ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

sexta-feira, 23 de junho de 2023

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Ocean Gate, o mundo está chocado de um choque seletivo...



Essa frase foi escutada pelos meus ouvidos indagorinha: “O MUNDO ESTÁ CHOCADO!”, numa referência aos bilionários que desceram num submarino, ou melhor, submergível - ainda não aprovado por especialistas -, para ver o Titanic em destroços. O veículo pertence a Ocean Gate, empresa de turismo nos oceanos.


Quem não se compadece disso? Muito triste. São seres humanos. Meus pensamentos se voltam ao otimismo para que eles sejam resgatados. Mas precisamos pensar num comportamento humano também chocante, mas deplorável, pois o choque de muitos parece um choque seletivo. 


Nem sempre o mundo se choca e resgata africanos na iminência da morte por afogamento, caída no mar de um barco caseiro, feito de garrafas PET; quase ninguém se choca nem faz nada em prol das crianças, dos idosos e jovens mortos diariamente na Palestina, por uma nação que tomou o país que lhes pertencia;   quase ninguém se choca e resgata as crianças mortas às centenas em diversos países do continente africano; quase ninguém se choca e acode os indígenas morrendo de fome e inanição Brasil afora...


Uns morrendo de fome, de falta de oportunidades simples, como quem lhes dê o emprego de faxineiro para poder comprar só arroz e feijão, outros pagando 1 milhão para a façanha de ver o Titanic em destroços. 


Espero que conheçamos as biografias desses homens corajosos. Quem sabe são homens filantropos. Seria muito bom. Seja o que for, merecem o resgate como qualquer outra pessoa, afinal precisamos sempre nos colocar no lugar do próximo. Espero que não seja parecido com o Kursk. 


Sempre fui fascinado pela história do Titanic. Quando eu tinha dez anos li sua história e daí em diante passei a me interessar por tudo o que aparecia sobre o assunto. Em 1987 saiu o primeiro vídeo documentário sobre o fato. Assisti com entusiasmo. 


Essa história fascina a muitos, mas, particularmente, se eu tivesse um milhão, não usaria para essa viagem. No mar tudo é improvável. É muita audácia. O submarino não é aprovado pelos especialistas. É pilotado por uma coisinha frágil, tão frágil quanto ele. Verdadeira lata de sardinha. 


Creio que se esses homens já não morreram de pânico segundos após o encalhe – quando tomaram um choque de realidade e perceberam a loucura que haviam feito -, devido a eminência de um acidente nesse brinquedo de adulto -, já são heróis. 


Esse fato. Pelo menos a mim, diz que as pessoas bilionárias deveriam fazer mais caridade e se interessar mais por causas humanitárias, ao invés de se deleitarem com a bizarrice de se somarem ao cemitério do Titanic. Muito triste!

segunda-feira, 19 de junho de 2023

sábado, 17 de junho de 2023

Santo Antônio para o bom e para o mau, para o bem e para o mal - Padre Antônio Vieira...

 


Aproveitando que estamos nesse contexto de Santo Antônio, trago-vos um recorte interessantíssimo que envolve esse nosso santo. Antes de apreciarmos o sermão de Santo Antônio, escrito pelo genial padre Antônio Vieira, de cujos escritos sou apaixonado, repasso-vos este preâmbulo a bem de esclarecer que o leitor deve procurar ler todo o sermão.

Tenho quase certeza que está disposto na internet. Não é possível que não. Digo isso porque trago-vos apenas - pasmem! - a ‘conclusão’. E esta é de tal qual maravilha que merece este prefácio. Digo-vos porque lendo-o solto, distante das demais reflexões feitas pelo sacerdote, podem ser distorcidas.

Essa conclusão, para quem lê a delícia do sermão completo, permite refletir quão filosófico, quão irônico, quão crítico, quão cristão foi o insigne padre.

O livro número 20 tem 454 páginas, pois traz muitos sermões. O sermão de Santo Antônio está no capítulo VII. Começa na página 314 da obra e termina na página 351, somando 35 páginas. Ei-lo:

“ SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO

Na Dominga infra-octavam de Corpus Christi, com o Santíssimo Sacramento exposto, em S. Luís do Maranhão, ano de 1653.

Homo quidam fecit coenam magnam.

Vos estis sal terrae, vos estis lux mundi.

VII

Façamos também nossas as maravilhas de Santo Antônio. A história do homem do Maranhão que abusara impiamente do santo e do Santíssimo.

151 Mais tinha que ir por diante, mas acabo com pedir a todos, com todo o afeto que devemos a este nosso santo, e que nós devemos a nós mesmos, que, pois Deus o fez tão maravilhoso, que  façamos também nossas as suas maravilhas. Aproveitemo-nos delas, e não as deperdicemos. Muitos cuidam que se aproveitem das maravilhas de Santo Antônio, empregando a valia deste santo para o remédio das coisas temporais, e isto é desperdiçá-las. Se vos adoece o filho, Santo Antônio; se vos foge o escravo, Santo Antônio; se mandais a encomenda, Santo Antônio; se esperais o retorno, Santo Antônio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se aguardais a sentença; Santo Antônio; se perdeis a menor miudeza da vossa casa; Santo Antônio; e, talvez, se quereis os bens da alheia, Santo Antônio. Homem houve no Maranhão, menos há de cinco anos, que, tendo induzido duas testemunhas para lhe jurarem falso em matéria de liberdade ou cativeiro, no dia em que houveram de jurar, mandou dizer uma missa a Santo Antônio, para que jurassem contra a verdade; e, porque juraram como iam instruídos, veio o pleiteante a esta mesma igreja dar as graças ao Santíssimo Sacramento e a Santo Antonio. Há tal barbaria como esta? Há tal maldade? Basta, monstro do inferno, indigno do caráter de cristão e do nome do homem, que, não conteve roubar a liberdade a estas duas criaturas, mais livres que tu, pois não nasceram, como tu, vassalos do teu rei, a primeira lição que lhes deste da doutrina cristã foi ensinar-lhes a dizer em juízo um falso testemunho contra si mesmos, sujeitando a si e a toda a sua descendência a perpétuo cativeiro; e para fazeres a Deus cúmplice nesta tua  maldade, lhes ofereceste o sacrifício do corpo e sangue de seu Filho, e tomaste por medianeiro desta perdição de tua alma o santo, a quem o mesmo Deus deu o ofício de reparar todas as coisas perdidas! Mas, para que saiba o mundo, e tome exemplo neste tão escandaloso caso do rigor com que o castigou a divina justiça, andando o mesmo homem à caça de cativeiro de índios no Rio das Almazonas, eles lhe tiraram a vida às frechadas, morrendo sem sacerdote nem sacramentos, com tão pouca esperança de sua salvação, antes, com manifesta e clara evidência da condenação eterna, aquele que, não só com tal cobiça, injustiça e crueldade, mas com um sacrilégio tão estólido, inaudito e bárbaro, tinha abusado impiamente do santo e do Santíssimo”.
…………………………………………………….

Acho interessante essa reflexão do padre Vieira. Observe que, depois de traçar um perfil cheio de maravilhas e santidade sobre Santo Antônio (no sermão como um todo), ele orienta os fiéis católicos, que aproveitassem as maravilhas de Deus e de Santo Antônio e não as deperdiçassem. E, desperdiçar, nesse caso, é justamente transformar a fé, em sua essência evangélica, na fé em crendices, ou seja, fazer uso de crendices populares  e simpatias em torno da imagem grandiosa de Santo Antônio (pedir que ele ajude a encontrar um objeto perdido, pedir que ele faça a encomenda chegar bem etc) ao invés de tentar se parecer com o santo em santidade, ou seja, de viver o evangelho. O que para ele é o único papel do cristão.  Para o padre Vieira isso é desperdício, ou seja,em vão. Chamou a minha atenção dois detalhes curiosos. Não vi o padre Vieira falar sobre pedir que Santo Antônio arrume casamento para moça-velha. Até onde sabemos ele é bom nisso. Ou pelo menos carrega essa fama. É seu carro-chefe. Em contrapartida, atribui-se ao santo Antônio pedidos que estão nas alçadas de outros santos, como pode ser visto na lista de “desperdícios”. Pois bem, eis essa pérola, dentre tantas, encontrada na obra do padre Vieira.

Se o leitor foi atento, com certeza observou que há outro recorte que parece ter sido escrito hoje. Parece refletir a realidade brasileira. Refiro-me ao trecho em que o padre Vieira critica o mal uso da fé, o mal uso da imagem de Santo Antônio no caso do cidadão que pediu ao santo que duas testemunhas mentissem, mandou rezar uma missa no dia da audiência e, tendo dado certo o seu pedido, julgou que fora intercessão de santo Antônio. Então o dito cidadão encomendou nova missa posterior pelas as graças ao Santíssimo Sacramento e a Santo Antonio. Isso se parece com os traficantes evangélicos das periferias do Rio de Janeiro, os quais mandam matar em nome de Jesus. Expulsam pessoas que professam outras religiões, colocam fogo nos terreiros de religiões de matrizes evangélicas… tudo em nome de Jesus”.

Também já assisti a muitas reportagens em que bandidos usam sempre expressões do tipo “graças a Deus”, “se Deus quiser”, “Deus é Pai” e outras. Mas todas para um contexto em que o mal é confundido com o bem, com um valor. Por exemplo: “matei, graças a Deus, senão seria eu”. E muitos bandidos têm frases ligadas a Deus no corpo. Mas são ladrões, traficantes, estupradores etc. Certa vez ouvi um repórter perguntando ao estuprador “e se fosse sua filha”? Ele respondeu “Não! Deus é Pai!”. Ou seja, para a menina estranha, Deus não foi Pai, e ela foi estuprada, mas para a sua filha, Deus  Foi Pai e a livrou…

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Nunca ataque os deuses...


Em mil novecentos e noventa e alguma coisa, participei da primeira turma do projeto Trilhas Potiguares na UFRN (uma parente evoluída do Projeto Rondon). Guardo lembranças inesquecíveis dos professores Marjorie e Telésforo, da Pró-Reitoria de Extensão, idealizadores e grandes incentivadores desse patrimônio. Nunca me esqueço quando chegamos à escola onde nos instalamos em Barcelona, pequeno município potiguar. Muitos fogos de artifício pipocavam no céu. Claro que não foi porque estávamos chegando. Era um dia de festa na cidade. Uma polvorosa só.


A cidade estava abarrotada de figurões políticos como Garibaldi Alves, Carlos Eduardo Alves e Cia. Ltda, naqueles momentos mambembes de inauguração do “Programa do Leite”, projeto que fornece leite pasteurizado aos idosos e às crianças em todo o estado, o bastante para ser alardeado como se dessem ouro ao povo. Mas, aqui para nós, naquele tempo era de fato quase isso...


A solenidade era marcada por caras e bocas, discursos emocionados de gente que parecia ter descoberto o Brasil, pipocos e tirinetes de fogos de artifício para todos os lados etc etc etc… Gente que escapava pelos ralos, aliás, pelos currais, pois Barcelona era pincelada de bovinos, suínos e caprinos acomodados nos quintais das casas. Não sei hoje, mas à época era muito rural. De longe se ouvia o vavavu de um... quase comício... as palmas calorosas...aliás o evento era pautado por coros de “muito bem!”... “é isso aí!”... palmas, palmas e palmas... Eram as falas dos figurões presentes.


Defronte à escola onde nos instalamos existia uma residência com alguns tocos ante a balaustrada de faxina. Exerciam a função de assentos. Coisa de interior mesmo, cuja vizinhança se utilizava daquele espaço de convivência para prosear. Sentados estavam umas quatro senhorinhas idosas muito arrumadinhas, tais quais bonequinhas de louça juntas a dois ou três velhinhos nas mesmas condições. 


As velhinhas trajavam vestidos de pano florido, semelhante a chita, combinando estampas, lenços às mãos e chinelinhos Havaiana. Uma pitava um cachimbo que exalava um delicioso cheiro de fumo de corda. Concentração absoluta. Nenhuma palavra, antenados que estavam, ouvindo pedaços dos discursos arrastados pelo vento, devido às caixas de som amplificado. O momento era tão sagrado que estavam plantados ali com “roupas de sair”. 


Gente idosa não gosta de sair de casa, então aquela reunião na frente da casa significava uma plateia. Aguardavam a saída dos políticos para acenar-lhes, dar-lhes tchau, agradecer pelo amor incondicional a Barcelona e tudo mais. Era necessário passar-lhes em revista.


Ora vêde, uma delas, que inclusive caminhava com o reforço de um pedacinho de pau catado das matas avizinhadas, envernizado do pegar, se aproximou do muro onde estávamos encostados e perguntou “vocês estão aí com o governador Garibaldi?”. Sensata a pergunta, afinal estávamos com camisetas da UFRN, um ônibus imenso, e não éramos dali. 


Obviamente que aquelas senhorinhas não eram alfabetizadas, pois o ônibus que nos trouxe anunciava o nome da instituição. Respondi “não, minha senhora, nós somos da UFRN, vamos fazer diversos trabalhos aqui no município durante esta semana”. Enfim, expliquei com riqueza de detalhes o que faríamos em Barcelona, pois percebi a simplicidade deles. Sempre tive especial atenção aos idosos. Nisso nos aproximamos da frente da casa onde eles estavam sentados, e eis que pomo-nos a conversar.


Uma amiga, a meu ver, imatura, ou, se preferirem, inconveniente, encetou um discurso contra a oligarquia Alves. Falou sobre essa tradição deplorável na história do Brasil, mecanismo que facilita apadrinhamento de familiares no poder, corrupção etc. Disse que o Rio Grande do Norte era um dos únicos estados do Brasil que conservavam oligarquias intactas etecetera e tal... Explicou que era dever dos governadores construir políticas públicas de assistência social, mas não transformá-las em moeda de troca de votos, ao tipo ‘leite-por-voto’. 


Falou que, se fosse analisar friamente, o programa do leite não era nem para existir, pois as pessoas deviam ter condições de adquirir alimento por via do trabalho e de forma mais digna, que o povo precisava de trabalho, perguntou se havia cooperativa em Barcelona. E ressaltou que aquela esmola do leite vinha do próprio imposto que pagavam, enfim tentou desmanchar a imagem que a pequena plateia tinha dos visitantes ilustres. Cada palavra que ela falava era espinicava em mim. Imagino neles!


Eu ouvia as colocações da minha amiga a contragosto, tendo em vista que aquelas pessoas, naquela idade, foram fiéis a vida toda à oligarquia Alves ou Maia. Estávamos diante de pessoas acima de 80 anos. Todas. A devoção àquela oligarquia era “uma religião”. Como ferrugem incrustada. A minha amiga estava ofendendo aquelas pessoas simples, mesmo que seu discurso fosse sensato e honesto. Eles jamais perderiam sua fé e devoção aos seus deuses. Eu falaria aquilo se diante de mim estivessem apenas jovens, mas, idosos, jamais.


Ainda falei algumas palavras meio entre os dentes, sugerindo mudarem o assunto, mas nada! Uma professora arriscou falar sobre classes sociais. Um amigo claramente marxista entrou nessa seara… Os rostinhos daquelas senhorinhas e senhorinhos – marcados por uma vida sofrível devido ao sol escaldante dos trópicos – começaram a ficar com ares de leite azedo. Uma, olhava para outra. Outra, se remexia, fitava o chão visivelmente descontente, um tossia, outro pigarreava, outra segurava a bengalinha como se se segurando para não rodopiá-la em nossas cabeças, outro riscavam o chão com os chinelos, outra mastigava palavras ininteligíveis entre os dentes como se quisesse nos escorraçar, enfim percebi que eles estavam quase explodindo. Era nítida a antipatia que geramos.


Tentei atalhar aquele encontro de pólvora e fogo. Numa linguagem mais coloquial - como sempre faço quando escrevo ou falo - ousei amenizar aquela explosão iminente, mas foi tarde demais. A turminha de idosos começou a xingar e nos expulsou, desmanchando-se em elogios à oligarquia Alves. Uma disse que Garibaldi era, depois de Deus, a melhor pessoa do mundo. "Graças a Garibaldi a gente não morre de fome! ". Um velhinho afirmou “ele é um pai para nós, homem bom, ajuda os pobres, é o único que gosta dos pobres, ele abraça a gente, pega na mão do povo etc”. Uma das velhinhas, mais revoltada, explodiu “sumam daqui! Vão fazer esse negócio de vocês no inferno!” Duas das velhinhas entraram e bateram a porta com força. Haja hostilidade! Foi uma amizade que mirou inimizade em minutos. Pudera! Os deuses estavam em Barcelona, e nós ousamos atacá-los! (L.C. F. 2000).

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Obs. A imagem acima ilustra com muita semelhança o fato narrado, mas é meramente ilustrativa, tendo sido retirada da Internet (domínio público). 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Sr. Clemente, o homem que mente que aquele negócio não sente...


Sr. Cle-mente...

Está na segunda gestão o senhor Cle-

MENTE. 

Dizem que comu-

MENTE

Todo dia, comoda-

MENTE, 

Ele senta-se defronte à sua casa normal-

MENTE,

Começa a conversar com o povo, calma-

MENTE 

Com toda a gente, pachorra-

MENTE, 

Vai à missa, velório, enterro e usa chinelo pra parecer simples-

MENTE,

Nesse município povo é dor-

MENTE, 

Tudo sofre, e sofre silenciosa-

MENTE, 

Passa necessidade diaria-

MENTE...

O município segue decadente-

MENTE.

O povo vota enganada-

MENTE.

Há uma equipe que publica feiquenius-

MENTE...

Para que ele se pareça honesta-

MENTE.

Se vazam os desvios, o povo é chamado de de-

MENTE.

Na realidade, o sr. Cle-

MENTE

Diz nos bastidores que só ganha quem MENTE.

Ele se passa por homem decente-

MENTE

Mas... 

MENTE...

MENTE...

MENTE...

Desvia verba louca-

MENTE.

Esse é o Sr. CLe-

MENTE,

MENTE tanto que aquele negócio não sente 

Os ventos do Integralismo em Papary - 1934...


Em 1934 a pacata "Papary" elege um prefeito integralista: José  Hermógenes de Oliveira. Isso se deu há 89 anos. Ele é o segundo da direita para a esquerda (nessa fotografia com menos gente defronte ao Paço Municipal).  A cidade parou para assistir ao desfile dos integralistas no largo da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Ninguém sabia o que era aquilo, exceto Carlos Gondim mais meia dúzia de paparyenses.



Uma centena de renomadas autoridades natalenses e de outros rincões potiguares se espicharam até a terra onde nasceu uma das figuras mais importantes do Rio Grande do Norte, mas ela já havia falecido há 49 anos. Se viva, suponho teria olhado para a cena com cara franzida... mas isso é outra história!

Houve grande concentração no centro da cidade, exatamente onde se espraiava um gramado tão verde quanto as camisas que eles - integralistas - usavam. Contam, os velhos de Papary, que esse local se transformava num atoleiro quando chovia. "A água minava como uma nascente antes de fazer a praça, mas no verão a gente fazia até vaquejada, ficava seco", nas palavras de Pedro Araújo (1992).

Exatamente nesse local fincaram a praça Coronel José  de Araújo. Uma multidão curiosa deixou tudo o que fazia para assistir a novidade como se televisão fosse. A maioria não sabia um centímetro sobre o "Integralismo", mas diante dos discursos acalourados, era todo mundo animado, aplaudindo, gritando, ovacionando e achando bonito aquele povo todo fardado, lembrando militares.

Para a população, a impactante imagem daquela multidão de homens vestidos com o mesmo uniforme, com uma faixa no braço direito constando o símbolo do Integralismo, era o bastante  para provocar-lhes emoção e se demorar em contemplação. Os integralistas fizeram um barulhão. Houve discursos, braços em riste e gritos de "ANAUÊ!" ("Você é meu irmão!"), gesto semelhante ao que os nazistas faziam (e seguem fazendo) a Hitler, quando gritavam (e gritam) "Heil Hitler!". Depois do vavavu a multidão forasteira desapareceu na mesma rapidez como apareceu.

Pois então, Integralismo é uma corrente que se aproxima muito do fascismo no papel de enxergar as instituições no seu eixo civilizatório, como a religião (em especial a católica), exaltação às Forças Armadas e outros detalhes mais. Isso não te lembra alguma coisa? Pois é! Com certeza a ideologia de Plínio Salgado, criticada ou não, deixou sua marca na terra dita "do camarão".

Hoje ninguém fala mais disso, afinal passaram-se 89 anos. Quem sabe existe algum longevo idoso que guarde pedaços de lembranças desse dia, como foi o caso da Sra. Leonísia, que me narrou o fato em 1993. Ela presenciou o fato. Tinha 23 anos de idade no dia desse vuco-vuco. Existir uma testemunha hoje é quase impossível. Quem se candidata a procurar?

Pois é, na antiga Prefeitura Municipal havia (ou ainda há, não sei!) uma Galeria de ex-prefeitos disposta na parede, logo na entrada, organizada no início da década de 1990, mas, curiosamente, não consta a fotografia do ex-gestor Hermógenes de Oliveira que, devo dizer, foi da Guarda Nacional, era muito amigo do Cel. José de Araújo e pai do ex-prefeito José Ramires (in memorian). Muitos que escreveram a Historiografia Brasileira relacionam o Integralismo ao fascismo. Teria sido intencional a exclusão do velho Hermógenes? Foi esquecimento ou falta de conhecimento? Fica para os historiadores... (7.2.1996 - reescrito em 2023). 

terça-feira, 13 de junho de 2023

Música sertaneja não combina com o período junino no Nordeste...


Meia dúzia de funcionários públicos sem noção, decidindo a alma do Nordeste...

De vez em quando escrevo sobre a falta de respeito ao artista nordestino, seja os artistas atuais ou no que se refere ao folclore regional. Quando o desprezo vem de pessoas de outros estados – embora não justifica –, é até tolerável, pois não se deve obrigar outras culturas a gostarem de culturas distantes. Mas quando determinados organizadores de eventos no próprio Nordeste favorecem mais as culturas de fora, em detrimento das cultura regional, é reprovável. A maior festa junina do mundo acontece em Campina Grande, estado da Paraíba, depois vem Caruaru e Mossoró. Não existe outro momento no Brasil mais adequado para a valorização e divulgação do forró do que o período junino. Não é bairrismo. Entendam: você traria Anita para a Festa da Padroeiro Nossa Senhora Aparecida? É questão de identidade, de essência. Entendeu agora?


Estamos no Nordeste. É São João! É Festa Junina! É Forró Pé de Serra! É baião, Xote, Cordel... É forró geral. Não precisa ser especialista para perceber que há tempo o Nordeste passa por uma espécie de ‘desnordestenização’. As mídias e principalmente a rede Globo passam uma imagem ruim do Nordeste, diferente do que ele realmente é (já escrevi sobre isso, principalmente sobre novelas que idiotizam o nordestino, mostrando-o como uma pessoa sempre necessitada intelectualmente da orientação do eixo Sul/Sudeste). O resultado é constatarmos crianças e jovens com uma espécie de vergonha de serem nordestinos. É uma vergonha gratuita porque não há razão para isso. O Nordeste é extraordinário. Mas a TV e as mídias são poderosas e conseguiram o injusto feito de macular a imagem do Nordeste e do povo nordestino.  


Todo artista é bem vindo ao Nordeste, sejam do Sudeste do Sul, de onde for, embora muitos estados do Brasil não fazem o mesmo, justamente pelas razões acima expostas. Isso é ignorância e falta de cultura. Mas nem por isso você deve ficar quieto. Se o povo de fora lesse a verdade sobre o Nordeste, não divulgaria tanto preconceito. Não falaria sobre o que não conhece.


Particularmente entendo que o período junino é o momento mais forte do Nordeste. É como uma confraria na qual os artistas e o povo nordestino partilham a sua identidade musical e cultural. Na verdade, as festa juninas no Nordeste consistem num complexo de acontecimentos. Diz respeito à música, gastronomia, tradições folclóricas... Há um contexto sociológico e antropológico nelas. É o auge da essência nordestina. Mas, infelizmente, quando as próprias instituições públicas nordestinas, organizadores dos eventos, trocam Elba Ramalho por Luan Santana, Flávio José por Gustavo Lima, Alcimar Monteiro por Zé Felipe, Jorge de Altinho por Chitãozinho e Chororó e outras permutas típicas de gente que não valoriza a si mesmo, é caótico. 


Pergunte se Dorgival Dantas já fez show na maior festa de peão de boiadeiro do Brasil, em Barretos, estado de São Paulo. Zè Ramalho já cantou no October Fest? Já viu Show de Dorgival Dantas em Gramado?  Não diria que não devesse; refiro-me ao contexto. Essa essência de peão de boiadeiro, de rodeio, de gauchês etc é identidade dosul, sudeste e centro-oeste. Já imaginou o Gaúcho da Fronteira no Carnaval baiano? O que Bel Marques tem a ver com esse momento junino em Mossoró? É um grande artista, é nordestino, mas não é junino. Há momentos em que os organizadores precisam ser sensatos. Somos Brasil. Há espaço para todos. O que não vale é o próprio povo nordestino diminuir os seus conterrâneos ou descaracterizar a sua própria cultura.


Quem pensa, planeja e organiza as festas públicas são funcionários públicos. Normalmente essas festas nascem nas mesas dos secretários de cultura e presidentes de instituições culturais. O Estado é feito de pessoas. É o gosto pessoal e equivocado dessas pessoas que vai prevalecer e não o gosto do povão. Se um ou dois funcionários de uma secretaria municipal ou governamental – que exercem influência sobre o órgão contratante dessas festas – se permitiram perder a sua identidade nordestina devido ao preconceito contra o nordeste, é muito provável que eles vão contratar culturas de fora. Vão dar a vez e o dinheiro suado do povo nordestino para artistas do sul, sudeste, centro-oeste. Isso é injusto. É uma estupidez terrível.


Vejam a falta de noção: o funcionário dos tais órgãos públicos ouve dia e noite Jorge e Mateus, Michel Teló, Maiara e Maraíza, Luan Santana, Zé Neto e Cristiano, Gustavo Lima etc e acha que o seu gosto deve ditar o São João de Campina Grande, de Mossoró, de Caruaru etc. É o gosto dessa gente equivocada que irá predominar, e não o gosto do povo nordestino, exceto aqueles que se deixam influenciar por mídias contrárias ao Nordeste. É uma pena.


Por tudo isso entendo e me coloco no lugar dos artistas nordestinos que estão revoltados, os quais se veem trocados ou menos valorizados por pessoas dos seus próprios estados de origem, os quais deveriam ser mais sensatos e respeitadores. É meia dúzia de funcionários públicos sem noção decidindo coisas sérias e ditando os seus gostos pessoais. Volto a repetir: é São João, é a maior festa do Nordeste! Não é um festival sertanejo ou swingueira. Nessa festa não cabe o sertanejo, a swingueira, o axé, porque é quando a nordestinidade exala. É quando as crianças são iniciadas na sua cultura-raiz.


O que está faltando é gente competente, informada, que tenha uma visão honesta sobre os valores culturais, artísticos e populares de seu habitat. E que os defenda, mesmo navegando contra a maré da ignorância. Pois há quem alimente a ideia vergonhosa de que "é o povo que gosta". Não é assim. Deveriam dizer "é a equipe da prefeitura que gosta, é a equipe do estado que gosta, é a equipe do governo federal que gosta". ELES TÊM VERGONHA DE SEREM NORDESTINOS E QUEREM QUE TODOS TENHAM, PORQUE TROCAR A SUA CULTURA PELA CULTURA DE FORA É CHIQUE, diriam.

Faltam nas equipes organizadoras dos eventos públicos, pessoas politizadas artisticamente. Faltam pessoas que não têm vergonha de serem nordestinas. Está faltando gente que use a máquina pública para construir ideias de respeito ao Nordeste e ao povo nordestino, ao invés de ajudar a desmerecer o que é daqui. Mas uma coisa é fundamental: estão faltando movimentos, protestos da parte do povo também. Faltam festivais regionais, faltam educadores que construam nos alicerces infantis o amor ao Nordeste e à nordestinidade. Faltam pessoas que levem os nordestinos ao pensar sobre a sua essência. Luís Carlos Freire. Natal, 2.6.2023 

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Pantanal...


Se inverno, me charco

Se estia, não corixo

Se chove aos cântaros, me pântano

Se as águas se demoram, lago me turvo

Se as águas se acalmam, eu rio

Sou Pantanal

Me embrenho de brejos

Me atolo das aguadas

Se temporal, me enxurro

Se rebojo, me redemoinho

Córrego o dia inteiro

Nos leitos das sucuris

O dia inteiro córrego na ribeira

E me regato de águas doces

E me bicho de levadas

Sou paul

Sou as águas do Pantanal