ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 3 de outubro de 2026

NÍSIA FLORESTA SOB A LENTE DE PEGGY SHARPPE VALADARES...

Peggy Sharppe Valadares

Entre os pesquisadores que, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, lançaram novos olhares sobre a vida, a obra e o pensamento de Nísia Floresta Brasileira Augusta, Peggy Sharpe Valadares ocupa um lugar verdadeiramente significativo. Sua contribuição não deve ser compreendida como um ponto de partida absoluto dos estudos nisianos, pois antes dela já existia uma tradição de pesquisadores brasileiros que haviam se dedicado à recuperação da memória da escritora, entre os quais se destacam Henrique Castriciano e Adauto da Câmara. O que torna particularmente importante a atuação de Peggy Sharpe é o fato de ela ter contribuído para que Nísia deixasse de ser percebida apenas como uma personagem de interesse regional ou como uma pioneira isolada da história das mulheres brasileiras e passasse a ser estudada dentro de um campo intelectual mais amplo, envolvendo a literatura comparada, a história das mulheres, a educação feminina, o pensamento social e a cultura latino-americana. A pesquisadora norte-americana ajudou, assim, a estabelecer uma ponte entre aquilo que já vinha sendo preservado por pesquisadores brasileiros e uma nova geração de estudos acadêmicos que, principalmente a partir das décadas de 1980 e 1990, começou a reconsiderar a participação das mulheres na formação intelectual das sociedades modernas.


Acima, da esquerda para a direita: Elizabeth Lowe, UIUC; Peggy Sharpe, FSU; Domicio Coutinho, Brazilian Endowment for the Arts; Ana Maria Machado, escritora; Joyce Cavalcanti, REBRA; Renata Wasserman, Wayne State University; Jacinele Brataas, REBRA. Fonte: PN Fall 2009 Color ONLINE_2.indd


Para compreender a importância desse trabalho, é necessário voltar algumas décadas e observar a situação em que se encontravam os estudos sobre Nísia Floresta. A escritora havia morrido em Rouen, na França, em 24 de abril de 1885, aos 74 anos, depois de uma vida que, para os padrões de seu tempo, havia sido extraordinariamente movimentada. Nascida Dionísia Gonçalves Pinto, em 12 de outubro de 1810, no Sítio Floresta, em Papary, no Rio Grande do Norte, Nísia atravessou o Brasil imperial e viveu experiências em diferentes regiões do país e da Europa. Publicou livros, escreveu para jornais, dedicou-se à educação feminina, dirigiu uma escola para meninas no Rio de Janeiro, produziu literatura, ensaios, relatos de viagem e reflexões sobre a condição da mulher, a educação, a escravidão, os indígenas, a moral, a religião, a civilização e o próprio Brasil. Sua trajetória intelectual também a levou a estabelecer contato com importantes ambientes culturais europeus e a aproximar-se de personalidades como Auguste Comte, nascido em Montpellier em 19 de janeiro de 1798 e morto em Paris em 5 de setembro de 1857. A relação entre Nísia e Comte é conhecida e documentada, embora a influência do filósofo francês sobre o pensamento nisiano não deva ser transformada numa explicação totalizante de sua obra. Nísia possuía uma formação intelectual anterior e dialogava com diferentes correntes de pensamento, entre elas ideias oriundas do Iluminismo, do liberalismo, do romantismo e das discussões pedagógicas de seu século.

Quando Peggy Sharpe se aproximou da produção de Nísia, portanto, encontrou uma autora cuja importância histórica já havia sido percebida por alguns estudiosos, mas cuja obra permanecia em grande parte inacessível. Muitos dos livros publicados por Nísia durante o século XIX haviam se tornado raros, encontravam-se dispersos em bibliotecas e coleções particulares ou não haviam recebido novas edições brasileiras. Essa situação explica por que a memória de Nísia sobrevivera durante tanto tempo de maneira desigual: havia informações biográficas, homenagens, referências em jornais e estudos pioneiros, mas o acesso direto aos seus textos era extremamente limitado. No Rio Grande do Norte, essa dificuldade pode ser percebida de maneira concreta. Em 1994, durante minhas próprias pesquisas, tive a oportunidade de conhecer, no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, um exemplar original de obra de Nísia Floresta, mostrado pelo dr. Enélio Petrovich, então presidente da instituição. A experiência é significativa porque demonstra como, ainda na década de 1990, o pesquisador interessado em Nísia dependia muitas vezes da localização física de exemplares raros e de acervos institucionais para ter acesso direto à produção da escritora.

Antes de Peggy Sharpe, entretanto, houve homens e mulheres que trabalharam para que essa memória não desaparecesse. Entre eles, Henrique Castriciano de Souza, nascido em Macaíba em 15 de março de 1874 e falecido em Natal em 26 de julho de 1947, ocupa lugar de grande importância. Escritor, jornalista, poeta, educador e intelectual de atuação marcante no Rio Grande do Norte, Henrique Castriciano dedicou atenção especial à memória de Nísia Floresta e reuniu informações e documentos que posteriormente seriam utilizados por outros pesquisadores. Seu trabalho deve ser visto dentro de uma época em que os mecanismos de preservação documental eram muito mais precários do que os atuais e em que grande parte da produção intelectual do século XIX permanecia dispersa. A importância de Castriciano não está apenas naquilo que escreveu, mas também no fato de ter percebido que a memória de Nísia precisava ser preservada antes que desaparecessem as fontes capazes de sustentá-la.

Esse trabalho seria posteriormente ampliado por Adauto da Câmara, autor de História de Nísia Floresta, publicado em 1941. A obra tornou-se durante décadas uma das principais referências para quem desejasse conhecer a vida da escritora. Adauto não partiu do vazio. Ao contrário, beneficiou-se do trabalho realizado anteriormente por Henrique Castriciano e incorporou informações que ajudaram a construir uma narrativa biográfica de maior amplitude. Por isso, é importante compreender a historiografia de Nísia como uma cadeia de transmissão e recuperação documental, e não como uma sucessão em que cada pesquisador posterior simplesmente substitui o anterior. Castriciano teve importância na coleta e preservação; Adauto da Câmara desempenhou papel fundamental na sistematização biográfica; pesquisadores posteriores voltaram aos documentos, localizaram novas fontes, fizeram novas perguntas e, em alguns casos, corrigiram interpretações anteriores. A história da recuperação de Nísia é, portanto, também a história de diferentes gerações de pesquisadores trabalhando sobre um patrimônio documental que não chegou inteiro até o presente.

Peggy Sharpe Valadares

Foi nesse terreno que Peggy Sharpe encontrou Nísia Floresta. Pesquisadora norte-americana ligada aos estudos de literatura e cultura luso-brasileira, Sharpe dedicou parte significativa de sua trajetória ao estudo e à divulgação de escritoras brasileiras. A própria edição de 1989 de Opúsculo humanitário deixa evidente que seu interesse não estava limitado a Nísia. Peggy Sharpe vinha pesquisando e divulgando escritoras brasileiras de diferentes períodos, contribuindo para ampliar, entre estudantes e pesquisadores norte-americanos, o conhecimento de uma literatura feminina brasileira que permanecia pouco representada nos programas acadêmicos. Nísia, nesse sentido, tornou-se uma das figuras mais importantes desse trabalho de recuperação, justamente porque sua obra reunia literatura, educação, reflexão social e uma discussão pioneira sobre a posição da mulher.

A publicação de Opúsculo humanitário em 1989 constituiu um dos momentos mais importantes desse processo. O livro havia sido originalmente publicado em 1853 e retornou ao público brasileiro 136 anos depois, em edição atualizada pela Cortez, em parceria com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, trazendo estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares e posfácio de Constância Lima Duarte. A Biblioteca Nacional registra a edição de 1989 como uma publicação de 164 páginas, pertencente à série Biblioteca da Educação - Mulher Tempo. A importância da iniciativa não estava simplesmente na reimpressão de um livro antigo, mas na possibilidade de oferecer ao leitor contemporâneo instrumentos para compreender o texto de Nísia dentro do contexto histórico e intelectual em que havia sido produzido. A edição permitiu que uma obra fundamental sobre educação feminina voltasse a circular num momento em que os estudos sobre mulheres estavam adquirindo nova dimensão acadêmica no Brasil e no exterior.

O significado dessa publicação torna-se ainda maior quando se considera o próprio conteúdo de Opúsculo humanitário. Nísia não escreveu apenas uma defesa genérica da educação das mulheres. Ela analisou historicamente a condição feminina, comparou sociedades, discutiu o papel da educação na formação moral e intelectual e criticou as limitações impostas às brasileiras de seu tempo. Os primeiros ensaios percorrem referências históricas que vão da Antiguidade a diferentes sociedades europeias e norte-americanas, antes de chegarem à situação da mulher brasileira no século XIX. Nísia utilizou a história como argumento para demonstrar que a condição feminina não era resultado de uma incapacidade natural, mas de processos culturais, sociais e educacionais. A educação, portanto, aparecia em seu pensamento não como simples ornamento para as mulheres das famílias abastadas, mas como elemento fundamental para o desenvolvimento individual e para o próprio progresso da sociedade. Essa concepção ajuda a explicar por que Peggy Sharpe considerou o Opúsculo um texto de importância tão significativa dentro da história intelectual brasileira.

É importante lembrar que Nísia já havia iniciado essa discussão duas décadas antes. Em 1832, publicou Direitos das mulheres e injustiça dos homens, obra que dialogava diretamente com a tradição inaugurada na Europa por Mary Wollstonecraft, autora de A Vindication of the Rights of Woman, publicado em Londres em 1792. Wollstonecraft havia nascido em 1759 e morreu em 1797, e seu livro tornou-se um dos textos fundamentais da tradição intelectual que reivindicava educação e autonomia para as mulheres. Nísia não realizou uma tradução literal da obra inglesa; produziu uma tradução livre e adaptação, apropriando-se de ideias que passaram por seu próprio entendimento e pelo contexto brasileiro. Essa diferença é importante porque demonstra que Nísia não deve ser vista simplesmente como uma repetidora de ideias europeias. Ela tomou referências estrangeiras e as reelaborou para discutir uma realidade social específica, a do Brasil imperial.

A experiência educacional de Nísia também confere uma dimensão prática ao seu pensamento. Em 1838, fundou no Rio de Janeiro o Colégio Augusto, instituição destinada à educação de meninas. O estabelecimento ficou conhecido por oferecer um programa de estudos mais amplo do que aquele tradicionalmente reservado às mulheres. Numa sociedade em que a educação feminina era frequentemente reduzida às chamadas prendas domésticas, a iniciativa representava uma mudança significativa. As críticas que Nísia recebeu demonstram, inclusive, que sua atuação não passou despercebida. A imprensa do período registrou ataques à diretora e àquilo que seus opositores consideravam uma excessiva ampliação da educação das meninas. A expressão “mulher metida a homem”, posteriormente recuperada nos estudos de Peggy Sharpe, sintetiza o tipo de reação que uma mulher intelectual podia provocar ao ocupar um espaço público tradicionalmente reservado aos homens. Nísia enfrentou esse ambiente não apenas como escritora, mas também como educadora responsável por uma instituição concreta.

A importância de Peggy Sharpe está justamente em ter compreendido essa multiplicidade. Nísia não era apenas “a primeira feminista brasileira”, fórmula que, embora tenha sido utilizada durante décadas e possua fundamento em determinados aspectos, é insuficiente para definir uma personalidade intelectual tão complexa. Nísia foi educadora, escritora, tradutora, cronista, autora de literatura de viagem, pensadora social e observadora crítica da sociedade brasileira. Sua produção também revela preocupações com a escravidão, a situação dos indígenas, a educação das crianças e a própria formação moral da sociedade. O pensamento nisiano precisa, portanto, ser estudado em suas várias dimensões e dentro das contradições do século XIX, sem transformá-lo nem numa antecipação perfeita das ideias do século XXI nem numa simples reprodução das correntes europeias.

Essa perspectiva é particularmente importante quando se analisa a relação de Nísia com Auguste Comte. A amizade e a aproximação intelectual entre ambos são fatos importantes da biografia da escritora, mas não autorizam a redução de todo o pensamento nisiano ao positivismo. Nísia já havia publicado Direitos das mulheres e injustiça dos homens em 1832 e fundado o Colégio Augusto em 1838, portanto antes de seu contato mais conhecido com Comte em Paris. Sua formação intelectual também revela a presença de outras matrizes, entre elas a tradição ilustrada, o pensamento pedagógico, o romantismo e as discussões sobre civilização. A leitura de Peggy Sharpe é importante justamente porque procura situar Nísia dentro de um universo intelectual mais amplo, no qual diferentes ideias eram recebidas, adaptadas e reinterpretadas.

A recuperação de N´sia também exigia enfrentar o problema da memória negativa que se construiu em torno de sua figura. Sua independência pessoal, seu casamento muito precoce, sua separação do primeiro marido, sua vida intelectual, suas viagens e sua exposição pública provocaram críticas ainda durante sua existência. No século XIX, uma mulher que publicava em jornais, dirigia uma escola, escrevia sobre política e educação e circulava em ambientes intelectuais podia facilmente ser considerada transgressora. A própria trajetória de Nísia mostra como a sociedade brasileira oitocentista estabelecia limites rigorosos para o comportamento feminino. Sua decisão de casar-se por espontaneidade, aos 13 anos, e romper com esse casamento em menos de um ano,, adquiriu posteriormente uma dimensão escandalosa dentro de determinadas memórias familiares e sociais, embora a historiografia contemporânea tenha condições de analisar o episódio de maneira muito mais cuidadosa do que fizeram seus críticos.

Nesse contexto aparece também Isabel Gondim, nascida em Papary em 5 de julho de 1839 e falecida em Natal em 10 de junho de 1933. Professora, escritora e historiadora, Isabel pertenceu a uma geração posterior à de Nísia e jamais conviveu pessoalmente com ela, pois nasceu 29 anos depois do nascimento de Nísia. Foi a primeira mulher a integrar o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte como sócia efetiva, em 1928, e desenvolveu uma produção própria dedicada à educação e à história. Justamente por possuir essa autoridade intelectual, a carta que escreveu em 1884 sobre Nísia Floresta adquiriu posteriormente peso considerável na formação da memória da escritora.

II MOVIMENTO PRÓ-MEMÓRIA NÍSIA FLORESTA: IAPERI SOARES DE ARAÚJO, PRIMEIRO À DIREITA - À ESQUERDA VEMOS: GRAÇA LUCENA DE MEDEIROS, ZÉLIA MARIZ, ? E PEGGY SHARPE VALADARES. CONJUNTO HISTÓRICO DE NÍSIA FLORESTA, 1989.

A carta de Isabel Gondim, entretanto, precisa ser tratada pelo historiador com o devido cuidado. Ela é uma fonte histórica importante, mas não deve ser confundida automaticamente com uma descrição objetiva da vida de Nísia. O documento revela, antes de tudo, a maneira como Isabel Gondim interpretava sua conterrânea e como determinados valores morais do século XIX influenciavam a avaliação da conduta de uma mulher. As afirmações depreciativas existentes na carta precisam ser confrontadas com outros documentos, com os próprios escritos de Nísia, com jornais, correspondências e testemunhos disponíveis. O problema historiográfico não está em esconder a existência da carta, mas em compreender o lugar que ela ocupa na construção posterior da memória nisiana. A carta de Isabel é considerada por todos os críticos como fruto de ferenha inveja.

É justamente nesse ponto que a recuperação crítica promovida por pesquisadores como Peggy Sharpe adquire especial relevância. Em vez de tomar a biografia de Nísia apenas a partir das opiniões de seus contemporâneos ou de seus críticos posteriores, o estudo moderno procura devolver centralidade aos próprios textos da autora. Essa mudança metodológica é fundamental. Quando o pesquisador lê Direitos das mulheres e injustiça dos homens, Opúsculo humanitário, A lágrima de um Caeté, Itinerário de uma viagem à Alemanha, Três anos na Itália seguidos de uma viagem à Grécia e outras obras, encontra uma mulher muito mais complexa do que aquela produzida pelas anedotas biográficas ou pelas acusações morais. É a própria Nísia que passa a falar, e não apenas aqueles que escreveram sobre ela.

A dimensão internacional da obra também merece atenção. Nísia não foi uma escritora confinada ao Brasil. Publicou em francês e teve parte de sua produção editada na Europa, onde escreveu sobre suas experiências de viagem e sobre o Brasil. Itinéraire d’un voyage en Allemagne foi publicado em Paris em 1857; Trois ans en Italie suivis d’un voyage en Grèce, par une Brésilienne apareceu em Paris na década de 1860; Le Brésil, par Mme Brasileira Augusta foi publicado em 1871; e Fragments d’un ouvrage inédit: notes biographiques apareceu em 1878. Portanto, quando Peggy Sharpe promoveu a recuperação de Nísia para o público acadêmico internacional no final do século XX, estava, em certo sentido, reabrindo um diálogo que a própria escritora já havia estabelecido no século XIX.

O problema é que a projeção internacional de Nísia em vida não garantiu a permanência de sua memória. Com o passar das décadas, suas obras deixaram de circular amplamente no Brasil e muitos de seus textos tornaram-se raridades bibliográficas. Essa circunstância ajuda a explicar o caráter quase paradoxal da trajetória nisiana: uma mulher que havia publicado em Paris e dialogado com intelectuais europeus acabou, posteriormente, sendo conhecida de maneira muito mais restrita em seu próprio país. A recuperação editorial do final do século XX começou a modificar essa situação. A publicação de Opúsculo humanitário em 1989 foi particularmente importante porque permitiu que a obra retornasse ao debate educacional e feminista brasileiro. Estudos posteriores confirmam que essa edição representou um marco na retomada dos textos de Nísia e que novas edições de outras obras viriam nos anos seguintes.

O ano de 1989 possui ainda uma importância especial no Rio Grande do Norte por causa do I Movimento Pró-Memória Nísia Floresta, realizado no município que hoje leva o nome da escritora. A participação de Peggy Sharpe nesse movimento estabeleceu uma ligação particularmente significativa entre a pesquisadora estrangeira e a terra natal de Nísia. Naquele momento, a recuperação da memória nisiana mobilizou intelectuais, escritores, professores e agentes culturais do Estado. Entre os nomes relacionados àquele movimento estavam Iaperi Araújo, Maria das Graças Lucena de Medeiros e Zélia Mariz, entre outros. O evento contou também com o apoio da administração municipal, então sob a gestão do prefeito Almir da Silva Leite, por meio do professor Jorge Januário de Carvalho, cuja participação na defesa da memória de Nísia foi importante naquele processo e em diverso outros. Mais do que um acontecimento isolado, aquele movimento fazia parte de uma tentativa de devolver à escritora um lugar mais visível na memória cultural do Rio Grande do Norte.

É nesse mesmo ambiente de renovação dos estudos que aparece com força o trabalho de Constância Lima Duarte. Sua trajetória seria decisiva para a consolidação acadêmica dos estudos nisianos, sobretudo a partir da década de 1990. A aproximação entre Peggy Sharpe e Constância é particularmente significativa porque ambas contribuíram, por caminhos diferentes, para a recuperação da produção intelectual de Nísia. A edição de Opúsculo humanitário de 1989 já reunia o estudo introdutório e as notas de Peggy Sharpe com um posfácio de Constância Lima Duarte, demonstrando que naquele momento começava a se formar uma rede de pesquisadores interessada em devolver à escritora seus próprios textos e em interpretá-los à luz de novas perspectivas.

A partir de então, outras obras de Nísia começaram a receber novas edições, estudos críticos e traduções. Direitos das mulheres e injustiça dos homens voltou a circular em edição crítica; Itinerário de uma viagem à Alemanha ganhou edição brasileira com tradução e estudo; Três anos na Itália, seguidos de uma viagem à Grécia foi publicado pela EDUFRN; e outras obras que durante muito tempo permaneceram pouco acessíveis passaram a integrar o repertório de pesquisadores e estudantes. Essa retomada editorial é importante porque modifica profundamente a relação entre o pesquisador e a fonte. Em vez de depender exclusivamente de biografias ou de citações fragmentárias, o leitor passa a ter condições de entrar em contato diretamente com a escrita de Nísia e acompanhar a evolução de seu pensamento.

Nesse processo, a contribuição de Peggy Sharpe não deve ser superestimada a ponto de apagar os pesquisadores brasileiros anteriores, mas também não deve ser diminuída. Seu mérito está justamente em ter percebido o potencial de uma escritora que permanecia praticamente desconhecida fora de determinados círculos especializados e em ter trabalhado para colocá-la novamente em circulação. O fato de uma pesquisadora norte-americana dedicar-se a uma autora brasileira do século XIX é significativo porque revela que a questão ultrapassava a memória regional. Nísia poderia ser lida dentro da história internacional das mulheres, da literatura brasileira, dos estudos latino-americanos e da história da educação.

Essa mudança de perspectiva também ajudou a retirar Nísia de uma espécie de folclorização biográfica. Durante muito tempo, sua figura foi apresentada sobretudo por epis´dios considerados curiosos ou escandalosos: o casamento precoce, a separação, as viagens, o contato com Auguste Comte e as críticas que recebeu. Embora esses elementos façam parte de sua trajetória e não devam ser ocultados, concentrar toda a narrativa neles significa transformar uma intelectual em personagem. A leitura crítica de seus textos permite outro caminho: compreender as razões pelas quais ela escreveu, o contexto em que suas ideias surgiram, os autores com os quais dialogou, os problemas que enfrentou e as limitações próprias de uma intelectual pertencente às elites letradas do Brasil oitocentista.

Também é necessário evitar o anacronismo. Nísia Floresta não pode ser simplesmente transformada numa pensadora do século XXI transportada para o século XIX. Ela escreveu dentro dos valores, das linguagens e das categorias disponíveis em sua época. Seu pensamento sobre as mulheres, por exemplo, estava fortemente relacionado à educação, à moral, à maternidade, à família e à ideia de progresso da sociedade. Sua crítica à escravidão e sua defesa da dignidade humana devemser consideradas dentro de sua trajetória e de seu tempo, assim como suas limitações. O interesse histórico está precisamente em compreender o que ela conseguiu formular dentro das possibilidades de seu período e como algumas de suas ideias ultrapassaram as expectativas sociais existentes para uma mulher brasileira nascida em 1810.

Quando se observa a trajetória de Nísia a partir dessa perspectiva, sua importância torna-se ainda mais evidente. Ela nasceu no Brasil colonial apenas nove anos antes da Independência, viveu durante o Primeiro Reinado, o período regencial e praticamente todo o Segundo Reinado, e morreu três anos antes da Abolição da escravidão. Seu primeiro livro importante sobre os direitos das mulheres apareceu em 1832, quando o Brasil ainda estava sob o impacto da abdicação de D. Pedro I e vivia as turbulências da Regência. Seu Colégio Augusto surgiu em 1838, durante a Regência, e seu Opúsculo humanitário foi publicado em 1853, durante o reinado de D. Pedro II. Sua experiência europeia levou-a a observar diretamente sociedades que ela comparava constantemente com o Brasil. Nísia, portanto, não foi uma observadora distante do século XIX: ela esteve profundamente inserida nas grandes transformações intelectuais, sociais e culturais daquele período.

É exatamente essa dimensão que Peggy Sharpe ajudou a revelar para novas gerações de leitores. Ao recuperar Opúsculo humanitário, ao estudá-lo e ao situá-lo dentro da história da educação feminina, Sharpe contribuiu para que Nísia fosse novamente lida como uma intelectual e não apenas como uma personagem biográfica. A obra passou a interessar a pesquisadores de literatura, educação, história das mulheres e pensamento brasileiro. A recuperação editorial também permitiu que novas pesquisas surgissem, que outros textos fossem procurados e que pesquisadores brasileiros, entre eles Constância Lima Duarte, ampliassem o campo dos estudos nisianos.

Por isso, quando se fala na contribuição de Peggy Sharpe Valadares, talvez seja mais correto falar em uma retomada do diálogo internacional do que numa simples “descoberta” de Nísia Floresta. A escritora já havia estabelecido esse diálogo no século XIX, quando publicou em Paris, escreveu em francês, viajou pela Europa e apresentou aos leitores estrangeiros suas observações sobre o Brasil. O que aconteceu no final do século XX foi uma espécie de reabertura desse diálogo depois de décadas de circulação limitada de seus livros. Peggy Sharpe participou decisivamente desse processo, ao lado de outros pesquisadores que, em diferentes momentos, contribuíram para reconstruir a trajetória intelectual da escritora.

A história da recuperação de Nísia Floresta, portanto, não pertence a uma única pessoa. Henrique Castriciano preservou e valorizou uma memória que poderia ter desaparecido; Adauto da Câmara organizou uma das primeiras grandes sínteses biográficas; pesquisadores posteriores voltaram às fontes e questionaram interpretações antigas; Peggy Sharpe devolveu parte importante da obra ao circuito editorial e acadêmico; Constância Lima Duarte aprofundou a pesquisa, organizou novas edições e contribuiu decisivamente para a consolidação dos estudos nisianos. Outros pesquisadores, brasileiros e estrangeiros, continuaram esse trabalho e ainda continuam. A própria pesquisa histórica sobre Nísia permanece aberta, pois novos documentos, exemplares, cartas, registros e testemunhos podem modificar detalhes de uma trajetória que, apesar de bastante estudada atualmente, ainda possui zonas pouco conhecidas.

Há, por fim, uma circunstância que confere particular significado a todo esse processo. Nísia Floresta nasceu em Papary, numa época em que a localidade estava muito distante dos grandes centros intelectuais do Império, mas terminou sua vida em Rouen, na França, depois de ter construído uma trajetória intelectual que ultrapassou as fronteiras brasileiras. Durante décadas, sua memória voltou a ser sobretudo regional, enquanto seus livros se tornavam cada vez mais raros. O trabalho de pesquisadores como Henrique Castriciano, Adauto da Câmara, Peggy Sharpe Valadares e Constância Lima Duarte permitiu que essa trajetória fosse novamente reconstruída e colocada diante de novos leitores. É nesse sentido que Peggy Sharpe ocupa lugar especial na história dos estudos nisianos: ela não criou a importância de Nísia Floresta, não foi a primeira a pesquisá-la e tampouco trabalhou isoladamente, mas contribuiu decisivamente para que a obra de uma intelectual brasileira do século XIX voltasse a ultrapassar as fronteiras que o esquecimento editorial e historiográfico havia imposto.

Hoje, quando se lê Nísia Floresta a partir de suas próprias obras, torna-se possível compreender melhor a dimensão de uma mulher que começou a escrever ainda muito jovem, enfrentou as limitações impostas às mulheres de seu tempo, dedicou-se à educação feminina, publicou em jornais e livros, percorreu diferentes países, escreveu sobre a sociedade brasileira e estabeleceu relações intelectuais com homens e mulheres de seu tempo. A recuperação dessa obra não é apenas um cap´tulo da história literária brasileira. É também parte da história da educação, da história das mulheres, da história intelectual e da própria maneira como o Brasil passou a olhar para suas escritoras. Nesse percurso, Peggy Sharpe Valadares teve um papel que merece ser reconhecido com a devida proporção histórica: o de uma pesquisadora que, ao estudar uma autora brasileira pouco conhecida fora de círculos especializados, contribuiu para devolver a Nísia Floresta uma dimensão internacional que, em vida, ela própria havia conquistado.

Referências

Obras e estudos diretamente relacionados a Nísia Floresta e Peggy Sharpe-Valadares

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Tradução livre e adaptação de A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft. Recife: Typographia Fidedigna, 1832.

FLORESTA, Nísia. Opúsculo humanitário. Edição atualizada, com estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares; posfácio de Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez; Brasília: INEP, 1989. A edição é confirmada pelo catálogo da Biblioteca Nacional.

SHARPE-VALADARES, Peggy. Nísia Floresta: Brazilian Feminist Pioneer. Washington: University Press of America, 1994.

SHARPE-VALADARES, Peggy. Opúsculo humanitário. Estudo introdutório e notas. São Paulo: Cortez; Brasília: INEP, 1989.

SHARPE-VALADARES, Peggy. A Woman's Thoughts on Brazil. Tradução, organização e introdução. Austin: University of Texas Press, 1997.

SHARPE-VALADARES, Peggy. “Nísia Floresta e o feminismo no Brasil oitocentista”. In: DUARTE, Constância Lima (org.). Nísia Floresta: vida e obra. Natal: EDUFRN, 1995.

SHARPE-VALADARES, Peggy. “Travel Writing and Female Education in Nineteenth-Century Brazil: The Thought of Nísia Floresta”. Luso-Brazilian Review, Madison, v. 31, n. 2, p. 45-67, 1994.

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: EDUFRN, 1995.

CÂMARA, Adauto da. História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1941.

PORTUGUESE Newsletter: PN. [S. l.]: AATSP, Fall 2009. Disponível em:https://cdn.ymaws.com/www.aatsp.org/resource/resmgr/pn/PN_Fall2009web.pdf. Acesso em: 12. mai. 2026.


sexta-feira, 2 de outubro de 2026

HÁ HISTÓRIAS QUE PARECEM MENTIRA...

 


HÁ HISTÓRIAS QUE, QUANDO CONTADAS, PARECEM MENTIRA. ENTÃO TEMOS QUE ESCREVÊ-LAS PARA DAR FÉ...

Hoje estive na cabeleireira Michelle, onde corto o cabelo há alguns anos, aqui no centro de Natal. Ela estava terminando de fazer a barba de um rapaz, enquanto uma senhora fazia as unhas com a mãe de Michelle. Como acontece em todo salão de beleza, uma conversa puxa outra, alguém comenta alguma coisa, outro responde, e o tempo vai passando. Eis que, de repente, sem que nada anunciasse o que estava por acontecer, a senhora que fazia as unhas começou a cantar baixinho:

“Eu tenho duzentos anos,
Ainda sou bem mocinha...
Eu tenho duzentos anos,
Ainda sou bem mocinha...”

Não resisti. Interrompi a cantoria e emendei:

“Meu filho, arruma um marido
Pra casar sua mãezinha!
Meu pirão bem mole,
Meu pirão bem mole,
Meu pirão bem mole
Para nós jantar!”

Michelle e a mãe ficaram olhando uma para a outra, sorrindo, naturalmente surpresas com aquela cena tão inusitada dentro de um salão de beleza. Na mesma hora, perguntei à senhora:

-  Onde a senhora aprendeu essa música?

Ela respondeu que havia aprendido em Nísia Floresta, com sua mãe.

Aquilo me trouxe uma lembrança imediata. Expliquei a Michelle e à sua mãe que, há alguns anos, fiz um trabalho de História Oral em Nísia Floresta e tive a oportunidade de registrar justamente esse drama, cantado pelas senhoras Raimunda e Salete, que formavam uma dupla e se apresentavam nos festejos da cidade.

E, para completar a surpresa, ainda cantei “Belas Pastoras”.

Elas acharam graça. Conversamos sobre como os jovens de hoje, infelizmente, já não têm as mesmas oportunidades de conhecer e apreciar esses dramas tão bonitos, que fizeram parte da vida cultural de tantas gerações. Concordaram. E como não concordariam? A mãe de Michelle já passou dos setenta, e aquela senhora deveria estar pelos sessenta.

Então a senhora disse que se chama Evandira, e veio outra revelação: ela me contou que sua mãe, Cândida, havia morrido em Natal, aos 104 anos, mas era de raízes nisiaflorestenses e cantava muito aquela canção. No fim das contas, tudo parece fazer sentido. Dona Raimunda, que me contou ter aprendido o drama com a professora Biluca Gadelha, na comunidade de Tororomba, faleceu com quase cem anos. Morava no Porto. Salete, sua antiga companheira de cantorias, ainda vive e também reside por lá.

E fica a pergunta, que hoje me ocorreu quase como uma brincadeira do destino: quem sabe a mãe daquela senhora e dona Raimunda não foram, algum dia, coleguinhas de sala de aula? Quem sabe não aprenderam juntas aquelas cantigas que atravessaram décadas, passaram de boca em boca e chegaram até nós? Não tenho como saber. Talvez nunca saiba. Mas foi bonito descobrir, no lugar mais inesperado - entre cabelos, barba, esmaltes e conversas de salão - que uma canção antiga ainda estava viva. E que a memória, às vezes, encontra caminhos misteriosos para reaparecer. Pedi o número do whatsap da senhora e disse que retornaria para saber maiores detalhes sobre aquela descoberta. Pedi para fazer uma fotografia dela ali no salão, mas ela estava com um procedimento no cabelo e não podia. Depois postarei aqui a história que ainda irei recolher dessa senhora a qual com certeza tem fotografias da mãe dela.

Pois é. Hoje, sem que eu esperasse, a vida me pregou essa curiosa peça. E talvez seja justamente por isso que algumas histórias precisam ser escritas: porque, se a gente apenas contá-las, podem parecer mentira.


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

HENRY KOSTER EM PAPARY E A "AUSÊNCIA" DE NÍSIA FLORESTA...

Imagem gerada por IA, inspirada no texto, sem comprometimento com a fidelidade

UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA

Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada.

IMAGEM REAL DE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA (DIONÍSIA GONÇALVES PINTO LISBOA). 

HENRY KOSTER EM PAPARY E A "AUSÊNCIA" DE NÍSIA FLORESTA...

Há certas páginas antigas que, quando reencontradas, parecem sair do silêncio dos arquivos para nos devolver não apenas uma informação, mas uma maneira de olhar para o passado. Foi assim que me deparei com um texto publicado na revista A Semana, em março de 1942, assinado por Henrique Gonçalves e intitulado “Um Governador do Século XVIII” (Leia-o, no final deste texto, ipsis literis). O título, por si só, poderia levar o leitor a imaginar que se trata apenas de mais uma narrativa de personagens da história luso-brasileira. Ele inicia o texto percorrendo esse universo curioso, lembrando marinheiros, soldados, governadores, poetas, juízes e outros personagens que, em diferentes momentos, receberam nomes que acabaram se tornando mais conhecidos do que os próprios nomes de batismo. Mas, à medida que o texto avança, ele entra num terreno muito mais interessante: os costumes, a moralidade, as festas, o teatro, os papéis sociais e, sobretudo, a posição da mulher na sociedade de outros tempos – única parte do texto que me interessou – porque é exatamente nesse movimento que surge, quase de passagem, o nome de Nísia Floresta e, com ele, uma referência a Henry Koster que, passados quase oitenta anos, merece ser novamente examinada.

Ele fala inicialmente das antigas comemorações, das “lamúrias”, dos fogos, do Te-Deum Laudamus e do teatro, que, segundo sua compreensão, era visto como instrumento de moralização. Recorda as representações religiosas, os autos de Anchieta, a presença do anjo e do diabo como personificações do prêmio e do castigo e, mais adiante, a chegada da comédia francesa ao Brasil. Lembra ainda que, em determinados períodos, as mulheres não subiam aos palcos, sendo seus papéis desempenhados por homens. A partir daí, sua reflexão deixa o teatro e passa para o espaço doméstico. É então que afirma que “a preservação da mulher dos meios masculinos se estendia pelo interior” e convoca Henry Koster como exemplo. Escreve Henrique:

“A preservação da mulher dos meios masculinos se estendia pelo exterior. Koster, por exemplo, não viu Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, ao visitar o pai dela, advogado. Época solene, onde o patriarca era senhor absoluto e autoritário. Tinha dentro de casa um pequeno reino. Não somente o negro lhe prestava a mais humilde obediência: também a mulher e as filhas eram vassalos incondicionais”

É uma passagem forte, reveladora da mentalidade do autor e, justamente por isso, não deve ser simplesmente descartada. Ao contrário, ela precisa ser lida em seu contexto, porque nos mostra como, em 1942 (ano da publicação do texto), o autor interpretava a sociedade doméstica na qual nascera Nísia Floresta. O problema começa quando uma interpretação dessa natureza passa a ser tomada como se fosse uma constatação documental absoluta.

Há, nesse ponto, uma distinção que considero indispensável. O autor não escreveu que Nísia ainda não havia nascido. Escreveu que Koster “não viu N´sia Floresta”. São fatos completamente diferentes. A primeira seria uma afirmação cronológica; a segunda é uma afirmação sobre aquilo que o viajante teria ou não teria visto. A cronologia conhecida da vida de Nísia Floresta estabelece seu nascimento em 12 de outubro de 1810, no sítio Floresta, em Papary. O relato original de Henry Koster registra sua passagem por Papary durante sua viagem de 1810, quando esteve na propriedade de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, pai da futura escritora. O próprio Koster escreveu que Dionísio lhe apresentou sua esposa, descreveu a pequena propriedade no vale e registrou aspectos da hospitalidade que recebeu. A fonte primária, portanto, é muito mais rica do que a frase do referido autor. E é justamente aqui que a menção a Koster se torna, para mim, particularmente curiosa. Se o viajante inglês é chamado pelo autor do texto para servir de testemunha de um costume social, então é preciso ouvi-lo diretamente. Não basta ouvir aquilo que alguém escreveu sobre ele em 1942. É necessário voltar ao livro do próprio Koster, publicado originalmente em 1816. E quando fazemos isso encontramos uma cena doméstica bastante concreta. O viajante chega a Papary, conhece Dionísio, entra em sua casa, é apresentado à esposa do anfitrião, observa a propriedade, participa de uma refeição e permanece ali durante algum tempo. Koster escreveu, em seu inglês de viajante: “Senhor Dionisio introduced me to his lady; he is a native of Portugal, and she a Brazilian.” Em seguida, descreve a pequena propriedade no vale e registra inclusive os costumes da refeição que lhe foi oferecida.

Esse pequeno detalhe possui enorme significado. Não estou dizendo, evidentemente, que a casa de Dionísio fosse uma ilha de igualdade feminina num mundo dominado pelo patriarcado. Seria um absurdo interpretar assim um episódio isolado. O início do século XIX brasileiro estava profundamente marcado pela autoridade masculina, pela estrutura patriarcal da família e por inúmeras restrições impostas às mulheres. O que estou dizendo é outra coisa: quando se utiliza a visita de Koster para demonstrar que as mulheres estavam necessariamente afastadas dos homens estranhos, não se pode ignorar que o próprio viajante registra ter sido apresentado à esposa de seu anfitrião, ou seja, houve uma situação concreta que não corresponde integralmente à generalização posterior. Dona Antônia Clara Freire do Revoredo não ficou escondida na cozinha ou no quarto. E não foi uma quebra qualquer. O documento concreto, aquele que nasceu da experiência do viajante, é mais complexo do que a interpretação posterior.

Há, porém, um aspecto ainda mais revelador nessa passagem e que, a meu ver, precisa ser destacado. Tudo indica que Henrique Gonçalves desconhecia a idade de Nísia no momento da visita de Koster (pelo menos isso fica claro, mesmo que ele não o tenha dito com todas as letras). Ao construir seu argumento, ele dá a entender que Nísia poderia ser compreendida dentro da mesma lógica das moças e mulheres da casa que, segundo sua interpretação dos costumes da época, deveriam ser preservadas dos olhos masculinos e da presença de homens estranhos. Mas Nísia não era uma moça. Era uma criança de colo, que faria apenas um mês de vida. E essa diferença muda inteiramente o sentido da passagem. Se a preocupação de Gonçalves era demonstrar que mulheres e moças eram mantidas afastadas da vista masculina, a presença de um bebê no interior da casa não se enquadraria necessariamente nessa regra. Afinal, qual seria o problema de um homem adulto ver uma criança do sexo feminino de apenas um mês de idade? A questão, portanto, não é simplesmente saber se Koster viu ou não viu Nísia, mas perceber que o autor de 1942 parece ter construído sua interpretação sem conhecer – ou sem considerar – esse dado elementar da cronologia. Ao aproximar Nísia da condição de uma “moça” que precisaria ser escondida dos olhos de um estrangeiro adulto, ele acaba projetando sobre um bebê uma regra de comportamento que faria sentido para mulheres jovens, mas que não necessariamente se aplicaria a uma criança recém-nascida. Essa parece ser uma das fragilidades mais significativas de sua argumentação. O autor parece partir da ideia geral de que, naquele universo doméstico, as moças eram protegidas dos olhares masculinos e, ao encontrar a informação de que Koster não registrou Nísia, encaixa o episódio nessa explicação.. Entretanto, ao que tudo indica, ele não percebeu que a criança a que se referia ainda era um bebê. E, se não conhecia essa circunstância, sua interpretação torna-se ainda mais frágil, porque passa a explicar a ausência de Nísia a partir de uma condição social que não correspondia à sua idade naquele momento.

E aqui chegamos ao ponto que considero essencial na leitura do texto da revista de 1942. Ele não estava escrevendo uma biografia de Nísia Floresta. Seu objetivo era totalmente outro. Estava falando das alcunhas, das cerimônias, do teatro, da moralidade e dos costumes sociais. Nísia aparece como exemplo isolado dentro de uma argumentação muito mais ampla sobre a posição da mulher. Isso explica o tom categórico da passagem. Para o autor, Koster não ter registrado Nísia era uma ilustração conveniente de sua ideia de que a mulher permanecia preservada do contato masculino. Mas a História, muitas vezes, é menos obediente às interpretações do que gostaríamos. O documento primário não diz tudo aquilo que uma interpretação posterior gostaria que ele dissesse. Há, inclusive, algo de profundamente interessante na passagem do equivocado autor: ele descreve a casa patriarcal como um “pequeno reino”, no qual o patriarca seria “senhor absoluto e autoritário” e no qual mulher e filhas seriam “vassalos incondicionais”. A imagem é poderosa e literariamente expressiva, mas não deixa de ser uma construção interpretativa. Ela pode ajudar-nos a compreender a percepção de Gonçalves sobre a sociedade antiga, mas não deve ser automaticamente aplicada, em sua totalidade, à casa de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa. Para isso precisaríamos de mais documentos, mais testemunhos e mais elementos capazesde reconstruir o cotidiano daquela família. E, quando encontramos uma fonte primária como Koster registrando a apresentação da esposa de Dionísio ao visitante, somos obrigados a introduzir uma nuance que o autor do texto não introduziu.

É justamente essa nuance que considero necessária quando se escreve sobre Nísia Floresta. A pesquisa sobre sua infância não pode ser construída apenas sobre imagens posteriores da escritora adulta. Não podemos olhar para a mulher que, décadas depois, se tornaria uma das grandes vozes femininas do Brasil oitocentista e projetar retroativamente sobre sua infância todas as características de sua personalidade madura. Da mesma maneira, não podemos pegar uma interpretação de 1942 e tratá-la como fotografia fiel de uma casa existente em 1810. Há quase um século entre o acontecimento e o texto de 1942. Nesse intervalo, mudaram os costumes, mudaram as ideias, mudaram as maneiras de interpretar o papel da mulher e mudaram também as formas de escrever História. É justamente por isso que considero tão importante trazer à luz esse velho artigo publicado há 84 anos. Ele não deve ser destruído pela crítica; deve ser salvo por ela. É uma fonte interessante não apenas pelo que afirma sobre Nísia Floresta, mas pelo modo como um intelectual de 1942 enxergava a sociedade brasileira dos séculos anteriores. Seu texto revela uma determinada concepção de autoridade patriarcal, de moralidade, de teatro, de costumes e de comportamento feminino. Quando menciona Koster, ele está fazendo muito mais do que registrar uma passagem de viagem: está utilizando o viajante como testemunha para construir uma interpretação da sociedade. E é precisamente essa operação que devemos examinar.

Existe ainda outro aspecto que torna a passagem particularmente saborosa para quem pesquisa a história de Papary. Henry Koster não passou simplesmente por um lugar qualquer. Ele esteve diante de uma pequena comunidade que descreveu com interesse e simpatia. Viu a paisagem do vale, falou sobre a lagoa, observou os pescadores chegando, comparou aquela pequena movimentação ao mercado de peixes de Billingsgate, em Londres, e registrou a hospitalidade que encontrou na residência de Dionísio. Papary aparece em suas p´ginas como uma localidade viva, com suas águas, seus pescadores, seus habitantes dispersos e sua pequena economia. E, dentro desse cenário, estava a família de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, justamente a família na qual havia nascido Dionísia Gonçalves Pinto, aquela que o futuro conheceria pelo nome de Nísia Floresta Brasileira Augusta. O que mais me chama a atenção, entretanto, é a facilidade com que uma frase como “Koster não viu Nísia Floresta” pode, ao longo do tempo, ser transformada em uma certeza muito maior do que a fonte permite. Não viu porque não a registrou? Não viu porque ela estava afastada? Não viu porque era uma criança de colo? Não viu porque não estava presente naquele momento? O documento não responde a essas perguntas. E é exatamente aqui que devemos parar. Não temos o direito o direito de preencher o silêncio documental com uma certeza inventada apenas porque ela parece combinar com uma teoria.

Há, portanto, uma diferença enorme entre aquilo que sabemos e aquilo que podemos imaginar. Sabemos que Nísia nasceu em 12 de outubro de 1810. Sabemos que Koster esteve em Papary durante sua viagem daquele ano. Sabemos que esteve na residência de Dionísio. Sabemos que Dionísio lhe apresentou sua esposa. Sabemos que o inglês registrou a hospitalidade daquela família. Sabemos também que Gonçalves, em 1942, escreveu que Koster não viu Nísia Floresta. O que não sabemos, com segurança documental, é se Koster efetivamente olhou para a criança, se a tomou nos braços, se ouviu seu nome ou se simplesmente não teve contato direto com ela. Essa parte pertence ao território do silêncio histórico. E talvez seja justamente esse silêncio que torne o episódio tão fascinante. Imagine-se a cena, mas sem inventá-la: uma pequena propriedade no vale de Papary, um viajante inglês chegando depois de atravessar caminhos difíceis, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa recebendo o estrangeiro, Antônia Clara presente naquela casa e, em algum ponto daquela mesma existência doméstica, uma criança recém-nascida chamada Dionísia. O visitante não poderia imaginar que aquela criança, ainda sem qualquer importância para os olhos do mundo, se transformaria em Nísia Floresta Brasileira Augusta. Koster estava registrando uma pequena passagem de sua viagem; a História, entretanto, acabaria transformando aquela visita numa das primeiras referências documentais à família da futura escritora.

Por isso, considero que a frase do autor equivocado deve ser preservada, mas também confrontada. Ela é preciosa como documento de 1942, porém insuficiente como prova absoluta sobre o que aconteceu naquela residência em 1810. O erro não está necessariamente na existência da frase; está naquilo que se pretenda fazer com ela. Se alguém disser que ele registrou que Koster não viu Nísia, estará reproduzindo a fonte. Se alguém disser que, por causa disso, Nísia ainda não havia nascido, estará indo muito além do que Gonçalves escreveu e, sobretudo, contrariando a cronologia biográfica estabelecida. Se alguém afirmar que Koster não teve qualquer contato com mulheres da casa, estará igualmente ignorando o testemunho do próprio viajante, que registra ter sido apresentado à esposa de Dionísio. E aqui está, talvez, a grande lição desse pequeno episódio: uma fonte não deve ser usada contra outra fonte; as fontes devem conversar entre si. O artigo nos oferece a interpretação de 1942. Koster nos oferece o testemunho da viagem. A cronologia biográfica nos informa quando Dionísia nasceu. Cabe ao pesquisador colocar essas peças sobre a mesa e deixar que elas revelem, juntas, aquilo que cada uma isoladamente não consegue mostrar. O artigo de 1942 é uma dessas pequenas peças que, encontradas quase por acaso em uma velha revista, ajudam a reconstruir a própria história da memória. O texto fala de governadores, de apelidos, de teatro, de costumes e de mulheres, mas, de repente, quase como quem abre uma janela por alguns segundos, deixa entrar o nome de Nísia Floresta. E é justamente essa janela que hoje podemos reabrir, desta vez com os documentos na mão.

A minha refutação, portanto, não é contra o valor histórico do artigo. É contra a aceitação automática de sua interpretação. O autor escreveu a partir dos valores, conhecimentos e referências disponíveis naquele momento. Nós, após 84 anos, temos a obrigação de voltar às fontes e verificar o que pode ou não ser sustentado. E quando fazemos isso percebemos que a frase sobre Koster é muito mais delicada do que parece. O viajante pode não ter registrado Nísia; isso é uma coisa. Transformar esse silêncio em prova de que ela não existia ou em explicação definitiva sobre sua ausência é outra, inteiramente diferente. Há ainda uma ironia que não posso deixar de registrar. Koster, convocado por Henrique para ilustrar o isolamento feminino, deixou justamente um testemunho que mostra uma mulher da casa sendo apresentada ao visitante. E a criança que não aparece nominalmente em suas páginas já estava, segundo a cronologia conhecida, no mundo quando o viajante esteve ali. Nísia faria um mês de vida. O futuro, como quase sempre acontece, estava escondido no detalhe. Naquele momento, ninguém poderia saber que aquela pequena Dionísia seria a mulher que atravessaria o Atlântico, publicaria livros, enfrentaria preconceitos, defenderia a educação feminina e ocuparia um lugar singular na história intelectual brasileira.

Pois bem, uma revista de 1942, uma página amarelada, uma frase sobre um viajante inglês, um nome grafado como “Nizia Floresta”, um diário publicado em Londres em 1816 e uma data de nascimento podem parecer elementos dispersos. Mas, quando colocados lado a lado, eles formam uma pequena constelação documental. E é nessa constelação, entre o que está escrito e o que permaneceu silencioso, que podemos reencontrar a verdadeira dimensão daquele episódio. Henrique merece, portanto, ser lido. Henry Koster merece ser relido. E Nísia Floresta merece que ambos sejam confrontados. Porque a História não se faz repetindo uma frase antiga como se ela fosse uma sentença definitiva. Faz-se perguntando de onde veio a frase, em que contexto foi escrita, o que a fonte original realmente diz e o que as datas permitem afirmar. No caso de Nísia Floresta, essa cautela é ainda mais necessária, porque sua própria vida foi marcada pela ruptura de muitos dos limites sociais que, posteriormente, tantos autores procuraram explicar. Talvez por isso a menina que nasceu no sítio Floresta seja ainda hoje tão resistente às interpretações fáceis.

E quanto à afirmação do texto de 1942, fica a necessária reparação: ele escreveu que Koster não viu Nísia Floresta; não escreveu que ela ainda não havia nascido. Essa diferença deve ser respeitada. Sabemos que, durante algum tempo, mesmo que já existissem referências datando o nascimento de Nísia em 12 de outubro de 1810, muitos ainda pensavam – equivocadamente –  que ela havia nascido em 1809, portanto poderia surgir a pergunta: “como Koster não viu uma criança que já contava com mais de um ano de idade?”. Mas isso não é dito no texto. A cronologia do nascimento de Dionísia em 12 de outubro de 1810 e a passagem de Koster por Papary naquele mesmo ano impedem que acrescentemos à fonte uma conclusão que ela não contém. Se Koster efetivamente viu ou não aquela criança, a documentação disponível não nos permite afirmar com absoluta segurança. E talvez seja justamente essa a resposta mais honesta que a História pode oferecer: não preencher a lacuna com imaginação, mas deixá-la aberta, como uma pequena janela para um passado que, felizmente, ainda podemos continuar investigando.

EIS O TEXTO ORIGINAL, IPSIS LITERIS:

UM GOVERNADOR DO SECULO XVIII

HENRIQUE GONZALVES

De onde vieram os apelidos ou as alcunhas em Portugal? Possivelmente dos marinheiros e soldados, gente de origem obscura, que a troco da liberdade se dispunham a enfrentar a cólera dos Oceanos. Já em fins do século XV havia um navegador afamado que tinha o apelido de Bofes de Bugaço. O médico da frota de Cabral, em carta a D. Manuel, se refere a outro, de antonomásia o Bicupudo. O próprio Camões não deixou de ter a sua alcunha: chamavam-no Trinca-Fortes. Por certo meteu os dentes nalgum criado del-rei. Os documentos do Santo Ofício em Pernambuco, em fins de 1500, já nos falam sobre a existência de indivíduos com alcunhas, como Alma de Baratuzza e Boas Noites, nomes por que eram mais conhecidos, segundo o depoimento dos que vieram à mesa da Inquisição.


Um caso interessante passado na Bahia, em 1593, nos mostra como nascia um apelido. Depôs certa pessoa junto ao delegado inquisitorial Heitor Furtado de Mendonça. Falou com gravidade. Disse que havia uma mulher que era bruxa; à noite transformava-se em marreca e saía pelas encruzilhadas assustando os transeuntes. Numa das ocasiões, o depoente estava à janela conversando com o vigário da Igreja de N. S. da Vitória quando ela passou. O padre, indicando-a com o dedo, disse muito convencido: - Lá vai Dona Patinha!

Alguns anos depois vem à mesa a testemunha, grave e memorativa, a contar a brincadeira do vigário, que talvez tenha crismado a pobre mulher de D. Patinha, agravando sem querer a situação dela. No século XVIII, na mesma Bahia, houve um governador que nos fins do seu governo saiu apelidado de "Braço de Prata". Ao governador de Minas Gerais, Luiz da Cunha Menezes, antes da Inconfidência, os poetas puseram a alcunha de "Fanfarrão Minésio". A um dos juízes do tribunal encarregado de julgar os Inconfidentes, Antonio Diniz da Cruz e Silva, cognominaram "Corvo do Mondego". Os apelidos portugueses transpuseram os mares. Vieram perpetuar-se neste lado do Atlântico com aquelas características que assinalavam e definiam os seus portadores: um nome ridículo que mais condizia com a personalidade do alcunhado…

As comemorações antigas, segundo costumes da época, eram constituídas pelas luminárias (o que hoje denominamos simplesmente fogos), do Te-Deum Laudamus e do drama. O teatro, no tempo, considerava-se um meio de pregar com exemplos os atos da mais nobre moralidade. Em Pernambuco, em 1585, em sinal de graça pela partida dos corsários Lancaster e Venner, era levado a efeito o drama "Quem tem farelo?" ou o "Lázaro Pobre", atribuído a Bento Teixeira. Anchieta tornava agradável a representação dos autos por ele compostos, imprimindo-lhes a graça de Gil Vicente. Eram leves, não fatigavam o indouto. As representações tinham um cunho moralizador: o prêmio do bom e o castigo do mau. Um anjo se encarregava do primeiro, e o diabo do segundo.

Mais tarde se instala a comédia francesa no Brasil, que encontra no espírito aprimorado e culto da época o melhor acolhimento. Não faltava a Casa da Ópera, tanto que eram dois os teatros na Corte do Segundo Império: o francês e o italiano. Uma moral severa presidia as coisas: mulheres não representavam no palco. O papel destas era desempenhado por homens. Tal costume verificava-se na Inglaterra no século XVIII e em Portugal de D. Maria I. Um humorista viu, em 1684, na corte de D. Pedro II, homens na ribalta substituindo artistas do sexo feminino. A presença da mulher em meios masculinos não se estendia pelo interior. Koster, por exemplo, quando visitou o Rio Grande do Norte, não viu Nísia Floresta, cujo pai recém-adquirira terras. Época solene quando o patriarca era senhor absoluto e autoritário. Tinha dentro de casa um pequeno reino. Não só exigia da mulher a mais humilde obediência: também a mulher e as filhas eram vassalos incondicionais.

Neste ambiente, severo de um lado e ridículo de outro, em que figuravam tipos como Paulo da Gama, governador do Rio Grande do Sul, surgiam as mais curiosas histórias. Este vinha substituir José Marcelino de Figueiredo, que, em verdade, não era nem José, nem Marcelino, nem Figueiredo. Chamava-se Manoel Gomes de Sepúlveda. Era general do exército português. Segundo Augusto Porto Alegre em seu livro, ele refugiara-se no extremo sul do Brasil com um nome suposto. Os ingleses, que costumavam estar com frequência no Porto de S. Pedro do Sul nesse tempo, não encontrariam com facilidade José Marcelino, travestido de governador. Fundador de Porto Alegre, o governador José Marcelino maldira um oficial inglês na Europa... (Nota: O texto original terminava sugerindo o motivo de sua fuga e o apelido "O Lentilhas" que dá título à crônica).

terça-feira, 22 de setembro de 2026

FRANCISCA HENRIQUE, HENRIQUE CASTRICIANO, NÍSIA FLORESTA E A ARTE DE VIAJAR PARA TRANSFORMAR...

 

Hoje, ao cutucar a tela do meu celular, deparei-me com uma postagem da professora Francisca Henrique que me causou uma dessas surpresas boas que, vez por outra, nos chegam aparentemente do nada pelo Instagram. Vi que ela esteve na Estônia e Finlândia, em caráter de estudo e pesquisa sobre a Educação daqueles países. No vídeo, uma moça lhe pergunta: “O que foi passar uma semana na Estônia?”. E Francisca responde: “Foi algo surpreendente... me tornou uma pessoa cheia de esperança pra colocar em prática noventa por cento do que eu observei, do que eu ouvi, das visitas que fiz... Criei repertório, novas experiências e pra isso eu estou voltando para a escola com um novo olhar do que eu posso transformar para o bem da minha equipe de professores, dos meus alunos e das famílias. É um modelo que dá para ser muito bem aplicado na realidade do Brasil. É por isso que eu estou aqui e sou grata a futuros eventos, por essa ideia e por esse convite”. Fiquei olhando a imagem da professora Francisca e imaginando o quanto a educação é extraordinária. E pensei imediatamente em outro norte-rio-grandense que, mais de um século atrás, também atravessou o oceano movido pela mesma inquietação: Henrique Castriciano. E foi então que percebi que aquela viagem de Francisca à Finlândia e à Estônia não era apenas uma notícia sobre uma educadora contemporânea. Havia ali uma história que conversava com outra história, e ambas se encontravam no mesmo ponto: o desejo de conhecer o que existe de melhor no mundo para trazer alguma coisa de volta à terra natal.

Em 1909, Henrique Castriciano viajou à Europa, já doente, mas não deixou de ampliar suas pesquisas sobre educação, especialmente sobre a educação feminina. Na Suíça, em Friburgo, visitou a École Ménagère, instituição que lhe causou profunda impressão e que se tornaria uma das grandes inspirações para aquilo que realizaria posteriormente em Natal. Não foi uma viagem de turista. Castriciano observou, estudou, procurou compreender o funcionamento daquele modelo e voltou para o Rio Grande do Norte carregando na cabeça uma ideia que, para a época, era extraordinariamente ousada. Ele acreditava que a educação poderia modificar a sociedade e que a mulher deveria ocupar papel fundamental nesse processo. A experiência suíça não ficou perdida entre as lembranças de uma viagem europeia. Em 23 de julho de 1911, ele participou da criação da Liga de Ensino do Rio Grande do Norte e, em 1º de setembro de 1914, surgia a Escola Doméstica de Natal, inspirada na experiência da escola suíça de Friburgo, tornando-se posteriormente uma das instituições educacionais femininas mais respeitadas do Brasil. Castriciano havia feito aquilo que Francisca acaba de fazer: olhou para fora, estudou uma realidade diferente e perguntou a si mesmo como aquele conhecimento poderia servir à sua pr´pria terra.

Há, porém, um detalhe ainda mais bonito nessa história. Henrique Castriciano não foi à Europa apenas para estudar instituições de ensino. Ele era também um educador profundamente interessado em Nísia Floresta. A admiração que nutria pela grande educadora, escritora e pensadora nascida em Papary foi tão intensa que se transformou em uma verdadeira paixão intelectual. Castriciano pesquisou durante anos a vida de Nísia, procurou documentos, examinou bibliotecas, entrevistou pessoas e manteve correspondência com familiares da escritora. Chegou a estabelecer contato com Lívia Augusta, filha de Nísia, já idosa, que lhe confiou fotografias, documentos e informações preciosas sobre a mãe. Castriciano reuniu durante anos um farto material com a intenção de escrever uma biografia de Nísia Floresta. A doença, entretanto, impediu que concluísse o trabalho. Generosamente, transferiu grande parte desse acervo para Adauto da Câmara, que publicou em 1941 a sua História de Nísia Floresta. É uma das passagens mais bonitas da história intelectual do nosso Estado, porque revela que o conhecimento, quando tratado com grandeza, não pertence a quem o recolhe. Ele pertence à posteridade.

E por que estou falando de Henrique Castriciano quando deveria estar falando de Francisca Henrique? Porque há pessoas que parecem atravessar o tempo através das ideias. Castriciano e Francisca nasceram em épocas completamente diferentes, viveram circunstâncias distintas e construíram suas trajetórias em mundos que não podem ser comparados mecanicamente. Mas existe entre eles uma afinidade que considero extraordinária: ambos compreenderam que educar exige inquietação. Nenhum dos dois parece ter se contentado em administrar aquilo que já sabia. Castriciano atravessou o oceano para conhecer uma experiência educacional que pudesse ajudar a transformar o Rio Grande do Norte. Francisca atravessou o oceano para conhecer experiências educacionais que possam ajudar a transformar sua escola, sua equipe de professores, seus alunos e suas famílias. Ele voltou da Suíça trazendo um projeto. Ela retorna da Finlândia e da Estônia trazendo repertório, experiências e esperança. Ele criou. Ela continua criando. Ele olhou para a Europa e pensou no futuro da educação potiguar. Francisca olha para o norte da Europa e pensa no futuro da educação em Parnamirim e no Brasil.

Mas existe ainda uma terceira personagem nessa história, e talvez seja justamente aquela que torna tudo mais bonito para mim: Nísia Floresta Brasileira Augusta. Tenho uma relação familiar com Nísia e, por isso, talvez eu não consiga falar dela com a distância de um historiador. Há uma dimensão afetiva que inevitavelmente se mistura à intelectual. Nísia foi uma mulher que não aceitou as limitações impostas pelo seu tempo. Educadora, escritora, jornalista e filósofa, percorreu diversos países da Europa e fez das viagens uma extensão de sua atividade intelectual. Não viajava apenas para ver. Viajava para conhecer, observar, pensar, escrever e comparar. Levava consigo perguntas e voltava com novas perguntas. Sua vida foi uma permanente procura por conhecimento. Quando penso nisso, e depois vejo Francisca Henrique retornando da Finlândia e Estônia cheia de entusiasmo, e que volta para a escola com um novo olhar, não consigo deixar de perceber uma espécie de parentesco espiritual entre essas mulheres, não no sentido genealógico, mas naquele território mais profundo em que vivem as pessoas que se recusam a permanecer intelectualmente paradas.

A história pessoal de Francisca torna essa comparação ainda mais significativa. Conheço sua trajetória e já escrevi sobre ela em meus blogs. Li e reli o seu relato autobiográfico e cada vez mais me convenço de que sua vida é uma das histórias mais lindas que conheci. Francisca nasceu em um contexto de grandes dificuldades materiais. Viveu numa casa humilde, conheceu o galpão de palha, perdeu cedo o pai e encontrou na mãe, Regina, uma dessas mulheres extraordinárias que parecem possuir dentro de si uma usina de força. Seu ensino fundamental foi feito praticamente em casa, de maneira autodidata, orientada pelo irmão que a alfabetizou. Aos dez anos já dominava a escrita e fazia todas as operações matemáticas. Aos quinze, resolvia contas avançadas. Quando foi para São Paulo, passou a visitar escolas, museus e instituições públicas sempre que tinha oportunidade. Ela própria diz que era praticamente um vício. Bastava sobrar tempo e lá estava ela dentro de um educandário, perguntando tudo. É impossível não perceber que aquela Francisca que hoje viaja à Finlândia e à Estônia já estava ali, décadas atrás, entrando nas escolas simplesmente para perguntar, observar e aprender.

De volta a Parnamirim, continuou estudando e trabalhando. Tornou-se professora, fez o Logus II, ingressou na UFRN em 1987 e concluiu o curso de Letras em 1991. Seu estágio foi realizado com o método Paulo Freire, experiência que a marcou profundamente. Depois, levou para Parnamirim projetos educacionais voltados à formação de jovens e adultos e percorreu escolas de todo o município orientando e formando professores. Muitas vezes, em razão da precariedade das condições daquele período, chegou a utilizar uma ambulância para alcançar as escolas. Aquilo que poderia parecer uma dificuldade tornou-se, para ela, um laboratório de aprendizagem. E talvez tenha sido justamente ali que se consolidou a educadora que mais tarde criaria uma das instituições de ensino mais conhecidas de Parnamirim. Em 1991 fundou o Núcleo Educacional Arco-Íris, inaugurado no ano seguinte com 120 alunos. Onze anos depois, a instituição passou a chamar-se PH3, nome que homenageia seus dois filhos e que Francisca também associa às ideias de Potencial Humano ao Cubo, Paz e Harmonia.

É impossível conhecer essa história e enxergar Francisca apenas como uma empresária da Educação. Antes da empresária existiu a menina que estudava sozinha, a balconista da Loja Cardoso cujos tecidos se confundiam com livros e cadernnos em seu horário de descanso, a mulher que buscava ampliar seus conhecimentos, a professora que percorria escolas, a universitária que estudava de madrugada enquanto embalava a filha, a educadora que levou Paulo Freire para Parnamirim e a mulher que transformou suas próprias dificuldades em combustível para construir alguma coisa maior. O PH3 não nasceu simplesmente de uma decisão empresarial. Nasceu de uma longa gestação intelectual e humana. Por isso, quando Francisca viaja para estudar sistemas educacionais em outros países, eu não vejo uma empresária fazendo uma viagem internacional. Vejo aquela mesma menina que, muitos anos atrás, queria saber mais e que nunca perdeu o hábito de perguntar.

Francisca é hoje proprietária do PH3 e também está à frente de uma franquia do Colégio Mappem Bear em Parnamirim. Ao longo dessa caminhada, acumulou prêmios, homenagens e reconhecimentos, mas talvez nenhum deles explique completamente quem ela é. Há pessoas cuja grandeza pode ser medida pelos diplomas que recebem. Outras, pelos prédios que constroem. Outras, ainda, pelo número de alunos que passaram por suas escolas. Francisca pode ser observada por tudo isso, mas existe algo que me parece mais importante: ela não parou. Mesmo depois de construir uma trajetória respeitável, continua viajando para aprender. Continua procurando novidades. Continua perguntando. Continua inquieta.

E essa inquietação recentemente ganhou também uma dimensão cultural. Em 10 de novembro de 2025, Parnamirim viveu um momento importante com a criação da Academia de Letras e Artes de Parnamirim, iniciativa ligada à própria Francisca Henrique. É como se a educadora que construiu uma escola tivesse decidido que Parnamirim precisava também de uma casa para as letras, para as artes, para a memória e para a inteligência. Não é dif´cil compreender esse movimento quando se conhece sua trajetória. Francisca sempre parece ter acreditado que educação não é apenas transmissão de conteúdo. Educação é construção humana. É cultura. É memória. É curiosidade. É possibilidade.

Talvez por isso eu veja tanta beleza nessa sucessão de acontecimentos. Nísia Floresta viajou pelo mundo como educadora e pensadora. Henrique Castriciano atravessou o Atlântico, foi à Suíça conhecer uma experiência educacional e trouxe para Natal a inspiração que ajudaria a produzir a Escola Doméstica. Ao mesmo tempo, dedicou anos de sua vida à preservação da memória de Nísia, recolhendo documentos e informações que poderiam ter desaparecido para sempre. Agora Francisca Henrique viaja à Finlândia e à Estônia, observa escolas, bibliotecas, órgãos educacionais, escuta pessoas, conhece métodos, cria repertório e retorna dizendo que pretende colocar em prática grande parte do que viu. São histórias diferentes, evidentemente, mas há entre elas um fio que não consigo deixar de perceber: o conhecimento não como ornamento, mas como instrumento de transformação.

Francisca Henrique não é apenas uma empresária que fundou uma escola, recebeu prêmios e construiu uma carreira bem-sucedida. É a menina de Vera Cruz que conheceu a pobreza, viveu numa casa de taipa, teve um galpão de palha como parte da paisagem da infância e, em vez de permitir que aquelas circunstâncias determinassem seu futuro, transformou cada dificuldade em tijolo e argamassa e nunca deixou de construir. Francisca é a filha da dona Regina, a professora, a mãe, a esposa, a universitária que estudava de madrugada, a educadora que percorria escolas, a mulher que criou o PH3 e que, mesmo depois de tudo isso, continua olhando para o mundo em busca de alguma coisa nova que possa trazer para casa.

Quando Francisca diz que a viagem à Estônia lhe deu esperança, essa palavra me chama especialmente a atenção. Esperança, para ela, não parece ser espera. É movimento. É trabalho. É transformação. É voltar para a escola com um novo olhar e perguntar o que pode ser feito de maneira diferente. Foi assim com Castriciano. Ele não voltou da Suíça apenas encantado com o que viu. Voltou determinado a fazer. Foi assim com Nísia, que transformou suas experiências de vida e de viagem em pensamento, livros e ação educacional. E é assim que vejo Francisca: uma mulher que viaja para aprender, aprende para transformar e transforma para deixar alguma coisa de melhor para aqueles que vêm depois.

Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual aquela postagem que vi no meu celular tenha me causado tanto orgulho. Francisca Henrique não estava simplesmente dizendo que havia gostado da Estônia. Estava dizendo que havia voltado com novas ideias para produzir frutos em Parnamirim. E nisso existe uma lição que Henrique Castriciano compreendera mais de um século atrás e que Nísia Floresta parecia compreender ainda antes dele: não há fronteira para quem procura conhecimento.

Francisca Henrique é, para mim, uma dessas pessoas inquietas que honram a cidade onde nasceram e construíram sua vida. Uma mulher que não se contenta com o que já fez, que não permite que o tempo a desatualize e que parece ter sempre uma nova porta para abrir. Se Parnamirim tem uma história feita de pioneiros, de homens e mulheres que colocaram tijolo sobre tijolo para construir a cidade, Francisca é uma dessas construtoras. Só que os seus tijolos são também escolas, professores, alunos, academia, livros, ideias, cultura, arte e projetos. Ela vem colocando esses tijolos há décadas.

E foi por isso que, ao vê-la na Estônia, pensei em Henrique Castriciano na Suíça e em Nísia Floresta atravessando fronteiras. Pensei que as cidades são feitas de ruas, casas, prédios e monumentos, mas sua verdadeira grandeza é construída por pessoas que têm coragem de imaginar aquilo que ainda não existe. Castriciano imaginou uma nova educação para o Rio Grande do Norte. Nísia imaginou uma mulher diferente para o Brasil. Francisca continua imaginando uma educação melhor para seus alunos, seus professores, suas famílias e para a cidade que escolheu como sua.

Algumas vidas não devem ficar apenas na memória de quem as conheceu. Precisam ser contadas. Francisca Henrique merece ser contada numa bela biografia. E, enquanto esse dia não chega, fico feliz em registrar aqui esse tão representativo fragmento que encontrei numa tela de celular.E, talvez sem perceber, Francisca Henrique continua fazendo aquilo que fizeram antes dela os grandes espíritos que compreenderam que viajar não é apenas mudar de lugar. Viajar é ampliar o mundo dentro de si para, depois, ter coragem de transformar o mundo à sua volta. Parabéns, Francisca!