ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

O que Mariana Coelho escreveu sobre Nísia Floresta



O QUE MARIANA COELHO ESCREVEU SOBRE NÍSIA FLORESTA

Quando Mariana Coelho nasceu, Nísia Floresta caminhava ao encontro de meio século de vida. Berta Lutz ainda não havia nascido. Isabel de Mattos Dillon e Inês Sabino contavam quatro anos de idade, e Josephina Alvares de Azevedo tinha três primaveras. Cinco mulheres de épocas diferentes, mas de iguais propósitos. Elas surgiriam ao longo das décadas seguintes e se somariam às filas do feminismo, embora a expressão "feminismo" seria cunhada ao longo da campanha em prol da emancipação. Essas mulheres eram feministas na prática e deixariam legados. Dentre elas, Nísia se destacou pelo pioneirismo na defesa da emancipação feminina e outras ideias visionárias no campo do indianismo, da abolição da escravidão, do regime republicano e outras ideias, com a diferença de ter vivido uma trajetória internacional e ter se relacionado com grandes cérebros da filosofia, da poesia e da literatura.

 
Mais adiante leremos uma breve nota em que Mariana menciona Nísia Floresta. Foi escrito em 1939, há 83 anos, dois anos antes de Adauto da Câmara publicar a biografia de Nísia Floresta, até então o mais rico material sobre Nísia Floresta, e que embora seja uma publicação bastante antiga, é obra preciosa para o conhecimento de todo pesquisador, pois Adauto recebeu informações privilegiadas do também potiguar Henrique Castriciano, pesquisador de Nísia Floresta. Ele pretendia publicar a biografia de Nísia, mas adoeceu e teve a generosidade de repassar a missão a seu conterrâneo, ambos apaixonados pela conterrânea ilustre. 

Na realidade, antes de transformar a sua pesquisa em livro, ela fora conferência em 1940, depois publicada no formato de livro, em 1941, há 81 anos. Surpreende o fato de Mariana Coelho estar muito bem informada sobre Nísia Floresta, mesmo residindo no Paraná, tão distante do Rio de Janeiro, onde o livro foi publicado. É de supor que ela o adquiriu o pelos correios, inclusive alguns os jornais cariocas repercutiram a publicação de Adauto. Na realidade, pelo que veremos adiante, ela era muito articulada, lia muito e se comunicava com grandes cérebros de seu tempo.

 
Entendo as informações de Henrique Castriciano como privilegiadas porque ele esteve com Lívia Augusta de Faria Gade, filha de Nísia, em Cannes, na França,  - 17 anos após a morte da mãe dela - e obteve muitos dados e acervos preciosos, que jamais saberíamos/conheceríamos se ele não tivesse empreendido essa que foi uma das viagens mais importantes da História de um potiguar em busca de tesouros da História Potiguar. Afinal ele foi para se encontrar com um pedaço vivo de Nísia Floresta. Tudo ainda estava muito nítido na mente de Lívia. 

Mas com tudo isso a obra de Adauto também traz lacunas, afinal Henrique - não se sabe porquê - não se comportou como um bom entrevistador. Como ele teria se encontrado com Lívia? Em que circunstância? Quantas horas, quantos dias passaram juntos? Foi uma conversa rápida? Nada se sabe. A impressão que tenho é que foi um encontro apressado, pois ele não trouxe pra o Rio Grande do Norte fazia as respostas que os potiguares aguardavam.
 
O que me inquieta é que, em estando com a filha de Nísia Floresta, ele não teve o cuidado de fazer questionamentos fundamentais, que hoje permitiriam entendermos melhor muitos pontos da história de Nísia Floresta, detalhes sobre o pai dela e sua esposa, além de informações mais amplas sobre os seus irmãos, tios, enfim muitas e muitas informações que poderia ter obtido e não foram. São lacunas que nos obrigam a supor. E todos os que estudam Nísia supõem.

É certo que ele obteve sim algumas  informações que seriam impossíveis sabê-las sem esse contato com Lívia. Informações preciosas. Mas perdeu a oportunidade de ter sido mais cuidadoso com a História Oral. Hoje supomos dentro de lógicas e contextos, mas as hipóteses, por mais nexo que carreguem, não substituem os fatos que foram sepultados com a morte de Lívia. Ela possuía legitimidade incomparável para esclarecer o que quer que lhe fosse perguntado, oportunidade desperdiçada ou algo que desconhecemos aconteceu. Soma-se a isso o fato de ele ter saído de Cannes com livros originais de Nísia, doadas por Lívia, e fotografias dela cercada pela família, fotografia de Lívia, de Augusto Américo, de Joaquim Pinto Brasil e do esposo. Essas fotografias estiveram expostas no Centro Norte-io-Rrandense, no Rio de Janeiro. Em 1992 entrei em contato, recebi um grande poster de Nísia Floresta, impresso em 1954 para as homenagens decorrentes dos traslado dos restos mortais de Nísia Floresta, mas desconheciam qualquer ouro material que eu indagava em minha correspondência, em termos de fotografias/retratos e mesmo o medalhão com imagem de Nísia Floresta. Alegaram que esse medalhão havia desaparecido há décadas. (L.C.F. - C. Grande/MS, jul. 2018)

* * *

As páginas da História do Brasil nem sempre reservam um espaço justo para temas singulares e importantes de serem lidos pelas novas gerações. Tem sido  assim com Mariana Coelho, uma feminista de renome É certo que ela encontrou meio caminho andado quando começou a expor as suas ideias feministas em livros e jornais no final do século XIX, mas nesse meio caminho andado também não foi fácil clamar por direitos iguais aos dados constitucionalmente aos homens, numa sociedade machista e patriarcal, que seguia vendo a mulher como submissa. Obviamente não era igual à época de Nísia Floresta, pois o Brasil já experimentava mudanças acanhadas, sutis, mas também não pare ter sido fácil.

Somava-se a isso as dificuldades típicas de um Brasil com dimensões continentais, com grandes dificuldades de comunicação, transportes, correios e circulação de ideias. O que acontecia na corte do Rio de Janeiro ou em Recife chegava, por exemplo, ao Mato Grosso e às demais províncias com atraso considerável. Se nesse tempo poucos sabiam quem era Nísia Floresta no próprio Rio Grande do Norte - com todo o peso do seu legado - era mais limitado que alguém soubesse sobre ela em Minas Gerais, no Piauí e em outras províncias; e do mesmo modo, ninguém soube quem foi  Mariana Coelho durante muitas décadas. A propósito seu nome até hoje é desconhecido por alguns. Imagine em seu tempo. As coisas acontecem assim. O tempo vai se encarregando de dar a César o que é de César, e as coisas vão sendo colocadas em seus devidos lugares. Não adianta tentar ofuscar, pois a história deixa marcas, acervos, imagens, registros...

O fato de Nísia Floresta ter deixado suas ideias visionárias escritas em livros e jornais não é o mesmo que dizer que o Brasil inteiro a lia e a conhecia, e que suas ideias modernas saltavam da teoria para a prática automaticamente. Prova disso é um Brasil - em pleno século XXI - com um número ínfimo de mulheres vereadoras, prefeitas, deputadas, senadoras e presidente. Há quase duzentos anos Nísia Floresta reivindicou que as mulheres tivessem acesso às ciências para que, capacitadas, pudessem até mesmo governar o Brasil. E nesses duzentos anos, quantas mulheres assumiram a presidência da República Federativa do Brasil? Uma. E a que assumiu sofreu um golpe inacreditavelmente apoiado também por mulheres.

Mas retomando o assunto em tese, desde meados do século XIX e fins do século XX, em várias províncias, surgiam ideias feministas públicas, assinadas por mulheres que tinham nome, sobrenome e endereço, e só o tempo se encarregaria de cruzar essas ideias umas com as outras, conforme a sociedade avançava. Só depois foi possível construir a linha do tempo principalmente com o advento do rádio, das publicações em jornais e livros. As informações chegavam precariamente às províncias  e, depois, aos estados, e quando chegavam! Desse modo, de posse dessas informações, as mulheres amplificavam os seus entendimentos sobre a sua emancipação em suas cidades, seus estados, seus lugarejos, formando as suas próprias opiniões, idealizando os seus próprios entendimentos acerca de novos avanços para elas. 

Nessa lógica surgiram feministas em lugares e épocas diferentes, principalmente a partir da última década do século XIX. Não é à toa que, lendo aqui e ali constatamos que algumas dessas feministas - que até então não se autodenominavam feministas - desconhecendo o legado de Nísia Floresta -  reivindicaram para si o título de "primeira feminista do Brasil". Não apenas elas próprias o fizeram, mas intelectuais reivindicaram por elas, ávidos por colocar nesse panteão a pioneira que até então supunham. 


E essas pessoas também desconheciam o legado de Nísia Floresta, ignoravam que muitas décadas antes do nascimento de outras feministas pioneiras do século XIX e XX, a norte-rio-grandense de Papary era pioneira das pioneiras, e já havia proclamado em livros, jornais e conferências dentro e fora do Brasil, a emancipação da mulher e outras propostas visionárias. Convém lembrar que Roberto Seidl escreveu "...Ella não se limitou a ser apenas a precursora do feminismo no Brasil, mas tambem da América do Sul".
A feminista Josefina Álvares de Azevedo, então dada como precursora do feminismo no Brasil em 1929, 16 anos após a sua morte em 1913.

Mas Mariana Coelho destoava de algumas dessas mulheres que defendiam a sua causa. Ela foi das poucas feministas do século XIX que conheceu a história de Nísia Floresta e a  reconheceu, e a proclamava como pioneira do feminismo no Brasil. Quando observarmos a história do feminismo no Brasil e a longa trajetória de luta das mulheres em prol a conquista de direitos iguais aos que eram dados constitucionalmente aos homens, quando o nome de Nísia Floresta - sem sombra de dúvida - e com legitimidade - poderia ser usado como símbolo do pioneirismo feminino, ela nem era citada por muitas da próprias feministas, inclusive do eixo-sul-sudeste, de onde floresceiam maior número de mulheres com esses ideais. O que explica isso? Não é possível que seria ainda preconceito?Bairrismo? Vaidade ingênua de se pretender ser a pioneira? Nunca vamos saber.

Pois bem, Mariana Coelho citou Nísia algumas vezes, mas vou me ater a um pequeno recorte, pois o considero singular, tendo em vista que ela divulga Nísia Floresta como a pioneira das pioneiras, enquanto outras se viam nessa condição, justamente porque desconheciam o que já havia escrito Adauto da Câmara ou mesmo Monteiro Lobato, Gilberto Freyre, Escragnolle Doria e outros que citam Nísia aqui e ali (L.C.F. 2020 - Natal/RN).
 
* * *

Vamos conhecer, abaixo, o breve texto escrito por Mariana Coelho para entendermos em que contexto ela menciona Nísia Floresta. Como expus anteriormente,  é uma rápida citação, mas muito importante, tendo em vista se tratar da visão de uma mulher que demarca o território de Nísia Floresta, enquanto se cogitava outras precursoras que não eram precursoras, pois vieram muito depois de Nísia Floresta. Eis o texto:

“Era brasileira e natural do Rio Grande do Norte, a primeira mulher que no Brasil reivindicou direitos para o sexo feminino: - Nizia Floresta.

Nasceu em 1810 e morreu em 1885; foi contemporânea de Comte, Littré, Victor Hugo, Alexandre Dumas e muitos outros grandes vultos literarios, com os quaes conviveu em França.

Escrevia advogando com convicção e enthusiasmo a causa feminista – assumpto que hoje preocupa todas as mulheres cultas. No último cartel do seculo XIX a illustre intellectual Ignez Sabino, juntamente com Josephina de Azevedo – fundadora da revist “Família” – nella sustentou uma campanha condigna para que a Constituinte da República Brasileira desse ás mulheres o direito de voto. Falleceu a pouco tempo no Brasil uma republicana histórica, a dra. Isabel Mattos Dillon, tambem feminista, que exerceu no tempo da monarchia o direito de voto – esta senhora cursava medicina – que afinal abandonou no quatro anno para seguir o curso de odontologia em que se formou em 1885. Enthusiasta no sonho de emancipação do seu sexo, trabalhou para conseguir a igualdade de direitos”.

Mariana Coelho

* * *

BREVE SÍNTESE DA BIOGRAFIA DE MARIANA COELHO (L.C.F.)

Mariana Teixeira Coelho, mais conhecida como Mariana Coelho, era portuguesa de nascimento. Sua vida foi inaugurada no dia 10 de setembro de 1857, no distrito de Vila Real, Portugal. Também informam a data de sua chegada em 1872. Encantou-se no dia 29 de novembro de 1954 com admiráveis 97 anos de idade. É uma das feministas pioneiras no Brasil. Navegou nas águas de escritora, poeta, jornalista, ensaísta e educadora. Em 1939 naturalizou-se brasileira, aos 82 anos.
 

Mariana Coelho veio de uma família de pessoas muito esclarecidas. Era filha de Manoel Antonio Ribeiro e de Maria Teixeira Coelho, ele farmacêutico, ela dona de casa. Seus irmãos eram literatos: professor Carlos Alberto Teixeira Coelho e Capitão Thomaz Alberto Teixeira Coelho. O avô materno de Mariana Coelho era descendente do Fidalgo Antônio Correia de Barros da Mesquita Pimentel, Senhor da Casa da Capela de Nossa Senhora da Conceição de Sabrosa, descendente de Afonso Botelho, 1º Alcaide-mór de Vila Real.


Quando Mariana Coelho contava 35 anos de idade, em 1892, sua família  veio para o Brasil e se estabeleceu em Curitiba, onde ela fundou o Colégio Santos Dumont, em 1902, juntamente com os irmãos, professor Carlos Alberto Teixeira Coelho educador, farmacêutico, escritor, filólogo, jornalista e poeta. Este fundaria o "Instituto Padre José Candido", juntamente com seus irmãos, Professora Mariana Coelho e Capitão Thomaz Alberto Teixeira Coelho, e seu tio, o capitalista José Natividade Teixeira de Meirelles.


No Colégio santos Dumont, Mariana Coelho exerceria o magistério e a direção do educandário por mais de quinze anos. Era uma instituição de alto nível, inclusive foi premiada com a Medalha de Ouro na Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil de 1908, no Rio de Janeiro. O Colégio Santos Dumont oferecia educação intelectual, física, moral, cívica e estética, com ensino primário e secundário, cursos de línguas estrangeiras, música e de preparação para a Escola Normal, recebendo, como reconhecimento de sua utilidade pública, subvenção estatal. Em 1916, em passagem pela capital paranaense e instigado pela curiosidade devido à fama, Santos Dumont quis conhecer a famosa instituição, surpreendendo toda a escola.


Mariana também foi diretora da Escola Profissional República Argentina, em Curitiba (hoje é o Centro Estadual de Capacitação em Artes Guido Viaro). Ela tinha uma vida intensa, e como fazia em sua Villa, em Portugal, onde era muito atuante e conhecida, seguiu os mesmos hábitos no Brasil. Em 1902, ela participou da fundação da Loja Maçônica Filhas de Acácia, em Curitiba, como oradora, ao lado da Baronesa do Serro Azul, viúva do Barão do Serro Azul. Na ocasião, proferiu um forte discurso com ênfase à sua verve feminista. Exatamente essas oportunidades a colocavam em evidência em seu estado e até mesmo fora dele. Era muito articulada e conhecia figuras renomadas, como por exemplo, Olavo Bilac. Eles se conheceram e trocaram correspondência, após visita do poeta a Curitiba. 



Em 1908, publicou o O Paraná Mental, cuja introdução foi escrita por nada menos que Rocha Pombo. A obra foi premiada com a Medalha de Prata na Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil, em 1908. Em 1911, Mariana  foi a única mulher paranaense, dentre uma multidão de homens de seu estado, a participar do 3º. Congresso de Geografia do Estado do Paraná, tendo feito um entusiasmado discurso, e como sempre, com forte inspiração feminista. A propósito, sua veia feminista já era transparente desde o século XIX, quando publicou "Evolução do Feminismo", obra que a consagrou e que é lida até hoje, inclusive Rocha Pombo escreveu que "seu trabalho que tem de ficar em nossa história literária".

Rocha Pombo é autor de um dos primeiros livros sobre a História do Brasil


A professora Mariana Coelho foi umas das fundadoras da Cruz Vermelha Paranaense, em 1917, atuando como enfermeira e membro da diretoria, com grande devoção, iniciativa e comprometimento, no enfrentamento de várias epidemias, como a “Gripe Espanhola”. Esse momento de sua vida se assemelha ao episódio em que Nísia Floresta se fez enfermeira, em 1855, no Rio de Janeiro, durante a epidemia de “Febre Amarela”, arriscando a sua própria vida para salvar outras, tornando-se voluntária no Hospital de Nossa Senhora da Conceição. Ela encontrou nesse gesto uma forma de homenagear a mãe recém falecida. As palavras de Mariana Coelho revelam a missão dos enviados pela Cruz Vermelha: “levar a todos os desesperados, na dolorosa travessia terrena, o ‘ramo de oliveira’ de uma vida nova ou melhorada. Só, assim, poderemos ufanar-nos do fazer parte desta cruzada altruística – cujo único fim é provar, inequivocamente, em todo o sentido, o devido e incondicional amor à humanidade” (Discurso - jornal “Diário da Tarde”, Curitiba, 02/06, 1917, p. 1).
 
 

Mariana Coelho fazia parte da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, e foi muito atuante nos congressos feministas de 1922, 1933 e 1936, além de escrever regularmente no jornal feminista O Corymbo. Tornou-se sócia do Centro Paranaense Feminino de Cultura, em Curitiba, em 1933, tendo sido uma das principais idealizadoras dessa instituição, posto alçado por intermédio da publicação de sua obra "Evolução do Feminismo", tendo proferido palestra intitulada "Um Brado de Revolta contra a Morte Violenta, depois editado em livro. 
 
 
Mariana é patrona da cadeira nº 30 da Academia Paranaense de Poesia e da cadeira nº 28 da Academia Feminina de Letras do Paraná. Também era sócia do Instituto Neo-Pitagórico, fundado por Dario Persiano de Castro Vellozo. Ao escrever amplamente sobre o feminismo no Brasil, em especial no Paraná, a professora universitária, editora e pesquisadora catarinense Zahidé Muzart caracterizou Mariana Coelho como a "Beauvoir tupiniquim", referindo-se à francesa Simone de Beauvoir.
 
Associação Educacional Mariana Coelho, Curitiba, Paraná.

Sua obra de maior destaque é “A Evolução do Feminismo”, de 1933, onde Mariana Coelho já percebia que a diferença entre os sexos e a subordinação da mulher decorriam da “fatalidade da lei sociológica”, como construção social. Reconhecia que a mulher podia contribuir, na sociedade, com as características próprias do espírito feminino, inclusive o amor, para o “aperfeiçoamento moral da humanidade”. Levantou voz em defesa dos direitos humanos, especialmente na obra “Um Brado de Revolta contra Morte Violenta”, sobre direitos humanos, recebendo, entre outras, a seguinte manifestação do Dr. Nelson Hungria, em 1935: “distribuí entre meus alunos do 3º. ano jurídico, o seu ótimo trabalho, fazendo-lhe o elogio de que é merecedor...” (L.C.F. - Natal/RN, 2020)


OBRAS

Com destaque para A Evolução do Feminismo: subsídios para a sua história, Mariana Coelho é autora de:

* Discurso, 1902;

* O Paraná Mental, 1908. Obra com proêmio de Rocha Pombo. Reeditado pela Imprensa Oficial do Paraná em 2002;

* A Evolução do Feminismo: subsídios para a sua história, 1933. Reeditado pela Imprensa Oficial do Paraná em 2002;

* Um Brado de Revolta contra a Morte Violenta, 1935;

* Linguagem 1937;

* Cambiantes: contos e fantasias, 1940;
* Palestras Educativas, 1956. Obra póstuma publicada pelo Centro de Letras do Panará.

*** 

EXCERTOS:
 


Abaixo, em caráter de curiosidade, Mariana Coelho escreve para as suas alunas, numa aula de etiqueta, como deve ser comido um ovo cozido. São as singularidades de certo modo pitorescas das antigas escolas. E Nísia também as teve. Em sua escola, por exemplo, menina que chegasse de casa contando episódios de suas famílias, assuntos passados fora da escola, ficava de castigo.






Abaixo, sobrinhas-netas de Mariana Coelho em data recente.



domingo, 24 de abril de 2022

Hoje é o aniversário de morte de Nísia Floresta, há 137 anos

 

Retrato inédito de Nísia Floresta, aos 40 anos de idade, feito em 1850.

ANIVERSÁRIO DE MORTE DE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA HÁ 137 ANOS...

Após viver as experiências mais intensas de educadora e escritora, no Pernambuco, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro... após suas posições pioneiras de feminista, abolicionista, indianista e indigenista, após a defesa da causa republicana e de outras ideias, ela alça voo altaneiro até o berço da civilização.

Diferente do olhar preconceituoso e mesclado de tabus sentidos em sua pátria - salvas as devidas exceções - na Europa ela foi enxergada como intelectual de igual para igual (E o era!). Logo ela está dialogando com Duvernoy, Alexandre Herculano, Manzoni, Azeglio, Comte, Castilho, Victor Hugo e outras figuras de grande repercussão até os dias atuais.

De seus 76 anos ela viveu 28 anos no Velho Mundo, respeitada, frequentando todos os ambientes onde aflorasse o conhecimento. Na França e Itália, em especial, ela experimentou a glória como pensadora, sendo aplaudida e reverenciada nos ambientes acadêmicos, inclusive ter o seu legado transformado em notícia em jornais, inclusive num periódico de Nova Iorque, Estados Unidos. Para a atualidade, isso parece simples, mas naquele tempo em que ela precisava 'matar um leão por dia', foi prodígio.

Peregrinou sua sede de conhecimento pelas terras da França, Itália, Bélgica, Alemanha, Suíça, Grécia, Inglaterra e Portugal. No Vaticano foi recebida em audiência pelo Papa. Por onde passava, olhava os cenários com a visão apurada dos grandes jornalistas, filósofos, sociólogos, escritores... e com a dádiva de poeta de notável sensibilidade.

Nada lhe passava despercebido: o modo de vida das mulheres; em especial, aos comportamentos sociais, ruínas, cemitérios, folclore, natureza, misérias, riquezas, abismos sociais, universidades, centros de humanidades etc etc etc...

Certa vez, sofreu um acidente de trem na Itália e saiu ilesa. Como agradecimento a Deus pelo que considerou milagre (Nísia era católica), doou tudo o que trazia em suas bagagens, em se tratando de dinheiro e joias, a uma casa de amparo às pessoas em situação de extrema pobreza. Isso era Nísia Floresta! Mas tudo passa... a velhice chega, e é IMPLACÁVEL!

Então, já cansada e desgastada, de certo modo cansada e solitária, pois sua única companhia era Lívia, a filha, ela se recolhe numa cidade medieval minúscula. Era vizinha de Flaubert (só não sei se se conheceram - ambos não falam disso em seus legados, nem em suas cartas/memórias, mas suponho, pois a obra de Flaubert, como Madame Bovary, com certeza a agradou). Isso é uma suposição minha. Que fique claro!

Pois bem, alí ela se recolhe numa casa modesta e desfruta as agruras da pior idade. No dia 24 de abril de 1885, toda a sua vida desaparece para se ocupar única e exclusivamente de sua obra, a propósito, de singular importância. Era dia chuvoso, conforme revela o calendário da época. As honras fúnebres foram providenciadas por Lívia, a qual morrerá menos de trinta anos depois, e se aninhará ao seio da mãe no mesmo túmulo.

Sessenta e nove anos depois, após as buscas incessantes pelo seu túmulo, Orlando Dantas finalmente localiza o ninho fúnebre onde repousava, intacta, a grande brasileira (Ela havia sido embalsamada a pedido, supondo um dia ser reivindicada pelos seus compatriotas). E finalmente "ela retorna" ao Brasil, onde uma multidão formada por gente de vários estados a aguardava.

Ocorreram solenidades no Pernambuco. Ela dizia que sentia Pernambucana (creio que devido a tal província ter sido berço de suas principais publicações, onde ela conheceu o grande amor de sua vida - suposição minha). A propósito, os pernambucanos a reinvindicam.

Seus despojos receberam homenagens em Natal (Onde ainda teve gente que quis polemizar). Salve Chicuta Nolasco! (Entrevistei-a em 1992). Essa educadora sofreu certos preconceitos por ter acolhido com dignidade conterrânea, tendo organizado uma 'Guarda de Honra" e a acompanhado até o Ginásio de Esportes, onde houve o "velório" de Nísia. Isso tudo sobre insatisfação de alguns - inclusive educadores - coisas da Natal que não perde nunca os ares provincianos. Natal desconsagra, sim!

Depois, uma massa humana escorreu até Papary, que já havia recebido o nome da homenageada. Um cônego insatisfeito, Rui Miranda, celebrou a missa de corpo presente (tive a sorte de entrevistá-lo antes de sua morte; o material está guardado). Enfim, deram fé que ao invés de ela ter chegado numa caixeta, veio num ataúde comum. Precisaram fazer de fato um túmulo tradicional.

O prefeito prometeu construí-lo. Não o fez. O padre teve que aturar a pobre Nísia na porta de sua Sacristia durante quase uma gestação humana, coincidentemente sob a proteção de Nossa Senhora do Ó grávida. Certamente a filha ilustre de Papari o ultrajava.

Pois bem, passaram-se os meses. Houve verdadeiro imbróglio. Alguns intelectuais jogaram a toalha, se juntaram, e graças à Academia de Letras do Rio Grande do Norte o túmulo foi erguido ao lado do monumento construído quase meio século antes.

Ali Nísia repousa (atualmente espremida e sufocada por todas as autoridades de Nísia Floresta, permitidoras da descaracterização de seu último espaço de descanso). Daqui a pouco ninguém conseguirá ver o seu túmulo (Denunciei isso ao Conselho Estadual de Cultura e ao IHGRN antes da Pandemia).

Dedico este breve texto à estilista Sra. Marlene, que costurou réplicas de diversos figurinos de Nísia Floresta no ano de 1993, para o espetáculo teatral História de Nísia Floresta, ocasião que escrevi esse trabalho.

- Dedico esse texto ao Dr. Ormuz Barbalho Simonetti, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, autor da obra colossal de genealogia "Os Troncos Genealógicos de Goianinha", cidade potiguar onde também nasceram os antepassados de Nísia Floresta, em destaque, sua mãe Antônia Freire. Eu sempre ouvi da minha mãe a informação de nosso parentesco com Nísia Floresta. Nunca fiz disso bandeira, pois queria provas concretas. E isso se concretizou através do trabalho de mais de trinta anos de pesquisa, encampada pelo Dr. Ormuz Simonetti. Obra que aguardei com ansiedade, para poder hoje estar contando-a. Está lá para quem quiser ler.

- Dedico esse texto a minha mãe Maria Freire, 90 anos, que permitiu que a minha infância fosse embalada por episódios da História da nossa Nísia. Aos nove anos recebi dela a obra "História de Nísia Floresta", escrito em 1941 por Adauto da Câmara, e guardo esse livro como relíquia.

- Dedico este texto a todas as pessoas que admiram Nísia Floresta e seu legado. Hoje não é dia de comemorar a sua morte. É dia de louvar o seu legado!

 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Rolete: tradição antiga do Nordeste...


 ROLETE: TRADIÇÃO ANTIGA DO NORDESTE...

Quando estive na Paraíba, recentemente, contemplei esse poema  da gastronomia popular antiga. Só existe no Nordeste. Chamam-no "rolete". São "rolos", "rodinhas", ou "bolachas" de cana-de-açúcar. Cada cidade tem o seu modo próprio de expô-lo à venda. A granel, espalhado numa bacia de alumínio, (vendido por pedaço), ensacado em plásticos ou redinhas (saquinhos de laranja), espetado por um curioso dispositivo feito de bambu (como o exemplo na fotografia) enfim. 

 No Rio Grande do Norte foi comum em quase todas as cidades, mas aos poucos a tradição foi desaparecendo. Talvez ainda se vê em Ceará-Mirim, no Rio Grande do Norte. Vi-o alí em 1999. O rolete é hábito saído de mãos pretas, resquício escravo. Meio de vida para gente muito pobre, que via na abundância dessa fruta alternativa para obter alguns patacões. As fazendas emolduradas de engenhos, repletas desses buquês chamados cana-de-açúcar tinham nessa fruta muitas alternativas. Dela veio a cachaça, a rapadura, o melaço, o mel-de-furo e o puxa-puxa. Cana-de-açúcar "in natura", na planta, é fruta feia, difícil de manusear. 


Diferente da laranja cravo, que se descasca com duas risadas, a cana-de-acúcar é fruta trabalhosa, solta micropelos que provocam coceira; às vezes a palha vira navalha, traz formigas... enfim a cana-de-acúcar arrancada na toceira é coisa para gente experiente. 

Certamente por isso o "rolete" - que é meio caminho andado - caiu na graça do povo, num tempo que ninguém sabia o que era chiclete, confeito etc. Os doces vinham da própria natureza. Vendedor de rolete fazia plantão defronte às igrejas, circos, cinemas, nas praças e qualquer lugar que tivesse "vavavu", no dizer do Dr. Antonio de Souza. Menino que tivesse bom faro arrastava logo o pai para próximo de um vendedor de rolete. Alí passava as horas. Saia depois que o chão ficava branco. Hoje em dia a tradição está cambaleante. Os doces modernos tomaram o lugar dos roletes. Os shoppings têm chocolate e marshmelow. Jamais alguém pagaria mico de vender ou comprar - acaso existisse - roletes no Midway, por exemplo. 

Hoje, a cultura raiz, ao invés de provocar atração, causa repulsa, salvas as raras exceções. Para ajudar, os quintais foram impermeabilizados pelos azulejos. Quem tem cana-de-açúcar no quintal de casa levanta a mão! Ah! E tem mais: quem disse que cana-de-açúcar estraga os dentes? Pelo contrário, cana-de-açúcar, ou melhor, o rolete, arranca todo o tártaro do dente, fortifica a gengiva e exercita o maxilar. Sem contar que a flor da cana-de-açúcar é uma das mais belas do Mundo. Experimente encher um vaso com flores da cana-de-açúcar, alternando-as com outras flores  e rosas. Por certo lhe perguntarão de qual floricultura requintada veio o buquê. Mas voltando ao rolete, depois desse inventário todo, estou salivando só de pensar nessa deliciosa iguaria nordestina. 

OBS. Após publicar esse texto, recebi uma fotografia do jornalista José Alves (Dedé do Alerta"), o qual mandou a fotografia de sua esposa mostrando um pacote de roletes adquirido num ponto na praia de Tambaú, estado da Paraíba, coincidentemente num local onde eu frequento quando vou àquele estado. Fica o meu agradecimento por essa colaboração.

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Escrito em 2018

Nísia Floresta e Princesa Isabel - O que há e o que não há em comum entre ambas

Muito anos antes de a Princesa Isabel nascer, precisamente 26 antes, Nísia Floresta já era abolicionista. Antes dela ninguém escreveu nada condenando a escravidão. Nísia nasceu aos 12.10.1810 e faleceu aos 24.4.1885. Princesa Isabel nasceu aos 29.7.1846 e morreu aos 14.11.1921. Quando Princesa Isabel ainda nem era nascida, Nísia Floresta já era autora de livros. Quando Isabel tinha três anos de idade, Nísia perguntava em uma de suas obras:


“... que uma raça não fez para sobre as outras ter revoltante primazia ilimitado poder?”...


Quando Isabel tinha 7 anos, Nísia colocava as autoridades brasileiras contra a parede e sentenciava:

“Senhores do Brasil, esse solo abençoado em que respirais, mostrai-vos dignos dele, fazendo desaparecer do meio de vós a maior vergonha dos povos cristãos! Vergonha que macula ainda os vossos altivos vizinhos do Norte, apesar dos admiráveis progressos do seu gênio empreendedor e dinâmico. Cessai uma horrível profanação da natureza humana: ela deve ter, cedo ou tarde, como resultado, terríveis represálias”...

Se formos falar aqui sobre as referências abolicionistas feitas por Nísia Floresta em suas diversas obras, precisaríamos escrever muito. Servi-me dessas duas significativas referências para trazer à baila essa importante informação que alguns desconhecem. O Movimento Abolicionista, no Brasil, foi crescer em 1870, ou seja, 21 anos depois de Nísia Floresta ter aventado seu ideário abolicionista em livros. Isso é fato. Está escrito! A abolição da escravatura no Brasil só aconteceria tardiamente, em 13 de maio de 1888, comprovando o conservadorismo das elites brasileiras. E não pensem que foi um ato de bondade. A Lei Áurea foi conseqüência do envolvimento popular com a causa da abolição. O povo foi às ruas gritar sua voz. O imperador sentiu-se pressionado a finá-la. 

 Entre 1870 até a deflagração da abolição tivemos abolicionistas como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco André Rebouças, Luís Gama, o poeta Castro Alves e outros. Sem contar os abolicionistas pretos. Mas Nísia Floresta veio na dianteira, abrindo caminho a facão e sofrendo todo tipo de preconceitos e tabus. Não poderia ser diferente. Ter sido precursora não a torna melhor que ninguém, mas a torna uma grande referência em toda a América Latina, inclusive fomos o último país da América a decretar o “fim da escravidão”. 

 O que nos decepciona nessa história é que a “bondade” da Princesa Isabel foi apenas um ato forçado e sem responsabilidade alguma perante milhares de "ex-escravos" soltos, sem eira e nem beira. A abolição foi a forma de se livrar da REFORMA AGRÁRIA. Desse modo eles abriram os ferrolhos das senzalas, retiraram os grilhões e os capitães do mato da pastora. Aos pretos restou abandono. E, abandonados, se viram obrigados a viver à míngua nas periferias, marginalizados e discriminados. Não eram gente para muitos. Inauguraram as favelas. 

O que se pode esperar de pessoas marginalizadas? E os reflexos são visíveis até hoje. Essa realidade não foi regra para todos, mas para quase todos. Prova disso são as estatísticas de criminalidade. Só pretos cometem crimes? Não! Comete crimes quem é abandonado por sucessivos governos inconseqüentes, segregacionistas, que não oportunizam políticas públicas de dignidade para a sua nação, sem priorizar cor ou qualquer condição. Bem, mas isso é tema para outros espaços. Quis apenas deixar aqui essa reflexão importante sobre a visão adiante do tempo de Nísia Floresta Brasileira Augusta. L.C.F. 1998.

O descobrimento do Brasil que não te contaram

 


HISTÓRIA DO BRASIL PROIBIDA PARA MENORES...
UMA INVENÇÃO MAL CONTADA…
 
Antes de se permitir correr os olhos sobre essas letras, já aviso que se você é desses - ou dessas - que atualmente enchem a boca para dizer que “é cristão” e usa a frase “O Brasil acima de todos, Deus acima de todos”, que faz arminha com as mãos, discrimina as minorias, não passe dessa linha, pois você jamais estaria entenderá o conteúdo abaixo, pois não lê. E quem não lê, apoiará sempre os canalhas que sempre massacrarão os pobres.
 
Que me perdoe o incrível Rocha Pombo, praticamente o autor do primeiro livro de História do Brasil de forma didática e mais organizada (lógico que o autor do primeiro livro - a considera outros aspectos - foi o Frei Vicente de Salvador, mas a história aqui é outra)… Refiro-me a um fenômeno bastante curioso, que desencadeou a partir do momento que nós, brasileiros, depois de ler livros escritos por historiadores, fomos ler livros escritos por cientistas políticos, cientistas sociais, jornalistas e mesmo por pessoas de outras áreas, mas comprometidas com a História, sem alegorias, sem romantismo, sem os ranços da Velha História… enfim, comprometidas com os fatos. 
 
Pois bem, depois de um viajante espanhol ter pisado pela primeira vez no solo brasileiro, aportou nestas plagas o famoso navegante Pedro Álvares Cabral, em posse "oficial". Após o desembarque, seguiu-se o extermínio de milhões de índios, dilapidação das matas, cuja madeira nobre abarrotava as serrarias e marcenarias portuguesas. Tudo virou assoalho de palácios e casas de gente "importante". 
 
A Europa inteira se socorria de Portugal quando queria comprar "madeira portuguesa" (que era madeira brasileira). Portugal estava para a Europa - em termos de disponibilidade de madeira e todo tipo de fabricação de móveis de altíssima qualidade - como hoje o Pará está para o Brasil. Dia desses, uma amiga que mora na Áustria, disse-me que visitou um museu em que o guia de turismo mencionou o Brasil diversas vezes ao se referir ao assoalho, alguns móveis e determinadas peças do espaço, inclusive indígenas.
 
Durante o "descobrimento do Brasil”, uma porção de padres se embrenhou nas florestas quase intransponíveis. Alguns, com a missão de evangelizá-los, mas alguns estupraram índias incontinenti. Não houve da parte de nenhum deles a preocupação de estudar as tradições e costumes deles para respeitá-las. Eles não queriam a amizade apenas. Queriam destruir a crença e forçá-los a acreditar em todo um contexto que, se formos adentrar nos fatos com profundidade, chegaríamos lá em Zoroatro e no paganismo, nessa miscelânea de coisas que o Cristianismo pegou para se moldar. É pano pra manga!
 
Portugal, ao constatar que o lugar que “haviam descoberto” (chamado de “Pindorama” pelos nativos) já havia sido descoberto há milênios, antes de ser descoberto por eles - mas tais descobridores eram “selvagens”, “aborígenes”, teve uma ideia: “vamos mandar para lá o máximo de europeus para miscigená-los… vamos misturar esse povo para embranquece-los e ver mais gente branca, de olhos verdes e azuis por lá, quem sabe a gente vai civilizando, e devagarinho urbanizando o local”.
 
Mas ninguém queria ir para uma selva sem conforto algum. Portugal era um país urbanizado, de certo modo, avançado. Ninguém queria vir de bom grado. Resultado: pegaram todos os marginais que estavam nas cadeias, juntaram com alcoólatras, prostitutas, ladrões, assassinos, tarados, loucos, enfim tudo o que eles chamavam de “parte podre de um país” e embarcaram em navios para cá, com o argumento de “perdão por seus delitos”. Para quem iria preso por décadas ou para o resto da vida, ou morrer na guilhotina, o “Brasil” significava a sonhada liberdade. 
 
Para engrossar ainda mais o caldo, a Igreja Católica, com a horripilante história “Santa Inquisição”, juntou os sodomitas (gays e lésbicas) que estavam condenados, e que iriam para a forca, ou prisões, e os que iam para as galés, onde trabalhariam até a morte, juntou com “feiticeiras” e “feiticeiros”, judeus, e os colocou na fila dos navios rumo a “Terra de Santa Cruz”. Foi uma alternativa, segundo eles, para “limpar o país” de “tudo o que não prestava para Portugal”.
 
Essas pessoas chegavam aqui sem rumo. Cada um por si. Algumas eram mandadas para cá, outras para lá, outras acolá… e assim o Brasil foi sendo colonizado em pontos diferentes como sabemos. Todos eram "aproveitados" em alguma coisa. Era o degredo. E vale ressaltar que, apesar de se tratar de “gente que não prestava”, havia marceneiros, ferreiros, médicos, cozinheiros, panificadores.. enfim todos tinham um meio de vida. 
 
Foi a chamada “escória” que, por ser branca e europeia, foi mandada para cá para "limpar a raça" do país que precisava crescer e evoluir. Queriam ver gente branca nascendo aqui. Seguiu-se sucessivas explorações desenfreadas. O que saia de ouro e pedras preciosas, animais de caça, penas, âmbar, mel, madeira etc etc etc não estava no gibi. Navios saiam de Portugal cheios de pedras comuns para fazer contrapeso, pois não podiam sair vazios que afundavam. De certo modo esses navios vinham vazios, pois as pedras tinham apenas a finalidade de permitir o singramento da embarcação. As pedras, chamadas "cantarias" serviram para calçar ruas inteiras das "cidades", coloniais. O Maranhão preservou muito essas ruas.
 
Os navios voltavam abarrotados de riquezas usurpadas daqui. Eles viam os indígenas de forma tão desprezível e bizarra que chegaram ao ponto de, certa vez, juntarem uma porção de indígenas e mandarem para alguns lugares da Europa como "souvenier", como fazem hoje nos zoológicos com bichos silvestres. Por coincidência, uma das cidades que “se maravilhou” com esse desfile de índios e índias pelados aconteceu em Rouen (França), cidade onde Joana Darc foi queimada viva, onde residiu Nísia Floresta mais de cem anos depois. 
 
Os anos se passaram. O então chamado “Brasil” já estava “melhor apessoado”. A dizimação dos indígenas seguia assustadora. Verdadeiro morticínio. Amedrontados, eles se afastaram cada vez mais nos lugares quase intransponíveis e remotos. Então, num misto de “medo de Bonaparte” e “posse oficial do que era deles”, veio para cá uma família real trapalhona.
Eles se apossaram das melhores casas dos que chegaram antes; até uma rainha louca metia o bedelho no Governo do Brasil. Antes dela, uma rainha piolhenta e pornógrafa, dava as cartas e mandava o marido “rei” calar a boca, enquanto transava com escravos, caixeiros viajantes etc etc etc. Gente glutona e tosca que detestava os nativos, mas os reivindicava quando o assunto era sexo. A dita rainha plantou chifres um atrás do outro no "marido" glutão, e teve vários filhos, cada um de um pai diferente. Vejam que coisa mais irônica: os avós deles mandaram para cá os degredados que “sujavam Portugal”, e depois vieram eles próprios para se misturar o sangue com com os que “sujavam Portugal”!!! Até porque esses amantes descendiam daqueles degredados lá do início, que tinham feito vida por aqui. Vejam o DNA!
 
Depois veio o imperador tarado, que mandava as amantes não tomarem banho, e desenhava pênis em cartas como preâmbulo das brincadeiras seguintes. Pois bem, foi esse o povo que “descobriu o Brasil”. Vale ressalvar que quando conto esses fatos, no tocante aos “degredados”, não significa que coloco no mesmo bojo dos que “sujavam Portugal” uma infinidade de pessoas idôneas, cuja Igreja Católica, para usurpar suas riquezas, plantavam provas para torná-las rés da “Santa Inquisição” e fazê-las desaparecer de cena, já que muitas não tinham herdeiros, e quando tinham, eles juntavam todo mundo no navio do mal.
 
Pois é, eles estavam numa terra que não lhes pertenciam, mas tratavam os daqui como seres submissos e inferiores. A história do Brasil - ao longo dos séculos - tem também páginas lindas, feitas por diversas pessoas ilustradas e idôneas. Na própria família real há personagens que não foram essa cocada toda, mas não eram personas non grata, como a própria Princesa Isabel, por exemplo, dentre outros personagens. Mas houve essa página inicial. Não aconselho ninguém a contar essa história para as crianças, mas para os alunos adultos estão autorizados. Afinal, a gente só consegue pensar e refletir, se conhecer os bastidores da História. Muitas vezes o bastidores nos permitem entender muito mais. L.C.F. 2016.

terça-feira, 19 de abril de 2022

O que Monteiro Lobato escreveu sobre Nísia Floresta


O QUE MONTEIRO LOBATO ESCREVEU SOBRE NÍSIA FLORESTA (L.C.F. 2016)

Monteiro Lobato foi um intelectual múltiplo. Escrevia com propriedade assuntos díspares; navegava nos mares remansos da Literatura Infantil às ondas turbulentas do petróleo e efervescências políticas. Altamente politizado, foi preso preventivamente, acusado de crime contra a segurança do Estado e a ordem social, acusado de injuriar os poderes públicos e os agentes públicos. Além de autor de renome, tinha longo histórico de defesa das posições nacionalistas, principalmente nos temas do ferro e do petróleo.

Sua obra se divide entre Literatura Infantil, juvenil e adulta. Como muitos intelectuais, ele  também escrevia em jornais e compilava os textos, transformando-os em livros. Nísia Floresta fez isso quando publicou a obra “Opúsculo Humanitário”. Ela reuniu alguns artigos que escreveu inicialmente em jornais do Rio de Janeiro.

Nísia Floresta aparece na obra de Lobato apenas nesse livro – pelo menos até onde a li - no ensaio intitulado “A Feminina”, publicado em jornal no dia 26 de janeiro de 1926. Sete anos depois, em 1933, o ensaio reaparece na coletânea “Na Antevéspera”, mesmo ano em que Escragnolle Doria escreveu o ensaio que já vimos anteriormente (vide blog).

Os textos de “Na Antevéspera” prenunciam o fim da República Velha e descortina a agitada década de 20, muito bem analisada por Lobato, que também incluiu textos de outras épocas, inclusive do tempo em que era aluno de Direito na capital paulista. Nele o autor escreve sobre diversos temas, de lavoura a literatura.

Assim como Nísia Floresta, Monteiro Lobato também sofreu críticas em seu tempo, mas por questões políticas. O tempo passou, os cenários mudaram e ele continuou muito lido – como é até hoje –, até reaparecer fortes críticas a alguns de seus livros infantis. Dessa vez não foi por política. Nos últimos anos, Lobato tem sido demonizado, principalmente pelos povos pretos, acusado de racista em alguns pontos de sua obra infantil.

Os críticos parecem não se permitir pensar sobre o contexto da época - em qual condição Lobato produziu algumas falas -,  quando brancos e pretos usavam expressões que hoje são condenadas, mas que, a meu ver, não é parâmetro para sentenciar Lobato um racista. Já estive com uma professora preta que defendeu ferrenhamente que jamais lê Monteiro Lobato para os seus alunos, pois não é insana de divulgar um racista. Tentei fazê-la rever a sua visão, destacando o que está neste texto, mas foi em vão, inclusive ela desapareceu das páginas do Facebook depois desse diálogo comigo.

Alguns intelectuais também apontaram Nísia Floresta como racista. É compreensível essa visão se lermos textos nisianos isoladamente. É assunto muito amplo, e para outro momento, mas adianto que isso também é um grande equívoco, embora há algumas controvérsias em alguns pontos da história dela. No que concerne a Monteiro Lobato, ele foi fruto de seu tempo, e tendo usado determinadas expressões, hoje tidas como preconceituosas – e que equivocadamente eram aceitas como normais em seu tempo –, não justifica o acusarmos de racista, sobretudo um gigante como ele, um visionário e um dos maiores defensores da leitura, das bibliotecas, das editoras e dos avanços culturais do Brasil. É dele a clássica frase: “Um país se faz com homens e livros”. Mas ressalvo que o objetivo deste texto é apenas apreciarmos em qual contexto Lobato citou Nísia Floresta, outros assuntos ficam para quem tem propriedade para falar sobre ele.

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LOBATO FEMINISTA (L. C. FREIRE, 2016)

O sol do século XIX raiava em seus meados. A Literatura Brasileira insistia em apresentar as mulheres como as que o sociólogo Gilberto Freyre conta em Sobrados e Mucambos. Eram apenas donas de casa. Quando raras leitoras – normalmente as abastadas –, se apegavam apenas a livrinhos de rezas, aos açucarados romances franceses e pareciam sempre preocupadas em copiar modas e costumes importados da Europa, em especial França e Inglaterra.

Já existia meia dúzia de exemplos femininos que quebravam regras na Europa, tanto escritoras quanto personagens dos livros; que o diga Flaubert, com a sua Madame Bovary, mas a mulher submissa e quase propriedade do marido, seguia em alta em meados dó século seguinte. 

Flaubert . 1821-1880

Exatamente nesse tempo Monteiro Lobato faz surgir personagens femininas incomuns, metendo o nariz no panorama conservador e patriarcal, inaugurando comportamentos atípicos, que destoavam do que se conhecia até então. Lobato inauguraria um cenário diferente, com outro perfil feminino na Literatura Brasileira, ou melhor, na Literatura Infantil. Ele apresenta Dona Benta, a dona do Sítio do Picapau Amarelo, Narizinho, Tia Anastácia e a famosa Emília, a boneca de pano que ganhou alma.

Há muito o que se conferenciar sobre tais personagens, mas já que falamos sobre Nísia Floresta – a primeira feminista da América Latina –, nos apegaremos ao fator atípico em que Lobato inseriu suas personagens femininas na Literatura, o que o torna um visionário. São mulheres protagonistas, com ideias próprias, autonomia e comando, atitudes que eram exclusivas dos homens. E dentre essas personagens, a mais velha, Dona Benta, uma mulher culta, que falava aos olhos das ciências.

Alguns livros infantis que li para o meu filho durante a sua infância, antes do sono chegar.

Elas moram num sítio delicioso, talvez parecido com o Sítio Floresta, em Papary, onde residiu a pequena Nísia Floresta. Nesse Éden também residiam personagens masculinos, todos harmonizados com os personagens femininos. O homem, ali, estava de igual para igual com as mulheres. Exatamente como Nísia Floresta reivindicava desde que se entendeu por gente e, depois, em suas obras publicadas.

Inegavelmente, Monteiro Lobato – leitor de Nísia Floresta – quebrou a tradição autoritária e patriarcal ao desfilar em suas obras personagens femininas com luz própria e que eram ouvidas por homens e mulheres. Isso se amplifica quando percebemos que ele leva essa mensagem exatamente para quem era de direito: as crianças. Os picorruchos que houvessem lido as histórias lobatianas com tais personagens, seriam diferentes dos picorruchos que lessem literaturas que mostravam mulheres submissas. Ou seja, Lobato educava as crianças – justamente as crianças – para que elas, esclarecidas, passassem a mudar a sociedade. Nísia Floresta também escreveu romances com mulheres protagonistas. Ela também citou personagens clássicas femininas que tiveram atitudes visionárias na História Universal antiga. Ela se fundamentava nessas personagens para os seus parâmetros.

                           Redalyyc

Como sabemos, desde o início do século XIX, em várias partes do mundo, em especial na Europa, não faltavam exemplos de mulheres que externavam suas ideias visionárias em jornais e livros. Elas clamavam por direitos iguais. E quando lemos esse ensaio de Monteiro Lobato sobre mulheres que pretendiam criar uma academia feminina de letras, quando num determinado ponto ele diz: “... Durante a sessão uma lerá versos de poetisas esquecidas, como a Nísia Floresta; outra dissertará sobre o absurdo do sapato das chinesas; outra deitará apóstrofes fulminantes contra o tráfico das brancas; outra provará que a inteligência humana não tem sexo”, percebemos inúmeras mensagens feministas nesse breve trecho. E quando ele menciona Nísia Floresta, além de homenageá-la, revela conhecer seus escritos. Lobato estava antenado nessa questão de direitos iguais para as mulheres. Com certeza ele também havia lido Adauto da Câmara. As obras não infantis lobatianas também revelam várias citações e mesmo ensaios inteiros em que ele enaltece a emancipação da mulher.

Recorte de um conto de fada antigo.

A Literatura Infantil em Monteiro Lobato – no tocante às personagens femininas – é diferente de tudo o que existiu antes, normalmente importado da Europa, consumido pelas crianças que obviamente se educavam na concepção de que realmente as mulheres eram seres inferiores. Isso se percebe nas inúmeras obras clássicas da Literatura Infantil de renomados escritores europeus, inclusive, lidos até hoje. Ressalvo que não estou desmerecendo as obras infantis anteriores a Lobato, até porque cresci saboreando as delícias que elas traziam. Fui marcado por Andersen, Os Irmãos Grimm, La Fontaine, Perrault e até mesmo as Fábulas de Esopo. Foram poucos os brasileiros escritores de Literatura Infantil contemporâneos a Monteiro Lobato. Mas eles não foram visionários como Lobato. Não havia nada de novo em outros escritores de Literatura Infantil Brasileira. Lobato destoou. Como Nísia Floresta destoou das outras moças de seu tempo.

Monteiro Lobato apresentou dona Benta às crianças brasileiras. Ela veio para “deseducar” os picorruchos, desconstruindo a imagem que eles tinham de suas mães,  avós e teriam de suas irmãs. Imagem que não contemplava os livros, não valorizava as ciências. Ela administrava o sítio, era professora dos netos, zelosa, amável, contadora de causos, sempre colocando pitadas de sabedoria. Lia muito. A casa tinha dessas coisas estranhas chamadas de “livros”, cuja proprietária era leitora voraz, dominando diversas áreas do conhecimento. Era uma educadora. Onde se viu isso antes na Literatura Infantil?

Zilka Salaberry no papel de Dona Benta - Primeira versão do Sítio do Picacapau Amarelo, extreado em 1977.

E o mais interessante é que ela educava as crianças para um mundo que deveria avançar. Monteiro Lobato foi genial ao inventar justamente protagonistas mulheres para darem recados ao Brasil, e para os governantes. Todos sabemos que Lobato era um ferrenho defensor da brasilidade, das riquezas brasileiras, da leitura, da criação de bibliotecas... isso está estampado em suas obras... ele era abnegado na defesa de um Brasil que explorasse o petróleo, enfim, era múltiplo... e – pasmem! – ele coloca no colo de uma mulher, a dona Benta, a responsabilidade de levar os pensamentos visionários dele.

Por que não colocou um homem? Um vovozinho sábio? Ora! Porque ele havia lido feministas. Havia lido Nísia Floresta, e lido sobre Nísia Floresta, a primeira feminista da América Latina. Lobato estava atualizado, percebia o quanto eram negados os direitos das mulheres em virtude da injustiça dos homens (em plenos meados da década de 40 do século XX). Lobato escolheu a mulher para gerar um novo entendimento sobre elas, assim como Deus escolheu Maria para gerar Jesus que geraria um novo entendimento à fé. Deus teve duas opções: fazer nascer misteriosamente, como um anjo que surge, ou fazer nascer de uma mulher. Deus escolheu a mulher. Jesus poderia ter surgido sem a mulher, como tantos mistérios de Deus, mas Deus divinizou a mulher. Lobato também divinizou as mulheres ao escolhê-las como protagonistas pioneiras de um comportamento feminino avançado e necessário. Aquele atraso não poderia se perpetuar.

Vejam que audacioso. Quem no Brasil esteve na vanguarda ao reivindicar a extração de petróleo em nossas terras? Foi Dona Benta! E essa loucura se deu em seu sítio. E o sítio prosperou. Prosperidade era a palavra de dona Benta. A obra lobatiana em que aparece essa mulher visionária – “louca” e audaciosa - com certeza não era muito recomendada, tendo em vista o patriarcalismo ainda tão forte nos meados do século XX. Mulher "subversiva"... alto lá!

Pois bem, para equilibrar o ambiente culto e delicioso do Sítio Floresta, aliás, do Sítio do Pica Pau Amarelo, na pessoa da Dona Benta, temos a encantadora Tia Anastácia, que vai empregnar esse oásis com o que temos de mais belo e contagiante no Folclore Brasileiro. Tia Anastácia é afro-descendente - expressão desconhecida à época -, e principalmente com essa personagem ele usaria algumas expressões apedrejadas atualmente por muitos, consideradas racistas.

Lobato não se sentava com gregos e troianos; não andava em cima do muro. E quando isso se junta a uma mente visionária, o apedrejamento vem na certa.

Sobre isso, devemos considerar o contexto da época. Não que fosse certo humilhar alguém por sua condição humilde ou por sua cor. Tais expressões eram impregnadas na sociedade como um todo. Era praticamente o vocabulário da época. Em nenhum momento a sabedoria, a esperteza, a inteligência e a graciosidade dessa personagem tão encantadora é inferiorizada. Pelo contrário. Tia Anastácia é colocada de igual para igual com Dona Benta no aspecto de ter a sua sabedoria popular enaltecida. O conhecimento dela é valorizado tal e qual o de Dona Benta. Lobato coloca o Folclore Brasileiro num panteão, como o fez Mario de Andrade. Ele se serviu de uma mulher preta para essa missão nobre. Lobato educa as crianças a amarem os mais velhos, ouvirem os mais velhos (como bem fazem os africanos), Ele educa as crianças a serem família. E com esse mesmo respeito Lobato age com o Tio Barnabé, que também era preto. 

                                              Dona Benta e Tia Anastácia

Na realidade ainda não li biografias de Monteiro Lobato. Desconheço seus biógrafos e especialistas. O que sei sobre ele está embutido nas sínteses biográficas trazidas em suas obras e meia dúzia de breves leituras sobre ele em jornais e revistas. Sei também de ouvir admiradores dele. Sei pouco. Sei sobre algumas de suas obras. Até aqui não o vejo como racista até que me provem o contrário. O que seria uma decepção, mas mesmo assim a riqueza de suas obras – a exemplo do que aqui escrevo - e o seu exemplo nobre de ter defendido ferrenhamente livros e bibliotecas, sua mente visionária em outros aspectos me bastam, pois foram poucos brasileiros com essa abnegação.

Expressões hoje assustadoras foram parte do cenário de sua época, e que não temos culpa. Sobre isso, lembro-me, quando criança e adolescente (décadas de 70 e 80) de livros de piadas sobre pretos, vendidos nas bancas de revistas. Li muitos. Não que os apreciasse. É que eles existiam em quantidade. Não havia como não lê-los. Sempre achei estranho aquilo. Nunca usei esse material como instrumento de brincadeiras. Nunca me servi de tais informações para contar piadas sobre pessoas pretas na tentativa de humilhar alguém.Os homens do poder demoraram a acordar para perceber essas publicações e criar políticas públicas de cidadania e civilidade. Ainda bem que isso se deu no passado. Hoje, apesar de o racismo continuar presente, é incomparável ao passado. Aqui citei apenas um exemplo.

Mas, retomando às mulheres do Sítio do Pica Pau Amarelo... Tia Anastácia é exímia cozinheira, boleira, doceira, enfim exerce os serviços domésticos bem ao modo da tradição reservada aos povos pretos daquele tempo, que na verdade eram filhos e netos de ex-escravos que ainda não estavam totalmente libertos. No pacote da abolição não veio junto política pública alguma. As mulheres pretas se valiam das cozinhas e dos quintais dos abastados, até o dia em que a situação melhorasse. Para os homens restaram a lida nas fazendas e serviços pesados na cidade. A abolição não significou liberdade imediata. Ela foi construída ao longo de sofridos anos. Isso é outra história.

A adorável Jacira Sampaio, no papel de Tia Anastácia, primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo. Ao seu lado, Narizinho (Rosana Garcia). 1977.

Tia Anastácia, assim como Dona Benta, era um doce de pessoa. Quem assistiu ao Sítio do Pica Pau Amarelo na TV Globo, em sua primeira versão principalmente, na década de 70, como é o meu caso, aos dez anos de idade, queria ter sido Pedrinho para se deliciar com o alimento delicioso saído de seu coração disfarçado de fogão cheio de sabores e fartura, complementados ricamente com o alimento de suas contações de histórias extasiantes. Essas duas senhoras adoráveis se complementavam. Uma era do universo dos livros. Outra, do universo das coisas populares. O sítio era uma felicidade.

As meninas do sítio também são apresentadas por Lobato como inteligentes e autônomas. Não são meninas quietinhas, amedrontadas... O que não era tão comum numa época em que o ranço do patriarcado e do machismo anda se apresentava intenso. Narizinho é falante, desenvolvida, articula bem as ideias, sabe argumentar. Não é aquela menina dependente, passiva, submissa e mais tradicional. Não significa ser uma pessoa adiante do tempo, até porque oscila um pouco tais comportamentos, mas Lobato a mostra como uma menina quebrando tradições e se modernizando. Ela é fruto do meio. Tem uma avó erudita, que conhece as ciências e ouve rádio, lê, é atualizada.Tudo isso sem se despir do necessário respeito aos mais velhos, reconhecendo-os como entes queridos, que devem ser ouvidos e valorizados. A obra lobatiana passa a mensagem sobre valores sempre, mesmo modernizando as relações humanas.

Emília entre Narizinho e Pedrinho

 Emília é astuciosa, perspicaz, curiosa, questionadora, sem filtros, tem iniciativa, não se convence com todas as ideias. Parece que Lobato, achou meio sem sentido uma boneca de pano como as outras, então se fez "Deus" e deu alma a Emília, deu-lhe a alma de Nísia Floresta? Não dizem que os autores projetam as suas ideias nas obras? A propósito, creio que Nísia Floresta foi uma menina inquieta e audaciosa logo cedo. O próprio casamento revela isso. Jamais ela se casaria forçada. É provável demais que, no calor e efervescência da puberdade, ela se apaixonou e caiu nos braços de Manuel Alexandre Seabra de Melo, restando ao pai – que tinha outra mentalidade – assim como a mãe, apesar de não ser alfabetizada, mas liberal – acolhê-la.

Lobato havia lido Nísia Floresta. Sabia que ela não se casou forçada, que não houve aquela ideia de dotes, que não houve casamento arranjado. Isso não combinava com a jovem de treze anos, filha do Sítio Floresta, assim como não combinava com a boneca de pano que ganhou vida, filha do Sítio do Pica Pau Amarelo, onde havia uma fonte constante escorrendo sabedoria. Onde havia – pasmem! – rádio.



Emília tinha ideias adiante do tempo com relação ao casamento. Dizia para todos que não tinha natureza para o casamento, não queria ser submissa. Sem papas na língua, alegava que nas redondezas não havia alguém que valesse a pena. Lobato empresta suas ideias feministas para Emília usá-las em sua obra, ensinando “rebeldia” às meninas, acomodando o feminismo aqui e ali. Mas Nísia, por livre e espontânea vontade, se casou com um rapaz que não valia a pena, e percebendo que não valia a pena,  em menos de um ano quebrou o elo sagrado do matrimônio. Como já comentei no terceiro texto dessa temporada de abril - sobre Raquel de Queiroz - , esse episódio gerou insatisfação por parte dos familiares que residiam em Goianinha, berço de Antonia Freire, mãe de Nísia. Naquele tempo uma separação matrimonial desonrava uma família inteira. Como uma mancha na família.

Em suas criações, Lobato também dava o seu recado à sociedade. Foi um visionário. Sua literatura infantil era diferente do que se conhecia até aquele momento. Sua literatura é nativista. Ele  inaugura o cenário brasileiro como palco de suas criações. Ele apresenta o povo brasileiro ao povo brasileiro e a quem o lesse nos continentes afora. O próprio Jeca Tatu era a cara do Brasil interiorano e desassistido. Era necessário mostrar à sociedade aquele homem real. Sua escrita é diferente de tudo o que líamos antes dele. Não é à toa que crianças e velhos adoram apreciá-lo até hoje. (Meu filho dormia embalado por suas histórias. Cada dia eu lia um trecho, e quando ele começava a fechar os olhos, eu datava o trecho para retomar no dia seguinte. Mas morria de vontade de ir até o fim naquele instante, refazendo a viagem feita na adolescência).

Guardo todos os livros que comprei durante a infância de Fídias. Aqui se vê a história datada. Tem até uma observação. Os livros estão todos assim. Há, de fato algumas expressões que aos olhos da atualidade não soam bem. Li-as do jeito que estava. Meu filho, hoje, tem 22 anos. Tem abominação por pessoas racistas.

Quantos homens e mulheres, hoje adultos, intelectuais, educadores e até escritores, leram ou ouviram a literatura infantil de Lobato. Quantos se inspiraram nele e se tornaram escritores? Sem dúvida, as mulheres do Sítio do Pica Pau Amarelo eram feministas. Feministas à luz daquele tempo. Quebraram protocolos, padrões e tinham ideias próprias. Lobato poderia ter sido igual aos demais. Mas foi diferente. Com certeza Lobato ajudou a formar novas feministas ao longo do tempo. 

 

Pois bem, agora que comentamos um pouco sobre Monteiro Lobato, passeamos no "Sítio Floresta, aliás, no Sítio do Picapau Amarelo, viajamos em alguns momentos da história de Nísia Floresta, vamos conhecer o ensaio em que ele menciona Nísia Floresta:

“Feminina” (por Monteiro Lobato)

Não pode ser mais feliz, com este calor, a ideia da fundação duma academia feminina de letras. Já que a masculina, contrariando a opinião unânime dos fisiologistas, embirra no erro de dar sexo à inteligência não admitindo em seu seio mulheres, lógico se torna o revide da saia, o qual, para ser completo, devia ainda expressar-se à porta numa tabuleta de moer: homem aqui não entra.

 Resta agora que o novo grêmio se organize por moldes autônomos, libérrimos, que deem boa medida da invenção guanabarina.

 Para isto faz-se mister que as fundadoras antes de mais nada se esclareçam no relativo ao que é, foi e poderá vir a ser uma academia, coisa na aparência fácil, mas na realidade dificílima. Tão difícil, que um mesmo homem as define pela tabela A, enquanto as namora, e pela tabela Z, depois que as possui.

 Ao caso não servem definições masculinas; as fundadoras hão de consultar as femininas, entre as quais ressalta a de Mme. de Linange.

 Disse esta aguda Madame: Academia é uma sociedade cômica onde se guarda o sério.

Pergunta-se: conformar-se-ão nossas damas de letras com a rigidez de tal programa? Terão a linda coragem, não digo de ser cômicas, o que seria lamentável, mas de guardar o sério?

Parece-nos difícil. Na fotografia do grupo das fundadoras, publicada pelos jornais, uma há que ri — e ri lindamente.

Vemos nisso um vício de constituição. Riso intestino, assim de começo, lembra cavalo de Troia dentro da Praça — e a sombra de Príamo poderá dizer como são perigosos tais presentes de grego!

Tudo muda, porém, se o riso fica de fora. É neste caso inócuo, pois não consta que riso algum, amarelo ou rabelesiano, jamais haja morto nenhum acadêmico.

Se existissem entre nós editoras, fora lógica a esperança de uma Mecenas, que à vara mágica dum legado resolvesse para sempre a questão.

 Não consta que as haja, e fora daí não parece possível que venha herança.

 É verdade que em França já houve um precedente.

 Clemência Isaura, formosa dama de Toulouse, tomou-se de singular paixão pela Academia dos Jogos Florais, e vendo que por escassez de fundos a olorosa instituição definhava, teve a ideia feliz de legar-lhe sua fortuna.

Tudo mudou, como aqui. Foi um derrame de primavera no esfaimado inverno da academia moribunda. Restaurou-se incontinenti o brilho da festa anual em que, como prêmios às melhores flores poéticas apresentadas, o vencedor recebia uma violeta de ouro.

 Que mimo! Em vez de prosaicos prêmios em vil papel moeda, uma violetinha de ouro!

A renda proporcionada pela interessante Clemência possibilizou a criação de novos prêmios: uma sempre-viva, para as odes; uma eglantina, para as charadas; um amor-perfeito, para os acrósticos; um lírio, para os poemas — tudo de ouro, com exceção do lírio, que seria de prata dourada. Larousse não o diz, mas está no caráter francês. O lírio é flor muito grande para ser reproduzida em ouro...

 Essa Clemência teve estátua no salão nobre do Trianon de Toulouse, estátua que os “maitres és” jogos florais, no 3 de maio de cada ano, revestiam de flores e diante da qual um deles, emergindo de enorme corbelha de rosas, fazia o panegírico da padroeira.

 Há que notar aqui a gratidão dessa gente. Gozavam-se do dinheiro de Clemência, mas não deixavam passar ano sem festa ditirâmbica em sua honra.

E como apesar de tudo inda sobrasse dinheiro, a academia floral agregou às festas simbólicas banquetes lautíssimos. Banquetes que degeneraram em orgia e fizeram intervir, com denúncia ao rei, um marquês de Maricá da época (não ganhara violetinha, com certeza...). 

O qual rei, abespinhado, restabeleceu policialmente o sério próprio de academias inda que florais.

Nutrirá esperanças duma Clemência Isaura a nova Academia Feminina? Não estará acaso convicta de que sem fundos não é possível viver decente nesta era mais que nunca idólatra do Boi de Ouro, que ingenuamente Moisés abateu no deserto?

 Outro ponto a estudar é o sistema eletivo, ou, melhor, o critério da escolha. Dada a notória implacabilidade da morte para com os imortais, terão nossas acadêmicas de reunir-se várias vezes ao ano a fim de completar a equipe desfalcada. E surge o problema tremendo: qual o critério da escolha?

 Ponto melindroso, tanto varia o critério humano na apreciação dos valores exorbitantes ao quadro métrico decimal.

Entre os inúmeros existentes há um, o de Guizot, que se revela profundamente sábio (da boa sabedoria, a pragmática!).

 Perguntaram-lhe se votava em N. N.

 — Sim, respondeu o acadêmico que apesar de ex-ministro tinha sal; dar-lhe-ei meu voto porque N. N. possui todas as qualidades dum perfeito acadêmico. Veste-se bem, escova os dentes, é polido, condecorado e não consta que tenha nenhuma opinião. É verdade que publicou umas obras... Mas, que querem vocês? Não há ninguém perfeito...

Sob forma de blague há no critério de Guizot uma altíssima sabedoria. O fim último dum grêmio, de parte as belas palavras do programa, é um viver amável em boa sociedade. Erra, pois, quem atende mais à obra do candidato do que ao seu feitio social. Obra vale para o uso externo; internamente a amenidade do convívio só exige os formosos dotes do N. N. de Guizot.

Arquitetada nestas bases, a nova academia terá vida longa e amena. Nossas damas se reunirão todas as semanas para conversar sobre modas, fatos sociais, casamentos, divórcios, etc., isto antes da sessão. Durante a sessão uma lerá versos de poetisas esquecidas, como a Nísia Floresta; outra dissertará sobre o absurdo do sapato das chinesas; outra deitará apóstrofes fulminantes contra o tráfico das brancas; outra provará que a inteligência humana não tem sexo.

Finda a assembleia irão todas para casa, muito contentes da vida, ansiosas por lerem o compte-rendu da festa nos jornais do dia seguinte.

 E a harmonia do universo em nada se perturbará. Nísia Floresta continuará esquecida; os proxenetas continuarão a escravizar as brancas; as chinesas continuarão a torturar os horrendos pedúnculos e a inteligência humana continuará dividida em dois sexos, o masculino que leva Newton a descobrir a lei da gravitação e o feminino, que nos leva a fazer asneiras.

 — Ou a escrevê-las... dirá mordendo os lábios dona Mercedes Dantas.

***


SEGUE, ABAIXO, UM TRECHO DE ANAHI, CITADA POR LOBATO. VALE A PENA LER:

Capítulo: CAPÍTULO XIV - Horror de Anahí por seu marido — Descobre que ele se ocupa com alquimia

As obrigações de Anahí eram, assim, muito leves, e teria podido considerar-se uma das convidadas do palácio, mais livre ainda que as demais para dispor do tempo a seu bel-prazer.

Alfonso de Peyrac não lhe recordava o título de marido senão em muito raras ocasiões. Por exemplo, quando um baile em casa do governador ou de algum dos altos funcionários da cidade exi­gia que a Sra. de Peyrac fosse justamente a mulher mais bela e mais bem ataviada da cidade. Então chegava sem se fazer anunciar, sentava-se junto à penteadeira e olhava com atenção o toucado da jovem, orientando as hábeis mãos de Margarida e das aias. Nenhum pormenor lhe passava despercebido. O adorno feminino não tinha segredos para ele. Anahí maravilhava-se do acerto de suas observações e do seu refinamento. Como desejava chegar a ser uma grande dama de qualidade, não perdia uma palavra de suas lições. Nesses momentos esquecia seus pesares e seus receios.

Mas, uma noite em que se mirava num grande espelho, deslumbrante em um vestido de cetim cor de marfim com alta gola de rendas guarnecida de pérolas, viu a seu lado o sombrio vulto do Conde de Peyrac, e um súbito desespero caiu-lhe sobre os ombros como um manto de chumbo.

"Que importam a riqueza e o luxo", pensava, "diante deste terrível destino: estar amarrada pela vida inteira a um marido capenga e horroroso?"

O conde percebeu que era a ele que Anahí olhava no espelho, e afastou-se bruscamente.

-   Que lhe sucede? Não se acha formosa?

A jovem dirigiu à própria imagem um olhar melancólico.

 -Acho, senhor - respondeu documente.

 -Então?... Ao menos poderia sorrir... E suspirou mansamente.

Durante os meses que se seguiram, Anahí pôde observar que Alfonso de Peyrac dispensava muito mais atenções às outras mulheres que a ela. Sua galanteria era espontânea, risonha, refinada, e as damas o procuravam com evidente prazer.

Faziam-se de "preciosas", como era moda em Paris.

-   Este é o Palácio da Gaia Ciência - disse-lhe um dia o conde.

- Tudo o que fizeram a raça e a cortesia da Aquitânia e, portanto, da França deve reviver entre estas paredes. Toulouse acaba de assistir aos famosos Jogos Florais. A violeta de ouro foi conferida  a um jovem poeta do Roussillon. De todos os rincões da França até do mundo vêm a Toulouse os autores de rondós, para se fazerem julgar sob a égide de Clemência Isaura, a luminosa inspiradora dos trovadores do passado. Não se assombre, portanto, Anahí de ver tantos rostos desconhecidos que vão e vêm em meu palácio. Se a incomodam, pode retirar-se para o pavilhão do Garonne.

 Mas Anahí não sentia desejo de isolar-se. Pouco a pouco deixava-se vencer pelo encanto daquela vida festiva. Depois de a terem desdenhado, algumas damas perceberam que não lhe falta­va espírito e acolheram-na em sua roda. Diante do êxito das re­cepções que o conde oferecia naquela morada que, apesar de tudo, era a sua, a jovem passou a dirigir de bom grado os serviços da casa. Era vista a correr das cozinhas para os jardins e da cobertura às adegas, seguida por seus três negrinhos, a cujos alegres semblantes se tinha acostumado.

Na cidade havia muitos mouros escravos, porque os portos de Aigues-Mortes e Narbonne se abriam para aquele Mediterrâneo que não era senão um grande lago de pirataria. Ir por mar de Narbonne a Marselha representava uma verdadeira expedição! Em Tou­louse riram-se muito, àquela época, das desventuras de um nobre gascão que durante uma viagem fora aprisionado pelas galeras ára­bes. O rei da França o resgatou imediatamente ao sultão dos berberes, mas ele regressou muito enfraquecido e não ocultava que entre os mouros havia passado maus momentos.

 Só Kuassi-Ba impressionava um pouco Anahí. Quando via erguer-se diante de si aquele colosso negro com olhos muito bran­cos, sentia uma ponta de temor. Não obstante ele parecia muito manso. Não se separava do Conde de Peyrac, e era quem guarda­va no fundo do palácio a porta de um apartamento misterioso. Para ali o conde se retirava todas as noites e, às vezes, durante o dia. Anahí estava certa de que naquele domínio reservado se achavam as retortas e garrafinhas de que Enrico tinha falado à ama. Gostaria de poder entrar ali, mas não se atrevia. Foi um dos visi­tantes do Palácio da Gaia Ciência quem lhe permitiu descobrir aquele novo aspecto da estranha personalidade de seu marido. https://fanfics.com.br/capitulo-fanfic/6644/80/os-amores-de-anahi-aya-terminada-capitulo-xiv-horror-de-anahi-por-seu-marido-descobre-que-ele-se-ocupa-com-alquimia

***

Segue, abaixo, um resumo sobre Monteiro Lobato, escrito por Dilva Frazão - Biblioteconomista e professora - É bacharel em Biblioteconomia pela UFPE e professora do ensino fundamental:

Biografia de Monteiro Lobato

Monteiro Lobato (1882-1948) foi um escritor e editor brasileiro. "O Sítio do Pica-pau Amarelo" é sua obra de maior destaque na literatura infantil. Criou a "Editora Monteiro Lobato" e mais tarde a "Companhia Editora Nacional". Foi um dos primeiros autores de literatura infantil de nosso país e de toda América Latina.

Ao lado da literatura infantil, Monteiro Lobato também deixou extensa obra voltada para o público adulto. Retratou os vilarejos decadentes e a população do Vale do Paraíba, quando da crise do café. Situa-se entre os autores do Pré-Modernismo, período que precedeu a Semana de Arte Moderna.

Lobato foi também jornalista, tradutor e empresário. Fundou a Companhia Petróleo do Brasil, à qual se dedicou por dez anos.

Infância

Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, São Paulo, no dia 18 de abril de 1882. Era filho de José Bento Marcondes Lobato e Olímpia Monteiro Lobato. Alfabetizado pela mãe, logo despertou o gosto pela leitura, lendo todos os livros infantis da biblioteca de seu avô o Visconde de Tremembé.

Desde criança, Monteiro Lobato já mostrava seu temperamento irrequieto e aos 10 anos escandalizou sua família, tradicionais fazendeiros do Vale do Paraíba e amigos do Imperador Pedro II, quando se recusou a fazer a primeira comunhão.

Adolescência

Monteiro Lobato fez seus primeiros estudos em sua cidade natal. Em 1896, com 14 anos, foi estudar em São Paulo no Instituto de Ciências e Letras. Em 1898 ficou órfão de pai e logo em seguida, perdeu sua mãe, ficando aos cuidados do avô.

Ao nascer, Lobato foi registrado com o nome de José Renato Monteiro Lobato, mas após a morte do pai, em 13 de junho de 1898, queria usar a bengala que pertencera ao pai e tinha as iniciais J.B.M.L. gravadas no topo do castão. Por isso, resolveu mudar de nome para que suas iniciais ficassem iguais as do pai e desde então passou a se chamar José Bento Monteiro Lobato.

Formação

Sob a imposição do avô, em 1900, Lobato ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo, embora preferisse estudar Belas Artes.

Nesse período, morava em uma república de estudantes localizada no centro de São Paulo, junto com os amigos Godofredo Rangel, Lino Moreira e Raul de Freitas.

O grupo se reunia para cuidar da vida literária e escrevia para um jornal publicado em Pindamonhangaba, de propriedade de Benjamin Pinheiros. Usando vários pseudônimos faziam oposição ao prefeito da cidade.

Monteiro Lobato manteve uma amizade duradoura com Godofredo Rangel e trocaram correspondência por 40 anos, que mais tarde foram reunidas em um livro chamado “A Barca de Gleyre”.

Lobato escrevia também para o jornal da faculdade, quando já mostrava sua preocupação com as causas nacionalistas. Na festa de formatura, em 1904, fez um discurso tão agressivo que vários professores, padres e bispos se retiraram da sala.

Nesse mesmo ano voltou para Taubaté. Prestou concurso para a Promotoria Pública, assumindo o cargo na cidade de Areias, no Vale do Paraíba, no ano de 1907.

Monteiro Lobato casou-se com Maria Pureza da Natividade em 28 de março de 1908. Com ela teve quatro filhos, Marta (1909), Edgar (1910), Guilherme (1912) e Rute (1916).

Em 1911 perdeu seu avô, herdando a fazenda Buquira para onde se mudou pretendendo ser fazendeiro. Começou a escrever o conto “O Boca Torta” que seria o primeiro de uma série que mais tarde foram reunidos sob o nome de Urupês.

Publicações Polêmicas

No dia 12 de novembro de 1912 foi publicado no jornal O Estado de São Paulo uma carta que Monteiro Lobato havia enviado à redação, intitulada Velha Praga, que causou grande polêmica, pois criticava as queimadas, a ignorância e a miséria do caboclo que prejudicavam o desenvolvimento da agricultura na região.

Em 1917 vendeu a fazenda e foi morar em Caçapava, quando fundou a revista "Paraíba". Nos 12 números publicados, teve como colaboradores Coelho Neto, Olavo Bilac, Cassiano Ricardo entre outras importantes figuras da literatura.

Nesse mesmo ano, comprou a Revista do Brasil, de programa nacionalista, tornou-se editor e publicava seus artigos. Transformou a revista em um núcleo de defesa da cultura nacional.

No dia 20 de dezembro de 1917, Lobato publicou no jornal O Estado de São Paulo, um artigo intitulado Paranoia ou Mistificação?, quando criticou os quadros de Anita Malfatti, pintora paulista recém-chegada da Europa, o que lhe custou a ruptura com os líderes da Semana de Arte Moderna.

Em 1918, Monteiro Lobato publicou sua primeira coletânea de contos, Urupês, quando traçou a paisagem das cidades por onde passou e o perfil do Jeca Tatu um caipira apontado pela pobreza, pelo marasmo e pela indolência, que o tornava incapaz de auxiliar na agricultura.

A figura do Jeca Tatu, descrita por Monteiro Lobato, chamou a atenção de Rui Barbosa que o citou em um discurso na campanha presidencial de 1918, como um protótipo do caipira brasileiro, abandonado à miséria pelos poderes públicos.

A obra se tornou famosa e a polêmica sobre a veracidade da figura do Jeca Tatu, se espalhou por todo o país. Para alguns, fiel e para outros exagerada. Na quarta edição do livro, Lobato pediu desculpas ao homem do interior.

Primeiros livros infantis

Entusiasmado com o sucesso de Urupês, em 1919, Monteiro Lobato fundou a Editora Monteiro Lobato, a primeira editora nacional, através da qual publicou seus primeiros livros infantis.

Em 1921 publicou "Narizinho Arrebitado", que depois passaria a chamar-se “Reinações de Narizinho”. Em seguida publicou “Saci” (1921) e “O Marquês de Rabicó” (1922).

As obras infantis fizeram grande sucesso, o que levou o autor a prolongar as aventuras de seus personagens em outros livros girando todos ao redor do "Sítio do Pica-pau Amarelo".

Em 1924, a Revolução Paulista levou sua editora à falência. Depois de vender tudo, Lobato e o amigo Octalles fundaram outra editora só para imprimir livros didáticos: a “Companhia Editora Nacional". Mudou-se então para o Rio de Janeiro.

Primeiros livros infantis

Entusiasmado com o sucesso de Urupês, em 1919, Monteiro Lobato fundou a Editora Monteiro Lobato, a primeira editora nacional, através da qual publicou seus primeiros livros infantis.

Em 1921 publicou "Narizinho Arrebitado", que depois passaria a chamar-se “Reinações de Narizinho”. Em seguida publicou “Saci” (1921) e “O Marquês de Rabicó” (1922).

As obras infantis fizeram grande sucesso, o que levou o autor a prolongar as aventuras de seus personagens em outros livros girando todos ao redor do "Sítio do Pica-pau Amarelo".

Em 1924, a Revolução Paulista levou sua editora à falência. Depois de vender tudo, Lobato e o amigo Octalles fundaram outra editora só para imprimir livros didáticos: a “Companhia Editora Nacional". Mudou-se então para o Rio de Janeiro.