ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Sr. Calixta, um luthier anônimo...


Algumas pessoas nascem com dons que se despertam na maturidade, como semente guardada durante décadas e, de repente, exposta à terra. José Calixta Pereira Filho, 77 anos de idade, é exemplo mais verdadeiro no plantio dos lutiers populares, se assim podemos entender.

 

Ele nasceu em Taborda, distrito de São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte. Há alguns anos reside à rua Francisco Tomás de Vasconcelos, nº 150, Rosa dos Ventos. Suas relações sociais sempre foram em Parnamirim, município mais próximo, região metropolitana de Natal. Ele é filho de José Calixta Pereira e Joana Alexandre Nascimento Pereira, ambos potiguares.  

 

Nascido num lar humilde, era comum usar latas de goiabada e marmelada como prato. Aos 9 anos de idade, em suas andanças com o pai, ele presenciou um senhor fazendo rabeca, e isso o deixou maravilhado, pois viu que uma pessoa podia fabricar instrumentos musicais. Então ele teve um insight e só enxergava as latas de goiabada como matéria prima para a ideia.

 

“Eu vi naquele material uma alternativa para fazer o meu brinquedo. Naquela época, criança pobre brincava com pedaços de pau, tijolos, manga verde, ossos, barro, latas e tudo o que tivesse no quintal”, explicou Calixta.  

 

Ele não pensou duas vezes. Pediu ao pai uma lata dessas e fez um instrumento de cordas, usando arame, madeira e pregos. Foi o seu “violão”. O fascínio pelo brinquedo foi tão grande que tornou-se extensão do seu corpo. O pequeno Calixta divertiu-se durante parte da infância com essa invenção. Inclusive brincava com amigos da mesma idade, vizinhos do sítio. Quando quebrava, fazia outro.

 

“À noite, no terreiro, era uma orquestra, eu e os amigos nos violões de latas, gente fazia uma zuada danada”, comentou ele.

 

Pois bem, como o tempo só anda para frente, o tempo andou, andou, andou muito... Quase 70 anos depois – no tempo sombrio da Pandemia – anos 20 do século atual, eis que ele se encontra com um rapazinho chamado Mateus, que era músico e tinha um instrumento musical chamado “culelê”. Naquele instante, veio à memória do sr. Calixta a experiência com os instrumentos de lata de goiabada. Nas palavras dele:

 

“As lembranças do sítio vieram na minha cabeça, foi inesperado, então eu peguei o instrumento, olhei bem olhado, peguei um papel, coloquei o culelê sobre ele e risquei o molde. Chegando em casa, guardei. E aquilo ficou na minha cabeça. Eu só pensava que madeira iria usar. E fiquei matutando aquilo...”

 

A sorte estava do lado do sr. Calixta. Havia uns pés de manga derrubados num terreno do seu bairro meses antes e permaneciam ali. Então ele pediu ao dono alguns galhos bem grossos e levou para casa para analisa-los. Dias depois, cortou um pedaço com 65 centímetros e foi dando forma ao culelê. Comprou os “acordeamentos”, as tarraxas numa casa especializada e fez a peça, usando uma bitola. Assim nasceu um culelê de 52 centímetros, cujo som é agradável. Agora não era mais o brinquedo de lata de goiabada, nem feito por uma criança, exceto a criança que ele diz habitar dentro dele. Ficou bonito, e o som, perfeito.

Um dos Culelês feitos pelo sr. Calixta.

Quem lê essa história, imagina que o sr. Calixta hoje se tornou um músico, lê partituras e tudo mais. Ledo engano! Por mais incrível que pareça, o sr. Calixta não toca instrumento algum, ele apenas faz improvisos para cordel, pois gosta de declamar. É mais um dos seus dons. E nessa história ele já fez quatro culelês. Um doou ao professor da Igreja Evangélica Batista (PIBP), onde congrega, e o outro deu para um neto.

 

Ele conserva as peças com uma bela aparência, pois encera com cera de carnaúba. Diz que hidrata a madeira, não afeta o som e afasta traças. Segundo o sr. Calixta todo cupim nasce dentro da madeira. “Ele está dormindo ali quando a gente arranca qualquer árvore adulta, e um dia acorda”. Sr. Calixta pretende fazer outros culelês com madeiras diferentes, assim perceberá as possíveis diferenças de sons.

 

No presente momento o sr. Calixta está fazendo dois culelês com madeira de uma mangueira com mais de 30 anos encontrara ali mesmo no bairro. Não que ele prefira a mangueira, usa porque é mais fácil encontrá-la. Já ouviu dizer que a madeira do “Nin” (uma espécie bastante comum na região), tem excelentes resultados no fabrico de tal instrumento. Ele vai fazer um baixo para o neto.

 

Sr. Calixta é estudante de música. Faz aulas de coral há 3 anos e já se apresentou em alguns lugares. Ultimamente ele vem gravando áudios com as suas lembranças, além de algumas prosas poéticas, pois quer transportá-las para o papel.

 

Costumo dizer que o sr. Calixta é aquela pessoa cuja forma em que foi feito se quebrou e a jogaram ao mar. Como disse, ele tem outros talentos. É dotado de ampla sabedoria, e ela se reveste de uma notoriedade maior porque é vestida de simplicidade.

 

O sr. Calixta é um exemplo vivo de que o homem é dotado de muitos dons, e que eles podem aflorar a qualquer momento, inclusive ele é um inventor de engenhocas mecânicas para facilitar a sua vida. E todas dão certo em seu ateliê/oficina.

 

Impressiono-me com o seu conhecimento sobre a vida. Há nele um filosofar constante, e esse filosofar é uma aula, pois ele arranca da natureza os mais fundamentados exemplos para compará-los à vida humana, aos fatos, às relações sociais etc. Desse modo viajamos em suas narrativas. Inclusive é um livro aberto sobre a História de Parnamirim com um detalhe: ele viveu a história. É mais velho que o próprio município onde mora. Nós que salvaguardamos a História do Rio Grande do Norte, devemos muito à História Oral, pois ouvir um homem como o sr. Calixta é conhecer fatos que, se não fosse através dele - e de outros pioneiros -, estariam esquecidos e correriam o risco de serem sepultados para sempre.

 

Um dado curioso: nunca ouvi da sua boca uma palavra torpe nem um maldizer de alguém, nem insinuações, nem deboches. Nada que denote sujeira humana. Observo sutis formas de expressar a sua religiosidade, sempre dentro de um contexto, sem menosprezar a possível crença de alguém, ou a sua ausência, ou defender a sua fé como a correta, a ideal, a superior. É um homem respeitoso, de excelentes modos no vestir, se comportar socialmente, no falar, enfim, é um homem raro.

 

Na vida, conheço muitas pessoas que recebem homenagens, títulos, condecorações e moções de louvor que nem merecem tanto, ou realmente não merecem. E quando vejo um homem como esse, detentor dessa grandiosidade - passando pela vida despercebido -, assusto-me, preocupo-me, embora sei que muitos desses homens preferem realmente esse anonimato. Eles compõem melhor, quando são invisíveis... não sei...

 

Sr. Calixta é um exemplo vivo de que todos nós temos vários dons e que uma hora ou outra eles despertam, somando-se aos outros dons.

 



sexta-feira, 23 de agosto de 2024

AGOSTO É O MÊS DE COLOCARMOS O FOLCLORE NA MESA...

 


O mês do Folclore é, agosto, acima de tudo, um convite à reflexão sobre a preservação e promoção das tradições populares. É frequente ouvirmos expressões como: "no meu tempo, havia isso e aquilo" ou "hoje em dia, não existe mais isso", seguidas de críticas ao que se vê atualmente. Diante dessa insatisfação, o que fazemos para manter viva a essência do nosso folclore? Quando foi a última vez que participamos, organizamos ou mesmo ouvimos falar de um evento de natureza folclórica?


Há muita alienação e equívoco. As redes sociais têm o seu lado bom e mal, mas influenciam muito na diluição da cultura popular. Essa corrente contrária é grande, mas nada de recuar. Precisamos enfrentá-la serena e continuamente, trabalhando as mentes, levando as pessoas ao pensar, construindo raciocínios de maneira que a sociedade perceba o quanto é valioso o Folclore Brasileiro a partir do bairro onde moramos.  Quando falamos de Folclore, também trazemos muita coisa do passado. Não significa que o Folclore deve ser engessado, pois está vivo, é dinâmico, mas sua essência nunca muda.


Quem atua no campo da Educação, da Arte e da Cultura, em especial, tem uma responsabilidade maior em relação a preservar o folclore. Devemos estar na vanguarda desse movimento, educando e influenciando as massas de diferentes formas. Se constatamos que há uma deficiência, que há muitos equívocos e que estão dilapidando a cultura popular brasileira, devemos utilizar os instrumentos à nossa disposição, como a palavra escrita, a fala, a ideia, a sugestão, a organização de festas, palestras, cursos, ou o apoio a iniciativas culturais. É através dessas ações concretas que podemos inverter o fato.


Professores podem sugerir aos diretores; cidadãos podem propor ideias aos vereadores; funcionários públicos podem levar sugestões aos gestores culturais, sejam eles parte de secretarias, fundações, museus, galerias ou organizações não governamentais. A revitalização, perpetuação e resgate da cultura popular devem ser incentivadas nas escolas, nas comunidades, nos quilombos, aldeias, bairros e praças. Não se trata de fossilizar o passado, mas sim de preservar sua essência. A identidade cultural de um povo é fundamental para a manutenção de sua brasilidade. Quando expressões folclóricas desaparecem, perdemos parte da nossa essência, e com isso, abre-se espaço para a alienação e a futilidade.


Como brasileiro e defensor das tradições populares, acredito que o fomento à cultura popular deve ser uma prioridade. O descuido com o folclore em determinados estado brasileiros tem levado à diluição da própria identidade potiguar em alguns aspectos, o que é profundamente preocupante. As manifestações folclóricas não devem ser vistas como meras curiosidades exóticas, restritas a um local ou período específico, mas como parte integrante do nosso cotidiano. É uma coisa viva.


Imagine uma lei orientando que todas as instituições civis, militares, públicas ou privadas fizessem abertura de seus eventos (seminários, conferências, simpósios, festivais, campeonatos, encontros) com uma apresentação folclórica. Leve isso para a Câmara Municipal do seu município. E se essa lei for acompanhada de outra que obrigasse os órgãos públicos a apoiar e revitalizar todas as manifestações folclóricas de seus municípios? Com certeza, todas as cidades teriam algo lindo para mostrar. LEVE ISSO PARA AS AUTORIDADES DO SEU MUNICÍPIO, INCLUSIVE JÁ DEIXO AQUI A MINHA SUGESTÃO À CÂMARA MUNICIPAL DE CADA CIDADE DO BRASIL.


É uma grande injustiça que os governantes, enquanto instrumento de viabilização, se omitam ou neguem às nossas crianças o direito de conhecerem sua própria cultura. Infelizmente, isso está acontecendo. Culturas regionais estão sendo substituídas por culturas de fora, muitas vezes com o aval dos próprios governantes, seja por ignorância ou por influência da alienação promovida pelas redes sociais. O Estado, nas esferas municipal, estadual e federal, tem o dever de salvaguardar, manter e fomentar a cultura popular. Essa é sua identidade e responsabilidade. A omissão do Estado explica o atual quadro crítico.


Há crianças que não conhecem figuras emblemáticas como Câmara Cascudo, dona Militana, Chico Daniel, dentre tantos. Nunca ouviram falar em lendas como Carro caído, do poço feio, o sino de Extremoz, dentre tantas. Não sabem distinguir estilos musicais como forró, xaxado, baião, xote etc. Não tem o gosto de ver a mãe preparar uma buchada, um xerém, um munguzá, uma perna, um camarão no coco, etc. Nunca ouviram falar em danças folclóricas como o Boi-de-Reis, o Pastoril, o Espontão e o próprio jeito típico de dançar um xote, um miudinho, um baião, um xaxado, enfim, deconhecem tanto da própria cultura. E isso é lastimável porque acontece quando os responsáveis se descuidam.


É importante lembrar que o folclore vai muito além dos artistas e festividades. Ele está presente na linguagem, na gastronomia, nos modos de confeccionar artesanatos, nos costumes familiares, nas crenças e nos cantares. A riqueza do folclore é vastíssima e impossível de ser resumida em uma única folha. O que nos cabe é construir raciocínios de preservação e enaltecimento.


Para encerrar, vale a pena citar o renomado folclorista Luís da Câmara Cascudo, que afirmou: "O folclore é a continuidade da cultura através do povo, transmitida de geração em geração, com suas inovações e resistências". Assim, o Folclore seguirá existindo, mas cabe a nós, enquanto sociedade, garantir sua preservação e valorização. Agosto é o mês em que as instituições educacionais, culturais, as Câmaras Municipais, devem intensificar discussões sobre o Folclore Brasileiro, promovendo uma pluralidade de eventos, mas tendo consciência de que o Folclore não pode ser demarcado nem periódico. Folclore é ontem, hoje e amanhã. Sempre!

20 de agosto de 2021. L.C.F.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

PIONEIRISMO: QUAL A RELAÇÃO DE ARTHUR MOREIRA LIMA, ORIANO DE ALMEIDA E LUIZ GONZAGA?

 


PIONEIRISMO: QUAL A RELAÇÃO DE ARTHUR MOREIRA LIMA, ORIANO DE ALMEIDA E LUIZ GONZAGA? (QUANDO VOCÊ VINHA COM OS CAJUS EU JÁ ESTAVA VOLTANDO DAS CASTANHAS)...

O Rio Grande do Norte tem passagens históricas que marcaram época. Algumas são tão visionárias que, quando contadas, alguns não acreditam, pois o tempo sufocou-as na poeira da falta de divulgação. Elas permanecem desconhecidas por muitos, restando aos trabalhadores da História direcionar os holofotes sobre as mesmas para que os verdadeiros pioneiros sejam enxergados, reconhecidos e respeitados, dando a César o que é de César.

Ser pioneiro não faz ninguém melhor que ninguém, mas quem faz primeiro dividiu águas, marcou época, enfrentou maiores dificuldades, portanto é importante lembrarmos sempre dos que vieram na frente cortando capim a facão. E quando vermos as “novidades” do presente, cabe dizer “lá atrás, alguém fez isso”.

Em 2007, a rede Globo, através do Jornal Nacional, Programa do Faustão, até o Globo Repórter e outras emissoras não falavam outro assunto que não fosse sobre o projeto “Um piano na estrada”, assinado pelo renomado pianista Arthur Moreira Lima (1940), um músico muito excepcional e que até hoje faz a diferença, inclusive segue tocando piano apesar de ter desenvolvido um problema nas mãos (ironicamente). Arthur é um dos maiores especialistas da obra do compositor polonês Frédéric Chopin e passou cinco anos rodando o Brasil.


Quando começou o projeto ele beirava os 70 anos de idade anos, mas isso não o impedia de usar a maior parte do seu tempo viajando pelas deploráveis estradas do interior do país com seu comboio que incluía dois enormes caminhões, um deles servindo como palco. O maestro desafiava os buracos das estradas, levando um piano com cauda de mais de 2 metros, um instrumento perfeito e com tamanho adequado para os salões de concerto de menor porte. E outro caminhão levava outro piano de reserva.

Ele chegava na cidade e, igual a um circo, anunciava a sua arte que também era divulgada nas emissoras de rádio e televisão, resultando num sucesso de plateia. Quem não queria se banhar naquela fonte de arte?

Pois bem, o projeto de Arthur fez o maior sucesso, mas o que me intriga é que nunca vi alguém que tenha divulgado esse projeto fazer a menor referência ao norte-Rio-Grandense Oriano de Almeida (1921 - 2004), renomado músico que fez exatamente o mesmo 60 anos antes. Quando Artur começou, aos 67 anos de idade, Oriano de Almeida já havia começado aos 30 anos de idade.

Na verdade, Oriano nasceu em Belém (PA), mas chegou a Natal com 9 anos de idade e aqui deslanchou no universo da música clássica como exímio pianista. Como músico formado, ele se apresentou nos mais louvados ambientes europeus onde reinava a música clássica.

ORIANO DE ALMEIDA SE APRESENTANDO EM CAICÓ

Ele formou-se em piano com 12 anos no Instituto de Música do Rio Grande do Norte e em 1936 deu seu primeiro recital público, em Recife. Aperfeiçoou-se no Rio de Janeiro, onde foi muito elogiado. Em sua carreira se apresentou em quase todos os estados brasileiros e nos Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Polônia, Uruguai, Paraguai e Argentina. Na Inglaterra apresentou-se a convite do governo britânico, além de ter sido professor em diversas universidades federais do Brasil, inclusive era membro da Academia Norte-Riograndense de Letra e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Como compositor deixou canções, música de salão e uma coleção de peças para piano de inspiração folclórica. Nesse aspecto ele nos lembra Brasílio Etiberê. Oriano é referência para quem estuda música clássica, principalmente no Rio Grande do Norte, inclusive há um pequeno memorial em sua homenagem no anexo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, em Natal, ao lado da Praça João Maria. Na década de 40 foi considerado um dos maiores intérpretes da obra de Chopin do mundo.

MEMORIAL EM HOMENAGEM A ORIANO DE ALMEIDA - ANEXO DO IHGRN.

Oriano escreveu Paris... Nos Tempos de Debussy. Mais do que uma biografia de Debussy, essa obra deveria ser referência para todos pela alta qualidade e multiplicidade de assuntos. Na verdade, a biografia de Oriano de Almeida dá uma Bíblia. Ele ganhou muitos prêmios, honrarias, gravou muitos Lp’s. É muito reconhecido, inclusive o auditório da Escola de Música da UFRN tem o seu nome.

Mas o que eu quero chamar a atenção do leitor é sobre um projeto de Oriano de Almeida que, inclusive – por incrível que pareça –, não consta em sua biografia na Wikipédia. Também não vi em outros matérias sobre ele, mas que é fato e existem registros fotográficos, como podem ser vistos nessa postagem.

Na década de 40, Oriano de Almeida percorreu alguns municípios do Rio Grande do Norte levando um piano e se apresentando para diversos públicos. Vejam se isso não era visionário! Ele fez diferente!


Sabemos que Heitor Vila Lobos, Mário de Andrade e outros monstros da intelectualidade brasileira percorreram muitas partes do Brasil recolhendo músicas populares e folcloridades, mas o faziam como pesquisadores, estudiosos, cumprindo a função de recolher material. Diferente de tudo, Oriano de Almeida percorreu lugares levando a música clássica – apresentando-se com um piano sobre a carroceria de um caminhão –, num tempo que não existiam estradas e o povo mal sabia o que era a própria música popular. Imagine a música erudita. Ele é o grande pioneiro, inclusive, se soubesse disso, provavelmente Arthur Moreira Lima teria colocado o seu nome nesse projeto.

E ainda dando a César o que é de César, na década de 50 o famoso músico pernambucano Luiz Gonzaga (1912 - 1989) viajou pelo interior do Brasil com um caminhão que, sem adaptação nenhuma, era usado como palco, encantando a plateia de maneira diferente, pois o popular é mais comum, e Luiz Gonzaga era um showman. O povão ficava louco.

LUIZ GONZAGA EM TOUR PELO BRASIL

Obviamente que o projeto de Arthur Moreira Lima era maior em proposta e atingia maior público, percorreu diversos estados e eventualmente se associava às programações já prontas de diversos eventos culturais de determinados locais, como o aniversário de Brasília, por exemplo. Mas não era melhor. Era apenas diferente. Os três tinham notáveis qualidades.

Com este texto, provoco o leitor a ligar sempre o “modo dúvida” quando ver algo novo – ou “novo” –, pois muitas vezes podemos estar sendo injustos ao omitirmos quem construiu o asfalto para que outros passassem. Ou melhor, quem, percorreu a estrada de terra e teve a ideia de fazer o asfalto. Isso não acontece apenas na História do Rio Grande do Norte, mas em outros estados também. A História deve ser sempre reparada. (L.C. Freire).




quarta-feira, 17 de julho de 2024

. O CASARÃO DE AMÉLIA DUARTE MACHADO ESQUECIDO NA FAZENDA PITIMBU



Parnamirim esconde em suas terras um tesouro que, hoje, parece invisível diante da mata que o envolve na divisa de Parnamirim com Natal, na fazenda Pitimbu: o casarão de Amélia Duarte Machado e Manoel Machado, memória viva de uma visão que moldou a história desses dois municípios. O local é envolto pela mata verdejante que margeia o rio Pitimbu, rio que dá de beber à Natal.



Conheci esse "museu vivo" em 2008 e o que encontrei foi mais que paredes; dei-me com um testemunho da coragem de quem doou as terras que deram origem ao Campo de Pouso de Aviões na década de 1920 e, mais tarde, ao próprio município de Parnamirim, pessoas a serem lembradas eternamente, MAS PERMANECEM SEM O DEVIDO RECONHECIMENTO.


O casarão está intacto - estive nele novamente em julho de 2024, e segue envolto pela natureza exuberante, mas invisível aos olhos de muitos que não enxergam o valor que ali pulsa.

Foi uma emoção rara, quase arqueológica, deparar-me com aquele espaço. Senti-me como um velho arqueólogo diante da câmara de uma pirâmide, diante de vestígios que falam por si: alguns móveis de época ainda guardados, um ambiente que exala história, como se viajássemos no tempo por meio de uma máquina antiga.


As paredes grossas, caiadas de branco, os belos ladrilhos hidráulicos de diversas geometrias, o piso de taco sob pés que parecem ter caminhado por gerações. A casa é altíssima, com janelas em madeira de lei que nos convidam a ficar, a observar a natureza que a cerca: uma tamarineira centenária cujo tronco, contorcido e venerável, parece uma oliveira que conta mil histórias.


Ao redor, há um conjunto vivo de árvores frutíferas; ainda sobram ruínas do armazém onde se fazia rapadura, o estábulo, a cocheira — vestígios de um tempo em que o cotidiano se cruzava com a grande história da região.



Este casarão não é apenas uma edificação, é um arquivo vivo. Cada móvel — escrivaninha, mesa, cama — me mostra que ali passaram pessoas, gestos e decisões que transformaram a geografia afetiva de Natal e Parnamirim.



A clássica fotografia de Amélia Machado que costumamos encontrar na internet, sentada ao lado escrivaninha, parece trazê-la de volta, pois o casarão ainda guarda essa escrivaninha velha, coberta de poeira e esquecimento. O espaço é uma máquina do tempo que nos permite observar o passado com os olhos de admiração e encantamento.



A relevância da família Machado é imensa. Doaram as terras que permitiram o pouso da aviação que se desenhava àquela época, idos de 20. A Base Aérea que sustentou o nascimento de um município.


Reconhecer esse ato com a criação de um espaço de memória nesse casarão é uma reparação histórica: honra a família, reconhece a cidade que nasceu de sua generosidade e oferece à população um lugar para aprender, refletir e celebrar a identidade regional. Um museu ou memorial ali seria não apenas uma preservação arquitetônica, mas um ato de justiça histórica e cultural.



A minha preocupação é, portanto, a de restaurar esse casarão com uma finalidade autêntica: museu, memorial, espaço de memória pública. Restaurar não é congelar o tempo, é devolver à sociedade a possibilidade de aprender com ele, de se reconhecer nele. O casarão deve deixar de ser invisível para tornar-se um polo de memória, educação e turismo cultural, conectando Natal e Parnamirim, fortalecendo a identidade e o orgulho de uma história compartilhada.



Confesso que sigo preocupado. Que este espaço seja entendido como patrimônio coletivo, e não apenas como ruína que merece conservação por obrigação estética. Que a casa de Amélia e Manoel Machado se transforme em um legado vivo: um museu municipal de Parnamirim, um memorial aos pioneiros que doaram terra e visão, um ponto de encontro entre passado e futuro. Ao reconhecermos a importância da família Machado, damos à cidade uma chance de reparar, celebrar e continuar a história que eles iniciaram.



Convido autoridades, instituições e a comunidade a considerar este casarão não como um monumento esquecido, mas como um tesouro que pulsa, esperando por uma restauração sensível que lhe devolva função, memória e dignidade. Que possamos, com urgência, transformar esse espaço em um verdadeiro memorial da história de Parnamirim e de sua relação inseparável com Natal, honrando a memória da família Machado e a generosidade que moldou o nosso município.