ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

domingo, 8 de março de 2026

QUANDO A FAMÍLIA FALHA, É NO JARDIM DA INFÂNCIA QUE O MENINO COMEÇA A RESPEITAR A IMAGEM FEMININA...

 


NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER É PRECISO PENSAR...
Hoje li sobre dois feminicídios que aconteceram no Mato Grosso do Sul, estado do meu nascimento, ironicamente no Dia Internacional da Mulher. Confesso que, por mais constrangedor que pareça, às vezes penso que a Lei Maria da Penha e todas as formas institucionais vistas nos últimos anos, abordando reflexões sobre o respeito necessário à mulher - inclusive a data de hoje - não tem sido tão eficientes, pois todos os dias vemos nas redes sociais diversas formas de violência contra a mulher, inclusive feminicídios quase que diariamente. Esse horror parece normalizado.
As estatísticas oficiais e os levantamentos de organizações da sociedade civil apontam que o feminicídio permanece como uma chaga no Brasil, uma violência que não cessa e que se concentra nas periferias, nas casas e nas ruas por onde circulam nossas filhas, irmãs, mães, amigas. No Rio Grande do Norte, e em especial em Natal, esses números e relatos ecoam com violência própria: famílias destroçadas, vizinhanças assombradas, uma sensação coletiva de vulnerabilidade que não podemos naturalizar. É urgente lembrar que cada número é um corpo, uma história interrompida.
Escrevi, em 2024, um espetáculo intitulado NISIA FLORESTA BRASILEIRAS AUGUSTAS; seu enredo tentou dialogar com essa ferida, revisitar Nísia Floresta, sua coragem e sua voz desde 1832, para perguntar ao presente por que a igualdade ainda tarda. Nísia ensinou que questionar a ordem era já uma forma de amor. Bertha Lutz, décadas depois, empilhou argumentos científicos e políticos que ajudaram a abrir lacunas nas estruturas; hoje encontramos teóricas e ativistas contemporâneas, como Rita Segato, que analisa a raiz da violência patriarcal; Flávia Biroli, que pensa gênero e democracia; e outras intelectuais que oferecem ferramentas para compreender e agir, apontando não apenas culpados, mas sistemas que reproduzem a violência.
Há algo muito errado nessa história e precisamos saber o que é para consertar. Na minha santa ignorância, observo que as leis e, consequentemente, as punições são eficientes. A própria Lei Maria da Penha é exemplo até para outros países, mas ela precisa andar de braços dados com algo que parece estar esquecido. Me refiro à educação, ou melhor, às escolas. É necessário um projeto pedagógico que aborde o necessário respeito às meninas a partir do jardim da infância. Os meninos precisam ser provocados a entender que todos merecem respeito, tanto eles (por parte das meninas) quanto as meninas (por parte deles). Esse assunto precisa urgentemente estar dentro de todas as salas de aula.
A sociedade, e por consequência, as crianças, tem recebido os resquícios de uma educação patriarcal do século XX, pautada pela ideia equivocada de que a mulher é um ser inferior, e isso, por si, instiga o menino que, desde pequeno, já massacra a menina. E assim massacrará a mulher adulta. A menina cresce com medo dos meninos, sendo orientada pela mãe, a tomar cuidado com os meninos, como se menino fosse sinônimo de ser um ser depravado, violento, perigoso. E as mães não estão erradas de todo, pois infelizmente, é grande a parcela de casos, cujos homens agridem, violentam e matam.
Eu e meus irmãos, por exemplo, éramos orientados pelo meu pai a não nos demorarmos na cozinha, pois era lugar de mulher. Ora! Justo a cozinha, um lugar tão aconchegante, cheiroso, cheio de sabores, cheiros, calor humano e conversas demoradas. Pois bem, meu pai não gostava que ficássemos ali, mas, aos poucos, tornando-nos adolescentes, fomos quebrando a regra, ajudando nossa mãe a fazer pão, doces, licores, enfim, lavando louça, lavando a cozinha etc. E assim, naturalmente, fomos desconstruindo esse machismo desnecessário do nosso pai. E, obviamente, que ele fingia que não via, afinal não havia nada de errado em estar na cozinha ajudando a mãe. Creio que o que ajudou também essa desconstrução foram as guloseimas que ele se deliciava depois . Meu pai não era violento com nossa mãe. Apenas não gostava de homem na cozinha. Ele nasceu em 1924 (há 102 anos), portanto herdou uma educação do século XIX. Imagine a educação!
O que estranho é estarmos em pleno século XXI e vermos pessoas com a mente parada nos séculos passados, praticando violência psicológica, física e até feminicídio. Isso não é normal e precisa ser combatido. A mesma eficiência da Lei Maria da Penha precisa estar presente nas escolas, nos anos iniciais. O assunto deve ser abordado sem medo, pois é na infância que a criança está construindo o seu alicerce. E alicerce firme e bem feito é alicerce em que a criança é civilizada. Um homem civilizado respeita a mulher.
O menino deve aprender a respeitar a amiguinha, a irmã, a mãe, a tia, a avó, a vizinha e, depois, adolescente, respeitar a namorada e a esposa. Um menino educado a ser civilizado com as meninas se tornará um marido que respeitará a mulher como esposa, como profissional, como namorada e tudo mais. O homem civilizado terá consciência de que a namorada ou a esposa não lhe pertence e que ele deve respeitar seus gostos pessoais e sua decisão, inclusive o rompimento de um namoro ou casamento, assim como a mulher deve agir da mesma forma com relação ao homem. Um problema comum, ultimamente, é justamente o contrário disso, cujo homem mata a mulher porque ela decidiu por fim ao relacionamento amoroso. Isso é de uma estupidez sem tamanho.
Vejo também um fato curioso que ora ocorre. Refiro-me ao próprio presidente da república levando esse assunto para onde vai, abordando-o seja numa feira agropecuária, na entrega de casas, numa reunião com empresários etc. Uma espécie de bandeira. Isso não é ruim, mas assinala que a atual realidade da mulher preocupa. Isso, além de significar preocupação, sinaliza que o país inteiro está sendo forçado a olhar para um problema que cresce. Mas, admitamos, o discurso público não substitui políticas públicas educativas profundas, tampouco a construção de políticas contra violência contra as meninas a partir dos anos iniciais, portanto, dentro das escolas. Precisamos que o Estado e a sociedade invistam em formação docente, em materiais pedagógicos, em projetos transversais que trabalhem empatia, respeito e responsabilização desde os primeiros anos.
Por fim, lembro que a luta por direitos não é apenas legal, é cultural. Celebrar Nísia Floresta e lembrar Bertha Lutz é também chamar à ação: a escola, a família, os museus, os teatros, o próprio ato de contar histórias como fiz no espetáculo, devem ser arenas onde se planta outra forma de conviver. Não podemos aceitar que o horror se naturalize. Exigir leis e punir é necessário; semear respeito e humanidade desde a infância é imprescindível. E a escola é o panteão maior da civilidade, portanto o elejamos como local de ensinar o amor entre meninos e meninas e vice versa. Só assim construiremos uma sociedade onde a vida das mulheres não seja risco cotidiano, e onde Natal, o Rio Grande do Norte e todo o Brasil deixem de contabilizar tragédias para começar a contar histórias de igualdade e cuidado.
Elaborei um projeto - nesses moldes - e o enviarei para a Câmara Municipal de Natal, para a Câmara Fedral e Senado. É certo que é na família que recebemos a educação de berço, onde aprendemos a ser pessoas civilizadas, mas em existindo a Lei Maria da Penha, que pune exemplarmente cidadãos que não foram bem educados na infância, e que absorveram a ideia errônea sobre amulher, não seria incorreto que os jardins de infância andassem de mãos dadas com Maria da Penha.

QUANDO A FAMÍLIA FALHA, É NO JARDIM DA INFÂNCIA QUE O MENINO COMEÇA A RESPEITAR A IMAGEM FEMININA.

segunda-feira, 2 de março de 2026

EU TAMBÉM CHORAREI PELO IRÃ...



Li, antes de ontem uma manchete do jornal O Estado de S. Paulo - pasmem - afirmando que “ninguém vai chorar pelo Irã”, o que mais inquieta não é apenas a frase em si, mas o que ela revela: a tentativa de hierarquizar a dor humana. Como se houvesse povos dignos de luto e outros condenados à indiferença. Como se a compaixão pudesse ser seletiva, distribuída segundo conveniências políticas.
Não se trata de defender governos, tampouco de blindar regimes de críticas. Estados devem, sim, ser questionados. Mas há uma fronteira moral clara entre analisar decisões políticas e negar humanidade a uma população inteira. Quando bombas atingem escolas, hospitais e bairros residenciais, não estamos diante de abstrações ideológicas, estamos diante de crianças, idosos, trabalhadores, professores. Estamos diante de vidas interrompidas.
A simplificação dos conflitos internacionais facilita narrativas maniqueístas: de um lado, o “mundo civilizado”; do outro, o “inimigo”. Ao longo do século XX e neste início de século XXI, consolidou-se a ideia de que certas potências teriam a missão de “corrigir” ou “redirecionar” países considerados problemáticos. No entanto, por trás do discurso moralizante, repetem-se interesses estratégicos bastante concretos: rotas comerciais, influência geopolítica e, sobretudo, controle de recursos naturais: petróleo, gás, minérios raros.
A história recente é eloquente. As explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki aniquilaram populações civis. Dresden foi devastada sob o argumento da guerra total. O Vietnã ardeu por anos. O Iraque e o Afeganistão conheceram invasões que prometeram estabilidade e deixaram fragmentação. A Líbia mergulhou no colapso institucional. A Síria tornou-se palco de uma guerra prolongada. A Palestina segue vivendo uma tragédia contínua. Em muitos desses cenários, a promessa de libertação resultou em destruição, deslocamentos forçados e gerações traumatizadas. No caudal disso tudo, o ponto principal é matar os presidentes/líderes dos países que querem “salvar”.
Mais recentemente, por exemplo, a Venezuela também foi envolvida em discursos grandiosos. Durante o governo de Donald Trump, anunciou-se que haveria uma mudança que devolveria prosperidade ao país. O que se viu, porém, foi a intensificação de disputas em torno do petróleo venezuelano , riqueza cobiçada há décadas. E o que houve depois? Estão vendendo milhões de litros e colocando o dinheiro no bolso dos EUA. E os venezuelanos que se explodam. Enfim, a intenção verdadeira é saquear, enquanto tudo mais continua igual. Mudam-se as narrativas; persistem os interesses.
É nesse contexto que muitos líderes de países pressionados externamente endurecem o discurso e a postura. Transformam-se, aos olhos do mundo, em “leões”, em “monstros”. Rugem, tensionam, enfrentam sanções e isolamento. Tornam-se figuras odiadas no cenário internacional. Mas por quê? Em parte, porque compreendem que a fragilidade pode ser interpretada como convite à intervenção. Quando um país possui reservas estratégicas ou posição geopolítica relevante, a soberania passa a ser constantemente testada. Defender-se, ainda que com retórica áspera, torna-se uma estratégia de sobrevivência nacional.
Também é preciso dizer que parte da imprensa abandona o compromisso com a complexidade e passa a noticiar segundo filtros ideológicos rígidos. Há jornalistas que não informam: militam. Não contextualizam: selecionam. Não explicam as causas históricas, econômicas e estratégicas de um conflito; apenas reforçam rótulos já prontos, atendendo a lobbys de alguns estados e países. Vejam o holocausto na Palestina. Quem é o autor? Quando a notícia nasce contaminada por preferências políticas, os fatos são distorcidos, simplificados ou omitidos. O público deixa de receber análise e passa a consumir narrativa.
O Irã é uma das nações mais antigas do mundo, herdeiro de civilizações milenares que ajudaram a moldar os alicerces da cultura, da política e do conhecimento humanos. Berço de impérios, arte refinada e pensamento sofisticado, sua contribuição para a história da humanidade é imensa e, por isso, merece o respeito de todos. Se falam do Irã, por exemplo, raramente se dedicam a explicar por que seu líder supremo, Ali Khamenei, adotou uma postura considerada radical por muitos no cenário internacional. Pouco se discute que o país vive há décadas sob sanções econômicas severas, pressões diplomáticas e ameaças constantes. Nesse ambiente, o discurso de resistência torna-se parte da própria identidade política doo Estado. Pode-se discordar dos métodos e da ideologia; mas ignorar o contexto é empobrecer deliberadamente o debate.
Mesmo sob bloqueios econômicos rigorosos, o Irã desenvolveu setores estratégicos relevantes. Ampliou sua produção científica, tornou-se referência regional em áreas como engenharia, medicina e tecnologia nuclear para fins energéticos. Investiu em educação superior, com forte presença de mulheres nas universidades. Expandiu sua rede de atenção primária à saúde, elevou indicadores de expectativa de vida e consolidou infraestrutura em regiões antes negligenciadas. Esses dados não anulam problemas internos nem críticas legítimas, mas demonstram que a realidade é mais complexa do que a caricaturad de um Estado fracassado. Isso não significa absolver autoritarismos nem fechar os olhos para abusos internos. Significa reconhecer que, no tabuleiro global, há forças assimétricas. Superpotências têm histórico de agir com violência extrema quando seus interesses são ameaçados. A história demonstra que, quando riquezas estão em jogo, vidas humanas não importam.
Os EUA e Israel, por exemplo, falam do Irão como se fossem um Estado de terroristas. Vejam quem fala! A propósito, que nome devemos dar a quem promove o holocausto na Palestina? Outra: Por que um presidente envolvido nos horrores dos Arquivos de Epstein segue como o rei da cocada preta. Onde está o jornalismo-fato? Trump é a última pessoa do mundo a acusar alguém de terrorista e ditador, pois ele é um. Mas o que está faltando para que ele seja interceptado? Não é matando, sequestrando, depondo representantes de países que os calará. Pelo contrário, a cultura, a histórica e a política desses países cujos verdadeiros ditadores - como trump e genocida como Netanyahu - pensam que calam - não o fazem, porque são substituídos por outros. As plantas - regadas - dão frutos.
Falam do irã como se fosse terra de trogloditas. Ora, leiam, estudem. O Irã é terra de cultura milenar. Ofereceu ao mundo alguns dos mais luminosos nomes da poesia e das artes: versos universais como os de Rumi, Hafez e Ferdowsi atravessaram séculos celebrando amor, espiritualidade e identidade; na literatura contemporânea, vozes como Forough Farrokhzad e Sadegh Hedayat expandiram fronteiras estéticas e existenciais; nas artes visuais e cênicas, criadores como Abbas Kiarostami, também fotógrafo e poeta, e Shirin Neshat projetaram a sensibilidade iraniana no cinema, na fotografia e nas instalações, enquanto a tradição da pintura persa, com suas miniaturas delicadas e simbolismo refinado, permanece como um dos patrimônios artísticos mais sofisticados da humanidade. O Irã é um país a ser descoberto pelo Ocidente. O Opcidente deve arrancar as vendas que principalmente os EUA e Israel colocam nos olhos das pessoas.
Por isso, chorar pelo Irã não é endossar governantes. É afirmar que nehum povo merece ser reduzido a estatística descartável. É rejeitar a ideia de que certas mortes são “compreensíveis” ou “merecidas”. É lembrar que, por trás de cada manchete, há famílias, histórias, culturas milenares.
O maior risco talvez não seja apenas a guerra das armas, mas a guerra das palavras, aquela que nos anestesia. Quando um veículo de comunicação naturaliza a ausência de luto, ensina o leitor a não sentir. E uma sociedade que aprende a não sentir torna-se cúmplice silenciosa da barbárie.
Pois bem, eu chorarei pelo Irã como se chora por qualquer povo atingido pela violência. Chorarei pelas crianças, pelos professores, pelos civis que jamais escolheram estar no centro de disputas globais. Chorarei também por todos os lugares onde interesses estratégicos falaram mais alto que a vida humana. Porque, enquanto houver quem declare que ninguém chorará, haverá quem responda com humanidade. E eu respondo assim: eu chorarei, sim.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NA REINAUGURAÇÃO DA PRAÇA AUGUSTO SEVERO, CLARINHA CONHECE FÁTIMA E AS DUAS SE ENCANTAM UMA COM A OUTRA...

Governadora Fátima Bezerra

RENAUGURAÇÃO DA PRAÇA AUGUSTO SEVERO

O dia de hoje teve uma tarde interessante. Ontem, li que a governadora, professora Fátima Bezerra faria a reinauguração da Praça Augusto Severo, um dos mais antigos logradores da Natal dos tempos de Alberto Maranhão. Às 17 horas, houve a reinauguração. O que me encantou - além, obviamente - da revitalização desse histórico logradouro natalense, foi a presença do Boi de Reis do bairro Bom Pastor que logo cedo chegou à praça, ensaiou, brincou e trouxe vida à reinauguração, acolhendo a governadora. Só me lembrei do meu amigo Severino Vicente, folclorista extraordinário que partiu há quase um mês. (Vídeo abaixo): 

REINAUGURAÇÃO DA PRAÇA AUGUSTO SEVERO - 26.2.2026 - GOVERNO: PROFESSORA FÁTIMA BEZERRA... - YouTube

Foi emocionante e singular o momento em que a equipe do Governo do Estado - em cortejo na Avenida Duque de Caxias - com destaque para a governadora professora Fátima Bezerra na dianteira - adentrou à praça, sendo recebida pelo Boi de Reis do Bom Pastor. Foi feliz quem planejou esse encontro do Folclore norte-rio-grandense com a representante maior do Estado.



Estavam presentes diversas autoridades, políticos, secretários de Estado, outros integrantes da Cultura Popular trabalhadores da obra e população do bairro. Houve alguns discursos e a governadora encerrou a solenidade.


Como Clarinha é adestrada, fui ao evento e ela se comportou magicamente. No momento em que cumprimentei a governadora e Clarinha quis logo fazer uma fotografia com ela. Muita atrevida, pediu para Fátima pegá-la ao colo, pois ela quer mostrar aos cachorrinhos e cachorrinhas potiguares que admira, respeita, apoia e sempre apoiará Fátima, cuja história é admirável e digna de um filme. 


Inclusive, além de trocarem figurinhas e ter rolado até mesmo algumas fofocas, trocaram seus números de telefone e em breve se reencontrarão Clarinha quer estar presente na campanha de Fátima para senadora pelo Rio Grande do Norte.

Fátima disse que é uma honra ter o apoio de uma criatura tão pura e idônea, e que obviamente também governará para o bem estar da fauna, em especial, doméstica, e que Clarinha, por sua desenvoltura, poderá educar inúmeros outros cachorrinhos tendo em vista que é muito educada, comportada, anda sem coleira, sem guia, obedece o seu tutot e isso pode ser repassado numa espécie de workshop para os demais cachorrinhos e cachorrinhas de Natal.


Foi muito bacana esse encontro entre Clarinha e Fátima, e que venha a eleição para o Senado, pois Clarinha já está conquistando inúmeros bichinhos de estimação para Fátima e, obviamente, os seus tutores. 

Clarinha quer chegar a todos os cachorrinhos e cachorrinhas norte-rio-grandenses, pois sabe que isso é caminho para chegar aos tutores e conquistá-los. Pense numa Clarinha esperta!

































quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

NÍSIA FLORESTA: A SEMENTE INTELECTUAL DO VOTO FEMININO BRASILEIRO...


O fato ocorreu no dia 5 de abril de 1928, em Mossoró, Rio Grande do Norte. Nessa data histórica, votou a professora Celina Guimarães Viana, consolidando um dos episódios mais simbólicos da democracia brasileira. Entretanto, o acontecimento não surgiu de forma isolada: foi resultado de um processo político, intelectual e social iniciado anos antes e profundamente marcado pelo pioneirismo potiguar.

Em 25 de outubro de 1927, entrou em vigor no Rio Grande do Norte a Lei nº 660, que regulamentava o serviço eleitoral no estado. O texto legal estabelecia algo revolucionário para a época: o fim da “distinção de sexo” para o exercício do voto. Em um Brasil ainda profundamente conservador, onde as mulheres eram afastadas da vida pública e política, o legislador potiguar abriu caminho para uma transformação nacional.


Pouco depois da promulgação da lei, Celina Guimarães Viana, então com 29 anos e residente em Mossoró, solicitou seu alistamento eleitoral, tornando-se a primeira mulher a se registrar como eleitora no Brasil. No ano seguinte, ela e outras quatorze mulheres participaram das eleições locais. Ainda que esses votos tenham sido posteriormente anulados pela Justiça Eleitoral nacional, reflexo das resistências institucionais existentes, o gesto já havia produzido efeito irreversível: o Rio Grande do Norte passava à história como precursor da inclusão feminina no sistema democrático brasileiro.

Celina com o filho Pedro Viana


A repercussão foi imediata. Telegramas de autoridades chegaram ao estado, intelectuais celebraram o avanço e lideranças políticas locais reconheceram o alcance histórico da medida. Entre os nomes decisivos desse processo destacou-se Juvenal Lamartine, então deputado federal e posteriormente governador do Rio Grande do Norte, que se revelou um político sensível à causa da emancipação feminina.

Nada disso ocorreu por acaso. Décadas antes, o solo potiguar já havia produzido uma das maiores intelectuais do século XIX: Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810–1885). Escritora, educadora e pioneira do pensamento feminista no Brasil, Nísia defendia a educação feminina, a igualdade intelectual entre homens e mulheres e a participação da mulher na sociedade. O ambiente cultural criado por sua obra ajudou a formar uma mentalidade progressista que floresceria politicamente no início do século XX.

Bertha Lutz, Juvenal Lamartine ao lado de feministas. Macaíba, 1928.


Quando a bióloga e líder feminista Berta Lutz, filha do cientista Adolfo Lutz, visitou o Rio Grande do Norte em 1926, encontrou em Juvenal Lamartine um aliado receptivo às ideias de igualdade política. As conversas iniciadas ainda no Rio de Janeiro, então capital federal, fortaleceram a estratégia de inserção feminina na política municipal potiguar, resultando em acontecimentos absolutamente pioneiros.

Assim, no mesmo ano de 1928, o Rio Grande do Norte protagonizou dois marcos simultâneos da história brasileira: oficializou a primeira mulher eleitora e elegeu a primeira prefeita do país, e também da América Latina, Alzira Soriano, escolhida para governar o município de Lajes. Sua vitória simbolizou não apenas um triunfo local, mas uma ruptura histórica na política latino-americana, demonstrando que a participação feminina nos espaços de poder era possível.


O protagonismo feminino potiguar não cessou ali. Em 1935, Maria do Céu Pereira Fernandes foi eleita deputada estadual, tornando-se a primeira mulher a ocupar um parlamento estadual no Brasil. Era esposa do líder político Aristófanes Fernandes, mas construiu trajetória própria dentro da política, ampliando a presença feminina nas instituições democráticas.

Enquanto o Rio Grande do Norte vivia esses avanços, o reconhecimento nacional do voto feminino só ocorreria anos depois. Em 1932, o novo Código Eleitoral brasileiro finalmente reconheceu oficialmente o direito das mulheres ao voto, conquista incorporada à Constituição de 1934 e tornada obrigatória apenas em 1965. O Dia da Conquista do Voto Feminino, celebrado em 24 de fevereiro e instituído pela Lei nº 13.086/2015, recorda essa trajetória histórica e reforça o papel pioneiro do estado potiguar nesse processo.


Mesmo passadas décadas, os desafios persistem. Embora as mulheres representem cerca de 52% do eleitorado brasileiro, ainda ocupam menos de um quinto das cadeiras do Congresso Nacional, mantendo o Brasil entre os países com menor representação feminina parlamentar. A conquista iniciada por aquelas pioneiras permanece, portanto, como um chamado permanente à ampliação da igualdade política.

O pioneirismo do Rio Grande do Norte manifesta-se também em outras áreas da vida social e cultural. Há mais de oito décadas, a natalense Lucy Garcia já pilotava aeronaves, obtendo seu brevet em 1942. Naquele mesmo ano, realizou voos rasantes sobre Natal, causando espanto na população, não pela máquina aérea — mas pelo fato de ser conduzida por uma mulher, em um tempo em que a aviação ainda era território predominantemente masculino.



A relação precoce de Natal e Parnamirim com a aviação também ajudou a alimentar sonhos femininos. Em 1937, a célebre aviadora norte-americana Amelia Earhert decolou da capital potiguar durante sua tentativa de volta ao mundo, causando enorme admiração popular. É provável que jovens potiguares, como Lucy Garcia, tenham encontrado inspiração naquele espetáculo de coragem e modernidade.

O espírito pioneiro feminino no estado remonta ainda a 1920, quando o futebol sequer havia se consolidado como paixão nacional. Naquele ano ocorreu, em Natal, uma partida entre o “Team” feminino do ABC Futebol Clube e o Centro Esportivo Natalense, realizada no sítio Senegal, residência do coronel Joaquim Manoel Teixeira de Moura, área onde hoje funciona o 16º Batalhão de Infantaria Motorizada, no Tirol. O evento ganhou repercussão em revistas de circulação nacional, revelando mulheres ocupando espaços esportivos muito antes de o país discutir oficialmente o futebol feminino.


Na fotografia histórica daquele encontro aparecem nomes como João Café Filho, Galdino Lima e o próprio Quincas Moura. Entre as jogadoras estavam Jandira Café, Nanita Maranhão, Dulce Moura, Aline Moreira Brandão, Maria de Lourdes de Moura Brito, Mabel e Isaura Tavares, Maria Antonieta Chaves, Alice Tavares de Lyra, Maria Amélia Medeiros, Cândida Palma, Belezita Moura, entre tantas outras mulheres que desafiaram padrões sociais e ampliaram horizontes para as gerações seguintes.

O conjunto desses acontecimentos demonstra que o voto feminino no Brasil não nasceu apenas de uma decisão jurídica nacional em 1932. Ele foi preparado por uma sucessão de gestos corajosos, ideias progressistas e experiências pioneiras que encontraram no Rio Grande do Norte terreno fértil para florescer.



É assim a história: aquilo que vemos, ouvimos ou lemos pode tornar-se o estalo de uma transformação profunda. O exemplo das mulheres potiguares, educadoras, políticas, aviadoras, esportistas e intelectuais, prova que grandes conquistas nacionais frequentemente começam em lugares onde alguém ousa dar o primeiro passo. O Rio Grande do Norte deu esse passo, e mudou a história do Brasil.