Esse fato lastimável ocorreu no dia 25 de outubro de 1949, ou seja, 38 anos após a sua inauguração.
Atualmente esse hábito de vandalizar monumentos para retirar o bronze é prática de alguns drogados, que o fazem para vender e sustentar o vício. Mas a realidade de 1911 era muito diferente. 
 

Esse acontecimento - na minha opinião - pode ter sido uma forma de externar preconceito contra Nísia Floresta. Creio que foi coisa encomendada por desafetos instigados por velhos preconceitos. Coincidentemente, nesse tempo, uma inimiga gratuita, que Nísia nunca conheceu pessoalmente - pois nasceu 29 anos depois dela -, se encarregava de frequentar todos os ambientes natalenses que promovessem homenagens a Nísia Floresta, e entregava uma imensa carta denegrindo-a. 
 
Ela passou grande parte de sua vida nessa curiosa "missão". Particularmente não entendo o objetivo dessa personagem que atendia pelo nome de Isabel Gondim. Defendo a tese de que o vandalismo se deu por preconceito porque trinta anos depois o medalhão foi encontrado intacto, alguém reconheceu a peça e a enviou ao Instituto Histórico e Geográfico do RN, onde se encontra. Ou seja, nunca houve interesse em "desmanchar" a peça para aproveitar o bronze, como hoje fazem aos fios de eletricidade que contém cobre. O único interesse foi destruir o monumento, ou seja, 'desomenagear' Nísia Floresta. Como se isso fosse possível.
 
As imagens aqui postadas documentam a construção do referido monumento, em 1911.
 
Mas, retomando o assunto do medalhão com a efígie de Nísia Floresta e também da transcrição de sua assinatura, tenho uma dúvida intrigante. O referido medalhão se encontra atualmente no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. A peça já estava ali quando aconteceu a chegada dos despojos de Nísia Floresta, em 1954. Digo intrigante porque essa mesma peça pode ser vista numa fotografia feita no Centro Norte-Rio-Grandense, em 1954, exatamente para as homenagens desse traslado. A efígie foi feita em 1851, na França. Seriam duas peças iguais? 
 
Medalhão com efígie e assinatura de Nísia Floresta, feito em Paris, em 1851. Hoje pode ser visto no Instituto Histórico e Geográfico de Nísia Floresta, de´pois do vandalismo feito ao monumento onde a peça encontrava-se instalada desde 1911, depois reencontrada num ferro velho e entregue ao IHGRN.

 
Em 1992, questionei o Centro Norte-Rio-Grandense sobre o que eles tinha de acervo sobre Nísia. A resposta foi "nada". Perguntei da efígie e e responderam que havia desaparecido há muitas décadas. Teria sido furtada por colecionador de antiguidades raras? Teria sido levada por algum admirador de Nísia Floresta? Onde foi parar o suposto segundo medalhão?

Como pode ser constatado na fotografia feita no Centro-Norte-Riograndense, em 1954, o medalhão, hoje desaparecido, se encontra sobre a mesinha de centro. Veja, abaixo, o zoom na imagem.


Os folclóricos mateiros - A Academia Brasileira de Mateiros...


OS FOLCLÓRICOS MATEIROS...
ACADEMIA BRASILEIRA DE MATEIROS
 
A maioria das pessoas entra numa floresta e enxerga mato, e por mato se entende grandes árvores, arbustos, cipós, garrancheiras e trepadeiras. A nossa cultura não nos permite ir além. Um "mateiro" não vê mato, vê uma cerejeira, um mogno, um pau-ferro, um cedro, uma copaibeira, uma quixabeira, enfim. Ele atribui valor a cada espécie que se descortina diante dele. Conhece a qualidade da madeira, a época da florada, frutificação, e muitos até mesmo estimam a idade das árvores. Os grandes mateiros, quais "ervateiros", identificam até mesmo as suas propriedades medicinais. Quando adoentados, entram ali e colhem o seu "remédio", ou melhor, as suas "mezinhas". O que para nós é mato, para eles é erva medicinal. Sua cultura permite-lhes ver a floresta de forma totalmente diferente da maioria de nós. Uma vez entrei num trecho de razoável mata, acompanhado por um mateiro, em Nísia Floresta. Foi uma das mais impressionantes experiências. Ele mostrava uma aparente garrancheira e dizia "isso aí derruba qualquer bicheira no gado"... "essa resina desse tronco mata caganeira"... "esse cupinzeiro acolá é o melhor de todos para cansaço em criança"... "é da bosta desse passarinho que sai as sementes certas pra compressa, quando o peso desce pro saco"... "o chá dessa formiga mata qualquer doença no zói"... "isso aqui é cipó de sapo, guenta feixe do tamanho que for, faz corda boa"... "olha ali os cachorro d'água, os danado adora raiz de cajueiro"... "o cabra com morróida só passa uma vez isso aqui no "c.", pois é tiro e queda"... "aquilo acolá é venenoso"... O meu encantamento aumentava conforme adentrava a mata. Não havia vegetal que ele não apontasse uma propriedade curativa. Estávamos diante do paraíso da saúde. Nunca me esqueci dessa experiência. Desse dia em diante - eu que nunca troquei pessoas "insignificantes" por nenhum letrado - redobrei o meu respeito pelos seres humanos de verdade - como João - até porque para mim ele - tão desimportante em Nísia Floresta - era uma das pessoas mais importantes que conheci. É certo que esse alfarrábio sabidoso vem lá dos detrases, bebidos nas fontes dos povos indígenas. Mas é privilégio de poucos. Mateiro é sacerdote por excelência. Creio que deveria existir uma Academia Brasileira de Mateiros. Pode ter certeza que lá seriam servidos os melhores chás, as melhores "cabumbas", os mais deliciosos "liguentos", rapaduras doces como o próprio ambiente, e o universo de contações de histórias não teria fim. Lá não haveria velhos bufões, esparramados em suas empáfias, sentindo-se os reis das cocadas pretas atrás de homenagens, pois todos já seriam homenageados pelo simples existir naquela academia, pois ela seria na mata, na essência da vida... João, um grande abraço! Essa é pra você!

 

sábado, 3 de outubro de 2020

O padre que matou o bispo

Padre Osana de Siqueira e Silva (à esquerda), ao lado de Dom Expedito Lopes - década de 50
 

O padre assassino - Os tiros que não saíram pela culatra

No dia primeiro de julho de 1957, por volta das 18 horas e 30 minutos, três sons de disparos de revólver ecoaram no Palácio Episcopal, em Garanhuns, no agreste pernambucano. João, empregado da casa, ao ouvir o barulho, correu à porta e deparou-se com o bispo, Dom Francisco Expedito Lopes, caído ao chão, ensanguentado, moribundo. Imediatamente pediu-lhe que chamassem o Monsenhor José de Anchieta Callou. Soube-se naquele momento, pelo próprio Dom Expedito, o nome daquele que o alvejou: Padre Hosana de Siqueira e Silva, seu subordinado. O motivo seria a denúncia que chegara ao bispo de que Padre Hosana estaria tendo um caso amoroso com Maria José Martins, sua prima e empregada doméstica. Dom Expedito Lopes faleceu depois de oito horas de intensa agonia. Padre Hosana, a princípio, refugiou-se no Mosteiro de São Bento. Como menciona o autor, “o crime, com suas interpretações, deixou marcas”. É a partir dessas (re)interpretações, das marcas do dizer, lembrar e narrar o crime, que ele constrói sua obra.Igor Alves Moreira é licenciado em História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú e mestre em História Social pela Universidade Federal do Ceará. Neste livro, fruto de sua dissertação de mestrado defendida em 20084, ele procura explorar e faz isso com maestria, como o crime que sentenciou Dom Expedito à morte e Padre Hosana ao julgamento dos 1Recebido em: 21de julho de 2016. Aceito para publicação em: 30 de setembro de 2016.2Mestrando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPGH-UFRN). Bolsista CAPES. Editor da Revista Espacialidades e membro do grupo de estudos Cartografias Contemporâneas: história, espaços, produção de subjetividades e práticas institucionais (UFRN). Email: cidmoraissilveira@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5434753825771874.3MOREIRA, Igor Alves. Do bispo morto ao padre matador:Dom Expedito e Padre Hosana nas construções da memória (1957-2004). Sobral: Edições Ecoa. Sobral. 2015. p. 14.4A dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em História Social da UFC e possui o mesmo título do livro aqui analisado. O trabalho foi orientado pelo Prof. Dr. Francisco Régis Lopes Ramos. Em PerspectivaRevista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789 Resenha Revista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página215homens, foi lembrado e (re)contado através das construções do lembrar. Apesar de admitir que a história é uma reconstrução da memória, Igor viola as memórias e gesta uma história intrigante5, possibilitando assim a construção de seu objeto, um acontecimento singular6.O interesse do autor é perceber como os fatos relativos ao crime foram contatos e recontados. Para isso, ele sustenta que há múltiplas variantes sobre o crime do Padre Hosana, agenciadas e permeadas de intencionalidades. No decorrer do livro, Igor mostra que existe uma tentativa de produção de um projeto intelectual, centrado na feitura da biografia de Dom Expedito, por parte da Diocese de Garanhuns, para empreender um plano de canonização do bispo. Da mesma forma ocorreu com a figura de Padre Hosana, que também teve sua biografia contada, em forma de livros ou narrativas orais, mas que ambas possuíam uma intenção clara: idealizar e inocentar os respectivos biografados das acusações que lhes foram direcionadas. Para isso, foi caro ao autor expor os conflitos das várias formas de como o crime foi contado, notadamente nos livros e nos depoimentos orais que coletou durante a pesquisa. Assim, ele admite que seu objeto de estudo encontra-se intimamente ligado a uma problemática da história social da memória, onde“o presente é sempre tocado e afetado pelo passado. E vice-versa. Uma relação pautada por contradições, tensões e reconstruções. Uma relação que abarca a lembrança e o esquecimento”. Assim, seu objeto de pesquisa é um “ausente que age”.O livro encontra-se dividido em três capítulos. O primeiro deles, Um bispo assassinado!, tem por objetivo analisar os discursos que mostraram Dom Expedito Lopes como “santo” e “mártir” da Igreja e, do outro lado, Padre Hosana como vilão e assassino. O autor problematiza aqui como os discursos, textos e falas produziram uma suposta santidade do bispo, onde “são textos dados ao público para convencer, para homogeneizar opiniões e 5Sobre a relação entre o historiador e o trato com as memórias, ver ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. Violar memórias e gestar a História: Abordagem a uma problemática fecunda que torna a tarefa do historiador um “parto difícil”. Clio-Série História do Nordeste, n. 15. 1994.6 Paul Veyne entende o acontecimento como próprio do saber histórico, onde a partir dele a história poderia ser constituída. Para Veyne, o acontecimento é singular, uma conjunção de fatos que não se repetirão. Para mais informações ver VEYNE, Paul. Como se escreve a história:Foucault revoluciona a história. 4ª Ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008. 7MOREIRA, Igor Alves. Op. cit., p.15.8DOSSE, François. História e Ciências Sociais.Tradução de Fernanda Abreu. Bauru:EDUSC. 2004. p. 184. Em Perspectiva Revista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789ResenhaRevista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página216diluí-las sobre o réu e a vítima”9. Ainda no primeiro capítulo, ele esclarece como o conceito deperdão foi usado nos discursos, notadamente o perdão oferecido ao Padre Hosana pelo bispo nas horas de dor, com a finalidade de compreender e pontuar o possível martírio de Dom Expedito. Aqui ele mostra como o discurso do martírio foi apresentado à população de Garanhuns pelos “homens e mulheres das letras”, ou seja, por aqueles que institucionalizaram essas práticas discursivas.O assassinato de Dom Expedito Lopes transformou-se em cartas, matérias de jornais e rádios, em livros, em literatura de cordel,em temas de canções, em conversas dos moradores mais antigos. Para conforto e desconforto de suas personagens, e da Diocese de Garanhuns, nesses registros do passado no presente, verifica-se a existência de discursos e silêncio em disputa. Nesses registros, vários conceitos e situações são abordados. No caso do assassinato de Dom Expedito, verifica-se ainda que ele foi um “exemplo” a ser seguido pela posteridade. O seu “exemplo”, no entanto, também aponta tramas e incoerências. Para outro punhado de pessoas, Padre Hosana foi um “bom exemplo”. Ambos, contudo, foram protagonistas de um crime. No segundo capítulo, A Diocese de Garanhuns e o tribunal para a causa da beatificação e canonização, o propósito é compreender e verificar os insumos e procedimentosinstitucionais da Igreja Católica no tocante ao processo de beatificação e canonização de uma pessoa. Há aqui uma preocupação do autor em analisar como a Diocese de Garanhuns produziu e divulgou ao público uma biografia linear e harmoniosa do bispo, bem como a atuação dos jornais em socializar uma narrativa em prol da beatificação e canonização. É discutido também os meios utilizados para sagrar e desenvolver uma memória específica e homogênea de Dom Expedito.Como fruto de uma seleção, a biografia de DomExpedito é composta pelo dito e não-dito, o autorizado e não-autorizado, com intenções específicas e claras: dar um santo aos demais diocesanos. Uma vontade e/ou capricho singular do grupo que é estendido aos demais de forma imperativa. Dar a ele a “verdade”: que o Brasil tem um santo, ainda não reconhecido oficialmente 9MOREIRA, Igor Alves. Op. cit.,p.21.10Ibidem. p.75. Em Perspectiva Revista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789ResenhaRevista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página217pelo Vaticano. É uma biografia apresentada na compreensão de que toda sua vida foi exemplar. É linear e desprovida de provocações e conflitos.11No terceiro e último capítulo, Um padre assassino?, é debatido pelo autor as várias interpretações e narrativas que idealizaram Padre Hosana de Siqueira e Silva. Existe aqui, e é trabalhado através de um dos tópicos do capítulo, literalmente, uma “guerra de livros”, uma disputa de escrita, pela letra e a palavra. O autor traz para a discussão as várias obras específicas, algumas com notadamente uma pretensão biográfica, que tratam sobre o crime, onde se percebe claramente quem está do lado do bispo e do lado do padre. Igor reitera que no trato com asnarrativas sobre o crime, orais e escritas, foi possível perceber subversões e contradições, onde a movimentação do dito e não dito regem os sentidos do passado e, consequentemente, o texto do autor.Assim, a biografia é, tanto para os que defendem o bispo, quanto para os que preservam o padre, um instrumento de acusação e defesa. O passado de ambos explica o presente, justifica o crime. São os usos do passado. O passado de um explica sua santidade, confirma o sentido de sua morte, o passado do outro explica o crime. É uma biografia linear, com causa e consequência. Se não fosse o crime, nenhum precisaria de biografia, aqui posta como prova. O passado vale como argumento para provar a inocência de cada um.12O que conseguimos perceber é que o “mártir” Dom Expedito não permanece sem o seu oposto, o “vilão”, Padre Hosana. Um precisa do outro para existir. Nas palavras do autor, “nesses fragmentos do passado, os dois estão sempre juntos. Um alimenta o outro. Em meio aos dizeres e às contestações sobre ambos, eles se complementam, se necessitam”13.A obra em questão foi produzida através de uma grande variedade de fontes e um trabalho primoroso de pesquisa. O autor utilizou-se de um extenso referencial teórico e metodológico para dar conta da natureza de suas fontes: jornais, revistas, livros, biografias, atas de abertura e instalação do tribunal para a beatificação e canonização de Dom Expedito 11Ibidem. p.119.12Ibidem. p.164.13Ibidem. p.172. Em PerspectivaRevista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789ResenhaRevista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página218Lopes; livros de cânticos, orações, textos e discursos proferidos nas missas, fotografias, registros de programas de rádio e TV, além dos registros das narrativas orais, totalizando um total de 42 entrevistas.A obra de Igor Alves Moreira consiste em um trabalho de um historiador notadamente preocupado com os usos e abusos do passado pelos sujeitos no presente, contribuindo para um olhar problematizador na relação entre o aqui (presente) e o ali (passado), dentro de uma perspectiva da história social da memória.Os que escrevem sobre esse crime se veem como guardiões dessa história, como guarda-costas do passado. Cada um puxa a “verdade” para si, constituída com base em iscas guardadas nas empoeiradas prateleiras de arquivos pessoais e institucionais de Pernambuco e, ainda, nas narrativas orais dos moradores de Garanhuns e Correntes. Este trabalho de ambula na oposição de uma ideia homogênea, uniforme e harmoniosa da relação entre presente e passado, e notadamente da concepção de história enquanto uma procissão de sujeitos comportados e não transgressores frente aos acontecimentos, de uma história enquanto exemplo a ser seguido, como ciência mestra da vida. Pelo contrário, no confronto das fontes, o autor verificou e analisou incoerências e incompletudes, leituras e posicionamentos diversos sobre as formas de dizer o crime, feitios narrativos extremamente divergentes. Porém, ele é enfático em dizer que o foco de seu trabalho não é o crime, e sim a forma como ele foi narrado nas mais diversas fontes em que analisou durante a produção da obra. Em suas palavras, “longe estou de querer saber sobre o desenrolar do crime. Preocupado estou em analisar como ele foi contado e recontado na letra e na fala”. E conseguiu.

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IRONIA DO DESTINO - 40 ANOS DEPOIS O PADRE ASSASSINO FOI ASSASSINADO

Ele foi encontrado morto a pauladas em seu sítio, em Correntes, Pernambuco, no dia 7 de novembro de 1997.  Até hoje não se sabe a causa. Ele era metido em várias confusões relacionadas à propriedades. Quando João paulo II esteve no Brasil, ele tentou marcar um momento com ele para ver a possibilidade de pedir perdão oficialmente, mas o Vaticano fechou as portas para ele. Seu crime teve repercussão mundial. Foi a primeira vez na história da Igreja Católica que um padre matou um bispo.

Padre Osana chegando à sede de seu sítio

FONTES:

Em PerspectivaRevista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789 ResenhaRevista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página 214

Cid Morais Silveira2MOREIRA, Igor Alves. Do bispo morto ao padre matador: Dom Expedito e Padre Hosana nas construções da memória (1957-2004). Sobral: Edições Ecoa,2015.***

Bibliografia14Ibidem. p.173.15Ibidem. p.174. Em PerspectivaRevista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789ResenhaRevista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página219ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. Violar memórias e gestar a História: Abordagem a uma problemática fecunda que torna a tarefa do historiador um “parto difícil”. Clio-Série História do Nordeste, n. 15. 1994.DOSSE, François. História e Ciências Sociais.Tradução de Fernanda Abreu. Bauru: EDUSC,2004.MOREIRA, Igor Alves. Do bispo morto ao padre matador:Dom Expedito e Padre Hosana nas construções da memória (1957-2004).Sobral: Edições Ecoa, 2015.VEYNE, Paul. Como se escreve a história:Foucault revoluciona a história. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília

terça-feira, 22 de setembro de 2020

ENGENHOS DE PAPARI E O MERCADO DE ESCRAVOS DO OITIZEIRO

No centro, acima, logo após o Pelotão de Polícia, é possível ver o Oitizeiro referido no texto (Crédito da imagem: Restaurante Marina Camarões)


ENGENHOS DE PAPARI E O MERCADO DE ESCRAVOS DO OITIZEIRO

Em 1994, uma prima de minha mãe, por nome Dirce Maranhão, filha de Luzia Peixoto Maranhão, contou-me que sua bisavó falava que o local onde se comercializavam escravos, na Vila Imperial de Papari, era exatamente sob uma centenária árvore denominada oitizeiro, fincada na estrada que liga a referida vila a vila de Mipibu, hoje São José de Mipibu. Até hoje é  possível sombrear-se deliciosamente nela, inclusive construíram ao seu lado o Pelotão da Polícia Militar de Nísia Floresta. É árvore histórica e precisa ser preservada como monumento natural da história de Nísia Floresta. Meu primo Tamires Ítalo Peixoto, do Engenho Morgado, que era historiador, também me contou sobre esse local de comércio de escravos nas imediações dessa árvore.

Exatamente nesse ponto, fervilhava o comercio de escravos que eram vendidos para os engenhos das redondeza. Vamos torcer para que depois dessa publicação as autoridades não cuidem de derrubar o Oitizeiro, ao invés de colocar ali um monumento com as inscrições pertinentes.

Sabemos que a faixa litorânea que abrange de Canguaretama, Goianinha, Arês, Papari, São José de Mipibu, Parnamirim até Ceará-Mirim era permeada de engenhos de cana de açúcar. Alguns lugares com menos, outros com muitos. Era o caso de Mipibu e Papari. Em Mipibu contam que eram 47 e em Papari 27. Esses números precisam ser confrontados com algumas informações e contextos. Nem todo engenho era igual. Na realidade nem todos eram engenhos de fato, mas carregavam a denominação devido a semelhança de papéis. O engenho verdadeiro fabricava açúcar, rapadura, melaço e cachaça. Tinha âmbito comercial. As mercadorias abasteciam o comércio local e até mesmo de outros estados. Tudo funcionava a vapor com maquinários importados que vinham da Europa. Diferiam deles os “Banguês”, ou seja, engenhos entre aspas. Eram bem mais simples e produziam para o consumo próprio e vendas acanhadas para a vizinhança. Eram movidos à força de bois ou tração humana. Também o denominavam de “engenho trapiche”. Aqui no Rio Grande do Norte não existiram engenhos movidos à “roda d’água”, mas em estados com fartura hídrica, os banguês funcionavam o dia inteiro pela força da água. 

Engenho Morgado (é a casa mais antiga de São José de Mipibu - aqui hospedou-se o Dr. Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo-Branco, Juiz de Fora e Provedor, ocasião em que veio instalar a Vila de São José do Rio Grande foi instalada a 22 de fevereiro de 1762

O local onde se encontra a árvore de Oitizeiro é estratégico. A começar pela proximidade com a Estação Papary, inaugurada em 1881, ou seja, sete anos antes da abolição da escravidão. É fácil supor o quanto esse trecho era fervilhante de senhores de engenho, fazendeiros, sitiantes, comerciantes e outros homens de negócio, os quais tinham nesse local um ponto de referência para negócios. Na realidade existiam outras árvores, era local muito sombreado e funcionava também como ponto de venda de animais, justificando a sua grande movimentação. Quem descesse do trem e fosse homem de negócio, tinha ali o local certo para negociar e conversar com outros negociantes.

Engenho Mipibu (fica quase defronte ao Engenho Morgado - só restou a chaminé)

Fica a poucos minutos do engenho São Roque (de Roque Maranhão), pai de Mirtes Maranhão (pessoa que citei acima: filha de Luzia Peixoto Maranhão: a “Lula Maranhão”, filha de Ezequiel Peixoto). Num pequeno raio geográfico temos o engenho Descanso, (de Vicente Xavier de Paiva, atualmente em ruínas), o Engenho São Luiz (de José Inácio Ribeiro), conhecido como “Engenho do Dedo” devido a semelhança de sua chaminé com um dedo, Engenho Mipibu (José Henrique Dantas e Salles), Engenho Morgado (de Antonio Ezequiel Peixoto - pai de Luzia Maranhão: mãe de Mirtes Maranhão, mencionada acima, que ainda pertence aos antepassados de minha mãe - e segue até hoje na família), Engenho Canadá (família Araújo - próximo a fábrica Berckmans), e Engenho Sapé (de José Joaquim de Carvalho). 

Túmulo de Antonio Ezequiel Peixoto (Engenho Morgado)

Ainda nesse raio temos o Engenho Capió (da família Souza, onde nasceu o escritor e ex-governador Antonio de Souza) e Engenho Pavilhão (de Joaquim Januário de Carvalho - anteriormente pertenceu a Trajano Leocádio de Medeiros Murta, daquela história que já contei aqui, quando seu filhinho morreu e foi transportado de pé durante o cortejo). Quando você adentra Papari se descortina outros engenhos, como o Engenho Boa Esperança (de Accúrcio Marinho - no Porto), Engenho Tororomba (de Hermógenes Ribeiro da Silva). No local onde hoje é o centro de Papari havia o engenho do Coronel Alexandre de Oliveira de Oliveira, exatamente onde está a prefeitura atual, cuja propriedade ia até o casarão onde ele morava (não me recordo agora o nome de seus engenhos, mas posto depois). Essa casa - a mais antiga de Papari - ainda resiste. Nela mora o Senhor Arnaldo. Atualmente pertence à família Gondim. 


Nesse documento vê-se os nomes dos Engenhos Morgado, de Antonio Ezequiel Peixoto (explicado no texto: da família da minha mãe, e Entre a Cruz e o Braço Salgado, do meu avô Abel Gomes Peixoto) e "Sapê" e "Engenho Sapê". Observe que aparecem nomes de proprietários diferentes no "Engenho Sapê".

Em 1920, há exatos cem anos, Papari possuia 27 propriedades rurais com representatividade (eram muito produtivas). São as seguintes: Engenho São Cristovão (de Francisco Alcides Ribeiro), Sítio Pirangy (de José Dias Freire), Sítio Ilha (de Joaquim Augusto Freire), Sítio Viração (de Abdon Januário de Carvalho), Sítio Estrada da Ilha (de Pedro Paulo de Carvalho), Sítio Bom Jesus, de José R. de Oliveira, Sítio Estrada da Ilha (de Francisco A. M. de Carvalho), Engenho Sertãozinho (de Jovino de Oliveira Salles), Engenho Sertãozinho (de Manoel dos Passos Rosa), Engenho Pavilhão (de Joaquim Januário de Carvalho), Sítio Capió (de Anísia Souza), Engenho Descanso (de Vicente Xavier de Paiva), Engenho São Roque (de Roque Maranhão), Engenho Mipibu (de José Henrique Dantas e Salles), Engenho Belém (de Avelino Leocádio de Souza), Engenho Santa Luzia (de Francisco Duarte da Silva), Engenho Sapé (de José Joaquim de Carvalho), Sítio Sapé (de Manoel Feliciano de Souza), Sítio Sapé (de Alfredo Cunha), Sítio Golandy (de Joaquim Augusto Freire), Engenho São Luiz (de José Inácio Ribeiro), Engenho Tororomba (de José M. C. Costa), Engenho Tororomba (de Hermógenes Ribeiro da Silva), Sítio Tororomba (de Manoel S. Bezerra), Engenho Boa Esperança (de Accúrcio Marinho de Carvalho Araújo), Sítio Morrinho (de Targino da Silva Leite), Sítio Morrinho (de Joaquim de Vasconcelos). 

Casagrande do Engenho São Roque
 

Em caráter de curiosidade, vale informar que Accúrcio Marinho de Carvalho Araújo, dono do Engenho Boa Esperança, situado no porto, é irmão mais velho do Coronel José de Araújo Marinho (primeiro presidente da Intendência da Vila Imperial de Papari), função que equivalia a prefeito. Ele governou durante 47 anos, no período de 1873 a 1921, também senhor de engenho. Era filho de S. Martinho de Carvalho Araújo.

Sobre as propriedades rurais citadas acima, é necessário considerarmos contextos de época. Essas 27 propriedades são mencionadas oficialmente, em documentos, como pertencentes à geografia de Papari. Mas como? Escreverei sobre esse detalhe em outro momento, mas ressalvo logo que os limites geográficos entre São José de Mipibu e Nísia Floresta mudaram umas três ou quatro vezes antes da divisão de 1852, portanto ora um engenho é informado num documento como pertencente a Papari, ora como sendo de Mipibu. Depende do ano em que a informação foi impressa ou escrita é possível entender a partir do conhecimento dessas diferenciadas demarcações territoriais. 

Engenho Descanso (fiz essa fotografia, e as que seguirão no final, em 2003, mas hoje é apenas ruínas)

Percebe-se também que algumas vezes os próprios documentos oficiais trazem algumas informações erradas. Papari já fez divisa até com Natal, antes de surgir Parnamirim, que era um lugarejo de Natal, como se sabe. Então isso se explica quando vemos 27 propriedades citadas como pertencentes a Papari, e hoje sabemos que algumas delas estão dentro da área geográfica de São José de Mipibu, como é o caso dos engenhos Mipibu, Dedo e São Luiz. É válido saber de Papari pertenceu a Mipibu até o início de1852.

Dentre esses nomes citados, observa-se a existência de 12 estabelecimentos com a nomenclatura de "Engenho". Os demais são sítios, inclusive há engenhos e sítios com nomes repetidos, por exemplo Sítio Sapê, Sítio Sapê (novamente) e Engenho Sapê, e dois Engenhos com o nome de Sertãozinho. Há documentos que citam apenas o nome sem mencionar "Engenho" ou "Sítio". Um professor/Historiador de Nísia Floresta, por nome de Carlos Augusto Bezerra Dias, contou-me, em 1995, que o seu pai era mestre de engenho no Engenho Descanso, década de 1960.

Observe que está manuscrito "Vicente Elízio, 1936, Engenho São Francisco".

Quando escrevi a história de Vicente Elísio, em 2009, no curso de uma entrevista que demandou três meses de conversas com três de seus filhos, subsidiado por parcos documentos pessoais do objeto da pesquisa, constatei que a denominação "Engenho" carregava um status, ou seja, dizer que era dono de um engenho era muito melhor que dizer ser dono de um sítio. Era a ostentação do passado. Sobre isso os três filhos de Vicente Elísio me contaram que seu pai era proprietário de um pequeno sítio num trecho de Papari chamado Capió. O sítio se chamava "Taboão". Depois eles foram comprando terras ao lado e começaram a fabricar o famoso "Aguardente Potiguar". Assim surgiu o "Engenho São Francisco" na década de 1930. O engenho era movido à tração animal... “os empregados colocavam cangas em dois bois e engatavam na ‘manjarra’ (engenhoca feita de madeira, onde os empregados colocavam lentamente as canas para serem moídas). Eram quatro bois, sendo dois para a manhã e dois para a tarde”, informou-me Maria de Lourdes, filha de Vicente Elísio. Essa bebida era fornecida para toda a região, inclusive Mipibu, "Bagaceira" (hoje Monte Alegre), Goianinha e Arês. Esse era um engenho apenas de fabrico de cachaça. Seu nome não está mencionado nos vários documentos que li porque surgiu bem depois.


Nem todos os engenhos de Papari tinham uma demanda comercial ampla, como o Engenho São Roque, o qual fornecia açúcar e rapadura para vários municípios. Da mesma forma eram os engenhos do Coronel Alexandre de Oliveira (Cavaleiro da Rosa), cujos nomes de seus engenhos ainda não me chegaram. No bojo desses engenhos e sítios todos, suas produções se diferiam. Uns produziam apenas cachaça, outros rapadura e melado, outros açúcar. Os melhores produziam todas essas mercadorias. 

Sobre essas propriedades, tenho inúmeras interrogações a trazer. Talvez mais interrogações que esclarecimentos, portanto o leitor pode me ajudar a consertar a história com a sua colaboração. Não sei informar ao leitor a localização de alguns engenhos, pois os documentos não se detém a isso, nem os próprios nativos sabem a localização de muitos deles, pois nunca ninguém se debruçou no assunto para registrar tais detalhes. Repasso para você a investigação. Observe que não é mencionado a famosa propriedade de Joan Lustau Navarro (escrevi assim porque tal nome é mencionado com cinco maneiras diferentes). Refiro-me ao local onde ocorreu o Massacre de Barra de Tabatinga, cuja essa história eu trouxe pela primeira vez aos nativos nisiaflorestenses em 1993, quando passei a tratar o assunto, depois escrevi sobre o fato no meu blog em 2009.

Restos do maquinário (caldeira, moenda e pilares) do Engenho São Roque
 

Vejam como a história tem pontos engraçados e curiosos. Os nativos diziam que esse massacre era uma invenção minha. Se fosse minha invenção também seria de Olavo de Medeiros Filho, verdadeiro monumento da História do RN. Além de escrever sobre isso, ele me contou com mais subsídios, em 1997, quando passei 5 anos enfiado no Instituto Histórico e Geográfico e tive o privilégio de conviver diariamente com a simplicidade e sabedoria dele.

Esse sítio era muito importante. Não teria sido mencionado em razão de já não ter mais valor em 1920? Também falam de um engenho existente próximo de Boacica, mas nunca alguém me forneceu o nome ou detalhes.

O outro documento que pesquisei data do ano de 1912 ou 1913. Não posso precisar porque o documento não tem data. Estou elegendo essa data porque nele é citado o vigário Manoel Maria de Vasconcelos Gadelha a frente da Paróquia de Nossa Senhora do Ó. E como o referido padre atuou ali no período de 1912 a 1913, não pode ser nem antes ou depois desse período. O referido documento cita outros proprietários rurais de Papari, permitindo-nos conhecer quem representava a sociedade patriarcal daquele tempo. São as seguintes pessoas: Francisco Duarte da Silva, Joaquim Januário de Carvalho, José Ferreira Xavier, João da Silva Leite, José Ignácio Ribeiro, José Joaquim de Carvalho, José Dantas Salles, José Marinho de Carvalho Costa, Jovino de Oliveira Salles, Olyntho Ferreira de Mesquita, Roque Maranhão, S. Marinho de Carvalho Araújo, Vicente Xavier de Paiva, Antonio F. Accioly, Accurcio Marinho de Carvalho Araújo, Joaquim Januário de Carvalho, Dona Belmira, Joaquim Augusto Freire, Manoel José Gonçalves, Manoel José de Moura, João Batista de Albuquerque Gondim, Joaquim Augusto Freire, José Joaquim de Carvalho, José Augusto de Oliveira, Manoel José Gonçalves.

Fundos do Engenho Descanso 2003 (atualmente está em quase completa ruína)

 Embora esse documento seja anterior ao documento mencionado no início, optei por colocá-lo depois porque o primeiro menciona a propriedade e o seu dono, e o seguinte menciona apenas os proprietários rurais. Não menciona o sítio ou engenho. Outro detalhe bastante curioso é a menção da senhora Belmira, que é nada mais que a viúva do Coronel Alexandre de Oliveira - “Cavaleiro da Rosa” que se encontra sepultado nas paredes da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Como Belmira era bem mais nova que ele, seguiu cuidando das propriedades após a sua morte, em 1886.

Observe também que em Pirangi é assinalado o “Sítio Pirangy”, de propriedade de José Dias Freire. Precisamos entender se esse José Dias Freire é parente de Joan Alustau Navarro, pois sabemos que Manoel Laurentino de Alustau Navarro é descendente de Joan (só não sei precisar se é bisneto ou tataraneto), inclusive Manoel Laurentino é pai de Cândido Freire de Alustau Navarro (“Seu Candinho”, o “médico de Papari”, que percorria o município inteiro, de Pirangi a Jenipapeiro cuidando dos doentes). Seu nome dignamente batizou o Posto de Saúde do centro da cidade de Nísia Floresta (antiga Papari).

Ruínas do Engenho São Roque


Resumindo, percebe-se que a velha árvore de Oitizeiro, que esteve para Papari e Mipibu como o Valongo esteve para o Rio de Janeiro, fez sombra a pior página da história do Rio Grande do Norte. Ali eram vendidas as “peças”, cujos escravos eram comprados nos mesmos moldes de como se compram cavalos. Olhavam os dentes para ver se eram sadios e até as partes íntimas para não levar para a senzala a gonorreia ou sífilis, contaminando outras peças. Ali eram separados crianças dos pais, irmãos, enfim, o velho Oitizeiro testemunhou muito sofrimento.

Apesar de tudo, no Rio Grande do Norte o número de escravos não foi tão elevado. Nada se compara a São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais. Mas existiu. É fruto de um contexto - vergonhoso, mas é um contexto. Observando o Seridó e Sertão, por incrível que pareça, encontramos pessoas de pele muito alva e olhos azuis ou verdes. E quando percorremos Canguaretama, Goianinha, Arês, Papari, Mipibu até Ceará Mirim ainda encontramos pretos ainda retintos, comprovando a tese de que nessas áreas a escravidão foi muito mais forte. Isso não significa que outros lugarejos do Rio Grande do Norte não tiveram escravos. Pelo contrário há muitos registros que mencionam Luís Gomes, Mossoró, Macau, Currais Novos, enfim em  quase todo o estado.

Câmara Cascudo nos conta que o primeiro escravo negro chegou ao Rio Grande do Norte quinze dias após a fundação da cidade do Natal, em janeiro de 1600. No tocante à escravidão as informações de Cascudo se assemelham muito com as de Tavares de Lyra, mas uma coisa é certa: escravo sempre sofreu e foi humilhado. Seja aqui ou no Rio Grande do Sul. Essa história de bons senhores é como encontrar agulha em palheiro. Em 1850, auge dos engenhos, existiam 156 engenhos funcionando no Rio Grande do Norte, com predominância no trecho acima explicado. Porém, a partir de 1870, uma queda drástica do número de escravos aparece em todo o Rio Grande, embora os engenhos permaneceram a todo o vapor e força animal. Mas é certo que em solo potiguar a escravidão preta funcionou durante 288 anos.

Em Nísia Floresta há algumas famílias de cor preta que se casaram com outras famílias de pessoas de cor preta, preservando com muita autenticidade a cor original de sua etnia. Isso é muito visível no Porto. Já foi muito mais forte, pois o fenômeno do projeto “Minha Casa Minha Vida” desalojou as pessoas de seus lugares originais, tornando mais difícil essa constatação. Não que isso seja errado, mas me refiro a uma impressão que sempre tive, de que o Porto e o Timbó nasceram como uma espécie de “Mucambo”, após a abolição da escravidão, pois observei nesses dois locais a predominância do “preto-retinto”, principalmente entre 1993 a 1997, diferindo, por exemplo, da comunidade de Boágua, cujos moradores originais parecem holandeses e italianos.

Infelizmente as autoridades brasileiras foram cuidar muito tarde da cidadania dos povos pretos. Isso impediu que soubéssemos o que de mais precioso seria para todo antropólogo, e principalmente para o próprio povo preto. Eles perderam a identidade de suas tribos originais da África. Junto foi sepultado todos os saberes que seus bisavós trouxerem daquele continente. Até seus nomes de batismo tiveram que ser jogados nas fornalhas dos engenhos, substituídos por sobrenomes de origem portuguesa, copiados de seus senhores, ou catados a esmo para ter um sobrenome. Aqui chegavam, vindos de Recife, sem saber falar a língua portuguesa. E nem precisava, pois a linguagem falada era a linguagem do chicote. Detalhe deplorável.

Pois bem. Eis que mexendo em velhos papéis, deparei-me com esse material velho e o digitei aqui para não perdê-lo, como já aconteceu a alguns registros velhos e preciosos que poderão ajudar a tantos, e só são úteis se publicados. Como disse acima, talvez trago mais interrogações que respostas, mas essas insignificantes informações servem para pensarmos a história de Nísia Floresta e chegarmos a um denominador comum. É uma pena que nunca alguém aparece para contribuir com mais informações. Quem sabe é agora!



quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Só existe uma solução para o Pantanal não morrer de vez...

 

 SÓ EXISTE UMA SOLUÇÃO PARA O PANTANAL NÃO MORRER DE VEZ...

Sabemos, desde o primário, que só chove por causa dos grandes mananciais de água e reservas de florestas existentes na Amazônia e no Pantanal brasileiro. Até mesmo o pouco que chove no Nordeste se deve a essa região. Digo Nordeste porque no Nordeste continuam destruindo o resto do resto do que restou.
Salvar o Pantanal é caso de vida ou morte. As queimadas anteriores precisariam de cinco anos para razoavelmente se reconstituir, pois a fauna e flora tem reação em cadeia. Ela só prospera coletivamente. Mas, infelizmente, vem uma queimada ainda pior em menos de um ano após a queimada anterior. E - DIGA-SE DE PASSAGEM: ESSA QUEIMADA É CAUSADA POR HOMENS.


SÓ EXISTE UMA SOLUÇÃO PARA O PANTANAL NÃO MORRER DE VEZ...

Sabemos, desde o primário, que só chove por causa dos grandes mananciais de água e reservas de florestas existentes na Amazônia e no Pantanal brasileiro. Até mesmo o pouco que chove no Nordeste se deve a essa região. Digo Nordeste porque no Nordeste continuam destruindo o resto do resto do que restou. Salvar o Pantanal é caso de vida ou morte. As queimadas anteriores precisariam de cinco anos para razoavelmente se reconstituir, pois a fauna e flora tem reação em cadeia. Ela só prospera coletivamente. Mas, infelizmente, vem uma queimada ainda pior em menos de um ano após a queimada anterior. E - DIGA-SE DE PASSAGEM: ESSA QUEIMADA É CAUSADA POR HOMENS.
O desastre ambiental é gigante e as consequências serão piores do que estamos passando com a Pandemia do Novo Corona Vírus. A falta de educação e entendimento das autoridades brasileiras - E PARTE SIGNIFICATIVA DO POVO BRASILEIRO - é culpada.
Na realidade, falta nobreza de caráter da parte de muitos agropecuaristas, pois não era mais para estarem queimando pasto para renová-lo ou para fazer roças. E eles sabem disso. Esse fogo é colocado por pessoas que conservam essa tradição antiga, ao invés de buscar outras soluções já existentes. Impressionantemente, muitos fazendeiros pantaneiros são inconsequentes, incapazes de se conscientizarem de que eles são responsáveis pelo futuro aumento de seca (estiagem/falta de chuva), desaparecimento de muitos tipos de animais e plantas, surgimento de doenças diversas, enfim um caos futuro que está sendo entregue aos nossos bisnetos... ao futuro.
 
A única atitude que cessará a morte definitiva do Pantanal é a desapropriação de uma faixa razoável de propriedades particulares que emolduram o Pantanal. O Governo Federal precisa se unir aos Governos estaduais e municipais, e pessoas que tem muito dinheiro (e alma boa), e comprar as fazendas que emolduram o Pantanal. É necessário muito dinheiro, MAS É A ÚNICA SOLUÇÃO PARA SALVARMOS AO PANTANAL, SE QUISERMOS SALVAR O PLANETA, e garantir aos nossos netos e bisnetos o direito de conhecer aquilo que nós conhecemos ao vivo. E essa atitude é possível. Falta ação e conscientização. É muito egoísmo deixarmos tudo isso se destruir. Há determinados charcos (áreas pantanosas) que secaram desde a queimada do ano passado. A tendência é a gradual desertificação. É ótimo dizermos que uma boa chuva resolverá tudo. JAMAIS! é COMO QUEIMADURA DE PELE: NUNCA SE RECONSTITUI INTEIRAMENTE. É fantasioso dizer isso. A chuva será alento passageiro. Logo uma meia dúzia de fazendeiros põe fogo novamente. Ou vândalos. A solução é desapropriação e compra das fazendas vizinhas. ESTAMOS FALANDO DE UM SANTUÁRIO... SÃO VIDAS ANIMAIS E VEGETAIS, INCLUSIVE AS NOSSAS VIDAS!
 
O mais sensato seria o altruísmo e desapego dos proprietários. Na realidade isso deveria ser doado, mas jamais os mercenários fariam isso. ENTÃO RESTA DESAPROPRIAR E PAGAR O QUE VALE NA FORMA DA LEI. O Pantanal deve ser transformado em SANTUÁRIO SAGRADO E INTOCÁVEL DA HUMANIDADE, assim como a AMAZÔNIA.
Nós, brasileiros, precisamos com urgência, varrermos da política partidária os homens públicos incompetentes, corruptos e descomprometidos com causas nobres e urgentes como essa do Pantanal (dentre tantas), pois é caso de vida ou morte. Não dá mais para olharmos homens e mulheres inescrupulosos no poder, apelidados de senadores, deputados, prefeitos, vereadores, presidentes cheios de mimimi. Eles, sim, vivem dizendo mimimi. Há exceções dentre eles, mas são raríssimas.
 
É inadmissível e intolerável o que está acontecendo. São milhares de animais mortos, das mais diversas espécies. Eles perderam os seus "cantinhos", suas tocas, seus refúgios. Há comunidades de macacos que morreram em massa, pois viviam em santuários naturais, de mata intransponível, e não houve como sair. Imagine a dor desses pobres animais. Morrer queimado! Os animais que sobreviveram poderão morrer de fome, assim como esses cavalos selvagens do Pantanal mostrados na imagem aqui postada (inclusive essas fotografias são do nosso amigo Gustavo Basso). Esses animais não tem mais o que comer. É muito triste. E revolta saber que quase ninguém está fazendo nada. Isso acontecerá com muitas aves, enfim com várias espécies. Muitos morrerão por causa do estresse. Alguns animais sobreviventes morrerão depois porque tiveram seus movimentos limitados, ficaram deficientes, portanto susceptíveis aos outros animas. Virarão presas fáceis. Para que o bioma seja parcialmente reconstituído são necessários muitos anos. E QUEM GARANTE QUE DAQUI A UM ANO NÃO TEREMOS UMA QUEIMADA AINDA PIOR? 
 
Vocês sabiam que alguns fazendeiros alimentam essas queimadas por má fé? É uma forma de usar o Pantanal como o quintal de seus latifúndios? Eles adiantam suas cercas gradualmente, ampliando suas propriedades e enfiando gado. É por isso que eu acho muito difícil, e que somente uma atitude extrema resolveria isso. Sei que a conscientização é importante - e escrevo acreditando nela - mas há muitos fazendeiros inescrupulosos. A religião deles é AGRO É POP, AGRO É TUDO!
 
Quando ouço minha mãe, de 88 anos, que mora no Mato Grosso do Sul, dizendo que acorda e dorme com cheiro de fumaça, que não se vê as nuvens e o céu, fico sem ter o que dizer a ela. São facadas no meu coração. Confesso que vendo vídeos na televisão e nas redes sociais, não me canso de chorar, e tenho vergonha por só ter o meu choro para oferecer. Aliás, meu choro e minha palavra. Por tudo isso, peço a quem pensar igual a mim, que compartilhe isso, que escreva também, que faça denúncias, que conscientize pessoas, que ajude da forma que puder, inclusive não elegendo todos aqueles políticos que estão em silêncio, ou que fazem apenas mimimi...