Li, antes de ontem uma manchete do jornal O Estado de S. Paulo - pasmem - afirmando que “ninguém vai chorar pelo Irã”, o que mais inquieta não é apenas a frase em si, mas o que ela revela: a tentativa de hierarquizar a dor humana. Como se houvesse povos dignos de luto e outros condenados à indiferença. Como se a compaixão pudesse ser seletiva, distribuída segundo conveniências políticas.
Não se trata de defender governos, tampouco de blindar regimes de críticas. Estados devem, sim, ser questionados. Mas há uma fronteira moral clara entre analisar decisões políticas e negar humanidade a uma população inteira. Quando bombas atingem escolas, hospitais e bairros residenciais, não estamos diante de abstrações ideológicas, estamos diante de crianças, idosos, trabalhadores, professores. Estamos diante de vidas interrompidas.
A simplificação dos conflitos internacionais facilita narrativas maniqueístas: de um lado, o “mundo civilizado”; do outro, o “inimigo”. Ao longo do século XX e neste início de século XXI, consolidou-se a ideia de que certas potências teriam a missão de “corrigir” ou “redirecionar” países considerados problemáticos. No entanto, por trás do discurso moralizante, repetem-se interesses estratégicos bastante concretos: rotas comerciais, influência geopolítica e, sobretudo, controle de recursos naturais: petróleo, gás, minérios raros.
A história recente é eloquente. As explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki aniquilaram populações civis. Dresden foi devastada sob o argumento da guerra total. O Vietnã ardeu por anos. O Iraque e o Afeganistão conheceram invasões que prometeram estabilidade e deixaram fragmentação. A Líbia mergulhou no colapso institucional. A Síria tornou-se palco de uma guerra prolongada. A Palestina segue vivendo uma tragédia contínua. Em muitos desses cenários, a promessa de libertação resultou em destruição, deslocamentos forçados e gerações traumatizadas. No caudal disso tudo, o ponto principal é matar os presidentes/líderes dos países que querem “salvar”.
Mais recentemente, por exemplo, a Venezuela também foi envolvida em discursos grandiosos. Durante o governo de Donald Trump, anunciou-se que haveria uma mudança que devolveria prosperidade ao país. O que se viu, porém, foi a intensificação de disputas em torno do petróleo venezuelano , riqueza cobiçada há décadas. E o que houve depois? Estão vendendo milhões de litros e colocando o dinheiro no bolso dos EUA. E os venezuelanos que se explodam. Enfim, a intenção verdadeira é saquear, enquanto tudo mais continua igual. Mudam-se as narrativas; persistem os interesses.
É nesse contexto que muitos líderes de países pressionados externamente endurecem o discurso e a postura. Transformam-se, aos olhos do mundo, em “leões”, em “monstros”. Rugem, tensionam, enfrentam sanções e isolamento. Tornam-se figuras odiadas no cenário internacional. Mas por quê? Em parte, porque compreendem que a fragilidade pode ser interpretada como convite à intervenção. Quando um país possui reservas estratégicas ou posição geopolítica relevante, a soberania passa a ser constantemente testada. Defender-se, ainda que com retórica áspera, torna-se uma estratégia de sobrevivência nacional.
Também é preciso dizer que parte da imprensa abandona o compromisso com a complexidade e passa a noticiar segundo filtros ideológicos rígidos. Há jornalistas que não informam: militam. Não contextualizam: selecionam. Não explicam as causas históricas, econômicas e estratégicas de um conflito; apenas reforçam rótulos já prontos, atendendo a lobbys de alguns estados e países. Vejam o holocausto na Palestina. Quem é o autor? Quando a notícia nasce contaminada por preferências políticas, os fatos são distorcidos, simplificados ou omitidos. O público deixa de receber análise e passa a consumir narrativa.
O Irã é uma das nações mais antigas do mundo, herdeiro de civilizações milenares que ajudaram a moldar os alicerces da cultura, da política e do conhecimento humanos. Berço de impérios, arte refinada e pensamento sofisticado, sua contribuição para a história da humanidade é imensa e, por isso, merece o respeito de todos. Se falam do Irã, por exemplo, raramente se dedicam a explicar por que seu líder supremo, Ali Khamenei, adotou uma postura considerada radical por muitos no cenário internacional. Pouco se discute que o país vive há décadas sob sanções econômicas severas, pressões diplomáticas e ameaças constantes. Nesse ambiente, o discurso de resistência torna-se parte da própria identidade política doo Estado. Pode-se discordar dos métodos e da ideologia; mas ignorar o contexto é empobrecer deliberadamente o debate.
Mesmo sob bloqueios econômicos rigorosos, o Irã desenvolveu setores estratégicos relevantes. Ampliou sua produção científica, tornou-se referência regional em áreas como engenharia, medicina e tecnologia nuclear para fins energéticos. Investiu em educação superior, com forte presença de mulheres nas universidades. Expandiu sua rede de atenção primária à saúde, elevou indicadores de expectativa de vida e consolidou infraestrutura em regiões antes negligenciadas. Esses dados não anulam problemas internos nem críticas legítimas, mas demonstram que a realidade é mais complexa do que a caricaturad de um Estado fracassado. Isso não significa absolver autoritarismos nem fechar os olhos para abusos internos. Significa reconhecer que, no tabuleiro global, há forças assimétricas. Superpotências têm histórico de agir com violência extrema quando seus interesses são ameaçados. A história demonstra que, quando riquezas estão em jogo, vidas humanas não importam.
Os EUA e Israel, por exemplo, falam do Irão como se fossem um Estado de terroristas. Vejam quem fala! A propósito, que nome devemos dar a quem promove o holocausto na Palestina? Outra: Por que um presidente envolvido nos horrores dos Arquivos de Epstein segue como o rei da cocada preta. Onde está o jornalismo-fato? Trump é a última pessoa do mundo a acusar alguém de terrorista e ditador, pois ele é um. Mas o que está faltando para que ele seja interceptado? Não é matando, sequestrando, depondo representantes de países que os calará. Pelo contrário, a cultura, a histórica e a política desses países cujos verdadeiros ditadores - como trump e genocida como Netanyahu - pensam que calam - não o fazem, porque são substituídos por outros. As plantas - regadas - dão frutos.
Falam do irã como se fosse terra de trogloditas. Ora, leiam, estudem. O Irã é terra de cultura milenar. Ofereceu ao mundo alguns dos mais luminosos nomes da poesia e das artes: versos universais como os de Rumi, Hafez e Ferdowsi atravessaram séculos celebrando amor, espiritualidade e identidade; na literatura contemporânea, vozes como Forough Farrokhzad e Sadegh Hedayat expandiram fronteiras estéticas e existenciais; nas artes visuais e cênicas, criadores como Abbas Kiarostami, também fotógrafo e poeta, e Shirin Neshat projetaram a sensibilidade iraniana no cinema, na fotografia e nas instalações, enquanto a tradição da pintura persa, com suas miniaturas delicadas e simbolismo refinado, permanece como um dos patrimônios artísticos mais sofisticados da humanidade. O Irã é um país a ser descoberto pelo Ocidente. O Opcidente deve arrancar as vendas que principalmente os EUA e Israel colocam nos olhos das pessoas.
Por isso, chorar pelo Irã não é endossar governantes. É afirmar que nehum povo merece ser reduzido a estatística descartável. É rejeitar a ideia de que certas mortes são “compreensíveis” ou “merecidas”. É lembrar que, por trás de cada manchete, há famílias, histórias, culturas milenares.
O maior risco talvez não seja apenas a guerra das armas, mas a guerra das palavras, aquela que nos anestesia. Quando um veículo de comunicação naturaliza a ausência de luto, ensina o leitor a não sentir. E uma sociedade que aprende a não sentir torna-se cúmplice silenciosa da barbárie.
Pois bem, eu chorarei pelo Irã como se chora por qualquer povo atingido pela violência. Chorarei pelas crianças, pelos professores, pelos civis que jamais escolheram estar no centro de disputas globais. Chorarei também por todos os lugares onde interesses estratégicos falaram mais alto que a vida humana. Porque, enquanto houver quem declare que ninguém chorará, haverá quem responda com humanidade. E eu respondo assim: eu chorarei, sim.
