Desde 1992 dedico-me à pesquisa da cultura popular nos municípios de Nísia Floresta e São José de Mipibu. Ao longo desse trabalho de história oral, relembro que em 1996, no povoado de Taborda, eu conversava com um senhor idoso chamado Calixtro, sobre Cultura Popular. Na verdade, era uma roda de conversa, pois algumas pessoas da fazenda se sentaram sob a mangueira.
Ele teve uma vida ligada a São José de Mipibu e Parnamirim, e foi nesse entrelaçar de caminhos que, pela primeira vez, ouvi a lenda da Viúva Machado, ainda que se trate de uma figura real. Ela era a esposa de Manoel Machado, um rico comerciante que doou as terras para construção do campo de pouso de aviões na década de 1920, hoje integrando a Base Aérea de Natal. Manoel Machado também cedeu grande parte da área onde se instalou o município de Parnamirim.
Essa lenda é intrigante: como uma mulher tão rica, esposa de um homem tão generoso, poderia tornar-se o centro de um enredo que a descreve como um monstro comedor de criancinhas? O que teria feito aquela mulher para atrair para si uma narrativa tão marcante? Como surgiu essa lenda?
Nesse encontro com o sr. Calixtro alguns nativos partilharam o pavor que sentiam quando ouviam falar da Viúva Machado. Curioso é que essas pessoas, mesmo adulta - e algumas idosas - pareciam nutrir ainda esse sentimento de medo. Eles contaram que seus pais diziam que ela vagava pelas matas locais de Parnamirim, frequentava a lagoa e um engenho próximo ao rio Pitimbu.
O tema, claro, intrigou-me profundamente: entre o registro histórico e a sensação de assombro que a história provoca, há uma linha tênue entre o que foi vivido, o que se repete nas vozes das pessoas e o que a pesquisa ainda não conseguiu decifrar. Também me chama a atenção que idosos contam a lenda com tom de mistério, ressaltando o quanto tinham pavor só de pensar em se deparar com a viúva Machado nos arredores de Parnamirim.
Depois fui pesquisar e encontrei a lenda escrita. Realmente é interessante, inclusive é uma lenda possível de datar a sua origem, pois surgiu após a morte do marido, quando ela se viu obrigada a assumir todo um império, pois eles eram muito ricos. Ela não entendia nada de administração e teve que aprender tudo para que o patrimônio não saísse pelo ralo e deu conta do recado. Já imaginou isso nas décadas de 30/40. Realmente a coisa foi difícil para ela, pois o maior obstáculo daquele tempo era o simples fato de ela ser mulher. Quantas mulheres administravam fortunas em Natal? Só ela! Creio que essa lenda não é difícil de se entender. Com certeza foi uma forma de destruí-la ou se vingar dela, algo do tipo. Aconteceu algo parecido com Nísia Floresta. Quiseram destruí-la com deploráveis calúnias devida à sua intelectualidade e o fato de ela lutar pela emancipação feminina.
Ao transpor essas lembranças para o papel, percebo que a pesquisa de cultura popular é, antes de tudo, uma escuta paciente. Não se trata apenas de confirmar fatos ou de atribuir uma “verdade” a uma figura, mas de ouvir as vozes que a cercam, entender os medos, as memórias e as perguntas que permanecem no ar. E, nesse processo, cada narrativa — mesmo aquela que parece ter o peso de um mito — revela mais sobre quem a conta do que sobre quem é contado. Ainda há muito a explorar, e cada encontro sob a sombra de uma manga lembra que o passado se faz vivo quando alguém o escuta com cuidado. Com certeza, Amélia Machado também foi vítima de grande injustiça. 7.7.2009
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