ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Os sertões - Euclides da Cunha (Reflexão)


Em 1989 li o clássico OS SERTÕES, de Euclides da Cunha. Ele foi enviado pelo jornal Folha de São Paulo para a Bahia para cobrir a guerra de Canudos: uma revolta pelo intelectual Antonio Conselheiro. Essa obra é, no dizer de Antonio Cândido, “precursora no desenvolvimento das ciências sociais nos anos 30 e 40”. O autor acaba trazendo a baila o pensamento nacional e os questionamentos sobre o atraso do desenvolvimento no interior do Brasil e do próprio país em relação aos outros.

 Euclides da Cunha inicia fazendo uma descrição perfeita da seca do nordeste e dos elementos que a integram, inclusive o vaqueiro. Há partes que parecem terem sido escritas hoje. Depois ele conta a história de duas famílias inimigas: os Araújo e os Maciéis, nessa última, faz parte Antonio Conselheiro, ou simplesmente Antonio Vicente Mendes Maciel, os quais eram pessoas de considerável poder aquisitivo para os padrões de sua região. Alguns episódios são comparáveis à história de Lampião, haja vista a injustiça que velhos coronéis, políticos e juristas cometeram contra a família Maciel, os quais eram pessoas de bem. Sabe-se que as brigas familiares, no sertão do Nordeste, tinham sempre como fatores determinantes a luta pela terra e pelo poder político. E o Estado sempre ficava do lado dos grandes latifundiários.

 Penso que uma série de fatos injustos acabou condicionando Conselheiro a abraçar a causa da defesa da terra para quem não tinha. Não foi mais que isso. E ele fez com muita inteligência, pois, além de ser um homem culto, era extremamente focado (embora muitos o vendem como insano, beato etc). Seu discurso impressionava pela profundidade e pelo conhecimento que ia da Bíblia aos mais importantes clássicos.

 Ele assumiu pastas públicas respeitáveis, como escrivão de juiz de paz, requerente do foro, advogado provisionado, além de ter montado escola onde era professor. O fato de a sua história ser mal interpretada ou contada por pessoas preconceituosas faz com que o vejam de forma negativa. O próprio Euclides é infeliz em vários pontos, embora o grosso da obra seja fundamental para a leitura de todo brasileiro. A guerra durou de 12 de novembro de 1896 a 5 de outubro de 1897, ou seja, logo após a proclamação da república.

 O Arraial de Canudos atraia todas as categorias: artesãos, pequenos proprietários expulsos de suas terras pelos grandes ou pelo fisco, imigrantes, alforriados, escravos fugidos, elementos de todos os tipos, mas rezavam a cartilha da organização, da partilha, da “união faz a força” etc. Mas como ninguém tem bola de cristal, é certo que muitas pessoas – inclusive autoridades respeitáveis –abandonaram suas vidas e seus cargos para seguir o Conselheiro, pois eram inimigos do novo regime republicano recém-instalado.

 Canudos tornou-se uma Canaã e fez medo à República que engatinhava desorganizada e politiqueira. Obviamente Antonio Conselheiro tinha lido Utopia, de Tomas More. Não é possível! E fez bom uso. Certamente a origem histórica de Canudos deu-se na ideologia desse clássico de More. Interessante era que ele recebia o mais profundo respeito das pessoas adeptas a Canudos, por pura admiração e pelo espírito igualitário como eram tratados. Foi um homem respeitado por muitos, desde mendigos a autoridades, inclusive, ao contrário do que alguns apregoam, até alguns padres o admiravam. 

 Certos trechos do pouco que ele deixou escrito são antológicos e não ficam atrás do que falaram ou escreveram os maiores abolicionistas. Infelizmente os governantes não entenderam quão visionário fora Antonio Conselheiro. O jeito foi matá-lo. E olha que deu trabalho, pois precisou de cinco expedições. Vieram militares de todo o Brasil, nos mais altos postos.

 Quase todos morreram pelos “jagunços” do Conselheiro, os quais eram em número superior aos pelotões de todo o Brasil. Precisou então fazer uma “salada brasileira de soldados”, na qual ia de gaúchos a nortistas. Mais de seis mil homens, canhões e as mais potentes (para a época) armas de fogo.  Tanto o pelotão do Conselheiro quanto o pelotão dos militares (expedicionários) teve um inimigo em comum: a seca! Ela matou a muitos. A história vale a pena ser lida, relida, refletida e imitada pelos políticos brasileiros. (escrito em 2014)

"A lágrima de um Caeté", de Nísia Floresta e "Caetés", de Graciliano Ramos: tempos diferentes, pensamentos semelhantes...

 Eu havia lido Caetés em 1980. Até então conhecia Nísia pelas contações maternas. Eis que cai nas minhas mãos, preparado pela professora Constância, A lágrima de um Caeté, séculos depois - precisamente em 1997. Eis que relendo Caetés, do nosso amigo Graciliano, há uns 15 dias, dou-me com uma identificação isolada, mas curiosa entre as duas obras (não dizem que toda vez que relemos, descobrimos um trecho despercebido?). É nada mais que um encontro de ideias entre o velho alagoano com a papariense de Floresta. Mas muito interessante!

 


O personagem principal, João Valério, vendo fracassar o sonho de escrever um livro sobre os índios Caetés, e triste por Luísa (viúva fresca) tê-lo recusado em casamento, prosta-se a chorar o seu fracasso assim: 

"Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E eu disse que não sabia que se passava na alma de um Caeté! Provavelmente o que se passa na minha, com algumas diferenças. Um Caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lê jornais, ouve missas. É isto, um Caeté..."

 


Já a moça da Floresta Brasileira diz assim no seu " A Lágrima de um Caeté: 

"Indígenas do Brasil, o que sois vós?

Selvagens? Os seus bens já não gozais... Civilizados? não... vossos tiranos

Cuidosos vos conservam bem distantes

Dessas armas com que ferido tem-vos.

De sua ilustração, pobres caboclos!

Nenhum grau possuis! ... Perdeste tudo, Exceto de covarde o nome infame..."

 

Pois bem, ambas as obras se distam 84 anos (1849/1933). Românticas. As ideias, porém, são próximas ou idênticas, embora que num parágrafo apenas. Aí reside a beleza da leitura, as conexões, as identificações, os antagonismos... Quem diria que Graciliano e Nísia se encontrariam? Só mesmo os cérebros dos leitores loucos permitem esses namoros literários.

Padre João Maria, o sacerdote que dormia no sótão da igreja...

 

Quando andou pelos recônditos paparienses, padre João Maria percorria léguas em visita às pessoas pobres e doentes, outrora dando a extrema unção... coisas que hoje alguns o fazem com grande sofrimentos, ocupados com os ricos...

Padre João Maria esteve por ali no período de 1878 a 1882. E levou junto com ele a irmã Militana. Em 1877 os flagelados da seca fugiam de diversos municípios vitimados pelas agruras desse fenômeno natural, então ele se desdobrou para dar assistência a esse público. O êxodo desse povo às terras paparienses se deve à fartura de águas e peixes no lugar, além das terras férteis.

Padre João Maria usava o sótão da igreja para dormir (aquela parte detrás do altar-mor), toda em madeira. Encontra-se em andamento o processo para a sua canonização. Se isso ocorrer, o lugar será caminho de peregrinação e pesquisas escolares e universitárias, precisando, por isso, ter as características desse lugar muito bem respeitadas.

Foi desses sacerdotes que atualmente estão quase extintos... Para homens assim, que se doam aos pobres de coração, e dão-lhes alento, ouvem suas dores, buscam formas de alimentá-los física e espiritualmente, eu tiro o meu chapéu e dou-lhes a minha mão... Ele nasceu em 1848, em Caicó, e faleceu em 1905, em Natal. Até hoje seu enterro não foi superado em número de pessoas que acompanharam o cortejo. (escrito em 2013)

sábado, 4 de dezembro de 2021

Chicuta Nolasco e sua relação com Nísia Floresta quando da chegada dos seus restos mortais em 1954


      Em 1954, quando os despojos de Nisia  Floresta chegaram ao Brasil, que aportou no cais de Natal, uma multidão o aguardava, ali mesmo foi executado o Hino Nacional enquanto os despojos deixavam a embarcação. Houve missa no Ginásio Municipal de Esportes em Natal. à ocasião a jornalista e professora D. Chicuta Nolasco Fernandes, então diretora da Escola Normal de Natal, organizou um grupo de alunas para fazer as vezes de "Guarda de Honra" junto ao caixão com os restos mortais de Nísia Floresta. A educadora recebeu muitas críticas devidas ao histórico de conservadorismo da instituição, além de outras autoridades. Alguns natalenses não compreendiam como uma escola com padrão de referência  parava para homenagear uma mulher cuja história era regada à  difamação decorrente da famosa carta-detratora escrita por Isabel Gondim.

 Sabemos que entre 1884 (data da carta) e 1954 (chegada dos despojos) perpassaram 70 anos. Muita água rolou e diversos acontecimentos evocativos à Nísia Floresta aconteceram em diversos lugares, por exemplo, o monumento em sua homenagem (em Papari/1909), outro monumento em Natal (1911), dentre conferências, textos de simpatizantes pelo Brasil afora. Adauto da Câmara já havia publicado um belo livro sobre Nísia Floresta (1941), Raquel de Queiroz escreveu sobre ela na década de 50, Monteiro Lobato também a enaltece em um de seus livros que no momento não me recordo o título. Enfim, soma-se a esses nomes figuras extraordinárias como Gilberto Freyre e uma infinidade de brasileiros. Mas a carta de Isabel Gondim ainda era muito forte. Muitas pessoas pareciam mais estimuladas à fofoca que à verdade. E esse ranço, embora muito diluído, ainda segue.
 

D. Chicuta Nolasco foi metralhada por críticas, mas não abriu mão. Ela sabia da importância de sua conterrânea e ignorou os opositores gratuitos, inclusive algumas autoridades. Foi um dos gestos mais belos ocorridos no RN quando do referido episódio. Para quem não sabe, D. Chicuta nasceu em Jardim de Piranhas, diplomou-se em 1929 e sempre se envolveu em polêmica.
 
Em 1930 ela foi contratada pelo governo pernambucano para integrar a Comissão de professores para colaborar na reforma "José Escobar". O episódio provocou grande celeuma nos centros educacionais do país. Exerceu a função de professora de História e Língua Portuguesa na Escola Doméstica durante 35 anos. Foi a primeira mulher a exercer o cargo de diretora da Escola Normal de Natal. Depois foi nomeada para lecionar Língua Portuguesa na Escola Normal de Natal. Essa escola recebeu posteriormente o nome de "Instituto Presidente Kennedy". Também colaborou no jornal A República, escreveu peças teatrais e pertenceu a várias instituições filantrópicas e de outras naturezas em Natal.
Tive o prazer e o encantamento de estar com Chicuta Nolasco entre 1992 a 1993, quando ela contava com 84 anos de idade, grande amiga da professora Noilde Ramalho, dos tempos da Escola Doméstica. Conversamos algumas vezes. Pouco tempo depois desse contato, ela se encantou.
 

Em 2007 visitei a professora Noilde Ramalho na Escola Doméstica, onde ela foi diretora por mais de 50 anos. Foi uma tarde inesquecível. Muito serena e delicada, ela atendeu-me como quem recebe um parente querido. Conversamos muito em sua sala. Contei-lhe que havia estado com Chicuta Nolasco e ela se surpreendeu a ponto de mudar a fisionomia, em nítida admiração.Havia uma caneta de caligrafia em sua mesa. Ela informou ter comprado num país que não me recordo mais. Então, como calígrafo, peguei dessa caneta e de um papel e comecei a escrever palavras aleatórias; depois caligrafei o nome "Noilde Ramalho”. Nunca me esqueço do seu gesto. Ela se afastou do espaldar da cadeira e, num rompante, trouxe a cabeça até se aproximar do papel. Ficou impressionada, dizendo que era difícil uma pessoa trazer aquela letra nos dias de hoje. Então expliquei-lhe que aquilo era fruto de um pai rigoroso, que tinha uma letra incrível.
 

Após boas conversas sobre coisas velhas do Rio Grande do Norte, ela disse que iria me dar um livro que gostava muito, e via em mim a pessoa certa. Então levantou-se, foi até um armário e esquadrinhou as prateleiras, localizando a obra "Menina Feia e Amarelinha", obra de autoria de Chicuta Nolasco. Um primor. Para mim foi um dos presentes mais significativos da minha vida, justamente por esse contexto, e por suas palavras.

Em 1954, quando os despojos de Nisia  Floresta chegaram ao Brasil, que aportou no cais de Natal, uma multidão o aguardava, ali mesmo foi executado o Hino Nacional enquanto os despojos deixavam a embarcação. Houve missa no Ginásio Municipal de Esportes em Natal. à ocasião a jornalista e professora D. Chicuta Nolasco Fernandes, então diretora da Escola Normal de Natal, organizou um grupo de alunas para fazer as vezes de "Guarda de Honra" junto ao caixão com os restos mortais de Nísia Floresta. A educadora recebeu muitas críticas devidas ao histórico de conservadorismo da instituição, além de outras autoridades. Alguns natalenses não compreendiam como uma escola com padrão de referência  parava para homenagear uma mulher cuja história era regada à  difamação decorrente da famosa carta-detratora escrita por Isabel Gondim. 

Adauto da Câmara já havia publicado um belo livro sobre Nísia Floresta, mas a carta de sua conterrânea ainda era muito forte. E  muitas  pessoas pareciam mais estimuladas à fofoca que à verdade. D. Chicuta foi metralhada por críticas,  mas não abriu mão. Ela sabia da importância de sua conterrânea e ignorou os opositores gratuitos, inclusive algumas autoridades. Um dos gestos mais belos ocorridos no RN quando do referido episódio.  

Para quem não sabe, D.  Chicuta diplomou-se em 1929 e sempre se envolveu em polêmica. Em 1930 foi contratada pelo governo pernambucano para integrar a Comissão de professores para colaborar na reforma "José Escobar". O episódio provocou grande celeuma nos centros educacionais do país. Foi a primeira mulher a exercer o cargo de diretora da Escola Normal de Natal. 

Essa escola recebeu posteriormente o nome de "Instituto Presidente Kennedy". Também colaborou no jornal A República, escreveu peças teatrais e pertenceu a várias instituições filantrópicas e de outras naturezas em Natal. 

 Ainda tive o prazer de conviver um pouco com Chicuta Nolasco entre 1992 a 1993, quando ela contava com 84/85 anos de idade. Conversamos algumas vezes. Pouco tempo depois desse contato, ela se encantou.  Também conversei muitas tardes com a professora Noilde Ramalho, que também conviveu com Chicuta, a qual me presenteou com "Menina Amarelinha", obra de Chicuta Nolasco. Um primor. E assim vamos montando o quebra-cabeça de histórias encobertas pela poeira da desmemória...

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Silêncio é poder


Muitos - não sei por quais critérios - julgam as pessoas mais expressivas e falantes (nem por isso mais dinâmicas ou mais inteligentes), como mais verdadeiras e versáteis. Em detrimento desse raciocínio equivocado, julgam que as pessoas calmas (nem por isso omissas ou menos inteligentes) podem ser enganadas facilmente. "São idiotas", "bestas" etc. É fácil fazê-las de bobas. Assim o dizem. E quando as calmas surpreendem por alguma atitude inesperada... tipo "alto lá!" imediatamente são rotuladas de perigosas. Mas não se engane! O melhor é protagonizado no universo da serenidade. Muitas vezes na amplitude do silêncio. Nunca ao som de um campanário, nunca de maneira espetaculosa. Já observou uma carroça vazia em movimento? Ela pode ser ouvida a metros de distância. Mas uma carroça cheia passa despercebida. O pio de uma minúscula gralha é ensurdecedor e não traz benefício algum. A visão do planeta Terra sob o ângulo de um satélite surpreende. Sua indescritível e emocionante beleza, descortinada ao longo da imensidão, ocorre no mais absoluto silêncio. Veja quanto poder é guardado nesse silêncio! A melhor voz é a do silêncio. Mas nunca pense que silêncio não tem cor, ouvidos, voz, raciocínio... silêncio é poder!

domingo, 28 de novembro de 2021

Lugar de fala ou alteridade?

Reconhecer o racismo sendo branco e combatê-lo é obrigação republicana, o que é diferente de um branco tentar protagonizar a luta de um preto contra o racismo estrutural. Outro exemplo é um homem reconhecer a importância do feminismo e contribuir na politização, outra coisa é tentar ser protagonista de uma luta política das mulheres. A luta anti-racista é, historicamente protagonizada pela luta do movimento negro, uma luta pública, que envolve também o papel do branco, não só no seu papel de politização, mas também como um parceiro de luta.
 
Há alguns dias atrás, ao defender um cidadão vitimado pelo preconceito racial, um leitor questionou porque eu fazia a defesa com tanta profusão, se nem preto era, alegando que eu não poderia sentir aquela dor e que deveria me calar. Deveria eu ficar mesmo calado diante de um abuso claro? Confesso que nem me ative à exigência do rapaz, porque, analisando friamente, não posso mesmo sofrer a mesma dor de um preto que vive num país de racistas falastrões, mas posso me indignar e colocar a boca no trombone e evidenciar o meu protesto. 
 
Posso me colocar no lugar dele e de outras pessoas vítimas de o que quer que seja. O sofrimento é uma característica psíquica do ser humano, que é um ser social. A dor pode ser um sentimento social, como aponta o filósofo Axel Honneth ao debater com a filósofa Judith Butler. Quando se comete injustiça com as comunidades indígenas, faz-se com todos os seres humanos em todo o planeta Terra. É assim com o preto, com a mulher, com a comunidade lgbtqi+, com as religiões (principalmente de raízes africanas), enfim com quem é vítima de qualquer injustiça.
 
A atitude desse jovem me transportou para um fato bastante curioso no tocante a um novo modismo conceitual no meio intelectual pequeno-burguês, transplantado dos liberais identitários estadunidenses, chamado “lugar de fala”, aqui no Brasil assinado majoritariamente pela filósofa Djamila Ribeiro e usado vulgarmente como “expressão do momento”, tanto como argumento essencialista de legitimidade de argumentação. Às vezes tenho a impressão que alguns “intelectuais” estão mais preocupados com neologismos e com palavras em si, que com a ação concreta sobre aquilo que está defendendo ou condenando. Assim penso.
 
Mas por que “essencialista”? Antes de explicar, me vem à cabeça o exemplo de “representatividade” do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Obama, somente em 2016, coordenou o ataque a bomba, totalizando mais de 26 mil bombardeios em países soberanos, matando dezenas de milhares de civis inocentes, crianças doentes, mulheres grávidas e estudantes. Obama é concebido como um colosso do progressismo mundial, endeusado por quase toda a esquerda brasileira, e por muitos, a cor de Obama é sinal de representatividade. Mas que tipo de representatividade imperialista é essa, que bombardeia e sequestra países?
 
É óbvio que a cor preta, não só nos Estados Unidos, mas no Brasil, foi subjugada pelos grilhões da escravidão, fisicamente e moralmente. O Brasil é um país racista, e ainda estamos engatinhando quando se trata de debater o epistemicídio, e o genocídio da população preta. Possuir representação preta é importantíssimo, mas como sempre pontua a filósofa preta estadunidense Angela Davis, o debate na democracia não se finda na representatividade, mas na consciência de classe.
 
E o que tem o conceito de “lugar de fala” com isso? Quando vulgarizado, esse conceito acaba por desenvolver uma barreira essencialista ao sentimento da alteridade. É como precisar possuir uma essência e uma vivência para exercer a potência do discurso e do sentimento, não a possuindo, o sujeito que exerce o discurso está fadado a ficar calado. É como escutei de uma amiga preta estudiosa da obra de Lélia Gonzalez, não adianta criar ferramentas disciplinares se o debate sobre raça e classe serão sempre debates públicos que abrangem todos os seres de nossa sociedade brasileira e as micro-relações de poder. TODOS! (E aproveitando certos invencionismos, “TODOS” é uma palavra que designa homens e mulheres!).
 
Um dos problemas mais centrais do cotidiano brasileiro, da tomada de decisão política e do nosso viver é a ausência e a dificuldade da ALTERIDADE. Alteridade é a capacidade humana de reconhecer no outro a si próprio, de se colocar no lugar do outro, esse outro que pode ser qualquer um; é reconhecer o outro como dotado de direitos humanos inalienáveis e intransferíveis. A alteridade é perigosa ao estado policialesco do capitalismo, que exige dos sujeitos esse sentimento de raiva e ódio pelas diferenças do outro, pela classe social, pelo gênero, pela cor, pela etnia.
 
Alteridade não tem cor nem sexo. Não se deve esperar alteridade como se tirasse cada uma de uma gavetinha específica para se usar cada uma como remédio específico. Se fosse assim, o atual presidente da Fundação Palmares, que é preto - seria modelo de alteridade ou do "lugar de fala". Não quero usar isso como regra, mas presenciei, certa vez, na cidade de Nísia Floresta/RN, uma senhora preta se emocionar ao ver chegar da maternidade, o neto (recém-nascido) branco como neve. O pai da criança, filho dela, preto igual a mãe, se casara com uma mulher galega. Meus ouvidos doeram quando ela, radiante de alegria, disse: “Olha, Luís Carlos, um branquinho para limpar a nossa raça!” Isso ocorreu em 1996. É óbvio que entramos, agora, numa outra alçada. É muito pano pra manga... assunto que dá mais três laudas e fica para outra hora. Mas ajuda a clarear para quem, porventura, não esteja entendo o cerne dessa reflexão.
 
Luto cotidianamente pelo sentimento e pela prática política da alteridade. Sempre entendi que não é necessário que eu passe fome para saber o que é essa desgraça e me indignar com a condição desumana de um faminto. Não preciso ter nascido numa aldeia indígena para conhecer seus plurais problemas herdados do genocídio colonial, como a fome, preconceito, falta de acesso às políticas públicas (prova disso são as minhas postagens). Não preciso ser um escorraçado humano, um degradado do capitalismo, um viciado da Cracolândia para reconhecer o quanto o capitalismo é injusto, perverso e ineficaz.
 
Os problemas mundiais pertencem a todos os seres humanos. Se uma mulher é agredida dentro de casa pelo marido, esse é um problema da república, não é assunto privado. Se um negro é morto a pauladas dentro de um supermercado francês, trata-se de um problema público, trata-se de racismo estrutural, e essa estrutura se chama CAPITALISMO. Todos têm lugar no sentido da criticidade. Defender que alguém não pode falar dos problemas que não sofre na pele é o mesmo que propôs a filósofa Hannah Arendt sobre os casos de Little Rock, interpretando que a violência de raça se trata de casos da vida privada, não importando se os negros sofrem de racismo, por ela considerar que violências privadas não são coisas públicas.
 
É INDISCUTÍVEL QUE SOMENTE QUEM SOFRE UMA DOR SABE O QUE ELA VERDADEIRAMENTE É. Mas isso não justifica que os outros não possam se reconhecer na pessoa que sofre a dor. Isso é coisa de civilidade, de caráter, de humanismo, de personalidade. É um patrimônio que pertence a todos. O exercício da alteridade é essencial, já esse “lugar de fala” parece descolado da realidade brasileira. Para mim, mais parece um fenômeno vocabular da moda, como foi a expressão "pertencimento", no início da década de 90. Quem não a usasse, não estava na moda. Há uma moda, cuja proclamação da palavra é mais importante do que a sua concretude. Tais pertencimentos não me pertencem… A propósito disso, conheço a história de uma respeitável pensadora que veio para uma palestra num determinado estado, e no hotel tratou todos muito mal, do dono ao faxineiro. Tanto que tornou-se “persona non grata” ali. Em teoria, ela era o oposto daquilo... mas na prática! Não vou falar aqui sobre o que ela veio falar. Você é inteligente e já captou!

 

sábado, 20 de novembro de 2021

O dia que o teto do altar-mor desabou na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, no ano de 2009 (texto escrito em 2014)

Imagem meramente ilustrativa da referida igreja. Embora se trate de fato ocorrido depois, essa cena fala mais que palavras. A igreja sendo reformada com todas as imagens antigas dentro dos nichos, além de restos de telhas e metralhas no piso de ladrilho hidráulico.

Quem é de Nísia Floresta vai se lembrar do que vou contar abaixo. O episódio ocorreu em 2009.  Refiro-me ao dia em que os moradores avizinhados à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó tiveram um susto quando houve um estrondo nas proximidades, e deram conta ter sido no altar desse templo.


O barulho atraiu a atenção de todos os que estavam por ali naquele momento. Eu encontrava-me num prédio próximo dali. Saí, rápido, dando conta que outras pessoas já se aglomeravam à porta da Matriz.
 
Confesso que "meu coração veio até a boca”. É interessante como o ser humano é ‘imaginoso’, pois um filme de trágico passou pela minha cabeça. Pensei que o imenso lustre de prata tinha se soltado, que os santos tinham despencado, que algum daqueles adornos folheados a ouro tinha vindo abaixo, enfim o estrondo – ampliado pelo eco – fez com que mil coisas fossem pensadas em fração de segundos, até que me deparasse com o que de fato ocorrera.
 
O estuque, ainda ao modelo daquelas peneirinhas, desabou, atingindo a cadeira central. Não houve danos maiores, exceto o desenho ornamental em alto e baixo relevos que virou “metralha”. Por sorte a minha mania de fotos tinha o registro do teto da Matriz. Desse modo, foi-me confiada a tarefa de transferir o desenho, em tamanho real, para o papel.
 
Logo foi providenciado o reboco e em seguida a confecção do referido adorno, tendo como molde o desenho que ampliei usando a técnica de quadriculado. O grande problema era encontrar uma pessoa capaz de fazer esse trabalho. Por incrível que pareça, um dos pedreiros que estavam ali disse que conseguiria executá-lo. Lembro-me que o administrador da Matriz, padre Inácio Henrique disse que ele “tentasse”. Se o resultado ficasse ruim, buscaria-se outra alternativa. O rapaz alegou que era impossível errar mediante o molde em tamanho real. Dito e feito. O desenho ficou tal qual a fotografia. Por que estou escrevendo isso, tendo passado quatro anos?
 
Estou escrevendo para “refrescar a memória” dos que entendem os fatos de forma equivocada e tentam confundir a mentalidade popular. Outro fato que reforça a ideia de zelo às coisas da Matriz deu-se pouco tempo depois, quando deparei-me com a parede sendo “cavoucada” para se construir um nicho para abrigar a imagem original de Nossa Senhora do Ó. Arrancaram as pedras originais – colocadas ali em 1735, jogaram no fundo quintal e deram início a construção do desnecessário nicho.
 
Sobre o assunto do nicho, na mesma hora telefonei para a Fundação José Augusto e informei o ocorrido, tendo a instituição designado funcionário que desautorizou a continuidade da “obra”. A orientação não foi obedecida. A única coisa positiva, e que consegui abortar, foi a construção de outro nicho na outra parede, em linha reta, que estava previsto (insanidade esta idealizada por um cidadão local).
 
À época fui muito criticado, pois as pessoas tendem a gostar mais das atitudes silenciosas e acovardadas, por parte de pessoas que fazem vistas grossas a absurdos desse tipo (e piora quando são de autoria de “autoridades”). Mas o que me importa realmente é de estar fazendo a coisa certa.
 
Hoje, quando protesto contra a forma equivocada como vem ocorrendo às obras da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, aparece gente tentando confundir o pensamento das pessoas mais humildes na tentativa de “demarcar terreno” de cunho político partidário e outros objetivos mesquinhos, tendo, ainda, o desplante de atribuir a mim a atitude que a ela pertence.
 
Não sou contra a reforma (isso está implícito no meu texto). Sou contra a forma como ela vem ocorrendo, pois não existiu a preocupação com um patrimônio de incalculável valor, pois ficou exposto (as fotos comprovam, inclusive essa, acima). A Matriz possui imagens raras, folheadas a ouro, que não podem ser expostas à luz do sol nem aos riscos que ficou. São nichos folheados a ouro que correm o risco de se molhar ou se estragar acaso despenquem ripas ou telhas que estão sendo tiradas. Tais peças foram feitas à mão. Seus vidros são artesanais e impossíveis de serem restaurados acaso se quebrem. São paredes que não podem receber água de chuva. É um piso raro, de azulejo hidráulico, exposto ao peso de andaimes, sequer protegidos por lona. Tudo isso estava exposto enquanto os pedreiros desmanchavam o teto. Montes e montes de telhas, em “metralha” se espalhavam pelo piso enquanto outras desciam por uma tábua. Foi inacreditável o que eu vi.
 
Não ignoro os esforços empreendidos pelos fiéis na execução de campanhas para custeio das obras e coisas afins. Sei que são difíceis. Já participei de muitas. O que ignoro e reprovo é o fato de as pessoas (algumas) não entenderem que uma reforma desse porte não pode se dar na perspectiva acanhada como ocorre. É inadmissível admitir que algumas pessoas achem certo que madeiras raras e caríssimas (como ipê e outras) sejam substituídas por madeiras comuns, que durarão, talvez, uma década.
 
Uma campanha como essa não pode ficar meramente na alçada de uma comunidade pobre, mas numa perspectiva incomparavelmente superior, envolvendo a Petrobrás, Fundação Roberto Marinho, bancos privados, iniciativa privada, governo federal e estadual etc, programados, obviamente, com muita antecedência. Se tivessem me procurado, no tempo hábil, eu teria reservado um tempo para construir um projeto nos moldes ideais – com a participação da FJA – IPHAN e UFRN - levando-o aos órgãos competentes, para depois postular a reforma nos moldes dignos, com os devidos patrocínios.
 
O correto, em se tratando do tesouro que é a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, é construir uma estrutura de metal sobre a Matriz com telhas de zinco – provisoriamente – e esvaziar o templo completamente, para só depois destelhá-la e arrancar todo o madeiramento. Fico pasmo com as visões diminutas de alguns. Agem como se reformassem um galpão velho do sítio. É uma igreja de 1735! Agora, vendo pessoa equivocada propagando que minha atitude objetiva promoção pessoal e política, só tenho a sentir pena, nada mais. É muita ignorância (ou outra coisa que desconheço – mas suponho aqui com os meus botões).
 
Finalizando, digo apenas a pessoa equivocada e desprovida de bom senso, que vá se informar sobre os meus feitos em Nísia Floresta, leia, estude antes de propagar maldades guardadas em coração recalcado. O meu cuidado com a Matriz não é de hoje! E não cessará agora. Aliás, o meu cuidado com o patrimônio material e imaterial de Nísia Floresta remonta décadas. Sua maldade me motiva a continuar respeitando o povo e o patrimônio de Nísia Floresta ainda mais. Sei que se você pudesse mandaria matar-me. Tente!

Um olhar diferente sobre a Bandeira do Brasil

Quando criança, lembro nitidamente a maneira como os professores ensinavam o significado da bandeira brasileira. Era assim: “o verde do retângulo significa as matas e a natureza; o amarelo do losango significa o ouro e as riquezas minerais; a cor azul do círculo representa os mares, rios, aquíferos e afins; as estrelas são os estados e o distrito federal, lembrando que a estrela solitária representa o Pará, que naquele ano (1889), era a nossa maior área territorial, próxima ao eixo equatoriano, portanto destacada mais acima; por último, a faixa branca representa a paz, e a frase ‘Ordem e Progresso’, inspirada no pensamento positivista, representa a síntese de que somente com ordem conquistamos o progresso”. 


Bandeira é um símbolo. Tudo nela possui significados: os traçados, o brasão, o selo e os desenhos. O tempo passou… eu era adolescente quando um livro se aproximou de mim, me levou até um canto e contou a verdade que não era dita em nenhuma aula. Minha professora - muito ocupada com outros assuntos, planos de aula, correção de “trabalhos”, provas, marido, filhos, roupas para lavar, comida para fazer, casa para varrer, roupa para remendar, roupa para passar, roupa para cerzir, roupa para engomar - não teve tempo para se aprofundar e nos repassar a significação exata da bandeira brasileira, portanto alegorizava a simbologia da bandeira. Era mais fácil. 

VERDE: Os livros me ensinaram que o VERDE é o símbolo da Casa Real dos “Bragança”. Tudo começou em Portugal, quando os lusitanos (portugueses) criaram uma bandeira branca com um enorme dragão verde ao centro, o qual simboliza um ser fantástico imbatível e vencedor (o dragão!). O próprio Jean Baptiste Debret, quando criou a primeira versão da Bandeira Brasileira, em 1820, traria o ente fantástico que findou, muitos anos depois, dando origem aos “Dragões da Inconfidência” que protegem o palácio presidencial e o palácio do Planalto, em Brasília. O verde, para os portugueses daquele tempo, representava as lutas libertárias, as grandes conquistas e, acima de tudo, a esperança e liberdade. Verde era o estandarte de Nun’Álvares, arvorado na batalha de Aljubarrota. D. Pedro escolheu essa cor para a bandeira brasileira por ser a cor da casa de Bragança. OBSERVOU QUE NÃO TEM NADA A VER COM VERDE DAS MATAS?



AMARELO:  Essa cor passou a figurar no brasão de armas de Portugal, após a conquista do Algarve. O amarelo estampa bandeiras, flâmulas e brasões traduzindo os castelos que representam as fortalezas que os portugueses tomaram dos mouros. O amarelo recorda, ainda, as cores do Reino de Castela (Espanha), ao qual, por muito tempo, Portugal pertenceu até a sua independência. Essa cor também é o símbolo Real da Casa dos Habsburgo. Dom Pedro escolheu o amarelo por ser a cor da Casa de Lorena, de que usa a Família Imperial da Áustria. OBSERVOU QUE NÃO TEM NADA A VER COM O NOSSO OURO, AS NOSSAS RIQUEZAS MINERAIS?



AZUL e BRANCO: São as cores do Condado Portucalense, fundado em 1097. D. Henrique de Borgonha criou, como insígnia, uma bandeira também chamada “Bandeira da Fundação”: uma cruz esquartelando um campo em branco em partes iguais. São essas cores que o filho, Afonso Henriques, levará à batalha de Ourique, arvoradas na bandeira paterna. Após as primeiras vitórias sobre os mouros, Afonso Henriques lhe modifica o desenho mas mantém as cores, o mesmo AZUL e BRANCO que Luís de Camões defendeu como soldado e exaltou como poeta, “braços às armas feito, mente às musas dado”. Nos séculos XV e XVI as naus portuguesas ostentavam a bandeira do Comércio Marítimo, ou das Quinas nas cores AZUL e BRANCO. Isso aparece num dos primeiros mapas do Brasil, feito em 1534. Inúmeros brasões dos capitães feudais portugueses que vieram para o Brasil traziam a cor AZUL e BRANCO, como Aires da Cunha (no Maranhão), Pero de Góis (donatário da capitania de São Tomé) dentre outros. Inclusive é importante lembrar que as diversas versões das bandeiras e flâmulas da Marinha, desde que a corporação surgiu, só trazem AZUL e BRANCO.  OBSERVOU QUE NÃO TEM NADA A VER COM O BRANCO DA PAZ E O AZUL DOS RIOS E MARES?

OBSERVOU QUE A BANDEIRA DO BRASIL REPRESENTA TUDO, MENOS O BRASIL?  


 
Nos séculos XV e XVI as naus portuguesas ostentavam a bandeira do Comércio Marítimo, ou das Quinas nas cores azul e branco. Isso aparece num dos primeiros mapas do Brasil, feiro em 1534. Inúmeros brasões dos capitães feudais portugueses que vieram para o Brasil traziam a cor azul e branco, como Aires da Cunha (no Maranhão), Pero de Góis (donatário da capitania de São Tomé) dentre outros. Inclusive é importante lembrar que as bandeiras e flâmulas da Marinha, desde que a corporação surgiu, são azuis e brancas.
 

A EXPRESSÃO “ORDEM E PROGRESSO” nada mais é que a síntese do lema do Positivismo, uma doutrina - ou Filosofia - criada pelo filósofo Auguste Comte com a finalidade de defender o pensamento republicano. OBS. Aproveito para esclarecer que, ao contrário do que muitos afirmam -, a intelectual Nísia Floresta, que frequentou as famosas aulas ministradas por Comte, em Paris, tendo o conhecido e se tornaram amigos - não foi a responsável por trazer o Positivismo ao Brasil, como muitos comentam e já presenciei em palestra. Há até o recorte da fala dele sobre isso, em que Comte diz que Nísia Floresta seria uma excelente discípula sua se não fosse tão metafísica.

 


 

Pois bem, para ampliarmos as reflexões, vale a pena entender detalhes lá dos detrás dos detrases, tendo em vista que o Brasil teve outras e outras bandeiras antes dessa atual. Por exemplo, entre 1815 a 1821 vigorou a primeira bandeira do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, que é a hipotética bandeira armorial do Reino do Brasil. Digamos que essa é a trisavó da atual bandeira… seria trisavó mesmo?

Depois, entre 1822 a 1889, vigorou o Pavilhão Pessoal dos Príncipes Reais, adaptado como bandeira do Reino do Brasil, de setembro a dezembro de 1822. Em seguida veio a bandeira do Império do Brasil, durante o primeiro Reinado, com 19 estrelas, depois a bandeira do Império do Brasil, durante o segundo Reinado, com 20 estrelas, depois a bandeira criada por José Lopes, depois a bandeira criada por Rui Barbosa (adotada pelo Governo Provisório) durante quatro dias. Houve uma bandeira também em 1889, provisória, que mais parecia a bandeira dos Estados Unidos da América, inclusive até nisso houve a cópia "Estados Unidos do Brasil". E finalmente a bandeira atual…

 

Enfim, tentei resumir no máximo uma longa e detalhada história de cores e simbologias que pincelam a atual Bandeira Brasileira. Acho até poético os professores ensinarem essa coisa ufanista às crianças, mas – entendam como quiserem –, nós, brasileiros, nunca tivemos a Bandeira do Brasil de fato, criada numa concepção nossa, retratando a essência do Brasil. Em que parte estão representados os povos indígenas na Bandeira Brasileira? Eram milhões! E os povos africanos vindos para cá feito escravos, em que parte da bandeira eles estão? 

Bandeira serve para traduzir em imagens os pontos chaves da essência de algo.  Onde está o símbolo que retrate a inteligência genuinamente brasileira? Ninguém ainda desenhou. A bandeira brasileira, se assim podemos interpretá-la, em nada traduz o Brasil. O que temos é uma bandeira que arrastou a Europa toda para ela, retratando a Áustria, a Espanha e Portugal. Nada simboliza a brasilidade. A interpretação infantil e alegórica dita lá em cima, no primeiro parágrafo, consiste, na verdade, em gesto deseducativo, pois, além de não retratar o Brasil, é um ensinamento fabuloso. Já que foi criada essa bandeira como símbolo do Brasil, deveriam pelo menos explicar aos alunos os seus reais significados. 

Penso que desenhar uma bandeira para chamá-la de brasileira em sua essência, prediz uma síntese da história e da essência do Brasil, e jamais a síntese da história de Portugal e de outros países. Então ela deveria trazer em destaque os povos nativos, que já estavam aqui há milhares de anos - apelidados de “índios” - que habitavam todo o Brasil, falavam milhares de idiomas, e possuíam uma complexa e magnífica cultura. E eles continuam habitando e falando, mas em número incomparável, pois houve um genocídio maior do que o da Covid-19. Foram milhões de mortos. 

A bandeira brasileira que desabrocha da minha brasilidade tem sete pessoas segurando o mapa do Brasil, em pé, sobre o planeta Terra. Quatro homens e três mulheres (ou vice-versa). Seis representam os seis continentes, cujos seus figurinos retratariam a essência de cada região. A sétima pessoa representa os povos indígenas, teria um cocar e a flecha. No chão haveria uma corrente quebrada representando a liberdade dos povos africanos escravizados, os quais significaram o motor da economia inicial do Brasil. Sobre o mapa do Brasil haveria um ramo da flor do pau Brasil representando essa árvore cheia de simbologia, inclusive, sua cor amarelo-ouro retrata as riquezas das mais diversas do nosso país. Lá atrás, no horizonte, teríamos pés de café, coqueirais e canaviais. Há uma representação da invasão dos portugueses, que chamamos de "descobridores". No fundo dessa imagem teríamos a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, em pé, trajando um vestido todo feito de labirinto, segurando um livro representando as obras completas de Machado de Assis. É uma homenagem à inteligência brasileira.



Finalizando a bandeira do Brasil saída dos meus dedentros... você já prestou atenção na bandeira de Portugal? A faixa maior é vermelha, evocando o aspecto ibérico da Espanha. Essa bandeira teria ao fundo, sob o brasão já explicado, uma larga faixa na cor vermelha (COMO É A DE PORTUGAL). É a representação do sangue de milhões de indígenas e escravos africanos. Seria a representação genuína de um duplo morticínio. No topo dessa faixa vermelha haveria uma coroa (seria a única representação de Portugal, até porque não podemos negar a História). Essa faixa vermelha teria em cima e em baixo, a cor branca (como um sanduíche, cujo recheio fosse o vermelho). Atravessando essas cores vermelha e branca, há o imenso rio Amazonas, descendo sinuosa e verticalmente do topo à base do retângulo. Essa é a bandeira do Brasil, segundo a minha interpretação.

 

Tantos anos se passaram e se esqueceram de criar a bandeira verdadeiramente brasileira, em que todos nós – brasileiros -, descendentes de povos indígenas, pretos, brancos e amarelos, autores que somos de uma inteligência nossa – brasileira –, nos reconhecêssemos, nos identificássemos e nos enxergássemos nela… Bandeira é a identidade de uma nação.

A bandeira do Brasil é o símbolo do nosso país, e não de outros país, como constatamos nessas informações históricas que tentei resumi-las.  Se analisarmos com honestidade, a Bandeira do Brasil ainda está por se desenhar. Alguns equivocados poderão tentar desvirtuar esta reflexão, associando a ideia ao Comunismo, Socialismo, PT, coisa de esquerda etc. Pois essa é a moda daqueles que não tem o que dar. A bandeira deve comunicar que a maior parte de uma nação legítima foi assassinada, e escorreu sangue... e sangue é vermelho... 20.10.20


A lei diz que não se usa a bandeira para vestir o corpo , arrastá-la no chão, fazer camisetas, bonés etc. Existe a maneira certa de dobrá-la, guardá-la e até mesmo aposentá-la (entregando-a ao Exército para ser incinerado em solenidade enfim há muitas recomendações que, se desrespeitadas, dão até prisão). Mas um detalhe é fundamental: é importantíssimo respeitarmos a Bandeira Brasileira, mas muito mais importante é respeitamos os brasileiros... isso está em falta...