ANTES DE LER É BOM SABER...
domingo, 14 de setembro de 2025
ADEUS, PROFESSORA NIVALDETE FERREIRA...
Ontem fiquei sabendo do falecimento da minha professora Nivaldete Ferreira (na fotografia, ela está abraçada comigo). Eu a conheci em 1993, quando vim transferido de São Paulo. Nivaldete Niva Ferreira foi uma professora marcante e singular. Digo isso porque, muito jovem, ela era muito ligada a nós, jovens. Fazíamos das imediações do DEART o nosso parque de diversão nos momentos convenientes. Até em árvores subíamos.
sexta-feira, 5 de setembro de 2025
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
ACTA NOTURNA - PARNAMIRIM: O QUE APARECEU PRIMEIRO, O RIO OU O LUGAREJO? - 3.9.2025
Nesse tempo os desenhistas de mapas (cartógrafos) percorriam os lugares a pé, e sobre lombo dos cavalos e jumentos costeavam as praias e apanhavam depoimentos de indígenas e outros europeus que se aventuravam nas florestas centrais do Brasil. Nesse empreendimento, conversavam com os índios e tomavam nota dos lugares, rios e acidentes geográficos - todos obviamente em línguas indígenas - e depois iam construindo os mapas. Com o passar do tempo os homens brancos foram aportuguesando os topônimos. Assim se chegou à palavra “Parnamirim”.
O topônimo originou-se das palavras indígenas, em tupi, “Paraná, que significa “rio”, e “Mirim”, que significa pequeno, conforme Teodoro Sampaio (1855-1937) e Câmara Cascudo (1897-1986). Na realidade a história diz que o nome veio do rio pequeno, rio que desaguava no Oceano Atlântico, emoldurado pelas roças de milho e macaxeira dos indígenas locais. Sabemos que historicamente, os homens brancos se instalavam em regiões próximas a rios e nascentes. E assim ocorreu nas imediações do "paraña-miri". Os aventureiros passaram a habitar ambas as margens e sempre usando o topônimo "paraña-miri" como identificação de lugar. Assim o rio foi emprestando seu nome ao que podemos chamar de lugarejo, e que, depois se aportuguesaria para Parnamirim.
| Mapa de Georg Marcgraf |
Nesses longínquos tempos o homem branco, ao chegar pela primeira vez em terras permeadas de povos indígenas, permaneciam reverberando os nomes lidos nos mapas antigos. Tal fenômeno era comum a todos os lugarejos brasileiros, cujos exploradores se serviam dos topônimos indígenas, perpetuando-o. Da mesma forma tem-se Pirangi (Pirangipepe: rio de peixe), Cajupiranga (caju vermelho), Japecanga (fruto do cipó de casca seca), Pitimbu (fumar) etc. O próprio município de Papary (município vizinho, hoje mudado o nome para Nísia Floresta) fazia divisa com natal, significando dizer que a área de Parnamirim já pertenceu a Nísia Floresta nos primórdios, conforme rezam os velhos decretos governamentais e documentos lidos por mim e que tratam das divisas dos municípios potiguares.
Não havia como batizar o lugarejo com outro nome, tendo em vista a denominação genuína do rio, a qual foi incutida naturalmente na memória dos ancestrais e dos que ali chegavam. O rio, como forte elemento geográfico, teve o seu nome naturalmente condicionado à localidade sem que possamos saber com exatidão quando passaram a usá-lo para - também - se referir ao lugarejo, mas, com certeza, esse nome ´secular.
Os habitantes se acostumaram com a palavra indígena, e nunca mais se pensou em mudá-la, aliás, séculos depois, na década de 1980, com o município já emancipado politicamente, deu a louca na mente de alguns vereadores que mudaram o nome para Eduardo Gomes. Mas não demorou muito. A população não achava doce o brigadeiro e, unanimemente, protestou, foi à Assembleia Legislativa e exigiu de volta o topônimo original. Assim Parnamirim voltou a ser Parnamirim.
Li um assento de casamento que me deixou surpreso, pois consta ter ocorrido em Parnamirim. Até aí, nada de extraordinário, mas ocorre que o casamento se deu no dia 7 de fevereiro de 1728 - há 297 anos -, o que nos leva a perguntar: existia Parnamirim em 1728? Ora, se está escrito é porque existia. Obviamente que não era município, mas um um lugarejo. A grande curiosidade é a seguinte: pertencia a São José de Mipibu ou a Papary (Nísia Floresta)? Veremos adiante.
O noivo, José Martins de Oliveira (nascido em 14 de novembro de 1702, e falecido em 1780), casou-se com Catherina Amorim Freire (nascida em 1704). Os padrinhos de batismo de José Martins de Oliveira foram: Manoel Rodrigues Taborda e Dona Joana de Barros Coutinho. E como testemunhas desse casamento constam: Cel. Teodósio Freire de Amorim e sua esposa Damásia Gomes da Câmara; e o Capitão Bonifácio da Rocha Vieira (filho de Teodósio da Rocha) e sua esposa Inácia Gomes de Freire (filha de Antônio Dias Pereira).
História, como sempre digo e todos sabem, é quebra cabeça. Vejam que o sobrenome do padrinho de José Martins é “Taborda”. Taborda é uma localidade de São José de Mipibu, situada na divisa com Parnamirim. Taborda significa “lugar de taboas”, uma planta aquática, comestível. Temos Taborda no Brasil todo, tanto a fruta quanto o sobrenome. Vai do cantor gaúcho Ivan Taborda, lá das bandas do Rio Grande do Sul ao Taborda do Rio Grande do Norte, como vemos.
O sobrenome Taborda carrega raízes profundas na Península Ibérica, embora sua origem seja alvo de debates entre os estudiosos. Alguns defendem que teria surgido na Galícia, mais precisamente em São Miguel de Taborda, enquanto outros apontam para uma matriz ainda mais remota: a língua dos guanches, povo nativo das Ilhas Canárias anterior à conquista castelhana no século XV, em cuja tradição taba significaria “rocha”.
Em território português, a referência mais antiga ligada a esse nome surge no século XIV. O fidalgo galego Garcia Rodriguez de Taborda, favorecido pelo rei D. Fernando (1345–1383), recebeu o cargo de alcaide de Leiria e o senhorio de Porto de Mós. A partir daí, o sobrenome começou a ganhar visibilidade em Portugal, sempre associado a famílias de prestígio e a territórios de importância estratégica.
A travessia do Atlântico ocorreu no século XVII, trazendo o sobrenome para o Brasil, vindo nas caravelas lusitanas. Pernambuco guarda um episódio emblemático: em 1654, na chamada “Campina do Taborda”, os holandeses formalizaram sua rendição, encerrando um período de ocupação. O topônimo da região remete a um pescador chamado Manuel Taborda, cuja presença se eternizou na história local.
Com o passar do tempo, o sobrenome espalhou-se por diferentes províncias brasileiras. Em Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, tornou-se comum entre diversas famílias. É no sul do país que se destaca a figura de Francisco Corrêa Taborda (1797–1869), neto do português Antônio Rodrigues Taborda, cuja trajetória encerra um ciclo que une as tradições ibéricas ao enraizamento definitivo em solo brasileiro. Por tudo isso suponho – acaso o sobrenome não seja um equívoco paleográfico – que Manoel Rodrigues Taborda era português ou filho de portugueses. Convém destacar que o Cel. Teodósio Freire de Amorim, que consta como testemunha deste casamento, era uma figura notável e muito rica da região, dono de propriedade e escravos.
Diante do exposto, é muito provável que esse casamento se deu na localidade de Taborda. O padrinho Manoel Rodrigues Taborda traz esse sobrenome das pias de Portugal ou o tomou emprestado da localidade? Sabemos que o povoado de Taborda, atualmente, fica na divisa dos municípios de São José de Mipibu e Parnamirim, portanto podemos supor que o rio que margeia esse povoado pode, originalmente ter tido o nome de rio Parnamirim e que o lugarejo assim se dominava, pois Parnamirim era localidade isolada, que, pelos documentos de época, em termos de divisas de municípios, não pertencia a Natal, mas a Papary ou São José de Mipibu, mas como o casamento se deu sob os paramentos da Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, pertencente a Natal, dá-se a impressão de que Parnamirim pertencia a Natal àquela época. Mas um detalhe é certo: quando vemos um assento de casamento datado de 1728, em Parnamirim, constatamos que o lugarejo já era reconhecido como topônimo a mais tempo do que se supõe.
O que se sabe sobre a origem do topônimo Parnamirim é que se trata de um rio, mas até hoje nunca precisaram qual rio é esse. Por Parnamirim também se sabe da existência de uma lagoa que está situada dentro da Base Aérea de Natal. Nesse local, conforme contam os velhos alfarrábios, Amélia Duarte Machado, a famosa “Viúva Machado” adorava fazer seus convescotes com o filho Humberto e os netos.
Fica para a próxima Acta Noturna um tratado sobre os limites geográficos que compreendem Natal e Papary – modificado várias vezes – quando, então, poderemos precisar a partir de que ano Parnamirim (bairro/lugarejo) passou a constar na geografia de Natal.
segunda-feira, 1 de setembro de 2025
A MULHER POBRE...
sábado, 30 de agosto de 2025
IRIS LETTIERI MERECE UM BUSTO NO CENTRO DO RIO DE JANEIRO...
Senhores Vereadores,
Escrevo-lhes movido por um sentimento profundo de reconhecimento e justiça histórica. Trago, por meio desta carta, a sugestão de que seja elaborado e aprovado um projeto para que a Prefeitura do Rio de Janeiro construa um busto em homenagem à notável Íris Lettieri nas imediações do centro do Rio de Janeiro. Tal gesto não se limitaria a um tributo simbólico, mas representaria o devido reconhecimento a uma mulher que marcou gerações com sua voz, sua postura e seu pioneirismo.
Íris Lettieri é nome incontornável quando falamos da comunicação brasileira. Primeira mulher a se destacar como apresentadora de televisão em um tempo em que o espaço feminino era tão limitado, ela não apenas abriu portas para outras profissionais, como também se consolidou como referência de competência e elegância no exercício da comunicação. Seu profissionalismo, aliado a uma dicção impecável e à serenidade de sua presença, a transformou em figura respeitada tanto no jornalismo quanto na locução oficial.
Entretanto, mais que a imagem de uma pioneira das telas, Íris se eternizou no imaginário coletivo por meio da sua voz marcante nos aeroportos brasileiros. Cada anúncio feito por ela carregava não apenas a informação objetiva do embarque, mas também um traço de acolhimento, de familiaridade. Quantos de nós, ao atravessar as salas de embarque e ouvir sua locução clara e inconfundível, não sentimos um misto de segurança e pertencimento? É uma memória afetiva que atravessa décadas, impregnada de ternura e de identidade nacional.
Por tudo isso, entendo ser mais que justa a proposta de erguer um busto em sua homenagem, a ser instalado em local de destaque no centro do Rio de Janeiro, onde a história e a cultura da cidade se entrelaçam com a vida cotidiana de seus habitantes. Um busto de Íris Lettieri não será apenas uma escultura: será a materialização de um legado, um ponto de encontro entre passado e presente, entre a memória individual e a identidade coletiva.
Assim, venho, com respeito e convicção, solicitar a Vossas Excelências que considerem esta proposta. Tenho a certeza de que o povo do Rio de Janeiro verá nesse gesto não apenas uma reverência a uma grande comunicadora, mas também a celebração de valores que precisamos cultivar: pioneirismo, profissionalismo e a força da memória afetiva que nos une.
Respeitosamente,
Luís Carlos Freire
LEIA MAIS SOBRE IRIS LETTIERI: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: IRIS LETTIERI, MAIS QUE A VOZ DOS AEROPORTOS, UMA BREVE HISTÓRIA...
sexta-feira, 29 de agosto de 2025
IRIS LETTIERI, MAIS QUE A VOZ DOS AEROPORTOS, UMA BREVE HISTÓRIA...
Em 2014, conheci
com meu filho F. a chamada “Casa da Suástica de Natal”, construída por Guglielmo Lettieri
em 1910, inclusive já escrevi um texto sobre esse imóvel no meu blog. À ocasião, fiquei
curioso para saber mais sobre a história desse italiano, que é avô de Iris
Littieri.
Algum tempo depois, após sucessivas
tentativas, cheguei até Iris Lettieri. Eu não imaginava nunca que aquela voz que ouvi no aeroporto era mais que uma voz. Ela se mostrou muito receptiva. Creio
que o fato de eu estar aqui no Rio Grande do Norte, onde seu avô passou a maior
parte da vida, inclusive faleceu em Natal, despertou nela memórias afetivas do
avô. Passamos a conversar muito sobre
a família, como quem se conhece há anos. Falávamos sobre assuntos afins, afinal precisei me apresentar também,
enviava fotografias daqui de Natal etc. Inclusive ela lia minhas postagens. Conversávamos sobre as publicações. Foi uma experiência muito amigável e respeitosa.
Guglielmo era
italiano, chegou a Natal ainda rapaz e construiu um dos mais imponentes palacetes
da Ribeira. Era um homem muito rico, inclusive cônsul da Itália em Natal. Sua
casa recepcionava as mais importantes figuras norte-rio-grandenses, inclusive
homens notáveis que vinham da Europa. Mas se sabe pouco sobre ele. É uma
história ainda a ser contada. E foi exatamente isso que me fez localizar Iris
Lititieri, tendo me surpreendido ao saber que ela era a mulher da “Voz do
Aeroporto”.
Conversamos até o ano passado, pois, inexplicavelmente, ela desapareceu de cena. Não respondia mensagens nem atendia telefone. Eu não sabia, mas isso se dava em virtude de ela estar doente, a ponto de ter se desligado do mundo digital. E o desfecho final, para minha decepção, foi a notícia chocante que assisti em plena 04h20, no HORA UM, da Globo. Fiquei profundamente abalado pela grandeza daquela mulher e pelo laço profundamente respeitoso de algo que posso dizer: uma amizade distante que nasceu.
Nas nossas últimas conversas – já balizados pela familiaridade – e sem que eu tivesse pedido, ela disse: “Vou separar algumas fotografias, pequenos objetos, souveniers e alguns documentos do meu avô e enviar para você, pois tenho certeza absoluta que você guardará bem esse acervo, dando-lhe uma finalidade justa”. Ela dizia que guardava aquele material como fosse o próprio avô dela, o qual ela o amou intensamente, inclusive falava dele com muito carinho. Nem acreditei no que ouvi. Fiquei muito feliz ao saber que herdaria esse material tão precioso para ela, que estava certa quando disse que eu o preservaria. Na mesma hora já me vi escrevendo uma bela matéria no meu blog, reproduziria o acervo recebido, faria fotografias desses pequenos objetos e, depois, doaria ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, pois ali estaria preservado para sempre. Não teria sentido algum esse material tão significativo ficar comigo, pois é de interesse do Rio Grande do Norte.
No curso dessa
amizade, ela falava sobre o avô, sempre uma lembrança, sempre uma
novidade, mandava fotografias, inclusive contou – achando graça – que Guglielmo escondeu o
governador Gurjão na caixa d’água da casa dele quando houve o levante comunista
(Imagine essa cena!). Ela Falava sobre a mãe, dona Júlia Amazonas, com muita
saudade e admiração. Tinha ojeriza da família do avô Guglielmo, pois ela era neta da
segunda esposa dele, quando, viúvo, se casou com dona Júlia (Futuramente,
separada, ela se casaria com o locutor da Rádio Cruzeiro do Sul, José Avelino
Costa, pai de Iris Luttieri Costa).
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| Íris com os pais |
O cenário político da época era conturbado.
Rafael Fernandes Gurjão governava o Rio Grande do Norte e, em 1935, a chamada “Intentona
Comunista” transformara Natal na primeira capital latino-americana sob domínio
revolucionário de orientação comunista, ainda que por poucos dias. A
insurreição coincidiu com a solenidade de formatura do Colégio Marista,
realizada no antigo Teatro Carlos Gomes — hoje Teatro Alberto Maranhão. Houve
tiroteios, quebra pau, tumultos, obrigando o governador e o secretário-geral do
Estado, Aldo Fernandes Gurjão, se refugiaram na residência Xavier Miranda e, em
seguida, buscaram proteção no Consulado da Itália, sediado justamente na casa
de Guglielmo Lettieri (foi então que o governador mergulhou na caixa d’água)
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| Iris na TV Tupi |
Esses anos de contato com Íris Lettieri
percebi sua personalidade vigorosa, marcada por opiniões firmes e postura
decidida. Era muito inteligente e pareceu-me uma mulher enérgica. Ainda muito jovem, ela chamou atenção no carnaval carioca, sendo
homenageada por uma escola de samba. Na ocasião, causou furor ao anunciar a
entrada da agremiação como se estivesse comandando o embarque de passageiros em
um avião - voz que era a trilha sonora das partidas e chegadas nos maiores
aeroportos do país.
Embora tenha sonhado inicialmente em ser
médica, o gosto pela boa dicção levaram-na a estudar técnicas de voz. Aos 16
anos, conciliava o trabalho de recepcionista com os estudos noturnos, quando
acompanhou a mãe - pianista - a uma apresentação na Rádio MEC. Curiosa, pediu
para testar um gravador e registrou sua voz. Pouco tempo depois, recebeu
convite para atuar como locutora na Rádio Metropolitana. Era o início de uma
trajetória notável.
Com apenas alguns meses de experiência, foi
incentivada a ingressar na recém-criada TV Continental. Em 1959, assinou
contrato e logo conquistou o Troféu Garota Propaganda, destacando-se não apenas
como locutora, mas também como atriz em peças de teleteatro. Nessa fase, viveu
um casamento breve com um engenheiro eletrônico ligado à televisão, que a levou
a Porto Alegre. Lá atuou em rádio e televisão, mas, após a separação, regressou
ao Rio de Janeiro. Ela contava com 26 anos e foi trocada por uma mulher
desquitada de 38 anos e três filhos.
Em 1963, a TV Excelsior abriu-lhe novas
portas. Tornou-se a primeira mulher a atuar como locutora de telejornal no
Brasil, dividindo bancada com nomes lendários como Luiz Jatobá e Sérgio Porto.
Um ano depois, já participava de programas esportivos ao lado de João Saldanha,
Nelson Rodrigues e Luís Mendes, transitando com naturalidade entre jornalismo,
esporte e entretenimento. Frequentou também os palcos do Beco das Garrafas,
epicentro da Bossa Nova, onde chegou a dividir espaço com Elis Regina.
Em 1965, escreveu seu nome definitivamente
na história da televisão brasileira ao ser convidada para inaugurar a TV Globo
como locutora de telejornais, ao lado de Hilton Gomes. Pouco depois, integrou a
equipe da TV Tupi, onde permaneceu por mais de uma década e conquistou, ano após
ano, o reconhecimento da crítica como a melhor voz do jornalismo televisivo.
Sua carreira foi marcada por convites
singulares. O estilista Pierre Cardin chegou a convidá-la para ser manequim em
Paris, mas ela recusou. Perguntei a razão de ter declinado o pedido de um monumento como Pierre Cardin, pedido cobiçado no mundo inteiro. Ela me disse que, no calor daquela vida profissional superativa,
requisitada para tudo, não percebeu o quanto aquele convite tinha relação com
ela e até mesmo o quanto era singular, pois enquanto o mundo se convidava, ela foi convidada. Mesmo assim, consolidou-se como uma profissional pioneira numa área
singular, abrindo caminho para inúmeras mulheres na locução e no jornalismo
televisivo.
Ainda em idade avançada, Íris renovou
contrato com a Infraero, garantindo que sua voz inconfundível seguisse presente
nos aeroportos do Brasil. Passageiros de Santos Dumont, Congonhas, Foz do
Iguaçu, Galeão, Guarulhos, Manaus e, entre outros, ainda hoje podem ouvir suas
gravações ecoando nas salas de embarque e desembarque. Paralelamente, mantinha
um pequeno estúdio em casa, onde gravava comerciais e locuções para eventos,
sempre fiel à profissão que a consagrou.
Entretanto, o brilho público nem sempre
correspondia à realidade íntima. Nas nossas conversas, ficava claro que a doença a fragilizava. A mulher que fora referência nacional,
premiada, aplaudida, cortejada, amiga de grandes figuras nacionais, se via diante da velhice e das doenças que nos fazem sumir de cena. Ela contou-me que muitos figurões conhecidíssimos nacionalmente, e que eram super amigos dela (cujos nomes não vou expor por questão ética) desapareceram de cena. Mas ela não contava isso com tristeza. Dizia que eles viviam muito ocupados, mas ao mesmo tempo, segundo ela, "cada um dá o que tem". Tudo isso me fez pensar sobre o quanto não sabemos sobre o nosso futuro e a que poderemos estar sujeitos...
Mesmo agora, tendo partido, Íris Lettieri
permanece como um ícone da comunicação brasileira. Sua trajetória não se limita
à história da televisão ou da aviação civil, mas se entrelaça também com a
memória de sua família, especialmente de Guglielmo Lettieri - figura ligada aos
eventos políticos que marcaram Natal em meados do século XX, tendo recebido em
seu palacete, na Ribeira, notáveis figuras europeias. A história desse avô,
pouco lembrada, corre o risco de se perder, assim como o acervo que Íris
desejou me repassar.
Hoje, resta a esperança de que sua memória,
tanto pessoal quanto familiar, não seja relegada ao esquecimento. Afinal, Íris
foi mais que uma voz nos alto-falantes: foi pioneira, atriz, locutora, presença
cativante nos lares brasileiros e testemunha de uma época de grandes
transformações no país.
Hoje, entrei em contato com algumas pessoas no Rio
de Janeiro, pois, conseguindo o contato do viúvo de Íris, eu diria sobre a
intenção dela de me doar o acervo de Guglielmo. Não acredito que alguém
mais íntimo da família – que nesse momento deve estar dando-lhe apoio, saberia
que Guglielmo teve uma história muito interessa a Natal (inclusive morreu aqui
há muitos anos). Não acredito que o viúvo teria apego a essas coisas que muitos a chamam de "coisas velhas" e só fazem virar a gaveta num cesto e tudo vá parar em algum lixão no
Rio de Janeiro. Não sei, mas seguirei tentando obter esse precioso material
que, por legitimidade, pertence ao Rio Grande do Norte.
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quarta-feira, 27 de agosto de 2025
HOJE, UMA GRANDE NOTÍCIA SOBRE O CASARÃO DE AMÉLIA DUARTE MACHADO...
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| Casarão de Amélia Duarte Machado |
Nessa tarde morna de 27 de agosto, mês do folclore, vivi momentos emocionantes. Visitei o ancestral casarão da Fazenda Pitimbu, em Parnamirim, vivenciei uma
experiência ímpar, graduada pela tendência a que o tempo nos convida: a de
refletir sobre preservação de patrimônio histórico, memória, raízes e legado.
Ali, no pátio empoeirado por lembranças, senti o sopro delicado da história,
enquanto contemplava o imponente solar, guardião silencioso de múltiplas narrativas.
Estávamos eu, representando o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do
Norte, ao lado da ilustre vereadora Rárika Bastos, seu diligente assessor
Erysson, representantes da construtora Ecocil, funcionários da Secretaria de
Meio Ambiente e Urbanismo - SEMUR (arquiteta e urbanista Alyne da Cruz Santos de Lima e Jeane Evangelista Bezerra da Silva, desenhista e Historiadora) e, de forma ainda mais comovente, o senhor Humberto Mercucci -
filho da emblemática Amélia Duarte Machado (1881-1981) -, sua neta Amélia e alguns
bisnetos.
A visita havia sido gerada por minha Carta de Apelo enviada a todos os vereadores parnamirinenses no dia 13 de agosto último, documento este motivado por um telefonema de uma moradora do Jardim Planalto, cuja mãe foi empregada de Amélia Machado e viveu décadas no assobradado casarão que ainda resiste intacto. Essa senhora, que conheço a um bom tempo, me alertou para o risco iminente: uma empresa adquirira a fazenda e encontra-se fazendo intervenções na área. Ela temia que o casarão carregado de valorosa história pudesse ser demolido.
Esse imóvel histórico simboliza muito mais do que um prédio antigo - representa a
memória da família que doou parte das terras para a implantação da Base Aérea
Norte-Americana, hoje Base Aérea de Natal. A magnitude dessa ação é pouco
reconhecida, mas fundamental para entender a formação territorial de
Parnamirim, cuja origem se entrelaça com as doações dos Machado. O casarão é a construção civil mais antiga e intacta de Parnamirim. O resto - excetuando o que está na área militar, foi demolido.
Nesse contexto, abracei a causa enviando à Casa
Legislativa de Parnamirim uma carta de apelo, expondo o fato, sintetizando a
significação desse precioso casarão, e pedindo intervenção urgente, ao que a vereadora Rárika Bastos reagiu
prontamente, engajando-se com maestria, articulou e mobilizou instituições
municipais e dialogou com a Ecocil, que, surpreendentemente, já guardava intenção
de preservar o casarão, embora ainda sem projeto para o mesmo.
Ao chegar, todos nos reunimos sob a sombra das
inúmeras mangueiras: Rárika fez as devidas apresentações e apresentamo-nos mutuamente.
Nesse instante, agradeci e parabenizei a todos, recordando textos que produzi
sobre Amélia Duarte Machado e o espetáculo "Nísia Floresta
Brasileiras Augustas" que escrevi e que enaltece o pioneirismo dessa mulher tão injustamente deturpada por uma maldosa lenda que não gosto de contá-la. Em seguida, a família gentilmente nos conduziu por
pontos fascinantes da propriedade - o casarão majestoso, ruínas do engenho e da
casa de farinha, e um engenhoso “bunker” que Amélia mandara construir durante a
Segunda Guerra Mundial. Esses refúgios lembravam-nos do contexto bélico, quando
Natal servia como ponto estratégico para aeronaves norte-americanas que chegavam e saiam com
destino à África, mediante acordo entre os presidentes Roosevelt e Vargas, em
que muitas famílias locais construíam bunkers precavendo-se junto às bases
militares americanas.
Naquele cenário, o silêncio foi quebrado apenas
pelo canto dos pássaros e pelos relatos entusiasmados e encantadores do senhor
Humberto Mercucci e de sua filha Amélia. Humberto, com alegria contagiante,
evocou a pureza cristalina do rio Pitimbu da sua mocidade, capaz de tornar
visível uma agulha lançada em suas águas. Compartilhou, com nostalgia, o
intenso cultivo de melado, rapadura e açúcar mascavo ali produzido. Amélia, a
neta, emocionada, recordou com carinho os tempos de infância embalados naquele
local paradisíaco, lembrando os “bolos de farinha” quentinhos com que se
deliciavam à mesa da casa de farinha junto a outras crianças. Esses relatos nos permitiram perceber o quanto a maldade humana e mal intencionada sepulta histórias doces como a de Amélia Duarte Machado, pois Amélia, a neta, fala da avó com "suspiros poéticos e saudades", tendo em vista a amorosidade da avó.
Também nos acompanhou um homem cuja infância se entrelaça com a própria fazenda - seus pais foram caseiros. “Essa fazenda é parte da minha vida”, disse-me, comovido. “Sr. Alberto Mercucci nos ajudou muito — até casa nos deu; nem consigo medir o bem que ele fez por nós.” Foi esse senhor quem nos abriu o casarão: os corredores revelaram belas estampas de ladrilho hidráulico, janelas de madeira de lei, telhado muito alto e alguns móveis de época que quase sussurravam o passado. São peças que precisam ser restauradas mediante um patrocínio, pois Humberto revelou que o casarão já foi arrombado algumas vezes e levaram muita coisa. No último furto, levaram toda a fiação elétrica do imóvel.
O sr. Humberto Mercucci abriu um armário e me contou que
Amélia Machado guardava ali os seus LP’s. “Era lotado de discos... parece que
estou vendo ela pegando algum para ouvir”, contou. Essa experiência, para mim,
foi como estar no passado. É indescritível. A forma como o filho fala da mãe, traduz muito. Percebi que Amélia Duarte Machado não foi rica apenas de bens materiais, mas de amor, e que isso foi repassado a eles de maneira abundante, pois notava-se a amabilidade de todos, inclusive dos bisnetos. Todos acolhedores.
O ponto mais reconfortante do dia foi saber que
a Ecocil, longe de demolir o casarão, já trazia intenção de preservá-lo. Nossa
visita lançou uma semente promissora: há entusiasmo e pluralidade de ideias
para projetos museológicos e memorialistas que potencialmente revitalizarão
aquele espaço histórico, em parcerias envolvendo profissionais diversos. E com
toda certeza, estará fortemente ligada a ele a vereadora Rárika Bastos. Neste
momento, sou impulsionado a agradecer imensamente à vereadora Rárika Bastos - única
autoridade a responder à minha Carta de Apelo, prontamente. Parabenizo sua sensatez e o olhar visionário sobre o patrimônio histórico de Parnamirim. Não tenho palavras
para agradecê-la.
Também deixo o registro sobre a importância de as instituições públicas e até mesmo privadas estarem sempre de mãos dadas em causas a favor do bem comum, ouvindo a sociedade, seus anseios, suas reivindicações e sugestões.
Encerramos a visita com fotografias em grupo. Contudo, a neta, com delicadeza, me pediu que não publicasse fotografias onde ela aparece, pois valoriza demais sua privacidade, inclusive nunca teve redes sociais, e mencionou que, no recente lançamento do livro “Viúva Machado: a grandeza de uma mulher”, de Elzinha Bezerra Cirne, ocorrido na Pinacoteca Potiguar, participou do evento, mas declinou de qualquer registro fotográfico, tendo feito esse mesmo pedido à autora. Respeitei sua solicitude, compreendendo que sua escolha deve ser honrada. Às 16 horas despedimo-nos, e constatei que, às 17h em ponto, chegava em casa com o sentimento de quem vivenciou um dia singular. Conforme disse, pessoalmente ao sr. Humberto e à sua neta Amélia “Esse dia foi um presente”. L.C.FREIRE, Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
UMA BREVE SÍNTESE SOBRE O ASPECTO
VISINÁRIO DE AMÉLIA DUARTE MACHADO
Amélia Duarte Machado, nascida em Mossoró em 1881,
assumiu posição de comando após a prematura morte do marido Manoel em 1934,
tornando-se pioneira no empreendedorismo feminino potiguar - uma verdadeira
pioneira empresarial em momento em que, nascia o mito da “Viúva Machado”,
alimentado por preconceito e medo, mas que mascarou sua coragem real. Sua visão
estratégica se manifestou em inúmeros empreendimentos: administrou a Despensa
Natalense, sócia de um império de importação, exportação e comércio
diversificado.
Durante a Segunda Guerra Mundial, tornou-se fornecedora da Base Aérea de Parnamirim, adaptando seus negócios às demandas da época. Doou terras que se tornaram fundamentais para a aviação e expansão urbana: a base aérea, bairros como Morro Branco, Nova Descoberta, áreas como Petrópolis e ainda estruturas como o Parque Aristófanes Fernandes e instituições como o Colégio Atheneu. Manoel, seu esposo, também foi visionário em investir em terrenos que, hoje, definem a geografia urbana da Região Metropolitana – mas foi Amélia quem, com firmeza e visão, deu continuidade ao legado. Além disso, a lenda terrível, que prefiro sempre não contá-la, é fruto do machismo e da sociedade patriarcal que não tolerava a figura de uma mulher no comando. Cabe a toda pessoa esclarecida, resgatar a verdadeira dimensão dessa mulher - sua grandeza, humildade e contribuição extraordinária à cidade, longe das sombras das lendas.
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| Sr. Humberto Mercucci e sua neta |
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| A visita contou com diversos seguranças da propriedade |
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| Antigas camas de mola, intactas, peças museológicas a serem preservadas para um futuro museu. |
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| Escrivaninha usada por Amélia Machado |
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| O filho, Humberto, abre o armário e conta sobre os LP's da mãe. |
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| A fazenda foi esquadrinhada por nós em seus detalhes mais significativos. |
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| O sr. Humberto Mercucci disse que essa tamarineira tem mais de 200 anos. |
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| Eu, Rárica e o sr. Humberto Mercucci (A pedido da filha dele, Amélia, a excluí da fotografia). |
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| Nessa imagem vemos uma bisneta de Amélia Duarte Machado (de camiseta branca), o bisneto (de camisa rosa) e a bisneta, de camiseta preta, abraçada pela avó. |
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| Em todo momento uma parada para aquela aula magna e única, protagonizada pelo filho Humberto Mercucci. |
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| O caseiro atual que vive na localidade desde que nasceu |
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| Do meio do mato a chaminé do engenho vai se revelando |
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| As grossas paredes resistem, intactas. Ao lado, bisnetos de Amélia Duarte Machado. |
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| Cada elemento que se revelava entre a mata, uma história de que viveu ao lado de Amélia Duarte Machado |
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| Há uma informação de que a fazenda guarda um túnel e que há um 'bunker', o que pode ser esse. |
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| A chaminé resiste, imponente, intacta. |
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| Uma peça de ferro que segurava o telhado do barracão. |
Texto que escrevi sobre Amélia Duarte Machado no dia 7.8.25:
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: A DESCONSTRUÇÃO DO SILENCIAMENTO: AMÉLIA DUARTE MACHADO...









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