ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Escrever sem citar fontes...


Tenho um blog que criei em 2009. Eu diria que é a minha diversão. Escrevo o que dá na telha: poemas, crônicas, contos, textos de História (científicos em conformidade com a ABNT), textos de História (sem citação de fontes), alguns textos são provenientes de História Oral, cuja fonte é o povo,  enfim, é o meu livro digital. Também escrevo lendas, estórias de Trancoso e muita produção folclórica, afinal sou folclorista desde jovem. Mas até um recém nascido sabe discernir o que é uma lenda e o que é um texto histórico.

Dia desses, me questionaram a razão de eu não citar fontes em muitos textos que escrevo na área da História. Ora! Deveriam ressuscitar Câmara Cascudo e perguntar-lhe o porquê de ele nunca ter citado as fontes em nenhuma das suas Actas Diurnas. Pelo menos nelas ele nunca citou. Na verdade, desconheço a razão pela qual o nosso maior mestre assim o fez, mas, no meu caso, um grão de areia que sou, comparado a Cascudo, ajo assim porque já tive algumas pesquisas minhas, que levei um tempão fazendo, e que foi roubada por estranhos.

Houve, inclusive, um caso de plágio ipsis literis de um amplo trabalho que fiz. O cara teve a cara de peroba de copiá-lo inteirinho, e se servia dele para promover as atividades profissionais do mesmo. Mas vejam que atitude esquisita desse copista. Ele citou como autores do meu trabalho nada mais que Câmara Cascudo e Ariano Suassuna. Eu levei mais de 20 anos pesquisando para produzir o dito estudo (na área de linguística). Então ele viu a qualidade do meu estudo e prensou a grife de Câmara Cascudo e Ariano Suassuna na publicação que fez como sendo dele.

Certamente ele conhecia apenas a fama prodigiosa de Cascudo e Ariano (apenas isso). De obras, não conhecia nada, afinal Câmara Cascudo e Ariano Suassuna nunca escreveram um estudo sobre o assunto da minha citada pesquisa. Se ele conhecesse as obras desses dois notáveis brasileiros, não os teria colocado como fonte do meu trabalho. O dito cara se passava por autor do meu estudo, mas a fonte do plágio (dele) era Câmara Cascudo e Ariano Suassuna (sendo eu o autor verdadeiro). Fiquei muito chateado quando vi o dito cara pegar o trabalho meu, jogar na página de sua empresa, sem tirar uma vírgula, e ainda inventar fontes. Na mesma hora printei tudo, entrei em contato com minha advogada e em menos de três meses estava com uma boa indenização na minha conta.

Ao longo desses 15 anos da existência do meu blog, já vi gente se servir de textos meus, completos, passando-se como dela. Já vi gente pegando raciocínios que até então só eu havia feito (a partir de longos estudos e pesquisas), e jogado em palestras etc. Já cheguei em “feira do conhecimento” de algumas escolas e vi textos meus, completos, afixados em painéis sem que o meu nome tenha sido citado. Nesse último caso eu até perdoo, pois é coisa de adolescente que certamente não recebeu orientação de seus professores, mas fora isso, não perdoo.

Quanto à pergunta que me foi feita sobre por que não cito as fontes de alguns textos de natureza histórica que escrevo, é esse o motivo. Qualquer cérebro de galinha sabe que, quando escrevo um texto histórico, pesquisei em algum lugar. Não saiu da minha cabeça. ISSO É ÓBVIO. O que saiu da minha cabeça, no caso, foi a costura do texto, minhas suposições, reflexões, opiniões etc. Então, como escrevo muitos textos com assuntos nem tão fáceis de se encontrar na internet – alguns, inclusive inéditos - , salvo-os nas nuvens e no meu e-mail, mas com um detalhe: escritos totalmente nas normas da ABNT, totalmente científicos. E quem quiser que vá pesquisar e fazer como fiz, inclusive muitas vezes em fontes primárias. Sabe quando você cansa de produzir para os outros? Para os espertalhões e raposas velhas? É por isso. Pretendo, no futuro, se não morrer antes, publicar alguns estudos meus (esses que salvo em e-mail e nuvem), portanto guardo-os bem e totalmente dentro das normas da ABNT.

CASCUDO NÃO CITAVA FONTES EM SUAS “ACTAS DIURNAS”, NEM POR ISSO SEUS ESCRITOS SÃO INCONFIÁVEIS OU INVENTADOS...

Enfim, encerrando, a quem interessar possa: quando quiser saber porque escrevo alguns textos sem citar fontes, vá ao cemitério do Alecrim e pergunte a Luís da Câmara Cascudo por que ele não citava as fontes dos textos que escrevia em suas Actas Diurnas... Agora vou usar uma palavra do lixão Bolsonaro: Talkei?!

sábado, 8 de junho de 2024

Quem descaracteriza o São João do Nordeste são os gestores de Cultura das capitais e do interior do Nordeste...

 


O Rio Grande do Norte tem músicos conscientes da sua cultura a puxar de rodo. Há sanfoneiros em banda de lata. Compositores, da mesma forma. Não falta o artista, falta a valorização e o respeito aos mesmos. As principais festas de São João no Nordeste estão sendo tomadas por artistas do mercado pop, deixando cada vez mais de lado a tradição junina do forró dominar essa época do ano. A "invasão" gera críticas de artistas e produtores, que reclamam de uma desvalorização nos últimos anos da música local.

É um desserviço trazer músicos sertanejos no festejos juninos do Nordeste. Não é bairrismo, é questão de sensatez cultural. O “São João” é o cartão postal do Nordeste. Festa junina combina com o forró pé de serra e o forró contemporâneo. Isso está na essência do povo nordestino.

Elba Ramalho já declarou isso em várias entrevistas. Ninguém nunca viu – nem verá – Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho dentre outras figuras na Festa de Peão de Boiadeiro de Barretos, São Paulo porque essa famosa festa é deles. É questão da sertanejidade. É uma coisa de regionalismo mesmo. É a essência deles. Esse raciocínio se aplica ao São João no Nordeste. É a maior festa do povo nordestino.

Já surgiu até um forronejo. Isso é normal. A Cultura é como a linguagem. Está em evolução constante e dentro de uma sensatez. Mas, assim como o nordestino deve resistir contra políticos corruptos, deve resistir contra o que descaracteriza a essência cultural do Nordeste.

Entendam. Não estou dizendo que o artista de outros estados não deve fazer show no Nordeste. Claro que deve e inclusive ser acolhido por todos. Somos brasileiros. Mas há momentos que pertencem com exclusividade a cada região. O momento deles é outro.

Fala Mansa, por exemplo, é de São Paulo, mas só interpreta grandes clássicos do forró e suas composições próprias são de forró. É uma exceção. Eles cabem muito bem no São João do Nordeste (por exemplo). Mas Luan Santana, Gustavo Lima, Michel Teló etc não tem nada com esse momento intimista do povo nordestino.

Preocupo-me muito com as crianças e adolescentes nordestinos que estão crescendo sem que lhes oportunizem ouvir Luiz Gonzaga, Elino Julião, Jorge de Altinho, Dominguinhos e os grandes figurões que estão ainda por aqui, como Dorgival Dantas, Flávo Leandro, Flávio José etc. Isso é tarefa das instituições que lidam com cultura.

Quando digo “ouvir” refiro-me às nas festas de rua, e em especial nas festas juninas (e nas mídias também). Essa meninada está crescendo achando que o São João é essa descaracterização terrível que se vê ultimamente. O que eles vão reproduzir depois? É uma pena, pois esse momento junino é maravilhoso, é a cara do Nordeste. É muito mágico, muito peculiar. Não pode ser trocado por culturas de outros estados.

Já ouvi gente que trabalha com Cultura que, ouvindo esse meu discurso (e mal interpretando-o) dizer “não devemos engessar a cultura, pois tudo muda”. Exatamente. Mas essa afirmação exige responsabilidade. “Não engessar a cultura” não é o mesmo que permitir e destruição da cultura de um povo. Não é o mesmo que as instituições culturais serem as primeiras a destruírem a sua própria cultura. Se um gestor cultural banaliza e enxerga dessa forma, está no lugar errado. A essência do Nordeste deve ser a mesma. Sempre.

Quem trabalha com cultura - como gestor ou povo - deve lutar contra tudo o que descaracteriza a cultura e o regionalismo. E SABE QUAL É A FÓRMULA? PROMOVER A CULTURA REGIONAL DE TODAS AS FORMAS, VALORIZAR O BOM ARTISTA NORDESTINO E REMUNERÁ-LOS COM DIGNIDADE.

Quando falo dos grandes clássicos (Luiz Gonzaga, Elino Julião etc e outras celebridades já mortas), não desprezo os artistas atuais, como por exemplo, João Gomes, um excepcional artista, dentre outros (e outras). O que devemos congelar, e bem congelado, é o CRITÉRIO usado para promover o São João do Nordeste, priorizando intérpretes dos grandes clássicos.

As grandes festas juninas do Nordeste devem dar oportunidade para os artistas iniciantes que trabalham com as coisas da sua própria cultura. Refiro-me àqueles que estão no início da carreira e já caíram na graça do povo. Esses artistas devem ser os primeiros a subirem no palco e aquecer os festejos de São João para, em seguida, o povo receber os grandes mitos. Quem fez a abertura hoje estará no local dos mitos, no futuro, mas é necessário respeito e incentivo no início. E as secretarias e fundações devem remunerá-los decentemente. Falta isso, pois, normalmente pagam os artistas locais com merrecas. Vá ao Rio Grande do Sul para ver como eles são doutores na valorização da sua cultura e dos seus artistas. Infelizmente tenho observado – in loco e há tempos – diversas instituições culturais (que devem ser as primeiras a valorizar a cultura a partir da sua) priorizando culturas alheias em detrimento da sua. Isso é bestial. 

Outro fator que colabora com a depredação da cultura do Nordeste é o seguinte: as secretarias municipais, estaduais, as fundações de cultura e instituições afins estão sobrecarregadas de funcionários equivocados, que são colocados ali sem critérios. Normalmente essas pessoas levam o seu equívoco para o local de trabalho. Deploravelmente, ao planejar uma Festa de São João são essas pessoas equivocadas que escolherão os artistas que serão contratados para a festa. 

São essas pessoas equivocadas que darão a canetada. Por sua vez é o gosto delas que vigorará, e não o gosto cultural da população como um todo. “Eu adoro Maiara e Maraísa”. “Eu adoro Gustavo Lima”. “Eu amo Zé Felipe e Miguel”. “Vamos trazê-los” (é mais ou menos isso que acontece nos bastidores dos órgãos públicos de cultura). Fora a lavagem de dinheiro, em determinadas prefeituras (embora isso são outros quinhentos).

Esses gestores de secretarias e fundações e suas equipes – alienados – devem ser expurgados dos espaços que ocupam, pois são eles que colaboram com a dilapidação a sua própria cultura. São eles que destroem as festas juninas do Nordeste. O critério para admitir um secretário de cultura/presidente de fundação de cultura deve ser, além da formação superior e capacidade de gestão, é ter relação com cultura, ter conhecimento das políticas culturais e consciência da valorização da cultura a partir da sua própria, da sua região. 

Tudo bem, criou-se uma lei que reza que a prioridade – nesse momento junino – é para os artistas locais e regionais, depois os de fora (e dentro do contexto). Mas vamos ver se isso está acontecendo. Esse ano, pelo menos aqui no Rio Grande do Norte, é a primeira vez que teremos um São João sob o crivo da nova lei. Vamos observar. Como diz o título deste texto "Quem descaracteriza o São João do Nordeste são os gestores de Cultura das capitais e do interior do Nordeste...". Mas isso deve e pode mudar. ´É só querer...

 

Poema: Infância...

Toda infância é um livro na biblioteca da memória
E só pode ser reaberto por nós...
Há tantos desses livros esquecidos, perdidos, carcomidos, empoeirados...
nós temos o poder de viajar nessas obras da memória e voar, e fazer piruetas, e rodopiar, e virar as páginas, e voltar as páginas, e reviver tudo tal e qual, sem mexer no enredo, pois o que foi escrito, foi escrito.
O meu livro está sempre aberto porque reler a minha meninice é como comer um pedaço de doce.
O livro da minha infância traz um tempo cujas nossas vidinhas miúdas, inocentes e arteiras, moravam dentro de uma caixa de brinquedo em ruas e quintais maiores que o mundo.
Essa caixa de brinquedo era feita de terra vermelha, lama, chuva, enxurrada, rios, mato, frutas silvestres e uma infinidade de bichos saltando entre árvores...
Uma caixa que guardava as histórias de Trancoso contadas à noitinha pelo "Seu Expedito".
Existíamos numa fartura extraordinária de infância.
Creio que sinônimo de infância é felicidade, e antônimo de infância é tristeza. Nossos brinquedos não se quebravam.
Nossas brincadeiras não conheciam limites.
Por isso louvo a minha infância com sabor apetitoso de quintal mágico.
Só crianças do nosso tempo viveram os encantos dos espaços sem réguas, sem muros, nem cercas.
Onde existiu encanto, existiu infância.
Um buraco cavado com latas enferrujadas, o pular da ponte era matéria prima para felicidade.
Fui menino que revirava os ninhos de cobras, colecionava cacos de vidros coloridos e à noite empreendia viagens com Andersen e Grimm.
Fui menino descompromissado com brinquedos de lojas.
Meu brinquedo, ou melhor, minha vida veio desse quintal sem fim.
O quintal está guardado dentro de uma caixinha de brinquedo que resiste, intacta, nas minhas memórias...
Eis que hoje visitei essa biblioteca e dei-me com esse livro de infância... 2.1.20.

Poema ao facheiro

Anoiteceu...

A noite aquietou o seu manto negro sobre a casa. 
Sua azeviche esconde tudo. 
Quase nada pode ser visto, exceto o facheiro, cujo fio de luz descortina duas belas trombetas. 
Elas tocam uma música essencial... como um perfume exótico que enche a casa. 
Não, não é perfume, nem música... é oração...

sexta-feira, 7 de junho de 2024

"Nísia Floresta, a infância de uma cidade" - Por Socorro Trindade (trecho de uma crônica publicada n'O Poti em 1991)...

 


"(...) Não sei o que a vida me reserva para que eu a queira tão apaixonadamente. Sou, portanto, grata a alguém por ter-me escolhido para viver a vida. Sou grata a vida por ter tido uma terra para nascer. Sou ainda grata por ter nascido numa cidade, a exemplo de Nísia Floresta, mulher, escritora, poetisa, jornalista, educadora, política, indianista, abolicionista, republicana e feminista - aliás, a precursora do feminismo brasileiro e talvez sulamericano, pioneira na extinção da escravidão e implantação da república. Bateu-se ainda pela liberdade de cultos, federação das províncias e outras questões, inclusive de ordem internacional. O nome da cidade é uma homenagem a essa filha ilustre. Nascer nessa cidade é ser filha de alguém (...)"

 

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Poema Autobiográfico (Por Lia Fátima, São Paulo,SP)


 Poema Autobiográfico (Por Lia Fátima, São Paulo,SP)

Nasci...
Tendo a vida preenchida
Com momentos de alegrias e tristezas
Em dias revoltos ou de monotonia
 
Cresci...
Sem fazer festa
Tive muitos sonhos
Uns concretizei, outros não
Aprendi com sofreguidão
Que a vida se faz
De Sim e de Não
 
Amadureci...
Sem fazer alarde
Vivenciei amores
Tive dissabores
Descobri o amor
Tão tarde
 
Uma vida
Com breves espasmos da
Doce e inebriante loucura
Criando laços frágeis
que me fizeram sonhar e idealizar
causando algumas desventuras
 
Uma vida
Vivenciando o aqui e o agora
Mas nunca desmerecendo
Um passado que trago
Vivo até hoje na memória.

Uma vida
que tem uma mensagem
Uma vida
onde tem amor e dor
Uma vida 
onde eu mudo a paisagem
Uma vida
onde eu escolho a cor





A cada chuva a Ribeira apodrece na podridão do descaso...

 

A história arquitetônica da Ribeira é um necrológio inglório. Muito triste. Domingo passado estive conversando com um senhor que tem estabelecimento ali. Ele contou sobre alguns prédios incríveis que correm risco de ruir em breve. Há um, belíssimo – que dediquei-lhe mil textos -, que teve a reforma iniciada. Há uma placa nele fincada pelos governos dando a notícia de que foi a primeira etapa. Ou seja, planejaram pela metade. Está tudo parado há meses. A casa de Tavares de Lira, já subindo, está quase toda refeita e promete. Mas esperaram ruir quase completamente para depois reerguê-la. Fica esquisito. Não é mais a mesma. É outra. A casa de Café Filho traz estampa de filme de terror. 


A Galeria de Arte B612 fincou-se ali pensando arrastar outras iniciativas parecidas. Muito nobre a intenção do proprietário. Mas o empresariado olha o cenário com reservas. É difícil pensamentos visionários. Nem todos percebem a pepita de ouro ali escondida, bruta... Poucos visualizam se unir para lapidá-la. Esse olhar de ourives é conjunto. Os governos precisam estarem dentro (são outros que não amadurecem, salvas raras exceções). 

Falta educação e civilidade. Um projeto a mil mãos torna a Ribeira uma Champes Elisê. Esse muda-muda de funcionários, a falta de técnicos e abundância de aparentados políticos em funções sérias... são grandes entraves. Grande parte quer apenas o pagamento no final de cada mês. Existe alguma coisa sendo revitalizada por ali, acanhadamente, enquanto outras pararam, enquanto órgãos que tinham anteriormente acreditado nas promessas e se instalado ali, tiveram medo e sumiram (Delegacia da Mulher que o diga). Cuidar da Ribeira exige planejamento, trabalho, inteligência, ação. O Ministério Público deveria entrar nesse enredo e exigir continuidade. Entrou governo x, corra trabalhar; entrou governo y, corra trabalhar, numa espécie de supervisão séria. Mas onde está a sensatez. Recentemente o jovem Ronkalt usou a IA para mostrar como a Ribeira pode ficar. Será que nem isso inspira?

Ribeira revitalizada pela IA, sob a sensibilidade de um artista.

Falando na Galeria, o promotor Manoel Onofre Neto, recentemente engajado no mundo de colecionador de obras de arte pretende instalar-se ali. Mas a Ribeira segue feiosa, bufenta, encardida, com cenas que lembram filme de terror. A marginalidade transita ali como ratos. Ruelas viraram banheiros públicos. Há trinta anos ensaiam coisas que se arrastam pesadíssimas, como não fossem do real interesse. Difícil. Difícil, mas particularmente sigo como uma das raras andorinhas, resistindo, resiliente usando o meu único instrumento: a palavra... creio que ela ajuda.




Interior da Galeria de Artes B616



QUE TAL VIRARMOS INDÍGENAS?


Nasci no Mato Grosso do Sul, em meio à convivência com diversas etnias indígenas, em especial os Guarani-Kaiowá. Desde criança estive próximo a eles, que transitavam pela cidade com naturalidade. Aprendi a respeitá-los muito cedo, testemunhando, entretanto, inúmeras situações de preconceito e discriminação. Sei bem o quanto muitos indígenas sofreram tanto pelo desprezo dos que se autodenominam “homens brancos” quanto pela ausência de políticas públicas eficientes.

Nos últimos tempos, algumas políticas federais abriram novos caminhos para esses povos. No entanto, aquilo que deveria ser benéfico por vezes se torna nocivo. Embora muitos indígenas tenham conquistado dignidade em suas comunidades ou nos grandes centros - atuando nas mais diversas profissões - outros ainda sofrem as piores mazelas. O que me revolta profundamente é ver pessoas sem qualquer vínculo social ou histórico com etnias indígenas, que sequer possuem características físicas que sustentem tal identidade, usarem grafismos no rosto, cortarem os cabelos em franja, colocarem um cocar imponente e, com cara de pau, roubarem nomes indígenas, associando-oss a etnias específicas. Assim, arrancam dos verdadeiros indígenas o que lhes pertence: espaço, memória e identidade.

Escrevo estas linhas tomado por tristeza e perplexidade. Nos últimos anos, encontrei em reportagens e estudos relatos consistentes de fraudes envolvendo identidade indígena, muitas delas ligadas a documentação, registros oficiais e até à conivência de agentes públicos. Esquemas de criação de “indígenas falsos” para obtenção de benefícios previdenciários ou regularização documental foram investigados pela polícia e pela imprensa. Em um desses casos, centenas de identidades falsas teriam sido criadas para fins de aposentadoria, gerando prejuízo aos cofres públicos e evidente lesão ao direito dos indígenas reais.

Também há registros de lideranças que, segundo investigações e denúncias, teriam apresentado documentos suspeitos ou obtido registros de modo irregular. Não se trata de condenar de antemão, mas esses episódios revelam a existência de brechas burocráticas que permitem a manipulação de identidades. A Funai e outras instituições têm reconhecido a necessidade de reforçar critérios de reconhecimento, justamente diante do risco concreto de mau uso da autodeclaração. Basta imaginar: a qualquer hora alguém pode se declarar indígena apenas mostrando uma foto antiga, de franja, com um papagaio no dedo e um gato no colo (tenho uma fotografia assim quando tinha 12 anos). Parece fácil ser indígena quando surge o cifrão na história.

No meio desses absurdos, surgem situações ainda mais perversas: fraudes voltadas a vencer concursos, obter prêmios e garantir visibilidade em nome de uma identidade usurpada. Minha irmã, que vive no Mato Grosso do Sul e mantém contato freuqnte com uma comunidade Guarani-Kaiowá, relata injustiças enfrentadas por eles. Daí a minha revolta ao ver falsos indígenas roubando o que pertence aos verdadeiros. É roubo de identidade, um estelionato étnico.

Diante disso, vários editais e prêmios destinados a povos indígenas passaram a exigir comprovação de vínculo comunitário, declarações de lideranças ou produção conjunta com coletivos indígenas. Essas exigências não são barreiras arbitrárias, mas respostas preventivas: buscam proteger espaços legítimos da apropriação e da fraude.

A minha perplexidade cresce ao pensar nos efeitos simbólicos e práticos dessas apropriações: aquele que pinta o rosto, veste cocar e assume nomes e narrativas que não lhe pertencem não apenas furta recursos ou prêmios - ele dilui a credibilidade de algo que, para povos inteiros, é sobrevivência cultural e política. Quando o Estado ou as instituições passam a desconfiar, cria-se uma burocracia que acaba penalizando justamente quem sempre foi invisibilizado: indígenas que, por falta de documentação robusta ou por deslocamentos históricos, não conseguem provar de imediato o vínculo com sua comunidade. Eis a contradição: a proteção contra a fraude pode se tornar instrumento de exclusão. Pobres indígenas! Já não lhes bastaram quinhentos anos de espoliação?

Não é exagero chamar esse comportamento de “estelionato étnico”. Há fraude documental, representação indevida, usurpação de espaços de luta - e tudo isso traz consequências reais. Se um prêmio destinado a valorizar uma tradição é tomado por quem não a vive, o resultado é duplo: perde-se autenticidade e os legítimos herdeiros perdem a vez. Ainda pior: a identidade milenar transforma-se em fantasia para consumo midiático, vaidade pessoal e vantagens materiais. Isso é violência. É roubo simbólico somado ao roubo material. Tenho nojo disso.

O que proponho, com a angústia de quem cresceu entre povos indígenas, é que a visibilidade conquistada seja acompanhada de responsabilidade: editais com critérios transparentes e participativos; comissões formadas por representantes indígenas; validação comunitária; fotografias de antepassados, documentos; investigação séria e célere de denúncias; e, sobretudo, políticas públicas que não transformem pertencimento em mercadoria. Também defendo sanções rigorosas para fraudes, mas sem criar obstáculos adicionais para indígenas deslocados ou sem documentação formal.

Sei que este texto não esgota o tema. Mas é evidente que há riscos, fragilidades documentais e episódios de fraude em diversos campos que justificam cautela e medidas protetivas. Minha perplexidade, portanto, permanece: celebrar a presença indígena na cultura é urgente e necessária, mas celebrar não pode significar abrir espaço para que impostores se beneficiem do que pertence, por direito e história, às comunidades originárias.

Saudações! E viva os indígenas reais! Viva, sobretudo, meus irmãos Guarani-Kaiowá do meu amado Mato Grosso do Sul!  jun.2024

OBS. Quando achar a fotografia do meu-eu indígena, postarei aqui

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Panapaná passaredo...



Havia pássaros na proporção de folhas.

Um buquê panapaná...

Não sei se nasciam da árvore ou pousavam nela,

Não sei o que era folha nem o que pássaro era,

Sei que me perdi em tortos pensos. 

Por vezes imaginei sendo folhas se desgarrando, transmutando-se em  pássaros, ou pássaros virando folhas, 

Era um espetáculo enlouquecido de beleza 

Beleza verdejante e divinizada de Pantanal..

terça-feira, 4 de junho de 2024

Hotel Reis Magos: glamour, decadência e demolição - História contada por imagens de fotógrafos renomados a anônimos...

Hotel Reis Magos - Natal/Rio Grande do Norte...
















































































DECADÊNCIA E DEMOLIÇÃO











O ABRAÇO TARDIO ENQUANTO AS MÁQUINAS O DEMOLIAM...

O QUE RESTOU...


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Revista O Cruzeiro - 1968..