Em 25 de outubro de 1927, entrou em vigor no Rio Grande do Norte a Lei nº 660, que regulamentava o serviço eleitoral no estado. O texto legal estabelecia algo revolucionário para a época: o fim da “distinção de sexo” para o exercício do voto. Em um Brasil ainda profundamente conservador, onde as mulheres eram afastadas da vida pública e política, o legislador potiguar abriu caminho para uma transformação nacional.
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| Celina com o filho Pedro Viana |
Nada disso ocorreu por acaso. Décadas antes, o solo potiguar já havia produzido uma das maiores intelectuais do século XIX: Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810–1885). Escritora, educadora e pioneira do pensamento feminista no Brasil, Nísia defendia a educação feminina, a igualdade intelectual entre homens e mulheres e a participação da mulher na sociedade. O ambiente cultural criado por sua obra ajudou a formar uma mentalidade progressista que floresceria politicamente no início do século XX.
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| Bertha Lutz, Juvenal Lamartine ao lado de feministas. Macaíba, 1928. |
Assim, no mesmo ano de 1928, o Rio Grande do Norte protagonizou dois marcos simultâneos da história brasileira: oficializou a primeira mulher eleitora e elegeu a primeira prefeita do país, e também da América Latina, Alzira Soriano, escolhida para governar o município de Lajes. Sua vitória simbolizou não apenas um triunfo local, mas uma ruptura histórica na política latino-americana, demonstrando que a participação feminina nos espaços de poder era possível.
Enquanto o Rio Grande do Norte vivia esses avanços, o reconhecimento nacional do voto feminino só ocorreria anos depois. Em 1932, o novo Código Eleitoral brasileiro finalmente reconheceu oficialmente o direito das mulheres ao voto, conquista incorporada à Constituição de 1934 e tornada obrigatória apenas em 1965. O Dia da Conquista do Voto Feminino, celebrado em 24 de fevereiro e instituído pela Lei nº 13.086/2015, recorda essa trajetória histórica e reforça o papel pioneiro do estado potiguar nesse processo.
O pioneirismo do Rio Grande do Norte manifesta-se também em outras áreas da vida social e cultural. Há mais de oito décadas, a natalense Lucy Garcia já pilotava aeronaves, obtendo seu brevet em 1942. Naquele mesmo ano, realizou voos rasantes sobre Natal, causando espanto na população, não pela máquina aérea — mas pelo fato de ser conduzida por uma mulher, em um tempo em que a aviação ainda era território predominantemente masculino.
A relação precoce de Natal e Parnamirim com a aviação também ajudou a alimentar sonhos femininos. Em 1937, a célebre aviadora norte-americana Amelia Earhert decolou da capital potiguar durante sua tentativa de volta ao mundo, causando enorme admiração popular. É provável que jovens potiguares, como Lucy Garcia, tenham encontrado inspiração naquele espetáculo de coragem e modernidade.
O espírito pioneiro feminino no estado remonta ainda a 1920, quando o futebol sequer havia se consolidado como paixão nacional. Naquele ano ocorreu, em Natal, uma partida entre o “Team” feminino do ABC Futebol Clube e o Centro Esportivo Natalense, realizada no sítio Senegal, residência do coronel Joaquim Manoel Teixeira de Moura, área onde hoje funciona o 16º Batalhão de Infantaria Motorizada, no Tirol. O evento ganhou repercussão em revistas de circulação nacional, revelando mulheres ocupando espaços esportivos muito antes de o país discutir oficialmente o futebol feminino.
O conjunto desses acontecimentos demonstra que o voto feminino no Brasil não nasceu apenas de uma decisão jurídica nacional em 1932. Ele foi preparado por uma sucessão de gestos corajosos, ideias progressistas e experiências pioneiras que encontraram no Rio Grande do Norte terreno fértil para florescer.
É assim a história: aquilo que vemos, ouvimos ou lemos pode tornar-se o estalo de uma transformação profunda. O exemplo das mulheres potiguares, educadoras, políticas, aviadoras, esportistas e intelectuais, prova que grandes conquistas nacionais frequentemente começam em lugares onde alguém ousa dar o primeiro passo. O Rio Grande do Norte deu esse passo, e mudou a história do Brasil.




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