ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 25 de maio de 2023


Helena Meireles sempre disse que nasceu em Bataguassu - e de fato nasceu - porque as terras que ouviram o choro do seu parto, pertencem a Bataguassu. O município em cuja fazenda está localizada é Bataguassu. Em 1924, nem Bataguassu nem Nova Andradina existiam à época enquanto gentílico,  enquanto nomenclatura. Mas um detalhe elucida tudo: geograficamente, a antiga fazenda Jararaca - hoje Santa Inês - está em Bataguassu. Por incrível que pareça, essa fazenda pertence a José Gordo, primo de um cunhado meu.  Não está e nunca esteve em território de Nova Andradina. 

Na verdade os brasileiros,  os sul-mato-grossenses, em especial os 'novandradinenses', deveriam se orgulhar disso sem querer se apossar de uma história que não lhes pertence. Helena Meireles,  se muito  andou por aí em suas andanças, mas querer transformar isso em certidão de nascimento é muita divagação. Helena Meireles, além de ter nascido em Bataguassu, passou grande parte da sua vida lá, inclusive, recentemente, houve uma homenagem às mulheres pioneiras de Bataguassu e algumas narram a participação de Helena animando as quermesses de São João Batista,  e nos bailes do Guaçu, do Sapé e outros pousos de boiada, todos em Bataguassu. 

Helena passou um período grande de sua existência também no Porto XV de Novembro. Ali ainda existem muitos que conviveram com ela. Inclusive seu primeiro marido   Rosalino Iralla, que também tive o prazer de conhecer, nasceu e morreu em Bataguassu. Grande parte dos filhos dele ainda residem em Bataguassu. Fatalmente   há menos de um mês,  o mais velho faleceu   inclusive era o responsável pelo tradicional festival de moda de viola que ali acontece. 

Helena é bataguassuense, sim. Vale dizer que lá está o seu 🏛 museu, inclusive com acervo dela, lá residem dois de seus filhos, os quais participaram,  há duas semanas  da solenidade de instalação de uma galeria pictórica sobre ela, doada pelo sobrinho que a revelou para o mundo  e que, inclusive,  participou dessa solenidade. É importante que você busque enaltecer o belo e hospitaleiro município de Nova Andradina com fatos,  com verdades, e jamais com o oposto disso. Vou printar essa sua postagem e enviá-la ao seu sobrinho Mário José de Araújo e aos filhos de Helena, que com certeza absoluta, não gostarão dessa tentativa deturpar fatos. Também enviarei para a irmã de Helena. Isso é furto à História. Sua atitude, inclusive merece ser denunciada. Luís C. Freire. (esse texto eu enviei para um oportunista de Nova Andradina; precisamos defender a nossa história).

Vandalismo na estátua de Manoel de Barros...


Há pouco mais de um ano vandalizaram a escultura de Manoel de Barros, famoso poeta sul-mato-grossense, falecido em 2014 aos 97 anos, então residente em Campo Grande Mato Grosso do Sul. Eu o conheci pessoalmente, ainda adolescente, e me apaixonei por sua obra, sua história e sua pessoa. Era um ser divinizado pelo amor. Um adulto que conseguiu acomodar sua infância dentro de sua alma. 

Quando estive no Mato Grosso do Sul, em 2018, fiz essa fotografia em que apareço "conversando" com ele na avenida Afonso Pena, centro da capital. A obra, impecável, é assinada pelo impecável escultor campograndense Victor Henrique Woitschach (imagino o que ele deve estar sentindo). Ver essa fotografia com o seu pé arrancado dói na alma. É como se ferissem o nosso pai, a nossa mãe, alguém amado. 


Impossível entender como um ser humano tem coragem de ferir Manoel de Barros um ser que em vida foi o amor em pessoa. Dentre as incontáveis frases desse genial poeta, uma que acho interessante é "O que mais existe no mundo é gente besta e pau seco". Tem que ser muito besta para danificar a escultura de quem é um patrimônio do Brasil, pois, se a intenção foi desonrá-lo, não se atingiu o objetivo. É como rasgar o diploma. Rasga-se o papel, mas nunca o que a pessoa é. Aqui em Natal, capital do Rio Grande do Norte há algumas esculturas vandalizadas por consumidores de 'crack', segundo me contaram policiais e historiadores. Eles arrancaram diversas placas de bronze e algumas efígies para vender e levantar algum dinheiro para alimentar o vício. 

Essa é outra página deplorável da história atual. Ninguém faz nada por essas pessoas, e elas vagam como zumbis. Se foi esse o caso, é possível que o "pé" de Manoel de Barros possa ter sido vendido por cinco reais, ou dado a troco de cinco pedrinhas de crack. Esses zumbis não tem noção do que fazem e aumentam a cada dia desenfreadamente. Tanto matam como roubam sem perceber, pois vivem dopados. São capazes de tudo. Enfim, é complexo. 

Com certeza em breve a escultura será restaurada, mas até quando resistirá? E as outras espalhadas pelo Brasil? Manoel de Barros dizia que "queria reformar o mundo usando borboletas"... O mundo seria outro se cada um de nós pudesse "crescer para passarinho"... Pois bem, encerro aqui, oferecendo o que Manoel de Barros sempre teve: poesia. Ele era, é e sempre será poesia...


RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA


A maior riqueza

do homem

é sua incompletude.

Nesse ponto

sou abastado.

Palavras que me aceitam

como sou

— eu não aceito.

Não aguento ser apenas

um sujeito que abre

portas, que puxa

válvulas, que olha o

relógio, que compra pão

às 6 da tarde, que vai

lá fora, que aponta lápis,

que vê a uva etc. etc.

Perdoai. Mas eu

preciso ser Outros.

Eu penso

renovar o homem

usando borboletas.

Clara Sharff

Nesta fotografia datada de 2006, apareço ao lado de Clara Sharff Marighella, esposa do grande político (político na mais pura acepção da palavra) CARLOS MARIGHELLA (1911-1969). Dirigente comunista anistiado em 1945. Deputado federal em 1945. Foi cassado no ano seguinte. Um dos líderes da guerrilha urbana que combateu a ditadura militar, em São Paulo, morto pela polícia, numa emboscada. Nesse dia, no Palácio do Planalto, em Brasília, conversamos por mais de duas horas e acabamos ficando amigos por correspondência e contatos por e-mail. Dizem que "ao lado de um grande homem existe uma grande mulher". Isso se justifica, pois trata-se de uma intelectual admirável. O que ouvi dessa mulher todos os jovens deveriam ouvir para aprender a viver e lapidar as suas histórias nas ferramentas da ação. 

A mãe idosa...



Por Luís Carlos Freire


Mãe... quanto tempo!

Parece que foi ontem que tu corrias atrás de mim...

Tua voz ainda ecoa nos quintais da minha memória:

Menino! O almoço tá na mesa!

Quem quebrou esse copo!

Tá na hora de tomar banho!

Menino! Desça do pé de goiaba!

Quem colocou isso aqui?

Ajuda aqui a por à mesa.

Já escovou os dentes?

Vá dormir que já é tarde! 

(Em plenas vinte horas).

O tempo foi passando e as orientações foram mudando.

Tornaram-se mais sérias...

Tudo passou como o vento ligeiro.

Hoje, as mãos fortes que me seguravam

Estão trêmulas e frágeis como as de um bebê.

As rugas do teu rosto, de tantas se emendaram.

Tua pele louçã deixa à mostra as veias azuladas...

A alvura de teus cabelos lembram os flocos de nuvens.

Teu caminhar miúdo, segurando na parede nada lembra a mulher forte e poderosa que foste.

Teu corpo se foi, deixando para trás a sinopse do que representaste.

Tudo em ti é lento.

Já não aprecias mais as guloseimas e iguarias que nos ensinaste a apreciar.

Já não fazes mais as deliciosas comidas.

Teu alimento é o mais delicado.

Já não escutas como antes.

(Ouvias mais o que era sussurrado ao que era dito em voz alta)

Mulher esperta!

Tinhas voz forte e audível à distância.

De tudo o que foste, só não mudou o teu olhar.

Continua comunicativo.

Fala por si...

Mãe, parece até uma antítese, 

Mas a tua fragilidade não diminui em nada a tua fortaleza. 

És o meu porto seguro.

Minha pérola...

Meu tesouro. 

Literatura: escrever e ler no escuro...


    O fenômeno das redes sociais tem despertado uma espécie de patologia em boa parte dos internautas/leitores. A síndrome prioriza textos rápidos e com escrita fácil. Como os textos na internet escorrem verticalmente, percebo que as pessoas não vão adiante quando passam de dez centímetros. As pessoas não querem ler muito, assim como não assistem a vídeos que passam de dez minutos. O encantamento de se ter o mundo à nossa frente desperta uma pressa injustificável. As pessoas querem ler/ver assistir o maior número de coisas e com rapidez. Esse fenômeno faz com que muitos não leiam/assistam produções/obras de qualidade, presos ao banal e fútil. Uma parte considerável da juventude está propensa ao vazio na música, na literatura, na arte etc.


    Observo que o preocupante sintoma tem saltado da internet e caído no corpo da Literatura com força. Tenho a impressão de que escrever uma narrativa tradicional nos tempos atuais tem ficado cada vez mais difícil e por incrível que pareça, artificial, obrigando o escritor a ir além da superficialidade do discurso literário. É algo parecido com “se reinventar” para agradar um público/leitor em decadência, principalmente o público jovem. Aí reside o desafio/problema/perigo.


Na realidade, além do fator “leitor apressado”, há outros fatores, como o problema da comunicação entre a obra e o público. O desafio de quem escreve é o de comunicar a incapacidade de expressar-se nos seus textos, pois a estética pós-moderna não aceita mais um escritor que explica tudo. Muitos autores trocaram a escrita que deixa subentendido, que diz sem dizer, que sugere, que divaga, pela escrita do lugar-comum. Prenderam-se ao óbvio, entregando tudo mastigado ao leitor. A metáfora, a poesia, a descrição, a discrição e uma série de considerações que deveriam ser prioridade ao escritor foram abortadas para atender leitores apressados, contaminados pelas mídias. 


Outro imbróglio que trava até mesmo a capacidade criadora do autor - que se torna um impasse da narrativa contemporânea - é a dependência do escritor diante do mercado da editoração. A Editora Sextante, por exemplo, priorizava clássicos da literatura. Hoje só publica autoajuda. Há editores que não arriscam se o autor não estiver contaminado pelo fútil. Ele entende que o autor deve escrever algo que lembre/pareça com algo. “Escreva algo que lembre Harry Potter”, “Pegue um gancho em alguma coisa de Nárnia”. As próprias capas das obras não parecem com o Brasil.

Fazer algo que pareça ter vindo do way of life dos Estados Unidos parece sucesso garantido. Não importa o banal, o fútil. Ninguém diz "deixa eu ler a sua obra, poxa! ela faz a diferença”.


 Muitos editores pecam por escantear autores em que os alicerces se assentam no tradicional, não necessariamente reproduzindo a estrutura do cânone literário, mas se aproximando do imaginário dos clássicos europeus e latino americanos. Autores com substância, alicerçados numa vasta bagagem literária. Tenho observado muito isso e não acredito estar enganado. É uma prática cada vez mais comum, mas não é generalizada, diga-se de passagem.


Todo autor é feito de autores, de mundos, de planetas imaginários e reais. Creio que nos faltam - ou que seguem desconhecidos/desvalorizados - grandes autores em quase todos os estados do Brasil, e a culpa está nessas visões deturpadas, contaminadas pelo padrão mercadológico e industrial dos simulacros dos simulacros das cópias das cópias. E os autores regionais? Piorou! Ser regional não é defeito, é uma constante mediação entre o particular e o todo, pois no regionalismo está implícito questões universais, afinal o homem objeto de toda escrita. Não existe escrita sem homens. No regionalismo reside a Filosofia. No estado onde nasci, Mato Grosso do Sul, por exemplo, temos Hélio Serejo, um monstro literário digno de ser universal, mas desconhecido.


No Rio Grande do Norte, por exemplo, quando releio “Chão dos Simples”, extraordinária obra prima do Rio Grande do Norte, embora escrita há mais de meio século, mas publicada há 31 anos, encontro sertanejos simples, mas que não diferem de ninguém em qualquer parte do mundo, pois são universais. Para desvelar esse mundo extraordinário criado pelo autor Manoel Onofre Jr. é preciso adentrarmos o mistério cósmico ao qual ele se refere. Esse mistério nos cerca, e o sentimos, e Manoel Onofre traz à tona através da geografia do sertão e da alma tosca do sertanejo doutrora, tipos humanos que  despreocupados com o raciocínio lógico, são propensos a toda espécie de impulsos vagos,  premonições, crendices, hipocrisias religiosas, espertezas, caritós, alimárias, maldades, inocência, agruras da seca, cangaço, folclore, o mundo onírico… até mesmo o romanceiro ibérico ou uma versão sertaneja de Joãozinho e Maria passeiam na obra. É o sertanejo, habitante distante da nossa civilização urbana e niveladora. São homens e mulheres com o espírito aberto por vezes ao fantástico, ao extraordinário, ao milagre, e são elas que decifram o “Chão dos Simples”, obra que conduz o leitor ao lado misterioso da existência, revelando  que a natureza e a própria existência transmite inúmeros recados aos homens. Pressentimentos, revelações, sonhos, pesadelos, sinas, mensageiros que transmitem aquilo que precisamos ouvir, ou a resposta para coisas que pensamos não terem resposta, mensagens que, se ouvidas, podem mudar os destinos de cada um. Tristezas e situações hilárias pautam Chão dos simples. Como não dizer que isso não é literatura universal se trazem um gigantismo filosófico? O próprio e genial Guimarães Rosa escreveu que “o sertão é o mundo”. Pois bem, isso é um exemplo dentre tantos escritores potiguares excepcionais, como os atuais Pablo Capistrano, Nivaldete Ferreira, Ana Cláudia Trigueiro, enfim o Rio Grande do Norte tem referências literárias de qualidade em vários estilos.


Creio que escrever uma narrativa na atualidade, aproximando-se de noções canônicas, apesar de caminhar para o estilo não-cânone, na lógica de que toda criação é uma destruição, é trair a tendência do texto imediatista e comercial da pós-modernidade industrial em que o autor reproduz, quase como cópias, características de personagens, cenários, narrativas, tipos humanos com pouco ou nenhum desenvolvimento. 


Quantos filmes, livros, séries de livros, séries cinematográficas reproduzem o que Adorno chamou de “ausência do clássico”. Narrativas que seguem a mesma estrutura de um personagem principal que passa por uma tribulação e que segue toda a história dramática para superar o problema que o aflige, e o fim se dá basicamente na superação desse problema e na conquista da felicidade. O que significa isso senão a demonstração prática de uma subjetividade narcísica que destruiu toda a complexidade das tragédias?


 O escritor acredita - ou é induzido pelo meio digital ou pelo mercado editorial, a investir num aspecto “novo/diferente” de narrar, mas que não tem nada de novo. Como nasce o novo? Por escolher abdicar do estilo próprio da escrita para abraçar o suposto "novo'', muitos autores abandonam a própria originalidade para parecer palatável.


Alguns autores optam pelo caminho mais difícil, sem se importar em agradar o leitor com mamão com açúcar. São mais exigentes e sólidos. Não erguem castelos de areia que logo somem com o vento. Salvas as exceções, assistimos e consumimos com frequência a banalização da literatura e sua redução à mera mercadoria.


Atualmente as grandes livrarias estão abarrotadas de livros de autoajuda, relatos de viagem, biografias de homens ricos e socialites, alimentadas pela indústria do entretenimento. Os autores de obras literárias aparecem em segundo plano adiante, aceitos e contemplados apenas pelos críticos, por quem não deixou se enganar, e por uma elite intelectual que pouco se deixa levar pelas novidades da indústria cultural. No caudal disso tudo a literatura como arte tornou-se autônoma e aparentemente inacessível ao grande público. 


O assunto é complexo, principalmente na filosofia da estética, pois está a abranger política, educação, pedagogia e a cultura de um povo, propriamente. Parece até piegas a conhecida e inacessível frase “um país se faz com homens e livros”, e dependendo da qualidade do livro se explica a qualidade do homem. Uma geração que preteriu Paulo Freire em detrimento de ler as biografias de homens ricos de Wall Street não parece estar construindo um futuro interessante. 


Se o aprendizado em comunhão e a solidariedade são concebidas como perda de tempo, e o egoísmo patológico e a subjetividade humana domada pela lógica concorrencial são tidas como virtudes, o que nos reserva?  


Imagine esse público diante de Memória do Cárcere, de Graciliano Ramos, Os Sertões, de Euclides da Cunha, Grande Sertão Veredas, enfim as obras de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Machado de Assis, padre Antonio Vieira, Lima Barreto e outros. Que susto tomariam diante de Os Miseráveis, Os Irmãos Karamazov, O Idiota, Madame Bovary, O conde de Monte Cristo e tantos outros. 


Somente um povo bem educado a partir dos anos iniciais com acesso à literatura de excelência, a museus, teatros, exposições de arte etc, frequentemente estimulada a desenvolver a criatividade, mudará essa realidade.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Acta noturna - Grupo Escolar Nísia Floresta - 1927...


A fotografia acima foi feita em 1927, há 96 anos. A escola - denominada “Grupo Escholar Nysa Floresta”, foi criada doze anos antes, em 1910, pelo então governador Alberto Maranhão, que sucedeu o nisiaflorestense Dr. Antonio de Souza. Mas o prédio é muito mais antigo e certamente foi construído nas últimas décadas do século XIX. O registro mostra um dos prédios onde funcionou a primeira escola oficial de Papary. 

Não há registro informando o local exato onde tal instituição passou a funcionar no ato de sua criação. Nos meus registros de História Oral (1993-2012), nunca nenhum idoso ou idosa foram capazes de precisar a data, nem mesmo o filho do Cel. José de Araújo, que residia ao lado. Suponho (suponho!) que pode até ter sido exatamente nesse prédio, mas não existe nada legitimando a minha hipótese. Tendo em vista que a criação dessa primeira escola é de 1910, ou seja, 17 anos depois do "click" desta fotografia, é provável que tenha sido esse o seu primeiro prédio. 


Isso não quer dizer que Papary passou a ter escolas em 1910. Na realidade, há registros de professores e professoras em Papary desde a década de 30 do século XIX. As escolas funcionavam em residências particulares, cujos professores eram remunerados pela Província (Estado) e pela Intendência (Prefeitura). As remunerações eram verdadeiras esmolas. A pobreza era tão grande que até mesmo a Delegacia funcionava numa casa alugada, paga pelo estado. Detentos? Uma vez perdida! 


Em 1992, a Srª Estelita de Oliveira, bisneta do coronel Alexandre de Oliveira, que residia ao lado da Escola yayá Paiva, contou-me que o antigo prédio da Prefeitura - edificação centenária - atualmente toda descaracterizada - abrigou as primeiras atividades escolares de Nísia Floresta. Com certeza, depois que elas deixaram de acontecer nas casas dos velhos mestres. Mas, retomando os comentários sobre o prédio desta fotografia, veja as letras em alto relevo na parede (contra provas não há argumentos). 


De fato ali funcionou a primeira escola estadual do município. Esse prédio é o atual Centro Pastoral pertencente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Seu dono original foi o polêmico Coronel José de Araújo, aliás, ele era dono do quarteirão inteiro. Com certeza é uma das primeiras famílias da região. Suponho que os antepassados do coronel José de Araújo eram portugueses. Depois a família Gondim o adquiriu, doando o dito prédio para a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, juntamente com a área onde está situada a "Casa das Freiras". Todo o “quarteirão”, que, na verdade, era um triângulo, pertencia a ele, segundo dona Estelita de Oliveira.


Essa propriedade era a residência do citado coronel, que “assistia às missas de sua janela”, como me contou a mesma entrevistada. Consistia numa casa de esquina, pois a toponímia era diferente. O muro de sua casa seguia até o muro da “Casa das Freiras” em linha reta, de maneira a valorizar o largo da Igreja Matriz. Mas no final da década de 80 - pasmem! - um engenheiro, que se tornou prefeito, destruiu o traçado original com casinholas de grande mal gosto defronte ao casarão, descaracterizando totalmente a formatação portuguesa das raízes de Papary. E assim encolheu o gigantesco átrio da igreja Matriz.

O menino e os livros...


O garoto desceu apavorado pelas escadarias da casa. Agarrou do livro, abriu e entrou de todo.

A mãe saltou-se com essa:

-"Menino, vá tomar café,

Já acorda chafurdando em livros... Vai ficar doido!"

O pai atalha d'outro lado:

-"Mulher, deixe o menino, ele vai comer livro... É melhor que comida... Livro é como alfinin em formato de foguete, viaja a gente para o espaço sideral"...

Papary...


A esdrúxula e imponente árvore testemunhou a escravidão negra. 

O sangue dos escravos fortaleceu a terra dorida de mães e pais pretos...

O suor dos cambiteiros nutriu o melaço dos engenhos, sob amargor dos chicotes impiedosos...

Gemidos, choros, gritos, clamores...

Sinhazinhas e 'dotozinhos' estudavam na Europa, moucos...

No oratório de jacarandá  regado a santos, inhazinha rezava, 

Enquanto o nhozinho fornicava a pretinha no quarto ao lado,  

Era o senhor da casagrande e de todas as grandezas...

Quase-Deus...

Ao meio dia o engenho apitava a hora da merenda.. 

Preto, milho,

Sinhô, peru...

Às dezoito horas o campanário soava a hora  do Angellus...

A carruagem passava passadiça ,

Pesada de pecado.

O nhozinho ia rezar,

A inhazinha ia rezar,

A preta ia rezar seu choro...

E o baobá olhava, mudo qual a preta...

Esdrúxula árvore de flores nascidas de cabeça para baixo,

Testemunha de tudo,

Tocaia de assassinato de prefeito...

O que mais testemunhou?

O que testemunha hoje?

A palavra é... espevitadeira...


Espevitadeira é um instrumento em formato de estranha tesoura. Geralmente é acompanhada de um complemento semelhante a uma bandeja onde fica sobreposta, e serve para cortar a parte queimada do pavio (pevide/morrão) de velas e candeeiros de bico. Num passado cujas velas e candeeiros eram os únicos instrumentos que clareavam a noite - inclusive uma boa leitura - o procedimento fazia com que a chama ficasse mais viva ao ser cortada, aumentando a claridade. Uma das lâminas dessa tesoura curiosa contém um recipiente retangular onde o pavio queimado fica depositado quando aparado pelo instrumento. Certamente vem daí a expressão “ispivitada”, para se referir a pessoas - principalmente crianças - muito ativas, traquinas, inquietas, arteiras, "com o pipoco ligado", e coisas do tipo. Eu, pelo menos, canso de ouvir aqui no Nordeste frases mais ou menos assim "ô menino espivitado, sossega um pouco!", "que danado de menino mais espivitado!"... seria exatamente essa a relação da criança “buliçosa” com a espevitadeira?




Herma de Nísia Floresta - Praça Augusto Severo - 1922...


Romaria popular à herma de Nísia Floresta, discursando o Dr. Sebastião Fernandes, dia  6 de setembro de 1922, ocasião das comemorações alusivas à Independência do Brasil. Era governador o Dr. Antônio de Souza, inclusive é possível localizá-lo na fotografia. Essa imagem nos ajuda a refletir sobre a destruição desse monumento, construído em 1911 e vandalizado em data não precisada. Se em 1922 ele foi reverenciado, como se constata na presente imagem, obviamente foi destruído depois dessa data, embora não se sabe em que ano. O medalhão ficou desaparecido por muitos anos, até ser encontrado por acaso num ferro velho e entregue ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, onde se encontra.


Fonte: Revista do IHGRN - 1922, p. 81