ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

domingo, 14 de setembro de 2025

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ADEUS, PROFESSORA NIVALDETE FERREIRA...


Ontem fiquei sabendo do falecimento da minha professora Nivaldete Ferreira (na fotografia, ela está abraçada comigo). Eu a conheci em 1993, quando vim transferido de São Paulo. Nivaldete Niva Ferreira foi uma professora marcante e singular. Digo isso porque, muito jovem, ela era muito ligada a nós, jovens. Fazíamos das imediações do DEART o nosso parque de diversão nos momentos convenientes. Até em árvores subíamos.


Ela escrevia, e como sou um escrevinhador, ela logo descobriu, o que nos aproximou ainda mais. Na UFRN tivemos uma aproximação intensa. Tive professores incríveis: Sanderson Negreiros, Clotilde Tavares, Vicente Vitoriano, Toinho, Regina Guedes... Tenho alguns de livros dela e adoro "Bárbara Cabarrus". Em 2008 eu estava na livraria da Cooperativa Universitária quando ela apareceu e, no mesmo instante, foi tirando de sua bolsa um objeto e dizendo "tenho aqui um novo filho para lhe presentear". Era exatamente Bárbara Cabarrus (Dentro do livro veio um cartão das Edições Paulinas que conservei intacto).



Não sei o que houve, mas talvez entretidos, não houve tempo para a dedicatória. Algum tempo depois a encontrei e, como sempre era uma festa. Perguntei a ela "Bárbara Cabarrus é você? Creio que Bárbara Cabarrus é sua auto biografia e fomos parecidos em nossas infâncias e adolescências". Então contei a ela que não desejaria a nenhuma mãe ter o filho que fui, pois fui muito arteiro e intenso. Ela rio muito dizendo o mesmo. Sempre saí do quadrado, desde criança.


Foi muito interessante esse dia... Mas é isso, como sempre digo, aqui tudo começa e aqui tudo se acaba. Fiquei triste. Não sei o que a levou, mas sei o que ela deixou: uma obra linda, apurada, fina. Nivaldete fazia a diferença com a pena. Não escrevia o lugar comum, não era da mesmice. Havia substancialidade em sua escrita. Cada página era uma porta. Agora que ela não pode mais me ouvir, posso dizer: ela não foi reconhecida na proporção de como deveria ter sido. Na verdade ela ganhou alguns prêmios interessantes, mas com certeza absoluta, merecia muito mais... Mas agora não tem mais jeito.

Eu penso assim: se a flor não foi dada quando eu podia sentir o perfume, não me venham depois me oferecer coisas, não façam cenas, caras e bocas, declarações etc. Refiro-me a prêmios literários póstumos. Tenho certeza que ela diria isso. Mas, com certeza, Nivaldete merece que seu nome esteja abençoando algum espaço significativo na UFRN, como a Concha Acústica, por exemplo, tão próxima do DEART, onde ela tanto esteve.


Em 1996 fui eleito presidente do Centro Acadêmico do DEART na UFRN, e lá estava Nivaldete, presente, viva, intensa, amorosa... Hoje peguei do seu Bárbara Cabarrus, peguei do seu cartão das Paulinas, intactos, e um filme rolou... Adeus, professora querida. Só me resta lhe dizer adeus... Obrigado por ter feito parte de momentos marcantes da minha vida...




sexta-feira, 5 de setembro de 2025

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

ACTA NOTURNA - PARNAMIRIM: O QUE APARECEU PRIMEIRO, O RIO OU O LUGAREJO? - 3.9.2025

 


O topônimo Parnamirim apareceu escrito, pela primeira vez, no século XVII, exatamente em 1643, e essa menção se confunde entre o rio e o lugarejo em termos de origem. Tudo começou quando o holandês Maurício de Nassau solicitou que o cartógrafo alemão Georg Marcgraf (1610-1644), que também era astrônomo e biólogo, elaborasse mapas do nordeste brasileiro – ocasião em que eles, assim como os portugueses haviam feito em 1500 em suas aventuras por ouro e colonizações - se depararam com o Nordeste. Supostamente esse mapa é o primeiro na América a trazer indicações de longitude e latitude e a revelar não somente aspectos geográficos, mas também culturais da região dominada pelos holandeses. Foi nesse ano que a palavra “Parañá-Miri” – que significa rio pequeno -, apareceu pela primeira vez escrita em papel.

Nesse tempo os desenhistas de mapas (cartógrafos) percorriam os lugares a pé, e sobre lombo dos cavalos e jumentos costeavam as praias e apanhavam depoimentos de indígenas e outros europeus que se aventuravam nas florestas centrais do Brasil. Nesse empreendimento, conversavam com os índios e tomavam nota dos lugares, rios e acidentes geográficos - todos obviamente em línguas indígenas - e depois iam construindo os mapas. Com o passar do tempo os homens brancos foram aportuguesando os topônimos. Assim se chegou à palavra “Parnamirim”.

O topônimo originou-se das palavras indígenas, em tupi, “Paraná, que significa “rio”, e “Mirim”, que significa pequeno, conforme Teodoro Sampaio (1855-1937) e Câmara Cascudo (1897-1986). Na realidade a história diz que o nome veio do rio pequeno, rio que desaguava no Oceano Atlântico, emoldurado pelas roças de milho e macaxeira dos indígenas locais. Sabemos que historicamente, os homens brancos se instalavam em regiões próximas a rios e nascentes. E assim ocorreu nas imediações do "paraña-miri". Os aventureiros passaram a habitar ambas as margens e sempre usando o topônimo "paraña-miri" como identificação de lugar. Assim o rio foi emprestando seu nome ao que podemos chamar de lugarejo, e que, depois se aportuguesaria para Parnamirim.

Mapa de Georg Marcgraf

Nesses longínquos tempos o homem branco, ao chegar pela primeira vez em terras permeadas de povos indígenas, permaneciam reverberando os nomes lidos nos mapas antigos. Tal fenômeno era comum a todos os lugarejos brasileiros, cujos exploradores se serviam dos topônimos indígenas, perpetuando-o. Da mesma forma tem-se Pirangi (Pirangipepe: rio de peixe), Cajupiranga (caju vermelho), Japecanga (fruto do cipó de casca seca), Pitimbu (fumar) etc. O próprio município de Papary (município vizinho, hoje mudado o nome para Nísia Floresta) fazia divisa com natal, significando dizer que a área de Parnamirim já pertenceu a Nísia Floresta nos primórdios, conforme rezam os velhos decretos governamentais e documentos lidos por mim e que tratam das divisas dos municípios potiguares.

Não havia como batizar o lugarejo com outro nome, tendo em vista a denominação genuína do rio, a qual foi incutida naturalmente na memória dos ancestrais e dos que ali chegavam. O rio, como forte elemento geográfico, teve o seu nome naturalmente condicionado à localidade sem que possamos saber com exatidão quando passaram a usá-lo para - também - se referir ao lugarejo, mas, com certeza, esse nome ´secular.

Os habitantes se acostumaram com a palavra indígena, e nunca mais se pensou em mudá-la, aliás, séculos depois, na década de 1980, com o município já emancipado politicamente, deu a louca na mente de alguns vereadores que mudaram o nome para Eduardo Gomes. Mas não demorou muito. A população não achava doce o brigadeiro e, unanimemente, protestou, foi à Assembleia Legislativa e exigiu de volta o topônimo original. Assim Parnamirim voltou a ser Parnamirim.

Li um assento de casamento que me deixou surpreso, pois consta ter ocorrido em Parnamirim. Até aí, nada de extraordinário, mas ocorre que o casamento se deu no dia 7 de fevereiro de 1728 - há 297 anos -, o que nos leva a perguntar: existia Parnamirim em 1728? Ora, se está escrito é porque existia. Obviamente que não era município, mas um um lugarejo. A grande curiosidade é a seguinte: pertencia a São José de Mipibu ou a Papary (Nísia Floresta)? Veremos adiante.

O noivo, José Martins de Oliveira (nascido em 14 de novembro de 1702, e falecido em 1780), casou-se com Catherina Amorim Freire (nascida em 1704). Os padrinhos de batismo de José Martins de Oliveira foram: Manoel Rodrigues Taborda e Dona Joana de Barros Coutinho. E como testemunhas desse casamento constam: Cel. Teodósio Freire de Amorim e sua esposa Damásia Gomes da Câmara; e o Capitão Bonifácio da Rocha Vieira (filho de Teodósio da Rocha) e sua esposa Inácia Gomes de Freire (filha de Antônio Dias Pereira).

História, como sempre digo e todos sabem, é quebra cabeça. Vejam que o sobrenome do padrinho de José Martins é “Taborda”. Taborda é uma localidade de São José de Mipibu, situada na divisa com Parnamirim. Taborda significa “lugar de taboas”, uma planta aquática, comestível. Temos Taborda no Brasil todo, tanto a fruta quanto o sobrenome. Vai do cantor gaúcho Ivan Taborda, lá das bandas do Rio Grande do Sul ao Taborda do Rio Grande do Norte, como vemos.

O sobrenome Taborda carrega raízes profundas na Península Ibérica, embora sua origem seja alvo de debates entre os estudiosos. Alguns defendem que teria surgido na Galícia, mais precisamente em São Miguel de Taborda, enquanto outros apontam para uma matriz ainda mais remota: a língua dos guanches, povo nativo das Ilhas Canárias anterior à conquista castelhana no século XV, em cuja tradição taba significaria “rocha”.

Em território português, a referência mais antiga ligada a esse nome surge no século XIV. O fidalgo galego Garcia Rodriguez de Taborda, favorecido pelo rei D. Fernando (1345–1383), recebeu o cargo de alcaide de Leiria e o senhorio de Porto de Mós. A partir daí, o sobrenome começou a ganhar visibilidade em Portugal, sempre associado a famílias de prestígio e a territórios de importância estratégica.

A travessia do Atlântico ocorreu no século XVII, trazendo o sobrenome para o Brasil, vindo nas caravelas lusitanas. Pernambuco guarda um episódio emblemático: em 1654, na chamada “Campina do Taborda”, os holandeses formalizaram sua rendição, encerrando um período de ocupação. O topônimo da região remete a um pescador chamado Manuel Taborda, cuja presença se eternizou na história local.

Com o passar do tempo, o sobrenome espalhou-se por diferentes províncias brasileiras. Em Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, tornou-se comum entre diversas famílias. É no sul do país que se destaca a figura de Francisco Corrêa Taborda (1797–1869), neto do português Antônio Rodrigues Taborda, cuja trajetória encerra um ciclo que une as tradições ibéricas ao enraizamento definitivo em solo brasileiro. Por tudo isso suponho – acaso o sobrenome não seja um equívoco paleográfico – que Manoel Rodrigues Taborda era português ou filho de portugueses. Convém destacar que o Cel. Teodósio Freire de Amorim, que consta como testemunha deste casamento, era uma figura notável e muito rica da região, dono de propriedade e escravos.

Diante do exposto, é muito provável que esse casamento se deu na localidade de Taborda. O padrinho Manoel Rodrigues Taborda traz esse sobrenome das pias de Portugal ou o tomou emprestado da localidade? Sabemos que o povoado de Taborda, atualmente, fica na divisa dos municípios de São José de Mipibu e Parnamirim, portanto podemos supor que o rio que margeia esse povoado pode, originalmente ter tido o nome de rio Parnamirim e que o lugarejo assim se dominava, pois Parnamirim era localidade isolada, que, pelos documentos de época, em termos de divisas de municípios, não pertencia a Natal, mas a Papary ou São José de Mipibu, mas como o casamento se deu sob os paramentos da Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, pertencente a Natal, dá-se a impressão de que Parnamirim pertencia a Natal àquela época. Mas um detalhe é certo: quando vemos um assento de casamento datado de 1728, em Parnamirim, constatamos que o lugarejo já era reconhecido como topônimo a mais tempo do que se supõe.

O que se sabe sobre a origem do topônimo Parnamirim é que se trata de um rio, mas até hoje nunca precisaram qual rio é esse. Por Parnamirim também se sabe da existência de uma lagoa que está situada dentro da Base Aérea de Natal. Nesse local, conforme contam os velhos alfarrábios, Amélia Duarte Machado, a famosa “Viúva Machado” adorava fazer seus convescotes com o filho Humberto e os netos.

Fica para a próxima Acta Noturna um tratado sobre os limites geográficos que compreendem Natal e Papary – modificado várias vezes – quando, então, poderemos precisar a partir de que ano Parnamirim (bairro/lugarejo) passou a constar na geografia de Natal.


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

A MULHER POBRE...

Na adolescência recordo-me de uma família que chegou à cidade em que nasci, vinda de algum lugar que eu nunca soube. Eles chegaram como ciganos, mas enquanto esses estão de passagem, essa família instalou-se no município e ficou. Moravam num local afastado do centro. Eles eram muito pobres. Creio que alguém emprestou umas ruínas e ela ampliou o local com restos de madeiras catadas no lixo e lonas pretas.

O fogão a lenha ficava nos fundos. Não sei se eles ainda residem lá nem como se encontram. A pobreza neles não era apenas uma condição econômica, mas uma prisão espiritual, emocional, psicológica e existencial. Eram pobres de Jó, como dizem.

A pobreza neles ia muito além da questão material; era uma condição que minava a dignidade humana e distorcia o amor. Eles viviam num estado constante de privações, onde cada ação, cada sentimento, era filtrado pela humilhação e pela escassez de tudo. Aquela família tão pobre e empobrecida de tudo permitia-me sentir como a pobreza destrói a própria essência das pessoas, corroendo-lhes a autoestima, a esperança e até mesmo a capacidade de sonhar. Todos os filhos daquela mulher eram problemáticos.

Aquela miséria me causava perplexidade e profunda compaixão. Mas o que mais me chamava a atenção naquele cenário triste era a mãe daquela família. Ela tinha uma nobreza, ou melhor, uma realeza - por mais que pareça antítese - que não sei de onde herdara. Essa dignidade se traduzia no esforço para manter uma aparência de honra, mesmo quando o mundo os desprezava e até os empurrava para errar. A mulher pobre trazia uma postura naturalmente imperiosa, mas sem pedantismo. Havia nela uma classe, um aspecto lorde, como se em outra vida tivesse sido uma rainha. Era algo inato.

A mulher pobre personificava a luta entre o orgulho e a humilhação. Apesar de sua situação deplorável, ela tentava manter uma imagem de dignidade, vestindo-se impecavelmente com roupas que certamente lhe chegavam por mãos generosas de doadores. Ela conseguia o prodígio de montar um figurino completo, do sapato ao “tailleur”, ainda que isso significasse sacrificar o pouco que eles tinham. A dignidade, para ela, era um último recurso, algo que ela não podia perder sem perder-se por completo.

Sei que aquela mulher pobre não sabia nada sobre a realeza, mas externava uma aura de rainha sem esforço algum. Recordo-me que ela passava na frente da minha casa e chamava a atenção. Seu penteado era diferente de todas as mulheres da cidade. Era um coque muito imponente, elaborado sobre a uma cabeleira farta e um pouco grisalha. Seus sapatos eram desgastados, tronchos, mas ela conseguia andar como se rainha fosse. Trazia sempre uma bolsa pequena - de mão - e sua postura corporal destoava de todas as mulheres da cidade. Quando eu via a mulher pobre andando na cidade em alguma demanda pessoal, enxergava as rainhas que via na televisão. Minha mãe dizia que ela era uma mulher muito elegante, mesmo que comprando ossos no açougue.

Alguns debochavam daquela mulher, certamente supondo que ela simulava uma condição que lhe estava muito distante, certamente deduzindo que ela se sentisse superior a tantas famílias ricas da cidade, inclusive famílias de grandes fazendeiros locais, cujos modos toscos, grosseiros e espetaculosos, passavam longe da elegância daquela mulher pobre.

Via-se claramente que toda a plasticidade daquela mulher não era um tipo que ela criou para si, nem havia teatro nela. Era o seu eu por excelência. É possível imaginar que as mulheres ricas da cidade, se pudessem e tivessem humildade, pediriam aulas de elegância àquela mulher, pois boas maneiras e elegância jorravam nela como água na fonte. Era muito educada, fina, comedida, polida, desde o olhar cheio de autoridade à fala mansa, serena, o uso do português correto e a postura corporal. Sabia entrar e sair de qualquer lugar da forma mais respeitosa e civilizada possível.

Não sei, mas a existência daquela mulher pobre parecia soar como um mecanismo de crítica social, expondo a hipocrisia e a indiferença da sociedade local em relação aos desfavorecidos. Juro que consigo pensar isso. Ela dava aulas magnas sem precisar se dirigir a ninguém.

Naquele tempo não existiam políticas públicas de assistência social, iguais à atualidade, de maneira que pobres eram sofridamente pobres e fadados a se tornarem miseráveis. Aquela mulher pobre representava alguns outros pobres e miseráveis iguais a ela que viviam à margem - ali mesmo na cidade -, ignorados pelo governo e desprezados pelas classes superiores.

Aquela mulher pobre soava como uma denúncia de o quanto a sociedade reduz os pobres a meros objetos de caridade ou de repulsa, ignorando suas complexidades e seus sofrimentos, portanto a imagem daquela mulher pobre contrastava com tudo, tornando-a notada por onde passasse. Ela mantinha a sua diplomacia mesmo chegando ao final da feira (quando tudo era mais barato) ou num bazar de caridade para receber roupas dadas pela primeira dama da cidade, ou para comprá-las por preço simbólico numa feira organizada pelas freiras da Congregação das Pobres Servas da Divina Providência.

Aquela mulher pobre, sem nunca ter falado comigo, deu-me uma aula que me ensinou que a pobreza é uma prisão que vai além da fome, da sede, do frio, do desprezo dos ricos e de tudo o que consiste em humilhação. É uma condição que aprisiona a mente e o espírito, mas não aprisiona o que há dentro de si. Ela, por exemplo, trazia dentro de si uma rainha que não conseguia ser refutada.

Aquela mulher pobre nunca demonstrou preocupação em ser humilhada, pois os espinhos sangrentos da humilhação não a atingiam por dentro. Ela acreditava que o menor deslize poderia arruinar sua vida, pois sabia que não há margem de segurança para os pobres. Esse estado de tensão constante é uma crítica à falta de mobilidade social e à ausência de um sistema de apoio para os desfavorecidos.

Sem giz nem lousa ela ensinava que a pobreza e a miserabilidade humana não se resumem apenas a falta de dinheiro, mas uma espiral de insegurança e vulnerabilidade que afeta todos os aspectos da vida de uma pessoa.

Aquela mulher pobre nos permitia explorar as contradições e as profundezas emocionais dela e de sua família e de outras famílias em igual situação. Ela representava a resiliência silenciosa das mulheres pobres, que enfrentam adversidades sem perder completamente sua capacidade de sonhar. Ela sabia, percebia, sentia a amargura da humilhação, mas aceitava - ou aprendia a conviver com aquilo - porque era tudo o que lhe restava.

A aceitação daquela mulher pobre refletia uma resignação melancólica, uma percepção de que suas escolhas são limitadas pela pobreza e pelo papel social que lhe é imposto. A única coisa que destoava de tudo era como ela conseguia ter uma aura de rainha em meio aos escombros da pobreza extrema.

Ter conhecido aquela mulher pobre fez-me perceber as mais variadas facetas da alma humana. A miséria não cria necessariamente heróis ou vilões, mas seres humanos marcados por fraquezas e forças, desejos e desilusões.

A miséria pode até destruir alguém, mas haverá quem resistirá como fortaleza de pedra. Os pobres não são caricaturas, mas indivíduos complexos, cujas ações são moldadas por circunstâncias que eles não podem controlar. Com aquela mulher pobre foi assim. Ela não conseguia controlar a nobreza natural que havia dentro dela, e ao mesmo tempo não conseguia controlar sua inexplicável realeza.

Aquela mulher pobre ampliou em mim a compaixão. Aprendi em suas aulas que sofrimento humano nunca deve ser objeto de riso nem de desprezo, mas um instrumento de compreensão da condição humana. A pobreza é um câncer que corrói a dignidade, a esperança e o amor.

Aquela mulher pobre ampliou em mim o sentimento de empatia. Ela alargou o meu olhar, tornando-o capaz de penetrar a superfície da condição humana e revelar o sofrimento silencioso, a força invisível daqueles que lutam para viver em um mundo que os ignora. Aquela mulher pobre também me fez sentir a minha pequenez diante do sofrimento alheio.

Aquela mulher pobre não me ofereceu soluções ou consolos fáceis. Ela apenas me confrontou com a verdade de que a miséria é, em última instância, uma condição que desumaniza e que apenas a compreensão e a empatia podem, ainda que brevemente, aliviar.

Aquela mulher pobre não foi um grito de revolta, mas um sussurro de angústia, um ser nobre, superior que, ao expor a fragilidade humana, revela também a sua resiliência. Ela me ensinou a lutar contra a pobreza e contra quem massacra os pobres, pois isso é o nosso maior reinado. Somos reis quando enxergamos e lutamos em favor dos pobres para que tenham dignidade.

Aquela mulher pobre, paradoxalmente, foi a mulher mais rica que conheci.

sábado, 30 de agosto de 2025

IRIS LETTIERI MERECE UM BUSTO NO CENTRO DO RIO DE JANEIRO...


Num país com certa dificuldade de render homenagens à figuras de grande notabilidade na história do nosso país, é necessário que pessoas como nós provoquem as autoridades e as façam pensar e reconhecer méritos. Refiro-me a legitimidade de se construir um monumento no centro do Rio de Janeiro em homenagem a Iris Lettieri. Não vou entrar em detalhes sobre quem foi Iris Lettieri porque a internet é permeada de informações, mas, obviamente, não há quem a desconheça, e mesmo que porventura não saiba, já ouviu a sua inesquecível voz nos aeroportos do Brasil. 


Estou encaminhando a carta, abaixo, a todos os vereadores do Rio de Janeiro, solicitando aos mesmos que proponham ao prefeito desse importante estado do Brasil a construção de um monumento em homenagem a Iris Lettieri, pois, mais que "A Voz do Aeroporto", trata-se de uma mulher de grande notabilidade e pioneirismo em outras áreas e que, por tal razão, é digna de se perpetuar na memória de todo brasileiro, em especial do povo carioca.

Senhores Vereadores,

Escrevo-lhes movido por um sentimento profundo de reconhecimento e justiça histórica. Trago, por meio desta carta, a sugestão de que seja elaborado e aprovado um projeto para que a Prefeitura do Rio de Janeiro construa um busto em homenagem à notável Íris Lettieri nas imediações do centro do Rio de Janeiro. Tal gesto não se limitaria a um tributo simbólico, mas representaria o devido reconhecimento a uma mulher que marcou gerações com sua voz, sua postura e seu pioneirismo.

Íris Lettieri é nome incontornável quando falamos da comunicação brasileira. Primeira mulher a se destacar como apresentadora de televisão em um tempo em que o espaço feminino era tão limitado, ela não apenas abriu portas para outras profissionais, como também se consolidou como referência de competência e elegância no exercício da comunicação. Seu profissionalismo, aliado a uma dicção impecável e à serenidade de sua presença, a transformou em figura respeitada tanto no jornalismo quanto na locução oficial.

Entretanto, mais que a imagem de uma pioneira das telas, Íris se eternizou no imaginário coletivo por meio da sua voz marcante nos aeroportos brasileiros. Cada anúncio feito por ela carregava não apenas a informação objetiva do embarque, mas também um traço de acolhimento, de familiaridade. Quantos de nós, ao atravessar as salas de embarque e ouvir sua locução clara e inconfundível, não sentimos um misto de segurança e pertencimento? É uma memória afetiva que atravessa décadas, impregnada de ternura e de identidade nacional.

Por tudo isso, entendo ser mais que justa a proposta de erguer um busto em sua homenagem, a ser instalado em local de destaque no centro do Rio de Janeiro, onde a história e a cultura da cidade se entrelaçam com a vida cotidiana de seus habitantes. Um busto de Íris Lettieri não será apenas uma escultura: será a materialização de um legado, um ponto de encontro entre passado e presente, entre a memória individual e a identidade coletiva.

Assim, venho, com respeito e convicção, solicitar a Vossas Excelências que considerem esta proposta. Tenho a certeza de que o povo do Rio de Janeiro verá nesse gesto não apenas uma reverência a uma grande comunicadora, mas também a celebração de valores que precisamos cultivar: pioneirismo, profissionalismo e a força da memória afetiva que nos une.

Respeitosamente,

Luís Carlos Freire

LEIA MAIS SOBRE IRIS LETTIERI: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: IRIS LETTIERI, MAIS QUE A VOZ DOS AEROPORTOS, UMA BREVE HISTÓRIA...


sexta-feira, 29 de agosto de 2025

IRIS LETTIERI, MAIS QUE A VOZ DOS AEROPORTOS, UMA BREVE HISTÓRIA...


Hoje de manhã, assistindo ao jornal “Hora Um”, fui surpreendido com a informação da morte de Iris Lettieri, famosa pela “Voz do Aeroporto”, principalmente, mas que era uma profissional múltipla, inclusive atriz e apresentadora, tendo trabalhado na TV como atriz e produtora, tendo sido protagonista de pioneirismo na TV. 

Nós, que lidamos com História, muitas vezes vivemos episódios que não acontecem como imaginávamos, mas que acabam se tornando a história que restou. Esse é um caso.

Em 2014, conheci com meu filho F. a chamada “Casa da Suástica de Natal”, construída por Guglielmo Lettieri em 1910, inclusive já escrevi um texto sobre esse imóvel no meu blog. À ocasião, fiquei curioso para saber mais sobre a história desse italiano, que é avô de Iris Littieri.

Algum tempo depois, após sucessivas tentativas, cheguei até Iris Lettieri. Eu não imaginava nunca que aquela voz que ouvi no aeroporto era mais que uma voz. Ela se mostrou muito receptiva. Creio que o fato de eu estar aqui no Rio Grande do Norte, onde seu avô passou a maior parte da vida, inclusive faleceu em Natal, despertou nela memórias afetivas do avô. Passamos a conversar muito sobre a família, como quem se conhece há anos. Falávamos sobre assuntos afins, afinal precisei me apresentar também, enviava fotografias daqui de Natal etc. Inclusive ela lia minhas postagens. Conversávamos sobre as publicações. Foi uma experiência muito amigável e respeitosa.

Guglielmo era italiano, chegou a Natal ainda rapaz e construiu um dos mais imponentes palacetes da Ribeira. Era um homem muito rico, inclusive cônsul da Itália em Natal. Sua casa recepcionava as mais importantes figuras norte-rio-grandenses, inclusive homens notáveis que vinham da Europa. Mas se sabe pouco sobre ele. É uma história ainda a ser contada. E foi exatamente isso que me fez localizar Iris Lititieri, tendo me surpreendido ao saber que ela era a mulher da “Voz do Aeroporto”.

Conversamos até o ano passado, pois, inexplicavelmente, ela desapareceu de cena. Não respondia mensagens nem atendia telefone. Eu não sabia, mas isso se dava em virtude de ela estar doente, a ponto de ter se desligado do mundo digital. E o desfecho final, para minha decepção, foi a notícia chocante que assisti em plena 04h20, no HORA UM, da Globo. Fiquei profundamente abalado pela grandeza daquela mulher e pelo laço profundamente respeitoso de algo que posso dizer: uma amizade distante que nasceu.


Nas nossas últimas conversas – já balizados pela familiaridade – e sem que eu tivesse pedido, ela disse: “Vou separar algumas fotografias, pequenos objetos, souveniers e alguns documentos do meu avô e enviar para você, pois tenho certeza absoluta que você guardará bem esse acervo, dando-lhe uma finalidade justa”. Ela dizia que guardava aquele material como fosse o próprio avô dela, o qual ela o amou intensamente, inclusive falava dele com muito carinho. Nem acreditei no que ouvi. Fiquei muito feliz ao saber que herdaria esse material tão precioso para ela, que estava certa quando disse que eu o preservaria. Na mesma hora já me vi escrevendo uma bela matéria no meu blog, reproduziria o acervo recebido, faria fotografias desses pequenos objetos e, depois, doaria ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, pois ali estaria preservado para sempre. Não teria sentido algum esse material tão significativo ficar comigo, pois é de interesse do Rio Grande do Norte.


Ela pediu que eu mandasse o endereço por escrito e um valor em dinheiro para que ela me enviasse o acervo pelos Correios. Seguimos conversando, ora através de mensagens escritas, ora em áudios, ora falando por telefone (inclusive, assim que nos conhecemos, ela me explicou que quando eu quisesse ligar, o fizesse impreterivelmente entre às 14 às 22h00 e nenhum outro horário mais). Achei interessante e fui entendendo gradualmente o motivo do pedido. Ela sofria de insônia e, devido a remédios, dormia pouco, acordava o tempo todo, e isso a cansava muito, portanto, decidiu que a hora que o sono chegasse ela dormiria sem preocupação, nem que fosse à tarde toda.

Iris morava com o segundo marido, também idoso e falava sobre ele com muito carinho. Quando se casaram. Ela própria preparava as refeições dela e do dele, dizia que fazia tudo num dia e guardava as porções no congelador para irem consumindo. Cuidar da casa era - segundo ela - atividade que exigia muito esforço, pois enfrentava grande dificuldade para andar devido às doenças. Foi assim que entendi o porquê de ela ter estabelecido horário para telefonema. Devido a essa instabilidade, eu poderia telefonar no momento em que ela estivesse fazendo almoço ou limpando a casa. Não seria bom para ela, inclusive nossas conversas eram de certo modo demoradas.

No curso dessa amizade, ela falava sobre o avô, sempre uma lembrança, sempre uma novidade, mandava fotografias, inclusive contou – achando graça – que Guglielmo escondeu o governador Gurjão na caixa d’água da casa dele quando houve o levante comunista (Imagine essa cena!). Ela Falava sobre a mãe, dona Júlia Amazonas, com muita saudade e admiração. Tinha ojeriza da família do avô Guglielmo, pois ela era neta da segunda esposa dele, quando, viúvo, se casou com dona Júlia (Futuramente, separada, ela se casaria com o locutor da Rádio Cruzeiro do Sul, José Avelino Costa, pai de Iris Luttieri Costa).


Os filhos italianos de Guglielmo com a primeira esposa, também italiana, detestavam a mãe dela e os filhos e netos dela. Chamavam a eles de pobretões, gente desqualificada (nas palavras de Íris). A recíproca era igual. Iris contou-me que sempre os detestou. Enfim,  conversa vai, conversa vem – a gente nunca imagina que a morte não marca data –, então, preso às coisas da vida, descuidei de mandar o meu endereço e ela desapareceu de cena, conforme expus no início. Cheguei a pensar que era defeito no aparelho celular dela, que podia ter sido roubado, enfim, fiquei no vácuo.

Íris com os pais

Íris Lettieri veio ao mundo em 1941, em meio a um Brasil que atravessava turbulências políticas e sociais. Pouco tempo depois, em 1942, seu avô, o italiano Guglielmo Lettieri, foi encarcerado considerado fascista/nazista, e, infelizmente, isso é fato. O primeiro encontro entre avô e neta não se deu em ambiente doméstico ou festivo, mas sim dentro de um presídio, quando Íris tinha apenas quatro anos. Mais tarde, ela retornou a Natal algumas vezes, embora apenas para passear, inclusive visitou o palacete do avô que se encontra ali até hoje (por incrível que pareça). Já não havia avós vivos para recebê-la, e nunca sentiu necessidade de se aproximar dos descendentes da família Lettieri.

O cenário político da época era conturbado. Rafael Fernandes Gurjão governava o Rio Grande do Norte e, em 1935, a chamada “Intentona Comunista” transformara Natal na primeira capital latino-americana sob domínio revolucionário de orientação comunista, ainda que por poucos dias. A insurreição coincidiu com a solenidade de formatura do Colégio Marista, realizada no antigo Teatro Carlos Gomes — hoje Teatro Alberto Maranhão. Houve tiroteios, quebra pau, tumultos, obrigando o governador e o secretário-geral do Estado, Aldo Fernandes Gurjão, se refugiaram na residência Xavier Miranda e, em seguida, buscaram proteção no Consulado da Itália, sediado justamente na casa de Guglielmo Lettieri (foi então que o governador mergulhou na caixa d’água)

Iris na TV Tupi

Esses anos de contato com Íris Lettieri percebi sua personalidade vigorosa, marcada por opiniões firmes e postura decidida. Era muito inteligente e pareceu-me uma mulher enérgica. Ainda muito jovem, ela chamou atenção no carnaval carioca, sendo homenageada por uma escola de samba. Na ocasião, causou furor ao anunciar a entrada da agremiação como se estivesse comandando o embarque de passageiros em um avião - voz que era a trilha sonora das partidas e chegadas nos maiores aeroportos do país.

Embora tenha sonhado inicialmente em ser médica, o gosto pela boa dicção levaram-na a estudar técnicas de voz. Aos 16 anos, conciliava o trabalho de recepcionista com os estudos noturnos, quando acompanhou a mãe - pianista - a uma apresentação na Rádio MEC. Curiosa, pediu para testar um gravador e registrou sua voz. Pouco tempo depois, recebeu convite para atuar como locutora na Rádio Metropolitana. Era o início de uma trajetória notável.

Com apenas alguns meses de experiência, foi incentivada a ingressar na recém-criada TV Continental. Em 1959, assinou contrato e logo conquistou o Troféu Garota Propaganda, destacando-se não apenas como locutora, mas também como atriz em peças de teleteatro. Nessa fase, viveu um casamento breve com um engenheiro eletrônico ligado à televisão, que a levou a Porto Alegre. Lá atuou em rádio e televisão, mas, após a separação, regressou ao Rio de Janeiro. Ela contava com 26 anos e foi trocada por uma mulher desquitada de 38 anos e três filhos.

Em 1963, a TV Excelsior abriu-lhe novas portas. Tornou-se a primeira mulher a atuar como locutora de telejornal no Brasil, dividindo bancada com nomes lendários como Luiz Jatobá e Sérgio Porto. Um ano depois, já participava de programas esportivos ao lado de João Saldanha, Nelson Rodrigues e Luís Mendes, transitando com naturalidade entre jornalismo, esporte e entretenimento. Frequentou também os palcos do Beco das Garrafas, epicentro da Bossa Nova, onde chegou a dividir espaço com Elis Regina.

Em 1965, escreveu seu nome definitivamente na história da televisão brasileira ao ser convidada para inaugurar a TV Globo como locutora de telejornais, ao lado de Hilton Gomes. Pouco depois, integrou a equipe da TV Tupi, onde permaneceu por mais de uma década e conquistou, ano após ano, o reconhecimento da crítica como a melhor voz do jornalismo televisivo.

Sua carreira foi marcada por convites singulares. O estilista Pierre Cardin chegou a convidá-la para ser manequim em Paris, mas ela recusou. Perguntei a razão de ter declinado o pedido de um monumento como Pierre Cardin, pedido cobiçado no mundo inteiro. Ela me disse que, no calor daquela vida profissional superativa, requisitada para tudo, não percebeu o quanto aquele convite tinha relação com ela e até mesmo o quanto era singular, pois enquanto o mundo se convidava, ela foi convidada. Mesmo assim, consolidou-se como uma profissional pioneira numa área singular, abrindo caminho para inúmeras mulheres na locução e no jornalismo televisivo.

Ainda em idade avançada, Íris renovou contrato com a Infraero, garantindo que sua voz inconfundível seguisse presente nos aeroportos do Brasil. Passageiros de Santos Dumont, Congonhas, Foz do Iguaçu, Galeão, Guarulhos, Manaus e, entre outros, ainda hoje podem ouvir suas gravações ecoando nas salas de embarque e desembarque. Paralelamente, mantinha um pequeno estúdio em casa, onde gravava comerciais e locuções para eventos, sempre fiel à profissão que a consagrou.

Entretanto, o brilho público nem sempre correspondia à realidade íntima. Nas nossas conversas, ficava claro que a doença a fragilizava. A mulher que fora referência nacional, premiada, aplaudida, cortejada, amiga de grandes figuras nacionais, se via diante da velhice e das doenças que nos fazem sumir de cena. Ela contou-me que muitos figurões conhecidíssimos nacionalmente, e que eram super amigos dela (cujos nomes não vou expor por questão ética) desapareceram de cena. Mas ela não contava isso com tristeza. Dizia que eles viviam muito ocupados, mas ao mesmo tempo, segundo ela, "cada um dá o que tem". Tudo isso me fez pensar sobre o quanto não sabemos sobre o nosso futuro e a que poderemos estar sujeitos...

Mesmo agora, tendo partido, Íris Lettieri permanece como um ícone da comunicação brasileira. Sua trajetória não se limita à história da televisão ou da aviação civil, mas se entrelaça também com a memória de sua família, especialmente de Guglielmo Lettieri - figura ligada aos eventos políticos que marcaram Natal em meados do século XX, tendo recebido em seu palacete, na Ribeira, notáveis figuras europeias. A história desse avô, pouco lembrada, corre o risco de se perder, assim como o acervo que Íris desejou me repassar.

Hoje, resta a esperança de que sua memória, tanto pessoal quanto familiar, não seja relegada ao esquecimento. Afinal, Íris foi mais que uma voz nos alto-falantes: foi pioneira, atriz, locutora, presença cativante nos lares brasileiros e testemunha de uma época de grandes transformações no país. 

Hoje, entrei em contato com algumas pessoas no Rio de Janeiro, pois, conseguindo o contato do viúvo de Íris, eu diria sobre a intenção dela de me doar o acervo de Guglielmo. Não acredito que alguém mais íntimo da família – que nesse momento deve estar dando-lhe apoio, saberia que Guglielmo teve uma história muito interessa a Natal (inclusive morreu aqui há muitos anos). Não acredito que o viúvo teria apego a essas coisas que muitos a chamam de "coisas velhas" e só fazem virar a gaveta num cesto e tudo vá parar em algum lixão no Rio de Janeiro. Não sei, mas seguirei tentando obter esse precioso material que, por legitimidade, pertence ao Rio Grande do Norte.

LEIA MAIS SOBRE IRIS LETTIERI, CLICANDO AQUI: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: IRIS LETTIERI MERECE UM BUSTO NO CENTRO DO RIO DE JANEIRO...


 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

HOJE, UMA GRANDE NOTÍCIA SOBRE O CASARÃO DE AMÉLIA DUARTE MACHADO...

 

Casarão de Amélia Duarte Machado

Nessa tarde morna de 27 de agosto, mês do folclore, vivi momentos emocionantes. Visitei o ancestral casarão da Fazenda Pitimbu, em Parnamirim, vivenciei uma experiência ímpar, graduada pela tendência a que o tempo nos convida: a de refletir sobre preservação de patrimônio histórico, memória, raízes e legado. Ali, no pátio empoeirado por lembranças, senti o sopro delicado da história, enquanto contemplava o imponente solar, guardião silencioso de múltiplas narrativas. Estávamos eu, representando o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, ao lado da ilustre vereadora Rárika Bastos, seu diligente assessor Erysson, representantes da construtora Ecocil, funcionários da Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo - SEMUR (arquiteta e urbanista Alyne da Cruz Santos de Lima e Jeane Evangelista Bezerra da Silva, desenhista e Historiadora) e, de forma ainda mais comovente, o senhor Humberto Mercucci - filho da emblemática Amélia Duarte Machado (1881-1981) -, sua neta Amélia e alguns bisnetos.


A visita havia sido gerada por minha Carta de Apelo enviada a todos os vereadores parnamirinenses no dia 13 de agosto último, documento este motivado por um telefonema de uma moradora do Jardim Planalto, cuja mãe foi empregada de Amélia Machado e viveu décadas no assobradado casarão que ainda resiste intacto. Essa senhora, que conheço a um bom tempo, me alertou para o risco iminente: uma empresa adquirira a fazenda e encontra-se fazendo intervenções na área. Ela temia que o casarão carregado de valorosa história pudesse ser demolido. 

Esse imóvel histórico simboliza muito mais do que um prédio antigo - representa a memória da família que doou parte das terras para a implantação da Base Aérea Norte-Americana, hoje Base Aérea de Natal. A magnitude dessa ação é pouco reconhecida, mas fundamental para entender a formação territorial de Parnamirim, cuja origem se entrelaça com as doações dos Machado. O casarão é a construção civil mais antiga e intacta de Parnamirim. O resto - excetuando o que está na área militar, foi demolido.

Nesse contexto, abracei a causa enviando à Casa Legislativa de Parnamirim uma carta de apelo, expondo o fato, sintetizando a significação desse precioso casarão, e pedindo intervenção urgente,  ao que a vereadora Rárika Bastos reagiu prontamente, engajando-se com maestria, articulou e mobilizou instituições municipais e dialogou com a Ecocil, que, surpreendentemente, já guardava intenção de preservar o casarão, embora ainda sem projeto para o mesmo.

Ao chegar, todos nos reunimos sob a sombra das inúmeras mangueiras: Rárika fez as devidas apresentações e apresentamo-nos mutuamente. Nesse instante, agradeci e parabenizei a todos, recordando textos que produzi sobre Amélia Duarte Machado e o espetáculo "Nísia Floresta Brasileiras Augustas" que escrevi e que enaltece o pioneirismo dessa mulher tão injustamente deturpada por uma maldosa lenda que não gosto de contá-la. Em seguida, a família gentilmente nos conduziu por pontos fascinantes da propriedade - o casarão majestoso, ruínas do engenho e da casa de farinha, e um engenhoso “bunker” que Amélia mandara construir durante a Segunda Guerra Mundial. Esses refúgios lembravam-nos do contexto bélico, quando Natal servia como ponto estratégico para aeronaves norte-americanas que chegavam e saiam com destino à África, mediante acordo entre os presidentes Roosevelt e Vargas, em que muitas famílias locais construíam bunkers precavendo-se junto às bases militares americanas.

Naquele cenário, o silêncio foi quebrado apenas pelo canto dos pássaros e pelos relatos entusiasmados e encantadores do senhor Humberto Mercucci e de sua filha Amélia. Humberto, com alegria contagiante, evocou a pureza cristalina do rio Pitimbu da sua mocidade, capaz de tornar visível uma agulha lançada em suas águas. Compartilhou, com nostalgia, o intenso cultivo de melado, rapadura e açúcar mascavo ali produzido. Amélia, a neta, emocionada, recordou com carinho os tempos de infância embalados naquele local paradisíaco, lembrando os “bolos de farinha” quentinhos com que se deliciavam à mesa da casa de farinha junto a outras crianças. Esses relatos nos permitiram perceber o quanto a maldade humana e mal intencionada sepulta histórias doces como a de Amélia Duarte Machado, pois Amélia, a neta, fala da avó com "suspiros poéticos e saudades", tendo em vista a amorosidade da avó.

Também nos acompanhou um homem cuja infância se entrelaça com a própria fazenda - seus pais foram caseiros. “Essa fazenda é parte da minha vida”, disse-me, comovido. “Sr. Alberto Mercucci nos ajudou muito — até casa nos deu; nem consigo medir o bem que ele fez por nós.” Foi esse senhor quem nos abriu o casarão: os corredores revelaram belas estampas de ladrilho hidráulico, janelas de madeira de lei, telhado muito alto e alguns móveis de época que quase sussurravam o passado. São peças que precisam ser restauradas mediante um patrocínio, pois Humberto revelou que o casarão já foi arrombado algumas vezes e levaram muita coisa. No último furto, levaram toda a fiação elétrica do imóvel.



O sr. Humberto Mercucci abriu um armário e me contou que Amélia Machado guardava ali os seus LP’s. “Era lotado de discos... parece que estou vendo ela pegando algum para ouvir”, contou. Essa experiência, para mim, foi como estar no passado. É indescritível. A forma como o filho fala da mãe, traduz muito. Percebi que Amélia Duarte Machado não foi rica apenas de bens materiais, mas de amor, e que isso foi repassado a eles de maneira abundante, pois notava-se a amabilidade de todos, inclusive dos bisnetos. Todos acolhedores.

O ponto mais reconfortante do dia foi saber que a Ecocil, longe de demolir o casarão, já trazia intenção de preservá-lo. Nossa visita lançou uma semente promissora: há entusiasmo e pluralidade de ideias para projetos museológicos e memorialistas que potencialmente revitalizarão aquele espaço histórico, em parcerias envolvendo profissionais diversos. E com toda certeza, estará fortemente ligada a ele a vereadora Rárika Bastos. Neste momento, sou impulsionado a agradecer imensamente à vereadora Rárika Bastos - única autoridade a responder à minha Carta de Apelo, prontamente. Parabenizo sua sensatez e o olhar visionário sobre o patrimônio histórico de Parnamirim. Não tenho palavras para agradecê-la.

Também deixo o registro sobre a importância de as instituições públicas e até mesmo privadas estarem sempre de mãos dadas em causas a favor do bem comum, ouvindo a sociedade, seus anseios, suas reivindicações e sugestões.

Encerramos a visita com fotografias em grupo. Contudo, a neta, com delicadeza, me pediu que não publicasse fotografias onde ela aparece, pois valoriza demais sua privacidade, inclusive nunca teve redes sociais, e mencionou que, no recente lançamento do livro “Viúva Machado: a grandeza de uma mulher”, de Elzinha Bezerra Cirne, ocorrido na Pinacoteca Potiguar, participou do evento, mas declinou de qualquer registro fotográfico, tendo feito esse mesmo pedido à autora. Respeitei sua solicitude, compreendendo que sua escolha deve ser honrada. Às 16 horas despedimo-nos, e constatei que, às 17h em ponto, chegava em casa com o sentimento de quem vivenciou um dia singular. Conforme disse, pessoalmente ao sr. Humberto e à sua neta Amélia “Esse dia foi um presente”. L.C.FREIRE, Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

UMA BREVE SÍNTESE SOBRE O ASPECTO VISINÁRIO DE AMÉLIA DUARTE MACHADO

Amélia Duarte Machado, nascida em Mossoró em 1881, assumiu posição de comando após a prematura morte do marido Manoel em 1934, tornando-se pioneira no empreendedorismo feminino potiguar - uma verdadeira pioneira empresarial em momento em que, nascia o mito da “Viúva Machado”, alimentado por preconceito e medo, mas que mascarou sua coragem real. Sua visão estratégica se manifestou em inúmeros empreendimentos: administrou a Despensa Natalense, sócia de um império de importação, exportação e comércio diversificado.

Durante a Segunda Guerra Mundial, tornou-se fornecedora da Base Aérea de Parnamirim, adaptando seus negócios às demandas da época. Doou terras que se tornaram fundamentais para a aviação e expansão urbana: a base aérea, bairros como Morro Branco, Nova Descoberta, áreas como Petrópolis e ainda estruturas como o Parque Aristófanes Fernandes e instituições como o Colégio Atheneu. Manoel, seu esposo, também foi visionário em investir em terrenos que, hoje, definem a geografia urbana da Região Metropolitana – mas foi Amélia quem, com firmeza e visão, deu continuidade ao legado. Além disso, a lenda terrível, que prefiro sempre não contá-la, é fruto do machismo e da sociedade patriarcal que não tolerava a figura de uma mulher no comando. Cabe a toda pessoa esclarecida, resgatar a verdadeira dimensão dessa mulher - sua grandeza, humildade e contribuição extraordinária à cidade, longe das sombras das lendas. 

 

Sr. Humberto Mercucci e sua neta


A visita contou com diversos seguranças da propriedade




Antigas camas de mola, intactas, peças museológicas a serem preservadas para um futuro museu.




Escrivaninha usada por Amélia Machado

O filho, Humberto, abre o armário e conta sobre os LP's da mãe.







A fazenda foi esquadrinhada por nós em seus detalhes mais significativos.

O sr. Humberto Mercucci disse que essa tamarineira tem mais de 200 anos.



Eu, Rárica e o sr. Humberto Mercucci (A pedido da filha dele, Amélia, a excluí da fotografia).







Nessa imagem vemos uma bisneta de Amélia Duarte Machado (de camiseta branca), o bisneto (de camisa rosa) e a bisneta, de camiseta preta, abraçada pela avó.



Em todo momento uma parada para aquela aula magna e única, protagonizada pelo filho Humberto Mercucci.



O caseiro atual que vive na localidade desde que nasceu


Do meio do mato a chaminé do engenho vai se revelando




As grossas paredes resistem, intactas. Ao lado, bisnetos de Amélia Duarte Machado.




Cada elemento que se revelava entre a mata, uma história de que viveu ao lado de Amélia Duarte Machado



Há uma informação de que a fazenda guarda um túnel e que há um 'bunker',  o que pode ser esse.

A chaminé resiste, imponente, intacta.




Uma peça de ferro que segurava o telhado do barracão.








 Abaixo: link do documento que enviei a todos os vereadores de Parnamirim no dia 13.8.2025:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: CARTA DE APELO ÀS AUTORIDADES COMPETENTES DE PARNAMIRIM, NATAL E INSTITUIÇÕES CULTURAIS E DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Texto que escrevi sobre Amélia Duarte Machado no dia 7.8.25:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: A DESCONSTRUÇÃO DO SILENCIAMENTO: AMÉLIA DUARTE MACHADO...

Texto que escrevi sobre Amélia Duarte Machado no dia 12.11. 2009:


Texto que escrevi sobre Amélia Duarte Machado no dia 24.5.2023:

Carta e Apelo aos vereadores de Parnamirim (a mesma acima), escrita em março de 2025 no blog PARNAMIRIM: TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: