INCIDENTE NO ÚBER
Ontem precisei usar um Uber. O motorista carregava uns 55 anos de idade. Mal entrei, ele descarregou suas desilusões com a igreja católica: “O senhor viu um vídeo absurdo que está rolando por aí? Um danado d’um padre enfiando política no altar da igreja! Olha, eu sou católico, mas estou desiludido com a minha igreja. E não virei ateu, nem estou pendendo para esses evangélicos mercenários, é desencanto com essa coisa de igreja”.
Ouvi surpreendido, afinal esperava a devida postura da parte daquele profissional. Apenas respondi que não havia assistido ao vídeo. Exerci função de pedra. Minha mãe diz que algumas coisas a gente apenas ouve, imita as pedras que ouvem tudo quietinhas, ou age monossilabicamente. Foi o meu caso! Não sei em qual alfarrábio ela leu isso. Funciona!
Pois que bem. O uberista esculhambou o padre com um discurso mais ou menos assim: “não tem nada a ver um padre, que deveria estar fazendo uma homilia voltada para o evangelho, criando rancor, falando com ódio no coração, dividindo a igreja, onde tem pessoas de todos os partidos... ele deve sentir inveja do prestígio do mito... blá, blá, blá, blá, blá...”
Falei: “pois é!”
Então ele continuou:, ou melhor, falava como cano furado:
“O danado do padre teve o desplante de dizer que o povo deveria se confessar com ele, pois quem votou em Bolsonaro cometeu um grande pecado, blá, blá, blá, blá, blá...”
E eu ali, sereno como uma barata noturna, vendo a cidade passar a sessenta minutos por hora, de vez em quando interagia mais ou menos assim “Hãm”. Era a minha conversa com o cidadão.
E entre muitos “hãm”, o homem seguiu patenteando a sua sentença:
“O povo critica Bolsonaro, mas aquilo é uma riqueza para o Brasil. É o presidente que faltava. E agora inventaram de caningá-lo com essa história de que ele está com COVID19. Essa doença é uma invenção da China, coisa de comunistas safados, terroristas... blá, blá, blá, blá...”
O homem sua hostilidade. Percebi que se externasse a minha opinião, ele pararia o carro e me expulsaria sem reservas. Estava claro. Sem contar que se o meu sangue não fosse parecido com o das “blattodeas” (usei isso para não repetir o nome de fantasia do bichinho de antenas!), teria pedido que ele encerrasse a viagem na primeira esquina.
Saibam, pois que eventualmente uso Uber. Já estive com um motorista que não disse uma palavra no curso de vinte e cinco quilômetros. Encontrei um que passou a viagem contando fatos passados entre ele e passageiros. Coisas engraçadas, estranhas... Um, evangélico, quis que eu aceitasse a “salvação” sobre quatro rodas... outro, falava o essencial... Com todos agi com a devida civilidade. Mas um bolsonarista bravejando o seu posicionamento político-partidário, vomitando interpretações insanas e equivocadas, verbalizando desenfreadamente, foi o primeiro. Incidente que não desejo a ninguém. Indigesto demais. Havia muita agressividade. Aquele cidadão não pensaria duas vezes em agredir alguém num desses movimentos de rua. E são muitos iguais a ele.
Entendo que pessoas autônomas, que lidam com o público, não deveriam agir assim, seja de que partido for, pois incomodam e afastam clientes. É tão óbvio que opinião político-partidária, time de futebol e religião são temas tão propensos a causar mal-estar e contenda, que percebi que a insistência daquele cidadão revelava o seu desequilíbrio. Diante dessas pessoas a gente age como conversando com bebês... Fiz quase isso.
Contando essa experiência a um amigo, fui orientado a entrar em contato com a empresa Uber e registrar o fato. Jamais! Sempre recuei quando o assunto é prejudicar os outros. N’outra oportunidade ele encontra uma pessoa igual a ele, ou sem sangue de barata. Aí a coisa poderá tomar rumo nada civilizado. E pergunto “para quê?” Na realidade, ando percebendo que muitas pessoas estão revoltadas com o presidente, mas por orgulho não assumem. É tão fácil admitir “eu votei num incompetente e desequilibrado” e mudar. Mas essas pessoas não tem essa decência. São raros. Esse do Uber não era dos arrependidos.
Só sei que no caudal da falação daquele homem, a frase mais longa que usei foi essa: “nem todos são iguais. Ainda existem padres e pastores detentores daquela santidade de que fala a Bíblia. É como achar uma pepita em serra pelada, mas existe, o senhor pode ter certeza”. E ele concordou!
Essa experiência reforça em mim a velha compreensão de que o Brasil é um país atrasadíssimo. Isso e outras coisas refletem fatores educacionais e culturais antigos, super deficientes. É grande o número de cidadãos que se encaixam no perfil quem não lê, ou que não interpreta a história e os fatos. São os famosos analfabetos funcionais. E isso tem gerado uma sociedade assustadoramente equivocada, provinciana, atrasada, que dá carta branca a quem não tem a mínima condição de recebê-la. A política partidária é o maior exemplo disso. Faça uma análise a partir dos vereadores, prefeitos de sua cidade. Observe suas condutas, sua competência intelectual, enfim. Ele te representa? Representa algo diferente e conseguiu algo novo e melhor para a sua cidade? Dê uma analisada nos deputados e senadores que você votou. Há exceções, afinal alguém tem que prestar na história. Mas são raríssimas! E o Presidente da República endeusado pelo motorista do Uber faz parte da categoria desclassificada e despreparada de quase todos os políticos do Brasil. Verdadeiros mambembes!
Esse perfil de eleitor chama o Presidente da República de “mito”. O tempo modifica ou amplia o significado de algumas palavras, mas o vocábulo mito permanece intacto nos léxicos. Eles sequer sabem o que é um mito. Os mitos verdadeiros se remexem no túmulo, ultrajados.
Vejam quem é o mito que governa o Brasil: o “mito” que, no passado, quando militar, se organizou para explodir com dinamite o prédio das agulhas negras, os armazéns do Exército e uma adutora no Rio de Janeiro. Um “mito” que toda investigação que o envolve junto com os filhos termina em milicianos. Um “mito” que passou por quatro casamentos, e mesmo casado com a Michele, fala ao Brasil inteiro que usava o dinheiro de Deputado Federal para comer gente, um “mito” que deseja a morte a uma pessoa que sofre as agruras de um câncer, debocha de um vírus que já matou setenta mil pessoas. Um “mito” que montou a indústria de Fake News responsável para elegê-lo.
Foi esse o “mito” que o motorista do Uber tentou me vender.
Ao chegar em casa localizei o vídeo que desviou o motorista do catolicismo. Até imaginei que poderia ser desses padres mais ríspidos na fala. Mas vi um homem muito sereno e falando coisas muito sérias. Ele expõe que algumas pessoas não haviam gostado do que ele vinha falando. E perguntou o que deveria falar, e o que Deus nos pede para falar, que tipo de profecia deveria fazer? Encerra dizendo que Bolsonaro não presta, não vale nada, e que quem o elegeu deveria pedir perdão e se confessar a Deus porque elegeu um bandido pra presidência.
Ouvindo aquilo lembrei-me de uma orientação antiga. Segundo os mistérios do altar (para os padres), e dos púlpitos (para os pastores), quando eles estão na homilia (os padres), ou pregando (os pastores), é Deus falando. Deus estaria errado ou é mentira essa orientação? Se eu estiver errado, que me corrijam. Com a palavra a Cúpula da Igreja Católica. Mas, confesso... também me lembrei de Jesus. Um dia Ele esculhambou os vendilhões num templo. Jesus andava com os desvalidos. Se Jesus aparecesse hoje, andaria cercado de drogados, mendigos, marginalizados. O próprio Jesus seria apedrejado pela maioria, inclusive por gente de igreja, salvas as exceções. Bem... mas isso é outro assunto...
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