ANTES DE LER É BOM SABER...
terça-feira, 1 de abril de 2025
Há lugares em Natal que mais parecem saídos de um filme de terror...
domingo, 30 de março de 2025
Memórias de Alysgardênia C. M.F. Durante o Golpe Militar de 1964
O Golpe Militar de 1964
Era uma tarde aparentemente comum de 1964. Sessenta e um anos se passaram desde então, mas a lembrança daquele dia permanece viva, tatuada na memória de Alysgardênia como um eco distante e doloroso de um tempo sombrio (Essa história foi vivida por minha esposa e sempre há contextos em que ela aparece. Até hoje ela sente desconforto ao contá-la, mas entendo que é necessário jogar holofotes sobre a mesma, para que os jovens, principalmente, conheçam e saibam quão aterrorizante foi a Ditadura Militar no Brasil, essa página deplorável e - absurdamente - reivindicada por algumas pessoas insanas nesse último governo em que vimos o ex-presidente elogiar o maior torturador do Brasil e seu filho reivindicar o AI-5, alegando que com um cabo e um soldado é possível fechar o Congresso acional)... Vamos à História...
Dona Maria J. Albuquerque. M. seguia sua rotina habitual: dirigia-se ao Colégio Lins de Vasconcelos, na Praça dos Três Poderes, no coração de João Pessoa, para buscar suas filhas, Alysgardênia e Geuma, de cinco e quatro anos respectivamente. A praça, imponente e serena, abrigava o Palácio do Governo, o Tribunal de Justiça e a Assembleia Legislativa. O centro nervoso da capital.
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Palácio da Redenção (Palácio do Governo), João Pessoa, PB, onde elas se protegeram. |
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Dona Maria J. com as filhas Geuma (à esquerda) e Alysgardênia no fatídico dia que em João Pessoa estourou a Ditadura Militar, no mês de abril de 1964. |
O terror se instalou nos olhos de Alysgardênia e
Geuma. As pequenas começaram a chorar, agarrando-se à mãe, que, por sua vez,
sentia o coração pulsar descompassado. Para ela, tudo aquilo era um pesadelo
acordado. Foi nesse instante que, como um anjo surgido do céu, apareceu um homem.
Ele vestia o uniforme que ela percebeu se tratar de funcionário do Palácio do
Governo. Percebendo o pavor da jovem mãe e das crianças, ele se aproximou
rapidamente. Identificou-se, orientando-a a correr com as filhas para dentro do
Palácio, que logo foi fechado às pressas.
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Dona Maria J. com as filhas Geuma (à esquerda) e Alysgardênia no fatídico dia que em João Pessoa estourou a Ditadura Militar, no mês de abril de 1964. |
Ao deixarem para trás a Praça dos Três Poderes,
viram um cenário irreconhecível. O comércio fechava suas portas às pressas,
pessoas corriam desnorteadas, policiais militares e soldados do Exército
patrulhavam cada canto. Quando finalmente chegaram em casa, encontraram o Sr. Gustavo
M., marido de d. Maria J., angustiado. Ouvindo tudo pelo rádio,
ele acabara de chegar do trabalho e já se preparava para ir ao centro,
desesperado para encontrar a família. O alívio tomou conta dele ao vê-las sãs e
salvas.
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Alysgardênia no dia do seus 15 anos, tempos de chumbo... tempos em que ouvia horrores narrados por seus pais, como a vizinha que sumiu, levada pelos agentes da Ditadura Militar |
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Local onde se deu o episódio. |
O episódio deixou marcas profundas em Alysgardênia. Mesmo tendo apenas cinco anos, o trauma a acompanharia para sempre. Até hoje, ao contar a história, ela se emociona. E, em meio às memórias dolorosas, persiste a lembrança daquele homem - um desconhecido que, como um anjo anônimo, carregou duas crianças no colo e as levou para um lugar seguro, enquanto o Brasil mergulhava nas trevas. Vem a imagem da vizinha e a história do olheiro dos militares... tempos de medo...
O tempo passou, já adulta, Alysgardênia foi cursar Teologia em São Paulo. Certo dia entrou na sala um dos professores de uma das disciplinas... Esse homem era o Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, autor do Livro "Brasil Nunca Mais". Alysgardênia conta que suas aulas não eram aulas. Eram lições de sabedoria em todos os aspectos. No mesmo curso Alysgardênia ainda teve o privilégio de ter o padre Zezinho como professor.
Ainda em São Paulo, Alysgardênia participou do movimento DIRETAS JÁ, que surgiu em Alagoas e foi tomando conta do Brasil. Diretas Já foi um movimento político de cunho popular que teve como objetivo a retomada das eleições diretas ao cargo de presidente da República no Brasil, durante a ditadura militar brasileira. A possibilidade de eleições diretas para a Presidência da República no Brasil durante o regime ditatorial, se concretizou com a votação da proposta de Emenda Constitucional Dante de Oliveira pelo Congresso. No entanto, a proposta foi rejeitada, frustrando a sociedade brasileira. Ainda assim, os adeptos do movimento conquistaram uma vitória parcial em janeiro do ano seguinte quando Tancredo Neves foi eleito presidente pelo Colégio Eleitoral
O movimento ganhou massa crítica e reuniu condições para se mobilizar abertamente. E foi em São Paulo que a investida democrata ganhou força com um evento realizado no Vale do Anhangabaú, no Centro da Capital, em pleno aniversário da cidade de São Paulo – dia 25 de janeiro. Mais de 1,5 milhão de pessoas se reuniram para declarar apoio ao Movimento das Diretas Já e no meio dessa massa humana, lá estava Alysgardência com alguns amigos. O ato foi liderado por Tancredo Neves, Franco Montoro, Orestes Quércia, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Luiz Inácio Lula da Silva e Pedro Simon, além de artistas e intelectuais engajados pela causa. A essa altura, a perda de prestígio do regime militar junto à população era grande.
Tempos bons. Tempos diferentes do que foi a terrível ditadura militar...
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Evento ocorrido em João Pessoa durante a Ditadura Militar. |
Nasci no Mato Grosso do Sul, numa cidade cortada
por uma rodovia. Minha mãe costumava contar que, exatamente na época do
episódio narrado acima, os caminhões militares cruzavam a BR em longas
fileiras, carregando soldados e tanques. O golpe era o único assunto nas
rádios, anunciado de forma solene pelo Repórter Esso, na Hora do Brasil,
na voz grave que marcava os dias de medo.
O tempo passou, mas as cicatrizes da ditadura ainda
estão abertas. E, como a história insiste em se repetir, é preciso lembrar: o
golpe foi um golpe. A liberdade foi sufocada. O medo se tornou cotidiano. E a
democracia, por longos anos, foi apenas uma lembrança distante. Foram tempos de chumbo, de mortes, torturas e muita corrupção encubada...
PARA QUEM
DESCONHECE – NO CASO, OS JOVENS – EIS UMA SÍNTESE BREVE DO QUE FOI O GOLPE
MILITAR DE 1964...
Na noite de 31 de março de 1964, as forças
militares deflagraram um golpe que resultou na deposição do presidente João
Goulart. O governo democraticamente eleito foi derrubado sob a justificativa de
uma suposta ameaça comunista—uma narrativa fabricada e amplamente apoiada por
empresários, latifundiários, grandes veículos de comunicação e setores da
Igreja Católica.
Desde a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, os
setores conservadores já se moviam contra Goulart. Somente em 1963 ele
conseguiu retomar o regime presidencialista, mas sua postura progressista e
suas propostas de reformas estruturais alarmaram as elites. O comício na
Central do Brasil, em 13 de março de 1964, foi a fagulha final: diante de 150
mil pessoas, Jango anunciou medidas de reforma agrária e o controle das
refinarias privadas. A resposta foi rápida e organizada. No dia seguinte, a
oposição reuniu-se na “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, prenunciando
o golpe.
Na madrugada de 31 de março, os tanques tomaram as
ruas. João Goulart ainda tentou articular resistência, mas ao perceber que
aliados estavam sendo presos e que os Estados Unidos apoiavam os militares,
desistiu. Seguiu para Porto Alegre e, posteriormente, exilou-se no Uruguai.
Antes mesmo de sua saída do país, o presidente do Senado, Auro de Moura
Andrade, declarou vaga a presidência, passando o cargo interinamente para
Ranieri Mazzilli. Mas o poder real estava nas mãos dos militares, que
assumiriam o controle total do país.
O regime instaurado em 1964 perduraria por duas
décadas. Durante esse período, opositores foram perseguidos, presos, torturados
e mortos. A censura calou artistas, jornalistas e intelectuais. E os militares,
como sempre, tentaram reescrever a história, disfarçando o golpe como uma
necessidade patriótica. Alegavam estar salvando o país do comunismo, mas não
havia comunismo algum—apenas o desejo de manter o poder sob suas botas.
domingo, 2 de março de 2025
Roubo em igreja...
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OBS. Todas as imagens aqui postadas dizem respeito a essa reportagem. Não se tratam das igrejas mencionadas no texto. |
Antes de ontem assisti a uma reportagem sobre roubo em igreja. O fato se deu no Rio de Janeiro. O ladrão é pessoa conhecida naquele espaço, pois costumava decorar o templo, portanto tinha total liberdade para transitar ali sem despertar suspeita. O criminoso é colecionador de obras de Arte e tem um acervo impressionante (se não fosse tão ladrão).
Há pouco mais de um ano, vi uma postagen no no Instagran, em que uma figura muito conhecida e respeitada no Rio Grande do Norte mostrou um medalhão com a imagem de Nísia Floresta em bronze. É uma peça no diâmetro de um LP. Ele a adquiriu numa galeria de Arte no Rio de Janeiro. Identifiquei aquela peça no mesmo instante, bastou bater os olhos. Ele, no caso, não cometeu nenhum crime, mas digo com certeza absoluta que é uma peça roubada. Creio que pertencia ao Centro Norte-Rio-Grandense, pois tenho fotografias de uma exposição sobre Nísia Floresta que ocorreu ali em 1954 e esse medalhão está sobre uma mesa envolta por figuras potiguares notáveis, dentre elas o ex-presidente Café Filho. Esse medalhão foi confeccionado na França em 1851. Entrei em contato com a pessoa, expus o fato e o orientei a doá-la ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, mas a pessoa me ignorou. Nunca respondeu.
Excetuando esses
colecionadores e comerciantes de obras de Arte Sacra, o único local que possui
grandes acervos são as igrejas e, infelizmente, é o local preferido de colecionadores
criminosos. Uns pagam para roubarem. Outros vão em pessoa. Há, inclusive,
ladrões de obras de Arte em cemitérios também.
Pois bem, vendo essa
reportagem, me voltei para a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, tendo em vista
a dimensão do seu acervo e a falta de um esquema de vigilância eletrônica.
Fica a reflexão e a
sugestão.
sábado, 1 de março de 2025
Tarcísio Gurgel O informante da literatura potiguar
POR CID
AUGUSTO
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025
CRIME SEM CASTIGO
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Marco do aldeamento encontrado em Nísia Floresta |
MARCO DE PEDRA COM INSCRIÇÕES E DATADO DA ÉPOCA DOS ALDEAMENTOS DE SANTANA DE MIPIBU E NOSSA SENHORA DO Ó É ENCONTRADO APÓS 261 ANOS NO MUNICÍPIO DE NÍSIA FLORESTA.
Ontem fui surpreendido por uma postagem em rede social – sobre um singular achado arqueológico que até então encontrava-se ignorado há 267 anos no município de Nísia Floresta (antiga Papary), distando 42 km de Natal, Rio Grande do Norte. Trata-se de um marco de pedra com as seguintes inscrições
1758 Sª ANNA INDIOS
Coincidentemente o então município de VILA DE SÃO JOSÉ DO RIO GRANDE foi criado pelo alvará de 3 DE MAIO DE 1758, exatamente no ano em que fizeram as inscrições nessa peça. A pedra pode ser cantaria, mas também aparenta ser um pedaço de arrecife.
Sempre entendi o centro de Nísia Floresta - principalmente - como um grande sítio arqueológico, mas até então nenhuma escavação foi feita ali. Quando vi as fotografias, minha alegria agigantou-se. Pensei em entrar em contato com a Arquidiocese de Natal, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, IPHAN, Fundação José Augusto e com o arqueólogo Pedro Tadeu de Carvalho Albuquerque, que descobriu os restos mortais de André de Albuquerque Maranhão, quando restaurava a antiga igreja Matriz de Natal. Mil pensamentos ferveram na mente, mas, conforme meus olhos foram correndo no texto, a decepção aumentava, conforme explicarei. A informação é de interesse do Brasil, mas para a Igreja Católica ela tem uma significação muito especial. Fiquei pensando a felicidade do arcebispo e a equipe que trabalha com História na Arquidiocese. Eles se deslocariam para Nísia Floresta no mesmo instante, pois isso interessa ao Brasil. Motivo de notícia nacional.
Desconheço a existência de um marco como esse em se tratando de missões religiosas em aldeamentos. É uma peça singular. Um marco. Um recorte precioso da História do Brasil revelada numa pedra. Nem as missões do Rio Grande do Sul, nem no Uruguai e Paraguai existe um marco como esse. Uma peça civil religiosa com datação e localização da aldeia de Santana do Mopobu de Nossa Senhora do Ó.
Exemplo de inscrição em pedra na Europa, datada de 1158.
Imagem ilustrativa. OBS. A pedra, abaixo também tem o mesmo caráter. |
Para entendermos a preciosidade desse achado arqueológico é fundamental direcionarmos todos os holofotes para o período do BRASIL COLÔNIA (1530 a 1822) e o que acontecia especificamente nessa região à ocasião. Lembrando que o achado arqueológico se deu em Nísia Floresta quando essa localidade pertencia a São José de Mipibu.
Esse achado arqueológico registra a presença do Aldeamento dos indígenas de Santana de Mipibu, o que justifica estar esculpida a palavra “SANTANA”, e tenho quase certeza que a peça foi esculpida pelos FRADES CAPUCHINHOS, tendo em vista que eles literalmente residiam em ambas as localidades, administrando-a nesse período.
No período colonial, os homens públicos/políticos oriundos de Portugal, que se instalavam em Natal para administrar o Rio Grande do Norte, sofriam consequências sérias da hostilidade dos povos originários e tinham dificuldade em aceitá-los como eram. Assim, passada a chegada dos portugueses e a fundação da Fortaleza dos Reis Magos, a Coroa Portuguesa manifestou profunda preocupação na evangelização dos pagãos e dos não-cristãos que habitavam toda a região. Desse modo, eles reivindicaram a Portugal a presença de ordens religiosas na colônia.
Os padres jesuítas e franciscanos chegaram ao Rio Grande do Norte em 1597, quinze anos antes dos CAPUCHINHOS, e passaram a realizar Missões Itinerantes nas comunidades indígenas, evangelizando e administrando sacramentos para que os nativos se comportassem segundo os preceitos cristãos e fossem aceitos pelos portugueses. As primeiras Missões Itinerantes em solo potiguar, tiveram início justamente em 1597, pelas mãos dos padres Gaspar de Samperes e Francisco de Lemos, que visitavam as aldeias situadas às margens dos rios Potenjy e Jundiay.
No relatório do espião holandês Adriano Wedouche, escrito em 1630, dirigido ao Conselho Político do Brasil Holandês, constava que "existiam na capitania cinco ou seis aldeias que reunidas podiam contar de 700 a 750 índios flecheiros e que a principal flecha era chamada de Mopebu". Em sua descrição ele apresenta essa aldeia como a maior, mais populosa e a principal entre as seis aldeias da Capitania do Rio Grande do Norte.
Os habitantes originais dessa região eram os indígenas Tupis que habitavam as proximidades do rio Mipibu. Nesse tempo os FRADES CAPUCHINHOS, que haviam chegado oficialmente (ao Brasil) em 1612, começaram a atender algumas colônias em alguns pontos do Nordeste, predominantemente no Maranhão.
Como a região onde se desenharia São José de Mipibu e Nísia Floresta apresentava sinais bem delineados de povoamento de portugueses e indígenas, os FRADES CAPUCHINHOS passaram a coordená-las até o final do século XVII, precisamente até o ano de 1762, quando foi instalada a VILA DE SÃO JOSÉ DO RIO GRANDE DO NORTE. A partir desse ano os nativos assumiram a condução da vila e os CAPUCHINHOS se desligaram da aldeia após quase 80 anos de atividades, sendo o Frei Annibale de Genova, o último padre capuchinho a administrar São José e Papary.
Na verdade, em 1681, a junta das missões deliberou que as aldeias indígenas fossem administradas pelos jesuítas, mas isso não se efetivou.
Em 1736, a aldeia de Mipibu recebeu a denominação de MISSÃO DE NOSSA SENHORA DE SANT’ANA DOS CABOCLOS DE MIPIBU, em terras onde atualmente é o município de Nísia Floresta, sob administração dos padres Capuchinhos que literalmente residiam no local. Nessa ocasião foi feita uma nova demarcação de terras, cuja Missão foi instalada em local diferente, na área atual da cidade de São José de Mipibu.
No local anterior, por volta de 1722, os missionários italianos fundaram uma missão capuchinha e deram continuidade à construção da Igreja Nossa Senhora do Ó na freguesia de Papary, concluída 52 anos depois, em 1755.
No final do século XVIII, a missão capuchinha de São José de Mipibu passa da condição de aldeia para vila. Concluída a construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, a missão foi deslocada para São José. Apesar de a Vila de Papary até então contar com suas lideranças locais, ela passa a depender, política e administrativamente, da vila de São José.
O padre Annibale de Genova, ao deixar São José e Papary no ano de 1762, descreveu Papary da seguinte forma
“Esta aldeia foi construída sob a direção dos nossos missionários com a forma de uma praça de armas, com as casas todas unidas à maneira de um quartel de soldados. A aldeia está situada numa planície muito grande, sendo as casas dos oficiais situadas nos cantos e bastante mais altas que as outras, com duas portas uma ao lado da outra pelas quais se entra e se sai. Há uma igreja bastante grande e bem fornecida de todos os ornamentos necessários e muito decentes”.
Em 1833 foi criada a paróquia Nossa Senhora do Ó, desmembrada de Sant’Ana de Mipibu. O nome “Santana” (conforme consta no citado achado arqueológico), reforça a forte relação religiosa, administrativa e econômica com São José de Mipibu. A emancipação política de Papary se deu em 1852, quando passou a se chamar Vila Imperial de Papary, separando-se de São José do Rio Grande. Em 1º de fevereiro de 1890, com o fim do regime imperial no Brasil, no ano anterior, a denominação “Papary” passou à denominação de Vila de Papary. No dia 29 de março de 1938, tornou-se Cidade de Papary. Em 1948, após um abaixo-assinado feito por um professor (essa história está neste blog), atendendo aos anseios da população insatisfeita com apelidos e piadas decorrentes da denominação papary, o projeto chegou a Assembleia Legislativa e se tornou lei por intermédio do deputado Arnaldo Barbalho Simonetti.
Com relação a São José, a definição de “município” deu-se pelo alvará de 3 de maio de 1758 (ano desse achado arqueológico, como vimos), instalado em 22 de fevereiro de 1762, com a denominação de VILA DE SÃO JOSÉ DO RIO GRANDE. A mudança de distrito para município ocorreu 30 anos depois, em 1788. Em 16 de outubro de 1845, a vila de São José do Rio Grande foi elevada à categoria de cidade, então denominada cidade de Mipibu. Em 1855, a cidade recebeu o nome de São José de Mipibu.
Pois bem, achei coerente situar os fatos e fazer uma síntese sobre a história local para que o leitor que desconhece os fatos entenda melhor o valor histórico desse achado arqueológico. Não vejo o local onde ele foi encontrado como um sítio onde possam existir outros elementos significativos. Não descarto a existência de outras preciosidades, mas essa pedra, por ser um marco, supostamente, resistiu solitariamente ali, como também ocorreu com o Marco de Touros, que, embora fosse uma pedra em formato de totem – ou pilar – bastava ela para marcar o episódio. É certo que na área onde foi encontrada a pedra com as inscrições, também foi encontrado um penico aparentemente de louça, mas são peças, aparentemente, de tempos diferentes.
O mais deplorável desse fato é que a pessoa que trouxe à baila essa descoberta – e que não quer informar o local exato nem o nome do proprietário – por temer represálias, informou que o fato se deu há nove anos – ou seja, em 2016 –, e só agora ela tornou público. Para piorar, também informou que no dia que houve esse achado ela foi chamada para ver, mas antes que chegasse ao local ambas as peças foram destruídas. O proprietário, que segundo ela “é pessoa esclarecida”, mandou quebrar tudo, temendo que o IPHAN embargasse as obras que ele realizava na propriedade. Esse homem não tem noção do crime e da estupidez que ele fez.
Como já expus, desconheço a existência de um marco como esse em se tratando de missões religiosas em aldeamentos. É algo singular. Um marco. Um recorte precioso da História do Brasil revelada numa pedra. Nem as missões do Rio Grande do Sul, nem no Uruguai e Paraguai existe um marco como esse. Uma peça civil religiosa com datação e localização da aldeia de Santana do Mopobu de Nossa Senhora do Ó. Não sei o que impacta mais, se a notícia gloriosa da descoberta desse marco ou se a fatalidade da estupidez de sua destruição. Fica aqui o meu repúdio a esse senhor que deixou de dar uma contribuição impagável ao Brasil, à história da Igreja Católica, ao IPHAN, ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Esse foi um terrível sado de um crime sem castigo.
Por questão de ética não revelarei o nome da pessoa que me trouxe essa informação, pois ela deixou esclarecido que teme sofrer represálias. Estou publicando este texto porque ela tornou públicas as fotografias e o texto dela em sua rede social. Não sei se hoje os fragmentos dessa peça estão debaixo de algum comércio, de alguma casa, alguma calçada ou cerâmica do quintal. Também não acredito que essa peça esteja reduzida a pó, pois é uma pedra, mas devo documentar esse fato para que no futuro outra geração a reencontre e aja com civilidade, salvaguardando esse tesouro. E então isso será uma notícia de repercussão nacional. É a esperança que tenho.
Eu estou sob choque. Confesso que escrevi este texto com dificuldade e nem o revisei, pois hoje foi um dia muito cheio para mim. Sentei-me me para escrever há uma hora mais ou menos, quando me desocupei de coisas do trabalho. É algo que não tem mais jeito. A monstruosidade do que foi feito é imperdoável, e justamente por sê-lo, faço questão de pelo deixar registrado nos anais da história. Antes eu nunca tivesse tomado conhecimento disso, pois o que os olhos não veem, o coração não sente. Cumpro aqui o dever moral de registrar o fato para, pelo menos torná-lo, de fato, público, assim, “contribuir” com a história do nosso país. Essa peça, hoje, mesmo debaixo de algum alicerce, tanto pode estar inteira (pois pode ter sido blefe do dono da propriedade) ou quebrada. Mas está no local onde foi descoberta. Infelizmente não tomei conhecimento em tempo real, quando, com certeza, eu teria registrado a ocorrência na Polícia Federal, em Natal e na Delegacia de Polícia de Nísia Floresta, impedido, mesmo sob força policial, ou que até fosse aos extremos, impedindo que tal crime se configurasse, mesmo que fosse apenas para recolher os fragmentos. LUÍS CARLOS FREIRE – SÓCIO-EFETIVO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE, 20 DE FEVEREIRO DE 2025.
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