No passado tudo aparecia mais. Nada estava escondido porque nada estava poluído. Nem o ar, nem as paisagens. Essa imagem traduz pureza, calmaria e simplicidade. Há um bucolismo que massageia as nossas entranhas, transmitindo-nos bem estar. A essência desse cenário é simplicidade e minimalismo. Há bondade na mesma proporção que há silêncio. Aquele silêncio de natureza: palco dos pássaros, do farfalhar dos coqueiros e ronco do mar. Há impressão do cheiro do orvalho, das flores. As pessoas estavam em seus fogões a lenha preparando o café, pilando o milho, lidando nas roças. Pessoas simples, sem pressa de nada, outras nadando no mar e na lagoa. Alto lá! Não estou pedindo que congelem o tempo, que engessem os comportamentos, que engessem o conhecimento... Estou lembrando que somos humanos e não precisamos tanta poluição visual e sonora para termos qualidade de vida, tampouco tanta pressa e cobiça. Bom é evoluir com inteligência e qualidade de vida, sem adoecer as paisagens urbanas e humanas. Adoecer as paisagens é adoecer-nos. Precisamos ter esses lugares para exercermos o nosso viver, mas, primeiro, esses lugares devem existir dentro de nós.
ANTES DE LER É BOM SABER...
terça-feira, 5 de março de 2024
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024
Alzira Soriano, a primeira eleitora do Brasil votou há 96 anos - Rio Grande do Norte, berço de acontecimentos pioneiros...
O fato ocorreu no dia 5 de
abril de 1928 em Mossoró, Rio Grande do Norte. Nessa data, votou a professora
Celina Guimarães Viana. Um ano antes, em 25 de outubro de 1927, entrou em vigor
uma nova legislação no Rio Grande do Norte para regular o serviço eleitoral. As
novas normas estabeleciam o fim da "distinção de sexo". E, desse
modo, no mês seguinte, Celina Viana, que vivia na cidade de Mossoró, deu
entrada em seu pedido de alistamento eleitoral, concretizando o voto em 1928. FOI
A PRIMEIRA ELEITORA DO BRASIL.
Numa coincidência
impressionante, no Rio Grande do Norte, no mesmo ano de 1928 Alzira Soriano de
Souza FOI ELEITA A PRIMEIRA PREFEITA DO BRASIL. Mas nenhuma quebra de tradição
acontece como mágica. Há uma história muito antes, iniciada pela
norte-rio-grandense, Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), intelectual
notável, PRIMEIRA FEMINISTA DA AMÉRICA LATINA, PRIMEIRA MULHER ABOLICIONISTA DO
BRASIL, PRIMEIRA INDIANISTA, PRIMEIRA INDIGENISTA, PRIMEIRA REPUBLICANA, PRIMEIRA
MULHER A REIVINDICAR QUE AS MULHERES TIVESSEM DIREITO À EDUCAÇÃO, VOTO E
ASSUMIR QUALQUER CARGO PÚBLICO.
Juvenal Lamartine (deputado
federal no período de 1906 a 1926 e senador
entre 1927 a 1928, e governador no período de1928 a 1930) teve a
sorte de ter nascido no mesmo chão em que nasceu Nísia Floresta. Tendo lido
sobre a sua conterrânea ilustre, tornou-se um intelectual sensível à causa
feminista. E quando a feminista e bióloga Berta Lutz o visitou no Rio Grande do
Norte em 1926, reforçando conversas que haviam tido ainda no Rio de Janeiro,
capital do Brasil àquela época, onde ele exercia o mandato federal, firmaram a
ideia da apresentação de uma candidatura feminina nas eleições municipais
daquele ano.
Eis que nesses conformes
aconteceram dois atos pioneiros no Brasil: foi eleita a primeira prefeita e
oficializou-se a primeira mulher eleitora. As coincidências não param. Em 1935
Maria do Céu Pereira Fernandes foi eleita PRIMEIRADEPUTADA ESTADUAL DO BRASIL.
Era esposa de Aristófanes Fernandes.
O Rio Grande do Norte tem
pioneirismo em diversas áreas, por exemplo, há 84 anos a natalense Lucy Garcia
pilotava aviões, inclusive, em 1942, ela obteve o seu brevet. Nesse mesmo ano de 1942, ela fez voos rasantes sobre Natal,
deixando a população perplexa simplesmente pelo fato de a piloto ser uma
mulher. Assim surgiu a PRIMEIRA PILOTA DE AVIÃO DO RIO GRANDE DO NORTE.
Natal e Parnamirim tiveram
uma relação muito precoce com a aviação, como sabemos. A aviação ainda voava de
fraldas quando, em 1937, há 87 anos, uma aviadora norte-americana – também pioneira
- Amelia Earhart, decolou em Natal, causando perplexidade na multidão que não
imaginava que dentro daquela máquina “extra-terrestre”, barulhenta, sairia uma
pilota.
![]() |
| Amelia Earhart, fonte: https://www.aopa.org/news-and-media/all-news/2021/march/03/aspects-of-amelia-earhart-that-might-surprise-you, pesquisa em 25.02.2024 |
Na fotografia, entre outros,
João Café Filho, Galdino Lima e Quincas Moura. Entre as mulheres estão: Jandira
Café, Nanita Maranhão, Dulce Moura, Aline Moreira Brandão, Maria de Lourdes de
Moura Brito, Mabel e Isaura Tavares, Maria Antonieta Chaves, Alice Tavares de
Lyra, Maria Amélia Medeiros, Cândida Palma, Belezita Moura, entre outras.
É assim a vida... aquilo que vemos, hoje, ou que ouvimos, ou
que lemos, pode ser o estalo que faltava, podendo despertar um grande feito.
L.C.F – IHGRN – 3.9.2020.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024
Poema - O menino que viajava de sonho
TICO DA COSTA: O POTIGUAR QUE TRANSFORMOU O MUNDO EM QUINTAL...
Há artistas que
pertencem a um lugar. Há outros que pertencem a uma época. E há aqueles, mais
raros, que parecem pertencer a uma geografia muito maior do que aquela em que
nasceram. Tico da Costa foi um desses. Suas asas não couberam no ninho, nem se
acomodaram ao ninho de sal. Nascido em Areia Branca, no Rio Grande do Norte,
Francisco das Chagas da Costa, o “Titico” da família que acabaria se tornando
Tico da Costa, construiu uma trajetória que parece ter saltada de um livro:
começou a aprender violão em meio a uma família numerosa, com quinze irmãos,
numa cidade litorânea do interior potiguar, e terminou sua vida apresentando-se
em palcos da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, dividindo
experiências e palcos com nomes como Philip Glass e Pete Seeger, trabalhando
com a cineasta italiana Lina Wertmüller e chegando a ser objeto da atenção do The New York Times.
Talvez seja
justamente essa distância entre a origem e o destino que explique a
singularidade de Tico. Ele nunca pareceu interessado em escolher entre o mundo
e o Rio Grande do Norte. Ao contrário: fez do mundo uma extensão de Areia
Branca. Levou consigo o mar, a areia, a rede, a ciranda, o baião, o frevo, o
coco, o xote, a fala nordestina, a malícia da linguagem e aquela capacidade
muito brasileira de transformar a dificuldade em graça. E, ao chegar à Europa ou
aos Estados Unidos, não abandonou essas referências para parecer cosmopolita.
Fez algo muito mais difícil: tornou o regional cosmopolita. Sua música podia
dialogar com a bossa nova, o jazz, a música latino-americana e a chamada world music sem deixar de carregar uma
espécie de sotaque invisível de Areia Branca. A própria Universidade Federal do Rio Grande do Norte o reconhece como
importante compositor norte-rio-grandense e destaca sua passagem pela Escola de
Música, por Recife e pela Europa. Um exemplo disso é esse próprio projeto e
os eventos alusivos a ele que seguem acontecendo no Rio Grande do Norte.
É nesse ponto que América Latente, de 1983, ganha uma dimensão
que ultrapassa a de um simples álbum. O disco parece anunciar, antes de muitos
outros, uma ideia que hoje nos é familiar: a de que a identidade nordestina não
precisa ser interpretada como se estivesse numa bolha. Tico percebeu o Nordeste
dentro de uma América maior. Paraguai, Uruguai, Argentina, Pernambuco, Pará,
Paraná, Rio Grande do Norte, Salvador e Roma aparecem em sua imaginação musical
não como lugares desconectados, mas como peças de uma mesma cartografia
afetiva. A faixa-título é quase uma brincadeira geográfica transformada em
manifesto. Tico erra os caminhos, mistura países, aproxima palavras, embaralha
fronteiras e, justamente por isso, acerta naquilo que interessa: a América
Latina como território de memória, mestiçagem, humor, deslocamento e
reconhecimento.
Há algo de
extraordinariamente moderno nessa atitude. Tico não fazia música regional para
ser consumida apenas regionalmente. Tampouco fazia música internacional
apagando suas raízes. Ele parecia compreender intuitivamente que, quanto mais
profundamente um artista conhece sua própria aldeia, maior pode ser o alcance
de sua voz. Em Lagartixa, por exemplo, a
expressão “fartura” é desmontada pela própria linguagem: “farta carne, farta o
feijão”. Ele era um alquimista da palavra; fazia a palavra funcionar com outras
engrenagens, como o poeta Manoel de Barros. São contextos diferentes, mas
loucuras iguais. A palavra que deveria anunciar abundância transforma-se em
denúncia da carência. É humor, poesia e crítica social ao mesmo tempo. Em Ridinha, a praia natal e a ciranda se
transformam em matéria de uma canção que poderia viajar milhares de quilômetros
sem perder sua identidade. Em Roma-Olinda,
o cosmopolitismo europeu entra em conflito com a saudade nordestina, e a
solução é voltar para a fogueira de São João.
Tico, portanto, não
foi apenas um compositor. Foi um tradutor. Traduzia o Nordeste para o mundo e,
ao mesmo tempo, traduzia o mundo para o Nordeste. Talvez por isso sua obra
tenha conseguido interessar a artistas tão diferentes entre si. O Senado
Federal registrou que Philip Glass, Pete Seeger, Lina Wertmüller, Gerald
Thomas, Turíbio Santos e Carybé estavam entre os nomes que admiravam sua
música. Tico chegou também ao Blue Note, em Nova York, um dos espaços mais
emblemáticos da música internacional, além de apresentar-se no Town Hall, no
Knitting Factory e em outros importantes palcos norte-americanos.
Sua vida pessoal também
ajuda a compreender essa dimensão humana do artista. Em 1984, Tico casou-se com
Sara Beatriz Fracchia Figueiredo, que posteriormente teria papel importante na
preservação e divulgação de sua obra. Sara, além de companheira, tornou-se
produtora cultural e, especialmente depois de 2009, passou a atuar diretamente
na organização da agenda e na produção dos trabalhos póstumos do músico. Ela se
encaixa no perfil das mulheres que sempre estiveram ao lado do marido e nunca
atrás. Tico deixou três filhos. Um deles, Daniel Fracchia da Costa, nasceu
durante a vida do casal no Rio de Janeiro; outro, Gabriel da Costa Fracchia,
também seguiu caminhos ligados à música e participou posteriormente de
homenagens ao pai.
Mas talvez a melhor
maneira de compreender Tico seja não separando o homem do artista. Pessoas que
conviveram com ele insistiram em registrar uma característica difícil de
catalogar: sua generosidade. Não por acaso sua esposa Sara o definiu como “um
anjo vestido de homem”, expressão que acabou sendo retomada por amigos e pela
imprensa. Há relatos de sua leveza, de seu humor e de uma capacidade quase
espontânea de estabelecer comunicação com públicos muito diferentes. Essa
característica ajuda a explicar por que alguém poderia subir sozinho a um
palco, munido apenas de violão e microfone, e fazer centenas de pessoas
cantarem em português, mesmo estando na Itália. O próprio Tico contou que foi
justamente na Europa que descobriu sua condição de showman.
Sua trajetória foi,
nesse sentido, uma espécie de paradoxo luminoso. Quanto mais viajava, mais
brasileiro se tornava. Quanto mais conhecia o mundo, mais sua música retornava
às coisas simples: o mar, a lua, a rede, a infância, a fogueira, a saudade, o
amor, a palavra popular. Não era um artista que carregava o Nordeste como um
peso identitário. Carregava-o como liberdade. Tico da Costa morreu em Natal, em
29 de agosto de 2009, aos 57 anos, deixando esposa, três filhos e uma obra que
ultrapassa os limites de sua geração. Ao longo de aproximadamente quatro
décadas de carreira, gravou em diferentes países e percorreu Europa, África e
as Américas. O curioso é que, apesar de toda essa dimensão internacional,
permaneceu relativamente pouco conhecido em sua própria terra. Essa talvez seja
uma das maiores injustiças da memória cultural potiguar. Tico é um monumento a
ser redescoberto.
Revisitar América
Latente hoje é, portanto, mais do que reencontrar um LP de 1983. É
descobrir um artista que parecia enxergar o futuro antes de ele chegar. Tico
compreendeu que tradição não significa imobilidade; que regionalismo não é
isolamento; e que ser profundamente potiguar não impede ninguém de ser
profundamente universal. Sua rede, na fotografia da capa – cujo semblante
expressa um ser amoroso e bom -, talvez
seja a melhor metáfora para sua obra: parece repouso, mas é movimento. Nela,
Tico descansava como quem se preparava para viajar. E viajou. Levou Areia
Branca para o mundo e, de algum modo, trouxe o mundo de volta para o Rio Grande
do Norte. Talvez seja essa a sua verdadeira grandeza: Tico da Costa não saiu do Nordeste para encontrar o mundo. Ele descobriu
que o mundo já estava dentro do Nordeste.
A visita da irmã Dulce e do padre Antonio Maria a Nísia Floresta...
História é terreno interessante. Nem sempre quem testemunha, registra os fatos em fotografias ou textos. Então recorre-se à História Oral. Nem sempre encontramos as velhas testemunhas que nos contam como foi. Muitas vezes o tempo dista tanto que, quando se quer saber como foi, não há mais quem nos conte. Às vezes as poucas testemunhas vivas, lembram de fragmentos. E há os que ouviram dos pais ou avós, e contam de maneira mais diluída.
Esta
história aconteceu no município de Nísia Floresta e está guardada nas memórias de poucas testemunhas. Ela não foi escrita nos conformes de como ora escrevo. Com
certeza está no Diário da Paróquia de Nossa Senhora do Ó e nos registros
pessoais do sacerdote da época. É uma singularidade, pois poucos sabem que os ares nisiaflorestenses testemunharam.
Era março do ano de 1992, portanto se passaram 32 anos. Tudo começou quando o padre João Batista Chaves da Rocha, administrador da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta, RN, convidou o padre paulista, Antonio Maria, para visitar a sua paróquia e desfrutar uns dias junto aos fiéis. Padre Antonio Maria é nacionalmente conhecido, inclusive por sua missão junto à Mãe Peregrina e suas lindas canções autorais.
Na
hora da saída, outros nativos se dividiam nos carros, de maneira que fui na
camioneta do padre Antonio Maria. Era um veículo grande, de um vermelho desgastado
e opaco, tinha tração nas quatro rodas. A rodovia que ligava a cidade à praia de
Camurupim era de terra batida. Havia chovido muito naquela semana e no momento
da saída, chovia torrencialmente.
O
percurso foi tenso. O barro fazia a camioneta derrapar e rodar algumas vezes, mas
entre um trecho e outro de arisco e pedregulhos o veículo rodava melhor. A chuva não parava. A
“viagem” tomou mais tempo que o normal, e nessa luta todos chegaram, sãos e
salvos. Por incrível que pareça, o tempo limpou e não choveu mais.
Àquela
ocasião a senhora Maria Trindade, Neto e Luís Carlos (um xará) exerciam
funções na paróquia, de maneira que estavam bastante engajados naquele evento,
como também a senhora Joanita, governanta da casa paroquial, irmã da Lorica.
Algumas pessoas da cidade também se deslocaram à casa de praia, como a
professora Ana Maria Barros de Carvalho, seu esposo Joel Paulino e sua filha
Simone Barros. Inclusive os conheci nessa passagem.
A
casa seria uma espécie de recanto de veraneio do padre Antonio Maria. Acostumado à
poluição e às paisagens de concreto de São Paulo, ele deve ter adorado. Àquela
época essa casa ficava numa duna alta, de onde se olhava o mar e o horizonte
que se perdia no olhar. Uma espécie de mirante com visão privilegiada do
movimento dos banhistas. Tudo isso circundado por num cenário paradisíaco,
envolto em coqueirais, manguezais e arrecifes.
A casa de praia se prefaciava a partir de um jardim gramado e flores baixas, tudo
muito bem cuidado. Havia mesas e bancos de cimento, fixos, redondos com guarda-sóis redondos, feitos de capim. Estava ali para quem quisesse se deliciar com a visão
do mar.
Num
dado momento o padre Antonio Maria aproximou-se de uma das mesas e depositou uma
caixa com extremo cuidado. Havia nele um aspecto de contrição. Ele retirou uma
peça envolvida num plástico e passou a lidar com aquele objeto com muita delicadeza, como quem mexesse com objetos de cristal. Era um rosto feminino de
pessoa idosa estampado em gesso. Logo percebi que se tratava do prenúncio de
uma escultura. Aprendi numa disciplina, na universidade. Aquela efígie é a base
para se confeccionar esculturas em bronze, dessas que ficam nas praças como
monumentos.
A
essa altura eu vinha conversando com o padre Antonio Maria com certa proximidade,
portanto perguntei de quem seria a escultura. A resposta foi uma estonteante
surpresa: era a máscara mortuária da irmã Dulce, feita dias antes. Eu, muito
jovem, quase não acreditei que estava praticamente diante da santa dos pobres...
a “irmã Dulce, doce mãe”, como diz o padre Antonio Maria numa de suas músicas. Era
uma fisionomia de dormir em paz absoluta, uma paz plena de justiça. Havia
alguns fios de cabelos grudados no gesso e um cheiro de óleo Johnson (É a
técnica). Então vi a própria irmã Dulce, como se aquele ser extraordinário
resplandecesse.
Para
estar naquele ofício, obviamente que o padre Antonio Maria já havia feito alguma
escultura, portanto revelou-se um escultor que eu desconhecia. Ele pegou da
goiva e pôs-se a trabalhar carinhosamente aquela face permeada de rugas, quais
um entrelaçado de estradas, veredas, caminhos. Por certo eram exatamente os
caminhos que ela tanto percorreu, levando dignidade a tantas pessoas
abandonadas de tudo e por todos, num tempo sem projeto algum que beneficiasse
tais seres vestidos de miserabilidade.
Quem imaginava que o sacerdote ilustre trazia consigo uma santa? Era comum para ele exercitar aquele ofício, portanto o fez sem alardes. Trouxe consigo aquela espécie de pedra-sabão, então rasparia as sobras de gesso, faria os acabamentos e, com movimentos cuidadosos, ascenderia o rosto da santa, dando-lhes a perfeição. Só fiquei sabendo disso porque perguntei. Não havia mais tanta gente na casa de praia, portanto muitos nem souberam dessa passagem. Nos outros dias, mais reservado, com certeza ele se debruçou na sua arte escultórica, ali, ao som do mar, observado pelos camurupins.
Não posso precisa a data neste momento, pois
escrevo de rompante, e meus registros de décadas estão “amufambados”. Suponho
que o episódio deu-se entre os dias 14 a 16 de março, pois a morte da irmã
Dulce se deu no dia 13 de março de 1992, em Salvador, Bahia. A propósito, o
padre Antonio Maria se deslocou até Salvador, ocasião em que fez o molde do rosto da Ir.
Dulce em seu ataúde, vindo direto para o Rio Grande do Norte. Enfim, no dia
seguinte estive na missa celebrada pelo padre visitante. Ele cantou suas belas
canções que são verdadeiros poemas de bondade e amor. A matriz estava cheia e
cuidadosamente decorada com flores naturais. O padre João Batista mandou fazer
alguns painéis com belas pinturas. Foi uma noite muito bonita para a comunidade
católica.
Aquela
experiência foi um dos capítulos impressionantes da minha vida. Senti estar no
velório da Ir. Dulce, pois vi a sua face em sua última fisionomia. A cidade
aguardava um visitante. Chegaram duas visitas. Quando os restos mortais de
Nísia Floresta chegaram nestas plagas, aguardavam uma pequena caixa com ossos.
Chegou um caixão com um corpo intacto e mumificado, surpreendendo a multidão. Como
disse no início, a história é terreno interessante... E essa é uma história parecida
no aspecto do impacto da surpresa.
Não precisa dizer – dizendo - que a visita do
padre Antonio Maria era aguardada com grande alegria e expectativa, pois o padre
João Batista era padre barulhento, que alardeava os eventos, as visitas, com
sinos e trombetas. Inclusive, bem no início da anunciação dessa visita, muitos
não acreditavam, conforme soube depois. E deu no que deu. Enfim, foi-me uma
grande satisfação ter conhecido o padre Antonio Maria, pois a sua simplicidade
cativa. Mas a visita da irmã Dulce – pelo menos para mim -, roubou a cena.
Escrevendo
este texto fico me perguntando: onde está o resultado final daquele busto ou
efígie? Com certeza instalado em algum lugar muito especial...
Pois
bem, eis esta página que, ora escrita, fica para a eternidade. 22.2.24 - 00h50.
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024
"Zumba do Timbó" - Quem foi? Qual a origem desse nome?
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| "Zumba do Timbó" |
Na minha família há dois casos de antepassados que tinham - vamos dizer: apelidos - e pelos tais eram conhecidos, inclusive “Zumba”. Mas não têm relação alguma com “Zumba do Timbó”. Cresci ouvindo minha mãe se referir a nomes como “Joaquim Zumba”, “João Zumba”, por exemplo. E esses meus antepassados eram chamados por todos da região como “os Zumba”. Não sei detalhes sobre os mesmos, mas ter descoberto o significado histórico da palavra “Zumba” me deu bons sinais. Em Goianinha, a mãe da minha bisavó era chamada de “Mãe do Bigle” e seu marido “Pai Velho”. Assim eram conhecidos por todos. Inclusive Ormuz Barbalho Simonetti, em sua vasta obra de genealogia intitulada Os Troncos de Goianinha (2008), faz referência aos mesmos.
Nas minhas pesquisas sobre as coisas de São José de Mipibu, sempre encontro alguém que expressa curiosidade quanto ao senhor de engenho conhecido como “Zumba do Timbó”. Que nome é esse? Por que esse nome? O que significa “Zumba”? E “Timbó”? É um distrito? Onde fica? Esqueça, acaso você esteja associando o nome “Timbó” a um distrito com esse mesmo nome no município de Nísia Floresta - não há relação alguma.
Mas, primeiramente, vamos saber o que é “timbó”. Timbó é um cipó que, espremido, solta um suco espalhado nos rios para pescar. O líquido promove dormência nos peixes, e os indígenas os pegavam com as mãos.
“Timbó” era o nome de um dos engenhos de “Zumba”, na cidade de Ceará-Mirim. “Zumba” era o nome como conheciam o seu proprietário José Ribeiro Dantas Sobrinho, senhor de vários engenhos em diversas freguesias (municípios), com parentescos em São José de Mipibu e em outros municípios do Rio Grande do Norte.
A palavra “Zumba” possui origem muito antiga e provavelmente africana. Pesquisas linguísticas apontam ligação com idiomas bantos da África Centro-Ocidental, sobretudo quimbundo e quicongo, trazidos ao Brasil por africanos escravizados oriundos de Angola e do Congo. Em antigas tradições afro-brasileiras, palavras semelhantes como “Nzumba”, “Zambi” e “Zumba” apareciam relacionadas à ideia de autoridade, liderança e poder.
O caso mais conhecido é o do líder quilombola Ganga Zumba. Muitos estudiosos entendem que “Zumba”, nesse contexto, significava algo como “grande senhor”, “chefe supremo” ou “homem poderoso”. Com o passar do tempo, o termo teria sobrevivido no Nordeste colonial, especialmente em regiões de engenhos, sendo aplicado popularmente a grandes proprietários rurais e senhores de terras.
Assim, quando o povo chamava José Ribeiro Dantas Sobrinho de “Zumba do Timbó”, provavelmente o sentido popular era algo próximo de “o grande senhor do Timbó” ou “o poderoso senhor do engenho Timbó”.
E quem era esse “Grande Senhor do Timbó”?
Era José Ribeiro Dantas Sobrinho, filho legítimo de Antonio Basílio Ribeiro Dantas e Ignácia da Silva Bastos. Nasceu em 21 de agosto de 1839 e foi batizado pelo padre João Damasceno Xavier Dantas em 19 de março de 1840, no Engenho Santo Antonio, freguesia de São José de Mipibu. Teve como padrinhos Miguel Antonio Ribeiro Dantas e Maria José Dantas.
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| Balbina, primeira esposa de "Zumba do Timbó". |
“Zumba do Timbó” casou-se duas vezes. O primeiro casamento ocorreu na propriedade “Laranjeira”, em São José de Mipibu, com Antonia Balbina Viana, em 11 de fevereiro de 1858. Balbina era filha de Antonio Bento Viana e Joana Balbina Viana, esta nascida em Extremoz. Antonio Bento Viana, fundador da Vila de Ceará-Mirim, era tio do Barão de Mipibu, Miguel Ribeiro Dantas.
“Zumba do Timbó” teve muitos escravizados e alforriou-os bem antes de ser decretada a Abolição da Escravidão. Vestia-se com apurado gosto, possuía liteiras, caleças e outros utensílios usados para se locomover de uma propriedade para outra com sua família. Era Coronel da Guarda Nacional, guarnição de Ceará-Mirim, e uma das figuras mais expressivas daquela próspera localidade.
Nesse primeiro casamento com Antonia nasceram seis filhos. Tendo enviuvado, casou-se novamente em 1887 com Urcicina Raposo de Melo, 25 anos mais jovem que ele, inclusive mais moça que o filho mais jovem dele. O casamento ocorreu em 12 de fevereiro de 1887, no Engenho Floresta, em Ceará-Mirim, pertencente ao dr. Heráclio de Araújo Vilar, sendo celebrante o padre Frederico Soares Raposo da Câmara. No segundo casamento tiveram três filhos.
“Zumba do Timbó” era senhor de engenho no vale de Ceará-Mirim, dono de muitas terras. Também conhecido como “O Major”. Foi proprietário dos engenhos Sapé (uma parte fica em Papari/Nísia Floresta), Trigueiro, Timbó de Dentro (rebatizado como São Pedro), Porão, Veados, Barra de Levadas, Oitizeiros, Joazeiro, Cafuca (estes dois em Santana do Matos) e Timbó de Fora.
“Zumba do Timbó” faleceu aos 59 anos, em decorrência de um enfarto, no dia 22 de julho de 1889, no Engenho São Pedro, em Ceará-Mirim.
Há muitas histórias contadas sobre “Zumba do Timbó” e suas esposas. Algumas dessas histórias são horrorosas devido à crueldade, e quando Carlos Alberto Dantas Moura, na melhor das intenções, mencionou essas histórias em seu livro, uma neta de “Zumba do Timbó” entrou em contato com ele, furiosa, alegando que tudo era mentira.
Mexer com História muitas vezes é mexer com um vespeiro... fica no ar...
Quem quiser saber mais sobre “Zumba do Timbó” basta ler a obra de Carlos Alberto, um trabalho extraordinário, com quase 700 páginas.
FONTE: MOURA, Carlos Alberto Dantas - Família Ribeiro Dantas de São José de Mipibu (2010, edição ampliada).
domingo, 18 de fevereiro de 2024
EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DO MUNICÍPIO DE NÍSIA FLORESTA - COMO SE DISPÔS O FERIADO DO DIA 18 DE FEVEREIRO



















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