| Peggy Sharppe Valadares |
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| Acima, da esquerda para a direita: Elizabeth Lowe, UIUC; Peggy Sharpe, FSU; Domicio Coutinho, Brazilian Endowment for the Arts; Ana Maria Machado, escritora; Joyce Cavalcanti, REBRA; Renata Wasserman, Wayne State University; Jacinele Brataas, REBRA. Fonte: PN Fall 2009 Color ONLINE_2.indd |
Quando Peggy Sharpe se aproximou da produção de
Nísia, portanto, encontrou uma autora cuja importância histórica já havia sido
percebida por alguns estudiosos, mas cuja obra permanecia em grande parte
inacessível. Muitos dos livros publicados por Nísia durante o século XIX haviam
se tornado raros, encontravam-se dispersos em bibliotecas e coleções
particulares ou não haviam recebido novas edições brasileiras. Essa situação
explica por que a memória de Nísia sobrevivera durante tanto tempo de maneira
desigual: havia informações biográficas, homenagens, referências em jornais e
estudos pioneiros, mas o acesso direto aos seus textos era extremamente
limitado. No Rio Grande do Norte, essa dificuldade pode ser percebida de maneira
concreta. Em 1994, durante minhas próprias pesquisas, tive a oportunidade de
conhecer, no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, um
exemplar original de obra de Nísia Floresta, mostrado pelo dr. Enélio
Petrovich, então presidente da instituição. A experiência é significativa
porque demonstra como, ainda na década de 1990, o pesquisador interessado em
Nísia dependia muitas vezes da localização física de exemplares raros e de
acervos institucionais para ter acesso direto à produção da escritora.
Antes de Peggy Sharpe, entretanto, houve homens
e mulheres que trabalharam para que essa memória não desaparecesse. Entre eles,
Henrique Castriciano de Souza, nascido em Macaíba em 15 de março de 1874 e
falecido em Natal em 26 de julho de 1947, ocupa lugar de grande importância.
Escritor, jornalista, poeta, educador e intelectual de atuação marcante no Rio
Grande do Norte, Henrique Castriciano dedicou atenção especial à memória de
Nísia Floresta e reuniu informações e documentos que posteriormente seriam
utilizados por outros pesquisadores. Seu trabalho deve ser visto dentro de uma
época em que os mecanismos de preservação documental eram muito mais precários
do que os atuais e em que grande parte da produção intelectual do século XIX
permanecia dispersa. A importância de Castriciano não está apenas naquilo que
escreveu, mas também no fato de ter percebido que a memória de Nísia precisava
ser preservada antes que desaparecessem as fontes capazes de sustentá-la.
Esse trabalho seria posteriormente ampliado por
Adauto da Câmara, autor de História de
Nísia Floresta, publicado em 1941. A obra
tornou-se durante décadas uma das principais referências para quem desejasse
conhecer a vida da escritora. Adauto não partiu do vazio. Ao contrário,
beneficiou-se do trabalho realizado anteriormente por Henrique Castriciano e
incorporou informações que ajudaram a construir uma narrativa biográfica de
maior amplitude. Por isso, é importante compreender a historiografia de Nísia
como uma cadeia de transmissão e recuperação documental, e não como uma
sucessão em que cada pesquisador posterior simplesmente substitui o anterior.
Castriciano teve importância na coleta e preservação; Adauto da Câmara
desempenhou papel fundamental na sistematização biográfica; pesquisadores posteriores
voltaram aos documentos, localizaram novas fontes, fizeram novas perguntas e,
em alguns casos, corrigiram interpretações anteriores. A história da
recuperação de Nísia é, portanto, também a história de diferentes gerações de
pesquisadores trabalhando sobre um patrimônio documental que não chegou inteiro
até o presente.
| Peggy Sharpe Valadares |
Foi nesse terreno que Peggy Sharpe encontrou
Nísia Floresta. Pesquisadora norte-americana ligada aos estudos de literatura e
cultura luso-brasileira, Sharpe dedicou parte significativa de sua trajetória
ao estudo e à divulgação de escritoras brasileiras. A própria edição de 1989 de
Opúsculo humanitário deixa evidente que seu interesse não estava limitado a
Nísia. Peggy Sharpe vinha pesquisando e divulgando escritoras brasileiras de
diferentes períodos, contribuindo para ampliar, entre estudantes e
pesquisadores norte-americanos, o conhecimento de uma literatura feminina
brasileira que permanecia pouco representada nos programas acadêmicos. Nísia,
nesse sentido, tornou-se uma das figuras mais importantes desse trabalho de
recuperação, justamente porque sua obra reunia literatura, educação, reflexão
social e uma discussão pioneira sobre a posição da mulher.
A publicação de Opúsculo humanitário em 1989
constituiu um dos momentos mais importantes desse processo. O livro havia sido
originalmente publicado em 1853 e retornou ao público brasileiro 136 anos
depois, em edição atualizada pela Cortez, em parceria com o Instituto Nacional
de Estudos e Pesquisas Educacionais, trazendo estudo introdutório e notas de
Peggy Sharpe-Valadares e posfácio de Constância Lima Duarte. A Biblioteca
Nacional registra a edição de 1989 como uma publicação de 164 páginas,
pertencente à série Biblioteca da Educação -
Mulher Tempo. A importância da iniciativa
não estava simplesmente na reimpressão de um livro antigo, mas na possibilidade
de oferecer ao leitor contemporâneo instrumentos para compreender o texto de
Nísia dentro do contexto histórico e intelectual em que havia sido produzido. A
edição permitiu que uma obra fundamental sobre educação feminina voltasse a
circular num momento em que os estudos sobre mulheres estavam adquirindo nova
dimensão acadêmica no Brasil e no exterior.
O significado dessa publicação torna-se ainda
maior quando se considera o próprio conteúdo de Opúsculo humanitário. Nísia
não escreveu apenas uma defesa genérica da educação das mulheres. Ela analisou
historicamente a condição feminina, comparou sociedades, discutiu o papel da
educação na formação moral e intelectual e criticou as limitações impostas às
brasileiras de seu tempo. Os primeiros ensaios percorrem referências históricas
que vão da Antiguidade a diferentes sociedades europeias e norte-americanas,
antes de chegarem à situação da mulher brasileira no século XIX. Nísia utilizou
a história como argumento para demonstrar que a condição feminina não era
resultado de uma incapacidade natural, mas de processos culturais, sociais e
educacionais. A educação, portanto, aparecia em seu pensamento não como simples
ornamento para as mulheres das famílias abastadas, mas como elemento
fundamental para o desenvolvimento individual e para o próprio progresso da
sociedade. Essa concepção ajuda a explicar por que Peggy Sharpe considerou o Opúsculo um texto de
importância tão significativa dentro da história intelectual brasileira.
A experiência educacional de Nísia também confere
uma dimensão prática ao seu pensamento. Em 1838, fundou no Rio de Janeiro o
Colégio Augusto, instituição destinada à educação de meninas. O estabelecimento
ficou conhecido por oferecer um programa de estudos mais amplo do que aquele
tradicionalmente reservado às mulheres. Numa sociedade em que a educação
feminina era frequentemente reduzida às chamadas prendas domésticas, a
iniciativa representava uma mudança significativa. As críticas que Nísia
recebeu demonstram, inclusive, que sua atuação não passou despercebida. A
imprensa do período registrou ataques à diretora e àquilo que seus opositores
consideravam uma excessiva ampliação da educação das meninas. A expressão
“mulher metida a homem”, posteriormente recuperada nos estudos de Peggy Sharpe,
sintetiza o tipo de reação que uma mulher intelectual podia provocar ao ocupar
um espaço público tradicionalmente reservado aos homens. Nísia enfrentou esse
ambiente não apenas como escritora, mas também como educadora responsável por
uma instituição concreta.
A importância de Peggy Sharpe está justamente em
ter compreendido essa multiplicidade. Nísia não era apenas “a primeira
feminista brasileira”, fórmula que, embora tenha sido utilizada durante décadas
e possua fundamento em determinados aspectos, é insuficiente para definir uma
personalidade intelectual tão complexa. Nísia foi educadora, escritora,
tradutora, cronista, autora de literatura de viagem, pensadora social e
observadora crítica da sociedade brasileira. Sua produção também revela
preocupações com a escravidão, a situação dos indígenas, a educação das
crianças e a própria formação moral da sociedade. O pensamento nisiano precisa,
portanto, ser estudado em suas várias dimensões e dentro das contradições do
século XIX, sem transformá-lo nem numa antecipação perfeita das ideias do
século XXI nem numa simples reprodução das correntes europeias.
Essa perspectiva é particularmente importante
quando se analisa a relação de Nísia com Auguste Comte. A amizade e a
aproximação intelectual entre ambos são fatos importantes da biografia da
escritora, mas não autorizam a redução de todo o pensamento nisiano ao
positivismo. Nísia já havia publicado Direitos
das mulheres e injustiça dos homens em
1832 e fundado o Colégio Augusto em 1838, portanto antes de seu contato mais
conhecido com Comte em Paris. Sua formação intelectual também revela a presença
de outras matrizes, entre elas a tradição ilustrada, o pensamento pedagógico, o
romantismo e as discussões sobre civilização. A leitura de Peggy Sharpe é
importante justamente porque procura situar Nísia dentro de um universo
intelectual mais amplo, no qual diferentes ideias eram recebidas, adaptadas e
reinterpretadas.
A recuperação de N´sia também exigia enfrentar o
problema da memória negativa que se construiu em torno de sua figura. Sua
independência pessoal, seu casamento muito precoce, sua separação do primeiro
marido, sua vida intelectual, suas viagens e sua exposição pública provocaram
críticas ainda durante sua existência. No século XIX, uma mulher que publicava
em jornais, dirigia uma escola, escrevia sobre política e educação e circulava
em ambientes intelectuais podia facilmente ser considerada transgressora. A
própria trajetória de Nísia mostra como a sociedade brasileira oitocentista
estabelecia limites rigorosos para o comportamento feminino. Sua decisão de
casar-se por espontaneidade, aos 13 anos, e romper com esse casamento em menos
de um ano,, adquiriu posteriormente uma dimensão escandalosa dentro de
determinadas memórias familiares e sociais, embora a historiografia
contemporânea tenha condições de analisar o episódio de maneira muito mais
cuidadosa do que fizeram seus críticos.
Nesse contexto aparece também Isabel Gondim,
nascida em Papary em 5 de julho de 1839 e falecida em Natal em 10 de junho de
1933. Professora, escritora e historiadora, Isabel pertenceu a uma geração
posterior à de Nísia e jamais conviveu pessoalmente com ela, pois nasceu 29
anos depois do nascimento de Nísia. Foi a primeira mulher a integrar o
Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte como sócia efetiva, em
1928, e desenvolveu uma produção própria dedicada à educação e à história.
Justamente por possuir essa autoridade intelectual, a carta que escreveu em
1884 sobre Nísia Floresta adquiriu posteriormente peso considerável na formação
da memória da escritora.
A carta de Isabel Gondim, entretanto, precisa
ser tratada pelo historiador com o devido cuidado. Ela é uma fonte histórica
importante, mas não deve ser confundida automaticamente com uma descrição
objetiva da vida de Nísia. O documento revela, antes de tudo, a maneira como
Isabel Gondim interpretava sua conterrânea e como determinados valores morais
do século XIX influenciavam a avaliação da conduta de uma mulher. As afirmações
depreciativas existentes na carta precisam ser confrontadas com outros
documentos, com os próprios escritos de Nísia, com jornais, correspondências e
testemunhos disponíveis. O problema historiográfico não está em esconder a
existência da carta, mas em compreender o lugar que ela ocupa na construção posterior
da memória nisiana. A carta de Isabel é considerada por todos os críticos como
fruto de ferenha inveja.
É justamente nesse ponto que a recuperação
crítica promovida por pesquisadores como Peggy Sharpe adquire especial
relevância. Em vez de tomar a biografia de Nísia apenas a partir das opiniões
de seus contemporâneos ou de seus críticos posteriores, o estudo moderno
procura devolver centralidade aos próprios textos da autora. Essa mudança
metodológica é fundamental. Quando o pesquisador lê Direitos das mulheres e injustiça dos homens, Opúsculo humanitário, A lágrima de um Caeté, Itinerário de uma viagem à
Alemanha, Três anos na Itália seguidos de uma viagem à Grécia e outras obras, encontra uma mulher muito mais complexa do
que aquela produzida pelas anedotas biográficas ou pelas acusações morais. É a
própria Nísia que passa a falar, e não apenas aqueles que escreveram sobre ela.
A dimensão internacional da obra também merece
atenção. Nísia não foi uma escritora confinada ao Brasil. Publicou em francês e
teve parte de sua produção editada na Europa, onde escreveu sobre suas
experiências de viagem e sobre o Brasil. Itinéraire
d’un voyage en Allemagne foi publicado em
Paris em 1857; Trois ans en Italie suivis
d’un voyage en Grèce, par une Brésilienne
apareceu em Paris na década de 1860; Le Brésil,
par Mme Brasileira Augusta foi publicado
em 1871; e Fragments d’un ouvrage
inédit: notes biographiques apareceu em
1878. Portanto, quando Peggy Sharpe promoveu a recuperação de Nísia para o
público acadêmico internacional no final do século XX, estava, em certo
sentido, reabrindo um diálogo que a própria escritora já havia estabelecido no
século XIX.
O problema é que a projeção internacional de
Nísia em vida não garantiu a permanência de sua memória. Com o passar das
décadas, suas obras deixaram de circular amplamente no Brasil e muitos de seus
textos tornaram-se raridades bibliográficas. Essa circunstância ajuda a
explicar o caráter quase paradoxal da trajetória nisiana: uma mulher que havia
publicado em Paris e dialogado com intelectuais europeus acabou,
posteriormente, sendo conhecida de maneira muito mais restrita em seu próprio
país. A recuperação editorial do final do século XX começou a modificar essa
situação. A publicação de Opúsculo humanitário em 1989 foi particularmente importante porque permitiu que
a obra retornasse ao debate educacional e feminista brasileiro. Estudos
posteriores confirmam que essa edição representou um marco na retomada dos
textos de Nísia e que novas edições de outras obras viriam nos anos seguintes.
O ano de 1989 possui ainda uma importância
especial no Rio Grande do Norte por causa do I Movimento Pró-Memória Nísia
Floresta, realizado no município que hoje leva o nome da escritora. A
participação de Peggy Sharpe nesse movimento estabeleceu uma ligação
particularmente significativa entre a pesquisadora estrangeira e a terra natal
de Nísia. Naquele momento, a recuperação da memória nisiana mobilizou
intelectuais, escritores, professores e agentes culturais do Estado. Entre os
nomes relacionados àquele movimento estavam Iaperi Araújo, Maria das Graças
Lucena de Medeiros e Zélia Mariz, entre outros. O evento contou também com o
apoio da administração municipal, então sob a gestão do prefeito Almir da Silva
Leite, por meio do professor Jorge Januário de Carvalho, cuja participação na
defesa da memória de Nísia foi importante naquele processo e em diverso outros.
Mais do que um acontecimento isolado, aquele movimento fazia parte de uma
tentativa de devolver à escritora um lugar mais visível na memória cultural do
Rio Grande do Norte.
É nesse mesmo ambiente de renovação dos estudos
que aparece com força o trabalho de Constância Lima Duarte. Sua trajetória
seria decisiva para a consolidação acadêmica dos estudos nisianos, sobretudo a
partir da década de 1990. A aproximação entre Peggy Sharpe e Constância é
particularmente significativa porque ambas contribuíram, por caminhos
diferentes, para a recuperação da produção intelectual de Nísia. A edição de Opúsculo humanitário de 1989
já reunia o estudo introdutório e as notas de Peggy Sharpe com um posfácio de
Constância Lima Duarte, demonstrando que naquele momento começava a se formar
uma rede de pesquisadores interessada em devolver à escritora seus próprios
textos e em interpretá-los à luz de novas perspectivas.
A partir de então, outras obras de Nísia
começaram a receber novas edições, estudos críticos e traduções. Direitos das mulheres e injustiça dos homens voltou a circular em edição crítica; Itinerário de uma viagem à Alemanha ganhou edição brasileira com tradução e estudo; Três anos na Itália, seguidos de uma viagem à Grécia foi publicado pela EDUFRN; e outras obras que durante
muito tempo permaneceram pouco acessíveis passaram a integrar o repertório de
pesquisadores e estudantes. Essa retomada editorial é importante porque
modifica profundamente a relação entre o pesquisador e a fonte. Em vez de
depender exclusivamente de biografias ou de citações fragmentárias, o leitor
passa a ter condições de entrar em contato diretamente com a escrita de Nísia e
acompanhar a evolução de seu pensamento.
Nesse processo, a contribuição de Peggy Sharpe
não deve ser superestimada a ponto de apagar os pesquisadores brasileiros
anteriores, mas também não deve ser diminuída. Seu mérito está justamente em
ter percebido o potencial de uma escritora que permanecia praticamente
desconhecida fora de determinados círculos especializados e em ter trabalhado
para colocá-la novamente em circulação. O fato de uma pesquisadora
norte-americana dedicar-se a uma autora brasileira do século XIX é
significativo porque revela que a questão ultrapassava a memória regional. Nísia
poderia ser lida dentro da história internacional das mulheres, da literatura
brasileira, dos estudos latino-americanos e da história da educação.
Essa mudança de perspectiva também ajudou a
retirar Nísia de uma espécie de folclorização biográfica. Durante muito tempo,
sua figura foi apresentada sobretudo por epis´dios considerados curiosos ou
escandalosos: o casamento precoce, a separação, as viagens, o contato com
Auguste Comte e as críticas que recebeu. Embora esses elementos façam parte de
sua trajetória e não devam ser ocultados, concentrar toda a narrativa neles
significa transformar uma intelectual em personagem. A leitura crítica de seus
textos permite outro caminho: compreender as razões pelas quais ela escreveu, o
contexto em que suas ideias surgiram, os autores com os quais dialogou, os
problemas que enfrentou e as limitações próprias de uma intelectual pertencente
às elites letradas do Brasil oitocentista.
Também é necessário evitar o anacronismo. Nísia
Floresta não pode ser simplesmente transformada numa pensadora do século XXI
transportada para o século XIX. Ela escreveu dentro dos valores, das linguagens
e das categorias disponíveis em sua época. Seu pensamento sobre as mulheres,
por exemplo, estava fortemente relacionado à educação, à moral, à maternidade,
à família e à ideia de progresso da sociedade. Sua crítica à escravidão e sua defesa
da dignidade humana devemser consideradas dentro de sua trajetória e de seu
tempo, assim como suas limitações. O interesse histórico está precisamente em
compreender o que ela conseguiu formular dentro das possibilidades de seu
período e como algumas de suas ideias ultrapassaram as expectativas sociais
existentes para uma mulher brasileira nascida em 1810.
Quando se observa a trajetória de Nísia a partir
dessa perspectiva, sua importância torna-se ainda mais evidente. Ela nasceu no
Brasil colonial apenas nove anos antes da Independência, viveu durante o
Primeiro Reinado, o período regencial e praticamente todo o Segundo Reinado, e
morreu três anos antes da Abolição da escravidão. Seu primeiro livro importante
sobre os direitos das mulheres apareceu em 1832, quando o Brasil ainda estava
sob o impacto da abdicação de D. Pedro I e vivia as turbulências da Regência.
Seu Colégio Augusto surgiu em 1838, durante a Regência, e seu Opúsculo humanitário foi
publicado em 1853, durante o reinado de D. Pedro II. Sua experiência europeia
levou-a a observar diretamente sociedades que ela comparava constantemente com
o Brasil. Nísia, portanto, não foi uma observadora distante do século XIX: ela
esteve profundamente inserida nas grandes transformações intelectuais, sociais
e culturais daquele período.
É exatamente essa dimensão que Peggy Sharpe
ajudou a revelar para novas gerações de leitores. Ao recuperar Opúsculo humanitário, ao
estudá-lo e ao situá-lo dentro da história da educação feminina, Sharpe
contribuiu para que Nísia fosse novamente lida como uma intelectual e não
apenas como uma personagem biográfica. A obra passou a interessar a
pesquisadores de literatura, educação, história das mulheres e pensamento
brasileiro. A recuperação editorial também permitiu que novas pesquisas
surgissem, que outros textos fossem procurados e que pesquisadores brasileiros,
entre eles Constância Lima Duarte, ampliassem o campo dos estudos nisianos.
Por isso, quando se fala na contribuição de
Peggy Sharpe Valadares, talvez seja mais correto falar em uma retomada do
diálogo internacional do que numa simples “descoberta” de Nísia Floresta. A
escritora já havia estabelecido esse diálogo no século XIX, quando publicou em
Paris, escreveu em francês, viajou pela Europa e apresentou aos leitores
estrangeiros suas observações sobre o Brasil. O que aconteceu no final do
século XX foi uma espécie de reabertura desse diálogo depois de décadas de
circulação limitada de seus livros. Peggy Sharpe participou decisivamente desse
processo, ao lado de outros pesquisadores que, em diferentes momentos,
contribuíram para reconstruir a trajetória intelectual da escritora.
A história da recuperação de Nísia Floresta,
portanto, não pertence a uma única pessoa. Henrique Castriciano preservou e
valorizou uma memória que poderia ter desaparecido; Adauto da Câmara organizou
uma das primeiras grandes sínteses biográficas; pesquisadores posteriores voltaram
às fontes e questionaram interpretações antigas; Peggy Sharpe devolveu parte
importante da obra ao circuito editorial e acadêmico; Constância Lima Duarte
aprofundou a pesquisa, organizou novas edições e contribuiu decisivamente para
a consolidação dos estudos nisianos. Outros pesquisadores, brasileiros e
estrangeiros, continuaram esse trabalho e ainda continuam. A própria pesquisa
histórica sobre Nísia permanece aberta, pois novos documentos, exemplares,
cartas, registros e testemunhos podem modificar detalhes de uma trajetória que,
apesar de bastante estudada atualmente, ainda possui zonas pouco conhecidas.
Há, por fim, uma circunstância que confere
particular significado a todo esse processo. Nísia Floresta nasceu em Papary,
numa época em que a localidade estava muito distante dos grandes centros
intelectuais do Império, mas terminou sua vida em Rouen, na França, depois de
ter construído uma trajetória intelectual que ultrapassou as fronteiras
brasileiras. Durante décadas, sua memória voltou a ser sobretudo regional,
enquanto seus livros se tornavam cada vez mais raros. O trabalho de
pesquisadores como Henrique Castriciano, Adauto da Câmara, Peggy Sharpe
Valadares e Constância Lima Duarte permitiu que essa trajetória fosse novamente
reconstruída e colocada diante de novos leitores. É nesse sentido que Peggy
Sharpe ocupa lugar especial na história dos estudos nisianos: ela não criou a
importância de Nísia Floresta, não foi a primeira a pesquisá-la e tampouco
trabalhou isoladamente, mas contribuiu decisivamente para que a obra de uma
intelectual brasileira do século XIX voltasse a ultrapassar as fronteiras que o
esquecimento editorial e historiográfico havia imposto.
Hoje, quando se lê Nísia Floresta a partir de
suas próprias obras, torna-se possível compreender melhor a dimensão de uma
mulher que começou a escrever ainda muito jovem, enfrentou as limitações
impostas às mulheres de seu tempo, dedicou-se à educação feminina, publicou em
jornais e livros, percorreu diferentes países, escreveu sobre a sociedade brasileira
e estabeleceu relações intelectuais com homens e mulheres de seu tempo. A
recuperação dessa obra não é apenas um cap´tulo da história literária
brasileira. É também parte da história da educação, da história das mulheres,
da história intelectual e da própria maneira como o Brasil passou a olhar para
suas escritoras. Nesse percurso, Peggy Sharpe Valadares teve um papel que
merece ser reconhecido com a devida proporção histórica: o de uma pesquisadora
que, ao estudar uma autora brasileira pouco conhecida fora de círculos
especializados, contribuiu para devolver a Nísia Floresta uma dimensão
internacional que, em vida, ela própria havia conquistado.
Referências
Obras e estudos diretamente relacionados a Nísia Floresta e
Peggy Sharpe-Valadares
FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens.
Tradução livre e adaptação de A Vindication
of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft. Recife: Typographia
Fidedigna, 1832.
FLORESTA, Nísia. Opúsculo humanitário. Edição atualizada,
com estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares; posfácio de
Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez; Brasília: INEP, 1989. A edição é
confirmada pelo catálogo da Biblioteca Nacional.
SHARPE-VALADARES,
Peggy. Nísia Floresta: Brazilian Feminist
Pioneer. Washington: University Press of America, 1994.
SHARPE-VALADARES,
Peggy. Opúsculo humanitário. Estudo
introdutório e notas. São Paulo: Cortez; Brasília: INEP, 1989.
SHARPE-VALADARES,
Peggy. A Woman's Thoughts on Brazil.
Tradução, organização e introdução. Austin: University of Texas Press, 1997.
SHARPE-VALADARES,
Peggy. “Nísia Floresta e o feminismo no Brasil oitocentista”. In: DUARTE,
Constância Lima (org.). Nísia Floresta:
vida e obra. Natal: EDUFRN, 1995.
SHARPE-VALADARES,
Peggy. “Travel Writing and Female Education in Nineteenth-Century Brazil: The
Thought of Nísia Floresta”. Luso-Brazilian
Review, Madison, v. 31, n. 2, p. 45-67, 1994.
DUARTE,
Constância Lima. Nísia Floresta: vida e
obra. Natal: EDUFRN, 1995.
CÂMARA, Adauto da. História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Irmãos
Pongetti, 1941.
PORTUGUESE
Newsletter: PN. [S. l.]: AATSP, Fall 2009. Disponível em:https://cdn.ymaws.com/www.aatsp.org/resource/resmgr/pn/PN_Fall2009web.pdf.
Acesso em: 12. mai. 2026.


