ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

domingo, 25 de setembro de 2022

ACTA NOTURNA - PARA ONDE FOI A BIBLIOTECA DE HENRIQUE CASTRICIANO?

 Não é de hoje que bibliotecas particulares vão parar nos sebos após a morte do proprietário. Normalmente são vendidas a preço de banana, fracionadas por familiares que vêem nelas um incômodo ou - pasmem - algo inútil. Há também quem as jogue no lixo. Certa vez cheguei estive num sebo situado no Beco da Lama e quase chorei. A entrada do recinto estava obstruída por uma biblioteca gigantesca que eles haviam comprado e chegara ali naquele instante. Era extraordinária. Pudera! Pertencia a uma figura renomada do Rio Grande do Norte, e que por questões éticas não menciono o nome. Esse é o fim de muitas bibliotecas no Brasil. Pena, pois esses tesouros deveriam ser doados às universidades ou ao Instituto Histórico do Rio Grande do Norte.


Por falar nessa respeitável instituição, existe uma ata datada do dia 18 de setembro de 1910, de número 161, em sessão ordinária do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, registrando a doação de 171 obras raras, feitas por Henrique Castriciano ao acervo dessa instituição. Que espírito nobre!

Essa doação se constituiu de volumes em diversas línguas, incluindo obras raríssimas como, por exemplo, "Itinéraire d’une voyage en Allemagne”, escrito por Mme. Nysia Floresta (está escrito dessa forma). Nesse período, o desembargador Vicente de Lemos presidia o instituto.

No período de 1993 a 1997, eu fazia pesquisa de Iniciação Científica pelo PIBIC/CNPq/UFRN, sob a coordenação do professor José Willington Germano, intitulada “Levantamento e Catalogação das Fontes Primárias e Secundárias da História da Educação no Rio Grande do Norte no Século XIX”, decorrente de um estudo feito por Demerval Saviani, na USP. Transcrevi incontáveis relatórios escritos por diversos Diretores de Instrução Pública do RN (o equivalente atualmente a Secretário Estadual de Educação).

Eu chegava ao IHGRN às 13h00 e saía às 17h00, tempo que me permitia ler e pesquisar eventualmente assuntos do meu interesse também. Então me deparei com a citada obra escrita por Nísia Floresta e fiquei surpreso com a facilidade que as pessoas tinham acesso à mesma. Na minha concepção aquilo deveria estar em redoma. Recordo-me que conversei com o Dr. Enélio Petrovich, então presidente do IHGRN, expus sobre a raridade daquela obra, e a necessidade de um cuidado redobrado, pois é única no Rio Grande do Norte, e uma das raras peças contemporâneas à Nísia Floresta.

Na realidade, o acesso não era público, pois eu tinha autorização do manuseio de alguns setores devido à condição de estar atrelado à UFRN. Mas nem todos têm escrúpulos. Nesse mundo louco, já ouvi histórias escabrosas de renomados figurões do Rio Grande do Norte que adentraram em acervos importantíssimos do estado e fizeram um “rapa”. Lembro-me que o dr. Enélio Petrovich ficou agradecido e mandou guardar a obra no cofre do instituto. Com certeza ela está muito bem cuidada, e no futuro merece estar num espaço digno, disposta num mostruário muito bem protegido.

Só para lembrar: Castriciano fez uma ampla pesquisa com o objetivo de publicar uma obra sobre a nossa Nísia, tendo em vista que a intelectualidade potiguar se sentia órfã de informações sobre a notável conterrânea, inclusive muito ressentida com informações depreciativas decorrentes de uma carta permeada de equívocos, juízo de valores e até mesmo calúnias, escrita por Isabel Urbana de Albuquerque Gondim. Num tempo sem “xerox”, Isabel Gondim teve a astúcia de escrever dezenas dessas cartas, todas com o mesmo conteúdo, e distribuí-las onde quer que soubesse da ocorrência de conferência ou palestra sobre Nísia Floresta. Como se quisesse desdizer o bendizer feito à ilustre brasileira augusta. Esse comportamento, estranhíssimo, só ela saberia explicar, já que todos os que escreveram sobre Nísia, até o presente, são unânimes na opinião. Li a carta - gigantesca por sinal - em 1992, no Arquivo Estadual, e a transcrevi totalmente, inclusive publiquei um estudo inédito no meu blog sobre a mesma.

Pois bem… retomando sobre Castriciano. Muito doente, ele resolveu passar o projeto para o amigo Adauto da Câmara, que, inicialmente, a transformou numa publicação como "Conferência", em 1940, e depois a publicou em formato de um livro intitulado "História de Nísia Floresta”, pela Pongetti, em 1941, inclusive com as fotografias inéditas que ele recebeu das mãos de Lívia Augusta de Faria Rocha (depois Gade), filha de Nísia Floresta, em 1911, quando esteve em Cannes.

Embora em manuscritos, Adauto recebeu o trabalho praticamente pronto, inclusive fotografias inéditas, documentos e até o passaporte. Mas pasmem novamente: esse acervo desapareceu quase todo. É um dos grandes enigmas da História do Rio Grande do Norte. Depois, em 1950, Orlando Dantas, outro apaixonado por Nísia Floresta, localizou o túmulo dela em Rouen, e enviou uma fotografia para o IHGRN, engrandecendo o precioso acervo potiguar. 

Os restos de Nísia chegariam ao Brasil em 1954, depois de uma odisseia, mas Henrique e Adauto já haviam falecido. A propósito desses fragmentos, posto aqui duas photografias datadas do período em que pesquisei no IHGRN, quando tive o privilégio de conviver com o inesquecível historiador Olavo de Medeiros Filho. O que é a História… escrevo sobre a doação de Henrique Castriciano, e acabo chegando a tais recortes… L.C.F, 12.7.1999.

sábado, 24 de setembro de 2022

Doutor Antonio de Souza...


 
Nascido em Papari no  ano de 1867, Antonio de Souza foi uma espécie de "pessoa de confiança" do Coronel José de Araújo, ajudando-o nas burocracias da Intendência. O coronel foi chefe político de Papari durante mais de três décadas, e viu no jovem Antônio um grande colaborador. Antônio de Sousa foi brilhante escritor, reconhecido em diversas universidades do Brasil, mas esquecido por aqui. 
 
Coincidente, recebi em minha casa dois de seus biógrafos, um em 1997; Em Papari: dr. Erich Gemeinder (de São Paulo) e, recentemente, aqui em Natal, Dr. Manoel Onofre. Este último ficou curioso com alguns de meus escritos e pelo fato de eu ter conseguido entrevistar a cunhada do dr. Antônio de Sousa, como já expus em meu blog. Tivemos uma conversa muito agradável. Coisa dos apaixonados por literatura e história. 
 
Particularmente acredito que o dr. Antônio de Sousa foi apadrinhado pelo Coronel José de Araújo, que o encaminhou a Natal, junto à família Maranhão. Ele tornou-se pessoa de confiança do polêmico Pedro Velho de Albuquerque Maranhão. O notável papariense ocupou pastas importantes no governo do Estado, tendo sido governador. Era um homem excêntrico. Falava e escrevia em francês. Honestíssimo. Cheio de manias esquisitas.  
 
Aqui ele aparece esparramado numa cadeira no Intituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, ao lado de Eloy de Sousa, em 1929. Era a solenidade de fundação da Sociedade de Cultura Musical do RN, quando foi levada a efeito a décima quarta edição do curso "Waldemar de Almeida", em benefício do Instituto de Proteção e Assistência à Infância do RN.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Por que a novela "Pantanal" ignorou Helena Meireles e outros ícones sul-mato-grossenses?

https://aridonliteratura.com/2021/02/12/helena-meirelles-a-real-dama-da-viola-brasileira/  

Quando soube que a Rede Globo faria a releitura da novela Pantanal, transmitida originalmente pela Rede Manchete em 1990, assinada pelo genial Benedito Ruy Barbosa, fiquei no aguardo, ansioso para viajar no enredo épico e nas paisagens espetaculares do bioma pantaneiro. Não assisto mais a TV aberta, mas, confesso, o anúncio da novela me atraiu. Nascido e criado no Mato Grosso do Sul, o coração aperta  e os olhos saltam quando algo dali aparece na televisão. Creio que isso acontece com todas as pessoas que migram para outros estados. As nossas raízes falam mais alto.

Normalmente as novelas funcionam um pouco como “enciclopédias” ao retratar temas interioranos e levar algumas peculiaridades culturais do Brasil (embora nem sempre verdadeiras). Vemos muito isso com as temáticas nordestinas, bastante exploradas pelos autores globais, inclusive no presente, com a novela “Mar do Sertão”.

Eu e uma amiga, Nilza, atravessando o rio Paraguai, no Pantanal sul-mato-grossense...

A novela “Pantanal”, de 1990, foi singular e desbancou a Globo àquela ocasião. Até então nunca havíamos visto algo semelhante. Era um épico permeado de paisagens de tirar o fôlego, nudez ousada, uma história forte e dava vazão ao fantástico. O elenco era extraordinário. Verdadeiros monstros da teledramaturgia. E para diversificar houve a participação de cantores sertanejos, como Sérgio Reis e Almir Sater (outra novidade que atraia o telespectador). Tudo isso permitia que o Brasil  conhecesse um pouco a cultura do estado do Mato Grosso do Sul (linguagem, estilos musicais, tradições etc).


Sabedor dessas peculiaridades das novelas globais, comecei a assistir com regularidade a novela “Pantanal” estreada em março de 2022. Quis rever as imagens paradisíacas do pantanal, observar a cultura sul-mato-grossense, as tradições, hábitos, linguajar e, obviamente, o enredo, ver se teria muita relação à novela anterior.

https://www.mercidisco.com.br/cd-marcus-viana-pantanal

Lembro-me que a trilha sonora composta, orquestrada e executada pelo genial Marcus Viana, dava um toque maravilhoso ao contexto, pincelando muitos momentos com a magia daqueles sons que pareciam ser naturais àquelas matas, àquelas águas. A orquestra se confundia com as notas das florestas e principalmente da representação do fantástico, quando pessoas se transformavam em animais e aquele contexto todo da possessão diabólica vivida por Almir Sater em 1990, e que hoje é feita  por seu filho Gabriel Sater.

A primeira versão mostrou os “aires” sul-mato-grossenses com mais originalidade. Parece ter havido mais pesquisa. Óbvio que novela é fantasia, criação. Não é documentário, mas se ela está num determinado espaço geográfico, deve representá-lo com honestidade. Tanto é que a sonoplastia de 1991 era mais original. Tanto é que trouxe Almir Sater,  renomado cantor sul-mato-grossense, e Sérgio Reis, que não é daquele estado, mas tem uma gigantesca autoridade no assunto devido à convivência.


A “Pantanal” de hoje, além de cometer uma série de equívocos com relação aos hábitos e tradições sul-mato-grossenses, incluiu na sonoplastia músicas sem relação alguma com as raízes sul-mato-grossenses, e cometeu uma falha imperdoável, ignorando a excepcional Helena Meireles, única violeira sul-mato-grossense de repercussão internacional. Na realidade esse status ainda é dela. Ninguém a superou.  E não é à toa.

https://musicosmos.com.br/helena-meirelles-a-heroina-da-viola/ 

No início da década de 90 foi publicada uma uma matéria na revista norte-americana "Guitar Player" reconhecendo a genialidade dessa artista. Ela apresentou-se em um teatro pela primeira vez aos 67 anos, e daí em diante passou a gravar CD 's. Foi escolhida em 1993 pela Guitar Player como uma das "100 mais" por sua atuação nas violas de 6, 8, 10 e 12 cordas. A paleta de Helena Meirelles entrou para o poster das 101 principais palhetas da revista Guitar Player americana. É a única presença brasileira a receber tamanha condecoração.Obteve premiações internacionais e nacionais como Spotlight Arts (1993) e Cem e uma palhetas do Século (1994) pela Guitar Player Magazine e foi incluída na lista 30 maiores ícones brasileiros da guitarra e do violão (Categoria: Raízes Brasileiras) da revista Rolling Stone Brasil. Mas a novela Pantanal parece não saber disso.

Eu apreciando um delicioso Tererê, bebida de erva mate, típica do Mato Grosso do Sul e do Paraguai. Talvez foi o que melhor a novela retratou de autêntico.

É claro que a novela é uma releitura, mas faltou criatividade e pesquisa. Em 1990 dois monstros gigantes (um da poesia: Manoel de Barros, e outro da música; Helena Meirelles), apesar de uma obra prodigiosa construída ao longo de décadas, estavam explodindo (tardiamente) no mesmo período da novela, portanto não foi injusto que Benedito Ruy Barbosa os desconhecessem. Mas em pleno ano de 2022, com tanta informação na internet, ignorar Helena Meirelles é injusto. Ela, inclusive, poderia assinar a abertura da novela com algo autoral. Imagine a abertura com “Araponga”, de autoria dela, ou mesmo “Chalana”, que não é dela, mas sua interpretação é extraordinária. Helena não cantava, mas fazia a viola cantar. Em últimos casos, imagine uma releitura de “Araponga” nas mãos mágicas de Marcus Viana?  Pense naqueles bailes pantaneiros tão mostrados na novela, regados a fartos churrascos ao som de Almir e Gabriel solando “Cambaquá”, de Helena Meirelles? Faltou essa arte à atual novela.


Vê-se que a Juma da nova versão aprendeu a ler numa das obras de Manoel de Barros, portanto, apesar da abordagem sutil desse renomado poeta, constata-se que Bruno Luperi, neto de Benedito Ruy Barbosa, autor da releitura de "Pantanal" inovou. Não teria sido melhor ter inovado também ao evocar a grande e incomparável Helena Meireles? Ela agregaria valor e enriqueceria a trama por significar essa essência sul-mato-grossense.

https://notaterapia.com.br/2017/11/13/manoel-de-barros-o-poeta-das-miudezas-em-4-poeminhas/

Imagine uma cena em que Gabriel Sater musicasse o poema “Águas”, de Manoel de Barros. Visualize Almir Sater, com seu estilo sereno, aquela voz bela declamando essa obra inebriante, enquanto imagens paradisíacas das águas do pantanal enchessem as telas em seu contexto de bichos e matas. Penso que essa musicalidade de raiz, tão singulares em Helena Meireles e a poesia excepcional de Manoel de Barros juntas, melhor exploradas, seriam capazes até mesmo de aumentar a audiência da novela.


Não seria a vez de “Pantanal” ter tirado das galáxias do esquecimento a linda canção “Escrito nas Estrelas”, de Tetê Espíndola? Ou ter homenageado Délio e Delinha? Um detalhe: o sobrinho de Helena Meirelles, Mário de Araújo Meireles, é músico, toca viola e violão. Já imaginou uma cena com ele, Almir Sater e Gabriel Sater? Vale ressaltar que em Bataguassu, Mato Grosso do Sul, onde Helena Meirelles nasceu, mora um filho dela que toca viola e outro em Campo Grande, capital daquele estado. Acho valiosíssima a novela homenagear Almir Sater, mas ele teve a oportunidade na versão anterior. Por que não contemplar outras genialidades sul-mato-grossenses? O que me preocupa é um equipamento tão precioso, como a televisão, que projeta  o que ela quiser em cinco minutos, não enxergar essas pessoas em vida, quando elas podem nos encher de arte, já que Helena Meireles já faleceu e poderia ter recebido os holofotes da Globo como grande homenagem.

https://www.cenarioms.com.br/noticia/ha-96-anos-nascia-helena-meirelles-que-levou-sua-musica-de-bataguassu-para-mundo 

A novela está interessante. Tem bons atores, mas poderia ter sido mais original e poética, apresentando o Mato Grosso do Sul após ter pesquisado a sua cultura com os próprios sul-mato-grossenses. O grande equívoco de alguns pesquisadores (seja de novela e do que for) é chegar ao Pantanal - encontrar um gaúcho que mudou para ali há três anos, ou um nordestino que saiu do Nordeste no ano passado e chegou ali para trabalhar em alguma fazenda -, e fazer uma pesquisa oral com eles ou com goianos que migraram para aquele local. Eles não retratarão com veracidade a cultura local. Percebi isso na atual versão de Pantanal. Nunca ouvi um sul-mato-grossense dizendo que está com "reiva" (raiva), como tanto falam os atores da novela, dentre outras bizarrices. A novela não representa o Mato Grosso do Sul.

Sobre Helena Meireles, a novela “Pantanal” perdeu a grande oportunidade de alcançar o ibope da versão anterior, de 1991. Quem perdeu foi a novela, pois Helena continuará dando ibope, inclusive, recentemente, ganhou até museu. Ressalvo que parei de assistir a nova versão com pouco mais de 30 dias da estreia. Senti-me incomodado ao ver os equívocos que a novela divulga. Luís Carlos Freire.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Às margens do rio Pardo, Mato Grosso do Sul...

Às margens do rio Pardo, Mato Grosso do Sul...
Apreciando esse rico acervo de pinturas a óleo e aquarelas, feitas por viajantes europeus em expedição pelas terras do "Matto Grosso" em meados do século XIX, me impressiono. As imagens registram os topônimos locais, flagrantes das paradas das comitivas de peões de boiadeiros para pouso e alimentação e outras. Há no meio una fotografia avulsa dos Ofaiés Xavantes (1924). Quando descobri essas imagens, há uns dez anos, me emocionei muito, pois sempre indaguei sobre a falta desse material ao pesquisador. Verdadeiro tesouro. Alguns dos quadros aqui mostrados, ou melhor, os de Hercule Florence, estão expostos no Museu de Ciências Naturais, em São Petesburgo, Rússia.

















Indígenas Ofaiés-Xavantes em 1924, às margens do rio Pardo.


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Escolas militarizadas e a "Síndrome de vira latas"



Há pessoas que só valorizam o que é dos outros. Só é bom e bonito o que está nos outros, a roupa, a casa, até mesmo os filhos. Não há elogio para os próprios filhos, mas há elogios para os filhos alheios. Essas pessoas normalmente se impactam com o novo como uma anunciação divina. “Síndrome de vira lata” é a frase cunhada por Nelson Rodrigues para traduzir esse comportamento. Ele, sempre frio em suas colocações, mas verdadeiro, real.  Meu pai dizia que “a ignorância é um câncer”, pois em seu tempo era a pior doença do mundo. Hoje eu diria que a ignorância é pior que todas as doenças do mundo.

Dia desses assisti a um programa em que um casal  era entrevistado e fazia elogios rasgados a uma escola estadual  que se tornou militarizada, cujo filho deles estava matriculado. A esposa e o marido endeusavam a mudança. A palavra de ordem era “disciplina”, “respeito”, eles elogiavam até a farda das crianças como se elas estivessem vestidas com algo que as blindasse de todos os males do planeta.

Não vi preocupação com o conhecimento e com a qualidade da educação. O casal estava profundamente satisfeito e impactado  pela nova imagem dos filhos que, antes, trajavam calça jeans e camiseta branca, e que agora estavam parecidos com militares dado àqueles acessórios todos. Parecia que aquela aparência bastava para eles. Fiquei perplexo com aquilo, e mais perplexo quando a mãe da adolescente disse que era uma professora civil. Para mim ela assinava a sua incompetência naquela atitude.

Nada contra os militares, principalmente os poucos que demonstram um comportamento  realmente civilizado - que são poucos -, mas o lugar deles não é na escola civil. Essa nova postura do Governo Federal de militarizar as escolas é uma forma de dizer que a escola civil não funciona. É uma forma de humilhar o professor civil, portanto o professor que concorda com isso se auto-define como incompetente. A última pessoa a aceitar essa mentira deve ser o professor, aliás, jamais um professor deve assim fazê-lo. O Governo quer passar a ideia absurda e equivocada dizendo que os professores fracassaram e agora chegaram os militares para "salvar" o Brasil. E isso não é verdade.

O Governo não quer investir nas escolas civis para deixá-las fracas, e quer investir pesado nas escolas militarizadas para fortalecê-las, para justamente dar a impressão de que o militarismo é uma solução para o Brasil, e que os professores civis são incompetentes. Só mesmo um idiota cai nessa.

A trama militar é sustentar a tese de que a solução para o Brasil está nos militares. Eles amarguraram décadas ensaiando tomar o poder, e o conseguiram mediante ao golpe feito à Dilma, agora se valerão de tudo - até de armas - para não largar o poder. Duro e vergonhoso é ver alguns professores aceitando isso. Ainda bem que é uma minoria. Justamente essa minoria com a Síndrome de vira latas.

Espero dos educadores e do povo brasileiro a resistência e a resiliência. Os ignorantes que estão dando cartaz  para essa tática do presidente da república, ao invés de cederem, deveriam ser resilientes e lutarem para uma escola civil de qualidade, ao invés de aplaudir essa estupidez.

Jamais a escola militarizada terá o mesmo nível de cidadania, de politização, de formação completa da juventude que a escola civil garante. A educação militar é limitada. Não valoriza diversas áreas do conhecimento. Áreas que levam os jovens ao pensar político, como: filosofia, antropologia, artes e sociologia. Elas são fundamentais para a formação de todo homem.

Tomem cuidado com essa aparência militar. Reveja os seus conceitos sobre o que de fato é disciplina, respeito e educação de qualidade, pois esse reluzir não é ouro, é apenas uma parte bem pequena de uma grande trama que levará o Brasil a uma desigualdade terrível.

Valorize os professores, valorize a escola civil. Não se deixem enganar pela aparência dos soldadinhos de chumbo que inocentemente serão os homens e mulheres do futuro, mas com cérebros limitados. O uniforme civil é lindo, embora não é isso que importa. O que importa é o devido investimento nas escolas, do ensino infantil ao médio, e a aplicação do conhecimento em toda a sua plenitude, sem limitar disciplinas, nem proibir tipos de cabelos, tipos de roupas, tipos de comportamentos etc.

O militarismo pretende formar uma nação fraca, à mercê dos poderosos. O que esse governo quer é que o seu filho seja sempre o empregado, jamais o patrão. Quer babões, lambe botas, puxa sacos, ao invés de homens e mulheres realmente esclarecidos e visionários, que fomentem uma nação plural, sem preconceito, sem tabus e estigmas.

Lugar de militar é nos quartéis, pelotões e nas Forças Armadas. O pior cego é aquele que vê fingindo que não vê.

domingo, 28 de agosto de 2022

Alzheimer - Se as paredes falassem...


ALZHEIMER - SE AS PAREDES FALASSEM…


Geraldo era médico. Aos cinquenta e seis anos de idade começou a apresentar um comportamento atípico. Ele se flagrava em situações esdrúxulas, como procurar os óculos para ler mesmo estando com o óculos no rosto. Esquecia qual era a sua toalha de banho e usava a da esposa que se irritava, perguntando se ele estava demente. Em plena pandemia, saia sem máscara, era barrado nos locais onde ia, e voltava para buscá-la ou comprava numa farmácia. 

Aquelas experiências incomuns o irritavam, mas eram involuntárias. Ele tinha consciência da situação apenas no momento que acontecia, depois esquecia. Uma vez, ao passar as compras do mês pelo caixa do supermercado, percebeu que não havia trazido a carteira e precisou ir para casa pegar o dinheiro. Ao chegar ao apartamento, a esposa havia saído e levado a chave. Ele também esqueceu o celular e precisou aguardar a metade da manhã até que ela voltasse. Após receber fortes críticas da esposa, foi buscar suas compras, mas o supermercado havia devolvido tudo nas prateleiras. E lá foi Geraldo pegar ítem por ítem. 

Foi uma manhã e um pedaço da tarde nessa demanda, e quando chegou escutou os mesmos xingamentos da esposa: “você só pode estar ficando doido”, “cuidado que isso é coisa de gente maluca”, “preste mais atenção nas coisas”, “você está muito desligado, está pensando em quê?”.

Geraldo gostava muito de chá ‘in natura’, e numa noite colocou uma porção de folhas de hortelã na água, ligou a boca do fogão e foi ler. Após uns sessenta minutos a esposa gritou lá do quarto “Geraldo, que cheiro de queimado é esse?”. Ele correu para o fogão. A vasilha estava preta por dentro e meio contorcida. Intrigada com o cheiro, a esposa desceu e disse “homem, você está demente, é? preste mais atenção, deixe de ser descuidado!”.

Diante da frequência daquelas experiências, Geraldo percebia que alguma coisa estranha acontecia em sua mente. Às vezes supunha se tratar de cansaço mental, mas ultimamente não estava tão ocupado nem preocupado com problema algum exceto aquele comportamento. Às vezes ele mesmo ria ou ficava irritado quando se flagrava em situações como pegar um livro para ler e, mesmo com o livro na mão, ir até a estante procurar o dito livro. A irritação se ampliava quando, depois de uns cinco minutos procurando o livro, dava conta de que ele estava em sua mão.

Ele ouvia a esposa criticando o seu comportamento quando falava ao telefone com os irmãos dela, sempre usando palavras ofensivas e que o constrangiam muito: “dia desses aquele maluco quase incendiou a casa esquecendo uma vasilha no fogo”, “ele vive com a cabeça no mundo da lua”, “parece um doido”.

Geraldo sentia que sua situação era grave, pois esquecia até mesmo o nome dos vizinhos. Quando encontrava amigos no shopping, no supermercado e em outros lugares, reconhecia apenas a fisionomia, mas não sabia com quem estava falando, entrava na livraria, comprava livros e saía sem a sacola. Esquecia de eventos importantes, ia ao supermercado e não sabia o que comprar, esquecia palavras quando conversava e ficava olhando para o horizonte tentando lembrar, esquecia o que estava falando e perguntava o que estava dizendo, enfim nada lembrava aquele homem inteligente, autor de livros, que falava a grandes públicos e tinha uma mente brilhante. Como ele ainda tinha consciência de que estava com algum problema, passou a sofrer muito, pois ficava envergonhado com os vexames e gafes que cometia.

Ao longo do tempo ele assistia o seu problema se agravando e lhe colocando em situações vexatórias. Para piorar, a esposa, que deveria perceber que seu comportamento não era loucura, mas algum sinal de demência ou alzheimer, o irritava constantemente: “você só pode ser um idiota, esquecer onde está a chave com a chave no bolso!”, “procurar o óculos com ele na cara”, “assistir reportagem e não ser capaz de dizer o que acabou de ser exibido!”, enfim, não havia compreensão da parte da esposa. Ao invés de ela contornar algumas situações para evitar que ele passasse vergonha diante dos amigos, ela ampliava o vexame: “Geraldo agora deu para esquecer de tudo”.

Um ano se passou e Geraldo perdeu a noção de quase tudo. quando almoçava, demorava o triplo do tempo, caminhava mais devagar, tropeçava com frequência, batia nos móveis da casa, quebrava louças na pia, urinava na roupa quando ia ao banheiro, perdia a noção do tempo quando tomava banho. A essa altura a esposa se irritava constantemente com ele, usando xingamentos ofensivos, como “FDP”, “idiota”, “demente”, “louco”, “maluco”, “por que eu casei com esse troço?”, “sua família devia vir te buscar”, “vou lhe jogar num asilo”, “esse troço não morre”.

Foi justamente nesse estágio que ela o levou ao médico. Geraldo estava em estágio avançado de Alzheimer. Daí em diante o seu caso só se agravaria, mas nada era mais grave que a falta de paciência e compreensão da esposa. A essa altura ela passou a agredi-lo fisicamente, dando-lhe bofetadas quando precisava fazer algo como alimentá-lo na boca. Muitas vezes o deixava no banho por horas. Eram comuns os seus gritos que às vezes assustava algum vizinho, mas que não provocava reação alguma no marido. Ele estava apático. Nem mesmo os tapas no rosto ou os empurrões lhe provocavam reação.

Foi providenciado um cuidador que ficava 12 horas com ele. Das dezoito às seis horas. Durante a manhã e tarde, ele ficava com a esposa, ou melhor, vegetava, pois era deixado num sofá ou na cama. Qualquer necessidade do marido era tratada com estupidez, gritos, empurrões, tapas, puxões de cabelo. Lá fora ninguém sabia de nada, apenas que “seu Geraldo estava com Alzheimer”. A esposa não o levava a lugar algum, nem para um banho de sol. Os parentes dele moravam em outro estado. Um dos irmãos o visitou certa vez, quando a esposa fez um excelente teatro de cuidados, mas somente enquanto durou a visita. Lá fora, dona Elisa, a esposa, era vista como uma “santa mulher”, que vivia para o marido.

Dentro de casa ela não o medicava com a devida regularidade, o deixava com fome, com sede, com a fralda suja, esquecido no quarto. O único cuidado correto era feito pelo cuidador que não imaginava a monstruosidade da esposa.

Hoje é dia 7 de maio de 2021. O senhor Geraldo acabou de ser sepultado. A casa está cheia. Dona Elisa, a esposa, chora como uma criança, dizendo que queria ter sido enterrada com o marido. A família dele a consola, agradecendo pela bondade dela, pelos cuidados que teve durante a sua doença. Durante a noite o filho telefonou para a mãe, dizendo que a editora Cruzeiro do Sul havia ligado para ele há duas semanas e tinha uma proposta milionária relativa aos livros do doutor Geraldo, e havia marcado uma reunião na capital para assinar a papelada. Na manhã seguinte, dona Elisa se arrumou impecavelmente, entrou em sua Land Rover e foi ficar milionária, graças às obras do marido.

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A imagem aqui postada foi obtida com inteligência artificial, portanto essa pessoa  não existe.




 


   

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Sanderson Negreiros e Tarcísio Medeiros, uma faceta histórica...



Ano que vem completará meio século da primeira edição de “Aspectos geopolíticos e antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, uma das obras de Tarcísio Medeiros, insígne escritor norte-rio-grandense. Li-a em 1993, então aluno na UFRN, na aula de Cultura Brasileira, por orientação do também ilustre potiguar Sanderson Negreiros. 

Sanderson tinha um modo interessante de construir o conhecimento com seus alunos. Lembro-me que certa vez, em sala de aula, quando ele citava Dorian Gray Caldas, disse “querem ir em sua casa, conhecê-lo”. E fomos naqueleinstante. Assim conheci outro renomado mito da terra de Câmara Cascudo. Aquilo me marcou. 


Outra vez eu havia faltado na semana anterior. NÃO EXISTIA WHATSAPP.  Quando voltei, soube que teríamos que ler alguns livros para, depois, discutí-los. A dinâmica seria assim: a pessoa que leu discorreria sobre a obra. Sanderson Negreiros, o professor, faria possíveis observações, e o restante da turma, que não havia lido aquele livro, ouviria a explanação fazendo perguntas e outras abordagens. Assim, todos saberiam sobre todos os livros.

Como eu havia faltado, sobrou para mim “História da Alimentação no Brasil”, de Câmara Cascudo. Ninguém quis ficar com ele, pois é tão grande que algumas editoras o publicam em dois volumes. No caso, li todo num livro só. As obras eram de Sanderson. Li como uma criança degustando o seu sorvete preferido. É simplesmente fascinante e foi um dos livros que mais me marcaram. 



Essas foram duas passagens marcantes com o professor Sanderson, na UFRN...

Eis que chega em minhas mãos, ontem, a obra “Aspectos geopolíticos e antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, de autoria de Tarcísio Medeiros. Até aí, nada demais além da importante obra. Mas ela continha esses invisíveis que a mim, pelo menos, impressionam e que acho digno dar-lhes  visibilidade. 

O livro, apesar de carregar 49 anos de idade, está intacto, mas o que mais chamou a minha atenção foi um cartão onde está datilografada uma mensagem escrita pelo autor, dirigida a Sanderson Negreiros, além da dedicatória.

O texto traz informações preciosas em que é possível viajar até a Redinha e ver esses dois mitos sentados no alpendre de uma espaçosa varanda jogando conversa fora. Dentre elas as ideias que ele findou escrevendo nessa obra. 




O que me encanta é a humildade. Ele fala do livro como se não fosse o tesouro que é. Dá impressão que é um desses livros que você lê, lê e não há o novo, o inédito, o fascinante... só mesmices.

O cartão foi escrito no dia 22 de maio de 1973. Tarcísio tinha 55 anos de idade e Sanderson 34. 21 anos de experiência a mais carregava Tarcísio, e ele acolheu sugestões do jovem Sanderson. Humildade e respeito a um jovem que com certeza muito cedo se revelou genial.

Ele assina o cartão e com a mesma caneta Bic diz “N.B. Releve os erros tipográficos”.Quem daria importância para “erros tipográfico” diante daquele pergaminho de conhecimentos?

O que está ali que foi sugestão de Sanderson? Quais as lacunas dos “grandes mestres” citadas por Tarcísio? São esses invisíveis que nuterm a minha imaginação... Fico pensando o que conversaram esses notáveis.

O clipe estava se desmanchando; deixou nódoas no cartão e na página. Senti-me como os egiptólogos descobrindo câmara em pirâmide ao retirar a peça metálica e imprestável, ali colocada por Tarcísio e retirada por mim. Sanderson foi tão bom que deixou para alguém esse presente.

Tarcísio partiu em  2003, aos 85 anos. Sandersou se encantou em 2017, aos 78 anos. Ambos deixaram obras preciosas para o Rio Grande do Norte e para o Brasil, tanto assinadas por eles quanto contidas em suas bibliotecas.

Limites e perímetro urbano de Nísia Floresta e na área urbana isolada



Em 2013 um amigo, funcionário da Prefeitura de Papari, mandou-me esse documento, o qual quis compartilhar, pois é  bastante útil no  aspecto histórico, permitindo o conhecimento de topônimos geográficos.

Helena Meirelles, uma história que nos impressiona...


Helena Pereira da Silva Meirelles nasceu na fazenda Jararaca, Mato Grosso do Sul, em 1924. Compositora, cantora e violeira. Aprendeu a tocar viola com seu tio Leôncio, em festas promovidas por seu avô paterno. A família reprovou rigorosamente a sua vontade de manusear instrumentos musicais. Alegavam que "não era coisa para moça de família". Naquele tempo lugar de mulher era na cozinha. Como escreveu Gilberto Freyre em sua obra “Sobrados e Mucambos”, “a mulher saia de casa três vezes: para casar, batizar e enterrar”. 


As mulheres, já desde meninas, cresciam ouvindo a sua sina -  ou sentença - que sua vida se resumiria às prendas domésticas, cozinha, fogão, do bordado e afins. Uma espécie de catequese machista legava à mulher nada mais que a casa. Quem quebrasse a sentença pagariam caro. O preço era a desonra e  difamação que já começava em casa, pelo pai. Ele precisava “defender a honra da família”. Desse modo, muitas mulheres foram condicionadas a uma vida muitas vezes reprovada pela moral social, a começar pelo próprio lar hostil e cheio de preconceitos e rótulos depreciativos descarregados sobre a mulher, desde pequenina. Já o menino era criado solto como um cachorro.



Nesse tempo nasceu a menina Helena. Já nasceu no formato de um violão - ou viola. Andar com um violão para cima e para baixo não pegava bem nem para um homem, pois passava a imagem de pessoa descompromissada, sem responsabilidade, “um vagabundo”, diriam. Imagine uma mulher dedilhando um violão! O pai reprovava o seu dom, não permitindo que ela chegasse nem perto de uma viola. Aos 9 anos de idade, aproveitando as saídas do pai, ela pegava a viola do tio (todos músicos) e ia para o mato “tocar para as onças e passarinhos”, como me disse uma vez que esteve em minha casa, no Mato Grosso do Sul (já famosa). O gosto pela música era tão grande que ela resolveu se casar  aos 17 anos de idade com um peão de boiadeiro, vizinho, e passou a residir próximo dos pais. Viu no casamento uma alternativa para manusear o instrumento com liberdade, longe da reprovação paterna. Helena amava os instrumentos de corda, e sentia na alma a necessidade de lidar diariamente com a música, como se ela saísse de suas entranhas, como se o próprio corpo fosse uma nota musical.


O casamento foi uma tragédia. O marido não queria que ela tocasse viola, e ela o tocava diariamente, após os deveres domésticos. Helena tentou sustentar o casamento e fez o possível para que o marido entendesse o seu gosto pela música, mas apanhou muito, chegando ao ponto de ser espancada e rotulada com os nomes mais baixos que se pode dirigir à uma mulher. Assustada, ela abandonou o lar, deixando para trás um filho nascido no meio do pasto, tendo em vista que o marido se ausentava durante meses, levando comitivas de gado para os sertões sul-matogrossenses. Na sua mente ela entendia que levar a criança para um mundo incerto era muito mais perigoso.


Sem ter a quem recorrer, sem familiares próximos,  sem maturidade e experiência alguma - praticamente uma adolescente - ela foi trabalhar em casas de família. Voltar à casa paterna era o mesmo que matar o seu talento musical. Como empregada doméstica, Helena Meirelles comeu o pão que o diabo amassou, sendo humilhada constantemente, tratada como no passado tratavam as escravas. Os “patrões” queriam pagá-la apenas com o almoço e a janta oferecidos diariamente, restos de roupas usadas, migalhas, sem contar que só em dizer que gostava de moda de viola, era execrada, como se gostasse de algo ilícito. Em algumas casas, ela dormia na cozinha, sobre um couro de boi para justamente acordar bem cedo, muitas vezes chutada, para deixar tudo pronto para os patrões.


Enquanto suas patroas queriam os seus serviços domésticos, os patrões queriam o seu corpo. Helena vivia numa constante resistência contra assediadores, sendo enxergada como um objeto sexual por muitos patrões perversos, tarados, que não respeitavam mulher alguma que não fosse suas filhas. Desestimulada, ela teve a ideia de buscar ambientes onde desse vazão ao seu talento musical. “Se no lar onde nasci não pude tocar, se no meu casamento não pude tocar, se em casa de família não posso tocar e sou explorada, resta-me tocar no mundo”. Certamente pensou assim. 


A viola estava  grudada nela como pele. Assim passou a trabalhar em estabelecimentos comerciais, como bares, restaurantes e pousadas de beira de estrada e ponto de peões de boiadeiro. Esses lugares se abriram para o seu talento musical. Helena causava perplexidade onde passava. Os donos dos estabelecimentos imploravam que ela se estabelecesse ali, mas ela era indomável. Cismada. Muitos homens iam às lágrimas ao vê-la solando a alma do Mato Grosso e os ares paraguaios tão comuns àquela região.


O tempo foi passando, ela perdeu totalmente o contato com a sua família, mas começou a ser conhecida por suas polcas, chamamés, rasqueados, fandangos , guarânias e outros ritmos sul-mato-grossenses. Constantemente era convidada para participar de festas e bailes no interior do Mato Grosso do Sul, na região do Pantanal, Campo Grande, mas a menina dos seus olhos era o Porto XV de Novembro, local onde ela reinou plenamente. O fato de se tratar de uma mulher musicista que se apresentava em qualquer lugar – algo extraordinário para aquela época - consistia numa verdadeira atração, pois não se via em todo o Mato Grosso uma mulher com tal comportamento.


Obviamente que não podemos ser hipócritas de negar a sua fama de biscate meramente pelo fato de viver no meio de homens e de bar em bar. Ela colecionava razões para assim ser rotulada: abandonou a casa dos pais, vivia com um violão debaixo do braço, tocava em casas noturnas e em qualquer biboca, casava e descasava quando queria, deixava alguns filhos com conhecidos, vivia no meio de homens. Não poderia ser diferente a uma sociedade hipócrita, que faz juízo de valor do portão para fora e tampa o sol com a peneira do portão para dentro, ignorando as “biscates de família”, filhas de gente rica, que se forem criticadas, processam na justiça. Helena era uma “ninguém” perto das biscates ricas. Os juízes da vida alheia não perguntam a Helena Meirelles os bastidores de sua vida e o que ela passou num tempo em que quase ninguém respeitava uma mulher que abraçasse o mundo sozinha.


Deixando de lado a parte que os hipócritas preferem enaltecer, a sua fama de artista impecável corria pelos sete cantos, levada de boca a boca pelos peões que arrastavam gado em todo o rincão do Mato Grosso do Sul. Não havia quem não falasse de Helena Meirelles por toda a Estrada Boiadeira. No Pouso Sapê, Pouso Guassu, Pouso Matinha e Porto XV de Novembro não faltavam os seus acordes. Todo mundo queria saber quem era aquela mulher singular. Centenas de pessoas se arranchavam nos lugares  onde ela se apresentava para vê-la tocar. 


Nesse ínterim, aos 21 anos, ela se junta novamente a outro homem. Sua vida conjugal sempre foi problemática devido a sua paixão pela música, que para ela era a prioridade. Bastava um marido fazer nariz torto para o seu violão, e o casamento estava rompido sem traumas. Isso a empurrou para um mundo condenável pela sociedade. Entre um lugar e outro, entre um marido e outro, Helena pariu vários filhos e os deixou nas casas de comadres e pessoas conhecidas, sempre dizendo que um dia os reivindicaria. 


A sociedade, como sabemos, mata e cura, apedreja e afaga. Mas como não somos juízes, e as vidas particulares são insignificantes diante  dos nossos legados, O legado monstruoso de Helena - hoje reconhecido internacionalmente - é superior à sua vida pessoal que, diga-se de passagem, precisou ser exatamente daquele jeito. Inegavelmente o seu lado de mulher musicista foi magnânimo. Basta.


Após trinta anos sem ver os seus familiares, já na casa dos 60 anos, na década de 70, Helena reencontrou a sua família. Em seguida ela mudou-se para Santo André, São Paulo, onde passou a residir com o marido que a acompanharia até a sua morte, e alguns dos filhos. Apesar de tudo, ela nunca perdeu o contato, mesmo em sua vida conturbada. Sempre procurou notícias através de pessoas conhecidas que passavam nos locais onde ela tocava. A exceção foi apenas uma filha, que ela deixou com uns amigos que desapareceram e ela nunca mais a viu. Helena realizava pequenas apresentações na casa da irmã e reunia outros violeiros. Incentivada por um sobrinho, ela gravou algumas de suas músicas em um pequeno estúdio que enviou-as em fitas K7 para rádios e gravadoras brasileiras.


Pouco depois foi convidada por Inezita Barroso (1925-2015) para uma apresentação em seu programa Mutirão, exibido pela Rádio da Universidade de São Paulo (USP). Participou, posteriormente, do programa Viola, minha Viola, da TV Cultura, também apresentado por Inezita. O seu modo de tocar era peculiar, diferenciando de tudo o que se conhecia sobre instrumentos de corda. Talvez a opressão sofrida convergiu toda para a sua potência musical, onde ela construía os seus acordes solitariamente, silenciosamente, e fez disso grandes composições, como quem recebe espinhos e dá flor.


O sucesso e o reconhecimento nacional veio depois que o mesmo sobrinho enviou algumas fitas para a revista norte-americana Guitar Player, dedicada a instrumentos populares de corda. A revista escolheu-a como instrumentista revelação de 1993, colocando sua palheta  num museu inglês, ao lado de nomes como o dos ingleses Eric Clapton (1945) e Jimmy Page (1944) e dos norte-americanos B.B King (1925-2015) e Carlos Santana (1947). Depois disso, o Brasil quis saber quem era Helena Meirelles. Em 1994, ela lança, pelo selo Eldorado, seu primeiro CD, intitulado Helena Meirelles, com destaque para dois chamamés compostos por ela, “Fiquei Sozinha” e “Quatro Horas da Madrugada”, e outras músicas de domínio público, como “Araponga” e “Chalana”, sucessos de Mário Zan (1920-2006), além de histórias e causos de sua vida, nas faixas finais do CD. 


Em 1996, lançaram "Flor da Guavira", com músicas instrumentais de sua autoria e algumas canções folclóricas mato-grossenses-do-sul. No ano seguinte, lança mais um CD, também pela Eldorado, intitulado "Raiz Pantaneira", com treze composições suas, e participação de Sérgio Reis (1940) na canção “Guiomar”, de Haroldo Lobo (1910-1965) e Wilson Batista (1913-1968). Em 1998, apresentou-se na EXPO Mercosul em Canela, Rio Grande do Sul, e em diversas unidades do Sesc pelo Brasil. Em 2002, lançou o seu quarto e último CD, "Helena Meirelles ao Vivo", gravado em Campo Grande, com destaque para “Flor Pantaneira”, de sua autoria, e participação de Zezinho Nantes, na gaita. 


Em 2004, é lançado o documentário "Helena Meirelles a Dama da Viola", com direção de Francisco de Paula (1962) e trilha-sonora da própria Helena. Ainda neste ano, participa do CD Os Bambas da Viola, da gravadora Kuarup, ao lado de Chico Lobo (1964), Roberto Corrêa (1957), Heraldo do Monte (1935), Almir Sater (1956) e Renato Andrade (1932-2005). 


Helena Meirelles alcançou o auge da fama, muitas vezes não conseguindo atender a todos os convites, pois já contava com 80 anos cujo corpo alquebrado não era mais aquele que não tinha hora para repouso, ocupado com sua viola que não se aquietava, atravessando madrugadas, sob os acalourados "sapucays" (gritos típicos dos ambientes com música ao vivo), tão comuns em todo o Mato Grosso do Sul, herança paraguaia.


Em 2005, Helena Meirelles não resistiu às complicações pulmonares, vindo a morrer em Campo Grande, aos 81 anos de idade. Em 2006,  é lançado o documentário Dona Helena em sua homenagem, com direção de Dainara Toffoli. Foram exatos 10 anos de fama absoluta, construída sobre o exercício constante, desde os 9 anos de idade, quando certa vez ela pegou o violão do tio e saiu correndo mata adentro para dedilhar magicamente tudo aquilo que havia aprendido "de olho". Certa vez um tio a flagrou em sua peripécia musical e ficou perplexo. Só de ver os tios e a peonada mato-grossense e paraguaia tocando, ela construiu o seu próprio concerto de corda.


A história de Helena Meirelles traduz a audácia de uma criança que escolheu a música como o alimento da alma. Um gesto de coragem extrema e grandes renúncias em nome do amor à arte. Já dolescente, ela quebrou as correntes do machismo  reinante que a impediam de voar. E voou. Voou alto. Como pássaro cantador foi a sua viola, sua companheira eterna. Sua decisão audaciosa custou-lhe caro - tomada num tempo cuja mulher se tornava facilmente mal vista por razões banais - e quem rompesse os tabus e preconceitos carregaria para sempre os piores rótulos, não importando se tivesse culpa ou não. A história de Helena é um exemplo claro de que, muitas vezes, os próprios pais empurram os seus filhos para a tragédia. Qual seria a desonra de se ter uma filha que tocava violão? Mas foi assim...


Quantas e quantas mulheres, por esse Brasil afora, foram instigadas a buscar outros rumos nem sempre apreciados pela sociedade, mas que foram os únicos encontrados numa sociedade machista, patriarcalista e  conservadora, que sentenciava o ser de cada pessoa. Ela não teve alternativa. Para onde corria surgiam lobos.


Independente de julgamentos e sentenças preconceituosas, Helena é um dos maiores exemplos da busca por um sonho. Para Helena, as piores agruras da vida não consistiram em obstáculos. Inegavelmente ela foi uma criança-prodígio. Se tivesse cedido às sentenças injustas dos juízes populares, jamais teria sido esse patrimônio da música brasileira. Jamais teria dado ao Brasil e, em especial, ao estado do Mato Grosso do Sul a honra de ter levado o nome desse estado para o mundo. Quem, mais do que ela, projetou o nome de sua cidade para os quatro cantos do Mundo? 


Hoje Helena é objeto de estudo dos mais respeitáveis músicos, e também é tema de estudos acadêmicos de importantes universidades do Brasil. É citada por renomados intelectuais das mais diversas áreas. Hoje o seu nome estampa até mesmo um museu, reservando-lhe um espaço muito especial e digno. Foi uma das maiores ideias do município onde ela desabrochou e reinou. Helena Meirelles é um dos grandes orgulhos do estado do Mato Grosso do Sul. (Texto inspirado em publicações do Museu Helena Meirelles).