ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

ELEIÇÃO DO SINTERN - DIA 9 DE JUNHO - EDUCAÇÃO, MEMÓRIA E IGUALDADE RACIAL: OS DESAFIOS APONTADOS POR JOSIVALDO NASCIMENTO


Nota: Dando continuidade à entrevista sobre educação, sindicalismo, memória histórica e justiça social, com vistas a eleição do SINTERN, no próximo dia 9 de junho, o blog propõe uma nova conversa com o professor JOSIVALDO NASCIMENTO, pré-candidato à Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN pela CHAPA 1. Desta vez ele aborda especialmente os desafios da Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN. Mais do que uma pauta sindical, o diálogo busca refletir sobre a formação histórica do Rio Grande do Norte, os processos de resistência da população negra, a presença indígena na construção cultural potiguar, a realidade dos povos ciganos e a importância da educação como instrumento de consciência social. Entre passado e presente, a entrevista percorre memórias ligadas ao antigo município de Papary - hoje Nísia Floresta -, às lutas abolicionistas do estado e ao legado humanista de Nísia Floresta Brasileira Augusta.

 

Entrevista

 

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

 

Professor Josivaldo, o senhor é pré-candidato à Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN. O que representa assumir uma missão dessa natureza no atual contexto brasileiro?

 

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

 

Representa uma enorme responsabilidade histórica e humana. O debate sobre igualdade racial não pode ser tratado apenas como uma pauta passageira ou burocrática. Estamos falando de séculos de escravidão, exclusão social, apagamento cultural e desigualdades que ainda permanecem presentes na sociedade brasileira. O próprio Ministério da Igualdade Racial possui exatamente essa missão: formular, coordenar e executar políticas públicas voltadas ao combate ao racismo, à promoção da igualdade racial e à defesa dos direitos da população negra, quilombola, cigana e de outros grupos historicamente discriminados no Brasil. Isso demonstra que o Estado brasileiro reconhece oficialmente a existência de desigualdades estruturais que precisam ser enfrentadas. Quando pensamos no Rio Grande do Norte, esse debate ganha ainda mais profundidade. Nosso estado possui marcas históricas ligadas tanto à presença indígena quanto à resistência negra, além da presença cultural dos povos ciganos, que durante muito tempo sofreram preconceitos silenciosos e invisibilidade social. Muitas vezes as pessoas caminham por lugares sem perceber que os próprios nomes carregam memórias ancestrais. Veja quantos vocábulos indígenas fazem parte do nosso cotidiano: Tororomba, Tabatinga, Arituba, Timbó, Papary, Mipibu, Apodi, Canguaretama e uma infinidade de outros. São palavras que atravessaram séculos e permanecem vivas na geografia e na memória cultural do Rio Grande do Norte. Isso mostra que nossa identidade potiguar foi construída a partir da contribuição de diversos povos e culturas. Portanto, atuar numa Diretoria de Igualdade Racial exige não apenas posicionamento político, mas também conhecimento histórico e sensibilidade humana.

 

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

 

O senhor citou Papary, antigo nome de Nísia Floresta. Existe um simbolismo histórico muito forte nisso?

 

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

 

Sem dúvida. O próprio nome Papary possui origem indígena e nos remete às raízes mais profundas da formação histórica da região. Quando a cidade passou a se chamar Nísia Floresta, em homenagem à escritora e intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, houve uma fusão simbólica muito interessante entre a memória indígena do território e o legado humanista de uma mulher extraordinária. Estamos falando de uma cidade cujo passado reúne heranças indígenas, presença africana, lutas sociais e memória intelectual. E quando observamos nomes como Timbó, Arituba, Tororomba, Tabatinga e tantos outros, percebemos que essas palavras indígenas sobreviveram ao tempo. Elas são testemunhas silenciosas da história potiguar. Muitas vezes, as pessoas passam diariamente por esses lugares sem imaginar que estão pronunciando palavras herdadas dos povos originários do Brasil.

 

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

 

O senhor afirmou na entrevista anterior que o Rio Grande do Norte possui um protagonismo histórico nas lutas abolicionistas. Poderia explicar isso?

 

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

 

Sim. O Rio Grande do Norte possui episódios históricos importantíssimos relacionados à abolição da escravidão. Mossoró aboliu oficialmente a escravidão em 1883, cinco anos antes da Lei Áurea. Isso demonstra o pioneirismo político e social daquela cidade. Canguaretama também possui relevância histórica nesse processo, tanto pela presença negra quanto pelas movimentações sociais e culturais ligadas à resistência da população afrodescendente. Existe ainda um detalhe pouco conhecido, passado em Nísia Floresta, inclusive soube dessa informação através de postagens antigas escritas em seu blog: houve nesse município movimentações e debates abolicionistas extremamente relevantes, inclusive um levante. E precisamos compreender que a história da abolição no Brasil não aconteceu apenas nos grandes centros políticos. Houve resistência em várias regiões do Nordeste, inclusive no Rio Grande do Norte e Papary (hoje Nísia Floresta) teve protagonismo.

 

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

 

Dentro desse debate sobre igualdade racial, muitas vezes a sociedade esquece os povos ciganos. Como o senhor observa essa questão no Rio Grande do Norte?

 

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

 

Essa é uma questão muito importante e ainda pouco debatida. Os povos ciganos fazem parte da formação histórica e cultural do Brasil e também do Rio Grande do Norte. Entretanto, durante muito tempo sofreram preconceitos, estigmas e exclusões sociais profundamente injustas. Infelizmente, uma parcela da sociedade ainda olha os ciganos através de caricaturas e estereótipos negativos, sem conhecer verdadeiramente sua riqueza cultural, seus valores familiares, sua musicalidade, suas tradições e sua contribuição histórica para o país. No Rio Grande do Norte existem principalmente grupos ciganos Calon, além de famílias de origem Rom e Sinti em menor número. Muitos desses grupos construíram trajetórias importantes em cidades do interior potiguar, especialmente nas regiões do Seridó, Oeste e Agreste. Mas existe uma questão extremamente séria que precisa ser debatida com mais responsabilidade: parte dos ciganos que vivem no Rio Grande do Norte não é alfabetizada. E essa limitação acaba dificultando enormemente o acesso às políticas públicas do Governo Federal. Muitas vezes, para acessar benefícios, programas sociais, atendimentos institucionais ou mesmo documentação básica, essas famílias encontram barreiras burocráticas enormes justamente por não dominarem a leitura e a escrita. Isso gera exclusão social e aprofundamento das desigualdades. E eu falo sobre isso porque já participei de eventos e ouvi relatos de próprios ciganos expondo essas dificuldades. Muitos relataram sentir-se excluídos, invisibilizados e desamparados diante de sistemas que exigem formulários, cadastros digitais, leitura de documentos e procedimentos burocráticos que eles não conseguem compreender plenamente. Esse é um ponto muito sério de inclusão social. Por isso considero fundamental que existam setores preparados para acolher essas populações com respeito, paciência e assistência adequada. Não basta criar políticas públicas no papel. É necessário garantir que elas realmente cheguem às pessoas mais vulneráveis. A educação possui um papel central nisso tudo. Precisamos ampliar programas de alfabetização, inclusão social e acesso à cidadania para os povos ciganos, sempre respeitando sua cultura e suas particularidades. Quando uma sociedade despreza a cultura de um povo ou ignora suas dificuldades históricas, ela acaba produzindo ainda mais exclusão.

 

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

 

Qual o peso simbólico de exercer uma função ligada à igualdade racial tendo nascido num município que leva o nome de Nísia Floresta Brasileira Augusta e, agora, como você expos, traz uma vanguarda no aspecto de o próprio escravizado ter lutado contra a escravidão?

 

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

 

É uma responsabilidade imensa. Nísia Floresta Brasileira Augusta foi uma mulher muito à frente do seu tempo. Diversos estudiosos - dentre eles, você, como autor deste blog voltado para Nísia Floresta - a considera a primeira voz abolicionista do Brasil. Aquela que defendeu princípios ligados à liberdade humana, à dignidade social e à educação emancipadora. Ela viveu num século profundamente conservador, marcado pela escravidão e pela exclusão das mulheres da vida intelectual. Ainda assim, teve coragem de escrever, de questionar estruturas sociais e de defender ideias avançadas para sua época. Por isso, quando alguém assume uma Diretoria de Igualdade Racial em uma cidade que carrega o nome de Nísia Floresta, automaticamente assume também um compromisso moral com esse legado histórico. Não é apenas uma função administrativa. É uma missão ligada à consciência histórica e à defesa da dignidade humana. E a insurreição de escravizados, aqui ocorrida, coroa tudo isso, trazendo um simbolismo ímpar ao município.

 

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

 

Existe um aspecto histórico muito forte envolvendo a antiga Igreja Matriz de Nísia Floresta e os escravizados. O senhor poderia comentar?

 

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

 

Esse é um dos episódios que mais revelam como o racismo esteve presente nas estruturas sociais brasileiras. Mas é importante destacar que o exemplo de Nísia era comum em todo o Brasil. Durante muito tempo, em várias igrejas do país, havia separação racial dentro dos próprios espaços religiosos. Na Igreja Matriz de Nossa senhora do Ó, os escravizados possuíam uma nave reservada exclusivamente para eles, enquanto os brancos abastados tinham “cadeiras cativas”, em lugares de destaque. Os escravizados não podiam ocupar os espaços destinados às famílias brancas tradicionais. Isso mostra como a desigualdade racial era naturalizada naquele período histórico. Até mesmo dentro de um ambiente religioso existia segregação. Em compensação Segundo pesquisas mencionadas em estudos históricos sobre a região de Papary - atual Nísia Floresta - há padres que aparecem associados a posicionamentos abolicionistas e à defesa dos escravizados na região, dentre eles, um sacerdote de enorme relevância foi Padre João Maria Cavalcanti de Brito, que presidiu a Sociedade Libertadora Norte-Riograndense em 1888 e se tornou uma das vozes mais expressivas da causa antiescravista no Estado. À ocasião da insurreição levantada pelos escravizados, ele execrcia o seu sacerdócio em Nísia Floresta. Isso é orgulho para nós, nisiaflorestenses. Em Natal temos a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, na Cidade Alta, construída pelos escravizados exatamente para que eles se sentissem livres em sua própria igreja. Isso é terrível. Quando estudamos esses fatos, percebemos que combater o racismo exige também preservar a memória histórica. Não podemos fingir que essas coisas não aconteceram. A educação possui papel fundamental nesse processo de conscientização.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

 

Qual deve ser, na sua visão, o papel de uma Diretoria de Igualdade Racial dentro de um sindicato da educação?

 

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

 

Deve ser um papel permanente de formação humana e consciência social. O sindicato não pode se limitar apenas às pautas salariais. Ele também precisa discutir cidadania, democracia, direitos humanos e igualdade. A escola é um espaço de construção de consciência crítica. O professor trabalha diretamente com crianças, jovens e adultos. Portanto, discutir racismo, preconceito, cultura afro-brasileira, cultura indígena, memória histórica e respeito aos povos ciganos faz parte da própria missão educacional. A Diretoria de Igualdade Racial precisa incentivar debates, seminários, formações e valorização da diversidade cultural brasileira dentro das escolas. Porque igualdade racial não significa divisão. Significa justiça, respeito e dignidade humana.

 

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

 

Para encerrarmos, qual mensagem o senhor deixa aos educadores e à sociedade?

 

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

 

Deixo uma mensagem de consciência histórica e responsabilidade coletiva. Nenhuma sociedade consegue avançar verdadeiramente enquanto continuar convivendo com preconceitos, desigualdades e exclusões. Precisamos ensinar às novas gerações que nomes como Papary, Timbó, Arituba, Apodi, Mipibu, Canguaretama e tantos outros não são apenas palavras geográficas. São fragmentos vivos da nossa história. Precisamos ensinar também que houve sofrimento, resistência e luta por liberdade em nosso estado. Que os escravizados existiram, resistiram e ajudaram a construir o Rio Grande do Norte. E precisamos compreender que os povos indígenas, negros e ciganos também fazem parte da formação cultural brasileira e merecem respeito, reconhecimento e dignidade. E que todas essas pessoas estão vivas nos seus descendentes. E eu sou uma delas. Assumir uma função na Diretoria de Igualdade Racial significa justamente contribuir para essa construção de consciência, memória e humanidade. E membrem: CHAPA 1. Muito obrigado!

 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

domingo, 17 de maio de 2026

PADRE BRÍGIDO: O INTELECTUAL DE PAPARY QUE LEVOU O NOME DO RIO GRANDE DO NORTE ÀS TRIBUNAS DO IMPÉRIO...


No século XIX, quando o Brasil ainda vivia sob o regime imperial e o Rio Grande do Norte possuía uma vida política marcada por disputas acirradas entre liberais e conservadores, a antiga vila de Papary - hoje N´sia Floresta - viu surgir uma das figuras mais intelectualmente brilhantes de sua história: o Padre Brígido de Melo Cavalcanti.

 Nascido em 20 de julho de 1829, em Papary, Padre Brígido pertenceu a uma geração rara de homens públicos que conseguiram reunir, numa mesma trajetória, a formação religiosa, o refinamento jurídico e a intensa participação política. Sacerdote, jurista, professor, orador e parlamentar, seu nome ultrapassou as fronteiras da então pequena província potiguar para alcançar destaque nacional dentro do Parlamento do Império.

 Como sabemos, muito antes de a cidade receber o nome de Nísia Floresta (Brasileira Augusta), Papary já revelava vocações intelectuais surpreendentes. Entre lagoas, engenhos, caminhos de areia e antigas tradições coloniais, formava-se um ambiente social que, apesar das limitações materiais do período, produziu figuras de grande projeção cultural e política. Padre Brígido foi uma dessas expressões máximas.

 Ainda jovem, mudou-se para Pernambuco para estudar na célebre Faculdade de Direito do Recife, uma das mais importantes instituições acadêmicas do Brasil oitocentista (onde também cursou Direito Joaquim Pinto Lisboa, irmão de Nísia Floresta). Fundada em 1827, a Faculdade de Direito tornou-se um dos principais centros formadores da elite intelectual e política do Império brasileiro. Dela saíram juristas, escritores, ministros, parlamentares, diplomatas e abolicionistas que ajudaram a construir os rumos políticos do país.

 Naquele ambiente de intensa efervescência intelectual, Padre Brígido destacou-se rapidamente. Conquistou o título de bacharel em Direito no ano de 1857 e, apenas dois anos depois, obteve o doutorado em 1859, algo extremamente raro para um norte-rio-grandense naquela época. Seu desempenho acadêmico abriu-lhe as portas do magistério superior, tornando-se o primeiro norte-rio-grandense a lecionar como professor na tradicional Faculdade de Direito do Recife, um feito que colocava o nome de Papary em posição de destaque dentro do cenário

intelectual brasileiro. Sua solida formação jurídica refletia-se diretamente na força de sua oratória. Nos debates políticos do Império, Padre Brígido tornou-se conhecido pela eloquência refinada, pelo domínio das leis e pela capacidade argumentativa. Não era apenas um sacerdote inserido na política partidária; era um intelectual preparado para disputar ideias e influenciar decisões.

 Ligado ao Partido Conservador, construiu uma longa trajetória parlamentar. Iniciou sua vida legislativa como deputado provincial entre 1858 e 1859 e, posteriormente, alcançou o cargo de Deputado Geral, função equivalente ao atual deputado federal, exercendo sucessivos mandatos ao longo de quase três décadas. Sua presença na Câmara do Império atravessou per´odos decisivo da história brasileira, incluindo debates sobre centralização pol´tica, reformas administrativas, educação pública e os próprios conflitos ideológicos entre conservadores e liberais.

 Na prática, Padre Brígido transformou-se numa das grandes vozes políticas do Rio Grande do Norte dentro do cenário imperial. Defendia os interesses da província com firmeza, levando às tribunas parlamentares as demandas de um estado frequentemente distante dos grandes centros de poder do país. Sua trajetória revela algo profundamente simbólico: ainda no século XIX, uma pequena vila do litoral potiguar foi capaz de produzir um intelectual que alcançou projeção nacional num dos ambientes mais seletos do Brasil imperial.

Hoje, pesquisadores e estudiosos da memória potiguar vêm contribuindo para resgatar sua importância histórica. Ao revisitar figuras como Padre Brígido, compreendemos melhor que a história de Nísia Floresta não se resume apenas às paisagens naturais ou à memória de sua patrona mais famosa. Trata-se de uma terra marcada pela presença de intelectuais, educadores, religiosos, políticos e pensadores que ajudaram a construir importantes capítulos da história do Rio Grande do Norte e do Brasil.

 Padre Brígido de Melo Cavalcanti permanece, assim, como símbolo de uma época em que a palavra, o conhecimento e a formação intelectual eram instrumentos centrais de poder e transformação social. Sua vida demonstra que o antigo Papary, muito antes de se tornar município turístico ou referência cultural contemporânea, já produzia homens capazes de dialogar com os grandes temas nacionais do Império brasileiro.

 REFERÊNCIAS:

 Faculdade de Direito do Recife - História Institucional

Pesquisas e levantamentos memorialísticos publicados por Luís Carlos Freire sobre a história de Papary/Nísia Floresta/Padres e personalidades potiguares do século XIX. OBS. Anotações iniciadas em 1997 e revisadas agora.


quinta-feira, 14 de maio de 2026

ENTREVISTA - Professor Josivaldo Nascimento fala sobre trajetória, sindicalismo, educação e candidatura à Diretoria de Igualdade Racial do SINTERN. Educador nisiaflorestense relembra sua origem, atuação no magistério, reorganização do movimento sindical em Nísia Floresta e os desafios da luta por igualdade racial e valorização da educação pública


Nota: Ao tomar conhecimento da pré-candidatura do professor Josivaldo Nascimento - amigo de longas datas, pessoa que conheço desde a infância e por quem nutro profunda admiração e respeito - propus esta conversa com o objetivo de apresentar um pouco de sua trajetória e divulgar sua candidatura junto aos educadores e demais leitores. Mais do que discutir propostas, este bate-papo busca permitir que as pessoas conheçam melhor o ser humano, o educador e o militante sindical que existe por trás da função pública e da atuação política. Embora este blog não possua caráter estritamente jornalístico, acaba também exercendo esse papel. Afinal, desde sua criação, como está exposto em seu cabeçalho, trata-se de um espaço plural, aberto às múltiplas ideias, à memória, à cultura, à educação e aos debates de interesse coletivo.

Entrevista

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Para começarmos, conte-nos sobre sua origem, nascimento e família. 

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Sou Josivaldo Nascimento, nasci no dia 21 de setembro de 1978 e passei toda a minha infância, bem como a fase adulta, na comunidade do Porto. Sou filho de Maria da Paz Nascimento, dona de casa e costureira, e de José Amador do Nascimento Neto, agricultor, pescador e feirante. Tenho quatro irmãos, dentre eles uma irmã, e sou o segundo filho da família.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como foi sua infância em relação ao trabalho e à educação?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Desde muito cedo tive iniciativa para trabalhar e ajudar minha família, sem deixar os estudos de lado. Aos 9 anos de idade, passei a vender picolé nas ruas da cidade. Quando me tornei adolescente, comecei a estudar à noite na Escola Municipal Yayá Paiva para poder trabalhar durante o dia. Sempre fui muito dedicado aos estudos e nunca fui reprovado.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Quando começou sua trajetória no magistério?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Concluí o magistério em 1998. No entanto, ainda cursando o segundo ano, em 1997, fui convocado para assumir uma vaga como professor no Ensino Fundamental, devido ao concurso municipal que prestei em 1996. No dia 9 de março de 1997, deixei definitivamente a venda de picolés para me tornar professor da rede municipal, justamente na Escola Municipal Yayá Paiva, onde entrei aos 11 anos para cursar a antiga 5ª série.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Houve algum momento que despertou sua consciência sobre a luta da categoria?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Sim. Em 1992, ainda como aluno, presenciei a primeira greve do município de Nísia Floresta, promovida pelos professores celetistas, que protestavam por receberem salários muito abaixo do mínimo, além de reivindicarem concurso público e Plano de Carreira. Aquilo me despertou. Reivindiar direitos? Eu nunca tinha visto aquilo em Nísia Floresta. Foi um momento histórico. Fui às ruas junto com os professores. Coincidentemente, naquele momento estava sendo fundado o Núcleo de Nísia Floresta; hoje, ele é o SINTE-Nísia. Esse episódio foi uma semente que despertou em mim o desejo de conhecer as leis e lutar pelos direitos da minha classe.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como foi o apoio àquela greve?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

O movimento teve apoio dos Irmãos Maristas, que tinham uma casa de formação no município. Eles também lecionavam na Escola Municipal Yayá Paiva, e um dos destaques nesse protesto era o Irmão Nilton. Como a casa marista era ampla, eles cederam uma sala para organização do movimento, inclusive para a reunião que deliberou a greve e a fundação do Núcleo.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Quando surgiram os concursos públicos no município?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Até 1996, Nísia Floresta nunca havia realizado concurso público. Aquele foi o primeiro.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

E sua formação superior?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Em 1999, fiz vestibular para Matemática na Universidade Potiguar e concluí o curso em 2003. A partir disso, passei a atuar no Ensino Fundamental II, deixando o Fundamental I.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como começou sua atuação mais direta no sindicato?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Em 2006, com uma nova gestão municipal e o debate sobre a implantação do FUNDEB e do Piso Nacional Salarial do Magistério, percebemos a necessidade de fortalecer a representação docente. Já existia o Plano de Carreira, aprovado por volta de 1998, mas faltava o Piso Salarial. No dia 6 de abril de 2006, em assembleia no Centro Social Isabel Gondim, com presença de diretores do SINTERN, na pessoa do professor Miguel Salustiano de Lima, foi decidido que seria necessário criar uma diretoria provisória local. Assim, naquela assembleia, fui escolhido pela categoria e eleito coordenador-geral dessa comissão provisória, composta por 12 diretores.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Quem integrava essa comissão?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Posso citar nomes como a professora Adriana da Silva, a professora Gizelda Maria do Nascimento, o professor Ricardo Acioly da Silva, o professor Jário Correia do Nascimento, a professora Janilde Rodrigues da Silva, a professora Rosineide Marinho de Carvalho (in memoriam), além de Erineide do Nascimento, agente administrativa, entre outros.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Qual era o objetivo dessa diretoria provisória?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Reorganizar os professores, dialogar com a gestão municipal em relação às pautas da categoria, preparar um movimento grevista, se necessário, e reconstruir o sindicato original, que estava parado, sem direção, sem sede e com apenas quarenta sócios. Era necessário resgatar esse patrimônio histórico, que já possuía uma caminhada significativa. Inclusive, este ano completamos 33 anos de fundação, lutas e histórias.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como foi o processo de reorganização?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

De abril a outubro de 2006, percorri todas as escolas do município, muitas vezes pagando táxi com recursos próprios. Em algumas ocasiões, contei com ajuda pontual de professores. Fiz um trabalho pioneiro de conscientização, explicando o que é um sindicato e quais são seus direitos. Muitos professores eram resistentes. Conseguimos passar de 40 para mais de 100 sócios.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Quando surgiu a primeira sede?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Em dezembro de 2006, conseguimos abrir a primeira sede, alugada, na Travessa Padre José Hermínio, próxima à Escola Municipal Yayá Paiva. A casa era da professora Edna Trindade. Era pequena, com uma sala, banheiro, corredor, cozinha e um quarto, mas representou o início de um novo tempo.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como foi a estruturação dessa sede?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Com as contribuições, pagávamos aluguel e despesas básicas. Com apoio da direção estadual, adquirimos móveis e equipamentos como mesa, armário, computador, ventilador, geladeira e cadeiras. Fizemos uma inauguração simples em dezembro de 2006, com a presença dos professores das redes municipal e estadual e dos diretores do SINTERN, Miguel Salustiano e Fátima Cardoso, com corte simbólico de fita e registro fotográfico.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Qual foi o impacto desse momento?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Foi um divisor de águas. Professores passaram a se associar espontaneamente ao verem a atuação do sindicato. A entidade ganhou força, visibilidade e legitimidade, tanto no município quanto no estado.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como era sua rotina de trabalho nesse período?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Eu lecionava pela manhã e à tarde, utilizando o horário do almoço e a noite para o sindicato. Ficava até tarde elaborando documentos. Solicitei disponibilidade à Justiça, mas ela nunca foi concedida pelo município. Essa foi minha realidade entre 2007 e 2019.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Houve outras mobilizações importantes?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Em 2015, organizamos a segunda greve da categoria no município, que durou 31 dias. Reivindicávamos o reajuste do Piso Salarial e um novo concurso. A greve foi judicializada pelo gestor e reconhecida como regular pelo desembargador Cláudio Santos. Porém, conseguimos um Termo de Ajustamento de Conduta entre a prefeita Camila Ferreira e o Judiciário, garantindo o início do processo para realização do concurso naquele ano. Como a gestão não cumpriu o termo, em janeiro de 2016 entramos com uma ação judicial e, assim, o concurso foi realizado em junho daquele ano, mesmo sendo período eleitoral.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

O concurso foi realizado?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Inicialmente, não foi cumprido. No entanto, após decisão judicial favorável, o concurso ocorreu ainda em 2016, ano eleitoral. Com a mudança de gestão, o prefeito Daniel Marinho deu posse aos concursados.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Como estava o sindicato nesse período?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Já estávamos em uma sede maior, também alugada. Ela pertencia à professora Fátima Ribeiro de Moura, e o número de sócios foi crescendo, especialmente com a chegada dos novos professores.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Sobre o Núcleo local, houve mudanças recentes?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Sim. O Núcleo Nísia Floresta passou por mudanças na diretoria. A última eleição ocorreu em abril de 2023, com permanência até abril de 2027. Já a eleição da diretoria estadual acontecerá no dia 9 de junho, com posse em seguida.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Qual sua situação atual em relação à docência?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Hoje estou cedido ao SINTERN, à disposição do sindicato.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Uma pergunta diferente, mas extremamente necessária. Durante muitos anos acompanhei sua atuação como coordenador do núcleo do SINTE-RN em Nísia Floresta. Testemunhei suas lutas, os enfrentamentos em defesa da categoria e também a hostilidade de algumas pessoas em relação ao seu trabalho. Agora, como pré-candidato à Diretoria de Igualdade Racial do sindicato, sua atuação ganha uma dimensão ainda mais sensível e necessária. Algumas pessoas dizem que você é “briguento”. O que representa ser “briguento” quando a luta passa também pelo combate ao racismo, pela igualdade racial e pela defesa da dignidade humana?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Toda pessoa que decide lutar por direitos acaba enfrentando resistências. A própria governadora, professora Fátima Bezerra, construiu sua trajetória enfrentando obstáculos, preconceitos e disputas duríssimas dentro da política e da educação. Se hoje sua história é reconhecida, é porque ela não se curvou diante das dificuldades. E o que dizer de Nísia Floresta, mulher que dá nome ao município onde nasci e que tanto me orgulha? Uma intelectual à frente do seu tempo, considerada por muitos estudiosos como uma das pioneiras na defesa da educação feminina e da liberdade humana no Brasil. Ela também precisou “brigar” durante toda a sua vida contra estruturas conservadoras, preconceitos e injustiças sociais. Por isso, prefiro substituir a palavra “briguento” por outra definição: alguém comprometido com a luta coletiva e com a defesa da dignidade das pessoas. Sempre procurei estudar as leis, compreender a Constituição Federal, os direitos dos trabalhadores da educação e os princípios que regem uma sociedade democrática. Quando autoridades se omitem, quando direitos são negados ou quando o preconceito tenta silenciar vozes, não podemos permanecer indiferentes. Na Diretoria de Igualdade Racial, essa luta ganha um significado ainda maior. Combater o racismo, defender o respeito às diferenças e promover igualdade de oportunidades não é promover divisão, como alguns tentam fazer parecer. É defender humanidade, justiça social e consciência histórica. Se levantar a voz contra a discriminação, exigir respeito e lutar para que todos sejam tratados com dignidade é ser “briguento”, então considero essa uma luta justa, necessária e impossível de ser abandonada. Assim, continuarei “briguento”.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE:

Para finalizar, o que você tem a dizer aos professores em decorrência de sua candidatura?

PROFESSOR JOSIVALDO NASCIMENTO:

Peço a confiança de cada professor que acompanha minha trajetória de luta e seriedade. Não faço esse pedido apenas pelo tempo de atuação, mas pela experiência, pelo voluntariado, pelas renúncias que fiz e também por me sentir capacitado e disponível. Lutar pela classe docente, para mim, é uma missão. Minha missão é fortalecer a categoria e defender uma educação pública valorizada e de qualidade. Faço meu trabalho com compromisso e amor, e gostaria de continuar lutando.

Muito obrigado!

Abaixo: Fotografias do acervo pessoal do Professor Josivaldo do Nascimento. Estão dispostas de forma aleatória. Os registros falam por si, tendo em vista que sua história se confunde com a história do Sinte-Nísia... 

POSSE E ABERTURA DA SEDE DO NÚCLEO NÍSIA FLORESTA-SINTE


POSSE E ABERTURA DA SEDE DO NÚCLEO NÍSIA FLORESTA-SINTE


ATO NA PREFEITURA
RECEBENDO HOMENAGEM DECORRENTE DOS 30 ANOS DO SINTERN - GOVERNADORA FÁTIMA E DEPUTADO FRANCISCO - ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RN.

VISITA ÀS ESCOLAS ESTADUAIS COM A DIREÇÃO DO JURÍDICO - ELIENE BANDEIRA



COLETIVO DE COMBATE AO RACISMO - CNTE - RECIFE/PE


GREVE 2015 - ESSE ATO DETERMINOU O ÚLTIMO CONCURSO DE 2016

FESTA DE FIM DE ANO DO SINTERN NO PRIMEIRO ANO NA DIREÇÃO ESTADUAL


DIRETORES DO NÚCLEO DE NÍSIA FLORESTA NO PERÍODO DO CONCURSO - 2016



REUNIÃO NO MEC COM A SECRETARIA NACIONAL - SECAD.


COM O EX-PRESIDENTE DA CNTE NO MEX

COM APOSENTADOS E APOSENTADAS, NA PRESENÇA DA GOVERNADORA, PROFESSORA FÁTIMA BEZERRA - DIA DOS APOSENTADOS.



FESTA DE ANIVERSÁRIO DO NÚCLEO E DIA DOS FUNCIONÁRIOS E PROFESSORES DE NÍSIA FLORESTA (PRAIA).


ATO DE RUA EM NATAL COM OS PROFESSORES NISIAFLORESTENSES - DEFESA DO PISO SALARIAL.