ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Facheiro (Cacto)




FACHEIRO
 
Esse é o facheiro, cacto típico do Nordeste e áreas de estiagem de vários países da América do Sul e do Norte. Dia desses mostrei aqui mesmo o “Cardeiro” e seu fruto, mas são bem diferentes. O Facheiro tem milhares de espinhos direcionados para todos os lados. É impossível tocar em seus galhos e tronco. Isso já não acontece ao Cardeiro, que é menos espinhoso, mas ambos são perigosos, pois a qualquer descuido, espetam e sempre quebram sob a pele. Se o espinho ficar com a ponta exposta, tira-se com pinça, mas se não ficar exposta tem que esperar o organismo expulsar. Sempre inflama o local espetado.
 
 
 
Enquanto o fruto do Cardeiro é vermelho por fora e a polpa é branca, suculenta, muito doce e repleta de micro-sementes pretas, o fruto do Facheiro é duplamente vermelho por fora e sua polpa é duplamente vermelha, levemente adocicada, babenta e com micro-sementes pretas. Antes de amadurecer, tem a cor verde. O fruto do Facheiro parece excelente para diabéticos.
 
Nos últimos 20 anos tenho observado que gastrônomos, cozinheiros e nutricionistas têm direcionado um olhar diferente para os mais diversos cactos do Nordeste. Desse modo é possível encontrar em alguns restaurantes pratos salgados feitos com a polpa dos galhos desses cactos, além de doces diversificados e até sorvete dessa polpa. O fruto também permite excelentes sorvetes e picolés, inclusive é possível apreciá-lo na Sorveteria Tropical, ali na avenida Rodrigues Alves, centro de Natal.
 
O Facheiro também é excelente planta ornamental, pois é muito imponente. Sua flor é belíssima e chama a atenção, pois é grande e espalhada.
 
 

  

 

 


domingo, 23 de maio de 2021

Lastá-lo, cadê-lo, tali-lo...


O ano de 1993 acontecia quando essa história me foi contada por um cidadão de pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte. Seus pais, muito agradáveis, eram donos do primeiro restaurante do centro da cidade. Estabelecimento improvisado num galpão rústico, amplo e ventilado, atrás da casa. 

A família inteira era envolvida no negócio, tornando-o muito organizado e afamado. 
O visitante que vinha ao município à negócio findava nesse restaurante, fato que instigava sempre o bom cardápio consistido de galinha caipira, galinha à cabidela, camarão no leite de coco, camarão no alho e óleo, lagosta, caranguejo, goiamum, ouriço, casquinha de siri, ostra e uma boa peixaria regada sempre a deliciosos sucos tropicais como cajá, mangaba, manga, graviola.

Era lugar de repasto portentoso, despertador de gula, visto apenas em mesas eclesiásticas.

Para garantir sempre a despensa bem estocada de mercadorias, o proprietário costumava visitar alguns sítios nos distritos próximos para encomendar aves, ovos, porcos e outros produtos para consumo da freguesia. 

Ele tinha os fornecedores certos para comprar os bichos cevados e até abatidos. Mercadoria boa e fresca. 

O narrador dessa história foi o primeiro rapaz da cidade a ter uma lambreta, um tipo de motocicleta. Preciso lembrar que essa história se deu nos anos 70. A Lambreta era febre nas metrópoles, inclusive, nas televisões em preto e branco, se viam o cantor Roberto Carlos pilotando a dita lambreta. O jogadores de futebol pousavam para propaganda nesse veículo, fumando Marlboro em revistas. 

Era luxo e privilégio um rapaz interiorano ter semelhante lambreta, portanto não precisa contar aqui que suas andanças pela cidade roubavam a cena e assinalavam que o comércio ia muito bem.

Certo dia ele levou o seu pai até um desses sítios para as suas demandas. O velho era bom de prosa, assim que chegou espichou conversa com o sitiante.

Um dos filhos deste, encantado com a lambreta, perguntou se o piloto poderia dar uma volta com ele na garupa. Lá se foram, embalados pelo ronco do motor, conversas e risadas.

A localidade era permeada de morros. A lambreta sumia e aparecia conforme os aclives e declives da estrada. Só se via os flocos de poeira se dissipando estrada afora. Sumiram.

Eis que, na sede, seu pai já havia feito negócio e aguardava o filho. O estoque de conversa foi acabando conforme o sol se avermelhava no horizonte. Até um cafezinho foi feito e servido ali mesmo no terreiro. Logo o velho perguntou pelo filho, e nada. 

As aves se recolhiam nos poleiros e árvores. Espera, espera, espera, e nada. Os grilos trincavam nas matas. Mais conversa. A dona da casa ajeitava a janta no fogão a lenha. Nada do filho nem do barulho da lambreta. Sequer uma bola de poeira. 

Sentado num tronco de jaqueira próximo à casa alta e avarandada, o velho começava a se agoniar. “Cadê- meu filho?” Com mais um pouco, uma das filhas do sitiante assomou-se à porta da casa e, com visão privilegiada pela altura, berrou:

- Lastálo ele!

O sitiante, sem ver nada, perguntou:

- Cadê-lo? 

A moça respondeu: 

- Tali-lo! 

E como a lambreta subia e descia os morros, aparecia e desaparecia nos cocurutos da mata, o velho insistiu: 

- Cadê-lo ele? 

A moça respondeu:

- Tali-lo ele! 

O velho insistiu: 

- Cadê-lo? 

Ela respondeu:

- Tali-lo ele lácolá! 

O velho, notoriamente irritado, indagou:

- Kêde ele?

Ela respondeu:

- Lástá-lo ele lacolá… lá… lá… lá....lá! 

E o velho olhava nas direções de cada “lá” apontado pela moça. O pai do rapaz já soltava fumaça pelas ventas com essa história de “lastá-lo, cadê-lo e tali-lo”. De repente o barulho da lambreta rebentou por detrás de um morro e o velho sossegou-se. Logo apontaram os dois jovens na porteira. Problema resolvido! E lá se foram para a cidade, pai, filho e lambreta.

Já foi dito lá em cima que o velho era muito falante e adorava resenhas. Ele admirou tanto aquele diálogo entre pai e filha que passou a contá-lo a quantos fregueses aparecessem em seu restaurante. As risadas quase engasgavam a freguesia. Aliás, o seu modo divertido de contar velhos causos e declamar poesias fisgadas dos velhos livros, era o despercebido marketing daquele comerciante.

O filho dele, que fazia escola com o pai, esparramava a história por onde passava. Sempre alguém queria ouvi-la. E quando temperada pela narração do pai ou do filho, os ouvintes choravam de rir. 

Eles eram exímios contadores de histórias. Podemos dizer que o episódio virou uma espécie de ‘meme’ da época. Qualquer pessoa que perguntasse por alguém, dizia cadê-lo fulano? Logo ouvia a resposta: lastá-lo ele! ou tali-lo ele! ou tali-lo ele lácolá! ou lá está-lo ele lacolá… lá… lá… lá...lá... 

O peculiar vocabulário daquela família simples do sítio saltou para a cidade e tomou parte do dialeto local durante um bom tempo. E como toda moda passa, e como toda gíria passa, e como a linguagem é um ser vivo como uma cobra trocando de pele e se reinventando, essa história passou... o meme não está mais ali-lo.  

Hoje, poucos sabem dessa história, mas ela é maravilhosa e deve ser registrada, recontada e tricontada. É o poder da palavra e da Cultura Popular. 17.8.1994. OBS. Imagem: https://www.google.com/search?q=lambreta&tbm=isch...

 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Tubaína? De onde veio essa?



 
TUBAÍNA? DE ONDE VEIO ESSA?

Dia desses lembrei-me da Tubaína, voei longe... caí nos rincões de minha infância, lá pelos recônditos do Mato Grosso do Sul. Minhas memórias se adocicaram dessa bebida dos deuses. Minha meninice adocicou-se desse mel primoroso, chama de criança.  Bar que tivesse Tubaína era pólen para nossos instintos abelhudos. Quem conheceu a Tubaína, guarda, intacto, o seu sabor. Falo de um tempo que eu carregava doze anos de idade. Endeusar um refrigerante hoje soa estranho, mas me refiro a uma época totalmente diferente da atualidade, em que as iguarias e guloseimas eram escassas. Cidade do interior sem grandes ofertas desses manjares infantis. Não existiam tantas marcas de refrigerantes. A Tubaína reinava. Desse modo, a Tubaína era sonho de consumo. Qual criança não queria Tubaína? Nenhuma! Tubaína de garrafa, talqualmente as garrafas pecaminosas "Tatuzinho" própria para os adultos. Que menino da minha época não comprou Tubaína na mercearia do Sr. Augusto Kono? Inesquecível! Mas o menino cresceu e viajou para a terra da Dore, no Rio Grande do Norte. Aqui não existia o delicioso refrigério da infância. Encontrei, "uma vez perdida", no Carrefour, e, outra, no Atacadão. Isso já pelos idos de 97. Mas ela se apresentava diferente. Roupa nova. Frasco PET. Gostosa... Como tudo que vem em plástico, trazia um gosto em apêndice. Gosto diferente que não traduzia a sua essência. A do vidro era incomparável, hermeticamente fechada com tampinha metálica. Até a tampinha cheirava durante dias. Cheiro delicioso, cheiro de Tubaína, cheiro de alimento de criança... Tubaína é  um refrigerante antigo, inventado pela empresa FUNADA, de Presidente Prudente, riquíssima cidade do Oeste Paulista. É um guaraná diferenciado. Único. A bebida era vendida para todo o interior de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. Vendia como banana em feira. Festa de  aniversário e casamento eram regados à Tubaína. Inesquecível esse tempo! Ultimamente tenho encontrado a Tubaína por aqui. Vi no Nordestão. É da empresa Dore. Com todo o respeito e sem empáfia... terrível! Um simulacro! Quando vou ao Mato Grosso do Sul me farto da bebida. Quando vem  alguém para cá e pergunta se quero alguma coisa, digo, na lata: "Tubaína Funada". E se a pessoa me for bem familiar, complemento: "E traga tererê também!”... “se não for pedir muito, traga pequi!”  Mas essa... essa é outra história!

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Anu branco



ANU BRANCO


Como não carece ser ornitólogo para amar e contemplar gratuitamente a diversidade de pássaros que a natureza oferece, sou dessas pessoas que deixa qualquer compromisso para ‘curiar’ a intimidade de qualquer bicho silvestre. Contemplá-los é como estar dentro de um poema, é colher poesia. Dia desses, às cinco da manhã, fui acordado por um sem-fim de abelhas zumbindo sobre as flores de uma pitangueira. Contemplei-os durante uma meia hora...

    Hoje, dei com meia dúzia de anus brancos às 7 em ponto. Mais andavam que voavam. Mansos como se criados na minha mão. Íntimos o bastante para fisgar as formigas debaixo do meu sapato. Não sei por que lhes ofereci essa segurança, mas o bando era amigável e indiferente ao meu voyerismo.

    Aprecio muito a singularidade dos anus, principalmente os brancos, como são chamados. Acho-os muito simpáticos e bonitos. É um pássaro grande, despenteado, rabo comprido e olhos grandes cor de mel. Em alguns lugares são chamados de rabo-de-palha, alma-de-gato, anu-do-campo, pelincho, guirá-acangatara, piló, piriguá e piririta.

   

Eles se alimentam de pequenas pererecas, lagartos, pássaros miúdos e até camundongos, mas os familiarizados com as cidades alimentam-se de frutas, bagas, coquinhos e sementes de forma alternativa. Esses (da filmagem) devoravam insetos miúdos. Vejo-os sempre rondando um cupinzeiro. Eles também têm lugar cativo em olho de coqueiro, onde espenicam as palhas e se fartam de insetos miúdos e até mesmo catitas miúdas.
Seu ninho tem três vezes a altura de um homem. Seus ovos são verdes bem clarinho com uma camada calcária em relevo. Embora não seja regra, é muito comum encontrar ninhos onde moram duas ou três anus chocando numa amizade de comadres íntimas. Por isso são comuns ver ninhos tão grandes. É um pássaro muito autônomo e se familiariza bem com alguns tipos de pássaros maiores como bem-te-vi, anu-preto, sabiá e outros.

imagens: wikipédia

Cercas de faxina



Uma das tradições mais interessantes que observo no Nordeste são as "cercas de faxina", usadas para dividir propriedades e outras finalidades dentro do próprio terreno. São cercas de varas vegetais secas. Impressionantes e revelam muito de quem as faz. Nos últimos tempos, com o advento do arame, elas não predominam como no passado, mas ainda se vê muitos terrenos imensos perfilados de faxina. É comum tanto nas áreas rurais quanto nas cidades interioranas. Desse modo, encontramos faxina cercando quintais, galinheiros, chiqueiros e hortas.. Os quase extintos “garajaus” usam a mesma arte das cercas de faxina. São gaiolas grandes (fotografia) feitas de varas para transporte de galinhas, porcos miúdos, perus ou para cevar tijuaçu (iguana) tatu e outros animais. Ainda se vê vendedores de bichos pequenos com seus garajaus sobre bicicletas ou mesmo ao modo de rodilha sobre a cabeça.
 
 
 
É possível encontrar no interior do Rio Grande do Norte “casinhas”, ou privadas feitas de faxina. Lugar de despejar as necessidades fisiológicas. Também há banheiros de faxina. Nesse caso as varas são muito unidas para não deixar brecha para os brechadores. Nesses dois últimos casos o primor artesanal é tão engenhoso que não há buraco nem para passar uma agulha. E pudera! Ninguém quer fazer serviço ou tomar banho sendo "brechado", muito embora há essa "cultura" voyerítica, conforme já ouvi aos cântaros nas minhas pesquisas 'in loco' sobre tradições e hábitos interioranos (pesquise em “Casadetaipa”, neste mesmo blog e encontrará fatos impressionantes). Outro lugar certeiro para faxina são as bicas de bares e botecos, onde os fregueses se banham. Há também “mijadores” protegidos com faxina, lugar exclusivamente masculino para beberrões urinarem.
 
 
Há tipos distintos de cerca de faxina, por exemplo: montada horizontalmente, verticalmente ou com as duas opções intercaladas. A mais comum é a faxina vertical. No passado eram feitas unicamente de varas e mourões intercalados em pequenas distâncias para não arriarem. Hoje, se servem muito do arame liso e predominantemente do arame farpado. Desse último modelo há duas finalidade: espantar menino arteiro que gosta de subir em cerca, e espantar gatunos.
 
 
 
Embora as cercas de faxina sejam predominantemente feitas de varas finas, numa bitola de vela sete dias, também se fazem cercas de pequenas estacas, principalmente em terreiros que ficam animais maiores (vacas, cavalos, bodes). Essas são firmes, como cercas de balaústres. As cercas de faxina mais comum são feitas de pequenas varas. Há toda uma “engenharia” na sua construção. As varas verticais permitem se flexionar para se acomodar na (vara/arame) de cima (horizontal), na (vara/arame) do meio, horizontal e na (vara/arame) de baixo, horizontal. A faxina de estaca não permite essa flexibilidade, pois é muito grossa. É impressionante o talento de um bom engenheiro de cercas de faxina, pois elas se tornam imponentes de acordo com a maestria de quem a constrói. E são homens sem estudo algum. Impressiona o conhecimento desses homens, tais quais. Encontrar um bom faxineiro é como encontrar um bom pedreiro. Os bons faxineiros são indicados por todos. 
 
 
 
Pois bem, mas como muitos desses costumes pastoris vieram nas naus portuguesas e aqui se espraiaram, as cercas de faxina não são exclusividade do Nordeste. Vamos para Kiev, capital da Ucrânia (fotografias). Observe essas cercas de faxina engenhosamente feitas em lugares distintos daquele país. É tradição milenar. Remontam a história do homem. E são praticadas até hoje em lugares rurais de toda Europa. A paisagem ajuda-nos a diferenciar quais são daqui e quais são de lá. Obviamente que a cerca de faxina tem origem no próprio homem, quando a humanidade foi se tornando capitalista e se dando conta de cercar a sua propriedade. Assim ela era e ainda é comum na África (berço da humanidade) no Egito, na Grécia e outros lugares que vieram na nossa frente. Nós somos apenas uma invenção, uma cópia da cópia da cópia. Um simulacro. O mais curioso disso tudo é a resistência da cerca de faxina. Ela é tão velha quanto o jacaré e permanece viva, tal qual as que se erguiam das mãos do homem primitivo. 
 
 
 
Na Europa existiam também cercas de pedras. Lindas! E isso também foi arrastado de Portugal para cá. Tem-se alguns exemplos aqui mesmo no Rio Grande do Norte. Mas as cercas de varas são mais resistentes em seu aspecto geográfico, afinal não existem pedras miúdas em todos os lugares, portanto não se pode fazer cerca de pedra em todo lugar. Pois bem, quando nos depararmos com esses poemas de varas, apelidados de "faxina", lembremos que eles são ucranianos, africanos, portugueses, egípcios, gregos enfim. São invenções dos recônditos da humanidade, e se reinventaram no Brasil.




segunda-feira, 17 de maio de 2021

Escrever e ler no escuro

 

https://www.google.com/search?q=livros+antigos+numa+prateleira&client=firefox-b-d&sxsrf=ALeKk00qHgrzDd_hTLTOKTuXoijX19qdxw:1621301679489&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwjRvbe1i9LwAhXnr5UCHYWjAlkQ_AUoAnoECAEQBA&biw=1366&bih=654#imgrc=DIVK0oVpGbzbgM  

  
LITERATURA: ESCREVER E LER NO ESCURO

O fenômeno das redes sociais tem despertado uma espécie de patologia em boa parte dos internautas/leitores. A síndrome prioriza textos rápidos e com escrita fácil. Como os textos na internet escorrem verticalmente, percebo que as pessoas não vão adiante quando passam de dez centímetros. As pessoas não querem ler muito, assim como não assistem a vídeos que passam de dez minutos. O encantamento de se ter o mundo à nossa frente desperta uma pressa injustificável. As pessoas querem ler/ver assistir o maior número de coisas e com rapidez. Esse fenômeno faz com que muitos não leiam/assistam produções/obras de qualidade, presos ao banal e fútil. Uma parte condiderável da juventude está propensa ao vazio na música, na literatura, na arte etc.

Observo que o preocupante sintoma tem saltado da internet e caído no corpo da Literatura com força. Tenho a impressão de que escrever uma narrativa tradicional nos tempos atuais tem ficado cada vez mais difícil e por incrível que pareça, artificial, obrigando o escritor a ir além da superficialidade do discurso literário. É algo parecido com “se reinventar” para agradar um público/leitor em decadência, principalmente o público jovem. Aí reside o desafio/problema/perigo.

Na realidade, além do fator “leitor apressado”, há outros fatores, como o problema da comunicação entre a obra e o público. O desafio de quem escreve é o de comunicar a incapacidade de expressar-se nos seus textos, pois a estética pós-moderna não aceita mais um escritor que explica tudo. Muitos autores trocaram a escrita que deixa subentendido, que diz sem dizer, que sugere, que divaga, pela escrita do lugar-comum. Prenderam-se ao óbvio, entregando tudo mastigado ao leitor. A metáfora, a poesia, a descrição, a discrição e uma série de considerações que deveriam ser prioridade ao escritor foram abortadas para atender leitores apressados, contaminados pelas mídias.

Outro imbróglio que trava até mesmo a capacidade criadora do autor - que se torna um impasse da narrativa contemporânea - é a dependência do escritor diante do mercado da editoração. A Editora Sextante, por exemplo, priorizava clássicos da literatura. Hoje só publica autoajuda. Há editores que não arriscam se o autor não estiver contaminado pelo fútil. Ele entende que o autor deve escrever algo que lembre/pareça com algo. “Escreva algo que lembre Harry Potter”, “Pegue um gancho em alguma coisa de Nárnia”. As próprias capas das obras não parecem com o Brasil.
Fazer algo que pareça ter vindo do way of life dos Estados Unidos parece sucesso garantido. Não importa o banal, o fútil. Ninguém diz "deixa eu ler a sua obra, poxa! ela faz a diferença”.

Muitos editores pecam por escantear autores em que os alicerces se assentam no tradicional, não necessariamente reproduzindo a estrutura do cânone literário, mas se aproximando do imaginário dos clássicos europeus e latino americanos. Autores com substância, alicerçados numa vasta bagagem literária. Tenho observado muito isso e não acredito estar enganado. É uma prática cada vez mais comum, mas não é generalizada, diga-se de passagem.

Todo autor é feito de autores, de mundos, de planetas imaginários e reais. Creio que nos faltam - ou que seguem desconhecidos/desvalorizados - grandes autores em quase todos os estados do Brasil, e a culpa está nessas visões deturpadas, contaminadas pelo padrão mercadológico e industrial dos simulacros dos simulacros das cópias das cópias. E os autores regionais? Piorou! Ser regional não é defeito, é uma constante mediação entre o particular e o todo, pois no regionalismo está implícito questões universais, afinal o homem objeto de toda escrita. Não existe escrita sem homens. No regionalismo reside a Filosofia. No estado onde nasci, Mato Grosso do Sul, por exemplo, temos Hélio Serejo, um monstro literário digno de ser universal, mas desconhecido.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, quando releio “Chão dos Simples”, extraordinária obra prima do Rio Grande do Norte, embora escrita há mais de meio século, mas publicada há 31 anos, encontro sertanejos simples, mas que não diferem de ninguém em qualquer parte do mundo, pois são universais. Para desvelar esse mundo extraordinário criado pelo autor Manoel Onofre Jr. é preciso adentrarmos o mistério cósmico ao qual ele se refere. Esse mistério nos cerca, e o sentimos, e Manoel Onofre traz à tona através da geografia do sertão e da alma tosca do sertanejo doutrora, tipos humanos que despreocupados com o raciocínio lógico, são propensos a toda espécie de impulsos vagos, premonições, crendices, hipocrisias religiosas, espertezas, caritós, alimárias, maldades, inocência, agruras da seca, cangaço, folclore, o mundo onírico… até mesmo o romanceiro ibérico ou uma versão sertaneja de Joãozinho e Maria passeiam na obra. É o sertanejo, habitante distante da nossa civilização urbana e niveladora. São homens e mulheres com o espírito aberto por vezes ao fantástico, ao extraordinário, ao milagre, e são elas que decifram o “Chão dos Simples”, obra que conduz o leitor ao lado misterioso da existência, revelando que a natureza e a própria existência transmite inúmeros recados aos homens. Pressentimentos, revelações, sonhos, pesadelos, sinas, mensageiros que transmitem aquilo que precisamos ouvir, ou a resposta para coisas que pensamos não terem resposta, mensagens que, se ouvidas, podem mudar os destinos de cada um. Tristezas e situações hilárias pautam Chão dos simples. Como não dizer que isso não é literatura universal se trazem um gigantismo filosófico? O próprio e genial Guimarães Rosa escreveu que “o sertão é o mundo”. Pois bem, isso é um exemplo dentre tantos escritores potiguares excepcionais, como os atuais Pablo Capistrano, Nivaldete Ferreira, Ana Cláudia Trigueiro, enfim o Rio Grande do Norte tem referências literárias de qualidade em vários estilos.

Creio que escrever uma narrativa na atualidade, aproximando-se de noções canônicas, apesar de caminhar para o estilo não-cânone, na lógica de que toda criação é uma destruição, é trair a tendência do texto imediatista e comercial da pós-modernidade industrial em que o autor reproduz, quase como cópias, características de personagens, cenários, narrativas, tipos humanos com pouco ou nenhum desenvolvimento.

Quantos filmes, livros, séries de livros, séries cinematográficas reproduzem o que Adorno chamou de “ausência do clássico”. Narrativas que seguem a mesma estrutura de um personagem principal que passa por uma tribulação e que segue toda a história dramática para superar o problema que o aflige, e o fim se dá basicamente na superação desse problema e na conquista da felicidade. O que significa isso senão a demonstração prática de uma subjetividade narcísica que destruiu toda a complexidade das tragédias?

O escritor acredita - ou é induzido pelo meio digital ou pelo mercado editorial, a investir num aspecto “novo/diferente” de narrar, mas que não tem nada de novo. Como nasce o novo? Por escolher abdicar do estilo próprio da escrita para abraçar o suposto "novo'', muitos autores abandonam a própria originalidade para parecer palatável.

Alguns autores optam pelo caminho mais difícil, sem se importar em agradar o leitor com mamão com açúcar. São mais exigentes e sólidos. Não erguem castelos de areia que logo somem com o vento. Salvas as exceções, assistimos e consumimos com frequência a banalização da literatura e sua redução à mera mercadoria.

Atualmente as grandes livrarias estão abarrotadas de livros de autoajuda, relatos de viagem, biografias de homens ricos e socialites, alimentadas pela indústria do entretenimento. Os autores de obras literárias aparecem em segundo plano adiante, aceitos e contemplados apenas pelos críticos, por quem não deixou se enganar, e por uma elite intelectual que pouco se deixa levar pelas novidades da indústria cultural. No caudal disso tudo a literatura como arte tornou-se autônoma e aparentemente inacessível ao grande público.

O assunto é complexo, principalmente na filosofia da estética, pois está a abranger política, educação, pedagogia e a cultura de um povo, propriamente. Parece até piegas a conhecida e inacessível frase “um país se faz com homens e livros”, e dependendo da qualidade do livro se explica a qualidade do homem. Uma geração que preteriu Paulo Freire em detrimento de ler as biografias de homens ricos de Wall Street não parece estar construindo um futuro interessante.

Se o aprendizado em comunhão e a solidariedade são concebidas como perda de tempo, e o egoísmo patológico e a subjetividade humana domada pela lógica concorrencial são tidas como virtudes, o que nos reserva?

Imagine esse público diante de Memória do Cárcere, de Graciliano Ramos, Os Sertões, de Euclides da Cunha, Grande Sertão Veredas, enfim as obras de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Machado de Assis, padre Antonio Vieira, Lima Barreto e outros. Que susto tomariam diante de Os Miseráveis, Os Irmãos Karamazov, O Idiota, Madame Bovary, O conde de Monte Cristo e tantos outros.

Somente um povo bem educado a partir dos anos iniciais com acesso à literatura de excelência, a museus, teatros, exposições de arte etc, frequentemente estimulada a desenvolver a criatividade, mudará essa realidade.

domingo, 16 de maio de 2021

"Ele que vá a reputa e triputa que lhe pariu!"


TRETAS…

As duas histórias contadas abaixo são reais. A primeira se passou entre os notáveis Mário de Andrade e Oswald de Andrade. A segunda aconteceu entre eu e Dona Fulana, uma senhora de 83 anos, enquanto registrava as memórias de uma determinada cidade e ela me saiu com essa pérola que nunca esqueci. Pois bem, no calor da disputa pela liderança do Movimento Modernista, as duas insignes figuras se envolveram numa briga dessas típicas entre intelectuais vaidosos. Cada um queria ser o pai do movimento. Estou falando de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Nessa história de disputar a paternidade do Movimento Modernista, acabaram se tornando inimigos. Isso serve para vermos que alguns imortais brigam e conservam picuinhas! Imagine quem não é imortal! Certa vez, Mário de Andrade foi orientado por amigos a reatar a amizade com Oswald, alegando que seria mais civilizado. Ele não quis. Veja suas palavras retiradas literalmente de uma carta que  Mário escreveu em 1945: “Ele que vá a reputa e triputa que lhe pariu”. Por ironia do destino, poucos meses depois Mário morreu de infarto. Morreu inimigo. 

 


Na realidade, Oswald fez inúmeras tentativas de reaproximação, mas Mario jamais perdoou Oswald, que também lhe chamou de “Oscar Wilde por detrás”. Para o bom entendedor, não precisa explicações. Oswald era diabólico. Essa confusão de intelectuais nos faz perceber que Mário tinha um gênio forte, mas talvez nem seja somente esse o motivo de sua inflexibilidade, pois Oswald fazia o tipo cínico, que feria o “amigo” e mesmo assim queria a sua amizade. Pois é, essa foi a história de Mário e Oswald. Mas o que a dona Fulana, de uma minúscula cidade do Rio Grande do Norte tem a ver com essa história? Quase tudo! No calor da entrevista, já bastante familiarizada comigo, desenrolando o novelo de sua vida sem cortes, ela comentava sobre a presença de soldados norte-americanos em Natal, durante a Segunda Guerra Mundial - e suas façanhas pessoais. De repente, num rompante, ela disse que tinha sido puta. Essa informação, dita a queima roupa, não escondeu minha demonstração de surpresa - quase um susto -, pois eu nunca ouvi os mexeriqueiros de plantão da cidade contarem essa página da vida dela. E também pesava aquele comportamento típico que mantemos ao lado de idosos, redobrando a respeitabilidade. Então, no vavavu da conversa ela fez questão de complementar “já fui puta e ripiputa!”, como se quisesse dizer que fora uma puta de marca maior, uma super puta. Fiquei impressionado com a sua sinceridade e o neologismo usado. Pois então, eis que nessa entrevista dona Fulana me fez lembrar desse episódio antigo entre Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Quem teria inventado essa expressão tão parecida com a de Mario? O povo brasileiro é criativo até para xingar. Mário escreveu: "Ele que vá a reputa e triputa que lhe pariu!" Mas se ele tivesse conhecido dona Fulana, teria dito "Ele que vá a reputa e triputa que lhe pariu, aquela puta e ripiputa!
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OBS. Por uma questão ética, omiti o nome e a cidade reais da referida senhora, embora pessoas mais próximas poderão identificá-la, pois os mais antigos sabem do episódio.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

A mulher que enganou o diabo e o prendeu numa garrafa

 


A MULHER QUE ENGANOU O DIABO...

Certa vez uma mulher encontrou uma garrafa de vidro e a tomou nas mãos. De repente percebeu que havia uma coisa esquisita se mexendo dentro do recipiente. Era o diabo.
Então ele disse:
- A belíssima dama poderia me tirar daqui?
A mulher percebeu a perspicácia da estranha figura, pois ela mesma se achava feia demais. Mas como era velha e calejada pela vida, não se importava mais com as piadas que recebia, quis brincar com a situação e disse:
- Pois bem, nobre cavaleiro, claro que posso. Eu tenho poderes para lhe soltar e lhe prender.
No mesmo instante ela retirou a tampa e o diabo deu um salto, e como mágica, assumiu a estatura de um homem normal, muito embora fosse todo vermelho, olhos como fogo, um imenso rabo e tridente na mão. Ele acomodou-se sobre uma pedra, aliviado e disse:
- Ufa! Graças a Deus! Há muito tempo o Todo Poderoso havia me trancafiado aqui.
A mulher disse:
- Estranho! justo o senhor dar graças a Deus! Nunca imaginava ouvir o diabo dando graças justamente a Deus!
O diabo atalhou:
- Eu disse isso?
- Claro! Vosmecê dissesse um claro e notório “Ufa! Graças a Deus!”
- Cruz credo! Ave Maria! três vezes, eu falei isso sem querer. Foi força de expressão!
- Olha agora o que vosmecê acabasse de falar!
- Como assim?
- Vosmecê acabasse de dizer claro e em bom som “Cruz credo! Ave Maria! três vezes!”
- Eu disse isso? Sostô!
- Claro! Vosmecê dissesse “Ave Maria! Cruz Cedo três vezes!”
- Sostô! Meu Deus eu dizer logo isso! Com certeza foi força de expressão!
- Vôts! agora acaba de dizer “Sostô! Meu Deus eu dizer logo isso!”
- A senhora está querendo me enlouquecer!!! Bem que me disseram que com mulher não se brinca. Já dizia a minha mãe “não se fia em muié, os zóio estão fechados e as pestana estão bolindo”.
- Sabida a senhora sua mãe, mas se se brinca ou não se brinca, o senhor é que deve estar brincando! Juro! Acabei de ouvir o senhor chamando por Deus. Ouvi muito bem com essas zurêia que Deus me deu.
- Certo. Eu até acredito, mas na realidade quis mesmo chamar pelas potestades do mal.
- Cruz Credo, vire essa boca para lá! Leve o teu mal para os mil e seiscentos diabos!
- Ora! Mas fiquei curioso com uma coisa que a senhora disse logo no início!
- E que coisa é essa, seu diabo?
- A senhora disse que tinha poder para me soltar e me prender novamente. Que astúcia é essa? A senhora está falando com o diabo. Respeite! Pois não sou qualquer coisa, não! Mas como eu estava dizendo, não és tão esperta? Então me tome nas mãos e me coloque de volta na garrafa, e fique logo sabendo que daqui a alguns segundos eu saio daqui já levando a sua alma.
Percebendo o erro grave que cometera, a mulher pensou logo em reverter a situação, mas preferiu dar corda ao enfitete enquanto matutava uma saída. Então ela disse:
- Senhor diabo, eu só estava brincando. O senhor é que tem poder. Quem sou eu diante de tamanha potestade. Se tivesse poder para colocá-lo de volta na garrafa não me agradaria, afinal estou adorando a vossa companhia. Se eu o colocasse na garrafa não estaria nessa prosa tão gostosa com vossa encelença!
- Ah! é? Mas eu preciso sair aí pelo mundo. Tenho muito serviço para fazer... tem muita gente chamando por mim, e a cada chamado é uma alma a mais para mim. Pois bem, eu vou chegando!
- Não vá – insistiu a mulher - fique e prove de fato que vosmecê tem poder. Queria ver de perto, na prática, o que dizem sobre vossa nobre pessoa. Se vosmecê é mesmo o diabo, faça o que eu irei lhe propor.
- Sois abusada mesmo! Não basta a minha cor e o meu rabo?
- Pois isso para mim não é nada. Minha tataravó dizia que a avó dela dizia que o diabo de verdade até bonito é! Creio que vosmecê é só um embusteiro se fingindo de diabo!
- Era só o que me faltava! Nunca imaginei ouvir isso justamente de uma mulher. Mas a senhora não viu que dentro da garrafa eu estava do tamanho de uma lagarta? Não percebeu que quando a senhora me soltou eu fiquei com a estatura de um homem adulto?
- Vi, mas ainda não acreditei.
- Mas que mulher mais atrevida! Eu bem poderia fazê-la virar pó agora mesmo!
- Pode até ser, mas não me daria o gosto de ver a prova de que és um diabo de verdade!
- Pois então diga o que a senhora quer?
- É o seguinte, se sois essa coisa toda que falam, entre e saia novamente da garrafa. Duvido se consegue. Vosmecê lá tem poder para ficar pequeno de novo e entrar nela? Sois um mentiroso!
- Oras bolas, quantos insultos! Nem de Deus eu ouvi tanta sandice. Saiba que eu sou o pai da mentira. Mas se achas que sou um besta qualquer, estás muito enganada. Eu entro e saio disso sem problema algum.
A mulher deu uma gaitada estrondosa.
- Rindo de quê? A senhora está muito gaiata!
- Estou rindo da sua inocência de ficar fingindo que é o diabo!
Dessa vez foi o diabo que gargalhou.
- Então vou lhe pedir uma coisa. Quando eu me virar, conte até três.
- 1... 2... 3...
De repente o diabo sumiu.
- A senhora está me vendo aqui dentro da garrafa? Está satisfeita agora?
- Muito satisfeita!
E em fração de segundos a mulher tampou a garrafa.
- Pronto! Agora me diga quem é mais esperta, a mulher e o diabo?
- Deixe de astúcia, minha senhora, me tire daqui.
Ora bolas, por certo pensa que eu sou boba. Lembra que sairia daqui levando a minha alma?
- Eu falei isso de mentirinha!
- Que conversa é essa? Vosmecê ia tomar a minha alma. Mas fui muito mais sabida. Eu não disse logo no início que tinha poder para lhe soltar e lhe prender? Só fiz cumprir palavra. Eu, sim, tenho palavra...
- E esperteza! Atalhou o diabo, cheio de ódio!
Sem pestanejar, a mulher cavou um buraco de mais ou menos três metros, enterrou a garrafa e foi embora muito feliz. Essa é a história da mulher que enganou o diabo. Ouvi-a contada por minha mãe, que ouviu-a de sua avó que ouviu-a de sua bisavó, que ouviu-a de sua tataravó... (L.C.F.).
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Imagem: Pinterest. Esse texto foi baseado na narração de um bêbado que encontrei no centro de Natal em 2014. Passei uns 40 minutos conversando com ele, quando pude colher essa pérola do folclore numa versão etílica. O corpo desse senhor exalava um cheiro fortíssimo de urina, mas a história era tão boa que precisei renunciar o olfato. Na realidade a história tem uma moral. Para mim a moral dessa história está na inteligência da mulher, a sua capacidade de se reinventar diante das agruras da vida, inclusive para driblar os preconceitos e o machismo de muitos.

 

terça-feira, 4 de maio de 2021

Otacílio Lopes Cardoso - Nomes de Nísia Floresta...


Otacílio Lopes Cardoso é uma figura atualmente desconhecida em Nísia Floresta, cidade onde nasceu aos 19 de julho de 1919, na então "Papari", mas foi considerado a memória viva de Natal de seu tempo, na capital do Rio Grande do Norte. Era filho temporão de Pedro Cardoso e Francisca Lopes Cardoso, ou seja, nasceu muitos anos depois do casamento dos pais, mas também teve outros irmãos, como Omar Cardoso que infelizmente faleceu aos 25 anos de idade após se formar em farmácia, Alcides Lopes Cardoso, Desilda Lopes Cardoso e Alba Lopes Cardoso. Seu pai era delegado de polícia e, como era muito comum à época, era considerado um médico da cidade, assim como também o era o famoso “Sr. Candinho”, ou Cândido Freire (mas essa é outra história). Ele reunia vastos conhecimentos na área da farmacopeia.

Desde criança, Otacílio se revelou uma criança muito diferente, pois adorava ler e aguardava com encantamento os dias de chuva, quando a mãe abria um imenso baú onde guardava muitos jornais, revistas e livros, destacando a famosa revista “Tico-Tico”, lida por quase todas as famílias brasileiras, pois circulava nacionalmente, graças aos trens, navios e lombos de jumentos. Sua mãe usava a tática de conservá-lo dentro de casa para não se sujar no inverno, cujas revistas se tornaram babás de papel. Não há como negar que essa rica revista foi o alicerce do que ele se tornaria.

Aos 13 anos de idade, lendo Nick Carter ou Búfalo Bill, foi presenteado com o livro “Vivos e Mortos”, de Agripino Griecco, obra essa que permitiu-lhe conhecer uma infinidade de autores, após adquirir todos os livros desse autor carioca. Enquanto o nosso atual presidente da república tem como livro de cabeceira uma obra (se assim podemos dizer) de autoria de um assassino e torturador, o pequeno Otacílio era apaixonado pelo livro “Esses dias tumultuosos”, do autor holandês Pierre Van Paesen, seu livro de cabeceira.

Otacílio iniciou a sua a juventude marcado por uma tragédia, pois aos 15 anos de idade perdeu a sua mãe, e aos 19 anos perdeu o pai. Mas eles deixaram para ele uma herança que vale mais que todos os tesouros do mundo: o despertar para a leitura. E foi justamente o seu amplo e precoce embasamento intelectual que o permitiu ser contratado pelo jornal “A Razão”, situado em Natal, para onde se mudou com as duas irmãs, pois o irmão militar trabalhava em Aracaju, Sergipe, onde fora designado pelo Exército durante a Segunda Guerra Mundial. O jornal “A Razão” consistiu num novo baú de conhecimentos, permitindo articular-se com pessoas de seu nível intelectual, somando novos conhecimentos e conhecendo figuras renomadas como Luís da Câmara Cascudo.

Logo Otacílio foi convidado para trabalhar no mais importante jornal potiguar “A República”, onde trabalhou certo tempo, depois foi residir com o irmão, em Sergipe, mas retornou logo e ingressou nas Docas do Porto, onde trabalhou até se aposentar. Foi casado com a professora primária Júnade Lins Caldas, açuense, sobrinha do poeta José Lins Caldas. Foram pais de duas filhas: Nadja e Nara.

Uma característica muito especial de Otacílio foi a leitura e a pesquisa que seguiu toda a sua vida. Foi um homem muito atento às coisas públicas. Tinha um olhar muito politizado e publicava charadas nos jornais natalenses, usando o pseudônimo de Gil Vaz. Colaborou assiduamente com o jornal “Milho Verde”, que circulou durante três décadas. Foi um exímio cronista. Como memória viva de natal forneceu amplas informações ao escritor Manoel Rodrigues de Melo, quando este escrevia a obra “Dicionário da Imprensa no RN”. Já idoso, gravou uma fita cantando modinhas para o pesquisador Cláudio Galvão.

Toda Natal conhecia Otacílio Cardoso. Era presença constante nos sebos, bancas de jornais e revistas. Falava com desenvoltura e nutria um cabedal intelectual que causava admiração, embora, apesar disso tudo, era extremamente tímido. Certamente isso o impediu de ser um fluente autor de obras literárias. Ele ainda arriscou selecionar suas memórias, fatos pitorescos, sob o título “Isto aquilo, aquilo outro”, mas não prosseguiu. Dizia que não sabia se chegaria a “cumprir a ameaça”. Que pena!

Otacílio Cardoso foi um dos vencedores de um concurso promovido pela Fundação José Augusto em 1980, com o seu conto “O velório”, publicado no livro “Cinco contistas potiguares”. Também publicou “Folha da semana”, jornal literário e noticioso, onde foi redator na década de 1940, em seguida “O gráfico”, orgão do Sindicato Gráfico Norte-Rio-Grandense, como secretário. Depois, “Zé Pereira”, tornando-se diretor no oitavo ano de circulação. Revista “Milho Verde”, que circulou no período de 1931 a 1956, e colaborador do livro “Erasmo Xavier”- O elogio do delírio”, RC, ed. Clima, Natal, 1989.

Uma característica, nem sempre comum aos intelectuais, foi a sua generosidade intelectual. Otacílio ajudava quem o procurassem para orientar pesquisas, documentar algum trabalho de interesse da memória de Natal, tirar dúvidas, sugerir ou emprestar livros enfim. Sem dúvida foi um dos maiores memorialistas que já tivemos. Otacílio se encantou o dia 26 de novembro de 1999, aos 80 anos de idade.