ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A pandemia nos meus 102 anos de idade (relato de uma mulher centenária que viveu duas pandemias)


Nasci durante a gripe espanhola, em 1920, quando essa peste ainda comia o povo dois anos após desembarcar em nosso país. Cresci ouvindo mamãe contar sobre a doença fatal que se desabotoou no mundo em 1918. Muita gente se encantou em Mipibu e região, mas fui uma das vidas cuja peste não se engraçou. Sobrei. Era menina franzina, branquela, sem graça, creio que assustei o vírus. Escapei.

Particularmente não pude saber por mim como foi esse tempo, pois minha vida se inaugurava. O que soube se deu através de histórias escutadas a partir dos meus oito a dez anos de idade. Sempre alguém se lembrava da gripe espanhola. Cada história mais triste que a outra. Famílias inteiras morreram. Crianças perderam os pais. Pais perderam os filhos. A peste fez da Terra a morada do medo e da morte.
Mamãe contava que o povo vivia escondido igual faz hoje. Os doentes eram levados para locais retirados, onde as autoridades mandaram fazer barracos de palha para abrigá-los longe dos sãos. Ali se desencantavam e eram enterrados nas proximidades. A roupa de cama virava cinza ali mesmo. Há muitos cemitérios espalhados nas matas, sobras desse tempo horroroso.
Nunca imaginei que cem anos depois seria testemunha ocular de outra peste. Por mais que eu saiba que a gripe espanhola foi uma inquisição, para mim essa Pandemia é pior. Não me contaminei, mas estou acometida de solidão solitária. Velhice, por si é sinônimo de solidão, mas no contexto atual é torturante. Não sei por qual razão viver tanto. Muitos dos meus filhos já se encantaram. É indescritível depositar na terra quem saiu de dentro de você, quem você nanou e depositou num berço quentinho de vida e amor. Não me preparei para enterrar filhos. A lei natural ensina que eles nos enterrariam, mas precisei ir ao cemitério algumas vezes. É como puxar um gato para dentro da água. O mundo escurece. A boca amarga. Seu andar fica ataxico. O odor florivela empregna as narinas durante meses.
A Pandemia está sendo meio morrer de solidão. Os cientistas orientam uma espécie de resguardo. Eu já vivia toda abotoada na minha velhice, mas podia sentir o calor diário dos filhos que me sobraram, podia ver os netos, noras, genros esparramados casa adentro, como gatos. Mesa farta, conversas, casa cheia de vida. A peste os expulsou, pois tornei-me suscetível. Se não fosse os livros, as revistas, estaria vegetando. Mas até isso tem me enjoado. Até o alimento tem um desgosto, ao invés de ser um dos prazeres da velhice.
Quando mais jovem, eu gostava de solidão para pensar, ouvir as coisas que quase ninguém dá valor. Assim eu percorria o Sítio Araçá, recebendo presentes de Deus, escorridos como água pelo caminho. Eu catava poesia no mato. Mas a solidão, hoje, velha, pandêmica, soa como abandono, mesmo que não o seja, mas que precisa ser. Solidão com Pandemia é um apressamento da morte.
Peço a Deus que Ele dê fim à Pandemia, pois se é ruim para um jovem, não queiram saber o que é para um resto de vida, para aqueles que sobraram... Mas uma vez, sobrei. Sobrei diferente. Maria de Lourdes Freire.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Poema - Letra

 

LETRA

Havia naquela cidade uma mulher predestinada a usar uma saia por sobre uma calça.
Trajava camisetas em cima de camisas masculinas.
Nunca a vi sem lenço na cabeça.
Lenços estampados de restos de roupas velhas.
Suas calças eram amarradas com embira de bananeira.
Nos pés arrastava velhas Havaianas.
Contava oitenta primaveras de letras, creio.
O cajado lhe dava modos de caminhar.
Tinha alguns filhos.
Sua imagem arrastava uma aura exótica e pitoresca mais percebida por crianças.
Eis que vos apresentei-lhes Letra…
Era chamada assim na cidade inteira.
O apelido nasceu do hábito de pregar a palavra “letra” em suas conversas.
Para tudo era Letra, inclusive para sofrer.
Gastava a vida esmolando letras.
Letra foi um anjo que nasceu grudada no sofrimento.
Era serena, calma e um pouco doce.
Falava baixo, mas com autoridade.
Não pedia como os pedintes comuns,
Tinha as pessoas e os lugares certos de pedir.
Se outra vida existiu em Letra, pertenceu à realeza.
Havia algo de lorde em seus modos.
Era polida, serena e olhava com a alma.
Os olhos contavam mensagens misteriosas e indecifráveis.
Trazia a face carregada de estradas, veredas, trilhas, caminhos…
Lembrava um ‘Passifloraceae’.
As marcas eram tão profundas que lhe abortou a expressão de alegria.
Era um rosto padecido a sofrer.
Legado de desprezo e penúria.
Poucos enxergavam Letra.
Uma vez ela chegou ao local do meu labor.
Letra tinha livre trânsito onde fosse.
Os lugares se abriam à sua chegada.
“Eu vim aqui pra que o sr. me desse uma letra de café, uma letra de arroz e uma letra de feijão”.
Atendi-a como atendesse a minha mãe.
Tenho nos meus dedentros que as pessoas muito pobres estão vestidas de Deus.
Era engraçado o seu modo de pedir.
Ainda não tinha ouvido de perto.
Conhecia de fama.
Ri guardado.
A palavra “letra” funcionava como palavra-ônibus na boca dela.
Quando entreguei os produtos, ela determinou docemente:
“Agora eu quero uma letra de 1 real”.
Em 1997, o valor equivalia aos nossos 10 reais de hoje.
Entreguei o dinheiro e ela se despediu lordemente.
Uma funcionária havia assistido a conferência e proferiu um alerta:
“Só não dê dinheiro a Letra, ela gasta no Jogo do Bicho”.
Algum tempo depois, Letra retornou:
“Quero que o sr. me dê uma letra de 1 real”
Respondi:
“Letra, eu soube que você joga no Bicho; não é melhor comprar comida?”
Antes trancado a boca tivesse.
Com modos de realeza, ela se aproximou, demorou aqueles olhos de mistério e despejou-me a sentença:
“O sr. não deu o dinheiro? Não tá dado? Se deu é meu e eu faço o que eu tiver vontade, não é verdade!”
Engoli a gargalhada junto com a lição.
Como me ofender com Letra?
Nas idas e vindas reivindicando letras disso e daquilo, Letra deu-me aulas que não estavam nos livros.
O fato se deu numa cidade vizinha a Natal, onde morei um período.
Hoje, Letra descansa em alguma letra no cemitério.
Não sei em que letra ela morreu.
Não sei quantas letra ela tinha quando partiu.
Dia desses uma amiga me lembrou algumas letras engraçadas saltadas dela.
Sua vida foi uma via dolorosa
Cheia de estações de pedir.
Creio que Jesus se disfarçasse talvez de Letra...
Se existe inferno, Letra o experimentou aqui na Terra.
Só não sei se ela percebia.
Uma vida feita de mil letras de sofrimento.
Quantas letras iguais a ela existem nesse mundo?

Poema às pacas...


 
POEMA ÀS PACAS

Pacas carregam no currículo uma solidão tisnada de noturno. É animal predestinado à timidez das tocas e dos corixos. Há nelas uma conformação trilhada em quietude, à maneira que é animal mais para túneis do que para descampados. Pacas têm compromisso com a noite. É quando praticam o repasto de vegetais e frutas. Desgastam o dia inteiro viajando o ventre da mata, num silencioso desacordo com o sol. Trilham horas em seus carreiros ermos. Amam estar afagadas pelos braços das matas, como a esconder segredos. Bichos estradeiros, comedores de caminho. Sua comida é sua trilha. Desassistidas de visão, mal veem o focinho, mas trazem ouvidos de tuberculoso e cheiram a léguas. Narinas e ouvidos cumprem os olhos. Como poetas, têm os sentidos aguçados, ouças e narinas em profusão. Trafegam submersas em verde, despercebidas de bichos e homens, camufladas de invisíveis matizes. Pisam tal voassem, e assim mais voam em seus carreiros que pastam. Em seu emaranhado de trilhas há sempre o túnel das águas, onde se alimentam de vida, onde fogem dos predadores. Nadam qual peixe. Antipatizadas com a lua, se guardam nas pregas dos esconderijos. Na lua nova ou crescente, vigiam o pôr-da-lua para gastar a escuridão em repasto. Na lua cheia e minguante, se despem do ventre verde e retornam antes do luar. Paca dá à luz em segredo escuro, escondidas nas pregas das pregas das tocas. Pare um filhinho por ninhada. Ali, num labirinto de destinos que só ela traduz, a paca exercerá o magistério da vida silvestre. Ensinará ao seu infante o idioma da sobrevivência. Ensinará a filosofia do silêncio e os segredos de viver.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Aeroporto de Natal, uma vergonha...

OBS. ESCRITO NO DIA 13.2.2021
Ontem de manhã precisamos ir ao aeroporto Augusto Severo para Fídias embarcar. Então, como gosto de pensar, e como todo penso é torto, embora os meus sejam aprumados, pensei sem pender. Pensei sobre coisas que poderiam ser evitadas. Pensei sobre iniciativas estranhas e desnecessárias feitas pelos nossos governantes à revelia do povo, dignas de reflexões. Eu mesmo não me conformo com isso. Onde já se viu um aeroporto tão longe? A estrada é ruim e mal iluminada. A sinalização é péssima. Quem nunca foi ali, deve redobrar os cuidados para não entrar numa estrada errada. A maior parte do percurso é ermo. Uma casa aqui, outra a um 1 km. Uma granja à venda aqui (por medo de assalto), duas à venda ali (pelo mesmo motivo). Há perigo de assalto em quase todo o percurso, principalmente a parte nova. Os taxistas e motoristas de UBER não estão respeitando os semáforos, com medo dos constantes assaltos. O aeroporto é feio e triste. Não acolhe. As paredes exibem uma exposição de solidão perene. Ao invés de obras de Arte, morbidez. Quanta diferença do antigo aeroporto! Não há alegria em nada, se não for por algum estoque que a gente leve, pensa-se estar num cemitério. O aeroporto é novo, mas parece um monturo. Você não tem mais a visão das aeronaves chegando, das pessoas embarcando, como antigamente. Tiraram esse diferencial que dava vida ao aeroporto. Separaram as famílias. Para piorar a ideia louca da transferência desse equipamento para a ‘caixa prego’ (como dizia a minha mãe), soma-se o pedágio. No nosso caso, pagamos vinte reais e dez centavos. Dia desses soube de uma família potiguar que havia migrado para Minas Gerais, onde passaram várias décadas e resolveram retornar para o berço norte-rio-grandense para morar. Um familiar foi buscá-los. Eram cinco pessoas no veículo trafegando à noite. De repente dois carros fecham a estrada. Os criminosos portavam pistolas do tamanho de um braço. Mandaram todos fazerem transferências de dinheiro por pix. Só um deles não tinha o dispositivo. Roubaram os celulares, joias e o que tinham em dinheiro. Para os marginais é fácil, pois são vários km de solidão. Ninguém vê nada. E quando penso que justamente no ano em que o Aeroporto Augusto Severo ganhou o título de um dos melhores do Brasil, foram construir esse estrupício perigoso lá na baixa da égua. É de se revoltar sempre. Se esse aeroporto nos espanta, imagine os turistas de outros estados e países! Vergonha! A Base Aérea de Natal – onde se localizava o aeroporto anterior, possui uma propriedade que é quase a metade de todas as terras de Parnamirim. Para que a União quer isso? Eles sequer usam um terço de tanta terra. Entendo isso como falta de bom senso, pois todas as terras de Parnamirim foram doadas por Manoel Machado. Eles não compraram. Não seria sensato praticar o mesmo espírito generoso desse homem? Se o aeroporto era civil e estava em terras militares, bastaria um acordo, uma conversa, um diálogo. Que poder tão poderoso e intocável é esse que não puderam ceder um trecho do latifúndio para o novo aeroporto? É uma mistura de militares que não se misturam, com políticos sem civilidade, sem visão, tanto é que trocaram o nome. Tiraram o nome de Augusto Severo, um aeronauta e cientista da aviação potiguar, pioneiro, inclusive – cuja homenagem tinha tudo a ver – e colocaram o nome de um político que já tem seu nome em incontáveis órgãos públicos, e tem até um museu em sua homenagem sem ter sido essa coisa toda. Agora me respondam se isso não é coisa para reflexão... Fídias ainda não chegou ao seu destino. Indagorinha enviou a fotografia do aeroporto onde faz conexão. Não era um aeroporto, era uma galeria de Arte (eu disse pra ele)... Mas aqui é Brasil. Brasil dos conformados e silenciosos. Dante Aleghieri, em sua insuperável Divina Comédia, reservou a parte mais terrível do inferno para as pessoas SILENCIOSAS. Vejam como é grave o silêncio na hora cabível da fala. É por isso que detesto os silenciosos. Eles estão sempre em cima do muro...essas coisas anômalas acontecem por causa dos silenciosos... eles atrasam, destroem, regridem... 

BUSCAR A PERFEIÇÃO NO HORIZONTE


Quando gostamos muito de algo, falamos “perfeito”. Usamos a expressão para nos referir a uma comida, um discurso, uma obra de arte, a limpeza de um espaço, uma reforma, um concerto, um jardim etc. Dizer “ficou perfeito” denota superar a expectativa. Ficou tão bom que ficou perfeito. Normalmente falamos isso para nos referir a algo feito pelas mãos humanas ou quando nos deparamos com natureza.

E com relação a nós? Somos perfeitos? Temos amigos perfeitos? Claro que não. Por mais que busquemos tudo o que seja bom e correto – para que a nossa vida em sociedade seja civilizada – jamais seremos perfeitos. A perfeição é como andar ao encontro do horizonte. Você pensa que está chegando, e quando alcança o topo do morro, vê oo horizonte longe novamente, numa sucessão sem fim. Ninguém chegará ao horizonte, assim como ninguém chegará à perfeição.
A perfeição é o que buscamos sempre. O próprio ato de se dispor a buscá-la consiste no processo da perfeição. É como lapidar um mineral. Você conseguirá excelentes resultados, mas sempre terá que polir, pois gradualmente a peça ficará opaca. É uma busca. Mas é a melhor coisa que se pode fazer. Buscar a perfeição é escolher melhorar. Se melhorarmos sempre estaremos de fato no caminho da perfeição.
A perfeição é como o horizonte justamente para nos conscientizarmos de que é tão impossível ser perfeito quanto é impossível chegar ao horizonte. Mas o exercício dessa busca constante é que nos torna melhores.
A busca por essa ideia de perfeição é um exercício ora fácil, ora difícil. No trajeto passamos por várias turbulâncias e tempestades. É o preço. Isso não deve desviar o trajeto, pois se buscando o bem, também encontramos o mal, imagine o mal encontrando o mal!
Nunca seremos perfeitos porque somos limitados, frágeis e falhos. Não estamos isentos sequer de cometermos falhas que desaprovamos nos outros, até porque o simples ato de existir nos expõe aos conflitos. Mas buscar ser perfeito ativa em nós o modo "termômetro", então percebemos com mais facilidade quando erramos. Assim consertamos mais rapidamente. Buscar ser perfeito pode ser substituído por buscar sermos pessoas melhores. Aí, sim, é possível. Aí, sim, a gente se sentirá mais perto do horizonte.
Ser útil a um maior número de pessoas, ser solidário, ser agente da conciliação, ser instrumento do bem, ser fraterno, solidário, generoso, conscientizar, se reinventar na medida do possível, ensinar o que sabe, acolher, ouvir, enfim procurar ser uma pessoa melhor é o melhor caminho.
Ser uma pessoa do bem não afasta todos os problemas, até porque o homem é feito do bem e do mal, mas quanto mais ele pratica o bem, mais anula o mal em si. Isso não os imuniza contra os seres humanos mais propensos ao mal. É mais fácil ser um risco – ou um problema – em sendo do bem, que ser um risco – ou um problema – em sendo do mal.
O que vale realmente a pena é que o bem é um patrimônio tão extraordinariamente poderoso que nos livra de muitos males. Então, nada melhor do que ser bom. Nada se compara a ser do bem.Vale a pena buscar essa perfeição, mesmo sabendo que jamais seremos perfeitos. Ninguém é perfeito. Nada é perfeito, mas tudo tem condições de melhorar. Tudo tem condições de nos tornar incrivelmente bons.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Poema em fantasia...

Queria que a minha existência se significasse em asas. 
Que eu pudesse voar desaparecendo em sonhos, 
divagando em horizontes abençoados de infância. 
Queria a consistência da fantasia funcionando para Céu, de maneira que eu flutuasse como figuras de Chagall. 
Queria que todos os meus compromissos estivessem acima das árvores, permitindo-me trespassar as coisas, dentro dos meus deslimites, de maneira que tudo evolasse imaginação, tudo evolasse insânia. 
 Queria dançar nos quadros de Van Gogh, no ritmo de suas pinceladas. 
Presumo que o moto de viajar esses desconformes, é se desconformar da normalidade do lugar comum. 
É necessário curar-se da normalidade e adoecer-se. 
Doente, adoeceria as coisas e tudo se obteria nessa aparente loucura, inclusive os infinitos do mundo real e do mundo verbal. 
Creio que devo começar esse fascínio me transcendendo em natureza. 
Primeiro em árvores, pois elas são poesias que despencaram do Céu, caíram dos alfarrábios de Deus e se plantaram nos alguns de mim. 
Muitas vezes alucino-me de árvore, divago de bicho silvestre divinizado de águas, molhado de ventos, esturrado de floresta. 
Pretendo seguir tinguijando as normalidades ameaçadoras dessa doença. 
Ser uma viagem infinita de naturezas, por isso tenho parte com a terra. 
Já avisei que quando chegar ao final não me guardassem numa caixa, mas numa Kya. 
Não quero sujar o solo. 
Quero desaparecer aparecendo no formato de tudo o que me significou...

Mato Grosso do Sul vem se destacando no aspecto de violência contra as mulheres


A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NÃO PODE SER OFUSCADA PELAS BELEZAS E RIQUEZAS NATURAIS DE UM ESTADO...
 
Há monstros que vieram ao mundo num corpo de homem, cuja convivência entre humanos reais e civilizados, findou adestrando esses monstros disfarçados de gente. Então eles chegaram ao ponto de constituírem família, mas como o instinto mal, guardado dentro desses monstros acaba aflorando, eles transformaram as mulheres naqueles sacos de pancada que os lutadores esmurram para treinar. A esposa é literalmente um saco de pancada.
 
Embora seja o estado onde nasci e passei a metade da minha vida, infelizmente as belezas estonteantes e mágicas do Mato Grosso do Sul trazem em seu cartão postal uma feiura que envergonha e causa tristeza: A CONSTANTE VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES. E NÃO SE ENGANE: ESSE PROBLEMA PERTENCE A TODAS AS PESSOAS, INCLUSIVE AOS HOMENS. Debater e conscientizar é uma tarefa humana.
 
A gente pensa que, em o tempo passando e as mentalidades evoluindo, os males sociais vão diminuindo gradualmente. Engano. Infelizmente o Mato Grosso do Sul vem sendo constantemente palco de feminicídios, quando não deixam as mulheres deformadas. Tudo isso como vingança e sentença por tais mulheres terem rompido relacionamentos depois de um relacionamento torturante. Ultimamente tem acontecido feminicídios com requintes de tanta perversidade, que a “Santa” Inquisição é fichinha.
 
Já ouvi vários homens e – pasmem! – e algumas mulheres, sentenciando que “tem mulher que gosta de apanhar”, mas o assunto aqui não é sadomasoquismo, é VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER. Outro equívoco é justificar o problema com comparações do tipo “tem muita mulher que torna a vida do homem um inferno, é chave de cadeia, não pensa duas vezes para fazer baixarias, é agressiva etc”. Existe, sim, mulheres com esse comportamento, mas o assunto aqui não é caráter. Quem dá essas sentenças, deveria conhecer a realidade das mulheres que, de fato, sofre horrores nas mãos de monstros disfarçados de homens.
 
Pelo que tenho visto, ao longo dos meus 54 anos de idade, as mulheres que se submetem a tais monstros, não o fazem por “gostar de apanhar”, mas por não gostar de ver os filhos passando necessidade (porque não têm emprego, sente-se desatualizada e inúteis devido ao terror psicológico sofrido); por não gostar de promover escândalos na sociedade (acredite que ainda há casos de mulheres que pensam com a cabeça do século XIX); enfim por não gostar de muitas e muitas coisas, mas, pior, por não gostar de morrer (elas sabem que terão grandes chances de serem assassinadas, então se submetem às torturas).
 
Há muitas mulheres Brasil afora – não apenas no Mato Grosso do Sul – que apanham em silêncio para o vizinho não ouvir, sofrem torturas psicológicas terríveis, a ponto de elas próprias se sentirem de fato o saco de pancada, acham que têm que passar por isso, que o estrago do casamento já foi feito, que é melhor para os filhos, que não pode dar mal exemplo para os filhos já casados, que a vida é assim mesmo, que o homem tem essa natureza mesmo, enfim, a dignidade delas está tão espancada que não raciocinam mais à luz da liberdade, do direito de viver e ser feliz. Elas findam achando que são, de fato, aquilo que o monstro sentencia quando lhe faz o terror. São mulheres vivas-mortas para não se tornarem mortas-mortas. 
 
ISSO É MUITO TRISTE, pois essas mulheres estão sepultando o seu direito de viver. Estão sepultando o seu direito de terem emprego, autonomia, paz com seus filhos, com sua solidão e até mesmo ao lado de um homem que a respeite. Enfim estão perdendo a oportunidade de viver uma grande transformação na vida. Pois, com certeza, quem vive o câncer da violência doméstica e seus terrores físicos e psicológicos, tem grande chance de se transformar numa pessoa iluminada quando denuncia o monstro, ou consegue romper com o monstro sem perder a vida. Para isso existem a mediação das instituições pertinentes. Tornar-se uma pessoa transformadora e iluminada não perpassa pela violência sofrida nas mãos de um monstro, mas o fato de conhecer os seus males, dá condições de realizar grandes feitos, inclusive trabalhar para que outras mulheres não se tornem vivas-mortas.
 
Não é normal que um estado, um município, um país que apresenta gráficos altos de violência contra a mulher se contente apenas em ler as notícias, vê-las divulgadas nas redes sociais, ver o monstro preso após a morte da esposa ou algo do tipo. ESSE ASSUNTO TEM QUE SER UMA CONSTANTE nos debates acadêmicos, nas programações de todas as instituições públicas e privadas, nas semanas pedagógicas, nos desfiles de 7 de setembro, nos programas sérios de jornalismo de debate, nas igrejas, nas redes sociais, nas associações de bairro, nos três poderes, na feira livre, nos outdours... em todos os lugares e de todas as formas.
 
No caso do Mato Grosso do Sul, as prefeituras de cada município, independente de iniciativas estaduais, deve empreender uma campanha ferrenha envolvendo igrejas, escolas, instituições municipais, associações, cooperativas etc. Não se deve achar que porque as mortes são de outras cidades, sua cidade está livre disso. Pelo contrário. Inclusive nesse exato momento há muitas mulheres do tipo ‘vivas-mortas’ em algum lugar na sua própria cidade. 
 
E você, na condição de uma pessoa pública, por exemplo, ou de uma autoridade, uma liderança de bairro, pessoa influente na cidade etc. Vai ficar aí parado? Cuidado! Amanhã a vítima pode ser a sua filha, quem sabe a sua irmã, hoje? E você vai ficar aí parado? Lugar de monstro é em jaula. O seu silêncio, a sua covardia, sua omissão, sua indiferença dá munição para os monstros, e o torna um monstro indireto. PENSE NAS MULHERES DA SUA FAMÍLIA. QUERIA QUE SUA MÃE TIVESSE SIDO UMA DESSAS?
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Parabéns, Carolina!



 A nossa felicidade perpassa pela felicidade das pessoas que conhecemos. Quando vi as imagens da sua formatura, percebi que você estava radiante, e também fiquei radiante porque afloraram memórias de outrora. Revi a menina de 3 anos de idade, ao lado de um irmão e depois mais uma irmã, num lar muito humilde, mantido com grande sacrifício por uma família cheia de dignidade. O mundo parecia reservar-lhe um futuro típico a tantas pessoas em igual situação. 
 
Testemunhei as etapas da sua vida, a luta do seu pai e da sua mãe, trabalhando na informalidade, privados de muitos direitos, sem que isso os tornasse pedra. Essa realidade aparentemente lhe sentenciava a impossibilidade de conquistar o mínimo, imagine o curso superior. Talvez nem pensasse nisso porque em Nísia Floresta ainda sobejava o ranço dos antigos senhores de engenho e velhos coronéis. Pobre estudar? Como? Para quê? Parte da sociedade, se julga no direito de tripudiar sobre aquilo que poderia amenizar ou até curar, mas não o faz, pois não pode ver o pobre de igual para igual.
 
Mas você nasceu com luz própria. Aliás, todos nós, porém a sua luminosidade é excelsa e se sobrepunha como astro de extrema grandeza. Esse resplendor estava apenas encoberto pelo pó do preconceito de muitos. O desprezo, o descrédito, a desconfiança assentaram lentamente sucessivas camadas desse pó, tornando-a invisível.
 
Mas tudo na vida depende de quem olha. Minha mãe diz que “olhamos enxergando o que somos”. Tudo depende do olhar. Uns olham com viseiras, outros olham com óculos escuros, uns olham com miopia, uns, com astigmatismo, outros fingem que olham, outros não querem olhar. Mas há quem olhe com olhos de raio X. Sua luz sempre foi visível, porque o corpo fala, e quando ele está em consonância com os olhos, reveste uma aura especial nas pessoas, permitindo que se enxergue tanto a luz quanto as trevas e os submundos humanos.
 
Desde criança você desenvolveu o poder de ler o mundo e perceber nuanças que, normalmente, naquela idade, jamais se percebe. E suas ações falavam. Enquanto outra criança, na mesma idade, ia para a festinha da amiguinha, se fartava de bolo, refrigerante e ganhava boneca, você – privada daquele evento – assistia ao episódio percebendo que aquilo também era um direito seu, mas a sociedade criou convenções impedidoras de experimentar aquele direito. A cidade era cheia de muros e demarcações invisíveis. “Cada macaco no seu galho”.
 
As palavras pobre e pobreza faziam parte da sua vida, como uma identidade, como uma placa na testa: você é pobre, não pode! Seus pés pisavam um solo sujo de escravidão. Os ecos dessa vergonha ainda eram audíveis, tornando-a suja dos sobejos do preconceito, suja de pobreza. Você jamais seria convidada para essa festa. Você jamais faria a leitura de uma das Cartas a Timóteo no púlpito da Igreja Matriz. E nesse mundo de cartas marcadas, de pessoas escolhidas a dedo, restava-lhes restos: restos de roupas usadas, sobras de alimentos, restos de cadernos, restos de oportunidades que outros não quiseram, restos de um curso de informática que alguém desistiu...
 
O mais destoante é que você percebia essas demarcações. E quando uma pré-adolescente tem o poder de enxergar isso, é sinal de que tem um diferencial. Era justamente a sua luz escondida que enxergava para você, dizendo: não chore. Não abaixe a cabeça. Precocemente você lia o mundo, interpretando os idiomas da sociedade, mediante gestos, olhares, indiferenças dos que se julgavam superior. 
 
Muito cedo você sentia que isso era uma doença da sociedade, e já tentava se imunizar para não ser acometida dela Se fosse, seria caso perdido. Veio um casamento precoce – talqualmente o de Nísia Floresta – vieram as consequências da imaturidade, mas o prêmio de um bom filho e amadurecimento. Ótimo! Tão jovem, você precisou ser outras para dar conta de inúmeras responsabilidades, inclusive sentar-se nos bancos de uma universidade. Mas esse banco lhe aguardava. Não era você que o cobiçava. Você não almejava cursar Direito. O Direito lhe aguardava e lhe dava pistas. Lembre-se: é a sua missão.

Eu acredito que algumas pessoas são aguardadas. Aguardadas em cidades. Aguardadas em escolas. Aguardadas numa roda de amigos. Aguardadas na política. Aguardadas na universidade. Aguardadas num hospital. Aguardadas em todos os lugares. Você pertence a um público que é aguardado no universo jurídico. Muitos são os que chegam, mas poucos são os que são aguardados. E as pessoas aguardadas são aquelas que têm muito a oferecer.
Ao longo dos últimos anos, você manifestou um avanço intelectual impressionante. Conseguiu perceber que o Direito só fará a diferença se estiver associado a outros universos do conhecimento. Há em você uma conduta holística, e isso é fundamental. Seu perfil é proativo. É muita luz!
 
O mais importante disso tudo é que, em se tornando advogada, você será uma educadora por excelência. Lembre-se: nem mesmo todo professor é educador, mas qualquer ser humano pode ser um educador, mesmo que não seja alfabetizado. Somente os educadores transformarão os espaços onde pisarem, mesmo em solos sujos de escravidão, de coronelismo, de politicagem, mesmo que só encontrem pedras. Dê espaço à educadora advogada, oxalá promotora, oxalá juíza, oxalá desembargadora... deixe as coisas acontecerem... quem sabe um dia lhe chamarão de doutora!
 
Como leitora voraz, sua escrita se lapida a olhos vistos. Há uma poética em sua escrita, marchetada na escola da vida, qual Carolina de Jesus. E tudo isso já era em você lá atrás. É uma impressão digital que ninguém copia, porque é única. Todos podem tê-la, mas nem todos têm. Tê-la exige sangue. Ler, sangra. Escrever, sangra. Hoje só ocorreu a dissipação daquelas injustas camadas de pó. 
 
Você sacudiu a poeira, e a luz ocupou o seu espaço por excelência. Você sempre teve qualidades e valores que fazem a diferença: 
 
1) Você não é do lugar comum. O Direito veio lhe buscar. O Direito lhe convida a salvar pessoas. Use-o para educar. Ande de braços dados com os marginais, abrace as putas, os travestis, o povo de rua, os gays, os doentes, os presidiários, os dementes, os desvalidos. Dê remédio aos doentes. Ofereça-lhes o ósculo negado inclusive por muitos cristãos. Esteja ao lado dos pobres, oportunizando-lhes que eles sejam você, amanhã. Preocupe-se mais em educar que sentenciar. A própria existência já sentencia os pobres e nega-lhes qualquer sobejo de dignidade. Não perca tempo com miudezas: fofocas, indiretas, deboches, piadas, justificativas. O tempo gasto com a pequenês de alguns, a impedirá de realizar obras extraordinárias. Não engrosse a fila dos que julgam que todos estão com inveja de você, que o mundo conspira contra você. Quem assim pensa precisa se trabalhar, pois está apenas projetando a si mesmo nos outros.
 
2) Você é adepta do entusiasmo, portanto se entusiasme sempre para tudo que brotar em você, fruto de suas leituras, suas pesquisas, sua capacidade criadora, suas articulações, dê bons frutos. 
 
3) Você conservou sempre a nobreza do perdão. Isso lhe é peculiar. Você não cultiva sentimentos ruins sobre aqueles que demarcaram os espaços, impedindo-a que entrasse. Não conservou rancores contra quem lhe fechou as portas. Não guardou mágoas contra quem lhe renegou. Ao fazer isso, você já está transformando pessoas, dissipando ódios, educando a sociedade a entender que pessoas civilizadas modificam o mundo, e que somente através da educação mudaremos o mundo. Você, desde aquele tempo já era superior no aspecto de ser civilizada, e não ter entrado na festa não a tornou menor. Tenha certeza que você teve muitas pessoas que lhe inspiraram, portanto você também inspirará a muitos. Inspirar pessoas é algo como ser meio um bruxo com uma ‘vara de condão’... você aponta para elas como um “maktub”. Foi isso o que aconteceu. Parabéns!
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OBS. Vi, indagorinha, as fotografias de sua formatura. Então peguei do teclado e num transe de memórias me desapareci um pouco em sua história. Um grande abraço a você e a toda a sua família.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

ACTA NOTURNA - HENRIQUE CASTRICIANO EM PAPARY - 1938


Há 84 anos o nosso ilustre amigo Castriciano era idoso quando abalou-se a Papary (hoje Nísia Floresta) no final de 1938, vencendo 42 km. Contava 64 primaveras, temporada bastante para resultar-lhe um corpo alquebrado. Imagine dar as costas ao Sol de Natal às primeiras picadas nas nuvens, e embrenhar-se por veredas, atalhos, dunas, ariscos e alagados até Papary sobre um cavalo! 
 
Ele sempre foi um homem doente, inclusive procurou tratamento até no exterior. Morreria nove anos após a aventura, em 1947, tendo realizado a missão que lhe parecia cara. A odisseia materializou o sonho.

Para quem já havia ido à Suíça em 1909 – adoentado, inclusive – onde conheceu a École Ménagère de Fribourg, que o inspirou a fundar a famosa Escola Doméstica de Natal, uma das instituições educacionais femininas mais respeitadas do Brasil, e visitado também a Itália Portugal, Espanha, França, Grécia, Egito e Palestina – e em 1913, ido à Bélgica e Alemanha – sua turnê à Papary era o mesmo que atravessar uma rua.

A ida à Papary, onde nasceu a sua amada e idolatrada Nísia Floresta Brasileira Augusta encerrava um ciclo. Era parte do seu amor por essa estrela de infinita grandeza. E o seu amor se traduzia por pesquisas, textos, viagens e curiosidades. Essa foi uma de suas últimas provas de amor.

Ele queria ver o solo onde ela pisou, a casa onde ela tocou as paredes, as árvores centenárias onde ela banhou-se de frescor, as águas frias e deliciosas em que ela sombreou-se de suas florestas sem fim. Ele queria vê-la transcendentalmente.

Todo pesquisador de figuras notáveis faz essas viagens. Há uma necessidade de respirar o mesmo ar do seu objeto de pesquisa. Não é loucura, é alguma coisa parecida com curiosidade. Talvez a mesma de Nilo Pereira.

Henrique Castriciano chamou a atenção das autoridades públicas – mal tendo saído da adolescência – clamando pela necessidade de reformar a educação escolar brasileira, sobretudo no que dizia respeito à instrução feminina. Ele era advogado, jornalista, poeta, escritor, além de ter assumido respeitáveis funções públicas no estado. Trouxe o escoteirismo para o Rio Grande do Norte.

Papary já exibia o monumento em homenagem à intelectual Nísia Floresta no Sítio Floresta, construído há 29 anos, exatamente ao lado das ruínas da casa onde ela nasceu e somou 14 primaveras; e quando se sabe que até aquela data Henrique Castriciano nunca havia estado em Papary, pois se o tivesse, saberia que o que ele buscava, não existia. Logo se percebe que ele não prestigiou a inauguração do monumento por uma forte razão – justamente porque estava na Europa – até porque as grandes figuras natalenses, políticos e intelectuais se abalaram ao local, e Castriciano seria um dos presentes se pudesse. Foi um acontecimento que reuniu, por exemplo, Alberto Maranhão, Câmara Cascudo, o famoso Coronel Jose de Araújo (presidente da Intendência de Papary) e uma série de figuronas, conforme registro a seguir...


Pois bem, eis que o registro, feito por Henrique Castriciano, é tão precioso – e tão desconhecido do grande público – que hoje o ressurjo das cinzas, ou talvez da poeira do tempo – ou, aos pesquisadores mais incansáveis, apenas o rememoro. Seguem, pois, as suas palavras, tais quais ele as escreveu de próprio punho. E que respeitei até mesmo a grafia antiga. E que é verdade. E que dou fé:

3 de dezembro de 1938

Tardo, pisando com difficuldade o caminho alvacento, o cavalo em que eu montava, ia à vontade, as rédeas bambas sobre o pescoço de alimaria pouco nutrida, fitando a paizagem sem belleza, eu levava no espírito a singular história de Nísia Floresta Brasileira Augusta, a grande escriptora norte-riograndense.

Estava na terra de seu nascimento, Papary, a dous passos do sítio em que dormiu o primeiro somno.

Por vezes, o animal, hesitante, sentindo-se sem governo, estacava, mordendo o freio, pachorrentamente, e eu, interrompida a cogitação por causa da parada súbita, ficava a olhar tudo o que me cerva, as plantas do taboleiro, o capim mal tratado da estrada somnolenta, as mangueiras conservadas sem carinho... chegara ao coração do vale. Este, radiante em seu abandono, com a alegria das árvores quando começam as chuvas, abria-se para mim num halo de saudade, todo cheio de recordações, embebido na lembrança da alma peregrina que alli passara a infancia, entre sorrisos e galas.  Chegado ás primeiras herdades, começo a interrogar aos curiosos, que, a beira do caminho, em casinholas de taipa, commentam sem duvida, a minha distração, se me podem mostrar a casa em que nasceu Nísia Floresta. Ninguém conhece este nome. E’ depois de fatigante pesquisa que alguém, um parente remoto da educadora, se offerece, talvez orgulhoso de trazer nas veias o mesmo sangue, para guiar-me até lá, ao mesmo ninho onde primeiro palpitou aquella alma heroica. 

- Fica muito longe, amigo?

- Alli. Um nadinha.

De viagem, retorno á minha scisma endagadora, emquanto o companheiro vae conversando em voz alta. Espero comtemplar, dentro em pouco esse velho prédio de alpendrada longa e baixo tecto, em cuja a sombra surgiu para a vida o espírito inquieto da mais profunda escriptora brasileira. Em cada curva do caminho penso deparar a casa de Nísia, onde a minha imaginação desenhava miragens de festa, vendo ondular, entre os risos da puberdade, a forma graciosa de uma adolescente que nascera para a gloria e a quem o destino só daria as palmas de vencedora arrancando as azas de anjo.

Volvidos minutos, o guia parou de repente, á porta de desmantelada cancella.

- Chegamos.

- E a casa?

Sorriu sem tristeza

- Desfez-se ha muitos annos. Pensei que desejava ver apenas o logar onde foi construida.

Apeei-me.

E, tropego, pisando o hervaçal crescido, fui ter ao tronco de uma mangeira, por elle indicada.

- Bem hai era o seu quarto. Hai dormiam as filhas do “Marinheiro” Dionysio.

E assim por uma gentil coincidencia, o acazo pusera no logar em que nascera uma bella árvore humana – doadora á terra do berço de saborosos fructos ´áquella arvore silvestre, carregada de pomos e ninhos. Os meus olhos contemplaram-na com avidez, vendo-a erguer para o alto os grandes ramos verdes, da mesma forma que para cima sempre subiram os pensamentos da alma robusta de Nisia... Sentei-me. Era um dia claro, muito luminoso e suave. Dos humidos brejaes, das depressões cobertas de arbustos aquáticos, subiam vozes de sêres humildes, o coaxar das rãs, o zisido dos insectos, o chilreio dos passaros satisfeitos com o bocado de vida que a Natureza lhes dera, á beira dos igarapés e á claridade macia do sol de inverno. Nisia me apareceu então como pintavam, não ha muito, velhos que guardavam a tradição de sua belleza de moça brasileira: uma creatura deslumbrante, de grandes olhos scismadores, de negros cabellos anelados, os seios arfantes sob as rendas do corpete, na inquietação da puberdade partilhando da ancia que o desejo de viver acordava em todo o valle.

Acompanhei-a a Natal, onde a casaram com um simplorio; vi logo desfeita a malfadada união, a ida para o Recife e dahi para o Rio Grande do Sul, de onde voltou para o Rio; as longas viagens em quasi todos os paizes da Europa e á Grecia, tudo obsequiando um espírito sequioso de movimento e de emoções. Por que essa mulher singularíssima, nascida num villarejo do Brasil em 1809, não viajava por simples curiosidade esthetica. No rio G. De Sul, interessou-se vivamente pelos Farrapos e tornou-se professora notavel; no Rio manteve afamado collegio de meninas, fez conferencias abolicionistas e escreveu paginas de excepção pella cultura da mulher; em Paris frequentou mais de um curso celebre e conviveu com as mais fulgurantes inteligencias da epoca.

Lamartine, Victor Hugo Saint-Hilaire foram seus amigos; frequentou e correspondeu-se com Augusto Comte, que nella viu “todos os elementos para uma preciosas discipula”; na Italia correspondeu-se com Garibaldi e Mazzini, advogando em mais de uma gazeta os interesses da unidade italiana; e trouxe da Grecia, cuja resurreição o seu genio adivinhou contra a incomprehensão mordaz de Edmond About, páginas profundas e de intenso colorido.

Entardecia, o companheiro chamava-me, e de pé, recordando uma passagem do livro Trois ans en Italie, onde a escriptora, alludindo áquelle logar, se refere a uma mangueira a cuja sombra, o pae reunia num jantar duzentos convivas. Perguntei pela arvore gigantesca.

- Não ha mais noticias della. Do tempo de Nisia restam apenas aquelles dous coqueiros. Dizem que ella falava sempre com desprezo de tudo isso.

Mostrei quanto era calumnioso o longinquo boato.  É possível que odiasse Natal, onde com certeza a injuriaram cruelmente, com a brutalidade das aldeias, de linguas afiadas como navalhas. Nas aldeias, as maledicencias não descansam contra os que nella surgem com superioridade. Trabalha de dia nas conversas de calçada, e de noite em tremendas cartas anônymas.

Em mais de um seu livro, entretanto, encontra-se a escriptora exprimindo incoercivel saudades e recordações inapagadas da infancia, vividas na terra do berço, sobretudo das lagôas, mais de uma vez por ella comparadas aos lagos da Italia. Não obstante a vida trabalhosa, ficou uma contemplativa, cheia de doentia sensibilidade, da meiguice melancolica do nosso povo. 

Lendo o que escreveu, sente-se bem o echo da tempestade, que lhe abalaram o ser desde a juventude. Mas nem o estudo, nem as viagens, nem o convivio de nobres inteligencias lhe puderam levar do coração as lembranças dos primeiros dias. Agora estavamos de volta, um pouco distante do logar em que nasceu. O dia, em meio, fulgia excepcionalmente, assistido á gestação de milhões de vidas, continuadoras da existencia do vale fecundo. Era o eterno renascimento dos sêres e das coisas, a perpetuação da gloria da terra. Tudo se renova alli: reproduziam-se os passaros, as arvores brotavam com as estações, os camponios nasciam nos filhos robustos.

Mas passado um século do aparecimento de Nísia, nem valle, nem o Rio Grande do Norte, nem o Brasil gerará um cérebro feminino tão complexo e tão forte.

Henrique Castriciano”.

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Em sendo esta fotografia clicada em 1909, logo após erguerem esse monumento alusivo à intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta - tendo passado 86 anos da saída de sua família  - com certeza os coqueiros contemporâneos a Nísia, falados pelo seu parente são os que se vê na fotografia. Levando em conta que há mangueiras em abundância, e que essa fruteira também vive mais de cem anos.

Encerrado o curioso texto, julgo conveniente externar as minhas impressões sobre alguns pontos. Começo pelo monumento em homenagem à intelectual Nísia Floresta. Observe que Castriciano não o cita, embora ele estava erguido ali desde 1909, certamente na vista dele. Bastante incomum ele não fazer referência alguma ao monumento que homenageava justamente aquela que o trazia ali.

- “...começo a interrogar aos curiosos, que, a beira do caminho, em casinholas de taipa, commentam sem duvida, a minha distração, se me podem mostrar a casa em que nasceu Nísia Floresta. Ninguém conhece este nome. E’ depois de fatigante pesquisa que alguém, um parente remoto da educadora...”Nísia havia falecido há 53 anos. Esteve afastada de Papary durante pouco mais de 100 anos a contar da data da visita de Castriciano.

Tudo o que havia em torno do nome de Nísia Floresta, em termos de evocações à sua vida e sua obra, se dava fora dali, portanto não havia como os nativos de Papary terem informações sobre Nísia Floresta. Digo isso porque, em 1991, percorri o município inteiro e quase ninguém discorria sobre a sua conterrânea ilustre com propriedade. O máximo que ouvi foi “ela era uma mulher muito importante”, “escreveu livros”, era muito inteligente” e algo do tipo. Já no tempo em que Castriciano ali esteve, certamente meia dúzia de pessoas tinha alguma noção, como o exemplo acima, tanto é que já existia ali uma escola com o seu nome. Mas saber informações substanciais sobre ela era querer demais. E o próprio fato de querer saber onde era a sua casa beirava a loucura. Era mais fácil conhecer calúnias sobre ela, até porque a autora-mor das detratações feitas a Nísia Floresta era dali, a poucos metros do Sítio Floresta, como veremos abaixo.

A revelação da existência de um parente de Nísia Floresta naquele dia, não é um dado surpreendente,  é apenas curioso, até porque em 1938 o Sítio Floresta não pertencia mais aos familiares de Nísia Floresta. Mas havia parentes ali, até porque familiares não somem como vapor. Há parentes de Nísia Floresta até hoje na região, afinal dona Antonia Clara Freire tinha irmãs, irmãos, tios e primos que residiam a maioria em Goianinha, uma minoria em São José de Mipibu e na própria Papary. Isso pode ser pesquisado no livro “Os troncos de Goianinha”, do genealogista Ormuz Barbalho Simonetti, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN. A propósito, o próprio Ormuz descende do mesmo tronco genealógico de que descende a nossa Nísia Floresta e em breve postarei uma curiosidade que poucos sabem sobre novos paretes;

- “...Em cada curva do caminho penso deparar a casa de Nísia, onde a minha imaginação desenhava miragens de festa...”. Era praticamente impossível encontrar intacta uma casa deixada sem moradores durante 100 anos. Somando a isso o detalhe de não haver como se preservar num terreno alheio a casa de uma “desconhecida”. De fato, o máximo que se poderia encontrar de original seriam raras árvores, como são referenciados os dois coqueiros, inclusive especialista afirmam que um coqueiro pode viver cem anos. A expectativa de Castriciano é um pouco exagerada, se bem que nós, pesquisadores, se deixarem assumimos até mesmo foros de arqueólogos e metemos a mão na massa para cavar história.

“Bem hai era o seu quarto. Hai dormiam as filhas do ‘Marinheiro’ Dionysio.” Quando esse parente dá essa informação tão precisa, vê-se que ele deve ter testemunhado o final das ruínas dessa casa, até porque casas de taipa têm muita resistência, cujas grades seguem firmes enquanto o barro arria. Mas cem anos é muito tempo para a longevidade de uma casa fechada. O título de “Marinheiro”, atribuído ao pai de Nísia Floresta nada mais é que a forma como os brasileiros chamavam os portugueses que aqui chegavam.

- “... Acompanhei-a a Natal, onde a casaram com um simplorio;...” Referência ao primeiro casamento de Nísia Floresta. Castriciano comenta que esse casamento se deu em Natal, o que é novidade para mim que entendo que Nísia se juntou a Manuel Alexandre Seabra de Melo sem ter havido o casamento civil. Quando é dito “... a casaram com um simplório...” entende-se que foi daqueles casamentos arranjados. Informação bastante contraditória para um espírito tão avançado como o de Nísia e principalmente do seu pai Dionísio. Creio que seria improvável a seus pais tê-la prometido a alguém. E quando Castriciano escreve “simplório”, não bate com as informações bem anteriores, de que o Manuel Alexandre Seabra de Melo era um homem rico. Portanto entendo que Castriciano diz “simplório” no sentido de rústico, tosco e iletrado.

- “... nascida num villarejo do Brasil em 1809,...”. Durante algum tempo Castriciano supôs que Nísia havia nascido nesse ano. Só depois Adauto da Câmara – que recebeu de Castriciano o seu acervo sobre Nísia e o transformaria em livro – e também dava a ela o mesmo ano de nascimento – descobriu algum tempo depois que Nísia, de fato, nasceu em 1810. Esse é outro detalhe curioso, afinal Castriciano teve contato com Lívia Augusta de Faria Rocha (Gade) em Cannes, e mesmo assim deixou essa lacuna, tendo a oportunidade de saber na melhor fonte.

- “...recordando uma passagem do livro Trois ans en Italie, onde a escriptora, alludindo áquelle logar, se refere a uma mangueira a cuja sombra, o pae reunia num jantar duzentos convivas...”Eis essa passagem curiosa. Alguns pesquisadores acham estranha e até improvável que Papary tenha reunido semelhante número de pessoas num lugarejo tão acanhado, em pleno ano de 1810, Mas isso tem uma explicação, e creio que  estou revelando-a em primeira mão. O pai de Nísia Floresta foi vereador em São José de Mipibu no ano de 1813 juntamente com dois outros edis: Gabriel Leite Rebolça e Antonio Francisco dos Santos Gesteira. Cheguei a ler o seu nome nos manuscritos originais da Câmara Municipal de São José de Mipibu, que ainda encontrei nos arquivos da prefeitura do citado município, em dezembro de 1991. Não era difícil um vereador reunir considerável número de pessoas em sua casa para os mais variados propósitos. Ademais, sobre ele, pesam suposições de revolucionário. A própria filha divaga algo sem mais detalhes. Sua história é uma incógnita. Sabe-se quase nada. Por incrível que pareça, Isabel Gondim, ao escrever uma carta detratora – que o leitor saberá maiores detalhes abaixo –  traz os maiores dados sobre Dionísio, apesar de não perder a oportunidade de denegri-lo junto com Antonia Freire, a mãe de Nísia. Sua carta permite-nos conhecer o pouco que se sabe sobre ele. Já sabíamos, por Koster, que ele era português. Então, por Isabel somos informados que Dionísio era advogado e artista, tendo esculpido uma criança indígena que se encontra até hoje afixada sob um lavabo na sacristia da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta. É possível – suponho – que ele possa ter reunido pessoas para finalidades de natureza daqueles momentos sombrios em que o Brasil experimentava. Mas, de fato, ele foi vereador em um só mandato, diferente de vários outros edis, que tiveram outros mandatos. Entendo isso justamente como uma consequência dessa vida conturbada que ele teve junto com a família.

- “- Não ha mais noticias della. Do tempo de Nisia restam apenas aquelles dous coqueiros. Dizem que ella falava sempre com desprezo de tudo isso. Observe que o próprio parente critica Nísia Floresta, alegando que ela desprezava Papary. Essa informação é mote para tratarmos sobre as calúnias inauguradas por Isabel Gondim, em 1884, ao escrever uma carta a um tal “Sen. J.L. F. Souto”, denegrindo Nísia Floresta um ano antes de sua morte. Leia a carta nessse link: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2009/09/nisia-floresta-carta-de-isabel-gondim-e.html Sabe-se que Isabel nasceu e sempre teve família em Papary, portanto denegrir Nísia em sua própria terra era lucro, diante desse macabro comportamento. Ela já o fazia em Natal. Bastava ter ocorrido um evento alusivo a Nísia Floresta, que Isabel aparecia com cópias dessa carta e entregava às pessoas. Como se tivesse a missão de dizer que toda aquela ilustração atribuída a Nísia, era mentirosa. Portanto, quando Castriciano entende que o cicerone de Papary disse com orgulho que era parente de Nísia Floresta, não entendo assim. Creio que ele se identificou mais por curiosidade, para saber o que aquele homem queria, quem era aquele cidadão que deixara Natal só para ver restos de restos que Nísia deixou e coisas bem do tipo de um lugar repleto de pessoas fofoqueiras, que se entretinham muito com as vidas alheias, como relata Catriciano. Com certeza ele foi uma atração nesse dia. Vejam as próprias palavras dele: “... Mostrei quanto era calumnioso o longinquo boato.  É possível que odiasse Natal, onde com certeza a injuriaram cruelmente, com a brutalidade das aldeias, de linguas afiadas como navalhas. Nas aldeias, as maledicencias não descansam contra os que nella surgem com superioridade. Trabalha de dia nas conversas de calçada, e de noite em tremendas cartas anônymas”. l.c.f. 10.2.1996.