ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 13 de abril de 2024

O Mito do Amor Materno, Elisabeth Badinter...

 

Longe de mim adentrar em campos profissionais diversos, mas julgo importante explicar já desde o início que a minha reflexão é fruto de uma leitura que fiz há muitos anos, e hoje, com o assassinato do menino Henry Borel, cujo suspeito é o pai, sob a cumplicidade da mãe, veio-me a lembrança da obra “UM AMOR CONQUISTADO - O MITO DO AMOR MATERNO”, escrito pela francesa Elisabeth Badinter. Na realidade, uni o meu entendimento com a citada obra. Ressalto que não generalizo em momento algum a minha observação, até porque conheço uma infinidade de mães que verdadeiramente dão a vida pelos filhos, assim como fazem também muitos pais, mas trago à baila a curiosa reflexão dessa obra em caráter de conhecimento.
 
O título desse livro impacta por si, justificando o escândalo causado quando foi publicado na França, em meados da década de 80, tendo em vista que culturalmente aprendemos que o amor maternal humano é sagrado, implacável, que destoa, por exemplo, do amor paternal. Aprendemos nas literaturas, nas igrejas, em diversas instituições, e nos discursos sociais que o amor materno é um instinto feminino, espécie de tendência inata. A mãe é aquela leoa que protege os filhos e arrisca a sua própria vida. Elisabeth Badinter desconstrói isso.
 
Esse amor incondicional, onde a mulher é capaz de renunciar a tudo e arriscar a sua própria vida em prol dos filhos, segundo a autora é mito. Ela alega que o amor materno não integra a natureza feminina, mas é fruto de diversos fatores, como as variações sócio-econômicas da história e podem existir, ou não, dependendo da época e das circunstâncias materiais, dentre diversas outras, que vivem as mães. Ela defende que a tese do amor materno não é uma realidade em toda mãe, em todos os lugares e época. 
 
A argumentação de Elisabeth Badinter é firme, tem muita substancialidade e é impossível negar que assim como todos os sentimentos humanos, o amor materno pode ser falho, inexistente, imperfeito ou puramente forte. Na realidade, não vou entrar em detalhes sobre todas as reflexões dessa obra para não dar “spoiler”, até porque muitos poderão se interessar pelo livro, apesar de ser de certo modo uma obra antiga, creio publicada em meados da década de 70, embora a li em meados da década de 80. Mas isso nem importa.
 
Elisabeth Badinter defende que o amor mãe/filho é apenas um sentimento humano como outro qualquer, que pode nascer, morrer, optar por um filho ou a todos, recusar a todos, amar a todos de igual forma, mas que isso também é inerente ao pai da mesma forma. Ela estudou com profundidade a evolução das atitudes maternas em várias épocas, verificando que o interesse e a dedicação à criança não existiram em todas as épocas e em todos os meios sociais. As diferentes maneiras de expressar o amor vão do mais ao menos, passando pelo nada, ou quase nada. 
 
O amor materno, segundo ela, não constitui um sentimento inerente à condição de mulher, ele não é um determinismo, mas algo que se adquire ou não. Ela cita um período em que as mães entregavam os filhos para serem criados por amas, afastadas de casa, e só voltavam após cinco anos, mal visitando-as. Muitas nem iam, outras os abandonavam para sempre. Essa reflexão nos faz lembrar a observação feita por Nísia Floresta em meados de 1870, quando testemunhou, na França, tal fato e ficou horrorizada. Inclusive ela narra o caso de uma criança nesses conformes que foi comida por um porco e a mãe não fez questão.
 
Essa senhora Monique Medeiros, mãe biológica de Henry Borel é a personificação dessa tese. O caso “Isabela Nardoni” é outro, dentre tantos. Essas mães, por sinal, pessoas que tinham tudo na vida, não eram estressadas, nem tinham problemas psicológicos. Tinham boa vida e mesmo que não tivessem, poderiam ter protegido seus filhos, mas foram cúmplices de suas mortes. Monique Medeiros tem um cargo comissionado no Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, ganhando 12.000,00 (doze mil reais) mensais, num emprego arranjado pelo vereador Jairinho. Ela parece ter escolhido o marido e o bom salário ao filho. O caso dela, e o de Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá (caso Isabela) se casam com a tese de Elisabeth Badinter, dentre tantos.
 
Mas o que estou querendo dizer com tudo isso? Pois bem, meu objetivo é refletir sobre o sentimento de amor entre pai/mãe e filhos. Na minha opinião, pelo que vi ao longo da minha vida, e pelo que já li, não apenas baseado na obra acima citada, mas em muitas, a maternidade e a paternidade, em seu sentido de proteção e amor pode existir ou não, ser fraca ou forte, aparecer ou desaparecer tanto no homem quanto na mulher. 
 
Existem histórias reais inacreditáveis e emocionantes que evocam o amor incondicional tanto de de pais como de mães. É certo que fatores culturais, econômicos etc podem ocasionar uma espécie de mal entendido nesse amor pai/mãe para com os filhos, mas creio que ele seja igual em ambos. O pai, ao longo da história, esteve mais ausente, principalmente no passado, pois era o provedor. Portanto, a amorosidade entre mãe e filhos sempre pareceu maior, pois quem está constantemente distante não cria laços talqualmente iguais a quem está constantemente perto. Mas isso também não justifica que um pai não daria a sua vida pelos filhos. Ambos dariam ou não. É relativo. Monique, esposa do dr. Jairinho, por exemplo, escolheu o seu salário de onze mil reais. Trocou o salário pelo filho.
 
Se você pesquisar no youtube, encontrará o caso de um homem, no Pará, cuja esposa o abandonou junto com sete filhos biológicos de ambos. Esse pai assumiu as crianças como uma galinha que junta todos os pintinhos sob as asas. Há muitos e muitos e muitos casos, tanto de mulheres que abandonam para sempre os filhos e desaparecem, como homens que agem da mesma forma. A falta ou a existência desse amor protetor é relativa. 
 
O amor e a proteção do pai ou da mãe para com os filhos é algo que pode existir ou não. Talvez a delicadeza da mulher seja confundida com a aparente dose mais grandiosa de amor, mas o amor de ambos é igual ou não. Pode existir fracamente, excessivamente, mais ou menos, com normalidade etc, mas esse sentimento não é típico de um ou de outro sexo, é sim construído. E dura para sempre.
Os filhos podem criar cabelos brancos, mas terão eternamente um pouco daquele cheiro de óleo Johnson. Tanto para o pai quanto para a mãe. Talvez o pai até disfarce, por bobagens culturais, mas a coisa está dentro, pulsante. E não se enganem, há mães aparentemente frias no aspecto de externar esse amor, mas é o mesmo. O nó górdio da questão é sempre cultural. Assim penso. Óbvio que no bojo dessa reflexão há uma infinidade de fatores, mas, grosso modo, é assim que enxergo. E hoje, com os novos comportamentos humanos, assistimos casais homoafetivos que adotam filhos, independentes de seus entendimentos de gênero, e agem da mesma forma acima discutida. Enfim, não sei se estou errado, mas concordo com Elisabeth Badinter. (2022).

 

sábado, 6 de abril de 2024

Elisa, "A Menina do Vestido Roxo" partiu...


 ELISA, "A MENINA DO VESTIDO ROXO" PARTIU...

 Não ando mais querendo ver quem morre. Prefiro os cemitérios em seu sentido arquitetônico e histórico. Tudo mais dos cemitérios – pelo menos para mim –, é fantasia. Velórios soam-me estranhos, junta tudo, desprende energias e paisagem ruins. Há uma espécie de eflúvios emanando ondas desconfortáveis. Alguns lugares dão-me a impressão de terem mãos, alguma coisa física, como espectros roçando a pessoa. E quando isso se soma às pessoas presentes, com intenções diversas, tudo se amplia. Prefiro as catacumbas. Por mais que soe esdrúxulo, os cemitérios me fortificam. Há uma paz plenificante. Já disse para Fídias que me velasse sozinho, ou que pagasse alguém para me velar sozinho, acaso não pudesse. Não quero amigos, nem “amigos”, nem inimigos gratuitos me vendo. Recordo-me de Angélica Timbó, que visitava eventualmente o Cemitério do Alecrim, em Natal. Uma vez, de súbito, encontrei-a nesse cemitério. Viva, é lógico. Foi muito interessante. Hoje ela está lá, mas como moradora. Eu ainda ando por aqui, e com certeza não estou só nesse costume. 
 
Ontem foi sepultada Lúcia Elisa do Nascimento, aos 78 anos de idade, “A menina do vestido roxo”. Foi uma grande surpresa a notícia, pois eu supunha que ela seria longeva. Muitos sabem do episódio do livro que seria lançado em Nísia Floresta em 2021, sobre a história dela, mas um monstro impediu. Foi um dos fatos mais horrorosos que vi em toda a minha vida. Planejei uma bela homenagem, onde estariam presentes vários escritores. Ela receberia flores, seriam declamados poemas e poesias em seu louvor e outras homenagens. Uma escritora de Literatura Infantil teve o capricho de mandar fazer um vestido roxo e trajaria assim para homenageá-la. Inclusive comprei um tecido de seda roxa nas Casas Cardoso, na Cidade Alta, e enviei para Lúcia. Ela mandou fazer o vestido e usaria no evento. Fez fotografias com o vestido, seu sobrinho me enviou. Ela estava cheia de alegria e expectativa. Mas o mau impediu, gratuitamente, na pessoa de um indivíduo totalmente equivocado. Eu não tinha nada a ver com as alegações doentes, feitas por esse indivíduo. Ele queria transformar o evento particular – que era meu, pago por mim –, num evento político partidário, sem sequer ter sido convidado. Seria um evento intimista, com convidados exclusivos, sem relação alguma com esse indivíduo que nada entende de Literatura. Inclusive até aí eu não tinha nenhum problema com esse ser. Nem era pessoa das minhas relações de amizade. Mas paguei o pato. 

O resultado foi cancelar a bela homenagem, pois o dito indivíduo prometeu destruir tudo o que estivesse no espaço onde se realizaria o evento, disse que desligaria a transmissão de energia elétrica do local e outras truculências. Como moro em Natal, resolvia tudo por telefone. E todas essas informações me eram repassadas por celular, através de familiares de Lúcia Elisa, que estavam envolvidos no evento em Nísia Floresta, os quais, desesperados, não sabiam o que fazer. A essa altura, Lúcia Elisa desenvolveu um nervosismo, passou a chorar. Então abortei tudo, pois seria assustador fazer uma homenagem a alguém, tendo que encher o local de policiais para garantir a realização. Escrevi um texto e enviei a todas as pessoas que eu havia convidado. Constrangimento terrível. Foi num prejuízo psicológico, financeiro etc. Foram danos diversos. Mas o que fazer num local sem lei? Deixou-se de homenagear um tesouro de Nísia Floresta.
 

 Eu já vi a Justiça impedir a realização de eventos que trariam danos a outras pessoas – uma aglomeração com tráfico de drogas, por exemplo –, mas um único indivíduo mimado, megalomaníaco e narcisista impedir a Cultura, impedir a Educação, impedir a História, impedir de se oferecer louros a quem estava no anonimato e merecia todos os holofotes do respeito e reconhecimento, colocando-a no panteão que ela merece, foi a primeira vez. Foi a experiência mais estúpida e impactante que já vi. Depois de tudo, falei para um familiar de Lúcia Elisa que faria o lançamento do livro na casa dele, com a presença dela e uns dois ou três parentes, mas dessa vez a morte dela impediu. Restou-me entregar um livro a um sobrinho dela, onde fiz a dedicatória a ela. E pedi que ele o colocasse dentro do caixão para que ela levasse. Foi essa a minha homenagem. Homenagem que jamais pretendi ser dessa forma, mas só restou essa possibilidade... L.C.F. 20h59, Natal, 6 de abril de 2024.
 

A MENINA DO VESTIDO ROXO
 
Aos 11 de setembro de 1954, há 70 anos, às 15 horas, uma imensa caixa de madeira com os restos mortais de Nísia Floresta, desembarcou do navio “Pirapiá”, um caça da Marinha de Guerra do Brasil, aportado nas docas da Ribeira, em Natal. Uma multidão se espremeu até a Praça André deAlbuquerque Maranhão. Houve homenagens na Base Naval e o cortejo seguiu para o Instituto de Educação, onde Nísia Floresta receberia homenagens organizadas pela professora Chicuta Nolasco.  No dia seguinte o cortejo se deslocou para Nísia Floresta, cujo município já havia recebido o nome dela por força de um projeto idealizado pelo deputado estadual Arnaldo Barbalho Simonetti, seis anos antes. E justamente em Nísia Floresta aconteceria um fato muito curioso, e que ficaria perpetuado nesse livro.
 
Assim que a "grande caixa de madeira" chegou ao município de Nísia Floresta, aos 12 de setembro, houve um impasse. Todos aguardavam uma pequena caixa com os ossos de Nísia Floresta, jamais um caixão tradicional. A falta de comunicação permitiu que construíssem uma peça de alvenaria para sepultar os restos mortais, ao invés de construírem um túmulo para acomodar o caixão. Ninguém avisou. Comunicação naquele tempo era complicada. O que fazer? Onde colocar aquela imensa caixa Na missa de corpo presente, celebrada pelo cônego Rui Miranda, perceberam que não seria possível o “enterro”, portanto resolveram guardar o caixão sobre uma mesa nos corredores desta Matriz, próximo à entrada da sacristia. A grande caixa ficou ali no período de quase uma gestação humana. Passou o Natal e Ano Novo sob a sentinela da Senhora do Ó, mediante um acordo feito entre o prefeito José Ramires e as autoridades natalenses. 
 

Nesse interim, muitos faziam fila para verem a caixa. O prefeito demorou muito para cumprir o acordo, então a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras resolveu assumir a obra, fazendo uma campanha envolvendo instituições e pessoas influentes. O túmulo foi construído oito meses após a chegada dos restos mortais. É nessa data que entrará para a história a pequena Lúcia Elisa do Nascimento, com apenas 8 anos de idade, e que se tornaria “A Menina do Vestido Roxo”. 
 
A grande caixa foi conduzida em cortejo até o “Sítio Floresta” no dia 11 de maio de 1955, acompanhada por uma multidão vinda de Natal. O ponto de apoio foi o alpendre de uma casa grande, muito antiga, situada no sítio de propriedade de Carlos Gondim. A caixa foi depositada sobre uma mesa de madeira. Ali moravam os tios da pequena Lúcia Elisa do Nascimento. Eles eram empregados nesse sítio e presenciaram tudo. No local onde seria sepultado o caixão de Nísia Floresta já existia um monumento em homenagem a ela, construído em 1909, pelo pedreiro Eduardo dos Anjos. 
 

Em 1993, Lúcia Elisa do Nascimento contou para o pesquisador Luís Carlos Freire o seguinte: “Ainda me lembro dos meus tios prá lá e prá cá... um pedia uma coisa, outro pedia outra... era um monte de gente naquele dia, parecia que Natal veio toda ‘pralí’... tava até o ‘seu’ Zé Ramires, mas para mim aquilo era uma festa... eu não entendia aquelas coisas... não sabia que ali tinha uma morta, ficava só brincando, curiosa, olhando o povo... coisa de criança...”.
 
A pequena Lúcia ficou nas imediações, bastante admirada. Ao abrirem a grande caixa encontraram, intacto, um caixão de pinus envolvido numa grande quantidade de cetim de seda roxa. “Era um ‘panão’ grande... brilhoso... a coisa mais linda do mundo... Fiquei olhando aquilo muito admirada, doida pra pegar... era brilhoso, bonito que só!”, contou Lúcia.
 
Hoje, os jovens não associam mais a cor roxa à morte devido aos modernismos, mas a tradição católica sempre relacionou a cor roxa aos tecidos mortuários, acessórios de féretro, caixão etc. Com certeza isso vem da ritualística católica, que associa o roxo à penitência, cujos tecidos roxos prevalecem nos paramentos sacerdotais, nos templos e procissões na “Sexta-Feira da Paixão”, quando o “Senhor-Morto” é envolto em tecido roxo.
 

Uma das pessoas que ajudou a abrir a grande caixa foi o senhor Antônio Amador do Nascimento, conhecido como “Tetéu”, tio da menina Lúcia, irmão de seu pai. Ele estava por ali em visita aos tios. O tecido era novo e ainda cheirava. Lúcia contou que seu tio pegou a bela fazenda e jogou sobre ela, dizendo “Pega prá tu! “Eu nem acreditei, fiquei assim, olhando, abestalhada com o pano... Saí doida, correndo pra mostrar pra mamãe". (É preciso esclarecer que esse tecido não tocou nos restos mortais. Veio enrolado no caixão e era uma peça nova, muito grande).
 
Sobre esse tecido, Lúcia contou exatamente isso: “Eu nunca vi um tecido tão lindo... embolei no corpo e fui correndo pro quarto... era um pedação grande... bastante pano... mamãe logo escondeu de mim. No outro dia, quando fomos no Porto, mamãe lavou o tecido, e vovó Geminiana fez um vestido de sair e uma camisolinha pra mim... eu adorava vestir o vestido e ficar sentada no alpendre... queria que as outras meninas que passavam na estrada me vissem com o vestido...achava bonito, era o vestido mais bonito de Nísia Floresta... eu parecia uma menina rica... corria até a cancela, subia nas árvores, pulava... o vento voava o vestido, às vezes enganchava nas árvores, mamãe dava brava, gritando: ‘menina, tu vai rasgar o vestido!’... para mim o vestido dava alegria, não tinha nada de morte... achava linda a cor roxa... Quando eu usava a camisolinha nem sabia que dormia com os paninhos de Nísia Floresta... eu lá sabia quem era Nísia Floresta! O povo só dizia que era uma mulher muito sabida...”.
 
Lúcia Elisa do Nascimento nasceu no dia 27 de novembro de 1946, filha de João Amador do Nascimento e Naura Elisa do Nascimento, neta de Geminiana Elisa do Nascimento, gente antiqüíssima da velha Papary. Francisco Amador do Nascimento era pai de “Maria de Zuza”, era irmão do pai de Lucia Elisa. Lúcia também contou o seguinte: “Eu cresci ouvindo o tio Tetéu mangando muito de mim por causa desse vestido roxo... dizia que eu tinha usado o vestido de Nísia Floresta... outra hora dizia que o meu vestido tinha vindo no caixão de Nísia Floresta... depois dizia que eu tinha usado o vestido de uma morta... ficava me caningando o tempo todo. Só depois de muito tempo eu dei conta daquela marmota, mas como era criança, nem percebi, achei foi bom. Até brincava, dizendo que o tecido do meu vestido tinha vindo da França. Quando eu ia pra rua com a minha mãe, vestia logo o vestido, ia bem importante.. exibida que só! Na minha cabeça todos estavam achando lindo o vestido roxo”.
 

O terreno onde se encontra o túmulo e o monumento à Nísia Floresta não pertencia à família Gondim quando construíram o monumento de 1909. O sr. Luiz Bezerra Augusto da Trindade o comprou - por procuração - à Srª Antonia Freire, mãe de Nísia Floresta, em 1857, pela importância de 400 Réis. Luiz Bezerra faleceu em 1881 e o sítio foi repartido entre os herdeiros. A maior parte ficou para Francisco Teófilo Bezerra da Trindade, falecido em 3 de outubro de 1838. Ele foi o doador do referido terreno.  
 
Lúcia Elisa do Nascimento, uma brasileira, uma mulher simples, mulher honrada, cheia de dignidade e importância. Ela não foi importante por ter escrito livros famosos ou ter assumido altos cargos, mas o destino fez com que a história dela se cruzasse com a história de Nísia Floresta numa circunstância muito curiosa. Parece que Nísia quis dar esse presente, e era para a pequena Elisa. A ela todos devem gratidão por ter protagonizado aos nisiaflorestenses esse belo e curioso episódio. Sua história é um achado, é uma pérola, é o seu poema de vida... 
 
Hoje a “A menina do vestido roxo” nos deixa. É a vida! Mas nesse mesmo momento de deixar, ela fica. Fica em nossos corações, e sua história estará eternamente guardada neste livro “A menina do vestido roxo”.

 

terça-feira, 2 de abril de 2024

VÁ PREGAR O EVANGELHO DE JESUS EM ISRAEL QUE VOCÊ APANHA...

Não entendo por que os crentes inventam de adorar a bandeira de Israel dentro de suas igrejas, cultuando Israel como se fosse o próprio Deus e ignorando o holocausto que Israel faz com a Palestina. A internet está repleta de israelenses cuspindo em freiras e padres, xingando pastores, agredindo pregadores do evangelho. Não recomendo que qualquer pessoa odeie ou aja com xenofobia. Recomendo que ignore ou lute contra isso de maneira respeitosa, mas, convenhamos, isso combina muito com a frase de Paulo Freire: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor" Paulo Freire. Eles esqueceram do que Hitler fez com eles?

Essa frase clássica me vem à mente toda vez que me reporto ao genocídio que Israel faz à Palestina. Embora ele a escreveu num contexto de educação, a essência é a mesma. Estamos assistindo seres humanos, por ideologia e religião perdendo o senso de humanidade.

Os judeus foram tão perseguidos no holocausto mas não aprenderam. Hoje eles fazem o mesmo com os palestinos. Há exceções. Há judeus que são contrários a isso. Até protestam contra o próprio Estado. Mas não são maioria.

O que está acontecendo na Palestina? 

Genocídio. Não há outra palavra. 

Hoje assisti a um vídeo em que um grupo de mulheres (bem ao estilo das tiazonas bolsonaristas que acreditam em lobisomens e dizem que são cristãs iguais aos judeus) plantadas nas portas do campo de concentração, alegam que só deixarão entrar comida para alguns bebês.

É uma desumanidade proibir a ajuda humanitária. A mulher alega que prioriza a vida de um bebê de 1 ano. Achar que uma única vida é mais importante que a vida de milhares é sionismo, nazismo, segregacionismo, supremacismo.

O que esperar desses sionistas? Dentre os homens adultos, palestinos, presos em Israel, há muitas crianças, e são torturadas da mesma forma que torturam os adultos. Sabe por quê. Porque jogaram pedras nos soldados israelenses. Pode isso? 

Israel – covardíssima –, ataca como Estado e se defende como Religião. Covarde! Dá aula de monstruosidade para o mundo. Usa o holocausto e a falácia da terra prometida como álibi para ocultar o terrorismo que promove.

Quando você considera que a vida de determinado ser humano tem mais valor que a de todos os seres humanos que não pertencem ao mesmo grupo étnico, religioso ou cultural isso se chama supremacismo. É o mesmo que nazismo, limpeza étnica, segregacionismo dentre tantas mazelas. É o que Israel faz aos Palestinos.

A maioria deles não gosta dos palestinos. Julgam-nos terroristas. 

Gaza tem 45 mt2 e 6 a 12 metros de largura. É uma língua de terra. De um Lado, um muro colossal de concreto. Do outro lado, o mar. Ela é totalmente banhada pelo mar. Sabiam que Gaza está sendo loteada para a construção de balneários? Gaza é m dos lugares mais densamente povoados do mundo. Já imaginou segregar 2,4 milhões de pessoas num espaço como esse? E saber que, originalmente, a área da Palestina era gigantesca. Israel, aos poucos, criando contendas, foi invadindo, saqueando, tomando as casas, matando... são quase 80 anos de segregacionismo e morticínio.

Como disse acima, Israel ataca como Estado e se defende como Religião. Isso é bizarro e covarde, pois sabe que a religião tem o poder de ser inquestionada. É como se eles fossem deuses, e como deuses estão certos. Com essa história mítica de Terra Prometida, por exemplo, no Brasil, principalmente entre evangélicos, Israel pinta e borda, pois sabe que lida com uma América Latina de muita deficiência cognitiva. Deem uma olhada nos púlpitos e eventos evangélicos. É como se eles fossem judeus. Bizarro demais. E chega a ser louco quando sabemos que o Talmude coloca Jesus como persona non grata. Só um alto grau de ignorância explica essa anomalia.

Leiam A Palestina antes do sionismo. O projeto colonial europeu (Sionismo). A Declaração de Balfour - Inglaterra doa o que não lhe pertence. A revolta árabe 1936-1939. A partilha da ONU e os acordos de Oslo.

MONUMENTO E MAUSOLÉU DE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA...

MONUMENTO EM HOMENAGEM À NÍSIA FLORESTA (HISTÓRIA DE NÍSIA FLORESTA, ADAUTO DA CÂMARA, 1941).

No Sítio Floresta, onde existiu a casa em que nasceu, no dia 12 de outubro de 1810, a ilustre Nísia Floresta Brasileira Augusta, filha do advogado português Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa e da senhora Antônia Clara Freire do Revoredo, encontra-se hoje um conjunto histórico de singular importância para a memória cultural do Rio Grande do Norte.

Não há viajante que percorra a modesta estrada, vindo das praias ou em direção a elas, que não se surpreenda com a imponência do local, detendo-se para observá-lo e fotografá-lo. À primeira vista, tem-se a impressão de estar diante de um único túmulo monumental. Na realidade, trata-se de duas estruturas arquitetônicas distintas, porém complementares: em primeiro plano, o mausoléu; ao fundo, o monumento comemorativo erguido em sua homenagem.

O monumento constituiu a primeira edificação do conjunto: erguido sobre uma base quadrangular, apresenta um bloco de forma cuboide que sustenta um soco, sobre o qual se eleva uma flecha tetraédrica em alvenaria. Originalmente, possuía a cor azul. Foi construído em apenas doze dias por Eduardo dos Anjos e inaugurado em 1909, em terreno doado por Chico Teófilo, localizado nas proximidades das ruínas da casa onde ela nasceu. A obra esteve sob a responsabilidade do Congresso Literário e dos estudantes do Atheneu Norte-Rio-Grandense, contando ainda com a supervisão e o apoio do então governador Alberto Maranhão, que figurou como presidente de honra. A construção teve como finalidade assinalar o centenário de nascimento de Nísia Floresta, embora, como se sabe hoje, de forma equivocada, uma vez que a data correta da efeméride seria apenas em 1910, considerando que Nísia nasceu em 1810.

Esse movimento revela o reconhecimento já existente, no início do século XX, da relevância intelectual e moral de Nísia Floresta, considerada uma das pioneiras na defesa da educação feminina e dos direitos das mulheres no Brasil. A escolha de seu local de nascimento para a edificação do monumento reforça o caráter simbólico da obra, transformando o espaço em marco de identidade regional.

O monumento apresenta inscrições de grande valor histórico e poético, preservadas até os dias atuais. Em uma de suas faces, encontra-se uma citação em francês atribuída ao filósofo Auguste Comte, datada de 29 de agosto de 1857, testemunhando o reconhecimento internacional da escritora potiguar. A presença dessa inscrição revela não apenas o alcance intelectual de Nísia, mas também sua inserção em círculos de pensamento avançado para sua época.

Já o mausoléu, construção posterior, foi erguido em 1955, aos cuidados do construtor Álvaro José de Melo em circunstâncias igualmente significativas. Os restos mortais de Nísia Floresta foram trasladados da França para o Brasil em 1954, durante o governo estadual de Sylvio Pedroza, atendendo a um movimento de resgate histórico e valorização da memória da escritora.

Entretanto, um fato curioso marcou esse processo: aguardava-se a chegada dos restos mortais acondicionados em urna ossuária, mas o que chegou foi um caixão em padrões tradicionais. Diante disso, o ataúde permaneceu provisoriamente depositado na nave lateral que dá acesso à sacristia da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, na então cidade de Papari (hoje Nísia Floresta), onde ficou por cerca de nove meses.

Somente em 1955, já sob a administração estadual de Dinarte de Medeiros Mariz, e com o mausoléu devidamente construído, recebendo uma capa de marmorito cor de rosa - realizou-se o sepultamento definitivo. A placa, em alto relevo, confeccionada por importante firma de Belo Horizonte, Minas Gerais, foi providenciada pelo Prefeito José Ramires, o sub-prefeito Capitão João Marinho de Carvalho e o Presidente da Câmara Municipal, Coronel João Marinho de Carvalho. É de justiça salientar o interesse do contador Otacílio Ximenes Jales, representante da referida firma, nesta capital, que tudo fez para que a confecção da placa de Nísia Floresta se realizasse na presente gestão da Academia de Letras.

MAUSOLEU DE NÍSIA FLORESTA (EM PRIMEIRO PLANO/PEÇA MAIS BAIXA COM CRUZ)

Concluído o trabalho do Mausoléu e do Monumento reuniu-se a Academia, marcando a sua inauguração para o dia 3 de abril de 1955. Efetivamente, naquela data, daqui partiu a Academia em viatura gentilmente cedida pelo Comando da Base Naval de Natal, ali chegando às 9 horas e fazendo logo depois o trasladamento dos restos mortais da escritora da Igreja local para o Mausoléu a ser inaugurado. Esse ato solene consolidou o local como espaço de memória, reverência e identidade cultural.

Assim, o conjunto arquitetônico formado pelo monumento (1909) e pelo mausoléu (1955) constitui um verdadeiro santuário cívico dedicado à memória de Nísia Floresta. Ele sintetiza diferentes momentos históricos: o reconhecimento precoce de sua importância, no início do século XX, e o resgate mais sistemático de sua trajetória, na metade do século, quando o Brasil buscava reafirmar suas referências culturais e intelectuais.

Outro aspecto curioso e frequentemente observado por estudiosos é o erro na datação do monumento, que registra o ano de nascimento como 1809, e não 1810. Tal equívoco, apesar de já ser conhecido por alguns intelectuais da época, foi mantido, possivelmente por tradição ou descuido, tornando-se parte da própria história do monumento.

Felizmente, todas as placas originais permanecem preservadas, permitindo ao visitante contemporâneo não apenas contemplar a estrutura física, mas também mergulhar nas narrativas simbólicas e históricas que ali se inscrevem. Trata-se, portanto, de um dos mais importantes marcos da memória cultural do Rio Grande do Norte, reunindo história, arte, literatura e identidade em um único espaço.

Com relação ao monumento, houve um cuidado poético nas inscrições. Vale a pena conhecê-las, tendo em vista que uma delas está escrita em francês e que tive o cuidado de traduzir mais abaixo. Em suas faces há as seguintes inscrições:

A LESTE: Deste ninho, até agora ignorado, levantou voo altaneiro a notável norte-rio-grandense a quem a mocidade rende esta homenagem.

A OESTE: - “Votre touchante composition est irrévocablement placée dans la tiroir sacré qui ne contient que la correspondance exceptionelle. Respect e sympathie. AUGUSTE COMTE”. Carta de 29 de agosto de 1857. OBS. Tradução abaixo. 

AO NORTE - NÍSIA FLORESTA. 1809-1909. 12 de Outubro. Papari.

AO SUL: - O Congresso Literário, reunido em setembro de 1909, sob os auspícios do exmº dr. Alberto Maranhão, seu presidente de honra e Governador do Estado, resolveu erigir este monumento.

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Tradução: “Sua comovente composição será irrevogavelmente arquivada na gaveta sagrada reservada apenas para correspondências excepcionais. Respeito e condolências. AUGUSTE COMTE”.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Das Cruzes Medievais ao Litoral Potiguar: A Bandeira de Nísia Floresta e seus Diálogos com o Mundo

 

Quando conheci a bandeira de Nísia Floresta - em 1992 -, tive a estranha sensação de já tê-la visto antes. Aos poucos compreendi que não era exatamente aquela bandeira que habitava minha memória, mas sim o conjunto das inúmeras bandeiras estudadas nas antigas aulas de Geografia e História, quando éramos obrigados a decorá-las juntamente com as capitais de cada país à época da Ditadura Militar. A bandeira nisiaflorestense, em linhas gerais, apresenta uma cruz vermelha e branca sobre um fundo azul. Contudo, não se trata da cruz completa, mas precisamente de sua parte principal. Isso porque, na simbologia tradicional da cruz cristã, o lenho vertical superior é menor, enquanto o inferior se prolonga de forma mais extensa. A bandeira parece, portanto, destacar justamente esse segmento central da cruz, evocando de maneira sutil referências históricas, religiosas e visuais que despertam no observador uma curiosa sensação de familiaridade.

A bela bandeira bandeira do município de Nísia Floresta apresenta uma composição visual tão clássica e universal que, vista à distância, poderia facilmente ser confundida com versões simplificadas de antigas bandeiras europeias. Seu fundo azul cortado por cruzes branca e vermelha remete imediatamente às tradicionais bandeiras nórdicas, especialmente à da Islândia, além de recordar antigos estandartes cristãos medievais e símbolos marítimos utilizados por nações europeias ao longo dos séculos. Essa semelhança não significa identidade de origem ou de significado, mas evidencia como a bandeira nisiaflorestense dialoga com modelos vexilol´gicos históricos profundamente associados à fé cristã, à navegação, à heráldica portuguesa e às tradições ocidentais de representação simbólica. Seu desenho sóbrio, marcado pela força cromática do azul, do branco e do vermelho, confere-lhe uma aparência solene e atemporal, semelhante à de antigos pavilhões religiosos e militares que atravessaram gerações da história europeia.

Muitas bandeiras de diversos países, estados e municípios brasileiros também trazem esses dois elementos em destaque (cruz e fundo), seguido de outros elementos e brasão ao centro. A maioria é assim. Algumas cruzes são deitadas (ou deslocadas, como queiram), tendo a parte menor à esquerda e a parte maior à direita. Mas a de Nísia Floresta tem a cruz simetricamente centrada com todas as partes iguais, geometricamente falando. No centro há o brasão e acima dele uma coroa real. É uma bela bandeira.

Recordo-me que, quando me tornei professor na EMYP, em março de 1992, conheci um documento sobre a bandeira de Nísia Floresta, que me foi mostrado pelo professor Jorge Januário de Carvalho, então diretor à época. E quando assumi a Escola Municipal Yayá Paiva, em janeiro de 1997, dei-me com a referida pasta cuidadosamente guardada pelo num móvel, contendo todas as informações sobre a bandeira do município: autor do desenho, significado de cada elemento e o decreto-lei que a oficializava. Também encontrei inúmeros álbuns fotográficos, primorosamente guardados, permitindo ao observador passear na história daquela gestão do início até aquela data. 

Tive o cuidado de preservar esse precioso acervo, sabedor da importância para as novas gerações. Mas vale ressaltar que, embora seja possível uma leitura empírica e imediata sobre a bandeira de Nísia Floresta, não tenho informações sobre ela no que se refere ao que está escrito nesse documento. Recordo-me que li o documento, que algumas pessoas pesquisaram na diretoria, que guardei sempre, mas nada sei sobre ele.

Há poucos dias, recebi um telefonema do professor Ricardo Acioly, interessado em saber se eu tinha informações sobre o significado da bandeira de Nísia Floresta e a história da mesma. Desse contato me senti inspirado a escrever o presente texto.

A bandeira do município de Nísia Floresta chama atenção por sua composição extremamente tradicional dentro da vexilologia (área de estudo dedicada às bandeiras, estandartes e demais símbolos representativos, analisando suas origens históricas, significados, composições visuais e formas de utilização ao longo do tempo). Ela apresenta uma cruz vermelha sobre uma cruz branca, ambas centralizadas sobre fundo azul. Esse modelo remete imediatamente a antigas bandeiras cristãs, marítimas, escandinavas e heráldicas europeias.

Olhar uma bandeira prediz ler o que ela nos mostra literalmente e qual a sua mensagem sublimar, ou seja, o que está nas entrelinhas, nos bastidores... algo do tipo. Isso não é regra, mas é muito comum, por exemplo, quando olhamos a bandeira de Nísia Floresta, de pronto constatamos uma pequena historinha sobre o municcípio. E isso se vê nos desenhos. Mas o que as cores, a estrutura, a geometria, as simbologias dizem?

Grosso modo, a bandeira de Nísia Floresta revela uma nostalgia com o seu passado de realeza. O próprio Coronel Joaquim José de Carvalho e Araújo, primeiro presidente da Intendência da “Vila Imperial de Papary”, quando perguntado de onde era, escandia o nome de sua terra: “Sou da VILA IM-PE-RIA-AL DE  PA... PA... RY!”. Dizia com orgulho, impregnado da devoção ao imperador e às coisas do império. Portanto, entendo que a apresentação da coroa real sobre tudo traduz uma superioridade – pelo menos na intenção. É uma devoção, um louvor ao “Brazil Império”. Parece haver uma nostalgia nisso. Creio.

Penso que seja ingênuo conceber a bandeira com a mesma profusão como aprendemos nos bancos escolares durante a Ditadura Militar o significado da bandeira do Brasil. O verde é a mata. O amarelo é o ouro e nossas riquezas. O azul é o céu e os mares. O branco é a paz. Ótimo! Pode até ser parecido com isso. Mas é só isso? Não. Em 1986 ganhei de uma prima um livro denominado “Os Símbolos Nacionais”, uma obra de arte. Então fiquei sabendo o significado real após anos tendo aprendido errado. Não vou me ater a isso, pois tornaria muito cansativo, mas leiam um texto que escrevi nesse mesmo blog, no dia 20 de novembro de 2021. Vale a pena apreciar, inclusive as imagens eu escaneei do referido livro. O link é o seguinte:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Um olhar diferente sobre a Bandeira do Brasil

Mas, vamos retomar o assunto. Embora os significados de cada bandeira seja diferente em cada caso, a semelhança visual é evidente, portanto fiz uma ampla pesquisa sobre bandeiras de países, bandeiras estaduais e bandeiras de municípios do Rio Grande do Norte. Algumas lembram a bandeira nisiaflorestense. Vamos aprecia´-las e entender as simbologias de cada uma:

A BANDEIRA DE NÍSIA FLORESTA

A bandeira de Nísia Floresta possui: - fundo azul. - cruz branca. - cruz vermelha centralizada.

Seu desenho lembra especialmente a chamada “Cruz de São Jorge”, muito utilizada na tradição cristã europeia. Quando digo “lembra”, me refiro à cruz que tem a mesma estética (uma cruz pela metade). Não me refiro ao formato geométrico.

Continuando sobre a bandeira de Nísia Floresta, o azul geralmente está associado: - ao céu. - às lagoas e ao litoral. - à serenidade. - à espiritualidade.

A cruz branca costuma simbolizar: - paz - fé - pureza.

Já a cruz vermelha é tradicionalmente ligada: - ao cristianismo - ao martírio - à coragem - à proteção espiritual.

A bandeira do município de Nísia Floresta constitui um dos mais expressivos símbolos da identidade histórica, cultural e afetiva da cidade. Seu desenho, marcado pela presença das cores azul, branca e vermelha organizadas em forma de cruz, revela forte influência da tradição vexilológica europeia e cristã, lembrando antigos estandartes medievais, bandeiras marítimas e modelos heráldicos clássicos. Ao mesmo tempo, a composição adquire significado próprio ao representar a memória, a espiritualidade e o sentimento de pertencimento do povo nisiaflorestense.

 No centro da bandeira costuma estar inserido o brasão municipal, elemento que sintetiza aspectos fundamentais da vida econômica, social e natural do município. O brasão simboliza as riquezas agrícolas, a ligação com as lagoas, o litoral e as paisagens naturais da região, além da força produtiva e do desenvolvimento local construído ao longo das gerações.

Mais do que um simples símbolo administrativo, a bandeira expressa o orgulho de uma terra profundamente marcada pela presença das tradições populares, das raízes indígenas e da cultura oral preservada por rezadeiras, parteiras, pescadores, agricultores, artesãos e mestres da sabedoria popular. Cada elemento presente em sua composição remete à formação histórica de um município que preserva costumes ancestrais sem perder sua identidade cultural.

 A bandeira também constitui uma homenagem permanente à educadora, escritora e pioneira do feminismo brasileiro Nísia Floresta Brasileira Augusta, nascida na antiga Papari, em 1810. Ao adotar o nome da intelectual potiguar, o município transformou sua bandeira em um símbolo não apenas territorial, mas também cultural e histórico, associado à educação, à liberdade de pensamento e à valorização da mulher brasileira.

 Utilizada em solenidades cívicas, repartições públicas, eventos culturais, festividades religiosas e competições esportivas, a bandeira representa a união coletiva e o espírito comunitário da população. Sua presença reafirma o sentimento de identidade local e a continuidade histórica de uma cidade cuja memória permanece ligada tanto às tradições populares quanto ao legado intelectual de uma das figuras mais importantes da história do Brasil.

AGORA VAMOS APRECIAR ALGUMAS BANDEIRAS DE PAÍSES QUE SE PARECEM – DE CERTO MODO –  COM A DE NÍSIA FLORESTA:

Islândia


Ela traz: • fundo azul; • cruz vermelha; • contorno branco.

Significados: • azul: oceano Atlântico e montanhas; • branco: gelo e neve; • vermelho: vulcões e fogo interior da ilha.

A semelhança com Nísia Floresta é impressionante, sobretudo pela predominância do azul com cruz vermelha.

Noruega


Ela possui: - fundo vermelho; - cruz azul; - contorno branco.

Significados: - vermelho: bravura e independência; - branco: paz; - azul: liberdade e ligação marítima.

A cruz escandinava representa o cristianismo.

Reino Unido


A famosa “Union Jack”.

A bandeira do Reino Unido nos apresenta: • a cruz vermelha de São Jorge (Inglaterra); • a cruz diagonal branca de Santo André (Escócia); • a cruz diagonal vermelha de São Patrício (Irlanda).

Significados: • união política dos reinos britânicos; • tradição cristã medieval; • poder naval histórico.

A presença da cruz vermelha sobre fundo azul aproxima visualmente da bandeira de Nísia Floresta.

Finlândia


Ela nos mostra: - fundo branco; - cruz azul.

Significados: - branco: neve; - azul: milhares de lagos finlandeses.

A simplicidade e o modelo escandinavo lembram a estrutura da bandeira nisiaflorestense.

Dinamarca


Uma das bandeiras mais antigas do mundo.

Ela se apresenta da seguinte forma: - fundo vermelho; - cruz branca (Cruz deslocada, ou cruz deitada).

Significados: - cristianismo; - tradição monárquica; - identidade nacional dinamarquesa.

Foi modelo para quase todas as bandeiras escandinavas posteriores

Suécia


Possui: - fundo azul; - cruz amarela.

Significados: - azul: justiça e lealdade; - amarelo: generosidade.

Também segue o padrão cristão escandinavo.

Geórgia


A bandeira georgiana nos traz o seguinte: - fundo branco; - grande cruz vermelha; - quatro pequenas cruzes vermelhas.

Significados: - cristianismo ortodoxo; - unidade nacional; - proteção divina.

A cruz vermelha central produz forte semelhança simbólica.

República Dominicana


Ela mostra o seguinte: - cruz branca central; - quadrantes azuis e vermelhos.

Significados: - branco: salvação; - vermelho: sangue dos heróis; - azul: proteção divina.

É uma das bandeiras nacionais mais próximas do estilo heráldico municipal brasileiro.

BANDEIRAS BRASILEIRAS PARECIDAS

Pernambuco


Embora diferente, ela se reporta à cruz. E cruz, igualmente a de Nísia Floresta, é uma alusão ao Cristianismo. Ela traz: - fundo azul; - cruz vermelha; - elementos cristãos.

Significados: - cruz: fé cristã; - arco-íris: união; - sol: força e liberdade.

- A estrela, acima, é o próprio estado do Pernambuco dentro da federação brasileira.

A cruz vermelha sobre azul lembra bastante a estética de Nísia Floresta.

Paraíba


A bandeira do estado da Paraíba traz: - vermelho e preto; - palavra “NEGO”.

Embora não semelhante estruturalmente, compartilha igualmente o forte uso simbólico do vermelho político e histórico.

Significados: - vermelho: revolução; - preto: luto; - “NEGO” - resistência política de João Pessoa.

São Gonçalo do Amarante

A bandeira traz: - a cruz central muito semelhante à bandeira da Islândia, mas nos remete com facilidade à bandeira do município de Nísia Floresta; - fundo azul; - faixas vermelhas e brancas.

Significados: - fé; - tradição; - poder; - espiritualidade.

Visualmente, há enorme parentesco com a bandeira de Nísia Floresta.

Natal


A bandeira natalense utiliza: - azul; - branco; - vermelho; - cruz estilizada.

Significados: - tradição católica; - herança portuguesa; - ligação marítima.

Cruz

Algumas versões históricas apresentam: - cruz central; - azul e branco.

O simbolismo remete: - ao cristianismo; - ao próprio nome do município.

A ORIGEM DESSE MODELO DE BANDEIRA

O padrão da bandeira de Nísia Floresta deriva principalmente de três influências históricas, Vejamos:

1: HERÁLDICA PORTUGUESA

Portugal difundiu: - cruzes; - brasões; - símbolos cristãos; - cores azul, vermelho e branco.

Isso influenciou profundamente os municípios brasileiros.

2: TRADIÇÃO CRISTÃ

A cruz vermelha é frequentemente associada: - a São Jorge; - às Cruzadas; - aos antigos estandartes cristãos.

3: BANDEIRAS ESCANDINAVAS

O chamado “modelo nórdico”: - cruz deslocada ou central; - fundo monocromático; - combinação azul/vermelho/branco.

Esse estilo se tornou mundialmente reconhecido.

UMA CURIOSA OBSERVAÇÃO VEXILOLÓGICA

A bandeira de Nísia Floresta poderia facilmente ser confundida, à distância, com: - versões simplificadas das bandeiras da Islândia; - antigas bandeiras cristãs medievais; - bandeiras marítimas europeias; - estandartes religiosos.

Isso ocorre porque ela segue um modelo visual extremamente clássico da vexilologia ocidental.

OUTRAS BANDEIRAS NORTE-RIO-GRANDENSES E SUAS “SEMELHANÇAS” COM A BANDEIRA DE NÍSIA FLORESTA:

Bandeira de São José de Mipibu:


São José de Mipibu: Diferente, mas parecida:

A bandeira do município de São José de Mipibu apresenta um desenho simples, porém profundamente simbólico, marcado pela forte influência da tradição heráldica e religiosa que caracterizou inúmeros municípios brasileiros ao longo do século XX. Composta por faixas verticais nas cores vermelha, branca e verde, tendo ao centro o brasão municipal, a bandeira traduz elementos históricos, culturais e espirituais ligados à formação do povo mipibuense.

A cor vermelha associa-se tradicionalmente à coragem, à força e ao espírito de luta do povo, além de remeter à fé cristã e à tradição religiosa ligada aos padroeiros São José e Sant’Ana. O branco simboliza a paz, a espiritualidade e a harmonia, enquanto o verde representa a fertilidade das terras, a agricultura, os antigos engenhos e a exuberância natural que marcou a história econômica da região. No centro da composição, o brasão municipal sintetiza aspectos históricos e culturais da cidade, evocando a colonização portuguesa, a tradição agrícola e as raízes indígenas presentes na origem do município.

A semelhança entre as bandeiras de Nísia Floresta e São José de Mipibu não se explica apenas pela utilização de cores e elementos típicos da vexilologia. Como disse acima, existem bastidores. Há uma profunda ligação geográfica, histórica e cultural entre os dois municípios. Além de fazerem divisa territorial, Nísia Floresta pertenceu historicamente a São José de Mipibu durante parte de sua formação administrativa, até o dia 18 de fevereiro de de 1852, o que ajuda a compreender determinadas aproximações simbólicas presentes em suas identidades visuais e culturais.

Essa proximidade histórica fez com que ambas as cidades compartilhaem influências religiosas, costumes populares, tradições agrícolas e referências heráldicas semelhantes, refletidas inclusive em seus símbolos oficiais. Assim, ainda que cada bandeira possua características próprias e significados específicos, ambas dialogam dentro de um mesmo universo histórico regional, marcado pela herança colonial portuguesa, pela forte presença do catolicismo e pelos vínculos sociais construídos ao longo dos séculos entre as populações vizinhas do litoral sul potiguar.

Bandeira de Santa Cruz


A bandeira de Santa Cruz talvez seja uma das que mais dialogam simbolicamente com a de Nísia Floresta, especialmente pela centralidade da cruz cristã em sua identidade histórica. O próprio nome do município evidencia a importância desse símbolo religioso, também presente de maneira marcante na composição da bandeira nisiaflorestense. Em ambas, a fé aparece como elemento fundamental da memória coletiva e da formação cultural do município.

Bandeira de Cruzeta:


A bandeira de Cruzeta mantém forte aproximação simbólica com a bandeira de Nísia Floresta pela presença marcante da tradição cristã em sua composição visual e histórica. O próprio nome do município remete diretamente à cruz, elemento que também se destaca no simbolismo nisiaflorestense. Em ambas, percebe-se a influência da heráldica portuguesa e dos antigos estandartes religiosos que moldaram grande parte das bandeiras municipais brasileiras.

Bandeira de Extremoz

A bandeira de Extremoz apresenta semelhanças com a de Nísia Floresta sobretudo pelo uso predominante das cores azul e branca, tradicionalmente associadas à paz, ao céu e às águas. Os dois municípios compartilham forte ligação com a história colonial do litoral potiguar, refletindo em seus símbolos oficiais traços da religiosidade católica e da influência portuguesa presentes desde os primeiros tempos da ocupação da região.

Bandeira de Goianinha


A bandeira de Goianinha dialoga com a de Nísia Floresta pela utilização de elementos heráldicos clássicos e cores tradicionais da vexilologia brasileira. Assim como ocorre em Nísia Floresta, seu desenho expressa valores ligados à identidade popular, à agricultura, à espiritualidade e ao sentimento de pertencimento da população à sua terra e às suas tradições culturais. Em caráter de informação – embora não esteja presente nela – vale lembrar que toda a família ancestral da intelectual Nísia Floresta é oriunda de Goianinha.

Bandeira de Caicó


A bandeira de Caicó, embora mais elaborada em seus detalhes, aproxima-se da de Nísia Floresta pela forte influência da tradição heráldica e religiosa. Ambas carregam elementos que representam a fé, a memória histórica e o orgulho regional de seus povos. Em cada uma delas, a bandeira ultrapassa o aspecto meramente administrativo e transforma-se em símbolo da identidade cultural de seus municípios.

Bandeira de Jardim do Seridó


A bandeira de Jardim do Seridó mantém relação simbólica com a de Nísia Floresta pela presença de referências históricas e religiosas típicas das antigas bandeiras municipais brasileiras. Seu estilo heráldico, associado às tradições sertanejas e à valorização da cultura local, aproxima-se do mesmo universo simbólico presente na bandeira nisiaflorestense, marcada pela sobriedade e pela forte influência cristã.

ENFIM...

Como divaguei no início: Toda interpretação simbólica está diretamente relacionada ao repertório cultural, histórico e intelectual de quem observa. Nenhuma bandeira fala sozinha: ela “dialoga” com o olhar do intérprete, com suas experiências, memórias e referências de mundo. Assim, os significados percebidos numa composição vexilológica não são apenas resultados objetivos de cores e formas – a exemplo de uma reflexão que fiz, acima, sobre o “significado chapado da Bandeira do Brasi –, mas também construções subjetivas elaboradas a partir do universo de conhecimento de cada indivíduo. Ou seja, enxergamos o mundo a partir da amplitude ou limitação do conhecimento que temos.

Essa reflexão aproxima-se de concepções defendidas por importantes pensadores da linguagem, da cultura e da leitura simbólica, segundo os quais o ser humano interpreta o mundo conforme os limites - ou as amplitudes - de sua própria percepção cultural. Em outras palavras, cada pessoa “lê” os símbolos a partir do tamanho do seu mundo interior. Não por acaso, a célebre ideia poética de que “o meu quintal é maior que o mundo”, eternizada por Manoel de Barros, meu conterrâneo, sugere justamente que o universo simbólico ultrapassa dimensões geográficas e materiais, sendo ampliado pela imaginação, pela memória e pela sensibilidade humana.

Essa perspectiva torna-se ainda mais significativa quando relacionada à própria Nísia Floresta Brasileira Augusta, intelectual que dá nome ao município e é muito bem representada na bandeira (com livro, nankin e pena). Nísia foi uma mulher muito além de seu tempo. Em pleno século XIX, enxergou o mundo com amplitude rara para a época, ultrapassando os limites sociais, culturais e intelectuais impostos às mulheres brasileiras. Sua obra demonstra exatamente essa capacidade de interpretar a realidade para além das aparências imediatas, buscando os sentidos mais profundos da educação, da liberdade, da dignidade humana e da condição feminina. Assim, não deixa de ser simbólico que o município que carrega seu nome possua uma bandeira aberta a múltiplas leituras e conexões culturais, capaz de dialogar visualmente com tradições históricas espalhadas pelo mundo. Olhar a bandeira de Nísia Floresta pede uma alta criticidade. Do contrário nos resumimos. Se Nísia tivesse ficado no Sítio Floresta, ela não teria se tornado tão conhecida e tão atual, mesmo passados 141 anos de sua “morte”.

Desse modo, ao observarmos a bandeira de Nísia Floresta - ou qualquer outro símbolo histórico - não estamos apenas diante de um objeto visual institucional. Estamos diante de uma narrativa aberta, sujeita a múltiplas interpretações e associações culturais. As cores, as cruzes, as formas geométricas e as aproximações com bandeiras de outros povos revelam tanto a história do município quanto os horizontes culturais daquele que contempla o símbolo. Afinal, toda bandeira possui aquilo que mostra visivelmente e, ao mesmo tempo, aquilo que silenciosamente sugere.