MEU PRIMEIRO CADERNO...
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| Dom Eugênio Sales conversando com Antonio Pontes |
MIA COUTO E MANOEL DE BARROS...
LUGAR DE FALA OU ALTERIDADE...
Reconhecer o racismo sendo branco e combatê-lo é obrigação republicana, o que é diferente de um branco tentar protagonizar a luta de um preto contra o racismo estrutural. Outro exemplo é um homem reconhecer a importância do feminismo e contribuir na politização, outra coisa é tentar ser protagonista de uma luta política das mulheres. A luta anti-racista é, historicamente protagonizada pela luta do movimento negro, uma luta pública, que envolve também o papel do branco, não só no seu papel de politização, mas também como um parceiro de luta.
Há alguns dias atrás, ao defender um cidadão vitimado pelo preconceito racial, um leitor questionou porque eu fazia a defesa com tanta profusão, se nem preto era, alegando que eu não poderia sentir aquela dor e que deveria me calar. Deveria eu ficar mesmo calado diante de um abuso claro? Confesso que nem me ative à exigência do rapaz, porque, analisando friamente, não posso mesmo sofrer a mesma dor de um preto que vive num país de racistas falastrões, mas posso me indignar e colocar a boca no trombone e evidenciar o meu protesto. O sofrimento é uma característica psíquica do ser humano, que é um ser social. A dor pode ser um sentimento social, como aponta o filósofo Axel Honneth ao debater com a filósofa Judith Butler.
A atitude desse jovem me transportou para um fato bastante curioso no tocante a um novo modismo conceitual no meio intelectual pequeno-burguês, transplantado dos liberais identitários estadunidenses, chamado “lugar de fala”, aqui no Brasil assinado majoritariamente pela filósofa Djamila Ribeiro e usado vulgarmente como “expressão do momento”, tanto como argumento essencialista de legitimidade de argumentação.
Mas por que “essencialista”? Antes de explicar, me vem à cabeça o exemplo de “representatividade” do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Obama, somente em 2016, coordenou o ataque a bomba, totalizando mais de 26 mil bombardeios em países soberanos, matando dezenas de milhares de civis inocentes, crianças doentes, mulheres grávidas e estudantes. Obama é concebido como um colosso do progressismo mundial, endeusado pela esquerda brasileira, e por muitos, a cor de Obama é sinal de representatividade. Mas que tipo de representatividade imperialista é essa, que bombardeia e sequestra países?
É óbvio que a cor preta, não só nos Estados Unidos, mas no Brasil, foi subjugada pelos grilhões da escravidão, fisicamente e moralmente. O Brasil é um país racista, e ainda estamos engatinhando quando se trata de debater o epistemicídio, e o genocídio da população preta. Possuir representação preta é importantíssimo, mas como sempre pontua a filósofa preta estadunidense Angela Davis, o debate na democracia não se finda na representatividade, mas na consciência de classe.
E o que tem o conceito de “lugar de fala” com isso? Quando vulgarizado, esse conceito acaba por desenvolver uma barreira essencialista ao sentimento da alteridade. É como precisar possuir uma essência e uma vivência para exercer a potência do discurso e do sentimento, não a possuindo, o sujeito que exerce o discurso está fadado a ficar calado. É como escutei de uma amiga preta estudiosa da obra de Lélia Gonzalez, não adianta criar ferramentas disciplinares se o debate sobre raça e classe serão sempre debates públicos que abrangem todos os seres de nossa sociedade brasileira e as micro-relações de poder.
Um dos problemas mais centrais do cotidiano brasileiro, da tomada de decisão política e do nosso viver é a ausência e a dificuldade da ALTERIDADE. Alteridade é a capacidade humana de reconhecer no outro a si próprio, de se colocar no lugar do outro, esse outro que pode ser qualquer um; é reconhecer o outro como dotado de direitos humanos inalienáveis e intransferíveis. A alteridade é perigosa ao estado policialesco do capitalismo, que exige dos sujeitos esse sentimento de raiva e ódio pelas diferenças do outro, pela classe social, pelo gênero, pela cor, pela etnia.
Eu luto cotidianamente pelo sentimento e pela prática política da alteridade. Sempre entendi que não é necessário que eu passe fome para saber o que é essa desgraça e me indignar com a condição desumana de um faminto. Não preciso ter nascido numa aldeia indígena para conhecer seus plurais problemas herdados do genocídio colonial, como a fome, preconceito, falta de acesso às políticas públicas. Não preciso ser um escorraçado humano, um degradado do capitalismo, um viciado da Cracolândia para reconhecer o quanto o capitalismo é injusto, perverso e ineficaz.
Os problemas mundiais pertencem a todos os seres humanos. Se uma mulher é agredida dentro de casa pelo marido, esse é um problema da república, não é assunto privado. Se um negro é morto a pauladas dentro de um supermercado francês, trata-se de um problema público, trata-se de racismo estrutural, e essa estrutura se chama CAPITALISMO. Todos têm lugar no sentido da criticidade. Defender que alguém não pode falar dos problemas que não sofre na pele é o mesmo que propôs a filósofa Hannah Arendt sobre os casos de Little Rock, interpretando que a violência de raça se trata de casos da vida privada, não importando se os negros sofrem de racismo, por ela considerar que violências privadas não são coisas públicas.
É indiscutível que somente quem sofre uma dor sabe o que ela verdadeiramente é. Mas isso não justifica que os outros não possam se reconhecer na pessoa que sofre a dor. O exercício da alteridade é essencial, já esse “lugar de fala” parece descolado da realidade brasileira. Para mim, mais parece um fenômeno vocabular da moda, como foi a expressão "pertencimento", no inícop da década de 90. Quem não a usasse, não estava na moda, se bem que tais pertencimentos não me pertencem...
MEMÓRIA DE NATAL - CHICUTA NOLASCO - 1954...
Em 1954, quando os despojos de Nisia Floresta chegaram ao Brasil, que aportou no cais de Natal, uma multidão o aguardava, ali mesmo foi executado o Hino Nacional enquanto os despojos deixavam a embarcação. Houve missa no Ginásio Municipal de Esportes em Natal. à ocasião a jornalista e professora D. Chicuta Nolasco Fernandes, então diretora da Escola Normal de Natal, organizou um grupo de alunas para fazer as vezes de "Guarda de Honra" junto ao caixão com os restos mortais de Nísia Floresta. A educadora recebeu muitas críticas devidas ao histórico de conservadorismo da instituição, além de outras autoridades. Alguns natalenses não compreendiam como uma escola com padrão de referência parava para homenagear uma mulher cuja história era regada à difamação decorrente da famosa carta-detratora escrita por Isabel Gondim.
Adauto da Câmara já havia publicado um belo livro sobre Nísia Floresta, mas a carta de sua conterrânea ainda era muito forte. E muitas pessoas pareciam mais estimuladas à fofoca que à verdade. D. Chicuta foi metralhada por críticas, mas não abriu mão. Ela sabia da importância de sua conterrânea e ignorou os opositores gratuitos, inclusive algumas autoridades. Um dos gestos mais belos ocorridos no RN quando do referido episódio.
Para quem não sabe, D. Chicuta diplomou-se em 1929 e sempre se envolveu em polêmica. Em 1930 foi contratada pelo governo pernambucano para integrar a Comissão de professores para colaborar na reforma "José Escobar". O episódio provocou grande celeuma nos centros educacionais do país. Foi a primeira mulher a exercer o cargo de diretora da Escola Normal de Natal.
Essa escola recebeu posteriormente o nome de "Instituto Presidente Kennedy". Também colaborou no jornal A República, escreveu peças teatrais e pertenceu a várias instituições filantrópicas e de outras naturezas em Natal.
Ainda tive o prazer de conviver um pouco com Chicuta Nolasco entre 1992 a 1993, quando ela contava com 84/85 anos de idade. Conversamos algumas vezes. Pouco tempo depois desse contato, ela se encantou. Também conversei muitas tardes com a professora Noilde Ramalho, que também conviveu com Chicuta, a qual me presenteou com "Menina Amarelinha", obra de Chicuta Nolasco. Um primor. E assim vamos montando o quebra-cabeça de histórias encobertas pela poeira da desmemória...
Para quem gosta de ler histórias de figuras populares, o Rio Grande do Norte é um rio perene, desaguador de impressionantes personalidades que ainda 'agoam' o imaginário popular. Vai da embaixatriz que tinha carta-branca para entrar no gabinete de qualquer governador - e ser bem recebida - a um vendedor que entregava urubu tratado como sendo galeto. A venda era exclusiva aos norte-americanos dos tempos da guerra... Mas dentre os mais excêntricos personagens, temos "Rocas Quintas", cuja história segue abaixo. Resolvi transcrevê-la porque um autor norte-rio-grandense publicou um livro apresentando outra pessoa como sendo "Rocas Quintas", portanto a bem da verdade segue a verdadeira história de "Rocas Quintas", contada nada menos por um especialista no estudo dos nossos personagens populares...
ROCAS QUINTAS
(Por Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Escritor e Pesquisador).
O memorialista é aquele que com certa idade conta o vivenciou de fatos e do seu conhecimento com pessoas e lugares. Descreve o seu passado e o repassa acompanhado de sérios testemunhos e fontes fidedignas. Sabe-se que quem pesquisa história necessariamente é devorador de livros, cliente voraz de livrarias e ‘rato’ de sebos. Já os ficcionistas ficam isentos de veracidade histórica em suas criações, como nos seus contos e romances. Apenas alguns desses, retratam os seus personagens, que aos olhos dos bons observadores, logo enxergam pessoas existentes em seus tempos. Mesmos que mudem os seus nomes ou situações. Assim o fez nosso criativo Nilo Emerenciano, em muitos de seus contos.
Dentro da paisagem urbana de Natal dos anos 70 a 90, do século passado, existiu de fato uma mulher prostituta e muito famosa conhecida por seu apelido – Rocas Quintas. Tímida, não aceitava ser entrevistada, mas aos poucos me concedeu curtos depoimentos em diversos momentos na então calçada do finado Café São Luiz, centro da Cidade Alta, no início dos anos 90, (1991): “Meu nome é Maria Edite. Estudei pouco na infância. Sempre fui uma menina traquina. Sempre gostei de fazer sexo desde mocinha. Eu quando era mais nova fazia ponto lá na Rua Quinze de Novembro na Ribeira. Numa noite atendia dezenas de homens nos quartos daqueles cabarés. Era uma cama velha, uma bacia de ágata ao lado, jarra d’água e sabonete para o asseio do casal. Era tudo na pressa e saia um e já se entrava com outro… homem de todo tipo, de cachaceiro a valentão, de jovem a velho… Hoje eu estou gorda e velha. Peço ajuda nas ruas, pois ando muito doente, meu senhor”. E mostrou-me na ocasião numa manhã de sol forte, meio dia, para comprovar seu pedido, uma parte de uma caixa de antibiótico onde se via o nome do tal remédio…
Alguns até diziam ser o seu marketing de pedinte ambulante. Na ocasião, a famosa Rocas Quintas, já aparentava uns 50 anos. Cabelos pretos com algumas mechas em branco. Desdentada, mas risonha às vezes. Obesa, como diziam ‘com barriga quebrada’. Branca e semi analfabeta, pernas grossas e pescoço bem curto. Olhos castanhos claros, diferentemente daquela romanceada Capitu machadiana. Estava calçando sandálias havaianas já gastas de muitas andanças e peregrinações, vestindo saia vermelha já desbotada e uma blusa não tão branca, como deveria ter sido no passado. Saudade do milagroso ‘Omo total’ das propagandas televisivas.
Seu apelido apareceu primeiramente na história escrita, através do premiado contista e memorialista, Nilo Emerenciano, em seu livro de Contos – ‘Aconteceu na Quinta Delegacia’, (1982, FJA). Embora ele não diga o seu livro foi inspirado em alguns personagens populares que o autor conheceu de perto nas ruas de Natal. O grande amigo Nilo, como dezenas de outros natalenses, conheceu a verdadeira Rocas Quintas, que era também natalense. Segundo a mesma: tinha dezenas de irmãos e seu pai vendia peixes e também matava porcos para sustentar sua família. Ela, solteirona, morava com os pais na região entre os bairros de Petrópolis e Praia do Meio. Família pobre, mas trabalhadora como muitas outras que habitavam os arredores da referida praia. No citado livro de Nilo, seu apelido dá título a um conto e mostra-nos uma quadra cantada popularmente pelos mais jovens dos anos 70/90, os quais também a apelidava de – ‘Corre Campo’ e ‘Errepê’, referências à cobra que não para de correr e ao antigo fusquinha da polícia, que batia o mundo todo em Natal:
“Rocas Quintas, Rocas Quintas,
Todo dia pega trinta,
Trinta homens todo dia,
“É a conta de Maria…”.
Em 1999, participando do concurso literário do então Quarto centenário da Cidade do Natal, promovido pela secretária especial para as festividades, apresentei meu projeto, que tratava de muitos tipos populares que conheci nas ruas das Rocas, das Quintas, passando meu Alecrim, onde nasci e vivi grande parte de minha vida. O referido projeto foi aprovado e eu ainda exigi que o livro fosse numerado de 01 a 400, em homenagem a minha cidade. E lá, pela segunda vez, a prostituta andante apelida de Rocas Quintas está figurando numa crônica, nas páginas 146/148. Sem sua fotografia, tão programada com o amigo Canindé Soares, pois quando chegara em sua moto, ela já havia debandado da Cidade Alta para as Quintas, atrás de seus possíveis pretendentes sexuais… Quando lancei o meu citado livro a procurei por semanas e não mais a encontrei pelas ruas. Teria partido sem destino em busca de novos amores em outras paragens? Ou como diz o povo: virou finada na terra dos pés juntos?
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| Nísia Floresta aos 60 anos de idade |
No dia 2 de abril de 1911 o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, sob a presidência do Dr. Desembargador Vicente de Lemos, foi convidado, mediante um ofício enviado pelo Grêmio Literário “Augusto Severo”, para prestigiar a solenidade de inauguração do medalhão de Nísia Floresta no jardim da praça “Augusto Severo” no dia 19 de março de 1911.